A "externalização" do trabalho: o trabalho "invisível"

No mais recente livro de Alvin Toffler (Revolutionary Wealth, publicado no mês passado), ele tem uma seção interessante sobre a “externalização do trabalho”. As empresas já faziam a terceirização do trabalho (que em Inglês se chama “outsourcing”). Externalização (que em Inglês é “externalization” mesmo) é algo diferente. Uma empresa terceiriza parte de seu trabalho para outra empresa. As duas empresas continuam na economia do dinheiro (vamos chamá-la assim: em Inglês é “money economy”). No caso da externalização, o trabalho não é feito por outra empresa: é feito pelos clientes — sem que, normalmente, eles sejam pagos por isso. Quando são pagos, são pagos na forma de menores preços. Isso faz com que uma quantidade enorme de trabalho simplesmente desapareça dos índices econômicos, porque ele não é pago, e, conseqüentemente, não é monetarizado.
A coisa começou lá atrás, mas só agora adquire proporções gigantescas.
Em 1916 foi inventado o supermercado. Antes de ele existir, nos armazéns e empórios as pessoas chegavam, falavam com o dono ou um seu funcionário, pediam o que queriam, o dono ou o funcionário pegava, pesava (se necessário), embrulhava e entregava ao freguês, que pagava e levava a mercadoria embora. Às vezes um menino do estabelecimento até mesmo levava a mercadoria até à casa do freguês. Com o supermercado, os fregueses (agora chamados de clientes) fazem a maior parte do trabalho. Eles procuram o que desejam, eles mesmos pegam da prateleira e colocam no carrinho de compra o que vão levar, quando os produtos precisam ser pesados (como frutas, verduras, vegetais), eles mesmos, clientes, os pegam, colocam em saquinhos plásticos, pesam e etiquetam, etc.
Na maior parte dos supermercados ainda há uma pessoa operando como caixa, que escaneia os produtos e recebe o pagamento. Os clientes em geral empacotam os produtos eles mesmos. Mas a pessoa operando como caixa já não existe em muitos locais nos EUA. Lá já há vários supermercados que têm alguns caixas sem gente… O cliente, ele próprio, escaneia o produto, passa o cartão de crédito no local indicado, autoriza o pagamento, recebe a Nota Fiscal, empacota, e vai embora, ele mesmo empurrando o carrinho, sem interagir com um ser humano. (Isso exige, naturalmente, um certo nível de confiança – alimentada por sistemas de fiscalização, em geral remotos, via câmeras). Em outras palavras: o cliente faz o serviço que, anteriormente, era feito por vários empregados. E não é pago por isso. É verdade que, com a economia em mão de obra, o supermercado pode oferecer preços menores — e é por isso que os clientes se prestam a fazer parte do seu serviço, sem outra remuneração além do preço menor, “externalizando” o trabalho do supermercado. Mas o preço menor indica menor faturamento (embora o supermercado possa aumentar o faturamento vendendo para mais pessoas ou vendendo mais para as mesmas pessoas). A economia de recursos financeiros some da economia formal, monetarizada.
Postos de abastecimento de combustível nos EUA eram como no Brasil: tinham antendentes, que colocavam combustível, limpavam o parabrisa, checavam a pressão dos pneus, etc. Depois começaram a oferecer algumas bombas de self-service — com preço mais barato… Ali o cliente para, abre o reservatório de combustível, aperta os botões indicados, libera combustível, enche o tanque, fecha o reservatório, passa o cartão de crédito no local indicado, pega o recibo e vai embora — sem interagir com um ser humano. O incentivo: preço mais barato do combustível naquelas bombas self-service. Hoje tudo é self-service: isso quer dizer que o trabalho foi totalmente “externalizado” para o cliente, que na realidade trabalha (sem remuneração) para o posto de abastecimento. Se você precisar de ajuda de um atendente, está mal: na maior parte dos postos americanos, não vai encontrar. E ninguém sabe se a economia feita na eliminação dos atendentes continua a se traduzir em menores preços, porque não há como comparar o preço das bombas self-service com o preço das bombas “full service”, que não existem mais…
E os bancos? Antes a gente era atendido por caixas-gente. Depois passamos a transacionar com o banco com caixas-gente através do telefone (Itau Bankline, por exemplo). Hoje interagimos com caixas eletrônicos, sem que haja gente do outro lado. Ou interagimos com o banco pela Internet — também sem que haja gente do outro lado. Os caixas-gente foram demitidos. O lucro do banco aumentou — mas o preço de nossas interações com o banco continua, para nós, o mesmo — ou maior. Os bancos hoje prestam muito mais serviços, com muito menos gente… Porque grande parte do trabalho foi “externalizado” para os clientes, que não são pagos para trabalhar para o banco…
Antes, quando a gente enviava um pacote pelo Federal Express, tinha de ligar pra eles, dar o número do protocolo para uma atendente, esta verificava no computador deles e nos dava uma previsão de entrega. Hoje não há mais a atendente: a gente mesmo entra na Internet, digita o número do protocolo, e verifica exatamente onde está o pacote… Mais “externalização” do trabalho para os clientes, trabalho que é feito sem remuneração.
Estive num restaurante estilo “fast food” em Chicago — especializado em sanduíches — em que a gente chega, interage com um terminal, escolhe o que quer, define os ingredientes do sanduíche, o tipo de pão, os molhos, se quer bebida, qual, de que tamanho, etc. — e recebe um protocolo. Cinco ou dez minutos depois é chamado: o sanduíche está pronto. Não há mais garçon. Há quem faz o sanduíche e quem recebe o pagamento — este podendo facilmente ser eliminado se o sistema exigir que você pré-pague o que comprou com um cartão de crédito. “Externalização”.
E assim vai.
Alvin Toffler estima que o PNB mundial seria dobrado se fossem contabilizados esses trabalhos externalizados, mais aqueles trabalhos que fazemos em casa, ao educar nossos filhos, ao cuidar da casa, ao cuidar dos doentes da família, ao ajudar os vizinhos, ao cuidar de nosso jardim, ao lavar e até mesmo consertar nosso carro, etc.
Voltarei ao tema.
Em Chicago, 7 de maio de 2006

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