O dilema de Lulla

Luís Nassif propõe, na Folha de hoje (28/6/2005), como uma das saídas da crise, algo radical, como uma emenda parlamentarista…

Ora, o governo atual era parlamentarista, mesmo que o regime continuasse presidencialista. E deu no que deu.

Lulla delegou amplos, gerais e irrestritos poderes ao Zé Dirceu. Todas as nomeações e todos os acordos políticos passavam por ele. Lulla o colocou como coordenador de todos os outros ministérios. Na prática, só a Fazenda ficou fora, e ficou fora porque o Palocci estava fazendo um bom trabalho: se desse um tropeço, o Dirceu o derrubaria — e olha que tentou. Só faltou ao Lulla chamar ao Zé Dirceu de Primeiro Ministro.

A crise, portanto, chegou ao cerne do governo. O Chefe do Governo, para todos os fins práticos, era o Zë Dirceu — e esse governo já foi derrubado: bastou o Roberto Jefferson dizer "Sai daí, Zé", para que o governo de Zé Dirceu fosse derrubado.

Pode ser que não atinja o Presidente (que desempenha funções meramente protocolares, como se fosse a Rainha da Inglaterra). Pode ser que não o atinja, mas duvido. Diferentemente do caso de um real parlamentarismo, em que o Primeiro Ministro é eleito, aqui no Brasil ele foi escolhido pelo Presidente, que era seu amigo de longa data. Além disso, como bem assinalou a Heloísa Helena, no PT tudo é feito de forma colegiada, ninguém toma decisões sozinho, isolado do "coletivo"…

Assim, como já disse em mensagens anteriores, ou Lulla sabia de tudo, em cujo caso é corrupto como os demais, ou não sabia, em cujo caso é o Presidente mais incompetente que esta nação já teve — e olhem que a concorrência é forte.

Jânio de Freitas, em sua coluna de hoje, também na Folha, afirma que, apesar de haver gente tentando esparramar a notícia de que não "há de grave nas relações entre Lula e José Dirceu", simples e taxativamente: "Há."

Nelson de Sá, em sua coluna de hoje, ainda na Folha, afirma que o Blog do Noblat esclarece que a Polícia Federal informou a Lula e "a quem de direito que começam a surgir indícios capazes de comprometer Dirceu".

Ao mesmo tempo, esparramou-se pelo Brasil inteiro a notícia de que Lulla teria desabafado a alguns íntimos que dois ou três dos seus assessores que "não mereceram a confiança". Claramente Dirceu parece ser um deles. Mas quem escolheu assessores (mais do que isso: Chefe de Governo) imerecedores de confiança?

O dilema que eu coloquei atrás na verdade merece um acréscimo. É o seguinte:

Se Lulla sabia, além de corrupto é cínico. Se não sabia, é de uma incompetência a toda prova.

Em Campinas, 28 de Junho de 2005

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