A Filosofia e as Utopias

Entre as características intrigantes do ser humano há duas que particularmente me fascinam.

A primeira é nossa capacidade de filosofar. É essa característica que nos permite olhar para o que está aí – olhar a realidade – e perguntar “Por quê?” “Por que as coisas são assim?”.

A filosofia é a ciência-mãe dos porquês. Talvez o porquê mais básico seja: “Por que existe alguma coisa, e não nada?” Mas há outros porquês interessantes. “Por que dividimos os enunciados que fazemos acerca das coisas, das pessoas, dos eventos, dos processos, etc. em verdadeiros e falsos?” – e, em regra, não admitimos outra alternativa (tertium non datur)? “Por que distinguimos entre conhecimento e mera opinião?” “Por que classificamos ações (posturas, atitudes, etc.) em moralmente certas, moralmente erradas” — e, neste caso, reconhecemos outras que não são nem uma coisa nem outra, e, portanto, parecem ser moralmente neutras? “Por que diferenciamos as coisas (pessoas, cenas, paisagens, etc.) entre belas e feias” — e, também neste caso, talvez, ainda outras, que não são nem uma coisa nem outra, parecendo ser esteticamente neutras? “Por que acreditamos que haja uma forma perfeita de viver, pessoalmente, como indivíduos, e, coletivamente, como sociedade?”

A segunda característica intrigante do ser humano é nossa capacidade de construir utopias. Essa característica está relacionada à última pergunta mencionada no parágrafo anterior: “Por que acreditamos que haja uma forma perfeita de viver, pessoalmente, como indivíduos, e, coletivamente, como sociedade?” Somos capazes de construir utopias porque acreditamos que a perfeição é possível e que devemos lutar para alcança-la.

É essa segunda característica que nos permite olhar ao que está aí (a realidade), imaginar algo que nos parece melhor, e daí perguntar “Por que não?” “Imagine all the people living life in peace…” “Imagine all the people sharing all the world…” Por que não?, pergunta John Lennon – e muita gente segue a sua trilha…

O pensamento filosófico tenta entender o que está aí, procurar suas causas, buscar suas razões…  O pensamento utópico tenta nos levar além do que está aí, na busca de uma realidade melhor, quiçá perfeita…

Será que nossa capacidade de filosofar e nossa capacidade de, digamos, utopizar (construir utopias) são apenas duas faces de uma mesma moeda? Serão essas características do ser humano simplesmente complementares?

Não resta dúvida de que, sendo ambas características tipicamente humanas, a nossa capacidade de filosofar e a nossa capacidade de utopizar estão ancoradas numa mesma natureza que quer, ao mesmo tempo, entender e explicar a realidade, mas, também modifica-la, transcendê-la, torna-la melhor, trazê-la mais perto da perfeição…  Karl Marx chegou a dizer que os filósofos procuraram entender e explicar o mundo – mas que o importante seria transforma-lo… O “imagine all the people sharing all the world and living in peace” de Lennon talvez seja a visão poética de uma sociedade marxiana para qual cada um contribui segundo as suas habilidades e da qual cada um retira segundo suas necessidades, sem conflitos, numa boa, e, portanto, sem necessidade de um estado que, estando acima dos indivíduos, resolva os litígios, salomonicamente, de modo que as partes litigantes concluam que saíram ganhando (win-win)…

O problema é que Marx tenta, ao mesmo tempo, filosofar (no sentido em que estou usando o termo, que inclui “cientifizar”) e utopizar… Talvez o maior nó górdio de sua obra esteja nessa mistura: está Marx falando aqui como cientista ou como idealista revolucionário? Está fazendo uma predição científica ou expressando um desejo intenso (para a atinção do qual seriam necessários, primeiro, um novo homem, a ser formado pela educação “partisane”, e uma nova ordem social, a ser construída pela violência revolucionária)? Será possível que as duas características co-existam pacificamente numa mesma pessoa, ao mesmo tempo – ou será que estamos fadados a exibir, alternativamente, ora uma, ora outra, tentando lidar, no processo, com possíveis incoerências, ou mesmo contradições, de abordagem e postura?

Não resta dúvida de que devemos filosofar (que inclui o cientifizar), isto é, conhecer a realidade, inclusive a realidade da natureza humana, e de que devemos utopizar – isto é, sonhar, porque as utopias são feitas de sonhos… E também não resta dúvida de que muita coisa que, no passado foi apenas sonho, e, portanto, utopia, hoje é realidade… (Apesar do desencanto de muitos com o mundo atual, ele é muito melhor do que qualquer outro mundo que já existiu: o progresso humano e social é uma realidade inegável). Alguém já nos aconselhou a tomar cuidado com aquilo com que sonhamos, porque os sonhos podem se tornar realidade…

Reinhold Niebuhr, famoso teólogo protestante americano, uma vez propôs uma oração cujo conteúdo (excluída a forma de prece) ganhou o endosso até mesmo da atéia Ayn Rand. “Ó Deus”, disse ele, “dá-me serenidade para aceitar o que não é possível mudar, coragem para mudar o que é possível mudar, e sabedoria para reconhecer onde estão os limites de um e de outro”… A oração de Niebuhr reconhece que há muita coisa que é possível mudar (utopia) – mas reconhece também que há coisas que não é possível mudar (realidade). O desafio é saber o que se encaixa numa e noutra categoria. [A oração de Niebuhr na verdade foi copiada de um teólogo alemão do século 18: Friedrich Christoph Oetinger (1702–1782)].

Agostinho, de longe o mais importante Pai da Igreja, escreveu um opus magnus chamado Civitas Dei / Cidade de Deus. Nessa obra descreveu, de um lado, a ordem divina, como prevista na criação, e, de outro, a ordem humana, contaminada pelo pecado (introduzido no mundo pela queda de nossos primeiros pais, que transformou o nosso DNA de forma irremediável…) A primeira, perfeita; a segunda, condenada a imperfeições diversas. Ao fazer a distinção entre essas duas ordens, ou cidades, e reconhecer que a humana é inescapavelmente imperfeita, tanto no plano individual como no social, Agostinho reconhece, digamos que realisticamente, que somos, em nossa vida pessoal e nas construções sociais que elaboramos, inevitavelmente imperfeitos, e que, portanto, desejar e esperar perfeição, nesta cidade humana, é enganar-se e, assim, condenar-se à decepção e à frustração. Perfeição só existe na Cidade de Deus – mas por ora não vivemos nela… (Jesus Cristo, que era ao mesmo tempo homem, Jesus de Nazaré, e Deus, ou o filho dele, o Cristo de Deus, o Enviado de Deus, convivia, simultaneamente nas duas cidades, era um homem perfeito, e, nessa condição, nos liberta, nos salva, da necessidade de buscar a perfeição… A narrativa é fantástica, não há como não reconhecer…).

Por causa dessa visão metafísica da natureza da realidade, inclusive da realidade humana, a antropologia filosófica e a filosofia política de Agostinho foram extremamente realistas. Os governos, admitiu ele, não passam de bandos de ladrões e de corruptos… Imaginar que os governos possam ser puros na intenção e na conduta é desconhecer a realidade da Cidade do Homem… Acreditar que um determinado governo possa ser outra coisa que não um bando de ladrões e corruptos é enganar-se, é tornar-se presa mais fácil dos ladrões e dos corruptos, é condenar-se à decepção e à frustração. Jair Bolsonaro, crente, e presidente que eu ajudei a eleger, devia, no momento certo, ler um pouco de Agostinho…).

A visão realista e, por causa disso, pessimista de Agostinho influenciou os reformadores protestantes. Calvino, em especial, talvez o mais agostiniano dos reformadores, absorveu muito dela. Alguns autores chegaram até a imaginar que Calvino tivesse sido influenciado por Maquiavel, mas, acredito, a água que Calvino bebeu foi mais a que jorrava da fonte do sábio africano do que a do pensador florentino… Ele acreditava que a natureza humana havia sido corrompida pelo pecado, e, que, portanto, mesmo o crente salvo e santificado não consegue escapar da condição humana e, por conseguinte, chegar à perfeição… Apesar do que acreditam alguns calvinistas, a santificação é algo que já ocorreu, em Jesus Cristo, não algo pelo qual devemos batalhar no dia-a-dia da vida cristã…

Adam Smith, filósofo do século XVIII, escocês (a Escócia foi, depois da Suíça Francesa, onde o calvinismo surgiu, a primeira nação realmente calvinista no mundo), o melhor amigo de David Hume e o pai do liberalismo laissez faire que se tornou o alicerce da nação americana (durando cerca de um século ali), aprendeu as lições agostinianas e calvinistas. O homem, diz ele, é egoísta, pensa primeiro em seus interesses e em suas necessidades. Por isso, a ordem social deve ser construída em cima dessa premissa, não negando-a. Tentar construir uma ordem social imaginando ser possível, primeiro, mudar a natureza humana, torná-la altruísta, focada nas necessidades dos outros, é agir na ignorância dessa premissa básica. Tentar construir uma nova ordem social – “um novo mundo é possível” – imaginando que, no processo, conseguiremos criar um novo homem novo, diferente, heterofocado, não egofocado, é condenar o empreendimento, desde o início, ao fracasso – e nos condenar à decepção… A origem do mal, na sociedade humana, a tentação diabólica que sempre nos persegue, desde o Éden, está na “sedução do impossível”… A Serpente seduziu Adão e Eva lhes prometendo que, se desobedecessem a Deus, e comessem do fruto proibido “se tornariam como Deuses” – a sedução do impossível! (Vide Mario Vargas Llosa, La Tentación de lo Imposible / A Tentação do Impossível, a propósito de Les Misérables / Os Miseráveis, de Victor Hugo).

A ordem social possível, segundo Adam Smith, é aquela que (para usar as palavras de Bernard de Mandeville) procura transformar “vícios privados” em “virtudes públicas”… Nas palavras de Adam Smith, o padeiro não pensa primariamente nas minhas necessidades, quando me vende pão: ele pensa, egoisticamente, no interesse dele, que precisa ter uma fonte de renda. Mas ele sabe que seu interesse só vai ser satisfeito se ele pensar na minha necessidade… De igual forma, eu compro o pão dele não porque esteja pensando que o padeiro tem necessidade de dinheiro, precisa de uma fonte de renda, mas porque tenho um interesse, muito egoísta, de me alimentar e prefiro me livrar de um pouco de meu dinheiro comprando pão feito a gastar meu tempo fazendo eu mesmo o pão… Os dois, o padeiro e eu, somos egoístas – mas nosso “vício privado” se transforma numa “virtude pública” que nos beneficia a ambos (e a muitos outros, no processo). Aquilo que, na esfera privada, é um vício, na esfera pública se torna uma virtude. (Vide Ayn Rand, The Virtue of Selfishness / A Virtude do Egoísmo).

Pulemos, agora, do plano social para o plano individual… Saltemos de Agostinho, Maquiavel, Calvino, Adam Smith, e Karl Marx para Vinicius de Moraes…

Uma vez, assistindo ao casamento de um dos filhos de uma de minhas primas, ouvi o pastor dizer algo assim: “Se vocês estão aqui pensando que o casamento vai tornar vocês felizes, podem virar nos calcanhares e ir embora… O objetivo do casamento não é nos fazer felizes, mas, sim, nos dar uma excelente oportunidade de fazer o outro feliz, de tornar feliz o casamento”… Bonito, mas pouco realista. Creio que Aristóteles estava certo de que o animal humano nasce para ser feliz – e vai sempre buscar, egoisticamente, a sua felicidade…  Quando duas pessoas se amam e resolvem viver juntas, um tenta fazer o outro feliz, mas isso acontece, não altruisticamente, porque a felicidade do outro nos importa mais do que tudo, mas egoisticamente, porque ver o outro feliz nos torna felizes… Quando, por alguma razão, a felicidade do outro não nos torna mais felizes, é porque o amor deixou de existir, ou surgiu um outro amor, maior… Nesse caso, deixamos de perseguir a felicidade de nosso parceiro e vamos tentar ser felizes com outro… Assim é a vida… Assim é a realidade…

Vinicius de Moraes… A melhor poesia do diplomata brasileiro convive com uma visão realista da natureza humana… O amor, diz ele, não é imortal, posto que é chama… O máximo que podemos pretender é que seja infinito, enquanto dure! A razão pela qual o amor não é imortal, segundo ele, não está no fato de que nós, que amamos, somos mortais. O amor não é imortal porque ele, o amor, é chama – e a chama pode se apagar a qualquer momento, diante dos ventos que constantemente a açoitam… (No caso do amor, o que parece impossível pode, aparentemente, acontecer: vemos amores que duram 70, 80 anos, e que são, para todos os fins práticos, eternos – casos em que, quando um morre, o outro também morre em seguida, sem precisar se suicidar, porque o que era a vida dele já se acabou e se trata apenas de deixar o corpo morrer também…)

Mas o normal não é isso. Diante da lição de realismo de Vinícius de Moraes, até mesmo o voto de “amar até que a morte nos separe” é uma promessa que, o mais das vezes, por mais que queiramos, não temos como cumprir… a menos que a morte do corpo chegue cedo demais, antes da morte do amor… Amar para sempre, amar eternamente, amar até depois da morte – tudo isso é, na visão do poeta, utopia… O limite do seu realismo está em procurar tornar o amor infinito, enquanto ele dura – sabendo que ele pode terminar a qualquer momento, pela nossa morte… O infinito, para Vinicius, não é sinônimo do eterno.

Em São Paulo, 30 de Outubro de 2018

O Discurso da Vitória e o Discurso da Derrota

O Discurso da Vitória

Jair Messias Bolsonaro

Nunca estive sozinho, sempre senti o poder de Deus e a força do povo brasileiro, orações de homens, mulheres, crianças, famílias inteiras que, diante da ameaça de seguirmos por um caminho que não é o que os brasileiros desejam e merecem, colocar o Brasil, nosso amado Brasil, acima de tudo.

Faço de vocês minhas testemunhas de que este governo será um defensor da Constituição, da democracia e da liberdade. Isso é uma promessa não de um partido, não é a palavra vã de um homem. É um juramento a Deus. A verdade vai libertar este grande país. E a liberdade vai nos transformar em uma grande nação.

A verdade foi o farol que nos guiou até aqui e que vai seguir iluminando o nosso caminho. O que ocorreu hoje nas urnas não foi a vitória de um partido, mas a celebração de um país pela liberdade. O compromisso que assumimos com todos os brasileiros foi de fazer um governo decente, comprometido exclusivamente com o País e com o nosso povo. E eu garanto que assim o será.

Nosso governo será formado por pessoas que tenham o mesmo propósito de cada um que me ouve neste momento. O propósito de transformar o nosso Brasil em uma grande, livre e próspera nação. Podem ter certeza que nós trabalharemos dia e noite para isso.

Liberdade é um princípio fundamental. Liberdade de ir e vir, andar nas ruas em todos os lugares deste País. Liberdade de empreender. Liberdade política e religiosa. Liberdade de informar e ter opinião. Liberdade de fazer escolhas e ser respeitado por elas.

Este é o país de todos nós, brasileiros natos ou de coração, um Brasil de diversas opiniões, cores ou orientações. Como defensor da liberdade, vou guiar um governo que defenda e proteja os direitos do cidadão que cumpre seus deveres e respeita as leis. Elas são para todos, porque assim será nosso governo: constitucional e democrático.

Acredito na capacidade do povo brasileiro, que trabalha de forma honesta, de que podemos juntos, governo e sociedade, construir um futuro melhor. Este futuro, de que falo e acredito, passa por um governo que cria condições para que todos cresçam. Isso significa que o governo federal dará um passo atrás, reduzindo a sua estrutura e a burocracia, cortando desperdícios e privilégios, para que as pessoas possam dar muitos passos à frente.

Nosso governo vai quebrar paradigmas. Vamos confiar nas pessoas. Vamos desburocratizar, simplificar e permitir que o cidadão, o empreendedor, tenha mais liberdade para criar e construir o seu futuro. Vamos desamarrar o Brasil. Outro paradigma que vamos quebrar: o governo respeitará de verdade a federação. As pessoas vivem nos municípios. Portanto, os recursos federais irão diretamente do governo central para os Estados e municípios. Colocaremos de pé a federação brasileira. Neste sentido, é que repetimos que precisamos de mais Brasil e menos Brasília. Muito do que estamos fundando no presente trará conquistas no futuro.

As sementes serão lançadas e regadas para que a prosperidade seja o designo dos brasileiros do presente e do futuro. Este não será um governo de resposta apenas às necessidades imediatas. As reformas a que nos propomos são para um criar novo futuro para os brasileiros. E quando digo isso falo com uma mão voltada para o seringueiro no coração da selva amazônica e a outra para o empreendedor suando para criar e desenvolver sua empresa. Porque não existem brasileiros do sul ou do norte. Somos todos um só país, somos todos uma só nação. Uma nação democrática.

O Estado democrático de direito tem como um de seus pilares o direito de propriedade. Reafirmamos aqui o respeito e a defesa desse princípio… Constitucional… e fundador das principais nações democráticas do mundo. Emprego, renda e equilíbrio fiscal é o nosso compromisso para ficarmos mais próximos de oportunidades e trabalho para todos.

Quebraremos o círculo vicioso do crescimento da dívida, substituindo-o pelo círculo virtuoso de menores déficits, dívida decrescente e juros mais baixos. Isso estimulará os investimentos, o crescimento e a consequente geração de empregos. O déficit público primário precisa ser eliminado o mais rápido possível e convertido em superávit. Este é o nosso propósito.

Aos jovens, palavra do fundo do meu coração, vocês têm vivido um período de incerteza e estagnação econômica. Vocês foram, e estão sendo testados, a provar sua capacidade de resistir. Prometo que isso vai mudar. Essa é a nova missão. Governaremos com os olhos nas futuras gerações e não na próxima eleição.

Libertaremos o Brasil e o Itamaraty das relações internacionais com viés ideológico a que foram submetidos nos últimos anos. O Brasil deixará de estar apartado das nações mais desenvolvidas. Buscaremos relações bilaterais com países que possam agregar valor econômico e tecnológico aos produtos brasileiros. Recuperaremos o respeito internacional pelo nosso amado Brasil.

Durante a nossa caminhada de quatro anos pelo Brasil uma frase se repetiu muitas vezes: “Bolsonaro você é a nossa esperança”. Cada abraço e cada aperto de mão, cada palavra ou manifestação de estímulo, que recebemos nessa caminhada, fortaleceram o nosso propósito de colocar o Brasil no lugar que merece.

Nesse projeto que construímos cabem todos aquele que têm o mesmo objetivo que o nosso. Mesmo no momento mais difícil dessa caminhada, quando por obra de Deus, e da equipe médica de Juiz de Fora, e do Alberto Einstein (sic), ganhei uma nova certidão de nascimento, não perdemos a convicção de que juntos poderíamos chegar a essa vitória.

É com essa mesma convicção que afirmo: ofereceremos a vocês um governo decente que trabalhará verdadeiramente para todos os brasileiros. Somos um grande País e agora vamos juntos transformar esse País em uma grande nação.

Uma nação livre, democrática e próspera. Brasil acima de tudo, Deus acima de todos.

28-Out-2018

https://istoe.com.br/veja-na-integra-o-pronunciamento-de-jair-bolsonaro-apos-a-vitoria/

O Discurso da Derrota

Fernando Haddad

Boa noite a todos vocês. Estela, Manuela, Lucca, meus filhos, minha mãe, minhas irmãs, todos os companheiros de todos os partidos presentes.

Queria saudar em especial Guilherme Boulos, que foi candidato a presidente, companheiros do PSB, PSOL, presidenta Dilma, senador Suplicy, nossos deputados e senadores.

Em primeiro lugar, gostaria, por minha formação, de agradecer aos meus antepassados. Aprendi com meus antepassados o valor da coragem para defender a justiça a qualquer preço. Aprendi com minha mãe, meu pai, aprendi com a memória dos meus avós que a coragem é um valor muito grande quando se vive em sociedade, porque todos os valores dependem dela.

Queria agradecer a todos os partidos que estiveram conosco, a sua militância aguerrida. Primeiro porque nos levou ao segundo turno, depois, porque nos levou a ter 45 milhões de votos hoje. É uma parte expressiva do povo brasileiro, que precisa ser respeitada neste momento. Que diverge da maioria, tem um outro projeto de Brasil e que merece respeito no dia de hoje.

Sei que entre os 45 milhões de eleitores que nos acompanharam até aqui, muita gente não é de partido político, não é de associação. Sobretudo na última semana o que vimos foi a festa da democracia nas ruas do Brasil. Gente que saiu na rua com colegas, esposa, marido, filhos, que passou a panfletar no país inteiro, que colocou um banco numa praça, colocou cartaz no pescoço e passou a dialogar e reverter o quadro que se anunciava na primeira semana do segundo turno.

E houve uma reversão importante, em função da conscientização sobre o que estava em jogo. E era muita coisa que estava em jogo. Vivemos um período já longo em que as instituições são colocadas a prova a todo instante. A começar de 2016 com o afastamento de Dilma, depois com a prisão injusta do presidente Lula, a cassação do registro de sua candidatura, desrespeitando uma determinação da Nações Unidas, mas seguimos de cabeça erguida, com determinação, com coragem, para levar nossa mensagem aos rincões do país: ao campo e à cidade, às periferias e aos centros, aos estudantes e aos idosos, aos LGBTs, aos homens, mulheres, brancos e negros, evangélicos, àqueles que pertencem a religiões de matriz afro, aos ateus, a todos os brasileiros.

Nós, de forma determinada, fomos a todos os rincões levar a mensagem que vale a pena levar. De que a soberania nacional e a democracia como nós a entendemos está acima de todos nós. Nós temos uma nação e temos de defendê¬la daqueles que de forma desrespeitosa pretendem usurpar o nosso patrimônio, o patrimônio do povo brasileiro.  E entendemos a democracia não só no seu ponto de vista formal, embora isso seja muito importante lembrar no dia de hoje. São os direitos civis, são os direitos políticos, são os direitos trabalhistas e são os direitos sociais que estão em jogo.

Portanto nós temos uma tarefa enorme no nosso país, que é em nome da democracia defender o pensamento e as liberdades destes 45 milhões de brasileiros que nos acompanharam até aqui. Nós temos a responsabilidade de fazer uma oposição colocando os interesses nacionais, o interesse de todo o povo brasileiro, acima de tudo. Por que nós, aqui temos um compromisso com a prosperidade. Nós aqui ajudamos a construir uma das maiores democracias do mundo e temos de ter um compromisso e mantê-la. E não aceitar provocações, e não aceitar ameaças.

Vocês verão que a nação, lembrando nosso hino nacional, verás que um professor não foge à luta. Nem teme quem adora a liberdade à própria morte. O nosso compromisso é um compromisso de vida com este país. Nós temos uma longa trajetória de militância, de vida pública, nós reconhecemos a cidadania em cada brasileiro, em cada brasileira e nós não vamos deixar esse país pra trás. Nós vamos coloca-lo acima de tudo e nós vamos defender os nossos pontos de vista, respeitando a democracia, respeitando as instituições, mas sem deixar de colocar o nosso ponto de vista, sobretudo o que está em jogo no Brasil a partir de agora.

E tem muita coisa em jogo e nós precisamos compreender o que está em jogo. Nós temos que fazer uma profissão de fé e que nós vamos continuar nossa caminhada, conversando com as pessoas, nos reconectando com as bases, nos reconectando com os pobres desse país, para retecer um plano, um programa de nação que há de sensibilizar mentes e corações desse país.

Daqui a quatro anos nós teremos uma nova eleição, nós temos que garantir as instituições, nós não vamos sair das nossas profissões, dos nossos ofícios, mas não vamos deixar de exercer a nossa cidadania. Vamos estar o tempo inteiro exercendo essa cidadania e talvez o Brasil nunca tenha precisado mais do exercício da cidadania do que agora.

Eu coloco a minha vida à disposição desse país, tenho certeza que falo por milhões de pessoas que colocam o país acima da própria vida, acima do próprio bem-estar. Quero dizer pra aqueles que eu, olhando nas ruas desse país em todas as regiões, eu senti uma angústia e um medo na expressão de muitas pessoas. Que às vezes chegavam a soluçar de tanto chorar.

Não tenham medo. Nós estaremos aqui. Nós estamos juntos. Nós estaremos de mãos dadas com vocês. Nós abraçaremos a causa de vocês! Contem conosco! Coragem! A vida é feita de coragem! Viva o Brasil! Viva o Brasil!

28-Out-2018

https://noticias.uol.com.br/politica/eleicoes/2018/noticias/2018/10/28/haddad-fala-em-nao-aceitar-ameacas-a-democracia-leia-integra-do-discurso.htm

Outro Discurso da Derrota

Barack Obama

“Muitos americanos como nós estão hoje exultantes hoje. Muitos outros, nem tanto. Mas esta é a natureza de campanhas eleitorais. Esta é a natureza da democracia. Viver a democracia é difícil. E, em algumas ocasiões, a vida numa democracia é conflituosa e barulhenta. Nem sempre viver numa democracia é algo inspirador. Há ocasiões em que você perde uma discussão. Em outras, você perde uma eleição. Mas é assim que a política funciona numa democracia. Tentamos, com todas as nossas forças, persuadir as pessoas de que estamos certos. E daí as pessoas votam. Se nós perdemos, devemos aprender com os erros que fizemos: refletimos um pouco, lambemos nossas feridas, sacudimos a poeira, e voltamos para a arena. Retomamos o jogo. Tentamos de novo, lutando com mais forças ainda. O importante é que todos caminhemos para a frente, com a presunção de que há boa fé naqueles que, como nós, são cidadãos do mesmo país. Porque essa presunção, de que os outros agem em boa fé, é essencial para uma democracia vibrante e que funciona bem. Antecipo fazer tudo o que possa para que o próximo presidente tenha sucesso em manter esse tipo de democracia. Como eu já disse antes, vejo o ofício de presidente como uma corrida de revezamento. Você pega o bastão, corre o melhor que você consegue, na esperança de que, na hora de entregar o bastão ao próximo corredor, você tenha aumentado a vantagem do seu time, você o tenha colocado um pouco mais à frente. E eu posso dizer que nós fizemos isso e quero ter certeza de que nossa transmissão do bastão seja bem executada, porque, afinal de contas e acima de tudo, somos todos corredores de um mesmo time.”

[Tradução de Eduardo Chaves]

Notas Posteriores de Eduardo Chaves, autor deste post

[NOTA 1]

Não gosto do Barack Obama — e acho que ele foi um péssimo presidente dos Estados Unidos, país que considero meu país fora do Brasil. Mas a atitude e a fala dele aqui, depois da vitória do Donald Trump sobre Hillary Clinton, são perfeitos. Embora a derrotada tenha sido Clinton, Obama também foi derrotado, porque ele fez campanha para Clinton, meteu-se em sua campanha e em sua defesa até o pescoço. E perdeu, sim, com ela e junto dela. Mas ele Obama teve um discurso perfeito. A atitude dele, naquela hora, também foi perfeita. Antes da eleição ele se envolveu na campanha de Clinton muito mais do que seria recomendável para um presidente em pleno exercício do cargo. Parecia até que o candidato a Presidente que concorria com Trump era ele, Obama, e não Clinton. Depois da vitória de Trump, em que ele fez este discurso, ele se perdeu de novo e não seguiu a própria prescrição, dando alguns golpes baixos em Trump (e quebrando a praxe de que um ex-presidente, que já esteve no maior cargo da nação, não critica o seu sucessor e não tenta fazer a vida dele mais difícil do que normalmente já é). Mas na hora da eleição do adversário em quem muita gente não punha nenhuma fé, seu discurso e sua atitude foram impecáveis. Isso deve ser reconhecido.

Em um post no Facebook, logo depois que foi anunciado de que Haddad não iria cumprimentar Bolsonaro, escrevi o seguinte:

“Nos Estados Unidos, antes de a CNN anunciar que Donald Trump havia ganho, Hillary Clinton havia ligado para lhe dar os parabéns. Noblesse oblige.

Aqui no Brasil, assessores do Haddad disseram que ele não vai ligar para ninguém. Aqui não há nobreza nenhuma no PT.”

O Discurso da Derrota de Haddad veio depois desse comentário meu, no tempo (no dia 28/Out/2018.

[NOTA 2]

Em 29-Out-2018, cedo, foi divulgado o seguinte tuíte de Antonio Amoêdo, quarto colocado no Primeiro Turno, que eu publiquei em meu Facebook:

“Gostaria de cumprimentar o Deputado Jair Bolsonaro pela eleição ao posto máximo da nação brasileira. A partir de agora ele deixa de ser o candidato de muitos brasileiros, para ser o Presidente de todos, com a missão de unir o país.”

[NOTA 3]

Em 29-Out-2018 Haddad, mais tarde, quem sabe envergonhado pelas lições de  Barack Obama e de João Amoêdo, reviu sua posição e divulgou o seguinte tuíte, que também publiquei em meu Facebook, com o comentário ‘Meno male”:

“Presidente Jair Bolsonaro: Desejo-lhe sucesso. Nosso país merece o melhor. Escrevo esta mensagem, hoje, de coração leve, com sinceridade, para que ela estimule o melhor de todos nós. Boa sorte!”.

[Nota 4]

[Acabo (29/102018, 12h30) de publicar este post no meu Facebook, compartilhando um artigo.]

Magnífico o artigo de meu xará Eduardo Affonso, aqui no Facebook, com o título “Deus Mora nos Detalhes”… (o link está abaixo). A capacidade de observação dele é incrível. Mas mais importante é a sensibilidade, em alguém que se diz ateu, de alcançar uma visão de Deus que é extremamente instigante… mas evangélica… (Jesus não era o Filho de Deus que se esperava — por isso os Judeus não viram nele o Filho de Deus…) Eu, que também me disse ateu por muito tempo, e realmente acreditava que fosse, hoje não mais o faço, fiquei emocionado com o artigo. Fez-me lembrar textos de Elienai Cabral Junior (que escreveu o livro Salvos da Perfeição).

Aqui vai a transcrição: :

“Podendo morar onde quiser, no Joá, na Provence, na Costa Amalfitana, num sítio em Lumiar, Ele prefere um cantinho (detalhes são sempre acanhados), um pormenor (detalhes são sempre periféricos) para chamar de seu.

Deus vive é nas desimportâncias, nos avessos, nas entrelinhas. Jamais será encontrado sob os holofotes, de megafone na mão, no centro das atenções. Quem está ali é um figurante, uma pista falsa.

Nas selfies diante do espelho do banheiro, Deus não está no peito inflado, no decote, na barriga tanquinho, mas na calcinha pendurada na torneira lá atrás, no limo da junta do azulejo, no frasco de xampu de cabeça para baixo.

Procure Deus nos discursos de ontem. É tão divertido quanto procurar Wally.

Lá estará ele, insofismável, na bandeira torta que serve de pano de fundo, pregada à parede pelas pontas com fita isolante. Na menorá que espreita a cena do vão entre o gaguejante presidente e a empolgada tradutora da linguagem dos sinais.

O enquadramento é tosco, a qualidade do vídeo é precária: isso é Deus, o mesmo Deus presente nas cenas em que o futuro presidente aparece sob um varal onde secam panos de chão, por trás da mesa em que repousa uma raquete de matar mosquito, abaixo da gambiarra que lhe servirá de luminária. O meio é a mensagem.

Apure o ouvido, e ouvirá Deus nos discursos da vitória. Ele não estará nas palavras, na sintaxe, nas promessas, mas nas pausas erradas, na dicção tatibitate, na leitura monocórdia à la aluno de ensino fundamental. Deus não consegue ler certo pelas linhas tortas do teleprompter de papel A4.

Onipresente, Ele não se furta a comparecer ao discurso do candidato derrotado. Ei-lO na forma da vice que carrega a filha no colo (o corpo fala). Está, inteiro, eloquente, nas frases não ditas – na inadmissão dos erros, na recusa em desejar sucesso ao novo governo – e nas narrativas reiteradas.

Olha Deus lá no fundo, à esquerda, fora do enquadramento, de taiê vermelho – o mesmo do impítimã, da derrota para o senado em Minas. Deus não mora nos protagonismos, mas nas irrelevâncias.

Não há negros na cena dos que defendem os negros. Isso é Deus.

Há um negro com o largo sorriso dos eleitos na cena dos que odeiam negros. Isso é Deus.

Há uma tradutora (ligeiramente acima do peso) para surdos-mudos na cena dos que excluem minorias. Isso é Deus.

É Deus também não haver atenção aos portadores de deficiência auditiva na cena do porta-voz dos excluídos.

É doméstica, improvisada, a cena dos vencedores, dos ricos, dos de ensino superior completo.

A dos vencidos, dos pobres e oprimidos, é profissional, com palanque montado em hotel 4 estrelas.

Detalhes são coisas muito grandes para esquecer. Não só porque Deus more lá, mas porque é também lá que o Diabo se hospeda.

 

Em São Paulo, 29 de Outubro de 2018.

Novas Gerações Mimadas e “Estragadas”

Um livro interessante, de autoria conjunta de Jonathan Haidt e Greg Lukianoff, discute um problema sério que existe nos Estados Unidos hoje: a sensibilidade das duas últimas gerações (por aí) está se tornando por demais exacerbada, porque essas gerações foram mimadas demais – e o excesso de mimo as “estragou” (da mesma forma que o excesso de atenção, cuidado e liberalidade pelos avós “estraga” os nossos filhos).

O americano mais antigo, que livros e filmes costumavam chamar de “The Ugly American” (O Americano Feio), tipificado por Marlon Brando, no filme de 1954 On the Waterfront (Sindicato de Ladrões, no Brasil, Há Lodo no Cais, em Portugal), era um sujeito de “casca dura”, que aguentava bastante bem um bate-boca pesado, e, no mais das vezes, se saía vencedor dele. O americano das novas gerações, ao contrário, é o que os autores chamam de “The Coddled American” (O Americano Mimado), um sujeito de “casca fina”, extremamente delicada, supersensível, protegido ao extremo, tratado com excesso de indulgência, que foi “estragado” por excesso de mimo… Qualquer coisa o magoa ou ofende – e sua reação não é revidar, partir para o bate-boca pesado, de gente grande… Sua reação é buscar a proteção da autoridade – em última instância, do governo (que, por sinal, tem atendido a maior parte de suas demandas – o que torna a situação ainda pior, porque mostra que, de certa forma, dá certo e vale a pena se passar por vítima). Os Estados Unidos viraram uma nação de vítimas.

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Haidt e Lukianoff deram ao seu livro o título de The Coddling of the American Mind: How Good Intentions and Bad Ideas are Setting Up a Generation for Failure. O verbo “coddle” quer dizer mimar, superproteger, “estragar” uma criança por excesso de atenção e cuidado (como em geral o fazem, do ponto de vista dos pais, os avós, como mencionado atrás). A tradução (admitidamente difícil) do título poderia ser Excesso de Indulgência para com a Mente do Americano: Como Boas Intenções e Ideias Ruins Estão Preparando uma Geração para o Fracasso. O livro foi publicado neste ano de 2018 pela Penguin Press (New York). Ambos os autores têm livros importantes que, de certo modo, prepararam o caminho para este. Jonathan Haidt é autor de The Righteous Mind: Why Good People Are Divided by Politics and Religion (A Mente Justa: Por que Pessoas Boas São Divididas pela Política e pela Religião) e Greg Lukianoff de Unlearning Liberty: Campus Censorship and the End of American Debate (Desaprendendo a Liberdade: Censura no Campus e o Fim do Debate nos Estados Unidos).

A tese dos autores (um, Haidt, é psicólogo na linha da Psicologia Positiva de Martin Seligman, o outro, Lukianoff, é advogado que concentra sua atenção na defesa do direito de pensar livremente e expressar com igual liberdade o pensamento através da linguagem) é relativamente simples. Essa sensibilidade exacerbada prejudica as pessoas e enfraquece a nação.

Haidt e Lukianoff começam o seu livro discutindo “Três Grandes Inverdades” – algo que poderia ser mais bem descrito como “Três Grandes Tendências Prejudiciais aos Indivíduos e à Sociedade”.

A primeira dessas tendências pode ser introduzida, pela via negativa, por um ditado que existe, em variante, aqui no Brasil. Aqui o ditado é “O que não mata, engorda”. Nos Estados Unidos é “O que não mata, fortalece” (versão, na minha opinião, bem mais adequada). Esse ditado expressa uma grande verdade (não uma inverdade). A ideia do ditado, em sua versão americana, evidentemente é que debate, a discussão, o bate-boca, ainda que acirrado e pesado (desde que não chegue às vias de fato, em que um debatedor silencia o outro na porrada e, em casos extremos, matando-o), só torna as pessoas mais fortes. Os autores lamentam o fato de que o ditado acabou se tornando diferente, na realidade o seu oposto, na vida acadêmica americana, onde vigora hoje o seguinte princípio: “Mesmo que não mate, a linguagem que usamos pode machucar e, assim, enfraquecer as pessoas com quem dialogamos, ou a quem nos dirigimos, ou a quem nos referimos”. Essa a primeira tendência, que os autores chamam de primeira grande inverdade.

A coisa começou na universidade, que, com (talvez) a boa intenção de não permitir que pessoas de raça, sexo e orientação sexual diferente fossem ofendidas pelas demais (de raça “majoritária”, de sexo “forte”, de orientação sexual “dominante”), criaram Speech Codes (Códigos de Fala), proibindo determinados tipos de palavras e expressões em debate, em discussão ou mesmo em conversa informal e corriqueira no campus. Da universidade a coisa se expandiu para a mídia e de lá para a sociedade em geral. Determinados termos, determinadas expressões, e mesmo determinados conteúdos (ainda que expressos em linguagem inatacável) se tornaram tabus. Com isso surgiu o que poderia ser chamada de uma polícia linguística (que, na realidade, é uma “polícia do pensamento”, que se incumbiu (e em muitos casos foi oficialmente incumbida) de punir linguagem “politicamente incorreta”. O politicamente correto acabou por ir além de temas como raça, sexo e orientação sexual.

O fenômeno já chegou ao Brasil. Talvez o exemplo mais chocante tenha sido o do crítico de cinema Rubens Ewald Filho, na transmissão do Oscar de 2018 pela TNT. A apresentação da canção “Mystery of Love“, trilha sonora do filme que em Português se chama “Me Chame Pelo Seu Nome”, foi feita por uma pessoa chilena que é “transgender” e que é conhecida pelo nome de Daniela Vega. Ela, que foi a protagonista do filme  “Uma Mulher Fantástica” (título em Português), premiado como o melhor filme estrangeiro, em que representa uma pessoa “transgender”, estava linda, maquiada como mulher e vestida de mulher. Com o intuito de informar os telespectadores – era para isso que ele ali estava, não é verdade? – Rubens Ewald Filho disse no ar algo como: “Apesar da aparência e do nome, ela é um rapaz”. Foi crucificado. Houve abaixo-assinados para que ele fosse imediatamente demitido de sua função de crítico do Oscar pela TNT – que não o demitiu mas o censurou publicamente, levando-o a pedir desculpas também publicamente, não se sabe muito bem a quem: provavelmente aos que se ofenderam com sua insensibilidade. Foi execrado como sexista e transfóbico. Esse tratamento em geral é chamado de “public shaming” (envergonhamento publico, execração pública). (Vide https://entretenimento.uol.com.br/noticias/redacao/2018/03/05/tnt-reprova-comentarios-de-rubens-ewald-filho-no-oscar-critico-se-desculpa.htm).

A segunda dessas tendências (ou inverdades) é que as pessoas se dividem, naturalmente, em dois grupos: as pessoas do bem (que aceitam sem problema a nova sensibilidade) e as pessoas do mal (que se recusam a aceita-la): em geral, “nós”, a gente do bem, e “eles”, a gente do mal.

Os do mal, nos Estados Unidos, são facilmente identificados por seu uso de linguagem politicamente incorreta – ainda que esse uso seja não-intencional, como frequentemente acontece com pessoas para quem o Inglês é uma segunda ou terceira língua. Apesar de aparências e mesmo afirmações ao contrário, o Inglês é complicado. O artigo “the” pode significar “o”, “a”, “os” e “as” – e certas palavras, como “professor”, “teacher”, “doctor”, etc. podem se referir tanto a alguém do sexo masculino como do sexo feminino. Tradicionalmente, era normal e aceitável (parte da norma culta) dizer “I asked a doctor and he told me that…”, usando o pronome em concordância com o gênero masculino, independentemente do sexo da pessoa. Isso não mais se admite na universidade. É necessário usar uma linguagem que, a muitos, em especial aos estrangeiros, parece canhestra: “I asked a doctor and he/she told me that…” ou “I asked a doctor and s/he told me that…” ou, hoje mais comum, “I asked a doctor and they told me that…”. No último caso, tornou-se uma praxe do politicamente correto usar o pronome no plural (em que they significa tanto eles como elas). Alguns autores preferem alternar, usando ora “he / his”, ora “she / her / hers”, quando não se revela o sexo do referente. Usar a forma tradicional de concordar uma referência a alguém de sexo não definido com o pronome masculino é incorrer no grande pecado de “sexismo”.

Algo parecido se dá com o uso de termos que passaram a ser considerados tabus.

A forma de se referir a alguém de outra raça (ou mesmo etnia) também se complicou. Tradicionalmente se referia a alguém da raça negra como “a negro”. (Nunca “a nigger”, que sempre demonstrou preconceito, exceto quando usado por um negro / uma negra (!) para se referir a si próprio / própria (!). Depois que os próprios / as próprias (!) começaram a se referir a si próprios / próprias (!) como “blacks”, esse termo se tornou mais ou menos padrão, embora haja quem prefira usar “people of color” como uma expressão supostamente mais neutra, que inclui negros, vermelhos (índios ou aborígenes – os tradicionais “peles vermelhas”, expressão hoje condenada), marrons (hispânicos – que em regra incluem os portugueses e brasileiros), amarelos (orientais, em geral), etc. A expressão tradicional “colored people” para se referir aos negros /negras / pretos / pretas (!) foi anatematizada, porque coloridos / coloridas somos todos / todas  (embora a expressão “people of color” exclua os brancos / as brancas (!), que, supostamente, são “sem cor”…). Não ser sensível a essas nuances de linguagem pode fazer com que alguém seja acusado de usar linguagem racista – talvez um pecado mais grave do que ser chamado de sexista. (No Brasil, ser racista dá cadeia. Ser sexista, ainda não.) Reflita-se se é possível compor um texto estilisticamente decente com todas essas precauções. Jorge Amado que o diga.

A forma de se referir a alguém que é homossexual também se complicou. O termo “gay” se tornou razoavelmente padrão (embora haja dúvida se ele se aplica a todos os homossexuais, independentemente de seu sexo, ou se o termo “lesbian” deve ser preferido para homossexuais do sexo feminino). As variações de comportamento sexual mais recentemente admitidas, como “bisexual” (em Inglês com um “s” só) e “transsexual” (este com dois “s” em Inglês) acabou por levar à sigla LGBT (Lesbian, Gay, Bisexual, Transsexual), hoje amplamente usada, inclusive no Brasil, onde algumas letrinhas são acrescentadas, que só os ultra-especializados conseguem explicar (embora, no caso do último termo, hoje se prefira “Transgender” a “Transsexual”).

A preocupação de Haidt e Lukianoff não é com os detalhes da linguagem politicamente correta, mas com o fato de que a sua adoção é usada como critério para demarcar “a turma do bem” da “turma do mal”, entre “nós” e “eles”.

Isso já se dá também no Brasil.

Se alguém inicia uma palestra dizendo “Boa noite a todos e todas”, em vez do convencional “Boa noite a todos” (que inclui todas as pessoas e todos os pessoos (!), independentemente de seu sexo), ele ou ela (!) está dizendo que faz parte da turma do bem… (Se quem está falando for mulher, é de rigueur que diga “Boa noite a todas e todos” – pondo o pronome feminino antes. Quem não segue essa praxe é considerado insensível à questão do gênero (expressão aqui preferível à expressão “questão do sexo” ou “questão sexual”, porque é de palavras, vale dizer, de linguagem que se trata, não de biologia).

Aqui no Brasil já se começa ver, na televisão, negros se referirem a si mesmos como pretos. (Alguns negros / pretos sempre usaram os termos “crioulo / crioula” para se referirem a si próprios, mesmo depois desses termos serem considerados pejorativos se usados por um branco / uma branca (!) para se referir a alguém da outra raça. (Mesmo falar em “raça” se tornou problemático, havendo “cientistas” que afirmam que raças não existem). Quando eu era adolescente havia um jogador de futebol do Fluminense cujo apelido era “Escurinho”. Esse apelido era considerado tão normal quanto apelidos como Japonês / Japa, Português / Portuga, Alemão, Gringo (para Americano), etc. Houve época em que, em formulários, ao preencher ao campo “Cor”, alguns, hoje denominados pardos, informavam: “Escurinho / Escurinha” (ou, então, “Moreno  / Morena”). Hoje, não mais.

Como é que se designa alguém nascido / nascida (!) nos Estados Unidos ou que é cidadão / cidadã (!) daquele país. Tradicionalmente se dizia “americano / americana” (!). O nome oficial do país é “United States of America”, ou, na prática, simplesmente “America”. Nosso país, quando se tornou independente, e por muito tempo, se denominou “Estados Unidos do Brazil” (assim com “z” na grafia antiga). Embora a gente também vivesse numa das Américas, a gente se designava simplesmente “brasileiro / brasileira” (!).

Hoje a gente encontra no Brasil toda forma de absurdos: “norte-americano / norte-americana” (como se os canadenses e mexicanos / mexicanas (!) não o fossem; “estadunidense”, embora ninguém nascido / nascida (!) no Brazil / Brasil de antigamente se denominasse “estadunidense”, em vez de brasileiro / brasileira (!), etc.

A terceira das três tendências (ou inverdades) é que essas questões de sensibilidade / insensibilidade nada têm que ver com a razão, mas, sim, com o sentimento (identificado pela intuição e não pela razão). Assim se elimina toda uma área, a importante área da linguagem, da fala, da escrita, do discurso, do âmbito da análise racional, deixando-a à mercê dos sentimentos e da intuição – que é algo que, supõe-se, não se discute ou debate, simplesmente se reconhece.

Como já observado, muitas dessas questões se aplicam ao Brasil de hoje, dividido entre dois grupos: a esquerda e a direita, os petistas e os antipetistas. É forçoso reconhecer que há antipetistas que se reconhecem como de esquerda, e que, entre os restantes, há muitos que não se reconhecem como de direita, preferindo se identificar como liberais. Eu, por exemplo, sou antipetista radical, mas sou a favor do aborto, em várias situações, não sou contra o reconhecimento legal de uma sociedade conjugal entre pessoas do mesmo sexo, defendo uma educação libertária, não tradicional, e desescolarizada (vista a escola como ela é hoje), isto é, sem currículo, sem ensino, sem professor, sem avaliação, etc.

Para que algumas dessas questões se resolvam, concordo com os autores que, antes de mais nada, a nossa sensibilidade deve se tornar menos exacerbada. Devemos reconhecer, entre outras coisas, que a linguagem, excetuados os casos claros de calúnia, difamação e real injúria objetiva (não a injúria subjetiva frequentemente alegada hoje), não fere ou machuca, embora, dependendo de quem venha, possa irritar e e até mesmo magoar. Reconheço que as linhas demarcatórias entre um xingamento e uma calúnia, entre uma ofensa absorvível e uma difamação, entre um abuso (chamar alguém de vagabundo, estrupício, canalha, mau caráter, etc.) e uma real injúria, que cause danos e prejuízos à pessoa, são difíceis de definir – mas é preciso tentar, desde que o Judiciário tenha bom senso e saiba analisar os fatos e as normas com neutralidade e isenção.

Nos séculos 16 e 17 houve várias guerras motivadas por questões religiosas. Hoje o clima de opinião e sentimento é tão aguçado, em especial nos Estados Unidos e no Brasil, que não é difícil imaginar que possa haver guerras por questões políticas. Brigas e assassinatos por causa de futebol já são comuns. Neste contexto, recomendo a leitura deste livro e do livro anterior de Haidt, mencionado atrás.

Em São Paulo, 20 de Outubro de 2018.

Aprendizagem sem Hora Marcada

RECOMENDO, sem reservas, o livro cuja capa aparece na foto a seguir e cuja resenha é acrescentada como Anexo.

Timeless Learning

Seu título é Timeless Learning: How Imagination, Observation, and Zero-Based Thinking Change Schools. O título é meio difícil de traduzir para o Português, mas eu o traduziria livremente como Aprendizagem sem Hora Marcada: Como a Imaginação, a Observação, e uma Abordagem Teórica que Começa do Zero Mudam as Escolas. Seus autores são Ira Socol, Pam Moran, e Chad Ratliff e o livro acaba de ser lançado em 2018 pela Jossey-Bass, uma marca inovadora da tradicional casa editorial, John Wiley & Sons, fundada em 1807, duzentos e onze anos atrás (https://www.wiley.com/). Esse fato já é, em si, simbólico: ele mostra que tradição e inovação não são necessariamente abordagens incompatíveis. (Um pouco mais sobre isso, abaixo.)

Clicando no link abaixo você vai para uma excelente resenhado livro escrita por Will Richardson, que me foi enviada por meu grande amigo, o educador australiano Bruce Dixon (do qual fui colega durante dez anos, de 2003 a 2013, no International Advisory Boardda iniciativa global da Microsoft na área da Educação conhecida como Partners in Learning (PIL). Ambos, Will e Bruce, coordenam o importante site Modern Learners (https://modernlearners.com/).

Há muito tempo que eu estou totalmente convicto de que a escola tradicional / convencional (a praga que temos espalhada por aí, em todo canto) já viveu pelo menos meio século, ou, talvez, mais de um século, de total anacronismo.

Ela é se tornou anacrônica já há algum tempo porque foi criada para a Civilização Industrial— a civilização das coisas padronizadas e estandardizadas, do cada coisa “a seu tempo”, “em série” e na “ordem certa”, a civilização dos grandes estoques, e não da produção “Just in Time” e “Just Enough”… – e essa civilização já acabou e está morta, faltando só enterra-la definitivamente.

Nessa Civilização Industrial todo mundo, quando chegava a uma determinada idade (sete, seis, cinco anos, por aí), era internado em uma mesma instituição, a escola, para aprender as mesmas coisas (uma grade curricular inflexível, composta de informações e conhecimentos organizados em matérias e disciplinas, centradas em linguagem, matemática e ciências – e que não era chamada de “grade” por acaso…), da mesma forma (assistindo a aulas monótonas e cansativas ministradas por professores / ensinantes entediados por estarem aulando as mesmas coisas pela enésima vez), na mesma sequência (séries), as séries sendo “casadas” com as idades das crianças / adolescentes / jovens, e a “aprendizagem” destes (entendida como a absorção das informações e conhecimentos que lhe eram passados) sendo avaliada mediante testes, provas e exames.

A vida das pessoas, na Civilização Industrial, também era segmentada: uns poucos anos para brincar(de um a seis, cinco ou quatro), vários outros anos supostamente para aprender(mais quatro, cinco, seis, dez, quatorze, dezoito) para aprender, cerca de trinta a quarenta para trabalhar, e, ao fim, o que sobrar para finalmente desfrutar a vida, e/ou preparar-se para a morte, ao longa da aposentadoria.

A razão pela qual a internação na escola precisou ser gradualmente estendida – a escolaridade obrigatóriaera de quatro anos, inicialmente, hoje é de cerca de dezoito – deveu-se ao fato de que se acreditava que, na vida, havia uma fase dedicada exclusivamentea aprender, durante a qual se deveria aprender tudo aquilo que pudesse vir a ser necessário nas fases posteriores (num processo semelhante ao de estocagem), em especial na fase dedicada ao trabalho produtivo. Assim, além de se estender o número de anos de internação na escola, também aumentou-se o número de dias passados na escola durante o ano (o calendário escolar também foi espichado), e o número de horas passadas na escola durante o dia se ampliou – o ideal passando a ser a “escola de tempo integral” – em que crianças / adolescentes / jovens passam internados durante cerca de dezoito anos na melhor fase da vida! Assim a educação das crianças / dos adolescentes / dos jovens foi escapando das mãos da família nuclear e estendida, e da comunidade imediata em que essa família vivia, para passar para as mãos do estado, a ponto de o nosso nefasto Supremo Tribunal Federal há dias ter negado aos pais o direito de conduzir a educação dos filhos sem interna-los na prisão escolar.

Essa civilização começou a ser suplantada e substituída pela Civilização da Aprendizagem(que recebe vários outros nomes, como Civilizaçãoda Criatividade, ou, com base em seu insumo básico, Sociedade da Informação e Sociedade do Conhecimento) desde o final da Segunda Guerra, ou, pelo menos, a partir de meados dos anos 1950, quando mais pessoas passaram a trabalhar na área de serviços, relacionamentos, informações e conhecimentos(o chamado setor terciárioda economia) do que nas áreas da extração de matérias primase da agropecuária(o setor primário da economia) e da indústria de transformação (o setor secundário da economia) COMBINADAS.

Tomei conhecimento desse fato em 1980, quando li pela primeira vez o livro The Third Wave/ A Terceira Onda, de Alvin Toffler, publicado naquele ano, dez anos depois do seu também muito bem sucedido Future Shock/ Choque do Futuro, de 1970). Assim que li o livro resolvi dar um curso eletivo sobre ele no Curso de Pedagogia aa Faculdade de Educação da UNICAMP, da qual havia me tornado diretor naquele ano, e fiz exatamente isso (apesar de o Diretor ser dispensado de aular).

Desde então, passei a estudar regularmente esse ingresso do nosso mundo ocidental civilizado na Terceira Onda. Aqui no Brasil nós, apesar de avanços, estamos sempre atrasados. Nossa economia ainda é tremendamente dependente de atividades de Primeira Onda (extração de minerais e petróleo, agricultura, pecuária, etc.), nossa atividade na área da Segunda Onda (indústria de transformação) é relativamente pequena e oscilante, e ainda não ingressamos de forma generalizada na Terceira Onda, exceto em grandes cidades da linha de frente da economia, como, no Estado de São Paulo, a capital, São Paulo, Campinas, São José dos Campos, Ribeirão Preto, etc. e, fora do Estado de São Paulo, principalmente Curitiba.

Inicialmente, defendi a tese de que era preciso radicalmente transformar a escola, para adequa-la à Civilização da Aprendizagem e da Criatividade. Escrevi um livro, em 1998, a pedido do Ministério da Educação (MEC), com o título Educação e Tecnologia: O Futuro da Escola na Sociedade da Informação. Por desentendimento com o MEC acerca de direitos autorais, o MEC acabou não distribuindo o livro – e eu o distribuí muito mal, colocando em meu site uma versão PDF, a partir do ano 2000. Ao longo de 2001-2002, escrevi outro livro, em decorrência de minhas consultorias à Microsoft Brasil e ao Instituto Ayrton Senna, que acabei não publicando, depois de já estar aprovado pela editora (SENAC), porque meu pensamento estava evoluindo muito rápido naquela época, em especial em função de minhas conversas e discussões com dois educadores de escol, Rubem Alves e Antonio Carlos Gomes da Costa. O título que dei ao livro foi Educação e Desenvolvimento Humano: Uma Nova Educação para uma Nova Era. Ele foi usado para uma formação que dei aos primeiros constratados pelo Ricardo Semler e pela Helena Singetr para serem os tutores e mestres iniciais da Escola Lumiar. (Para os interessados, estou presentemente a tomar providências para publicar esses dois livros em formato de e-book através da Editora Kapenke, de meu sobrinho, Vítor Chaves de Souza).

A partir de alguns anos atrás tenho defendido a tese illichiana da Descolarização da Sociedade, que eu chamo (com algumas nuances de sentido) de Desescolarização da Educação, como se pode constatar em meu blog / site Deschooling Education (https://deschooling.education/).

Temos tido, minha mulher e eu, interessantes discussões sobre a questão da viabilidade da escola hoje. Ela, Paloma E M C Chaves, ainda acredita que a escola tem algum futuro, desde que radicalmente transformada. Eu, da minha parte, prefiro lutar diretamente por uma Learning and Creative Society– uma Sociedade da Aprendizagem e da Criatividade, em que livremente se aprende anytime, anywhere and anyhow, ao longo da vida inteira, em função das necessidades e dos interesses de cada um, sem que a aprendência e a criativivência sejam institucionalizadas.

Note-se que John Dewey(e discípulos brasileiros seus, como Anísio Teixeira), embora ainda não estivessem prontos para considerar a desescolarização ou desinstitucionalização da educação, defenderam uma educação centrada nos aprendentes (não nos ensinantes) e entremeada com a vida, os interesses, e a experiência desses aprendentes, tanto dentro como, especialmente, fora da escola. Esse tipo de educação foi chamado de Educação Ativaou Educação Progressista. Mais recentemente (começando uns trinta anos atrás), li com o maior interesse as obras de John Holt, considerado o pai não só do movimento chamado de Home Schooling, um nome que considero inadequado, mas também do movimento denominado, mais apropriadamente, Unschooling. Mas esses dois movimentos ainda são bastante minoritários.

Hoje em dia temos, em movimentos majoritários, temos duas tendências.

De um lado, defensores da escola tradicional / convencional, apoiados em algumas iniciativas reformadoras, mas quase nunca radicalmente transformadoras, e em geral centradas no uso controlado (ensinante) e domesticado da tecnologia (uso esse não-disruptivo do currículo e da metodologia escolar), têm procurado reforçar a tese de que a escola deve centrar sua atenção nas matérias e disciplinas básicas, que, para eles, são Linguagem, Matemática e Ciências – talvez com uma breve pitada de Solução de Problemas, para os mais inclinados para as Ciências Naturais, as Engenharias, e as Tecnologias em geral.

Do outro lado, temos defensores de uma educação escolar liberal, focada na leitura dos Clássicos e das Grandes Obras Filosóficas e Literárias da Civilização Ocidental, que hoje também não prescide do uso da tecnologia, mas que é voltada para os mais inclinados para a área de Humanidades e Ciências Humanas (como certamente é o meu caso).

Lembram-se do tempo em que o Segundo Ciclo do Ensino Secundário, o chamado Colegial, era dividido entre Científico e Clássico? Eu comecei a cursar o Científico e o abandonei depois de um semestre apenas: fui cursar o Clássico, em que me realizei. A divisão de alguma forma continua…

Mas eu evoluí…

Se você está entre aqueles que, como eu, acha que a Educação não deve preparar apenas para uma carreira e uma profissão, mas para a vida, e que sempre ficaram, nos últimos tempos, em que as ideias de John Dewey ficaram em baixa, espremidos nessa briga entre Cientistas Naturais e Engenheiros, de um lado, e Bacharéis e Intelectuais, do outro, o livro resenhado é um alento.

Depois de passar os olhos, em leitura dinâmica, pelo livro resenhado, estou quase a concluir que não é preciso decidir, primeiro, se a escola, enquanto tal, é recuperável ou se ela está definitiva e irrecorrivelmente condenada à morte, sem direito a sursis. O futuro decidirá isso.

O que é preciso fazer com urgência é refocar a educação na Vida e no Desenvolvimento Humano. Para isso, a tecnologia (hardware + software) é importante, mas não é essencial. Essencial é entender a educação como desenvolvimento do nosso mindwarepara que possamos viver vidas realizadas e felizes. Por isso publico este artigo também nos meus blogs Mindware Education(https://mindware.education/), EduTec Space (https://edutec.space/), e no meu Portal de Blogs, Chaves Space(https://chaves.space/).

Em Cortland, OH, 1º de Outubro de 2018.

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ANEXO:

Choosing Progressive Education for Modern Learning

By Will Richardson

July 31, 2018

https://modernlearners.com/choosing-progressive-education-for-modern-learning/

While it’s hard to count the number of profound thoughts and insights that frequent Timeless Learning, the absolutely powerful new book from Ira Socol, Pam Moran, and Chad Ratliff that’s coming out next week, this one particular passage had my inner and outer edu-activist pumping his fist:

Adults may argue about this – they do argue about it – but despite the historical victories of industrial education, the fundamental utility of school has now firmly shifted to the progressive educational ideal, what John Dewey wanted” (97).

Finally, some well-respected voices who categorically state that for this modern era, for the sake of  today’s kids living in today’s world, we must choose Dewey over Thorndike, not the other way around.

To be sure, I know many progressive educators in classrooms and schools right now. Heck, there are actually a smattering of fully functioning and fully committed progressive schools where absolutely amazing things are happening with kids and teachers who are all passionate learners. That said, too many in and out of education have long been hesitant to embrace that “progressive” moniker, partially because of the baggage it carries (it’s “soft,” you know) and partially because not enough people really understand what the word means in the context of learning.

Ira and Pam and Chad, all from the Albemarle (Va) School District, don’t just know what it means. With Pam’s guidance as superintendent, over the last 13 years (she retired this spring) Albemarle has moved from a fairly traditional public school district to one that is a living, breathing exemplar of a) what schools can become if we truly put kids at the center of our work, and b) what professional practice looks like when it’s deeply rooted in a commitment to beliefs and values and, importantly, a clear understanding of the opportunities and challenges of the modern world. In other words, “progressive.”

For that reason alone, this book is important. The story that the authors tell is not one about buzzwords, cool new technologies, some new acronym-forced strategy, or vague word salads about whatever new innovations or new pedagogies or new skillsets are the flavor of the month. Instead, as the title suggests, it’s a story about the timeless knowledge that we all share about how kids learn, how adults learn, and how we learn together in schools. I hesitate to say that you won’t read anything especially surprising in this book; you’ll likely be nodding your head on every page. But if you read it to the end, you may be surprised at how high your bar gets set when thinking about where to take your own work in schools and classrooms, even for those of you for whom “change” has been a focus already.

The inspiration here is this: It can be done. The message is this: It must be done. We have to stop hewing to the systems and structures that have for so long defined “school” and start seriously articulating and living a different vision. And it’s the living part that makes this book so special. As the authors say, it’s not a “how to;” every school is different. It is, instead, a model for what can happen when you commit fully over time to build from a deep understanding of how powerful learning happens for kids.

So let me share a couple of let’s-not-mince-any-words snips that speak to the progressive ideal, to the urgency for change, and to the realities of the system today.

“In our observations, we’ve discovered that educators with a bias toward the child—those who embrace children’s engagement, happiness, agency, and strengths—share a core belief that the essential role of school communities is to empower children through a multitude of learning pathways. Such progressive educators support children to develop life competencies through a wide bandwidth of democratic and experiential learning opportunities in both formal and informal settings—projects, maker learning, collaborative exploration of interests, technologies of all kinds used to produce learning, and exhibition of learning to authentic audiences. These educators speak with conviction about the value of knowing children as individuals rather than focusing on the data inherent in traditions of scientific management. They do not represent the norms of educational systems developed over decades through “cells and bells” structures, direct instruction, and bell curve expectations. In short, they work hard to free the child from the shackles of the compliance-based system they’re trapped in” (40).

And another:

“There are societal changes that now enable educators to leverage making as a tool – or as a philosophy inside compulsory education that we can leverage as a pathway toward a progressive education model. When people say, “Well, we all shouldn’t be makers,” we ask, “How do you define making?” Should everybody need to know how to use a 3D printer? We don’t think so. Should everybody need to know how to come up with their own ideas, and then know how to learn what they need to know about those ideas, and how then to make those ideas real, and introduce them into society in some authentic way, whatever is meaningful to the individual? Then yes, yes. Every learner should learn to do that – and they shouldn’t only have their one cool government teacher to do that. We have 13 years of iterative experiences through which we are working to do that. We are pushing back at nurturing the compliance that America’s present-day schools are built upon” (139).

And, finally, just one more to get you thinking:

“Incremental shifts in practice are not the focus of our work. We are committed to significant transformation of the teaching and learning culture in our schools. We know from our work that for individual teachers and whole faculties to change pedagogies, they themselves must commit to learning how to learn in today’s world. This means reflection, inquiry, and study in collaboration with colleagues and mentors. Provocation of thought and processing drives professional growth beyond superficial change of little magnitude to deep change that results in substantively different learning experiences for young people. We have seen this occur when professional learning opportunities shift from the normative top-down, program-driven professional development to experiential learning that gets educators out of the box we call school. When our educators come to embrace and own their own learning in a context of seeing themselves as designers, creators, and makers, it changes the game in how they approach working with learners” (159).

Change in schools is not about teaching. It’s not even about education. It’s about learning. And, ironically, that’s what makes it so challenging. The unpleasant truth is that schools were not built for learning. To change them to actually be about learning is hard, difficult work. It’s work that honestly, most people don’t want to tackle at scale. It’s easier to drive numbers. It’s easier to offer more AP tests or carve out a “Genius Hour.” It’s easier to try to keep parents and policy makers and union reps happy by just tweaking the recipe a bit than it is to peel back all the layers and start asking the deeply important questions about what’s actually best for all kids, every day, today.

But just remember: “The fundamental utility of school has now firmly shifted to the progressive ideal.” You may not believe that…yet. You may not think that shift is about your school. But it is. Your kids are writing a new story of learning outside of school that at some point will require your full embrace inside of school. That is the story of  Timeless Learning, and you ignore it at your own peril.

And to your kids’ detriment.

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