Jennifer Tong

Estou voltando mais uma vez de Taiwan. Desta vez rodei bastante: Taipei, Sun Moon Lake, Taichung, Changhua, Hsinchu e Taipei de novo. Gostei muito de Sun Moon Lake — mas vou deixar para escrever sobre o local — a mais visitada atração turística de Taiwan — uma outra hora.

Aqui quero prestar uma homenagem a uma pessoa extremamente interessante que conheci: Jennifer Tong, “my personal tour guide” durante a viagem a Sun Moon Lake. No ano passado, quando visitei Hualien e o Taroco State Park, fui com um “personal tour guide”. Mas ele não falava muito bem o Inglês e, aqui entre nós, não tinha um papo interessante. Desta vez, porém, saí premiado. Esperava na frente do hotel The Tango, em Taipei, quando chegou uma senhora pequena, magrinha, com idade próxima da minha, com cabelo de trancinhas, como o cabelo de meninhas, só que coberto com um pano, ao estilo das camponesas que trabalham ao sol. Seus dentes, amarelados e todos fora de linha. Carregava apenas uma sacolinha de plástico e uma bolsa. Era minha guia. Atrasada quase meia hora. Minha primeira reação foi mais ou menos um “Ai, meu Deus, o que foi que me arrumaram desta vez?”… Mas quando ela falou comigo, desculpando-se pelo atraso, tive minha primeira surpresa: seu Inglês era perfeito, com um leve sotaque britânico… Entrei no taxi com ela e começamos a conversar — e foi surpresa atrás de surpresa…

Seu nome era Jennifer Tong.

Ainda no carro perguntei a ela onde havia aprendido o Inglês. Ela disse: “O senhor provavelmente não vai acreditar”. Eu lhe disse, naturalmente, que não imaginava por que não iria acreditar no que ela me dissesse… Mas eu estava errado. A história foi longa. Quando percebi que seria longa, perguntei a ela quanto tempo tínhamos para pegar o trem — ela havia chegado com cerca de meia hora de atraso. Ela me disse: “Temos várias opções. Não devemos nos estressar. Há um trem às 8h45, que acho que já perdemos. Mas há outro às 9h05, outros às 9h30… Não temos problema. Além disso, nosso roteiro e nossos horários somos nós que fazemos. Portanto, fique tranqüilo. Disse OK e continuei a ouvir a história dela. Nasceu em Taipei e, segundo me disse, nunca saiu de lá a não ser para uma rápida viagem a Cingapura, acompanhando uns comerciantes de flores. Só estudou Inglês no Ensino Médio, três anos — e o pai era seu professor. Aprendeu bastante com ele, me disse, mas o seu domínio da língua inglesa não vinha daí: vinha de uma vida anterior. Em uma prévia encarnação, me garantiu, havia vivido na Inglaterra — mais especificamente, em Cambridge.

Parou, tomou fôlego, e me perguntou: “O senhor acredita?”

O que é que um cético como eu diz numa hora dessas sem ser deselegante? Tentei sair pela tangente e lhe disse algo assim: “Não tenho razão nenhuma para duvidar de você e tenho certeza de que você acredita no que está me dizendo”. Mas ela não deixou por menos: “Mas o senhor acredita que aquilo que eu estou dizendo é verdade?” Não tive saída. Disse-lhe que não acreditava na reencarnação e que, portanto, achava muito difícil acreditar na história dela. “Mas, então”, continuou ela, “como o senhor explica o meu Inglês?”. Disse-lhe que não tinha a menor idéia de como explicar — mas que tinha de admitir que o Inglês era perfeito e tinha um leve sotaque britânico.

Ela continuou a sua história. A essas alturas já havíamos chegado à estação ferroviária, tomado o trem de alta velocidade, e estávamos cruzando a costa leste de Taiwan, rumo a Taichung.

Desde criança, continuou ela, sonhava com um determinado lugar. Explicou-me em detalhes o lugar, o estilo das casas, sua cor, as árvores, uma taverna, o dono da taverna, as bebidas que havia atrás do balcão, etc. Sempre tinha esse sonho. Quase toda noite. Tanto que contou o sonho para as amigas mais chegadas, que ficaram tão familiarizadas com o lugar virtual como ela mesma…

Um dia, me disse, uma amiga dessas amigas suas voi passear pela Inglaterra e, na volta, lhe disse: “Você tem de ver isso” — e lhe mostrou fotos de Cambridge, idênticas, nos mínimos detalhes, a tudo que ela via em seu sonho recorrente… Para Jennifer, não podia haver outra explicação: em vida anterior, havia sido vivido em Cambridge, e, por isso, conhecia tão bem a cidade, apesar de nunca ter estado lá. E por isso falava tão bem o Inglês, apesar de ter estudado pouco e de nunca ter vivido, ou mesmo ido passear, em países que falavam Inglês, exceto, naturalmente, Cingapura, onde se fala um Inglês bastante diferente do falado em Cambridge…

Como essa, houve outras histórias, sempre interessantes. O tempo passou rápido. Para tudo ela tinha uma explicação. E eu não tinha como verificar se as explicações eram verídicas — mas nem tinha interesse em fazê-lo. As histórias eram suficientemente interessantes em si mesmas, ainda que fictivas.

Em Chicago, 17 de Maio de 2008

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