Crepúsculo

Das estações do ano, gosto mais do Outono. Devia viver em um lugar mais distante dos Trópicos, onde as árvores, antes de perder de vez as folhas, se tornam amarelas, alaranjadas, quase marrons. É uma visão linda. Prenúncio do Inverno que chega.

Das estações do dia, gosto mais do Crepúsculo. Hoje, vindo de Campinas para Salto, entre cinco e meia e seis e meia da tarde, fiquei observando o céu… Inicialmente, escuro, ameaçador: parecia que vinha uma tempestade. Depois, aos poucos, o escuro do céu foi abrandando e as cores se tornaram claras: tons de azul e rosa misturados, com um resto de sol tentando aparecer entre nuvens, mostrando, quem sabe, que, mesmo quando tudo parece perigoso e ameaçador, ainda há esperança.

Talvez, anos atrás, preferisse a Primavera e o Amanhecer — ou, pelo menos, o Verão e o Dia. Outono e Crepúsculo são rótulos que se aplicam à fase final — ou, talvez, antefinal — da vida. A fase final mesmo seria o Inverno e a Noite. Talvez minhas preferências, hoje, signifiquem que acredite que ainda tenho algum tempo: que o Inverno e a Noite ainda podem esperar um pouco… Que, talvez, seja possível extrair alguma Primavera e algum Amanhecer do que resta.

Cheguei aqui ao meu sítio, O Canto da Coruja, à noite — mas o céu ainda mostrava, aqui e ali, restos da luz do sol. Agora, tudo é noite.

Em Salto, 24 de Julho de 2008

Eu era pobre e feliz… e não sabia

O título da autobiografia de Simone Signoret, durante anos a grande dama do cinema francês, e, por um bom tempo, mulher de Yves Montand, é notável: La nostalgie n’est plus ce qu’elle était A nostalgia não é mais o que era — nem ela escapa das mudanças do nosso tempo…

Hoje amanheci me sentindo meio esquisito, com uma sensação no peito que, paradoxalmente, era de vazio e de opressão, como se, dentro dele, houvesse, ao mesmo tempo, muito pouco e demasiado… E senti saudade de um tempo em que a vida era simples e descomplicada, sem problemas, sem angústias, sem sofrimento (real sofrimento)… O tempo da infância. Aquele tempo em que, para usar as sábias palavras de Ataúlfo Alves (em “Vida de minha Vida”), a gente “era feliz e não sabia…” E senti nostalgia. Nostalgia da boa, não aquela que não é mais o que era.

Meu pai, nos idos dos anos 50, escreveu uma crônica chamada “Tempos que não voltam mais”, para um programa chamado “A Hora da Saudade”, da antiga Rádio Tupy (se bem me lembro). Na crônica, linda (vou ver se a acho para transcrevê-la aqui), ele invocava Casemiro de Abreu, em “Meus Oito Anos”. Ali o poeta dizia: “Ah que saudades eu tenho da aurora da minha vida, da minha infância querida, que os anos não trazem mais! Que amor, que sonhos, que flores, naquelas tardes fagueiras, à sombra das bananeiras, debaixo dos laranjais”… A principal lembrança de meu pai era o jogo de futebol na Praça da Matriz, em Patrocínio, usando uma bola de meia…

Bola de meia!!! Que pobreza! E, no entanto, que felicidade a dele!

Estava, aqui, “me, myself and I”, como diz o título da música de Billie Holiday, quando encontrei o artigo de Anna Veronica Mautner, na Folha de hoje (24/7/2008), “Onde foi parar o campinho?” (transcrito abaixo). E daí minha memória viajou livre, e minha nostalgia transpôs os limites, conectando todas as memórias mencionadas nos parágrafos anteriores.

Isso, porque eu também tive o meu campinho. Era meu, não porque ficasse em terreno de propriedade da família (a família não tinha quase nada), mas porque ficava em frente à minha casa, na Travessa Particular, 10, em Santo André, entre as ruas Senador Flaquer e Onze de Junho. Neste tempo de condomínios e edifícios de luxo, com nomes e endereços nobres, ninguém mais mora em “travessa”. Travessa é coisa de vila, e morar em travessa é coisa de pobre. E eu era pobre — embora, para parodiar o grande Ataúlfo — eu não sabia. Na verdade, não tinha a menor consciência do fato.

O ano era 1952, eu tinha oito anos (como no poema de Casemiro), e havíamos acabado de nos mudar para Santo André. Meu pai, Oscar Chaves, era pastor protestante (presbiteriano). Muitos dos pastores de hoje têm dinheiro. Não o meu pai. Ganhava uma miséria da igreja, o que tornava a vida apertada em casa. Apenas sei disso olhando em retrospectiva. Na época parecia que todo mundo era assim, e, portanto, não havia razão para nos considerar diferentes. Em casa tomávamos um leite em pó ruim, detestável, meio salgado, que os americanos doavam para os países pobres (acho que pela Aliança para o Progresso)… Sobremesa (goiabada de lata) só quando meu pai pagava a caderneta no armazém do português, uma vez por mês… Talvez seja por isso que, de vez em quando, fico meio desesperado por doce até hoje…

Mas deixo a pobreza temporariamente de lado para me concentrar na felicidade.

A felicidade era o campinho na frente de casa. Chamar aquilo de “campinho” pode dar a impressão errada, pode evocar nas pessoas de hoje a imagem de um espaço regular, gramado, com goleiras, quem sabe até marcado de cal… Não. O campinho da Travessa Particular era apenas um terreno baldio, cheio de mato, pedras, cacos de vidro, com apenas uma pequena clareira, onde a gente jogava bola. As goleiras eram marcadas por pedras e tijolos. Se a bola passava meio alta, era uma briga para decidir se havia sido gol ou se a bola havia passado por cima… (por cima de quê???). Nada disso, porém, impedia que a gente jogasse bola no campinho e, com o tempo, fosse aumentando a clareira, de tanto pisar no mato circundante.

Em 1952 a instituição da bola de meia já havia desaparecido. A gente jogava com bola de borracha ou, quando havia (que glória!), de couro (chamada de “bola de capotão”)… Logo depois do almoço a meninada começava a juntar para o joguinho que durava quase a tarde toda. O problema é que muitas vezes não havia bola… Era necessário esperar por algum felizardo que tivesse uma bola para a gente começar a jogar. O dono da bola, naturalmente, tinha privilégios: podia começar escolhendo quem iria jogar do seu lado (uma vantagem enorme, porque sempre havia um craque no grupo, que era disputado pelos dois lados). E, naturalmente, ele decidia quando o jogo terminava. Bastava a mãe gritar o nome do dono da bola naquele tom inconfundível de urgência numa das casas da redondeza, e o jogo estava terminado, como se um juiz houvesse dado o apito final. Quando isso acontecia, o resto da meninada se sentava no chão empoeirado e ficava conversando, ou, então, jogando bolinhas de vidro (então chamadas “fubecas” em Santo André), enquanto esperava uma nova bola, que raramente vinha.

O que me deixa perplexo, hoje, é que tão poucos tivessem uma bola. Eu só vim ter a minha primeira bola de capotão (número 3) quando preenchi um álbum de figurinhas de futebol em 1954. Para completá-lo, precisei da ajuda de meu pai, que me deu uns trocados para eu comprar a dificílima figurinha da CBD (Confederação Brasileira de Desportos), última do álbum, carimbada, que parecia nunca sair nas balas (as figurinhas naquela época vinham em balas, às vezes se sujavam quando as balas, do tipo “paulistinha”, melavam). Descobri um menino que tinha a bendita figurinha que me faltava, e implorei ao meu pai os trocados necessários para comprá-la. Ele me deu, eu a comprei, e ganhei minha bola. Pela primeira vez eu poderia ser o dono da bola…

Mas eu tinha um ciúme doido dela. Tinha medo de ela ficar arranhada e esfolada nas pedras — ou, pior, de ela furar ao bater num caco de vidro. E havia sempre o perigo de um chute forte e mal direcionado fazer com que a bola caísse na oficina do seu Isaque — daí seria o fim definitivo: ninguém tinha lembrança de o seu Isaque haver jamais devolvido uma bola… A minha bola logo se arranhou e esfolou toda, perdeu a cor alaranjada que tinha, quando nova… Mas, por um tempo, era a melhor bola do pedaço — o que me fazia o rei do campinho… O pessoal me implorava para ir jogar — e eu, morrendo de vontade, fazia doce… (a expressão não existia então, mas a coisa, sim).

Não sei que fim levou a minha primeira bola. Durou um bocado. Deve ter morrido de velha. Depois de um tempo ganhei no Natal uma número cinco. Naquela época não era costume ganhar presentes caros — e uma bola de capotão número 5 era um presente caro em minha casa então…

Eu era pobre… e feliz (e não sabia!).

Um dia desses eu fiz uma referência ao “meu tempo” e alguém disse que o meu tempo era hoje. Talvez seja. Mas aqueles tempos distantes, na proletária Santo André dos campinhos de rua, e que (como os jogos com bola de meia de meu pai na Praça da Matriz de Patrocínio) também não voltam mais, eram muito meus. E a nostalgia que me dá lembrar deles é “minha, bem minha, de ninguém a tomei”…

Da pobreza não sinto saudade. Não sou como aqueles intelectuais que enaltecem a pobreza. Mas da felicidade simples e descomplicada que a acompanhou na minha infância, sim, sinto falta dela.

Em Campinas, 24 de Julho de 2008

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Folha de S. Paulo
24 de Julho de 2008

Onde foi parar o campinho?

ANNA VERONICA MAUTNER


[…] CABE À SOCIEDADE PROPICIAR ESPAÇO PARA A EXPERIÊNCIA DOS PAPÉIS SOCIAIS QUE DEVERÃO SER ASSUMIDOS POR ADULTOS


O velho campinho foi o espaço livre onde se brincava na cidade grande. O medo acabou com ele. Vivendo e nos defendendo de forças que nos empurram -de um lado para a vala comum da estandardização e de outro para a premência de sermos únicos e diferentes de todos-, ficamos sem tempo e espaço para brincar e curtir.

Para nossos filhos, púberes ou pré-adolescentes que vivem em grandes cidades sem espaço lúdico, o impacto dessas forças acaba invadindo o cotidiano.

Não dá para eles realizarem tranqüilamente as escolhas que essa dicotomia coloca. É no lúdico que são feitas as escolhas descompromissadas, que funcionam como exercício de autonomia. Criança brinca; adolescente e adulto curtem o que lhes é agradável. No lúdico, pomos à prova o nosso potencial.

Por meio de acertos e erros, aprendemos a refletir sobre nossa relação com o mundo e com nós mesmos. Nessa encruzilhada entre “eu e nós”, é forjado nosso eu, que será tão mais claro quanto mais tivermos tido tempo de faz-de-conta.

Na falta de espaço para experiências emocionais, encontram-se as fontes dos sentimentos de vazio interior e da dificuldade de criar empatia. É aí que o pré-adolescente se sente mal-cuidado e tenta salvar sua integridade existencial forjando experiências que podem ir de violência a apatia.

A agressão pode se voltar contra o meio material (prédios, ruas, jardins) e também contra pessoas. Depredação, pixação e quebra-quebra podem ser vistas como o uso do meio como brinquedo. Essas ações são de grupos aos quais faltaram condições de estabelecerem um imaginário satisfatório.

A sociedade civil vem falhando no provimento do espaço urbano lúdico, onde meninos exercitem liderança, potência, dominação, submissão etc., de que vão precisar no futuro.

Onde estão os quintais, as escadas e os corredores onde as meninas brincavam de casinha, de escolinha e de salão de beleza? Não se impede que as meninas também joguem bola, futebol, amarelinha, queimada.

O espaço livre é necessário para encontrarmos liberdade de entrar e de sair, de participar e de abandonar, de excluir e de ser excluído, fatos inevitáveis na vida de todo cidadão livre.

Fala-se mais em tornar a aprendizagem formal agradável do que em fornecer espaços lúdicos e prazerosos. O jovem que é impedido de fazer parte de várias galeras deixa de se exercitar para a vida adulta.

Sem pretender que isso seja tomado como receita, cito clubes, acampamentos de férias, parques, praias, bandas de música, grupos de teatro, a rua e a praça. Cabe à sociedade propiciar espaço para a livre experiência dos variados papéis sociais que deverão ser assumidos por adultos.

Os espaços livres fazem falta.

Neles se podia brincar longe de casa, sem supervisor. Mas isso era num tempo em que havia espaço e segurança. Vamos tentar reinventá-los?


ANNA VERONICA MAUTNER
Psicanalista da Sociedade Brasileira de Psicanálise de São Paulo, é autora de “Cotidiano nas Entrelinhas” (ed. Ágora)
amautner@uol.com.br

Um mês sem artigos

Hoje faz um mês que não coloco nenhum artigo aqui neste meu space. Poucas vezes isso aconteceu no passado. Também tenho participado pouco das inúmeras listas de discussão de que faço parte (em alguns casos como coordenador).

Não é que não tenha coisas a dizer: de fato, tenho, e muitas. Mas não tenho me sentido muito inclinado a dizê-las – em público, pelo menos. Estou, digamos, procurando um momento de privacidade, em que prefiro guardar as coisas para mim mesmo – ou, então compartilhá-las de forma um pouco mais restrita e reservada.

Talvez a coerência exigisse que não publicasse nem mesmo isso, mas faço-o em consideração aos visitantes regulares.

Qualquer hora volto — espero que logo. Não desista.

Em Campinas, 13 de Julho de 2008

Nós, os latinos, somos tribais?

A leitura do último livro de Isabel Allende, La Summa de los Días, a que fiz referência num artigo de ontem, revela Isabel como uma chefe tribal — que quer ter ao seu redor (aos seus pés?) marido, filhos, genros, noras, netos, ex-genros, ex-noras, filhos do casamento anterior do marido e seus cônjuges, amigos e amigas, psicoterapeutas, contadores e outros prestadores de serviços. Se puder juntar pais, avós, tios e primos à tribo, tanto melhor.

Embora vivendo há anos nos Estados Unidos, Isabel detesta o costume americano (e até certo ponto da Europa do Norte), segundo o qual os filhos saem de casa para ir freqüentar a universidade, ali se emancipam, e, ao se formar, estejam já casados ou não, passam a viver separados (e, de preferência, longe) dos pais. Prefere a bagunça latina em que filhos continuam morando com os pais depois de casados, ou os visitam diariamente, em cujo caso deixam os seus filhos freqüentemente ao cuidado dos avós — ainda que os avós sejam pessoas importantes, ocupadas, cheias de compromissos, como é o caso de Isabel Allende. E em que ela, como chefe da tribo, matriarca do clã, se mete na vida de todos, dá conselhos, oferece emprego às noras, arruma namorada para o filho (quando a mulher dele o deixa para viver com a noiva do pseudo-enteado de Isabel — pseudo porque ele era filho da primeira mulher do segundo marido de Isabel com um marido posterior ao que agora é marido de Isabel — capisco?), e assim vai.

Fiquei pensando nessa idéia de que nós, latinos, somos tribais… Seria esse tipo de tribalismo um sinal de sub-desenvolvimento? Ou seria uma forma superior de vida social?

Vivo aqui no Brasil de forma meio tribal — e a Sueli, minha mulher, é sem dúvida a chefe da tribo, a matriarca do clã. Os filhos se reúnem com freqüência em casa, em Campinas ou em Salto, há pelo menos um neto ou uma neta com a gente com razoável freqüência, os filhos casados não permitem que se desmanchem os seus quartos na minha casa, deixam em minha casa roupas suas, caixas com presentes de casamento, roupas e brinquedos das crianças, pacotes de fraldas, chupetas, mamadeiras, danoninhos, bolachas, etc. O Natal sempre passamos juntos (este ano foi exceção). Muitas vezes passam conosco o Natal também os filhos de casamentos posteriores do ex-marido da Sueli, o Toninho: Hidalgo e Luana (filhos da Neusa), e até mesmo o Thiago (filho da Sandra), que ainda mora com ele em Vitória, mas estuda em São Carlos.

E minha mulher, talqualmente Isabel Allende, se mete na vida de todos — com seu relutante consentimento.

Há uma exceção, que sempre me intrigou. O meu sogro, depois de separado de minha sogra, no início dos anos setenta, teve uma filha, Lisiane (apelidada de Pedrita, porque quando pequenina usava o cabelo no estilo do da boneca Pedrita, então famosa), que teria, hoje, quase a mesma idade da Patrícia, minha filha mais nova (a Patríca é de 1975 e a Lisiane, de 1977). Teria, porque morreu, neste ano de 2007, aos trinta anos, aparentemente de ataque cardíaco. Por uns anos, depois da morte do meu sogro (já faz muito tempo), trouxemos a Lisiane para passar  tempos aqui em casa, e nos dávamos relativamente bem com a Marlene Durau, sua mãe. A Lisiane era meio-irmã da Sueli, mas parecia mais meio-irmã da Patrícia — até nas rivalidades e ciumeiras. Num determinado momento, porém, quando a Lisiane tinha, creio, cerca de sete ou oito anos, a Sueli cortou relações com as duas e não quis mais saber de vê-las. Até hoje não entendi direito por quê. Como é de esperar, o assunto é meio tabu — mais ainda agora, que a Lisiane morreu. Mas deixemos esse assunto de lado. Só esta referência já deve me criar problemas…

A Andrea, minha filha que mora nos Estados Unidos, teria uma vida diferente se a Maria Luiza, sua mãe, não morasse pertinho dela, formando uma tribozinha própria. Neste Natal e Ano Novo estavam na casa da Andrea, além da família dela (Rick, Olivia e Madeline), a Patrícia, minha filha menor, com o Rubens, seu marido, e o Marcelo, filho deles e, naturalmente, meu neto, a Maria Luiza e o Elton (marido dela), a Teresinha, irmã da Maria Luiza, e o José Lázaro, marido dela, o Francisco, a mulher e os filhos (ele um colombiano que trabalha para a Maria Luiza)… Ou seja, uma tribo de proporções razoáveis…

É verdade que o Natal é uma das datas em que mesmo os americanos mais arredios se reúnem. A outra é o Dia de Ação de Graças, que aqui no Brasil não pegou. Mas a casa da Andrea está virando um ponto de encontro, a sugerir que ela esteja em linha para ser, no futuro, a matriarca do sub-clã americano da família.

Para mim não causa surpresa que sejamos assim, nós os latinos. O que me surpreende mais é me dar conta de que a cola que mantém as nossas tribos geralmente é feminina.

Que isso é bom, especialmente depois que vêm os netos, não tenho dúvidas. Não consigo imaginar minha vida sem os netos por perto, vendo-os com freqüência (mas em dosagens controladas). Mas, se é tão evidentemente bom, por que os países desenvolvidos em geral adotam um costume diferente? 

É curioso que, na Europa, são os países latinos do Sul (especialmente Itália, Espanha e Portugal) que ainda preservam um pouco do espírito tribalista. Mas, até bem pouco tempo, eles estavam entre os países menos desenvolvidos do ponto de vista econômico…

Em Campinas, 2 de Janeiro de 2008

2007: "L'année à peine a fini sa carrière…"


Escrevo no penúltimo dia de 2007…

O calendário anual, com seus meses e semanas, dá a impressão de que o tempo é cíclico, que depois de cada ano sempre vem um outro… O início de um novo ano permite que, até certo ponto, passemos uma esponja sobre o ano que termina e façamos resoluções que nos permitem acreditar que o novo ano será diferente. “Ano Novo, Vida Nova”, diz o dito (acho que ao dito só cabe, pleonasticamente, dizer). As resoluções em regra duram pouco, os problemas do ano velho não demoram por reaparecer, o ano novo envelhece e a vida, que queríamos nova, continua a mesma de sempre, caminhando para o seu fim inevitável, porque, na realidade, o tempo é inexoravelmente linear – e a nossa vida, embora possa ter alguns recomeços, caminha fatalmente para o fim, e cada dia, cada mês, cada ano que passa nos traz mais perto dele.  

Alguém uma vez disse – teria sido o Rubem Alves? – que deveríamos contar, não os anos já vividos, mas, sim, os anos que ainda falta viver e o que pretendemos fazer neles. Sugestão bonita, mas imprática, porque não sabemos quanto tempo ainda nos resta. Podemos até fazer lindos planos para o futuro – mas nada garante que teremos o tempo suficiente para transformá-los em realidade. No entanto, essa atitude, se levada muito a sério, nos levaria ao imobilismo total: nunca planejaríamos nada, porque não teríamos condições de saber se estaríamos lá para participar da execução do plano… Em sua vertente mais radical, essa visão poderia levar ao dito bíblico: “Comamos e bebamos porque amanhã morreremos…” É melhor adotar uma atitude que não nos paralise a capacidade de sonhar e de agir.

Karl Popper, numa passagem que li, já citei e que, citada, provocou interessante discussão, uma vez disse, não me lembro onde, que é a certeza da morte que dá sentido à vida. Se nos soubéssemos imortais, não daríamos valor (ou, pelo menos, tanto valor) à vida, não teríamos medo de morrer, não faríamos dietas e exercícios, e, quem sabe, não nos privaríamos do cigarro, do álcool e de outras drogas… Talvez até dirigíssemos nosso carro como dirigimos os carros nos jogos de videogame, sem medo de bater e capotar, porque, tal qual no videogame, seríamos indestrutíveis (e com uma vantagem sobre o videogame: nele, cedo ou tarde, chega a mensagem “Game Over”; no caso de nossa imortalidade, “the game would never be over”, cada acidente teria um “restart” automático, embutido no sistema…)

O que torna a vida valiosa, disse Popper, é que sabemos que podemos perdê-la a qualquer momento. Ao sair de casa daqui a pouco podemos sofrer um acidente ou um assalto… Ou, ficando em casa, um avião pode nos cair em cima, como aconteceu há pouco tempo perto do Campo de Marte em São Paulo. No entanto, ficamos em casa, ou saímos dela, sem pensar que, de certo modo estamos sempre, em qualquer hipótese, desafiando a morte.

Fico pensando naqueles que, como os pilotos de corrida, que acham sentido na vida exatamente na justa medida em que arriscam sua sorte. Quando morrem, os parentes e amigos em geral dizem: “Pelo menos morreu fazendo aquilo que amava fazer…” Para mim, isso é pouco consolo. É verdade que, se pudesse escolher se morreria fazendo o de que gosto ou se morreria fazendo o que detesto, a primeira alternativa é preferível. Mas no fundo são alternativas detestáveis. A maioria dos seres humanos, podendo, prefere a vida. (Alguns teorizam abstratamente dizendo que, de todas as formas de morte, a preferível seria morrer dormindo, melhor ainda, sorrindo, durante um sonho bonito…)

A grande e significativa exceção à regra de que viver (mesmo mal) é preferível a morrer são os suicidas. Vi ontem um triste filme, com Gwyneth Paltrow, sobre a vida – e a morte – da poetisa americana Sylvia Plath. Mulher bonita e inteligente, publicou seu primeiro poema em órgão de circulação nacional ao terminar o curso colegial nos Estados Unidos. Foi fazer o curso superior em escola de renome, formou-se Summa cum Laude e ganhou a Fullbright Scholarship para estudar em Cambridge, na Inglaterra. Mas, apesar da beleza, da inteligência e do sucesso precoce, tentou matar-se já durante o curso universitário (o que não a impediu de se formar em primeiro lugar na classe). Em Cambridge conheceu um poeta, Edward Hughes, que se tornou seu marido. Intensa, em todos os sentidos, a vida conjugal não lhe trouxe felicidade. Tentou matar-se várias vezes, até que, finalmente, conseguiu. Nascida em 1932, onze anos antes de mim, ela se suicidou em 1963, quando eu tinha apenas vinte anos – e quando John Kennedy morreu. Em 2008 fará 45 anos que ela está morta. Por que não quis viver? Tinha uma carreira promissora pela frente, era bela, era inteligente. Tinha um casal de filhos lindos… É verdade que adquiriu um marido meio pilantra – mas isso não explica a tendência ao suicídio, já manifesta durante o curso universitário.

Se quem planeja o suicídio (“the would-be suicide“) tivesse condições de pensar friamente sobre todo processo, ele seria a única categoria de gente capaz de dizer, quando lhe perguntassem a idade: “Tenho seis meses de vida pela frente – depois, fim, nihil. Prefiro roubar ao destino o direito de me ditar o fim…”

Apesar de amar a vida, consigo facilmente imaginar condições em que (falando in abstracto) seria preferível pôr fim a ela. Uma doença que me tornasse totalmente dependente dos outros e incapaz de fruir as coisas boas da vida (ler, por exemplo) parece-me ser uma delas.

Lembro-me de que, quando começou a moda de descobrir o sexo do bebê antes do nascimento, através da ultrassonografia, muita gente dizia: “Ah, prefiro não saber, para ter a surpresa de descobrir na hora do nascimento…” Hoje em dia parece que todo mundo prefere saber antecipadamente o sexo do bebê para poder tranqüilamente escolher o nome, a cor do quarto, as roupas…

Se descobrissem um método equivalente de descobrir, de antemão, a hora de nossa morte, quantas pessoas iriam se valer do método?

Digamos que eu consultasse esse oráculo moderno e recebesse a resposta de que ainda tenho, digamos, 21 anos para viver – que só morreria aos 85. Será que o meu futuro seria diferente, nesse caso, do que de fato é, no caso presente, em que não sei o dia, nem a hora e só sei que pode ser qualquer dia, qualquer hora… Nessa situação de desconhecimento, pode dar-se o caso de que não venha a viver um dia sequer de 2008 – ou de que venha a viver mais do que o velho Niemeyer (embora isso seja pouco provável – apesar de que para o fumante inveterado que é Niemeyer, passar dos cem poderia ter parecido improvável quarenta anos atrás).

Quantos anos ainda me resta viver? É possível que, se descobrisse que tenho apenas, digamos, três meses de vida, correria para colocar em ordem alguns de meus negócios, fazer um relato de pendências, transformar todas as minhas contas correntes em conjuntas (quase todas já o são), etc. Mas, pensando bem, será que faria isso? Ou será que venderia a casa, o sítio, os carros e iria passear pela Europa, revisitar Paris, Praga, Cesky Krumlov, visitar pela primeira vez Varsóvia, Sofia, Belgrado, São Petersburgo? É difícil decidir isso assim in abstracto, sem estar realmente confrontado com a questão. Mas, de outro lado, será que não estou confrontado com essa questão? Será que não deveria estar partindo já para a Europa em vez de ficar aqui dando palestras e escrevendo textos para uns e para outros, e para mim mesmo? 

Como saber?

What if…?

Em Salto, 30 de Dezembro de 2007

O Pagador de Promessas (ou: Deus existe???)

No dia 2 de Dezembro, domingo, de manhã, escrevi uma mensagem à minha lista de discussão LivreMente, dizendo:

"Copiando algo que disse o Zé Simão, se, hoje, o Corinthians cair para a segunda divisão e o Não ganhar na Venezuela, e, nas próximas semanas, a prorrogação da CPMF for rejeitada, eu volto a acreditar em Deus e na sua justiça e vou a pé até Aparecida…"

Parecia impossível, naquela manhã de domingo, que as três coisas acontecessem. Parecia bem mais provável, então, que nenhuma delas acontecesse.

Pois bem. As três aconteceram, e agora estou sendo cobrado a me tornar uma versão atualizada de "O Pagador de Promessas"…

Alguns amigos me sugeriram que, à semelhança dos políticos, enrolasse, alegasse que havia sido mal-interpretado, que não havia sido exatamente isso que eu disse, etc. Outros me sugeriram que esperasse, porque o Chávez poderia ainda reverter o resultado do plebiscito e o Lulla poderia re-criar a CPMF. Ainda outros me sugeriram que comprasse um cajado, deixasse a barba crescer, e enfrentasse a dura realidade dos romeiros.

Não podia mais ficar calado. Hoje cedo postei a seguinte mensagem na lista:

"Analisando todas as sugestões concluí que a melhor solução é não tergiversar. Prometi que iria a pé até Aparecida, caso o Corinthians fosse rebaixado e o Chávez e o Lulla fossem derrotados, o primeiro no plebiscito, o segundo na votação da CPMF. Tudo isso miraculosamente aconteceu — e não tenho outro recurso: irei a pé até Aparecida.

Pensei inicialmente em interpretar "Aparecida" como sendo o distrito de Aparecidinha, em Campinas, do lado da UNICAMP. Mas concluí que isso seria tergiversar. A Aparecida que eu tinha em mente era Aparecida do Norte.

(Os católicos como a Lenise vão apreciar essa referência meio jesuítica ao que a gente tem em mente quando diz algo: "Nesta casa não há nenhum judeu", diria um jesuíta a um oficial da polícia secreta de Hitler durante a Segunda Guerra, tendo em mente por "casa" a casa do botão da camisa dele. Dizem os moralistas teologais jesuítas que essa "referência mental" eliminava a aparente mentira.)

Apenas registro que eu não disse quando faria isso nem a partir de que ponto.

Assim me proponho a cumprir a promessa qualquer dia desses em que estiver por perto de Aparecida do Norte e Guaratinguetá. Irei a pé de Guará (perto da divisa entre Aparecida e Guará) até o outro lado da divisa (e documentarei fotograficamentet a proeza). Quem sabe irei até à Basílica, se não houver muito romeiro por perto. Detesto romeiro que vai cumprir promessa em Aparecida. (Como bom Saltense, prefiro Bom Jesus de Pirapora, aqui pertinho, às margens de um espumento Tietê).

Quanto a passar a acreditar na existência de Deus, adotarei a postura de um bom teólogo modernista protestante, como Rudolf Bultmann. Passo a acreditar (na verdade, volto a acreditar) que Deus existe na consciência dos nEle crentes e, certamente, no "kerygma", ou na proclamação, da Igreja. Estarei assim sendo modernistamente ortodoxo.

Espero que com isso atenda plenamente ao clamor de CUMPRA, CUMPRA, CUMPRA da colega teocredente Lenise…

Pax vobiscum."

Bem… Pax Vobiscum pra vocês também, leitores deste Space. Depois dos acontecimentos dos últimos quinze dias e da noite de ontem no Rancho 53 na Castello, estou de bem com a vida. O Corinthians pode até voltar para a Primeira Divisão, o Chávez pode anular o resultado do plebiscito, e o Lulleca pode editar quantas Medidas Provisórias quiser. Corintianos, chavezistas, lullistas e assemelhados só têm o espaço que a gente der pra eles. Amém. Digo isso no ambiente litúrgico em que ouço "Por Una Cabeza", com o Quintango, comendo (agora) castanhas de caju e tomando (agora) caipirinha… Sou volúvel: abandonei o queijo mineiro e o conhaque Napoleon.  

Em Salto, 14 de Dezembro de 2007

Quarenta anos de casado

Hoje, 13 de Outubro de 2007, faz nada menos do que quarenta anos que me casei pela primeira vez — na cidadezinha de Clinton, OH, nos Estados Unidos, com Maria Luiza de Oliveira, namorada que eu tinha em Campinas, antes de ir para Pittsburgh, PA, nos Estados Unidos, em Agosto de 1967. Ela também ganhou uma bolsa (da Igreja Menonita) e foi para os Estados Unidos (Akron, PA) na mesma época. Lá constatamos que ser "strangers in a strange land" não é fácil e decidimos surpreender as famílias nos casando quase de um dia para o outro.

O casamento durou sete anos — justos. Separamo-nos em 13 de Outubro de 1974 e eu imediatamente entrei em outro relacionamento, com Sueli Atibaia, minha atual mulher, que era assistente de pesquisa na Faculdade de Educação da UNICAMP (trabalhava no grupo de pesquisa da Orly Zucatto Mantovani de Assis), e que também estava casada até aquele momento. Alguns dias depois estávamos morando juntos: 18 de Outubro. Nosso primeiro lar foi um apartamento de três quartos na Rua 10 de Setembro, 93. O apartamento era o de número 7, no terceiro andar.

Os tempos eram outros em 1974. A Sueli foi dispensada do seu trabalho na Faculdade de Educação por causa de nossa decisão. O algoz foi Marconi Freire Montezuma, de não-saudosa memória, então diretor da Faculdade. Machista, como cearense de velha cepa e ex-padre, Montezuma me deixou ficar — mas chegou a me ameaçar, dizendo-me que se eu chiasse com a demissão da Sueli ele me poria na rua também. Não chiei. Tinha acabado de voltar ao Brasil depois de sete anos de ausência ininterrupta, os tempos eram ainda de ditadura, e, assim, eu não tinha muita certeza sobre o chão que pisava. A Orly, para quem a Sueli trabalhava, ameaçou protestar mas teve bom senso e também ficou calada.

Não havia divórcio naquela época. Fomos nos casar oficialmente apenas exatos cinco anos depois, em 18 de Outubro de 1979. Foram nossos padrinhos os nossos amigos Pedro Goergen e Márcia Brito, ambos da Faculdade de Educação. Daqui a cinco dias comemoraremos trinta e três anos de vinda conjunta. Continuamos amigos do Pedro e da Márcia, embora não nos vejamos muito.

Não tendo havido intervalo entre um casamento e outro, hoje comemoro quarenta anos de casado — cerca de dois terços da minha vida de 64 anos eu vivi casado. Apesar de lembrar com alegria de minha vida de solteiro (que foi muito boa: namorei bastante mas eram todos namoros bem comportados) e apesar dos percalços do primeiro casamento, não me arrependo de ter me casado. Quem casa de novo é sempre um otimista. O segundo casamento, já disseram, é a vitória da esperança sobre a experiência. (O terceiro, acrescentou um cínico, já é burrice mesmo…)

Tive uma filha do primeiro casamento, a Andrea, que nasceu e ainda vive nos Estados Unidos — sempre vai viver lá. E tenho uma filha do segundo, a Patrícia, minha caçula, hoje com quase trinta e dois anos. E herdei dois filhos, a Tatiana e o Rodrigo, do primeiro casamento da Sueli. Eram pequenos quando nos juntamos e são meus filhos tanto quanto as outras duas. A Tatiana e o Rodrigo são mais velhos do que a Andrea — mas curiosamente há espaços de quase exatos dois anos entre a data do nascimento dos quatro, embora eles sejam oriundos de três casamentos diferentes: Tatiana: Ago/69; Rodrigo: Jul/71; Andrea: Jun/73; Patrícia: Nov/75.

No todo esses quatro filhos já me deram sete netos: Gabriel (oito anos), Olivia (cinco anos), Guilherme (teria quatro anos), Gabriela (três anos), Marcelo (dois anos), Madeline (dois anos) e Felipe (um ano). O Guilherme, infelizmente, só viveu uma semana, de 9 a 16 de Setembro de 2003. Meus olhos ficam marejados sempre que penso nele. Quando ele nasceu eu estava em Amsterdam. Quando ele morreu eu já estava de volta.

O Gabriel (Biel) é da Tatiana (Tati) e do Alexandre (Ale), a Olivia (Liv) e a Madeline (Mad) são da Andrea e do Richard (Rick), o Guilherme (Gui) e o Marcelo (Tutu) são da Patrícia (Tiça) e do Rubens (antigamente conhecido como Poita…), e a Gabriela (Bibi) e o Felipe (Lipe) são do Rodrigo (Igo, ou Ro) e da Adriana (Dri).

É possível que apareçam ainda mais dois. Se aparecerem, provavelmente serão da Tatiana e da Patrícia. Mas surpresas sempre acontecem.

Todos me puxaram — até os que não têm laços de sangue comigo… 🙂  Mas mesmo quando eles não parecem ter me puxado, eu os adoro a todos. Não houvesse nenhuma outra vantagem (e houve muitas), só esses netos já teriam sido uma enorme recompensa para os quarenta anos de casamento.

Em Campinas, 13 de Outubro de 2007

"When I'm sixty four"

Paul McCartney escreveu essa canção (letra abaixo) quando ele tinha mais ou menos 15 anos e os Beatles ainda eram conhecidos como The Quarrymen. No devido tempo (1967, quarenta anos atrás) os Beatles a gravaram no album "Sgt. Pepper’s Lonely Hearts Club Band". (Dados retirados de interessante site http://www.songfacts.com/detail.php?id=126).
 
McCartney fez 64 anos no dia 18 de Junho de 2006 – há um ano e pouco. Eu estou fazendo hoje… Pela primeira vez estou comemorando (?) meu aniversário literalmente no ar — voando entre Tokyo e Washington no vôo United 804. Em Washington, depois de alguma espera, pegarei o vôo United 861 para São Paulo.

Dei-me conta há pouco de que há uma grande vantagem no fato de estar passando meu aniversário no ar entre Tokyo, Washington e São Paulo. Washington está 13 horas atrás de Tokyo e nós, em São Paulo, 12. Para mim, o dia do meu aniversário começou à zero hora de hoje, dia 7/9, horário de Tokyo. Mas ele só terminará ao meio dia de amanhã, 8/9, também horário de Tokyo. Isso porque há essas bendidas 12 horas de diferença entre Tokyo e São Paulo. À zero hora de amanhã, horário de São Paulo, estarei no avião indo de Washington a São Paulo. Quando for zero hora do dia 8/9 em São Paulo será meio-dia do dia 8 em Tokyo, o que significará que terei tido um dia de aniversário de nada menos do que 36 horas!!! Quem mais pode se dar a um luxo desses???  Literalmente um dia e meio de aniversário!!!

(Saí de Tokyo às 16h, hora local. Voarei 12 horas e 30 minutos e chegarei a Washington às 15h30, hora local — ou seja, 12 horas e 30 minutos depois, mas meia-hora antes, por causa das 13 horas de diferença do fuso horário).

Mas voltando à música de Paul McCartney, a letra é muito interessante. Para um menino de 15 anos, é bastante perceptiva. Naquela idade ele deve ter achado que 64 provavelmente era o máximo da velhice que era possível imaginar…

Mas mesmo assim fico pensando: por que escolheu 64 e não 65, ou 60, ou 70? Por outro lado, 64 é um número bonito, corresponde a 2 elevando a 6, é divisível por 2, por 4, por 8, por 16, e por 32, é o quadrado de 8 e o cubo de 4… Mas não acho que ele tenha escolhido 64 por causa dessas belezas matemáticas do número… 

De qualquer maneira, Paul McCartney imaginava que ele estaria perdendo o cabelo quando chegasse aos 64 anos. Será que perdeu algum? Creio que não. Nem eu. Tenho ainda uma senhora cabeleira: nem uma pequena entrada para mostrar a idade. Os cabelos estão grisalhos, mas continuam lá…

McCartney também que, se "ela" topasse, aos domingos eles estariam mexendo no jardim, removendo os matinhos… coisa que eu, de minha parte, não me lembro de jamais ter feito na minha própria casa. Fiz isso apenas na casa dos outros.

(Trabalhei como jardineiro, na universidade e na casa de um professor, quando era aluno de pós-graduação em Pittsburgh. Enquanto trabalho de tempo parcial e de férias, não era dos piores. Houve outros trabalhos, alguns bem piores do que jardinagem, como, por exemplo, catar papel no gramado, com um baldinho e um cabo de vassoura com um prego na ponta; ou então limpar chãos, paredes e banheiros dos dormitórios. Outros trabalhos que realizei com regularidade, enquanto estudava, foram cortar a grama com um trator, dirigir a camionete da escola, dirigir o Cadillac de um professor inválido, ajudar na biblioteca… Mas esses eram trabalhos de qualidade. Gostava de fazê-los. Bons tempos!).

Enfim, estou aqui, completando meus 64 anos, ao lado de um monte de gente, mas sozinho, num avião da United, companhia que já me levou para tanto lugar do mundo. O site da United diz que eu já voei cerca de 750 mil milhas com a companhia. Se somar a essas as milhas da PanAm, companhia da qual a United comprou as rotas da América do Sul, e na qual eu já tinha um status alto como Frequent Flyer, provavelmente estou perto de ter voado um milhão de milhas com as duas companhias.

Já contei em algum lugar que meu primeiro vôo foi em 1947, quando tinha três anos e meio de idade, na companhia Aerolíneas Natal, depois comprada pela PanAir do Brasil, de saudosa memória nesses tempos de Varig, de TAM, de Gol. Não me lembro a data exata. De qualquer forma, está fazendo, neste ano de 2007, sessenta anos que eu voei pela primeira vez. Depois de 1947 creio que só fui voar ao ir para os Estados Unidos, vinte anos depois, em 1967. Mas daí não parei mais. Tenho tido sorte. Nunca tive um acidente ou ameaça de acidente. O único susto foi a arremetida que mencionei há dias, quando chegava a San Francisco nesta viagem ainda não terminada.

Hoje o vôo esteve ameaçado de cancelamento por causa do tufão que passou por Tokyo ontem durante a tarde e na noite passada. Hoje, quando acordei, por volta das 5h, chovia muito, havia um vento infernal, e o céu estava carregadíssimo. Depois limpou. Quando vim para o aeroporto, às 12h30, o vento havia parado e o céu estava limpo. Felizmente.

Mas estou consciente de que divago, deixando o meu pensamento correr de cá para lá, para a frente e para trás, ao sabor das associações de idéia. Talvez por estar aqui confortavelmente sentado na Executiva da United, tomando um bom vinho, "wasting away". Coisa de gente de 64 anos que, não havendo remédio para o envelhecimento, procura envelhecer com uma certa medida de dignidade.

[ET: É a segunda vez em menos de cinco anos que a Microsoft me impede de passar o meu aniversário em casa. Em 2003 passei o meu sexagésimo aniversário no Castelo Leopoldskron, em Salzburg, na Áustria, numa reunião de uma semana sobre Inclusão Digital. Meu amigo Michael Furdyk, que esteve comigo em Tokyo, durante a última semana, estava lá também. A reunião aqui de Tokyo foi dos "Advisories Boards" do programa "Partners in Learning" na Ásia. Os membros do "International Advisory Board" foram convidados e participaram de um painel, hoje cedo.]

No ar, em cima do Pacífico, num longo 7 de Setembro de 2007

—–

When I’m 64

Paul McCartney

When I get older, losing my hair,
Many years from now,
Will you still be sending me a Valentine,
Birthday greetings, a bottle of wine?
If I’d been out till quarter to three,
Would you lock the door?

Will you still need me,
Will you still feed me,
When I’m sixty four?

You’ll be older too!
And, if you say the word,
I could stay with you!

I could be handy, mending a fuse
When your lights have gone.
You can knit a sweater by the fireside…
Sunday mornings go for a ride…
Doing the garden, digging the weeds…
Who could ask for more?

Will you still need me,
Will you still feed me,
When I’m sixty four?

Every summer we can rent a cottage
In the isle of Wight,
if it’s not too dear…
We shall scrimp and save,
Grandchildren on your knee,
Vera, Chuck and Dave.

Send me a postcard, drop me a line,
Stating point of view.
Indicate precisely w
hat you mean to say.
Yours sincerely, wasting away,
Give me an answer, fill in a form,
Mine for evermore.

Will you still need me,
Will you still feed me,
When I’m sixty four?

35 anos depois

Em outro artigo celebrei os 40 anos de minha ida para os Estados Unidos para estudar — no dia 19 de Agosto de 1967.

Esqueci de celebrar, entretanto, outra data importante. No dia 8 de Agosto deste ano fez 35 anos que eu defendi minha tese de doutoramento na University of Pittsburgh. O ano foi, naturalmente, 1972. O tema foi David Hume e sua crítica da epistemologia, da ética e da estética. Minha tese básica era de que David Hume (1711-1776, escocês de boa estirpe) tentou arrasar com todos os fundamentos da filosofia tradicional, começando com sua teoria do conhecimento, passando por ética racional e sua estética objetiva. Ao fazer isso, destruiu também sua metafísica e tornou inverossímil a visão de mundo e a religião do período pré-moderno. Kant, argumentei, tentou responder a Hume nesses três quesitos, a fim de ressuscitar (ou reinventar, numa nova base) a metafísica e até a religião. Publicou até mesmo um livrinho chamado "Religião no Âmbito da Razão Pura". Mas, argumentei para concluir, Kant fracassou. Ao destruir a visão racionalista do mundo que caracterizava a filosofia clássica e mesmo a medieval (Tomás de Aquino, como Aristóteles, era um grande empirista-racionalista), Hume abriu as portas a todo tipo de fideísmo e irracionalismo — e, naturalmente, a essa excrescência que é o chamado pós-modernismo hoje. Ser racionalista, hoje, como Popper bem percebeu, exige, em primeiro lugar, lidar seriamente com Hume.

Enfim… No último dia 8 fez 35 anos que defendi essa tese. Nunca a publiquei porque não estava muito satisfeito com sua forma: entre outros problemas tinha 615 páginas! Mas vim retrabalhando (e publicando) pedaços dela. Faz mais de quinze anos que, um dia, quando estava em Genebra (Genève), resolvi re-escrever o trabalho, com um âmbito mais âmbulo e um apelo mais popular, com o título "Em Defesa da Razão". Não terminei ainda, e, na realidade, duvido que venha a ter tempo para fazê-lo. As coisas urgentes da vida atropelam as importantes.

Meu orientador foi William Warren Bartley, III, infelizmente já falecido (1990)

(Vide http://en.wikipedia.org/wiki/William_Warren_Bartley)

Bartley, por sua vez, foi orientando de Popper, na London School of Economics. Foi também o discípulo amado de Popper, a quem este legou a tarefa de cuidar de sua herança intelectual. Infelizmente morreu antes de terminar o hercúleo trabalho — que vem sendo continuando por sua companheiro Stephen Kresge. Bartley também se tornou o testamenteiro intelectual de Hayek — e, como no caso de Popper, não terminou a tarefa, que continua a ser exercida também pelo Steve.

De minha banca de doutoramento participaram Wilfrid Sellars (talvez o maior filósofico americano da época). Quebrando o protocolo, que indica que o orientador deve sair da sala para chemar o candidato quando a banca termina de deliberar, foi Sellars que foi me buscar e, no caminho, fez o sinal típico de sucesso segurando uma mão na outra acima e do lado da cabeça. Fiquei muito orgulhoso de ele ter sido parte da banca. Além de uma honra, foi um privilégio: ele raramente concordava em fazer parte de bancas, especialmente quando a tese passava de seiscentas páginas…

Bartley não só foi meu orientador e amigo como arrumou o meu primeiro emprego nos Estados Unidos. Em 1972 ele estava em seu último ano em Pittsburgh, apesar de ser professor titular estável ("tenured"). Havia certado, naquele ano, sua transferência para a California State University, em Hayward (perto de San Francisco), onde seria a estrela do Departamento de Filosofia, como Theodore Roszak (The Making of a Counter-Culture, 1969) era do Departamento de História.

(Vide http://en.wikipedia.org/wiki/Theodore_Roszak_(scholar))

Bem, Bartley conseguiu me levar junto com ele para Hayward, num "appointment" de um ano. Bartley fico apenas um ano em Hayward e foi para a muito mais prestigiada University of California, em Berkeley, do lado de Hwyard.

Durante o ano que fiquei em Hayward nasceu minha filha Andrea e arrumei um outro emprego, para o ano seguinte, no Pomona College, em Claremont, perto de Los Angeles. Também um "appointment" por um ano.

Ao longo do ano que estive em Claremont me convenci de que o cenário estava mudando drástica e rapidamente no Ensino Superior americano. Até 1972 cada Ph.D. tinha, em geral, pelo menos três ofertas de emprego. A partir desse ano, caiu verticalmente o número de alunos nas universidades e as novas vagas deixaram de existir — na verdade, muitas das antigas foram terminadas.

Soube disse lendo jornais e conversando com colegas. Diante desse quadro, resolvi voltar para o Brasil. A UNICAMP estava interessada em mim — o contato havia sido feito pelo meu primo Anello Sanvido Filho, que estudava Química na UNICAMP. Assim, resolvi voltar para o Brasil em 1974.

Não me arrependi. O tempo mostrou que a decisão foi sábia e tomada na hora certa. Na hora não sabia e tive dúvidas.  

Em Taipei comprei um livro sobre o Ensino Superior Americano (A History of American Higher Education), de John R. Thelin (The Johns Hopkins University Press, 2004). Eis o que ele diz, nas páginas 331-332.

"By 1972 the end of a fifteen-year hiring boom had left the academic profession with reduced mobility and little leverage in their power to influence institutional decisions. The academic job market had dried up  in all but a few fields. Whereas in 1965 a new Ph.D. from a major university usually received three or four tenure-track job offers, by 1972 there often were no job vacancies posted. It was not unusual for a tenure-track faculty vacancy to attract hundreds of qualified applications. . . . The hiring boom of the 1960s had saturated most institutions, with little prospect for vacancies for years to come. . . . At the same time that the national job market for academics was reaching saturation, the expanded number of Ph.D.-granting programs were tooled up to assure a constant flow of new Ph.D.’s into the academic market fro years to come. What would have been a marvelous solution to higher education’s needs in 1960 had become the millstone of a gluted market in 1980".

Na verdade, ainda fiz uma última tentativa de ficar em Pomona. A posição de diretor do Oldenborg Center for the Study of Modern Languages havia ficado vaga e o cargo era interessante (vinha como uma casa e um joint appointment no Departmento de Filosofia). Havia mais de uma centena de candidatos. No fim ficou entre mim e uma mulher. Um dia o Deão da escola me chamou e me deu a má notícia: eles teriam de contratar a mulher, embora eu fosse o candidato mais bem qualificado, pois precisavam ter mais mulheres em posição de direção e no corpo docente. Acabei sendo vítima da maldita ação afirmativa… Tempos depois me senti meio vingado quando minha grande amiga, Patricia Gleason, que conheci em 1977 em San Francisco, tornou-se diretora do Centro. (Curioso, os anos terminados em "7" aparecem muito nessas minhas memórias).

O ser preterido na escolha como diretor do Oldenborg Center confirmou minha decisão de voltar para o Brasil, que estava em negociação. No dia 6 de junho de 1974 peguei o avião (Braniff) no aeroporto de Los Angeles para, via Lima, vir até Campinas. Cheguei em Viracopos. Em quatro meses eu estaria separado de minha (primeira) mulher e casado (juntado) com a atual (que nasceu em 1947!). A linda família que tenho hoje é, em parte, resultado da decisão de voltar para o Brasil no início de 1974 (e 74 é 47 de trás para frente…).

Em Tokyo, 3 de Setembro de 2007.

Quarenta anos

Hoje, 19 de agosto de 2007, faz quarenta anos que fui para os Estados Unidos pela primeira vez. Fui estudar — e fui para Pittsburgh, no estado da Pensilvânia, cidade que até hoje considero como minha “cidade natal” nos Estados Unidos. (Torço até hoje pelos times de beisebol e futebol americano da cidade, os Pirates e os Steelers — este nome dado em honra ao fato de que Pittsburgh foi a “Capital do Aço” nos Estados Unidos, tendo sido a cidade nos arredores da qual Andrew Carneggie construiu seu império industrial de ferro e aço e viveu parte de sua vida no final do século XIX e início do século XX. Concluí recentemente a leitura de uma magnífica biografia dele, que foi o homem mais rico do mundo na passagem do século XIX para o século XX — como Bill Gates foi um século depois — e acabou doando quase toda sua mega-fortuna — como Bill Gates também promete fazer.)  

Há cerca de um ano (no dia 8 de Setembro de 2006) escrevi um artigo aqui neste blog com o título: “Quarenta Anos Depois do Caos: 1966-2006”. O artigo foi dividido em três partes, porque era muito grande. Eis o URL delas:

http://ec.spaces.live.com/blog/cns!511A711AD3EE09AA!1393.entry

http://ec.spaces.live.com/Blog/cns!511A711AD3EE09AA!1394.entry 

http://ec.spaces.live.com/blog/cns!511A711AD3EE09AA!1395.entry

O artigo está também em meu site autobiográfico, sem a divisão em três partes:

http://www.autobio.info/textos/1966-1966.htm.  

Aqui continuo, de certa maneira, o que comecei lá.

Quarenta anos atrás o ano era 1967. Vivíamos numa Ditadura, mas ela não havia revelado ainda sua face mais feia.(Quando essa face mais feia apareceu, em 1968, eu já estava nos Estados Unidos.)  

No Terceiro Festival de Música Popular Brasileira, realizado no ano em que saí do Brasil, 1967, no Teatro Paramount, sob os auspícios da então todo-poderosa TV Record, as seguintes músicas foram premiadas (algumas delas bastante tocadas ate hoje):

1º lugar: “Ponteio” (Edu Lobo e Capinam), com Edu Lobo, Marília Medalha e Quarteto Novo

2º lugar: “Domingo no parque” (Gilberto Gil), com Gilberto Gil e Os Mutantes

3º lugar: “Roda-viva” (Chico Buarque), com Chico Buarque e MPB-4

4º lugar: “Alegria, alegria” (Caetano Veloso), com Caetano Veloso e Beat Boys

5º lugar: “Maria, carnaval e cinzas” (Luís Carlos Paraná), com Roberto Carlos e O Grupo

6º lugar: “Gabriela” (Maranhão), com o MPB-4.

Outras premiações:

Melhor letra: Sidney Miller (“A estrada e o violeiro”)

Melhor intérprete: Elis Regina (“O cantador”)

Melhor arranjo: Rogério Duprat (“Domingo no parque”)

[Dados retirados do Dicionário Cravo Albin da Música Popular Brasileira, disponível no site http://www.dicionariompb.com.br]

(Por coincidência, no Dia dos Pais deste ano, há uma semana, ganhei um DVD lindo com o MPB-4, chamado MPB-40, em que cantam, agora, com a participação especial do Chico Buarque e, em outra faixa, do Quarteto em Cy. Lindo, lindo.)  

Mas, voltando ao que importa, e como relatei em parte na matéria que acabei de referenciar, o Golpe de 31 de Março de 1964 veio a desencadear pequenos golpes dentro de várias instituições brasileiras. Na Igreja Presbiteriana do Brasil, da qual eu então fazia parte (era aluno do Seminário Presbiteriano de Campinas), o golpe veio em Julho de 1966, na Reunião do Supremo Concílio em Fortaleza. Naquela reunião tomou o poder Boanerges Ribeiro, reverendo, que o Diabo o tenha, colega de turma de meu pai no mesmo seminário (formado em 1941). E não demorou nem um pouco para ele baixar o sarrafo naqueles que ele chamava de “modernistas” dentro da igreja (entre os quais ele me incluía).

No Seminário o sarrafo veio na forma de uma Comissão de Seminários, que começou a agir naquele mesmo mês de Julho, capitaneada (devo dizer coronelizada?) pelo Coronel Renato Guimarães, cupincha do Boanerges e presbítero da Igreja Presbiteriana da Vila Mariana (se bem me lembro). Com exceção dos Nefastos Quinze a que fiz referência no outro artigo, ninguém atendeu a convocação da Comissão — e fomos todos (menos os Quinze) defenestrados. 

Fora do Seminário, fui procurar trabalho — e o encontrei na Bosch, lá mesmo em Campinas (na verdade, quase na Boa Vista, bairro de Campinas em que minha mãe nasceu nos idos de 1924). Trabalhei ali durante cerca de oito meses, no Departamento de Controle Econômico da Fábrica (Werkswirtschaftskontrol — ou WWK). Minha área era de custo. Já havia trabalhado antes na Seção de Custo da Swift, em Utinga, em Santo André.

Enquanto trabalhava na Bosch procurei tramar meus pauzinhos para continuar estudando Teologia — algo em que estava ainda bastante interessado. A idéia era ir para a Faculdade de Teologia da Igreja Evangélica de Confissão Luterana no Brasil, em São Leopoldo, de longe o Seminário mais sério existente no Brasil naquela época (e, talvez, até hoje). Em resposta à minha consulta, informaram-me de que o fato de ter sido defenestrado do Seminário de Campinas não era desabonador — pelo contrário. Mas eu não teria bolsa: teria de pagar meus próprios estudos — e teria de entender e falar Alemão, pois a maioria das aulas era em Alemão (visto que os professores vinham da Alemanha para permanências de dois ou quatro anos).

Como estava estudando Alemão à noite, intensivamente, no Goethe Institut de Campinas, sob o notável Prof. Ernst Manuel Zink, e ainda estudava na Bosch, com o mesmo Prof. Zink, durante o dia (a Bosch dava três horas livres por semana para os funcionários que o desejassem aprendessem Alemão em cursos gratuitos oferecidos dentro da própria empresa), a língua não seria problema… Mas o dinheiro, sim!!!

Juntei todo o dinheiro que pude e, felizmente, consegui apoio financeiro da Igreja Presbiteriana do Jardim das Oliveiras, na Alameda Jaú, em São Paulo, na qual era pastor o Rev. José Borges dos Santos Júnior, da oposição ao Boanerges, para a qual havia me transferido.

Em Fevereiro de 1967 pedi demissão da Bosch, juntei o dinheiro que havia poupado (quase tudo, pois havia passado a morar com meus tios, Alice e Anello Sanvido, na cidade), e me mandei para São Leopoldo. Lá fiquei durante um semestre — e aprendi muito.

Enquanto estudava lá, recebi uma carta do Prof. Gordon Eugene Jackson, Academic Dean do Pittsburgh Theological Seminary, de Pittsburgh — instituição fundada no século XVIII em Xenia, Ohio, e, depois, transplantada para Pittsburgh. Ele me oferecia uma bolsa para fazer concluir o Bacharelado em Teologia em Pittsburgh.

Dois problemas: primeiro, o Bacharelado em Teologia nos Estados Unidos é, como o curso de Direito e o de Medicina, um curso que exige, como pré-requisito, um diploma de curso superior (B.A. ou B.S.). Eu não havia concluído a Graduação no Brasil, embora já estivesse fazendo o Ensino Superior (teológico) durante quatro anos; segundo, em sua oferta não estava incluída a passagem para os Estados Unidos (de custo extremamente elevado naquela época).

O primeiro problema foi resolvido pelo próprio Prof. Jackson. ele pediu toda a minha documentação escolar e, com base nela, convenceu o Conselho Estadual da Educação do Estado da Pensilvânia de que eu tinha escolaridade suficiente para fazer o curso de Teologia no Seminário. Era um curso de três anos, e eu o fiz inteiro, de 1967 a 1970. Devo ao Prof. Jackson o empenho que foi muito além da “chamada do dever” (“the call of duty”). O empenho se deveu, em parte, ao fato de que ele me conhecia bem, pessoal e academicamente. Ele havia passado o primeiro semestre de 1966 no Brasil e eu havia sido seu fiel acompanhante e intérprete — já falava bem o Inglês então. (Depois que me formei em Pittsburgh, Dr. Jackson e sua mulher Phylisee se tornaram grandes amigos pessoais. Encontrei-os nos anos 90 na Florida, onde estava aposentado, depois de ter se recuperado de um câncer na garganta. Desde então, infelizmente, perdi contato.)

O segundo problema, a passagem aérea para os Estados Unidos, foi resolvido pelo Rev. Aharon Sapsezian, então Diretor Executivo da ASTE – Associação dos Seminários Teológicos Evangélicos, em São Paulo. Ele me arrumou uma bolsa de viagem junto ao NCCCUSA – National Council of the Churches of Christ in the United States of America. Devo a ele essa ajuda. (Desde então o Aharon e sua mulher Zabel se tornaram meus diletos amigos, por quem tenho a maior afeição — eles moram em Genebra desde os anos setenta ou oitenta, tendo ele trabalhado no WCC – World Council of Churches [ou COE – Conseil Oecuménique des Églises, como ele é chamado na francófona Genebra] e ela na LWF – Lutheran World Federation.)

Resolvidos os problemas, obtido o visto de entrada nos Estados Unidos, minha viagem foi agendada para o dia 19 de Agosto de 1967.

No dia marcado, fui de Santo André para Campinas, de trem, pois o vôo da PanAm para New York saía de Viracopos (parando no Galeão). Minha mãe e meus irmãos me acompanharam até lá — meu pai, com quem eu estava de relações cortadas por causa dos problemas no Seminário de Campinas descritos nos artigos referenciados atrás, nem se despediu de mim.

Lembro-me perfeitamente bem da viagem, da parada no Galeão (ainda Base Aërea), da chegada em New York (Aeroporto JFK, enorme), da busca pela bagagem, da localização (em outro terminal) do vôo para Pittsburgh, da chegada na cidade onde eu viveria por mais de cinco anos.

Em Pittsburgh fui recebido por Mr. William Eichleay, sua mulher e sua filha, que, através do PCIV – Pittsburgh Council for International Visitors, haviam se oferecido para me hospedar durante uma semana, antes do início das aulas, a fim de que eu pudesse me “aclimatar” na cidade e ficar conhecendo seus principais pontos de interesse. Eles me apanharam no aeroporto e me levaram imediatamente para almoçar. Comi meu primeiro “sirloin steak” e tomei meus dois primeiros “martinis on the rocks” (três porções de gin para uma de vermouth branco seco, com gelo e uma azeitona). Achei tanto o steak como o martini deliciosos. Do restaurante fomos para a casa deles, onde pude descansar da viagem — e da excitação de estar pela primeira vez nos Estados Unidos.

Nos dias seguintes os Eichleays me mostraram a cidade, me levaram para comer hamburgers e outras guloseimas americanas, e, uma semana depois, me depositaram no dormitório do Seminário.

Ali começou minha vida de estudante estrangeiro — e um dos períodos mais desafiadores de minha vida. Na terça-feira depois do Labor Day (primeira segunda-feira de Setembro) as aulas começaram. Cerca de um mês depois, me casei (com minha namorada campineira, Maria Luiza, que havia ido para os Estados Unidos também na mesma época, através de uma bolsa da WMF – World Mennonite Federation).

No curso de Teologia do Seminário de Pittsburgh tive o privilégio de estudar sob Dietrich Ritschl, Markus Barth, e Hans Eberhard von Waldow (este havia sido professor de Velho Testamento em São Leopoldo, aqui no Brasil), todos suiços ou alemães. Naquela época a teologia séria era feita na Suiça e da Alemanha: Karl Barth e Emil Brunner, na Suiça, Rudolf Bultmann na Alemanha. Ao longo e ao final do curso ganhei quase todos os prêmios e honrarias que a instituição tinha a oferecer: Grego, História da Teologia, Teologia Sistemática. E ganhei também uma bolsa completa para fazer o Doutorado na University of Pittsburgh, concedida anualmente ao aluno com a melhor média em todos os departamentos do currículo do Seminário. 

(Devo ressaltar que, sendo o Bacharelado em Teologia um curso que exigia, como pré-requisito, um curso superior, o diploma de Bacharel em Teologia que recebi em 1970 foi, subseqüentemente, substituído por um diploma de Mestre em Teologia, por decisão da instituição, devidamente referendada pelas autoridades educacionais do Estado da Pensilvânia.)  

No Doutorado, cujas seminários eram realizados na incomparável Catedral da Aprendizagem (Cathedral of Learning), prédio majestoso de trinta e sete andares que serve como edifícil principal da universidade, tive o privilégio de estudar sob Wilfrid Sellars, Nicholas Rescher, Kurt Baier, Richard Gale e William W. Bartley, III (o discípulo amado de Karl Popper) que acabou sendo meu orientador. Bartley acabou me ajudando a arrumar emprego na California, onde passei dois anos e se tornou meu grande amigo até sua morte prematura em 1992.

Nos anos passados em Pittsburgh cheguei à conclusão de que não cria mais em nada que era essencial para a religião cristã e, assim, abandonei meu propósito original de ser pastor. (Muitos colegas meus deixaram de crer mas continuaram a ser pastores). Durante os anos em que trabalhei no meu Ph.D. na Pitt, concluí que a filosofia seria a minha área de atuação. Tenho sido fiel a ela desde então, apesar de incursões (depois de já de volta no Brasil) nas áreas da educação, da informática e da administração de sistemas de informação. 

Em Junho de 1974, já com uma filha, a Andrea, voltei para o Brasil, para assumir um cargo na UNICAMP, para o qual havia me habilitado, com a ajuda inestivável de meu primo Anello Sanvido Filho, na época aluno de Química na universidade, e que ficou sabendo que a UNICAMP precisava de um professor de filosofia com Doutorado completo.  

Dentro de seis meses de minha chegada ao Brasil me separei de minha primeira mulher (que voltou aos Estados Unidos com minha filha) e me casei (maneira de dizer – não havia divórcio ainda naquela época) com minha atual mulher, a Sueli. Faremos trinta e três anos de vida em comum daqui a dois meses, em Outubro. A Sueli veio com dois filhos, a Tatiana, enão com 5 anos, e o Rodrigo, então com 3, que se juntaram à Andrea, filha que havia tido com a Maria Luiza em 1973, e que estava, portanto, com um ano. Treze meses depois de estarmos juntos a Sueli e eu tivemos a Patrícia, completando o “time” de nossos quatro filhos, que acabaram bastante bem ordenados (de dois em dois anos) pelo ano de nascimento: 1969, 1971, 1973 e 1975. (Em um pouco mais de dois anos e meio, de Junho de 1973 a Novembro de 1975, o número de meus filhos quadruplicou: passou de um para quatro!)

Hoje faz quarenta anos que todo esse processo começou.

Quando voltei dos Estados Unidos, em Junho de 1974, sete anos depois, a Ditadura estava mais branda. O General Ernesto Geisel acabava de assumir como Presidente da República — e ele era membro da igreja cujo seminário me deu acolhida em São Leopoldo. Esse fato, em si, já me deixou mais confiante para voltar. Mas lembro-me de que, ao chegar à UNICAMP, fui advertido de que deveria tomar cuidado com o que dizia, especialmente em sala de aula, porque entre os alunos haveria “dedos-duros”.

Em 1981, quando fui demitido da UNICAMP, durante a gestão de Paulo Maluf no Governo do Estado, era Ministro da Educação (do General João Baptista Figueiredo) o General Rubem Carlos Ludwig. O fato de ele também ser luterano e de eu haver estudado no Seminário Luterano de São Leopoldo foi-me de grande valia naquele instante difícil. Os tempos eram ainda de Ditadura e de “Malufura”, e os economistas da UNICAMP começavam a colocar suas manguinhas de fora. Botaram de fora todas as mangas a que tinham direito — e outras a que não tinham. Nós todos sabemos onde estão hoje. Mas essa é outra história.

Em Salto, 19 de Agosto de 2007