Modelos de educação e de educação a distância

Estou convicto de que há, claramente, dois modelos de Educação a Distância (que correspondem a dois modelos de Educação). E vou discuti-los esperando, no final, quem sabe, lançar um filete de luz sobre a questão dos estilos de aprendizagem.

Modelo 1 de Educação

Segundo um modelo (que, no contexto a distância, eu normalmente chamo de Ensino a Distância), educar é transmitir informações, conceitos, princípios, procedimentos, etc. e o processo é basicamente unidirecional: vai do transmissor (o ensinante) para o receptor (o suposto aprendente). Em Inglês, fala-se sem pejo algum que educar tem que ver com “entregar conteúdo” (deliver content) – e é o professor-ensinante que entrega o conteúdo ao aluno-aprendente (como o entregador de pizzas entrega pizzas em casa – o sistema corretamente se chama de “delivery”). Paulo Freire descreveu magnificamente esse modelo e o batizou de “modelo bancário de educação”: educar é transferir fundos de um para o outro – do professor/ensinante para o aluno/recipiente (como se este fosse um balde que se tenta encher).

A maioria dos cursos/programas presenciais, face-a-face, de que participei foram desse tipo, e boa parte dos cursos/programas a distância de que participei também foram, desgraçadamente, desse tipo.

Só para dar uma idéia, quando comecei a refletir sobre o assunto fiz um curso a distância numa reputada universidade brasileira em que a interação que houve entre o ensinante e mim foi só dele para mim – e dele enviando materiais, ou melhor, colocando material no site do curso. Eu lia, pensava sozinho, e, depois de um tempo, respondia a um teste. Não havia mecanismo algum para eu interagir com ele, ensinante, nem muito menos com meus colegas alunos – que, na verdade, em nem sabia se tinha. Não havia forum, não havia lista de discussão, não havia chat, não havia recreio, não havia café, nada.

Outra vez, vi uma apresentação de uma empresa de Ensino a Distância de Israel, que havia montado aulas em vídeo de alta qualidade, que podiam ser acessadas pela Internet. Os professores, garantia o apresentador, eram do melhor nível, e com um bom link de Internet poderíamos ver/ouvir as aulas como se o cara estivesse diante de nós. Ousei indagar: e se tivermos alguma pergunta a fazer, como procedemos? O apresentador respondeu, depois de hesitar um pouco, como se a coisa nunca houvesse passado pela cabeça dele: “Meu amigo, eu lhe garanto que este material  é tão bom que ninguém, depois de vê-lo, terá pergunta alguma a fazer”. Pano rápido.

Modelo 2 de Educação

O outro modelo foi também bem descrito por Paulo Freire. Disse ele (em Pedagogia do Oprimido, creio que na p. 79): Ninguém educa ninguém, mas ninguém tampouco se educa sozinho. Educamo-nos uns aos outros em comunhão, mediatizados pelo mundo. (Cito de memória: o que ele disse pode não ser exatamente essas palavras, mas o espírito era esse). A educação, aqui, é mediatizada pelo mundo, isto é, ela começa com problemas que temos ou com questões que nos intrigam e que desejamos ver resolvidos ou respondidas. Ela é, como se diz hoje, contextualizada no mundo das pessoas, precisa ter relação com a vida e com a experiência das pessoas. (Dewey tem dois belos livrinhos, Educação e Vida, Educação e Experiência. Embora sejam antigos, ainda vale a pena lê-los). E nós aprendemos interagindo uns com os outros, conversando, discutindo, observando como os outros resolvem seus problemas ou encontram respostas para suas perguntas, tentando resolver os nossos próprios problemas e responder as nossas próprias perguntas, recebendo ajuda e feedback na forma de crítica ou apoio, tentando de novo, etc., até que resolvemos o problema ou respondemos a pergunta, ou, pelos menos, os entendemos melhor e descobrimos por que é tão difícil resolvê-los ou respondê-los.

Desse tipo de processo ninguém deve ser obrigado a participar. Participamos quando reconhecemos, no processo ou no contexto, uma oportunidade de aprendizagem: um problema ou uma questão que já tínhamos enfrentado ou vimos enfrentando.

As pessoas aprendem, ou pelo menos gostam de aprender, de formas muito diferentes. Pode até ser que todos de fato aprendamos de qualquer forma, e até razoavelmente bem, quando há motivação suficiente. Mas, não resta dúvida, de que gostamos de aprender mais de um jeito do que de outro.

Eu definitivamente não gosto de assistir aulas, palestras, conferências. Ganhei e ganho, em parte, minha vida fazendo isso – mas seria tortura se tivesse de ganhá-la fazendo o oposto, assistindo a aulas, palestras e conferências… A menos que o tópico seja muito interessante e o ensinante / palestrante / conferencista muito bom, minha mente devaneia, ou eu cochilo, ou, para não cochilar, faço de conta que estou tomando notas mas, na realidade, fico escrevendo coisas que me interessam mas nada têm que ver com a aula / palestra / conferência. Isso é fato. Tenho quase 66 anos e sei muito bem disso em relação a mim mesmo). Mas aprendi muita coisa ouvindo aula / palestra / conferência – e até sermão. Ouvi vários sermões do Rubem Alves que achei muito interessantes (garanto que não cochilei) e tenho certeza de que os sermões do Wilson Azevedo  também foram muito interessantes (embora nunca tenha tido o privilégio de ouvi-los). Até alguns sermões meus, posso admitir, sem falsa modéstia, foram, na ocasião, muito elogiados (e já preguei muitos na minha mocidade…). Mas essa claramente não é a minha forma preferencial de aprender. Aprendo melhor lendo calma e confortavelmente, refletindo tranquilamente, e discutindo – de preferência no plano virtual. E lhes garanto: prefiro discutir por escrito, assincronamente, como se faz numa lista de discussão, a discutir face-a-face, em sincronia.

Acho que precisamos inserir em nossos debates acerca da educação, em geral, e da educação a distância, em particular, mais de nossa situação-problema, mais de nossas indagações, mais de nossa experiência, mais de nossa vida (e menos citação do ponto de vista de outrem). Não adianta muito ficar citando autores se o que eles dizem não se casa muito bem com o que nossa experiência diz que é o caso…

Por fim, estilos de aprendizagem…

Foi sugerido numa discussão recente pela Internet que aquilo que o professor-ensinante faz na sala de aula convencional, presencial ou virtual, não é, na realidade, ajudar os alunos a aprender, mas, sim, obrigá-los, pelos meios disponíveis, a estudar. Mas a gente estuda (lê, reflete, discute) com que fim? Aprender, não é? Só que aprender, aqui, talvez continue a ser absorver ou assimilar informações, conceitos, princípios, procedimentos, etc, que, de certo modo, existem fora e independente de nós. Ou não? 

E se aprender for algo diferente? E se aprender for, como sugere Peter Senge, construir ou expandir capacidades, desenvolver competências e habilidades, tornar-se capaz de fazer algo que antes não se conseguia fazer? Construir algo dentro de nós… (Será que construtivismo não é isso?) Será que aprenderemos alguma coisa pela ensinagem (ou ensinância) tradicional? Se a gente aprende de forma ativa, com a mão na massa (ou na tecla), ou com a me
nte focada no problema ou na questão, através do diálogo e da comunhão, fazendo coisas (isto é, tentando resolver problemas, tentando responder perguntas), esses problemas e esses perguntas se tornam nossos projetos de aprendizagem, não é verdade? E teremos um currículo centrado em competências e uma metodologia focada em problemas e perguntas e baseada em projetos… (E uma avaliação muito diferente de testes, provas, e exames).

Vou ousar sugerir uma coisa meio herética…

Talvez os estilos de aprendizagem se resumam a basicamente dois:

Um, o aprender ouvindo o que não se escolheu ouvir ou lendo o que não se escolheu ler. Esse o estilo de aprendizagem da escola convencional, presencial ou virtual. Não há dúvida de que aprendemos algumas coisas assim. Mas o que aprendemos a maior parte das vezes é retido por pouquíssimo tempo. E o aprender não é (na minha opinião, para o meu gosto, segundo meus valores epistêmicos) muito prazeroso. [O Ricardo Semler gosta de citar uma pesquisa da Universidade de Chicago, segundo diz, que retemos apenas 11% do que aprendemos assim. Se isso é verdade, a escola tradicional é a instituição mais desperdiçadora de recursos – energia, tempo, dinheiro, materiais, instalações – que jamais se inventou: 89% é perda).

O outro, o aprender fazendo, tentando resolver problemas, tentando responder perguntas, em diálogo e discussão constantes com outros interessados nos mesmos problemas e perguntas. Não tenho dúvida de que eu, pelo menos, aprendo muito melhor, e, com mais prazer, assim, e retenho muito melhor o que aprendo assim  – e desconfio que a maioria de nós, aqui, ocupados que somos, e sem muito tempo, aprende melhor, e com mais prazer, assim. (Aprender melhor e com mais prazer estão profundamente relacionados na minha mente). Doutra forma não se explicaria o investimento de tempo e esforço que vemos hoje na área da Educação a Distância: gente que tem de trabalhar, tem de cuidar de crianças e de casas, tem de ajudar o cônjuge, tem de ir ao banco, tem de ir ao banheiro, etc., que muitas vezes está podre de cansada quando liga o computador para ler as mensagens (algumas quilométricas, como as minhas…) – e, entretanto, não fogem da discussão.

Será que, no fundo, o ceticismo que alguns expressam sobre se a preocupação com o estilo de aprendizagem do outro ajuda o outro a aprender melhor não se deve ao fato de que inventamos estilos demais e nos esquecemos dos estilos que são realmente básicos?

Transcrito aqui em São Paulo, 5 de Junho de 2009

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