"Inclusão Universitária"

Em evento promovido pela Folha de S. Paulo, que reuniu especialistas com propostas para facilitar acesso de aluno da rede pública à universidade, relata-se o seguinte (Vide Folha de S. Paulo, 15 de maio de 2005, sob o título "Ministério e USP propõem reforço a excluído". (Curioso que sejam "Ministério e USP" – e, como se vai ver, vários dos participantes, como o novo Reitor da UNICAMP, José Tadeu Jorge, que será a seguir citado, nada têm que ver com um ou com a outra).

Eis o que relata a Folha:

"Um dado apresentado pelo reitor da Unicamp é, nas palavras dele próprio, ‘sintomático da necessidade de se produzir medidas visando a inclusão social’: segundo o Censo 2003 (levantamento realizado pelo MEC), 1,6% dos jovens de 18 a 24 anos que estão em cursos de nível superior pertencem aos 57,3% da população que tem renda per capita familiar abaixo do salário mínimo. ‘Esse dado mostra uma inversão completa’, afirmou o reitor."

Concedo o fato mencionado: que "1,6% dos jovens de 18 a 24 anos que estão em cursos de nível superior pertencem aos 57,3% da população que tem renda per capita familiar abaixo do salário mínimo."

A conclusão evidente a tirar desse dado é que a população que tem renda per capita familiar abaixo do salário mínimo está tremendamente sub- representada nos cursos superiores.

Essa conclusão, entretanto, não surpreende ninguém. Quem trabalha na UNICAMP, como eu, conhece, sem necessidade das estatísticas (atrasadas) do MEC, uma verdade que o reitor da UNICAMP omitiu, a saber, que percentual da população que tem renda per capita familiar abaixo do salário mínimo que freqüenta a UNICAMP é perto de zero, se não for um zero redondinho.

O que surpreende, além da omissão do reitor da UNICAMP, é a sua conclusão, de que o dado levantado pelo MEC "mostra uma inversão completa".

O atual reitor da UNICAMP não é um lingüista e um poeta, como era um reitor anterior, Carlos Vogt. É engenheiro de alimentos. Mas confesso que seu uso da linguagem me deixa perplexo. O que seria "uma inversão" completa do dado de que "1,6% dos jovens de 18 a 24 anos que estão em cursos de nível superior pertencem aos 57,3% da população que tem renda per capita familiar abaixo do salário mínimo"??? O que deve ser completamente invertido? O percentual? A faixa etária? A permanência nos cursos de nível superior? O percentual da população que tem renda familiar abaixo do salário mínimo?

Estaria o reitor da UNICAMP porventura sugerindo que o mais justo seria que os jovens de 18 a 24 anos oriundos de famílias que têm renda per capita abaixo do salário mínimo deveriam ser a maioria na universidade, só em decorrência desse dado econômico, sem levar em conta o mérito (capacidade + esforço) ou o desempenho nos processos seletivos???

Estaria o reitor da UNICAMP porventura sugerindo que às universidades tivessem acesso "os que dele precisam" (em sua modesta opinião), em vez de "os que têm mérito e desempenho" para estar lá??? (Seria esta uma versão acadêmica do "a cada um segundo a sua necessidade?)

Estaria o reitor da UNICAMP porventura sugerindo a existência de um critério econômico invertido para acesso à universidade, a saber, quem ganha menos, entra, quem ganha mais, fica de fora, independentemente de seu mérito e desempenho, seja no processo seletivo, seja na escolaridade precedente??? (Note-se que o reitor não estava falando que a inversão existe na universidade pública, mas, sim, nos "cursos de nível superior" como tais.)

O reitor da USP parece sugerir um caminho diferente. Eis o que diz a matéria da Folha:

"Para esta última, o reitor da USP afirmou que a universidade pensa em dar reforço escolar a estudantes que ele classificou como ‘talentos’. A escolha seria feita por meio de ‘critério objetivos’, como o desempenho no Saresp (exame aplicado pela Secretaria Estadual de Educação). ‘É uma idéia. Com o reforço, [podemos] possibilitar a entrada desse aluno na universidade’, disse Melfi."

É – é uma idéia.

A USP, pelo jeito, vai começar a ministrar ensino básico – pelo menos um reforço — para alunos que ela considera "talentos". O reitor não esclarece se o reforço seria dado antes do processo seletivo ou depois. Se antes, a Universidade estaria realmente se enveredando pelo ensino básico.

Se depois, a Universidade estaria comprometendo consideráveis recursos de seu já comprometido orçamento para "recuperar" alunos supostamente talentosos, mas mal-preparados pela escola pública…

O MEC também tem "sua idéia":

"Idéia parecida vem sendo aplicada pelo MEC, em um dos programas do Diversidade na Universidade. Henriques contou que, desde o começo do ano, 700 alunos das três séries do ensino médio público de todo o país vêm recebendo uma tutoria [acompanhamento de um professor]. A escolha dos estudantes foi aleatória. No mesmo programa, 29 cursos pré-vestibulares estão recebendo financiamento."

Aí vai: a tutoria é dada por professor das universidades federais? O mesmo argumento usado no caso da USP se aplica, só que num quadro piorado, pois a escolha dos estudantes aqui é "aleatória"… Pelo jeito o MEC não quer nem de longe ser acusado de favorecer talentos: prefere favorecer mediocridades aleatoriamente escolhidas…

Além disso, o MEC pelo jeito está agora financiando cursos pré- vestibulares (dos quais, que eu saiba, não há nenhum estatal).

Já o Secretário Estadual de Ciência e Tecnologia de São Paulo tem "outra idéia":

"Já o secretário estadual de ciência e tecnologia enfatizou a necessidade de diversificação do sistema superior, hoje baseado em universidades. ‘Há alunos que não têm vocação para formação acadêmica, mas precisam trabalhar’, disse Meirelles."

Tudo bem, secretário: a questão, caso o senhor não tenha percebido, não é quem precisa trabalhar: é quem deve entrar na Universidade. Nada proíbe alguém de trabalhar sem curso superior. Para fazer curso superior exige-se um mínimo de talento e competência.

Mais uma observação interessante, agora de João Carlos Meirelles (Secretaria Estadual de Ciência, Tecnologia, Desenvolvimento Econômico e Turismo)

"No Brasil, deveríamos pensar que a universidade não é o único caminho para o jovem. Os países desenvolvidos têm metade de seus jovens nas universidades e metade em escolas técnicas e faculdades de tecnologia.

Criamos um viés cultural que o diploma superior é a salvação. Em 2003, enquanto tínhamos 1,037 milhão [de alunos] na faculdade convencional [em São Paulo], havia 23 mil nas nossas faculdades de tecnologia, as Fatecs. E o ensino tecnológico é aquele que tem a agilidade de acompanhar as demandas do mercado, com grau de excelência. Nas escolas técnicas de 2º grau foram 80 mil. Veja o absurdo: 1,037 milhão de jovens na academia [ensino superior] e 100 mil nas escolas e faculdades técnicas. É um contraditório inaceitável no país. Em São Paulo, um estudante na escola técnica custa R$ 2.000; nas faculdades de tecnologia, R$ 3.000; nas universidades [USP, Unicamp e Unesp], sem o custo da pesquisa, R$ 8.000.

Precisamos pensar com mais humildade o futuro da nossa juventude."

Para o secretário, o problema é meramente econômico. Mérito, ou merecimento, não entra na equação.

Agora, a grande obviedade do dia foi dita pelo Secretário para Inclusão Social do Ministério da Ciência e Tecnologia:

"O secretário para Inclusão Social do Ministério da Ciência e Tecnologia, por sua vez, defendeu a extensão universitária. ‘A grande virtude da extensão é que ela pode promover a inclusão social para aqueles que estão fora do ensino superior’, disse Rollemberg."

Nossa, como é que eu pude, em 35 anos de magistério universitário, nunca ter descoberto isso???

[Os debatedores no encontro, segundo a Folha, foram: "o reitor da USP, Adolpho José Melfi; o reitor da Unicamp, José Tadeu Jorge; o secretário para Inclusão Social do Ministério da Ciência e Tecnologia, Rodrigo Rollemberg; o secretário de Educação Continuada, Alfabetização e Diversidade do Ministério da Educação (MEC), Ricardo Henriques; e o secretário estadual de Ciência, Tecnologia, Desenvolvimento Econômico e Turismo, João Carlos de Souza Meirelles. A mediação ficou a cargo do jornalista Gilberto Dimenstein, integrante do Conselho Editorial da Folha."]

Em Campinas, 15 de maio de 2005

[Abaixo, a matéria completa da Folha]

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Folha de S. Paulo
15 de maio de 2005

EDUCAÇÃO

Evento promovido pela Folha reuniu especialistas com propostas para facilitar acesso de aluno da rede pública à universidade

Ministério e USP propõem reforço a excluído DA REPORTAGEM LOCAL

Reforço escolar para alunos da rede pública como forma de inclusão social.

Essa foi uma das propostas do Ministério da Educação e da USP apresentadas em debate promovido pela Folha.

O evento, chamado de "Ensino superior e inclusão social", ocorreu na última quarta-feira.

Os debatedores foram o reitor da USP, Adolpho José Melfi; o reitor da Unicamp, José Tadeu Jorge; o secretário para Inclusão Social do Ministério da Ciência e Tecnologia, Rodrigo Rollemberg; o secretário de Educação Continuada, Alfabetização e Diversidade do Ministério da Educação (MEC), Ricardo Henriques; e o secretário estadual de Ciência, Tecnologia, Desenvolvimento Econômico e Turismo, João Carlos de Souza Meirelles. A mediação ficou a cargo do jornalista Gilberto Dimenstein, integrante do Conselho Editorial da Folha.

Um dado apresentado pelo reitor da Unicamp é, nas palavras dele próprio, "sintomático da necessidade de se produzir medidas visando a inclusão social": segundo o Censo 2003 (levantamento realizado pelo MEC), 1,6% dos jovens de 18 a 24 anos que estão em cursos de nível superior pertencem aos 57,3% da população que tem renda per capita familiar abaixo do salário mínimo. "Esse dado mostra uma inversão completa", afirmou o reitor.

Para solucionar o problema, algumas propostas tiveram apoio de todos os integrantes da mesa. Algumas delas estão relacionadas à melhoria do ensino básico público, com qualificação de professores e de alunos. Para esta última, o reitor da USP afirmou que a universidade pensa em dar reforço escolar a estudantes que ele classificou como "talentos".

A escolha seria feita por meio de "critério objetivos", como o desempenho no Saresp (exame aplicado pela Secretaria Estadual de Educação). "É uma idéia. Com o reforço, [podemos] possibilitar a entrada desse aluno na universidade", disse Melfi.

Idéia parecida vem sendo aplicada pelo MEC, em um dos programas do Diversidade na Universidade. Henriques contou que, desde o começo do ano, 700 alunos das três séries do ensino médio público de todo o país vêm recebendo uma tutoria [acompanhamento de um professor]. A escolha dos estudantes foi aleatória.

No mesmo programa, 29 cursos pré-vestibulares estão recebendo financiamento. Os resultados dos dois projetos servirão como base para criação de políticas "de massa", que buscarão aumentar o número de estudantes da rede pública no ensino superior.

Enquanto alguns temas receberam apoio de todos os debatedores, a proposta de reserva de vagas dividiu os especialistas. Os integrantes do governo federal defenderam a proposta que consta no anteprojeto de reforma universitária, que reserva 50% das vagas nas universidades federais a alunos do ensino médio público. Os reitores da USP e da Unicamp se mostraram contrários à idéia.

Já o secretário estadual de ciência e tecnologia enfatizou a necessidade de diversificação do sistema superior, hoje baseado em universidades. "Há alunos que não têm vocação para formação acadêmica, mas precisam trabalhar", disse Meirelles.

O secretário para Inclusão Social do Ministério da Ciência e Tecnologia, por sua vez, defendeu a extensão universitária. "A grande virtude da extensão é que ela pode promover a inclusão social para aqueles que estão fora do ensino superior", disse Rollemberg. (FÁBIO TAKAHASHI)

Leia abaixo as opiniões a respeito dos principais temas abordados no debate.

COTAS

Adolpho José Melfi (USP)

"Em vez das cotas, o governo poderia definir uma meta. Por exemplo, termos 50% dos alunos na universidade vindos da escola pública. Isso foi feito no sistema universitário paulista, em que deveríamos ter 33% dos alunos matriculados em cursos noturnos. Foi deixado que as universidades criassem seus mecanismos, seja com a criação de novos cursos, seja com a criação de vagas em cursos já existentes. Nós atingimos e ultrapassamos a meta."

José Tadeu Jorge (Unicamp)

"A questão das cotas incomodou a Unicamp. A universidade não poderia aceitar essa forma sem discussão. Buscamos alternativas. Com base em estudos dos últimos sete anos, notamos que [comparando] dois alunos, aprovados com a mesma nota no vestibular, no mesmo curso, o da escola [média] pública chegava ao final do curso com um desempenho consideravelmente melhor. Portanto, se fizéssemos o caminho inverso, ou seja, partindo do final do curso para o vestibular, vimos que muitos alunos da escola pública que não foram aprovados teriam condições de chegar ao final do curso no mesmo nível [que o do ensino médio privado].

Por isso, decidimos dar um bônus no vestibular para os alunos da rede pública. Os resultados: 28% dos ingressantes provinham de escola pública em 2004. Neste ano, com essa metodologia, subiu para 34,1%. No curso de medicina, o número de alunos provenientes de escola pública aumentou 240%."

Rodrigo Rollemberg (Ministério da Ciência e Tecnologia) "Consideramos que é um avanço a proposta do anteprojeto de reforma universitária, embora tenhamos muito claro que o sistema de cotas vai promover uma inclusão que tem um limite bem delineado, porque ainda temos uma parcela muito grande da população que não concluiu o ensino médio e, portanto, não está apto a entrar na universidade."

Ricardo Henriques (MEC)

"A proposta assegura uma vinculação republicana entre ensino médio e universidade."

DIVERSIFICAÇÃO

Adolpho José Melfi

"Temos no Brasil um modelo de universidade de pesquisa, que é caro e não pode suportar um número muito grande de alunos. O maior problema no que diz respeito à inclusão é o modelo adotado. A saída é a criação de outros tipos de ensino superior, que poderiam atender a um número muito maior de alunos."

João Carlos Meirelles (Secretaria Estadual de Ciência, Tecnologia, Desenvolvimento Econômico e Turismo)

"No Brasil, deveríamos pensar que a universidade não é o único caminho para o jovem. Os países desenvolvidos têm metade de seus jovens nas universidades e metade em escolas técnicas e faculdades de tecnologia.

Criamos um viés cultural que o diploma superior é a salvação. Em 2003, enquanto tínhamos 1,037 milhão [de alunos] na faculdade convencional [em São Paulo], havia 23 mil nas nossas faculdades de tecnologia, as Fatecs. E o ensino tecnológico é aquele que tem a agilidade de acompanhar as demandas do mercado, com grau de excelência. Nas escolas técnicas de 2º grau foram 80 mil. Veja o absurdo: 1,037 milhão de jovens na academia [ensino superior] e 100 mil nas escolas e faculdades técnicas. É um contraditório inaceitável no país. Em São Paulo, um estudante na escola técnica custa R$ 2.000; nas faculdades de tecnologia, R$ 3.000; nas universidades [USP, Unicamp e Unesp], sem o custo da pesquisa, R$ 8.000.

Precisamos pensar com mais humildade o futuro da nossa juventude."

REGIONALIZAÇÃO

Adolpho José Melfi

"Enquanto na USP temos 28% de alunos de escola pública, na USP Leste [novo campus, na zona leste] temos 47%. O número de inscritos da zona leste não chegava a 4% no nosso vestibular. A questão "distância" é importante."

Rodrigo Rollemberg

"É importante o processo de regionalização e de interiorização da universidade. Os cursos devem estar focados nas necessidades regionais.

Com isso, passa-se a prestar serviços antes inexistentes nessas comunidades, o que contribui para a qualidade de vida."

Ricardo Henriques

"A expansão tem de estar derivada de programas que contemplem a relevância social e territorial, com conteúdos temáticos, que tenham a ver com aquela realidade."

AMPLIAÇÃO DE VAGAS

Adolpho José Melfi

"Para 9.000 vagas neste ano [no vestibular da USP], apareceram 140 mil candidatos. A expansão é fundamental. E o curso noturno é extremamente importante para inclusão social."

José Tadeu Jorge

"Fazemos inclusão quando criamos vagas na graduação, tornando mais fácil o acesso à universidade. Nos últimos cinco anos, houve um aumento de 900 vagas. Fazemos inclusão especialmente nos cursos noturnos."

João Carlos Meirelles

"A prioridade é o ensino técnico e tecnológico. Estamos hoje com 18 faculdades de tecnologia. Há quatro anos, eram nove. E vamos criar mais 30 escolas técnicas."

Transcrito em Campinas, 15 de maio de 2005

O "Liberalismo" e a "Justiça" de John Rawls

John Rawls é considerado por muitos o grande expoente do liberalismo atual e um grande defensor da justiça. Na verdade, tem dois livros famosos, um sobre justiça e outro sobre liberalismo.  

Mas a verdade é que nem Rawls é liberal (no sentido clássico), nem a justiça que ele propõe é justiça (no sentido clássico). Ele inova, propondo sentidos novos para os conceitos de liberdade e de justiça. Em suma: Rawls é, na minha opinião, uma fraude (do ponto de vista do Liberalismo Clássico e da Teoria Clássica da Justiça).

Rawls só pode ser chamado de liberal no sentido que os americanos dão ao termo, sentido esse que é oposto ao sentido original do termo “liberal”. Liberal, no sentido americano, é quem é social-democrata, na fala comum. Esse “liberal americano”, ou social-democrata, chegando perto de socialista, reinterpreta o conceito básico doo Liberalismo, que é o conceito de Liberdade. Para ele, a Liberdade não deve ser interpretada apenas em um sentido negativo, como ausência de coação para fazer ou deixar de fazer algo: ela deve incluir, também, um sentido positivo, que envolve dar condições de toda ordem ao indivíduo para que ele possa efetivamente vir a exercer e desfrutar sua liberdade. 

Quanto à suposta justiça que Rawls defende, basta dizer que, para expressar o que ele pensa é suficiente enunciar uma tese dele, a saber, que as únicas desigualdades que podem ser consideradas justas e justificadas são aquelas das quais podemos esperar que operem em benefício daqueles que estão em situação pior. As desigualdades que beneficiam os que estão em situação melhor são, segundo ele, injustas e injustificadas – ainda que elas sejam decorrentes do mérito (capacidade + esforço) dessas pessoas.

“A pessoa talentosa”, diz Rawls, “não fez por merecer (‘earned’) nada, seja lá quem ela for: ela só pode se beneficiar de sua sorte (‘fortune’) se vier também a beneficiar aqueles que saíram perdendo”.

Que uns nasçam com talentos e outros não, ou que uns nasçam com muitos talentos, e outros com poucos, parece ser, para Rawls, uma “injustiça natural”, que teria de ser compensada por uma “justiça social“, que inverte os benefícios naturalmente concedidos. Segundo essa justiça social, quem é talentoso (tem habilidades) e competente (além da posse das habilidades, é motivado e se esforça) não tem direito aos frutos de seu talento e de sua competência: só os sem talento e incompetentes é que têm direito aos frutos dos talentos dos competentes. Os sem talento e incompetentes devem se beneficiar daquilo que não conseguem alcançar, mas os talentosos e competentes são privados dos benefícios até mesmo daquilo que conseguem realizar.

Rawls nega à pessoa talentosa e competente o direito de se beneficiar de seus talentos e competências: dela vêm as habilidades e o esforço, mas os frutos dessa habilidade irão para os outros, em atendimento às suas necessidades…  

Isso não é justiça: é travesti de justiça.

Para se ter idéia das deturpações que uma tese como essa gera, basta lembrar dois fatos:

a) Na década de 70 um ganhador do Prêmio Nobel em Economia, Jan Tinbergen, da Holanda, propôs, numa conferência internacional em Nova York, que se criasse “um imposto sobre a capacidade pessoal dos indivíduos“;

b) Em artigo publicado no New York Times de 20/1/73, sob o título de “A Nova Desigualdade”, Peregrine Worsthorne declara que, da mesma forma que considerávamos injusto que alguém recebesse um maior quinhão de riquezas apenas porque era filho de um nobre, devemos também considerar injusto que alguém, hoje, receba um maior quinhão de riquezas por ter nascido com maior capacidade, ou ter desenvolvido melhor suas capacidades, ou por ter mais motivação ou ter nascido em ambiente propício.

É isso.

O conceito clássico (e verdadeiramente liberal) de justiça é aquele, segundo o qual justo é cada um poder receber e manter aquilo a que ele fez jus, aquilo que lhe é de direito (de jure) — e, portanto, aquilo que lhe é devido. 

Qualquer coisa diferente é “newspeak“, é tentativa de usar o próprio conceito de justiça para tentar justificar o injusto — no fundo, a expropriação e o roubo (ainda que por meios legais).

Em Campinas, 15 de maio de 2005

Mercado, mercadorias e a distribuição de riquezas

1) O Mercado

O que chamamos de mercado é uma abstração. O termo "mercado" é simplesmente uma forma conveniente de se referir ao conjunto de nossas relações de venda-e-compra e de troca de bens e serviços. Ninguém que viva em sociedade está fora do mercado: sempre pode vender, querendo, pelo menos o seu serviço.

Assim, o mercado (como disse na mensagem "O valor do trabalho – 2) somos todos nós que vendemos, compramos, ou trocamos bens e serviços. O mercado é você, quando você contrata uma empregada doméstica, ou uma diarista, ou alguém para cortar a grama do seu jardim ou limpar a fossa de sua casa. O mercado é você quando você compra comida e roupa (em vez de fabricá-las, a partir do zero). O mercado é você quando compra gêneros alimentícios ou tecidos para fabricar sua comida e roupa. O mercado é você, quando compra jornal, revista, livro, disco. O mercado é você, quando você assiste a um filme, a uma peça de teatro, a um concerto (ainda que gratuitamente, sem pagar nada). O mercado é você, quando você coloca os seus filhos na escola, mesmo que a escola seja pública (as pessoas, no Brasil, ainda podem optar por colocar os filhos na escola particular ou na pública — é uma opção). O mercado é você, quando você vende o seu trabalho em troca de dinheiro que lhe permite comprar outros bens e serviços de que você precisa ou que você quer e não tem condições de produzir — ou porque não saiba ou não possa, ou porque não queira, pois tem outras coisas mais prioritárias para fazer.

Quando falamos em "salário de mercado" não estamos nos referindo a uma entidade abstrata e misteriosa que, de forma totalmente desconhecida da nós, fixa o nosso salário. O "salário de mercado" é o salário médio que as pessoas e organizações estão dispostas a pagar por algum tipo de trabalho. A nossa relação com nosso empregador é tal que podemos recusar o salário que ele oferece e buscar outro empregador que nos pague o que achamos que valemos (no sentido subjetivo do termo "valer"). Sempre podemos trabalhar como autônomos. Ou, então, podemos abrir um negócio que vá até mesmo envolver a contratação, por nós, de empregados, em cujo caso nosso papel no mercado se inverte, de vendedor de trabalho para contratador de trabalho alheio. O clamor (totalmente justificado) que hoje há contra o trabalho dito escravo é um reconhecimento de que, em 99% dos casos, num país como o nosso, o trabalho não é escravo e decorre de um relacionamento livre (muitas vezes regido por contrato) entre as partes — dos quais sempre podemos sair com relativa facilidade.

2) Mercadorias

A pessoas que acham que determinadas atividades humanas, como a educação, "têm significado que transcende o mercado" [expressão de Axel de Ferran], e, portanto, não deveria estar submetida às leis do mercado, ou, como se diz hoje em dia, ser tratada como mercadoria ("commodity").

Discordo dessa tese.

Contra-argumento dizendo que também a arte, em suas diversas manifestações, "tem significado que transcende o mercado" — mas nem por isso se vê gente argumentando que a arte não seja também mercadoria, não se venda e compre como mercadoria, como "commodity". Muito menos há gente defendendo uma "arte pública" — e ninguém, que eu saiba, defende o monopólio da arte pelo Estado, dado o fato de que seu significado transcende o mercado…

O mesmo, a meu ver, vale para a educação. O significado e a importância da educação de certo transcendem o mercado. Mas isso não quer dizer que serviços educacionais não podem ser vendidos e comprados, ou que a educação não seja uma mercadoria ou "commodity" como qualquer outra, vendida e comprada em escolas, em livros, em fitas ou discos, ou na Internet.

A falácia, em ambos os casos, está em concluir, da premissa de que "x tem significado que transcende o mercado", a conclusão de que "logo, x não pode ser tratado como mercadoria". Isso é uma falácia porque comete um non
sequitur: uma coisa não segue da outra.

3) A distribuição de riquezas

Há quem diga que o mercado não distribui riquezas — que, para isso, precisaríamos de uma entidade que fica acima do mercado, como o Governo.

O mercado, quando livre, não só permite a geração de riquezas — isso é reconhecido hoje até por socialistas e comunistas, que ainda existem por aí, disfarçados — mas efetua a sua distribuição, fazendo-o pelo critério mais justo possível disponível, o mérito. O mercado não distribui a riqueza igualitariamente nem pelo critério da necessidade, como o quer a esquerda.

Quem adota o critério do mérito como o único critério justo de distribuição de riquezas adota um princípio como este: "De cada um, segundo a sua habilidade e na justa medida de seu desejo e interesse, e a cada um, segundo o que ele merece e faz jus, por sua participação no processo produtivo".

Quem adota esse princípio certamente rejeita o princípio "de cada um segundo a sua habilidade, e a cada um uma quota igual das riquezas produzidas", ou, alternativamente, "de cada um segundo a sua habilidade, e a cada um segundo a sua necessidade".

Esses dois princípios envolvem, não uma distribuição de riquezas, mas, sim, uma tentativa de REdistribuição das riquezas produzidas por alguns para que elas venham a beneficiar aqueles que não participaram de sua produção, ou em quotas superiores à proporção de sua participação.

Na verdade, esses dois princípios, ao reconhecerem que cada um deve contribuir para a riqueza total "segundo a sua habilidade", pressupõe que há diferenças de habilidades nos vários participantes, que uns vão gerar mais riquezas do que outros. É por isso que, hoje, o socialismo e o comunismo reconhecem que o livre mercado é a única forma eficaz e eficiente de gerar ou produzir riquezas. O que o socialismo e o comunismo pretendem — e, nesse aspecto, até mesmo a social-democracia — é que as riquezas geradas não sejam distribuídas pelo mérito, mas, sim, ou em quotas iguais, ou com base na necessidade das pessoas, não em sua participação no processo produtivo de riquezas — e que eles, socialistas, comunistas, ou social-democratas, sejam os distribuidores, agindo como procuradores da população em geral, ou dos necessitados…

Ludwig von Mises uma vez destacou que na distribuição da riqueza feita pelo mercado, nós todos votamos, trocando o nosso dinheiro por bens e serviços (mercadorias) e, assim, fazendo a riqueza dos que os fornecem. Essa forma de distribuição tem o grande mérito adicional de envolver um grande número de participantes, sendo, portanto, bem mais democrática do que a redistribuição de riquezas que a esquerda pretende, em que só votam uns poucos legisladores, ou, muitas vezes, apenas os autores de Medidas Provisórias.

Em Campinas, 15 de maio de 2005

O valor do trabalho (II)

Observa a Cristina Almeida (em discussão na minha lista "LivreMente"): 

"Eu continuo a pensar no valor do trabalho… no valor do trabalho dos professores. É o mercado quem dever ‘taxar’ o valor do trabalho do professor?"

Vou procurar tornar a discussão um pouco mais complexa.

Como procurei deixar claro na minha mensagem "O Valor do Trabalho", há um certo sentido do termo "valor", que chamo de subjetivo, que independe do valor (objetivo) econômico ou financeiro desse trabalho (isto é, do que se paga por ele, caso ele esteja sendo feito num contexto salarial).

Posso escolher a profissão de professor, digamos, por causa desse valor, que não é econômico e muito menos financeiro: posso gostar de ensinar, posso gostar de estar perto de crianças, posso achar que ensinar é a profissão mais importante na Terra, posso achar que fui chamado por Deus (vocacionado) para fazer isso, independentemente do retorno financeiro, etc.

No caso do professor universitário, e falando pessoalmente, minha principal razão para escolher a profissão, já lá se vão 35 anos, foi um valor subjetivo, não econômico: o grande controle sobre o meu tempo que ela me proporciona e a conseqüente liberdade de (entre outras coisas) ficar discutindo essas coisas aqui no meu tempo de trabalho (que não é o caso desta mensagem específica: são 7h da manhã de domingo e estou aqui desde às 5h30m — "aqui" sendo o meu computador e a Internet…).

Se formos falar no "valor do trabalho" nesse sentido de "valor subjetivo", nossa discussão vai se enveredar por caminhos totalmente diversos. Vamos estar falando de sentido de missão ou vocação, de realização pessoal, etc. Vamos estar discutindo o fato de que há muita gente que trabalha, voluntariamente, virtualmente de graça. Religiosos, em geral, pelo menos os mais tradicionais, trabalham em troca de muito pouco. Venho de uma família de pastor, e sei bem o que é isso. O religioso trabalha porque acredita no que faz, e não trabalha para ganhar dinheiro — embora precise de algum para se manter (e, no caso dos não celibatários, aos seus). Na verdade, a gente que literalmente paga para trabalhar.

O sentido de valor que discuti na seqüência do artigo sobre o Wal-Mart, tem que ver com outro tipo de valor, o chamado "valor econômico" — ou até mesmo financeiro. Tem que ver, em última instância, com remuneração, com salário.
E foi em relação a esse tipo de valor que disse que não há um critério absoluto que permita determinar quando vale, em dinheiro, o seu ou o meu trabalho para terceiros. Nosso trabalho vale o que alguém está disposto a pagar por ele.

O mercado não "taxa" o nosso salário. Na verdade, como já disse, o mercado é uma abstração. O mercado somos nós todos que compramos, vendemos, trocamos bens e serviços. O mercado é você, quando você contrata uma empregada doméstica ou uma diarista ou alguém para cortar a grama do seu jardim ou limpar a fossa de sua casa. O mercado é você quando você compra comida, roupa, livro, disco, etc. O mercado é você quando você assiste a um filme, a uma peça de teatro, a um concerto. O mercado é você quando coloca os seus filhos na escola, mesmo que a escola seja pública (as pessoas, no Brasil, ainda podem optar por colocar os filhos na escola particular ou na pública — é uma opção). O mercado é você, quando você vende o seu trabalho em troca de dinheiro que lhe permite comprar outros bens e serviços de que você precisa ou que você quer e não tem condições de produzir.

Assim sendo, o mercado não "taxa" o nosso salário: caso sejamos assalariados, ele, o mercado (i.e., alguém) nos paga o nosso salário. A nossa relação com nosso empregador é tal que podemos recusar o salário que ele oferece e buscar alguém mais que nos pague o que achamos que valemos. Ou podemos trabalhar como autônomos. Ou abrir um negócio que vá até mesmo envolver a contratação de funcionários, invertendo o nosso papel. O clamor que hoje há contra o trabalho dito escravo é um reconhecimento de que, em 99% dos casos, num país como o nosso, o trabalho não é escravo e decorre de um relacionamento livre (muitas vezes regido por contrato) entre as partes — dos quais sempre podemos sair com relativa facilidade.

A tese do Thomas Sowell, que eu totalmente endosso, é de que não basta que alguém tenha dinheiro para nos pagar mais para que concluamos que, logo, esse alguém deve nos pagar mais.

Essa tese, que causa revolta em alguns, é, tenho certeza, endossada por todos nós na prática. Duvido que qualquer um de nós paguemos às nossas empregadas domésticas tudo aquilo que podemos pagar — aquilo que elas, no sentido subjetivo do termo, valem para si mesmas (ou até mesmo para nós). Nós pagamos, em geral, o preço médio que o mercado (isto é, as outras pessoas) estão dispostas a pagar. Se pagarmos muito menos, correremos o risco de perder a empregada. Se pagarmos muito mais, estaremos perdendo dinheiro, porque poderíamos arrumar outra empregada, que faria a mesma coisa, por um salário menor.

Espero que a questão tenha ficado mais clara agora.

Há um artigo curioso do Diogo Mainardi na VEJA do dia 18 explicando porque ele não faz palestras… Tem relação com o que está sendo discutido aqui.

Em Campinas, 15 de maio de 2005

O valor do trabalho (I)

O artigo de Thomas Sowell que eu transcrevi na mensagem anterior levanta uma questão interessante, que é relevante especialmente para professores, que talvez formem a categoria que mais se considera injustamente mal remunerada neste país.

a) Quanto vale, na média, o trabalho de uma determinada categoria profissional, em reais ou dólares (digamos, o trabalho de professores de educação básica)?

b) E quanto vale, na média, o trabalho de diferentes categorias profissionais, relativamente umas às outras (o trabalho de professores de educação básica, por exemplo, vis-à-vis o trabalho de, novamente por exemplo, empregadas domésticas e jogadores de futebol)?

Em relação à primeira questão, a resposta de um liberal, que defende a economia de mercado, como eu, seria forçosamente a de que não há forma de aferir, para um determinado contexto, quando vale, intrinsecamente, o trabalho de uma categoria profissional ou de um profissional específico. O trabalho de uma categoria profissional ou de um profissional específico vale aquilo que o mercado está disposto a pagar por ele. Ponto final.

Eu posso estar subjetivamente convencido de que uma palestra que eu ministro vale 50 mil dólares (como a de Alvin Toffler ou de Daniel Goleman), dado o seu conteúdo original e importante, dada a forma atraente com que eu a apresento, etc. Mas se eu, diferentemente de Toffler e de Goleman, não consigo encontrar ninguém que esteja disposto a pagar esse montante pela minha palestra, e o máximo que eu consigo receber por uma palestra é cerca de 5% dessa valor, não há como eu possa argumentar, para os que se dispõem a pagar-me 2.500 dólares, que eles estão tentando me explorar, ou que eu estarei sendo mal pago se aceitar esse valor, que representa apenas 5% do que eu acho que a minha palestra realmente vale. Minha palestra vale aquilo que o mercado está disposto a pagar por ela.

No caso de professores de educação básica, que se consideram, em regra, extremamente mal pagos, injustiçados, explorados, a única resposta que se pode dar a eles, como Sowell claramente indica, é: pois bem, encontrem alguma escola disposta a lhes pagar mais, e vocês não vão se sentir mais tão mal assim… Se encontrarem, terão mostrado que seu emprego anterior lhes pagava menos do que valiam. Se não encontrarem, terão de aceitar o fato de que seu trabalho não vale mais do que a sociedade (o mercado) está disposta a lhes pagar aqui neste país. Assunto encerrado.

Mas, em relação agora à segunda pergunta, é possível comparar o valor do trabalho de uma categoria profissional em relação ao valor do trabalho de outra?

Apesar de professores, em regra, acharem que seu trabalho é muito mais importante do que o trabalho de empregadas domésticas ou jogadores de futebol, e, portanto, deve valer mais no mercado, o mercado nem sempre está de acordo — especialmente no caso de jogadores de futebol. Embora possa parecer incrível aos professores, o mercado está disposto a pagar dezenas de milhares de dólares por mês para um bom jogador de futebol, e não está disposto a pagar mil dólares mensais para um bom professor de primeira a quarta-série da Educação Fundamental.

Por que se dá isso? Em geral porque quem está disposto a pagar, digamos, 50 mil dólares por mês para um jogador (ou um técnico) de futebol, espera ganhar mais do que isso com a presença do jogador (ou do técnico) no time. Se o jogador é realmente bom, vai atrair público aos estádios, vai atrair patrocínio da televisão ou outras formas de endosso, vai ajudar a melhorar a reputação do time e isso vai, a médio e longo prazo, representar ainda melhores retornos. É verdade que tudo isso é expectativa, e os fatos podem desmenti-las. Mas a expectativa existe, e é ela que justifica o pagamento do alto salário.

No caso de professores, é raro que uma escola tenha expectativa de maiores ganhos com a contratação de um professor. Além disso, há, entre os professores, sacramentada por sindicatos da categoria, uma certa presunção de que um professor de uma determinada série ou ciclo não deve ganhar mais do que os outros — e isso tende a nivelar por baixo o salário dos professores. (Essa presunção vale até mesmo no Ensino Superior).

Há outras razões subsidiárias: a carreira de um jogador de futebol é curta — e a de um técnico, precária e arriscada… A de um professor, pelo contrário, pode ser longa, e espera-se até mesmo que ele melhore quanto mais velho fique…

Um professor pode até entender isso: afinal de contas, um bom jogador de futebol tem cerca de 10-15 anos de carreira e consegue levar milhares de pessoas aos estádios… O que ele vai ter dificuldade de entender é porque empregadas domésticas, que exercem uma função razoavelmente não qualificada, chegam a ganhar, em algumas regiões do país, bem mais do que professores ganham em outras. E babás especializadas não raram ganham mais na mesma região.

As considerações feitas por Thomas Sowell no caso dos empregados da Wal-Mart valem aqui. Ninguém está preso pela vida inteira a um determinado emprego. Se não está contente com o salário, e acha que pode ganhar mais em algum outro lugar, está livre para buscar melhores condições de trabalho. Se acha que não vai conseguir ganhar mais fazendo o mesmo trabalho, que melhore as suas qualificações e procure um tipo diferente de trabalho.

O importante é reconhecer que não há uma forma de medir o valor de um determinado trabalho de forma absoluta. O valor de um trabalho é sempre relativo à necessidade que o mercado tem daquele trabalho. Quanto existem poucos médicos, o trabalho de um médico vale mais… Se o mercado está com oferta excessiva de advogados, o trabalho de um advogado vai valer menos…

Há estados nos Estados Unidos em que professores de educação básica ganham menos do que lixeiros. Neles, não há muita gente disposta a trabalhar como lixeiro. Logo, ou se paga melhor os lixeiros, ou não haverá ninguém para coletar o lixo (com conseqüências desastrosas para a saúde e o bem-estar da populacão e para o meio ambiente). Por outro lado, a função do professor tem ainda um atrativo que independe do salário e que é difícil de explicar. Mas é esse atrativo que faz com que grandes quantidades de pessoas se disponham a ir para o magistério, mesmo com o valor relativamente baixo que esse trabalho tem no mercado. E, quando professor faz greve, a sociedade em geral não se molesta.

Em Campinas, 14 de maio de 2005

Deve a Wal-Mart pagar mais aos seus empregados?

Traduzi e transcrevo a seguir (em tradução e no original) um artigo de Thomas Sowell divulgado no site www.CapMag.com no dia de hoje.

Em São Paulo, 9 de Maio de 2005

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A Cruzada contra a cadeia de lojas Wal-Mart

Thomas Sowell (9 de Maio de 2005 – [www.CapMag.com])

A mais recente cruzada da esquerda é contra a cadeia de lojas Wal-Mart.

Uma grande manchete num longo artigo no New York Times pergunta: "Será que um gigante do varejo não pode pagar mais?"

É claro que a Wal-Mart pode pagar mais. Também o New York Time pode pagar mais aos seus empregados. Todos nós podemos pagar mais pelo que compramos ou alugamos. Não me diga que você não pode pagar dez centavos a mais por este jornal. A questão é: por que deveria qualquer um de nós pagar mais do que temos de pagar?

Segundo o New York Times, há um livro escrito "por um grupo de investigadores", que deve ser publicado no Outono, em que se argumenta que a Wal-Mart tem "obrigação" de "tratar seus empregados melhor".

Uma informação dessas dificilmente pode ser chamada de notícia. Nada é mais fácil do que achar um grupo de acadêmicos – "investigadores", se você concorda com eles – disposto a defender virtualmente qualquer tese sobre qualquer assunto. Nem é essa noção de "obrigação" algo novo.

Durante décadas, tem havido essa conversa elevada, mas fiada, sobre a "responsabilidade social" das empresas, ou acerca de um "pacto social" entre as gerações que garanta a manutenção da Seguridade Social. Você se lembra de ter firmado esse pacto? Nem eu.

O que toda essa conversa piedosa significa é que, quando um grupo de pessoas quer que terceiros paguem por algo que desejam, afirmam que aquilo que desejam é uma "responsabilidade social" ou uma "obrigação" desses terceiros.

Enquanto a gente comprar essa conversa fiada, eles continuam a oferecê-la.

Para tentar fazer com que suas demandas pareçam algo mais do que noções arbitrárias de gente metida no que não conhece, que é o que eles são, alguns desses metidos se referem ao nível oficial de pobreza – como se isso fosse algo objetivo, e não o que realmente é, a saber, uma linha arbitrária definida por noções inventadas por algum burocrata governamental.

Segundo o New York Times, o empregado médio da Wal-Mart recebe um salário que fica acima da linha da pobreza para uma família de três, mas que cai abaixo da linha da pobreza para uma família de quatro. O que é que devemos concluir disso?

A noção comumente alardeada de "um salário que permita viver" é calculada com base em uma família de quatro. E, previsivelmente, o New York Times descobre um empregado da Wal-Mart que reclama de que não está ganhando "um salário que permita viver".

Como ele está vivendo, se não está ganhando um salário que permita viver?

Devem as pessoas ser pagas segundo aquilo que elas "precisam" em vez de segundo aquilo que vale o seu trabalho? Devem elas decidir que querem ter uma família grande e, depois, jogar o custo de sustentar essa família sobre terceiros?

Se seu trabalho não vale o suficiente para pagar por tudo o que elas querem, seria obrigação dos outros cobrir a diferença – em vez de responsabilidade sua melhorar suas habilidades para que possam vir a ganhar aquilo de que precisam?

Esperam os empregados da Wal-Mart ser subsidiados pelos clientes das lojas, pagando maiores preços, ou pelos acionistas, recebendo menores dividendos por suas ações? Boa parte das ações de uma companhia rica é propriedade de fundos de pensão que pertencem a pequenos investidores, como professores, policiais e outros que estão longe de serem ricos.

Por que é que alguns devem se aposentar com menos dinheiro, decorrente de um menor retorno aos seus investimentos em ações, para que os empregados da Wal-Mart sejam pagos aquilo que o New York Times deseja que lhes seja pago, em vez de receberem aquilo que vale o seu trabalho no mercado? Afinal de contas, eles certamente não estariam trabalhando para a Wal-Mart se alguém achasse que seu trabalho valia mais…

Nem estão eles obrigados a continuar a trabalhar para a Wal-Mart pelo resto de suas vidas. Para muitos deles, o emprego inicial na Wal-Mart é um trampolim para empregos melhores dentro da própria cadeia de lojas ou, à medida que obtêm mais experiência, para empregos melhores em outras companhias.

Pensem sobre isto: o que os metidos estão dizendo é que terceiros como eles próprios – que não estão pagando nada para ninguém – devem poder determinar quanto alguma outra pessoa, ou alguma empresa, deveria estar pagando para aqueles que trabalham para ela.

Seria devastador para os egos dos intelectuais descobrir, quanto mais admitir, que o mundo dos negócios tem feito muito mais para reduzir a pobreza no mundo do que todos os intelectuais juntos. Em última instância, é somente a riqueza que pode reduzir a pobreza, e a maioria dos intelectuais não tem a menor idéia de quais ações e políticas aumentam a riqueza nacional — nem nenhum interesse em descobrir…

Os intelectuais certamente não sentem nenhuma "obrigação" de aprender economia por um sentido de "responsabilidade social", muito menos por causa de qualquer "pacto social" que requeira que eles saibam do que estão falando antes de vomitar sua retórica auto-justificatória.

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The Crusade Against Wal-Mart

by Thomas Sowell (May 9, 2005 – [www.CapMag.com])

The latest liberal crusade is against the Wal-Mart stores.

A big headline on a long article in the New York Times asks "Can’t A Retail Behemoth Pay More?"

Of course they can pay more. The New York Times could pay its own employees more. We could all pay more for whatever we buy or rent. Don’t tell me you couldn’t have paid a dime more for this newspaper. But why should any of us pay more than we have to?

According to the New York Times, there is a book "by a group of scholars" due to be published this fall, arguing that Wal-Mart has an "obligation" to "treat its employees better."

This can hardly be called news. Nothing is easier than to find a group of academics — "scholars" if you agree with them — to advocate virtually anything on any subject. Nor is this notion of an "obligation" new.

For decades, there has been lofty talk abou
t the "social responsibility" of businesses or about a "social contract" between the generations when it comes to Social Security. Do you remember signing any such contract? I don’t.

What all this pious talk amounts to is that when third parties want somebody else to pay for something, they simply call it a "social responsibility," an "obligation" or a "social contract."

So long as we keep buying this kind of stuff, they will keep selling it.

In order to make such demands look like more than just the arbitrary notions of busybodies — which they are — some of these busybodies refer to the official poverty level, as if it were something objective, rather than what it is in fact, simply an arbitrary line based on the notions of government bureaucrats.

According to the New York Times, Wal-Mart’s average employee earns an income that is above the poverty line for a family of three but below the poverty line for a family of four. What are we supposed to conclude from this?

The fashionable notion of "a living wage" is a wage that will support a family of four. And, sure enough, the New York Times finds a Wal-Mart employee who complains that he is not making "a living wage."

How is he living, if he is not making a living wage?

Should people be paid according to what they "need" instead of according to what their work is worth? Should they decide how big a family they want and then put the cost of paying to support that family on somebody else?

If their work is not worth enough to pay for what they want, is it up to others to make up the difference, rather than up to them to upgrade their skills in order to earn what they want?

Are they supposed to be subsidized by Wal-Mart’s customers through higher prices or subsidized by Wal-Mart’s stockholders through lower earnings? After all, much of the stock in even a rich company is often owned by pension funds belonging to teachers, policemen and others who are far from rich.

Why should other people have to retire on less money, in order that Wal-Mart employees can be paid what the New York Times wants them paid, instead of what their labor is worth in the marketplace? After all, they wouldn’t be working for Wal-Mart if someone else valued their labor more.

Nor are they confined to Wal-Mart for life. For many, entry-level jobs are a stepping-stone, whether within a given company or as experience that gets them a better job with another company.

Think about it: What the busybodies are saying is that third parties like themselves — who are paying nothing to anybody — should be determining how much somebody else should be paying those who work for them.

It would be devastating to the egos of the intelligentsia to realize, much less admit, that businesses have done more to reduce poverty than all the intellectuals put together. Ultimately it is only wealth that can reduce poverty and most of the intelligentsia have no interest whatever in finding out what actions and policies increase the national wealth.

They certainly don’t feel any "obligation" to learn economics, out of a sense of "social responsibility," much less because of any "social contract" requiring them to know what they are talking about before spouting off with self-righteous rhetoric.

A "responsabilidade social" das empresas

Notável a baboseira do Clóvis Rossi na Folha de ontem (8 de maio de 2005), Dia das Mães.

Pretende ele que “role” na Alemanha, atualmente, um certo “revival” de Karl Marx.

A evidência para tal “revival” seria o fato de que a Social-Democracia alemã estaria “irada”, criticando os “excessos do Capitalismo”.

Em primeiro lugar, nada de estranhar que a Social-Democracia critique o que ela acha serem excessos do Capitalismo. A Social-Democracia surgiu como uma suposta alternativa tanto ao Capitalismo como ao Socialismo, como uma Via Media, ou Terceira Via. Não aceita, portanto, o Capitalismo como tal. Se o aceitasse, não haveria o menor sentido em se propor como Via Media ou Terceira Via (com ênfases, é bom que se diga, bem mais acentuadas no lado socialista da suposta equação do que no lado capitalista).

A revolta social-democrata parece ser dirigida a “empresas que têm lucros excepcionais e, não obstante, botam gente na rua”, como o Deutsche Bank (e, como já foi citado neste blog, a General Electric). O Deutsche Bank teria aumentado seus lucros 25% e, ainda assim, anunciado a dispensa de 10% de seus 64 mil funcionários. Lydia Brito, em artigo comentado na minha matéria “Capital e Trabalho”, de 1º de maio de 2005, observa que “nos anos 1980 a GE possuía uma receita de 52 bilhões de dólares anuais e 404.000 funcionários; no fim dos anos 1990 aumentou para uma receita de 450 bilhões de dólares e diminuiu para 229.000 o número de funcionários, ou seja, aumentou seu lucro em 800% e diminuiu o número de empregados praticamente para a metade”. Esses dois fatos parecem um escândalo para os social-democratas, para a autora do artigo citado, e, naturalmente, para o Clóvis Rossi.

Clóvis Rossi cita ainda um editorialista do Le Monde:

"Os interesses privados, que se legitimam apenas pela concorrência econômica, sem cuidado excessivo com o interesse geral, tudo fizeram para reduzir o espaço próprio da política e de suas decisões, porque entrava suas ambições e limita seus apetites."

Segundo o editorialista, com o qual Rossi parece concordar, parece estranho que as empresas atuem com base em seus interesses privados, objeto de preocupação da economia. Segundo o editorialista, com o endosso de Rossi, as empresas deveriam se preocupar também com “o interesse geral”, objeto de preocupação da política.

Segundo Rossi, agora comentando em nome próprio, isso tudo “é algo que o brasileiro conhece bem, pela brutal conversão aos interesses privados que fizeram os dois governos mais recentes, ambos supostamente parentes próximos ou distantes da social-democracia”.

Estranha constatação essa. Se o governo FHC e o governo Lula são “parentes próximos ou distantes da social democracia”, é esquisito acusá-los de “conversão aos interesses privados”, quando a Social-Democracia alemã está irada exatamente pela falta de preocupação das empresas com o “interesse geral” (isto é, manutenção de empregos que se tornaram desnecessários, e, portanto, redução deliberada do lucro para ajudar o governo em sua missão social).

O bobão do Clóvis Rossi chama a nossa de “a era dos gafanhotos” e defende a tese de que a ira contra o comportamento das empresas não deve “ficar apenas na retórica”… Deve se tornar o que, essa ira? Violência? Revolta armada? Finalmente a revolução socialista?

Ao longo de toda a história da humanidade se concluiu, acertadamente, que o bem-estar das pessoas era de sua exclusiva responsabilidade – e que se alguns não conseguiam alcançá-lo, seu bem-estar ficava na dependência da caridade voluntária das pessoas privadas, físicas ou institucionais (igrejas, por exemplo).

O Liberalismo, ou Capitalismo, se preferem, endossa essa tese. É por isso que muitos milionários criam suas próprias fundações para ajudar os que não conseguem cuidar de seu próprio bem-estar. Isso é algo feito voluntariamente.

A partir do século XIX começou a se crer que o bem-estar das pessoas não é de sua responsabilidade – sendo exclusiva responsabilidade do Estado, ou dos governos. Essa a tese socialista.

Parece que a inovação social-democrata está no fato de que ela reconhece que os governos não conseguem proporcionar aos incapazes o bem-estar que agora é tido como sendo de (direitos econômicos e sociais) – mas espera que as empresas desenvolvam uma “consciência e responsabilidade social” e ajudem os governos a prover o bem-estar que eles, governos, por si só, não conseguem prover…

Faz-me rir.

Das duas uma: ou a responsabilidade de prover bem-estar às pessoas que não conseguem provê-lo para si mesmas é dos governos, e eles se desincumbem dela sozinhos (ainda que cobrando altíssimos impostos), ou eles tiram o time de campo, se reconhecem um fracasso nessa área, eliminam os impostos destinados a custear políticas sociais e deixam a área limpa para a ação da iniciativa privada – como sempre foi, até o maldito Socialismo surgir.

O que não dá é reivindicar que a promoção do bem-estar social é dever do governo e, ao mesmo tempo, ficar irado porque as empresas cumprem bem a sua responsabilidade precípua, que é dar lucro aos seus proprietários e/ou acionistas.

Clóvis Rossi et caterva parecem achar que empresas devam manter empregados aqueles cujos serviços não mais são necessários, apenas para cumprir sua missão social ou manifestar a sua disposição de promover o interesse público, agindo, como já fazem os governos, como verdadeiros cabide
s de emprego.

Um pouco de bom senso não faz mal a ninguém — nem mesmo a velhos jornalistas que deviam saber melhor, mas que nunca perdem o cacoete socialista.

Em Salto, 8 de Maio de 2005

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Folha de S. Paulo
8 de maio de 2005

CLÓVIS ROSSI

Os gafanhotos e a ira

SÃO PAULO – Rola na Alemanha um certo clima de "revival" de Karl Marx, como se subitamente o comunismo tivesse escapado dos escombros do Muro de Berlim.

Tudo porque lideranças do SDP, o partido social-democrata que está no poder com Gerhard Schröeder, andam criticando os excessos do capitalismo. Começou com o presidente do partido, Franz Müntefering, que chamou de "gafanhotos" os investidores que tomam uma companhia, limpam seus ativos e caem fora, deixando muita gente desempregada.

Wolfgang Thierse, o presidente do bloco SPD no Congresso, atacou as empresas que têm lucros excepcionais e, não obstante, botam gente na rua. Citou o caso do Deutsche Bank, que aumentou seus lucros 25% e, ainda assim, anunciou a dispensa de 10% de seus 64 mil funcionários.

Essa situação -altos lucros X dispensas em massa- estaria provocando um ambiente de "ira desesperada", na opinião de Thierse.

Do outro lado do muro, houve reações de uma virulência incompreensível, como a acusação de que os sociais-democratas estão usando "linguagem nazista" para criticar o "big business".

Estão fazendo apenas constatações, a mesma que expõe Edwy Plenel, o editorialista da revista semanal do jornal francês "Le Monde", no número de sexta-feira:

"Os interesses privados, que se legitimam apenas pela concorrência econômica, sem cuidado excessivo com o interesse geral, tudo fizeram para reduzir o espaço próprio da política e de suas decisões, porque entrava suas ambições e limita seus apetites."

É algo que o brasileiro conhece bem, pela brutal conversão aos interesses privados que fizeram os dois governos mais recentes, ambos supostamente parentes próximos ou distantes da social-democracia.

É, definitivamente, a era dos "gafanhotos". É saudável que haja uma reação, mas se ela ficar apenas na retórica, a "ira desesperada" só tende a aumentar.

crossi@uol.com.br

Os Dois Brasis

Thomas Skidmore, na entrevista transcrita abaixo, afirma:

a) “O Sul e o Sudeste [do Brasil] vão relativamente bem, mas o restante do país está em estado vegetativo. Não há nenhum plano de desenvolvimento nacional, pois ele não é prioritário. A economia brasileira depende muito da performance dos Estados meridionais. Assim, acredito que o Brasil esteja se dirigindo rapidamente a uma situação em que haverá dois países diferentes em seu território.”

b) “Se o governo não estabelecer reais prioridades, visando a redução do consumo e a elevação dos investimentos, o Brasil permanecerá na mesma situação. Ou seja, o governo não conseguirá estimular o desenvolvimento.”

c) “O governo atual tem de fazer alguma coisa. É necessário acelerar ainda mais as exportações e restringir as importações voltadas para o consumo direto da população. Há carros novos e importados por toda parte no Sul e no Sudeste, imensos edifícios residenciais, shopping centers etc. Trata-se de um luxo que o Brasil não tem como financiar se pretende se desenvolver.”

d) “O que existe hoje é uma falta total de planejamento para o desenvolvimento e de vontade de sacrificar o consumo atual para investir no futuro. As elites brasileiras do Sudeste e do Sul agem como se estivessem em Paris ou em Milão, e isso é prejudicial. Elas poderiam manter o mesmo padrão de vida, no entanto isso levaria o país à estagnação econômica. E, como salientei há pouco, isso geraria uma absoluta divisão do Brasil em duas partes.”

e) “Não é possível simplesmente manter um modelo de consumo elevado e esperar que a economia melhore. Sem sacrifícios, não haverá crescimento sustentado.”

f) “Será preciso impor sacrifícios à população e começar a taxar mais o consumo para gerar dinheiro para os investimentos. Os brasileiros não parecem entender que, para ter uma situação de prosperidade no futuro, é preciso começar a investir seriamente agora. A sociedade brasileira é centrada demais no consumo. Assim, o Brasil continuará dividido em dois.”

g) “Outro sintoma das imperfeições desse sistema é o mundo universitário. As universidades públicas brasileiras são um escândalo. A quantidade de dinheiro que sai dos cofres públicos para bancar esse sistema é enorme. E não há nenhuma inclinação na atual administração para atacar o problema mais grave desse sistema: o fato de o ensino ser gratuito. Esse também é um escândalo porque faz com que as diferenças sociais se agravem ainda mais. Os pobres pagam impostos para que os ricos estudem gratuitamente.”

h) “O PT encaixou-se no clássico modelo de prosperidade brasileiro, que vê empregos públicos como forma de ascensão social. Assim, o governo federal está aparelhando o Estado e elevando o peso dos gastos com funcionários públicos. Trata-se de uma tradição brasileira e de um modo de diminuir o desemprego e de agradar a seus simpatizantes. Contudo essa é uma atitude míope, que custa caro ao país.”

i) “Não creio que ele [FHC] possa imaginar que seja necessário sacrificar alguns hábitos das classes mais abastadas para atingir níveis sustentáveis de crescimento.“

j) “O problema com o PT é que seus membros pensavam que o governo brasileiro já tivesse a riqueza e que fosse preciso apenas redistribuí-la. Porém eles se esqueceram de que o Brasil não é, de jeito nenhum, um país rico e que, para desenvolver todo o seu território, é imprescindível ter prioridades. Com isso, eles abraçaram a tese desenvolvimentista baseada no consumo e nos juros altos e negligenciaram políticas que criariam condições para o crescimento futuro. O PT não é, em princípio, um partido desenvolvimentista. Temo que os políticos brasileiros tenham abandonado a idéia de que é preciso desenvolver todo o país, não apenas parte dele.”

k) “Ninguém mais fala do Nordeste, uma região que está ficando cada vez mais esquecida. Nesses dias que passei no Brasil, mal ouvi falar do Nordeste. Às vezes, tenho a impressão de que, para boa parte da população brasileira mais abastada, os Estados mais pobres simplesmente não existem.”

l) “A motivação dos quadros do PT é a ascensão social, não o desenvolvimento durável do Brasil. Assim, uma renovação política é crucial.”

Concordo com várias dessas afirmações, em especial com “g”, “h”, “j”, e “l”.

Discordo, porém, da sua principal tese, a saber, que o Brasil deveria sacrificar o consumo atual (segundo ele, existente principalmente no Sudeste e no Sul do país)  para investir no futuro.

Ele afirma que, a continuar esse consumo desenfreado, especialmente no Sudeste e no Sul, o Brasil vai virar “dois países”: um, o país rico, no Sudeste e no Sul, o outro o país pobre, no restante das regiões.

Mas parece-me haver uma contradição séria na tese de Skidmore. Se é o consumo desenfreado do Sudeste e do Sul que está impedindo o Brasil de alcançar o desenvolvimento sustentável, como se explica o fato de que é exatamente o Sudeste e o Sul consumistas que têm chance de se tornar o país rico, na hipótese dos dois Brasis?

Por analogia, estaria Skidmore disposto a admitir que é o consumismo desenfreado dos países do Norte, em especial dos Estados Unidos e da Europa, que está impedindo a América Latina de se desenvolver? Parece que ele dificilmente admitiria isso – e estaria correto em não admitir. O seu erro está em imaginar que, no caso do Brasil, é o consumo dos estados do Sudeste e do Sul que está impedindo as outras regiões de se desenvolver.

Talvez, porém, Skidmore esteja defendendo a tese de que o Sudeste e o Sul deveriam conter o seu consumo (no presente) para ajudar o resto do Brasil a se desenvolver (no futuro). Há indícios de que é isso que ele pensa. Ou vejamos:

“As elites brasileiras do Sudeste e do Sul agem como se estivessem em Paris ou em Milão, e isso é prejudicial. Elas poderiam manter o mesmo padrão de vida, no entanto isso levaria o país à estagnação econômica. E, como salientei há pouco, isso geraria uma absoluta divisão do Brasil em duas partes.”

“Ninguém mais fala do Nordeste, uma região que está ficando cada vez mais esquecida. Nesses dias que passei no Brasil, mal ouvi falar do Nordeste. Às vezes, tenho a impressão de que, para boa parte da população brasileira mais abastada, os Estados mais pobres simplesmente não existem.”

Para que haja a “redistribuição de renda” entre regiões que Skidmore parece propor, é indispensável um governo federal forte, na verdade, fortíssimo, disposto a usar a força para obrigar os estados das regiões mais ricas a abrir mão de sua riqueza para ajudar os estados das regiões mais pobres. Caso contrário, é virtualmente impossível conseguir que a renda seja redistribuída entre as regiões.

Na verdade, por quase um século, é isso que já vem acontecendo: os estados das regiões Sudeste e Sul, em especial o Estado de São Paulo, vem arcando com uma parcela exagerada da manutenção da máquina pública federal, em troca de uma participação não equivalente nas decisões políticas. É de imaginar que isso não vá continuar por muito tempo. Agora Skidmore propõe que os estados ricos se sacrifiquem ainda mais em favor dos estados pobres? Movimentos separatistas já existem no Sul e o Estado de São Paulo por pelo menos duas vezes já ensaiou se libertar da União para se tornar um país independente.

Como já disse, duvido que Skidmore esteja disposto a propor que os países ricos se sacrifiquem, reduzam seu nível de consumo ao não-supérfluo, para ajudar os países pobres a se desenvolver. Se não está, como suspeito que não esteja, por que espera que isso aconteça entre estados brasileiros? Algo faz sentido entre estados de um país que não faça sentido entre países?

Diz Skidmore:

“O governo [obviamente, o federal] atual tem de fazer alguma coisa. É necessário acelerar ainda mais as exportações e restringir as importações voltadas para o consumo direto da população. Há carros novos e importados por toda parte no Sul e no Sudeste, imensos edifícios residenciais, shopping centers etc. Trata-se de um luxo que o Brasil não tem como financiar se pretende se desenvolver.”

Importam-se bens de consumo, e até mesmo bens de luxos, quando há demanda, isto é, quando a população tem dinheiro para comprá-los e está disposta a gastar neles. Essa citação de Skidmore mostra que, evidentemente, o Sudeste e o Sul são relativamente ricos, já alcançaram um nível razoável de desenvolvimento – que parece até mesmo irritar Skidmore um pouco. A solução que ele propõe é que o governo federal proíba os ricos de gastarem com bens que ele considera supérfluos para os brasileiros – para investir nas outras regiões, mais pobres.

Ou seja, apesar de ser um bom burguês aposentado da nobilérrima Brown University (onde FHC lhe é colega), Skidmore prefere ver todo o Brasil pobre – pois é isso que vai acontecer se a riqueza do Sudeste e do Sul for confiscada pelo governo federal para custear o desenvolvimento do resto do país – a ver pelo menos uma parte dele relativamente rica e desenvolvida.

Não acho que Skidmore seja socialista. Mas as suas teses mostram como pessoas bem intencionadas são levadas a erros crassos de análise. Como já dizia Mme. de Staël, no século XVIII, há alguns que preferem a igualdade do inferno às desigualdades do céu.


Em Salto, 8 de maio de 2005

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Folha de S. Paulo
20 de março de 2005


Um sistema dois países


Thomas Skidmore defende que o abandono das políticas desenvolvimentistas de longo prazo e o investimento no consumo, tanto nos governos Lula e FHC, estão levando a uma cisão entre o sul e o norte do Brasil

MÁRCIO SENNE DE MORAES
DA REDAÇÃO


Há mais de meio século, a ausência, no Brasil, de políticas de desenvolvimento concretas e a de prioridades nesse sentido preocupam Thomas Skidmore, reputado historiador, “brasilianista”, professor aposentado da Universidade Brown (EUA) e autor dos clássicos “Brasil -De Getúlio a Castelo”, “Brasil – De Castelo a Tancredo” e “O Brasil Visto de Fora” (todos pela Paz e Terra).

Em 2005, a situação não teria mudado, e ele reitera: “O Brasil está perdendo, mais uma vez, o trem da história no que tange às chances de atingir níveis razoáveis de desenvolvimento sustentado”.

Skidmore diz que uma política consistente do Brasil deveria sacrificar o consumo atual -“as elites brasileiras do Sudeste e do Sul agem como se estivessem em Paris ou em Milão”- para investir no futuro.

Leia a seguir os trechos da entrevista por telefone que ele concedeu à Folha, na última quarta-feira, depois de passar “dez agradáveis dias no Brasil”.


Folha – Na semana passada, o sr. afirmou, em São Paulo, que, mais uma vez, o Brasil está perdendo o trem da história. Por quê?

Thomas Skidmore – Fiz essa afirmação porque o nível do crescimento econômico brasileiro foi bom no ano passado, mas isso ocorreu pela primeira vez em dez anos. Infelizmente, o Brasil atingiu um equilíbrio, consolidando o aspecto “Belíndia” de sua sociedade [em 1974, o economista Edmar Bacha cunhou a expressão para definir o que, à época, via como a distribuição de renda no Brasil -uma pequena e rica Bélgica e uma imensa e pobre Índia].

O Sul e o Sudeste vão relativamente bem, mas o restante do país está em estado vegetativo. Não há nenhum plano de desenvolvimento nacional, pois ele não é prioritário. A economia brasileira depende muito da performance dos Estados meridionais. Assim, acredito que o Brasil esteja se dirigindo rapidamente a uma situação em que haverá dois países diferentes em seu território.


Folha – O que o governo do presidente Luiz Inácio Lula da Silva deveria fazer para mudar o quadro?

Skidmore – Ele tem de renovar suas prioridades, privilegiando áreas básicas, como a educação, que continua sendo negligenciada, e a infra- estrutura, já que as estradas de ferro e as de rodagem estão em mau estado. Além disso, é absolutamente necessário aumentar os níveis de investimento.

O Brasil investe hoje cerca de 18% [de seu PIB; os números de 2004 ainda não foram divulgados, mas espera-se algo pouco acima de 18%]. Seria preciso investir 25%.

Com esses níveis de investimento, o país não terá um crescimento econômico considerável e poderá se estagnar. Se o governo não estabelecer reais prioridades, visando a redução do consumo e a elevação dos investimentos, o Brasil permanecerá na mesma situação. Ou seja, o governo não conseguirá estimular o desenvolvimento.


Folha – Num mundo globalizado, em que os mercados financeiros e instituições como o FMI (Fundo Monetário Internacional) e o Banco Mundial ditam as regras, Lula dispõe de que margem de manobra?

Skidmore – É verdade que ele não tem muita margem de manobra para introduzir grandes reformas, pois Fernando Henrique Cardoso [presidente entre 1994 e 2002] e vários presidentes que o precederam deixaram o Brasil tão endividado que o atual governo tem de carregar um fardo considerável ao ser compelido a gerar dinheiro para bancar o serviço da dívida. Devemos reconhecer que FHC, que foi muito bom em várias áreas, cometeu um grande erro ao permitir o aumento da dívida brasileira.

Embora tudo isso seja verdade, todavia, o governo atual tem de fazer alguma coisa. É necessário acelerar ainda mais as exportações e restringir as importações voltadas para o consumo direto da população. Há carros novos e importados por toda parte no Sul e no Sudeste, imensos edifícios residenciais, shopping centers etc. Trata-se de um luxo que o Brasil não tem como financiar se pretende se desenvolver.

Se nada for feito, os brasileiros continuarão a viver na “Belíndia” e só os habitantes dos Estados mais abastados vão lucrar com isso. Sei que há um problema financeiro, porém creio que qualquer governo brasileiro possa fazer muito ma
is do que vem sendo feito para aumentar sua margem de manobra.

Para tanto, seria preciso melhorar ainda mais a balança de pagamentos e usar o comércio externo como um instrumento para desenvolver todo o país, e não apenas as regiões mais ricas. O que existe hoje é uma falta total de planejamento para o desenvolvimento e de vontade de sacrificar o consumo atual para investir no futuro. As elites brasileiras do Sudeste e do Sul agem como se estivessem em Paris ou em Milão, e isso é prejudicial.

Elas poderiam manter o mesmo padrão de vida, no entanto isso levaria o país à estagnação econômica. E, como salientei há pouco, isso geraria uma absoluta divisão do Brasil em duas partes.


Folha – Ante esse quadro sombrio que o sr. acaba de descrever -que, em alguns aspectos, foge ao controle governamental-, como o presidente Lula conseguirá aplicar seu tão propalado programa social?

Skidmore – Não sei. Mas uma coisa é certa: ele deveria recuperar o idealismo que o PT tinha originalmente. Não é possível simplesmente manter um modelo de consumo elevado e esperar que a economia melhore. Sem sacrifícios, não haverá crescimento sustentado. O governo tem um política fiscal dura, mas não consegue obter grandes resultados com isso. O mais importante é que não existe no país um sentimento de que é preciso estabelecer prioridades para o desenvolvimento de todo o seu território. As autoridades do país estão à deriva.


Folha – Quais serão as conseqüências do agravamento das divisões existentes entre os Estados mais ricos e os mais pobres?

Skidmore – As conseqüências sociais serão graves. Em termos práticos, uma conseqüência básica é que será preciso impor sacrifícios à população e começar a taxar mais o consumo para gerar dinheiro para os investimentos. Os brasileiros não parecem entender que, para ter uma situação de prosperidade no futuro, é preciso começar a investir seriamente agora. A sociedade brasileira é centrada demais no consumo. Assim, o Brasil continuará dividido em dois.


Folha – Em termos históricos, como chegamos a essa situação?

Skidmore – A razão básica é que as melhores oportunidades para estabelecer prioridades surgiram na década de 60, quando os militares tomaram o poder. O problema é que os militares diziam ter políticas de desenvolvimento bem definidas e prioridades claras, mas, na verdade, não as tinham. Os militares apenas reforçaram a tendência de encaminhar a maior parte dos recursos para o Sudeste e para o Sul e o fizeram durante mais de 20 anos. Acredito que isso tenha desacreditado a idéia de que é preciso fazer sacrifícios para atingir níveis sustentáveis de desenvolvimento. Como reação ao regime autoritário, o Brasil acabou tendo um sistema partidário fragmentado e um modelo de desenvolvimento baseado no consumo, do qual a indústria automobilística se tornou um exemplo emblemático. Isso é muito custoso porque desvia dinheiro de investimentos mais importantes, como no setor da educação.

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A motivação dos quadros do PT é a ascensão social, não o desenvolvimento durável do Brasil

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Outro sintoma das imperfeições desse sistema é o mundo universitário. As universidades públicas brasileiras são um escândalo. A quantidade de dinheiro que sai dos cofres públicos para bancar esse sistema é enorme. E não há nenhuma inclinação na atual administração para atacar o problema mais grave desse sistema: o fato de o ensino ser gratuito. Esse também é um escândalo porque faz com que as diferenças sociais se agravem ainda mais. Os pobres pagam impostos para que os ricos estudem gratuitamente.


Folha – O sr. crê que o PT tenha perdido seu idealismo?

Skidmore – O poder tende a distrair os políticos, tirando sua atenção de certos temas. O PT sempre foi uma coalizão. De um lado, havia muitas pessoas que eram idealistas, que acreditavam em ideais de melhora social, mas não sabiam como fazê-lo. De outro, havia os pragmáticos. Agora o PT encaixou-se no clássico modelo de prosperidade brasileiro, que vê empregos públicos como forma de ascensão social.

Assim, o governo federal está aparelhando o Estado e elevando o peso dos gastos com funcionários públicos. Trata-se de uma tradição brasileira e de um modo de diminuir o desemprego e de agradar a seus simpatizantes. Contudo essa é uma atitude míope, que custa caro ao país.


Folha – O sr. acha que FHC também perdeu seu idealismo ao chegar à Presidência?

Skidmore – Sem dúvida, mas seu caso é mais complicado, pois ele não tinha os mesmos ideais que o PT. Não acredito que ele tenha a mesma visão de desenvolvimento que eu. FHC é mais parecido com um político brasileiro tradicional, embora seja bem mais elegante e inteligente. Não creio que ele possa imaginar que seja necessário sacrificar alguns hábitos das classes mais abastadas para atingir níveis sustentáveis de crescimento.

O problema com o PT é que seus membros pensavam que o governo brasileiro já tivesse a riqueza e que fosse preciso apenas redistribuí-la. Porém eles se esqueceram de que o Brasil não é, de jeito nenhum, um país rico e que, para desenvolver todo o seu território, é imprescindível ter prioridades. Com isso, eles abraçaram a tese desenvolvimentista baseada no consumo e nos juros altos e negligenciaram políticas que criariam condições para o crescimento futuro. O PT não é, em princípio, um partido desenvolvimentista. Temo que os políticos brasileiros tenham abandonado a idéia de que é preciso desenvolver todo o país, não apenas parte dele.

Ninguém mais fala do Nordeste, uma região que está ficando cada vez mais esquecida. Nesses dias que passei no Brasil, mal ouvi falar do Nordeste. Às vezes, tenho a impressão de que, para boa parte da população brasileira mais abastada, os Estados mais pobres simplesmente não existem.


Folha – O sr. não vê, portanto, luz no fim do túnel?

Skidmore – Não, pois não vejo líderes capazes de demonstrar o patriotismo necessário para a aplicação de políticas desenvolvimentistas que visam o longo prazo. Estas são dolorosas. Penso que o Brasil vá continuar nessa situação de divisão.

Acabei de escrever um artigo que compara a Coréia do Sul com o Brasil [que ainda não tem data de publicação], e as constatações são devastadoras. O que a Coréia do Sul fez desde a década de 70 em comparação com o que fez o Brasil é extraordinário. E, para piorar a situação, a Coréia do Sul é um país bem mais pobre que o Brasil no que se refere a recursos naturais. Assim, não creio que as elites brasileiras tenham aprendido as lições sobre desenvolvimento direto que deveriam ter aprendido e estão contentes com suas regalias.


Folha – O sr. pensa que a solução esteja num esforço conjunto entre países sul-americanos?

Skidmore
– Trata-se de uma grande bobagem. O único país da região que soube estabelecer prioridades e mudar sua sociedade foi o Chile. O restante dos Estados sul-americanos só usa a retórica para manter o status quo. O México também está numa situação desfavorável, pois privilegia o modelo de consumo norte-americano.


Folha – A única esperança é, conseqüentemente, esperar o surgimento de um “salvador da pátria”?

Skidmore – Já houve “salvadores da pátria”, como Jânio Quadros, na década de 60, e Fernando Collor de Mello, na de 90; contudo eles também não encontraram a solução do problema. Os brasileiros devem esperar que haja algum tipo de renovação do establishment político do país. Caso contrário, nada vai mudar. É preciso recuperar os ideais de desenvolvimento nacional que existiam na década de 60.

A motivação dos quadros do PT é a ascensão social, não o desenvolvimento durável do Brasil. Assim, uma renovação política é crucial.

Capital e Trabalho

Acho que o principal problema das análises do que a esquerda, sob inspiração marxista, chama de "relações capital – trabalho", está em imaginar que donos ou acionistas de empresas (o chamado "capital") são uma sub-espécie humana ontologicamente distinta da outra sub-espécie (o chamado "trabalho") — e que haveria unicamente essas duas sub-espécies no setor produtivo. Isso, se um dia fez sentido, hoje não faz mais.

Ou vejamos.

1) O setor produtivo hoje é composto, além da categoria dos DONOS OU ACIONISTAS de empresas e da categoria dos chamados TRABALHADORES (como se ninguém mais trabalhasse), de pelo menos duas outras categorias que não recebem muita atenção na análise marxista: a categoria dos EXECUTIVOS E GERENTES e a categoria dos PROFISSIONAIS. Executivos e gerentes, de um lado, e, de outro, profissionais (engenheiros, advogados, designers, consultores, especialistas em marketing, comunicação, treinamento, etc.) sempre existiram, mas são muito mais importantes hoje do que já o foram. Talvez eles não tenham recebido muita atenção nas análises de origem marxista também porque, em geral, são bem instruídos (curso superior é de rigueur), não raram recebem participação nos lucros ou mesmo participação acionária, e, por isso, raramente se sindicalizam e dificilmente se tornam massa de manobra da esquerda sindicalista.

2) As mudanças que a tecnologia vem introduzindo na sociedade, em especial no setor produtivo, têm avançado no sentido de diminuir a importância, no processo produtivo, daqueles que a esquerda chama de trabalhadores — o proletariado, ou o operariado, em geral pouco qualificado ou, quando não, qualificado em habilidades tipicamente manuais, rotineiras, bastante específicas, dificilmente transferíveis para outros setores. (Com o surgimento dos tornos computadorizados, por exemplo, o que fazer com as habilidades de um torneiro mecânico? Ou ele se "recicla", isto é, adquire outras habilidades mais requeridas pelo processo produtivo, ou ele se torna sindicalista e, eventualmente, político — funções que, por sinal, têm muita coisa em comum, em especial o seu parasitismo). Essas mudanças têm levado até mesmo alguns autores marxistas, como Adam Schaff (em A Sociedade Informática — tradução horrível de um título que, em Alemão, quer dizer "Para Onde Vai o Caminho" — Wohin Fährt der Weg, creio, é o título original), a afirmar que o proletariado, ou seja, a classe operária, dita trabalhadora, como a concebia Marx, acabou – c’est fini.

3) Assim, além da categoria (ou classe, if you will) dos donos ou acionistas de empresas, da categoria dos executivos e gerentes, e da categoria dos profissionais, surgiu, nos últimos anos, uma outra categoria, que se poderia dizer incluir pessoas razoavelmente bem escolarizadas (incluindo o Ensino Médio ou mesmo a Educação Superior) e com uma gama razoável de competências e habilidades, em grande parte flexíveis, que têm relativa familiaridade com a tecnologia, que trabalha em escritórios (secretárias, assistentes administrativos, chefes de seção administrativa, etc.) ou mesmo na fábrica (supervisores de processo em fábricas automatizadas, chefes de seção técnica, etc.), MAS que não se incluem NEM em nenhuma das três outras categorias mencionadas NEM na categoria dos chamados de proletários, operários, trabalhadores (no sentido quase pejorativo que a esquerda dá ao termo: analistas de esquerda, que falam muito acerca dos trabalhadores e operários, raramente o são, eles próprios) — até porque esta categoria, a dos proletários, operários, etc. está desaparecendo e a outra, a categoria que caracterizei neste item, está evidentemente crescendo.

4) Donos ou acionistas de empresas em geral trabalham, e trabalham muito, e, portanto, são trabalhadores (no sentido literal do termo, não no sentido pseudo-elogioso que lhe dá a esquerda, sentido esse que, na realidade, é

pejorativo) como quaisquer outros. É verdade que seu trabalho em regra não é braçal nem rotineiro — especialmente quando se trata de donos de grandes empresas, ou de empresas de serviços, ou, então, de acionistas. Um fenômeno que vem chamando a atenção de analistas não-marxistas é o crescimento vertiginoso dessa categoria de donos ou acionistas de empresas. De um lado, nunca se criaram tantas pequenas empresas como hoje, fazendo surgir inúmeros donos de empresas e empreendedores — e o Brasil é um dos países que ocupa a liderança no tocante ao crescimento do número de empreendedores. De outro lado, executivos, gerentes, profissionais, ou mesmo os trabalhadores descritos no item anterior, vêm investindo no mercado de ações, tornando-se, assim, acionistas de empresas até mesmo de grande porte.

5) Não há dúvida que há uma categoria de pessoas que possuem pouca qualificação, ou qualificação muito específica, que parecem ter saído perdendo com essa evolução. Refiro-me a pessoal da construção civil (pedreiros, carpinteiros, encanadores, eletricistas, e seus ajudantes), pessoal de limpeza (pública, institucional, ou doméstica), pessoal de apoio em restaurantes e hotéis, balconistas, cobradores de ônibus, diaristas no setor agrícola, etc. A menos que essas pessoas façam um upgrade em suas qualificações, não vão fazer parte dos bem sucedidos na nova economia (da informação, do conhecimento, das relações interpessoais).

6) Resta, por fim, falar dos desempregados e daqueles que a esquerda gosta de chamar de miseráveis — cujo número, no Brasil, é muito menor do que o alardeado pelo PT e pela esquerda em geral. Quando alguém fica desempregado, tem três alternativas:

A) Ou ele busca se qualificar / requalificar para arrumar um outro emprego (mas emprego, no sentido tradicional, existe cada vez menos — havendo livros que anunciam, como se necessário fosse, O Fim do Emprego);

B) Ou ele se torna autônomo — ainda que como vendedor ambulante, ou dono de um carrinho de cachorro-quente, etc. ou, preferivelmente, dono de um pequeno negócio;

C) Ou ele vira miserável e vai morar debaixo da ponte, passando a depender do Estado (isto é, daqueles que não estão na mesma sub-categoria que ele, podendo até mesmo estar nas outras duas sub-categorias, A e B).

Bom, listei pelo menos umas cinco categorias — ou classes, como preferem os marxistas. Poderia ter acrescentado outras: o pequeno proprietário rural, por exemplo. Embora essas categorias de certo modo compitam umas com as outras, elas não estão envolvidas em um conflito transcendental uma contra a outra, como o marxismo pretende em relação ao simplista "capital e trabalho". A luta de classes é a luta de cada um, dentro de cada uma dessas categorias ou classes, para sobreviver, primeiro, e, depois, para realizar o seu projeto de vida.

Não somos todos iguais — nem biológica nem psicologicamente. Não nascemos nos mesmos lugares nem, muito menos, das mesmas famílias. Uns tiveram a chance de nascer em berço esplêndido. Outros o azar de nascer em condições miseráveis. Uns tiveram pais que eram educadores. Outros tiveram pais que não davam valor à educação. Uns foram sustentados por seus pares até além do necessário ou recomendável. Outros nem conheceram os seus pais. As condições originais ou iniciais não são iguais para todos — e, portanto, é utópico imaginar que todos possam chegar aos mesmos lugares ou alcançar os mesmos resultados do ponto de vista social, econômico ou cultural.

Assim, se x trabalha para y, não faz nenhum sentido dizer que y explora x — ou se apropria, sem a devida remuneração, "da inteligência, da emoção e da energia" do empregado. Se y mandar x embora, este vai perceber como era bom "ser explorado" e ter um salário no fim do mês.

O que é evidente, é que a análise marxista é de uma pobreza a toda prova.

A autora do artigo abaixo observa e pergunta no final: "Fica a reflexão: o trabalhador, agora nomeado de capital intelectual ou capital humano está se dando conta dessa nova realidade, que também está sendo construída com e pelo seu consentimento?"

As minhas perguntas sobre isso são:

* Se o trabalhador (sic) não se dá conta dessa nova realidade, de quem a responsabilidade?

* Quem foi que disse que eu preciso dar meu consentimento às mudanças que outros estão promovendo na sociedade, ou que devo pedir consentimento dos outros para as mudanças que eu pretender realizar?

Paris, 1 de Maio de 2005

—–Mensagem Original—–

As mudanças na relação do capital com o trabalhador

Lydia M.P. Brito

Os novos modelos de gestão de empresa, de pessoas e da educação corporativa mobilizam os aspectos subjetivos do trabalho, envolvendo a cultura, os valores, o coração e a mente dos funcionários, num processo de aprendizado contínuo capaz de liberar a força criativa de cada um, projetada para atingir os resultados desejados pela organização. Ou seja, para defender os interesses do capital, manter sua competitividade no mercado e garantir seu lucro e sua sobrevivência, ao concentrar a inteligência, a emoção e a energia dos empregados nas estratégias empresariais.

A diferença da forma de compartilhamento natural do conhecimento e as novas formas de compartilhamento do conhecimento, promovidas pelas organizações, são o gerenciamento, a manipulação e o controle rigoroso do processo de aprendizagem a partir unicamente dos interesses do capital, fato que significa uma mudança sem precedentes na forma de gestão e educação de pessoas para o trabalho nas organizações, ao interferir direta e claramente na cultura organizacional e ao criar propositadamente um imaginário enganador na organização.

Essa nova forma de controle sobre o aprendizado organizacional constitui-se na forma mais sofisticada de apropriação e alienação do trabalho, iniciada pelo taylorismo/fordismo, que se apropriou dos movimentos, do tempo e dos ritmos do trabalhador, e que agora exige a apropriação por parte do capital também da teleologia, do conhecimento tácito (que muitas vezes o próprio trabalhador não se dá conta de que possui), do desejo, do abstrato, das formas de interação e da criatividade coletiva.

É importante registrar que, paralelamente à nova forma de gestão, estão sendo mudadas as relações de trabalho que, se antes obedeciam a um padrão legal e normativo surgido nos anos 30 e que garantiam estabilidade e direitos trabalhistas e que supunham uma série de regras escritas consentidas pelo patrão e empregado, tais como horário de trabalho, salários, benefícios e direitos trabalhistas garantidos constitucionalmente, agora começam a apresentar a possibilidade de serem "desreguladas" e "flexíveis", baseadas em contratos implícitos, isto é, apenas verbais e não formalizados.

Essa situação geraria, como principal foco de tensão, a administração de um contrato de trabalho rompido pelo empregador. Assim, o trabalhador teria que se sujeitar a realizar trabalhos, abrindo mão da formalidade e conseqüentemente de seus direitos, para se manter no mercado. A problemática torna-se explícita ao pegarmos o caso emblemático da GE, por exemplo, que é uma das dez maiores empresas do mundo em receita e capitalização, considerado de maior sucesso na aplicação do modelo.

Nos anos 1980 a GE possuía uma receita de 52 bilhões de dólares anuais e 404.000 funcionários. No fim dos anos 1990 aumentou para uma receita de 450 bilhões de dólares e diminuiu para 229.000 o número de funcionários, ou seja, aumentou seu lucro em 800% e diminuiu o número de empregados praticamente para a metade. Fica a reflexão: o trabalhador, agora nomeado de capital intelectual ou capital humano está se dando conta dessa nova realidade, que também está sendo construída com e pelo seu consentimento?

Lydia M.P. Brito é autor do recém-lançado livro Gestão de competências, gestão do conhecimento e organizações de aprendizagem – Instrumentos de apropriação pelo capital do saber do trabalhador.

Impostos – A molecagem do governo

Parece que a primeira fase da luta contra o conteúdo da Medida Provisória 232 e dos princípios que ela incorporava foi ganha. Dizem as notícias:

"O governo decidiu corrigir a tabela do Imposto de Renda Pessoa Física por meio de uma nova medida provisória a ser editada ainda hoje [31/03/2005]. O texto irá revogar todos os outros pontos da medida provisória 232, como o aumento de tributo aos prestadores de serviços e o recolhimento na fonte do Imposto de Renda para produtores rurais"

(http://www1.folha.uol.com.br/folha/dinheiro/ult91u94932.shtml)

Mas a guerra está longe de estar ganha. O governo promete que:

"Hoje mesmo o governo vai enviar ao Congresso um novo projeto de lei que trará compensações para os cofres públicos devido à perda de arrecadação com a correção da tabela do IR" (Idem, ibid).

Esse princípio da "compensação" é que precisa ser agora contestado com vigor, para que o projeto de lei enviado não seja aprovado nesse aspecto.

Por que faz sentido reivindicar correção da tabela de Imposto de Renda?

Porque, ainda que anualmente pequena, há inflação no país. Somados os anos em que não tem havido correção da tabela do Imposto de Renda dos assalariados, apesar de ter havido inflação, a correção necessária não seria pequena: seria da ordem de 50%. O governo, depois de muita pressão, concordou, no final do ano passado, em corrigir a tabela em 10% — e, por cima, fez a sacanagem / molecagem que recebeu merecido repúdio da sociedade.

Que é uma sacanagem explícita esse princípio da compensação fica claro do seguinte:

1) A necessidade de corrigir a tabela decorre da inflação. Como há inflação, e, mesmo sem indexação, há reajustes salariais, por causa da inflação, a cada ano que passa, sem que seja corrigida a tabela, há um aumento real dos impostos pagos pelos assalariados, que passam a ganhar um pouco mais mas têm os seus descontos feitos com base em uma tabela não reajustada. OU seja: o governo já vem sendo compensado há cinco anos pela correção da tabela ora contemplada, que, é bom repetir, incorpora apenas 20% da correção necessária (deveria ser 50%, foi proposto 10%).

2) Com a inflação, cresce a receita das empresas (e não só o salário dos empregados), que passam a pagar mais impostos — sendo esta uma segunda fonte de compensação do governo.

3) Além disso, tem havido crescimento na economia, mesmo descontada a inflação, o que aumenta também a arrecadação do governo — o produz uma terceira fonte de compensação do governo.

Não é à toa que o governo vem anunciando recorde atrás de recorde em arracadação.

E agora vem com essa piada de que necessita de compensação??? Compensação ele já a teve, e muito maior do que o gasto que terá com a correção agora contemplada, que é, nunca é demais repetir, de apenas 20% do total que deveria estar sendo aplicado à tabela.

Mas além do princípio da compensação o governo tem invocado um outro princípio em defesa da molecagem que fez no final de 2004 (na verdade, já em 2005, com data atrasada para poder vigorar a partir deste ano). Esse princípio é, supostamente, o da eqüidade fiscal.

Argumenta o governo que a pessoa física pagaria imposto de renda de até 27,5% sobre os rendimentos do salário, e que, por isso, muitas pessoas físicas criam uma empresa para adquirir uma identidade jurídica, que lhe permite pagar menos impostos.

Diga-se, de passagem, que com esse argumento este governo já reajustou a base de cálculo dos prestadores de serviço que pagam Imposto de Renda sobre o lucro presumido de 12% para 32% do faturamento. Agora pretendia aumentar ainda mais essa base de cálculo, de 32% para 40% do faturamento.

Em relação a esse argumento (totalmente fajuto) da eqüidade fiscal, há que se considerar o seguinte:

1) A maior parte das pessoas físicas que criam uma empresa o fazem, não por iniciativa própria, com o objetivo de praticar a chamada elisão fiscal (sonegação legal), mas, sim, por exigência de seus clientes, em geral grandes empresas ou grandes organizações não governamentais. Pela legislação trabalhista vigente, pode presumir-se vínculo trabalhista se eu, pessoa física, prestar serviços regularmente, como autônomo, mediante recibos, a uma empresa ou organização não governamental. Por isso, nenhuma dessas instituições quer deixar que se caracterize uma prestação de serviços regular para elas por parte de autônomos. Assim, exigem que o prestador de serviços crie uma "firminha" para permitir que a empresa ou organização não governamental pague a uma outra empresa pelo serviço, não a um autônomo.

2) Da mesma forma que essa medida traz benefícios à empresa ou organização não governamental contratante, que não tem de recolher FGTS, INSS, etc., traz prejuizos ao prestador de serviços, que, é verdade, paga um pouco menos de imposto de renda, mas, em compensação, não ganha férias, décimo terceiro, seguro saúde, etc. etc.

3) Assim sendo, o imposto de renda menor da empresa prestadora de serviços se dá por causa desses prejuizos que o prestador de serviço dono da empresa tem — não porque ele quer pratica elisão fiscal.

Por enquanto é isso. Precisamos manter a pressão sobre os amigos do dinheiro alheio que habitam os palácios governamentais.

Campinas, SP, em 31 de Março de 2005