Pensar muitas vezes dói…

Meu último post aqui neste Space, no dia 20/3, teve o título de “Verdades absolutas e conhecimento relativo”. Terminei-o me referindo a Popper e afirmando:

“A busca da verdade se dá, segundo Popper, no exame sério, rigoroso e imparcial de pontos de vista que conflitam com os nossos. É neles que vamos eventualmente ser capazes de identificar pontos fracos em nossas formulações, em nossos argumentos, em nossas evidências – e, assim, conseguir avançar um pouco mais na direção da verdade. Quando a gente rejeita o que antes considerava verdadeiro, faz um progresso significativo na direção da verdade.”

Hoje, domingo, 29/3, encontro na Folha de S. Paulo, o interessante artigo, transcrito abaixo, de Nicholas D. Kristof, sobre a leitura de notícias e opiniões (que caracterizam os jornais) pela Internet. O artigo foi originalmente publicado em The New York Times.

Vale a pena ler – embora não concorde com o principal ponto dele, a saber, a tese de que a leitura de notícias e artigos de opinião pela Internet está restringindo a pluralidade de pontos de vista que era representada pelos jornais – porque na Internet, supostamente, cada um vai e seleciona apenas as notícias que lhe interessam e os pontos de vista com os quais concorda.

Discordo de Kristof por uma solitária razão que passo a resumir. 

Mesmo antes da Internet, quando as pessoas buscavam notícias e opiniões em jornais, e não na Internet, cada um (com exceção de alguns leitores profissionais) tinha o seu jornal favorito. Em São Paulo, por exemplo, os mais conservadores liam o Estadão, os mais – como direi? – metidos a progressistas liam a Folha. No Rio, o Globo e o JB desempenhavam função semelhante. 

A tendência de buscar alimento intelectual ou munição para discussões em pessoas que pensam mais ou menos como a gente é uma tendência natural – independentemente da Internet. É por isso que precisa ser combatida – e Popper é o antídoto por excelência a ela.

A Internet, na verdade, nos oferece mais diversidade do que um jornal como o Estadão ou a Folha jamais o fez. Basta estarmos interessados em buscá-la. O problema não é a Internet: é a falta de interesse da maioria das pessoas em analisar com cuidado possíveis falhas em suas idéias favoritas – quanto mais em procurar opiniões de pessoas  que discordem delas.

É essa mesma atitude que explica a relutância da maior parte das pessoas que têm religião de assistir a serviços religiosos em igrejas (sinagogas, mesquitas) diferentes da sua. Em seus próprios locais de culto elas se sentem confortáveis sabendo que o que vão ouvir tenderá a reforçar aquilo em que já acreditam. Num serviço religioso diferente seriam provavelmente obrigadas a pensar (e numa roda de ateus, então, nem se diga) – e pensar muitas vezes dói…

Foi por isso que Bertrand Russell uma vez disse que a maioria das pessoas prefere morrer a pensar (e muitas dessas de fato morrem sem ter jamais realmente pensado um pensamento divergente daqueles que lhes foram incutidos na infância pelos aparelhos de formação de opinião que existem na sociedade).

Em São Paulo, 29 de Março de 2009

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Do New York Times
Transcrito na Folha de S. Paulo
29 de Março de 2009

ARTIGO

O meu jornal diário

Ao contrário do jornal, internet nos leva a buscar ideias afins às nossas e vai nos isolar ainda mais em nossas câmaras políticas hermeticamente fechadas

NICHOLAS D. KRISTOF
DO "NEW YORK TIMES"

Alguns dos obituários mais recentes não estão saindo nos jornais, mas são dos jornais. O "Seattle Post-Intelligencer" é o mais recente a desaparecer, excetuando um resquício de que vai existir só no ciberespaço, e o público está cada vez mais buscando as notícias que consome não nas grandes redes de televisão ou em fontes impressas em tinta sobre árvores mortas, mas em suas incursões on-line.

Quando navegamos on-line, cada um de nós é seu próprio editor, o guardião de sua própria entrada. Selecionamos o tipo de notícias e opiniões de que mais gostamos.

Nicholas Negroponte, do MIT (Instituto de Tecnologia de Massachusetts), chamou a esse produto noticioso emergente "O Meu Jornal Diário". E, se isso for uma tendência, que Deus nos salve de nós mesmos.

Isso porque existem provas bastante convincentes de que, em geral, não desejamos realmente informações confiáveis, e sim as que confirmem nossas ideias preconcebidas. Podemos acreditar intelectualmente no valor do choque de opiniões, mas na prática gostamos de nos encerrar no útero tranquilizador de uma câmara de ecos. Um estudo clássico enviou despachos a republicanos e democratas, oferecendo-lhes vários tipos de pesquisas políticas, ostensivamente de uma fonte neutra. Os dois grupos mostraram mais interesse em receber argumentos inteligentes que corroborassem suas ideias preexistentes.

Também houve interesse mediano em receber argumentos tolos em favor das posições do outro partido (nós nos sentimos bem quando podemos caricaturar os outros). Mas houve pouco interesse em estudar argumentos sólidos que pudessem enfraquecer as posições anteriores de cada um. Essa constatação geral foi repetida muitas vezes, como observou o autor e ensaísta Farhad Manjoo em 2008 em seu ótimo livro "True Enough: Learning to Live in a Post-Fact Society" [Verdade Suficiente: aprendendo a viver numa sociedade pós-fatos].

Permita que deixe uma coisa clara: eu mesmo às vezes sou culpado de buscar verdades na web de maneira seletiva. O blog no qual busco análises sobre notícias do Oriente Médio frequentemente é o do professor Juan Cole, porque ele é inteligente, bem informado e sensato -em outras palavras, frequentemente concordo com ele. É menos provável que leia o blog de Daniel Pipes, especialista em Oriente Médio que é inteligente e bem informado -mas que me parece menos sensato, em parte porque frequentemente discordo dele.

Segregação

O efeito do "Meu Jornal" seria nos isolar ainda mais em nossas câmaras políticas hermeticamente fechadas. Um dos livros mais fascinantes de 2008 foi "The Big Sort: Why the Clustering of Like-Minded America is Tearing Us Apart" [A grande classificação: porque a divisão da América em agrupamentos de ideias iguais nos está dividindo], de Bill Bishop.

Ele argumenta que os americanos vêm se segregando em comunidades, clubes e igrejas onde são cercados por pessoas que pensam como eles.

Hoje, diz Bishop, quase metade dos americanos vive em condados que votam por maioria avassaladora em candidatos democratas ou republicanos.

Nos anos 60 e 70, em eleições nacionais igualmente d
isputadas, só cerca de um terço dos eleitores vivia em condados que apresentavam maiorias avassaladoras nas eleições.

"O país está ficando mais politicamente segregado -e o benefício que deveria advir da presença de uma diversidade de opiniões se perde para o sentimento de estar com a razão que é próprio dos grupos homogêneos", escreve Bishop.

Um estudo que abrangeu 12 países concluiu que os americanos são os que demonstram menos tendência a discutir política com pessoas de visões diferentes, e isso se aplica especialmente aos mais bem instruídos. Pessoas que não concluíram o ensino médio tinham o grupo mais diversificado de pessoas com quem discutiam ideias. Já as que tinham concluído a faculdade conseguiam colocar-se ao abrigo de ideias que lhes eram incômodas.

O resultado disso é a polarização e a intolerância. Cass Sunstein, professor de direito em Harvard que agora trabalha para o presidente Obama, fez uma pesquisa que mostrou que, quando progressistas ou conservadores discutem questões como ação afirmativa ou mudanças climáticas com pessoas que pensam como eles, suas ideias rapidamente se tornam mais homogêneas e mais extremas que antes da discussão.

Em um estudo, alguns progressistas inicialmente temiam que as ações para enfrentar as mudanças climáticas pudessem prejudicar os pobres, enquanto alguns conservadores inicialmente se mostravam a favor da ação afirmativa. Mas, depois de discutir a questão durante 15 minutos com pessoas que pensavam como eles, os progressistas se tornavam mais progressistas, e os conservadores, mais conservadores. O declínio da mídia noticiosa tradicional vai acelerar a ascensão do "Meu Jornal"; vamos nos irritar menos com o que lemos e veremos nossas ideias preconcebidas confirmadas com mais frequência. O perigo é que esse "noticiário" autosselecionado aja como entorpecente, mergulhando-nos num estupor autoconfiante por meio do qual enxergaremos as coisas em preto e branco, sendo que os fatos normalmente se desenrolam em tons de cinza.

Qual seria a solução? Incentivos fiscais para progressistas que assistam a Bill O’Reilly [comentarista do canal conservador Fox News] ou conservadores que vejam Keith Olbermann [âncora do canal progressista MSNBC]? Não -enquanto o presidente Obama não nos dá o atendimento médico universal, não podemos correr o risco de um aumento grande no número de infartos.

Então talvez a única maneira de avançar seja que cada um se esforce por conta própria para fazer uma malhação intelectual, enfrentando parceiros de discussão cujas opiniões deploramos. Pense nisso como uma sessão diária de exercícios mentais análoga a uma ida à academia: se você não se exercitou até transpirar, não valeu. Agora, com licença. Vou ler a página de editoriais do "Wall Street Journal".

Tradução de CLARA ALLAIN

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