A questão das cotas

O texto abaixo foi originalmente escrito em 2/10/2003. Transcrevo-o aqui porque é ainda relevante. Recentemente a USP anunciou que vai dar aulas para alunos do Ensino Médio que tenham bom desempenho nos testes do governo… Uma universidade que vive reclamando de falta de verba, vai se meter a dar aula de Ensino Médio. Já critiquei isso em outra matéria neste blog. Aqui simplesmente transcrevo o texto que descreve (corretamente — os fatos provam) o processo.

Eu previ – e está acontecendo. Vou prever mais um pouco:

Primeiro, você constata que um determinado grupo na sociedade (como, por exemplo, os negros, ou "afrodescentes") tem, em sua média, desempenho pior do que o da média de todos os membros da sociedade em relação a um determinado parâmetro (como, por exemplo, ingresso na universidade pública).

Segundo, você atribui esse pior desempenho a uma discriminação da sociedade contra esse grupo.

Terceiro, você sugere que a única forma de vencer essa discriminação é através de uma medida discriminatória (chamada, agora, de anti-discriminatória) que trate os que em tese são discriminados de forma favorecida.

Quarto, você estabelece o sistema de cotas (no acesso à universidade pública) para os membros desse grupo (no caso, os negros), medida essa que tem amplo apoio de significativos setores da esquerda igualitária ou anti-desigualitária, que luta pelo fim de toda forma de discriminação e de desigualdade.

Quinto, você constata que os beneficiários dessa medida discriminatória (rotulada de anti-discriminatória) têm desempenho na média pior do que o dos que entraram na Universidade pela porta da frente. (Em geral se espera alguns anos para constatar isso: aqui isto já está sendo constatado antes do fato, de forma "preemptiva").

Sexto, você já anuncia, de antemão, que os (agora) beneficiados pela discriminação das cotas serão (mais uma vez) discriminados em decorrência do programa que foi instituído a pedido deles próprios.

Sétimo, você reivindica ajuda financeira e programas remediais para os cotados. para que possam melhorar seu desempenho.

Oitavo, diante da continuidade (inevitável) da diferença de desempenho, em prejuízo dos cotados, se afirmará que as causas do problema estão no fato de que a "cultura" que lhes é transmitida na universidade é uma cultura alheia e alienante — no caso, a cultura dos brancos ou a dos europeus (não a cultura que lhes é própria, a dos negros e dos africanos).

Nono, você institui na universidade programas de estudos africanos, ou negros, ou afro-brasileiros e dá permissão aos cotados de trocarem cursos do currículo em que se julgam prejudicados por cursos desses programas.

Décimo, você argumenta que ninguém pode ministrar aulas nesses programas a não ser que seja negro, pois as especificidades da cultura e da história negra exigem uma pigmentação especial para serem corretamente compreendidas e aprendidas.

Décimo primeiro, você argumenta que os currículos da educação fundamental também precisam ser des-discriminados com a introdução de cursos de história e cultura negra.

Décimo segundo, com isso você cria um mercado de trabalho que anteriormente não existia para os negros ou negrodescendentes.

Décimo terceiro, você descobre que a sociedade continua achando que essa coisa toda foi montada para criar oportunidades de emprego para quem não teria condições de obtê-los em condições normais.

Décimo quarto, você diz que branco não tem jeito mesmo: é racista pela sua genética — hereditariamente racista, como se fosse.

Décimo quinto, as relações entre as pessoas de cor diferente acabam se tornando piores do que eram antes.

Transcrito em Washington, 21 de Maio de 2005

  1. Estive já pensando sobre esse assunto várias vezes, é complicado definir algo e posicionar-se. Mas a primeira impressão que se tem é de que isso realmente gera mais preconceito, apesar de que é uma tentativa de oportunizar um espaço àqueles que em outras situações são "excluídos". Mas enfim, acho que é necessário discutir, experimentar, ouvir… E então tomar novos rumos.

    Curtir

  2. Nem é preciso dizer o quão polêmico é esse assunto, porém penso que só o fato dele ter suscitado tantas discussões a respeito, já cumpriu um grande propósito.Talvez o maior equívoco tenha sido tornar étnica uma questão que é social e que é muito mais complexa e abragente, afinal há pessoas te todas a etnias em situação de exclusão.Infelizmente ainda teremos de esperar o passar dos anos para que os resultados previstos sejam constatados e somente então novas diretrizes (boas ou não) serão determinadas.

    Curtir

  3. Realmente o problema das cotas é complicado.O que ocorre hoje é que o governo está criando uma medida que é no mínimo polêmica, pois se vc constata uma discrepância no contexto educacional, não é através de uma medida unilateral que vc vai conseguir sanar.Deveria ter, por parte do governo, uma politica educacional de efeito que pudesse alterar esse desequilíbrio (se é que ele existe na forma como é colocado) e não simplesmente criar um mecanismo que atrapalha toda a sociedade dentro da programação que ela faz para o futuro.Aquele aluno que saiu da rede pública e fez simplesmente o terceiro ano do ensino médio na rede particular (e que a lei não previa essa descriminação), como é que fica??Teremos que consultar sempre a bola de cristal ou alguma "Mãe Dinah" para que possamos prever as atitudes de um "governo popular"?

    Curtir

  4. Pingback: Os Views dos Meus Artigos Aqui, « Liberal Space: Blog de Eduardo Chaves

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s

%d blogueiros gostam disto: