Uma família olhando múltiplas telas na mesma sala ao mesmo tempo…

Aqui em casa o que esse artigo descreve acontece com razoável frequência: quatro pessoas, cada um com (pelo menos) uma tela diferente, cada um fazendo o que lhe interessa… Em alguns momentos, em vez de falarem um com o outro, mandam um SMS, ou uma mensagem instantânea, um e-mail… Assim não interrompem sem necessidade o que o outro está fazendo.

Alguns podem achar isso uma coisa horrível. Eu não acho. É uma realização do princípio famoso da filosofia, “the one and the many”: uma sala, uma família, muitas pessoas, muitos interesses diferentes… É o triunfo da individualidade que, entretanto, preserva uma forma diluída do coletivo. É o fim da ditadura do “precisamos todos fazer a mesma coisa juntos”, que sabe ao coletivismo totalitarizante dos soviéticos.

Hoje se defende ardorosamente a educação personalizada, que respeita as diferenças individuais, que se alimenta dos interesses de cada um. Defende-se também a educação horizontal, entre pares, em que muitos se comunicam com muitos, em que não há professores nem alunos, mas todos aprendem, em que ninguém educa ninguém, mas ninguém se educa sozinho (Paulo Freire). No âmbito da família essa educação ubíquita, esse anytime, anywhere learning acontece no ambiente descrito no primeiro parágrafo.

O artigo que transcrevo de The New York Times, traduzido pela Folha, capta bem esse espírito. Ele foi publicado em:

http://www1.folha.uol.com.br/fsp/newyorktimes/ny1605201113.htm

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CIÊNCIA & TECNOLOGIA

A família adquire hábito de se reunir diante de muitas telas

Por ALEX WILLIAMS

Dianne Vavra, executiva do setor de cosméticos em Nova York, levantou os olhos do iPad onde via as novidades da moda no site Refinery29.com e notou que seu marido, Michael Combs, estava absorto com uma partida de basquete que passava no seu laptop.

O filho deles, Tom, 8, havia mergulhado no jogo Mario Kart, do Wii, na TV. A filha, Eve, 10, brincava com aplicativo chamado Love Calculator, num iPod Touch. “A família estava na mesma sala, mas não estava junta”, lembrou Vavra. Uma família. Uma sala. Quatro telas. Quatro realidades.

“A transformação da sala de estar americana em central de comunicações e entretenimento com múltiplas telas” promete “alterar nossa esfera doméstica”, disse Lutz Koepnick, professor de mídia da Universidade Washington, em St. Louis. “Os indivíduos da família podem se descobrir alegremente conectados a mundos paralelos quase o tempo todo.”

De fato, o consultor ambiental Brad Kahn, de Seattle, disse que, muitas vezes, se comunica com sua esposa, Erin, por e-mail, mesmo quando eles estão sentados a poucos metros de distância, com seus laptops.

Evan Gotlib, contato publicitário em Manhattan, lembra-se de estar recentemente na cama com sua esposa, Lindsey Pollak, cada um com seu iPad. Ele jogava palavras-cruzadas à distância contra sua irmã, Val, e, a certa altura, disse: “A Val acaba de conseguir uma palavra de 46 pontos!”.

“Puxa”, disse a esposa, “ela acaba de fazer uma de 32 pontos contra mim”. Nesse momento, Gotlib percebeu que sua esposa estava envolvida no seu próprio jogo contra a irmã dele.

Ben Schippers, que dirige uma empresa de criação de software no Brooklyn, descobriu algo curioso quando sua mulher se mudou para Iowa para estudar veterinária, e o casal ficou em contato por Skype: ele acha suas noites semelhantes ao que eram quando ela estava em Nova York. Em qualquer situação, “é ela no LCD dela, eu no meu LCD”, afirmou.

Sherry Turkle, autora de “Alone Together: Why We Expect More From Technology and Less From Each Other” (“separados juntos: por que esperamos mais da tecnologia e menos uns dos outros”), argumenta em seu livro que ao se tornarem mais dependentes da tecnologia no estabelecimento de intimidade emocional, as pessoas se sentem inundadas e vazias. Mas essa não é a primeira vez que o aparecimento de mídia doméstica causa revolta -talvez, vendo agora, desnecessariamente.

“Se você recuar 200 anos, houve reclamações similares sobre dispositivos tecnológicos, mas, naquela época, eram os livros”, disse Koepnick. “A sala familiar cheia de pessoas diferentes lendo livros criou muita preocupação e ansiedade, principalmente em relação às mulheres, porque, de repente, elas estavam sozinhas, suas mentes estavam vagando para áreas que não eram mais controladas.” Da mesma forma, a TV, durante décadas, trouxe o espectro de famílias americanas se transformado em zumbis viciados em sitcoms.

Mas Barry Wellman, professor de sociologia na Universidade de Toronto e estudioso dos efeitos da tecnologia sobre as comunidades sociais, disse que há pesquisas indicando que as pessoas consideram que a tecnologia está reunindo as famílias. O comportamento dentro de um casulo cibernético pode ser surpreendentemente interativo. “Tem muito ‘Ei, olha isso!” ou ‘Vamos planejar nossa viagem a Las Vegas!'”, disse ele.

Para Gotlib, as novas opções tecnológicas e midiáticas permitem que ele e sua esposa “experimentem novos níveis de intimidade”. “Três ou quatro anos atrás, eu estaria no andar de baixo assistindo à TV, e ela estaria no andar de cima lendo. Eu garanto que nós passamos 80% a mais de tempo juntos por causa do iPad.”

Ao invés de ser um sinal de relacionamento disfuncional, tal comportamento pode ser interpretado como indício de sanidade, disse Ronald Levant, professor de psicologia da Universidade de Akron, em Ohio. “As pessoas que pensam a cada minuto que ‘estamos juntos, precisamos nos conectar’ vão enlouquecer umas às outras, porque todos nós precisamos de um tempo sozinhos, não importa quão compatível um casal seja”, afirmou.

Essa foi a conclusão à qual chegou Vavra, a executiva do setor de cosméticos. Ela aprendeu a apreciar o intercâmbio resultante das noites em que cada membro da família está olhando a sua própria tela.

Possivelmente, disse ela, tal situação traga mais proximidade do que as noites passadas em volta de algum jogo de tabuleiro, como era na época analógica.

“‘Tempo juntos’, no passado, às vezes era um esforço, um momento forçado, em que programávamos: ‘Ok, após jantar, toda noite às 19h, vamos ver isso ou jogar aquilo’, e a garotada dizia: ‘Mas, mãe, eu quero fazer tal coisa'”, lembrou Vavra. “Agora, não é nada forçado. Acontece organicamente. Cada um consegue fazer suas próprias coisas, em vez de: ‘Temos de jogar Detetive de novo?’.”

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Em São Paulo, 16 de Maio de 2011

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