About Schmidt: Alguém vai se lembrar de nós quando morrermos?

Voltando de Cape Town, ontem, assisti mais uma vez no avião o filme que dá o título deste post, com Jack Nicholson (http://www.imdb.com/title/tt0257360/). Os demais atores são coadjuvantes. Jack Nicholson é um dos melhores atores dos últimos 30 anos. Se já não tivesse certeza disso, o desempenho dele neste filme (que em Português teve o título de As Confissões de Schmidt), bem como em As Good as It Gets (Melhor é Impossível, com Helen Hunt) e Something’s Gotta Give (Alguém tem que Ceder, com Diane Keaton), teria eliminado qualquer dúvida.

Trata-se de um grande filme. Já escrevi sobre ele aqui neste blog (vide, por exemplo, http://liberalspace.net/2006/08/30/mais-uma-cronica-antiga-meus-60-anos/). Vou repetir algumas das coisas que já disse, visto que faz tanto tempo que comentei o filme… mais de sete anos.

Warren Schmidt é um funcionário competente e responsável de uma companhia de seguros. Ele tem 66 anos quando o filme começa e está sentato à sua mesa, no seu último dia de trabalho, esperando o relógio dar cinco horas da tarde. Além de competente e responsável, é um funcionário consciente, que não rouba a empresa de nenhum minuto do tempo que deve lhe dar, mesmo no último dia de trabalho, depois de 35 anos e tanto de dedicação. (Quando escrevi sobre esse filme anteriormente, eu celebrava 60 anos – tinha mais ou menos 90% da idade dele… e não estava aposentado. Hoje tenho 67 e, como ele, estou aposentado – embora não tenha parado de trabalhar).

Schimidt é estatístico. Sua especialidade na empresa é fazer cálculo de risco. Se lhe derem a data de nascimento de alguém, sua ficha médica, informações adicionais sobre seus hábitos, se é casado, solteiro, divorciado ou viúvo, que tipo de trabalho faz, que tipo de carro dirige, se (e quanto) bebe, se (e quanto) fuma, etc., ele é capaz de calcular, com razoável precisão, qual o risco, para sua empresa, de fazer um seguro de vida para esse indivíduo… Em outras palavras: a empresa seguradora quer saber por quanto tempo é provável que o segurado ainda pague seu prêmio antes de morrer…

Como Schmidt (diferentemente de mim) parou de trabalhar ao se aposentar, ele fica procurando sarna para se coçar… Seu maior problema é encontrar o que fazer… Ficando em casa, o inevitável acontece: irrita-se cada vez mais com sua mulher de 42 anos. Conclui, num momento de realismo e transparência, que não a tolera. Não aguenta o jeito dela, a voz dela, as manias dela, o cheiro dela… Que isso é triste, mas acontece, não há dúvida. 42 anos talvez seja tempo demais para qualquer um viver com outra pessoa.

Felizmente, para ele, sua mulher morre subitamente de um aneurisma, enquanto passava o aspirador de pó no tapete…

Alguns problemas acabam de ser solucionados. Mas outros aparecem… É sempre assim, não é?

Ele, que até aquele momento, não tinha o que fazer, tem agora de cuidar da casa – e fazer as vezes de mãe junto à filha que está para casar com um babaca que ele detesta…

Com a morte da mulher, Schmidt começa aplicar a sua especialidade a si próprio. Dada a sua idade e os seus hábitos, levado em conta o fato de que ele nunca teve uma doença séria como câncer ou enfarto, e, agora, o fato de sua viuvez, ele conclui que (desde que não se case de novo) deve ter por volta de nove anos mais de vida. (Não fica claro se, casando-se de novo, essa estimativa aumentaria ou diminuiria… Alguém arrisca um prognóstico?).

O que fazer com esses nove anos???

Ele tem consciência de que o que fez até ali com sua vida não vai fazer com que ninguém se lembre dele, depois de ele morrer e aqueles que hoje o conhecem também morrerem. Quando isso acontecer, as coisas se passarão como se ele nunca tivesse existido: não haverá nada que fará com que alguém se lembre de que ele um dia viveu… Nem um livro escrito… Nem um filme feito… Nem uma poesia escrita ou uma canção composta… 

E Schmidt tem consciência de que cuidar da casa e da filha (esta claramente rejeitando os seus cuidados) não vai alterar esses fatos…

No contexto, ele arruma um menino de seis anos na África, ao qual, através de uma ONG chamada ChildReach, envia 22 dólares por mês. Quem sabe esse menino, novinho, vá perpetuar sua memória por um pouco mais de tempo… Quem sabe um dia se case, tenha filhos, e diga aos seus filhos que alguém chamado Warren Schmidt um dia o ajudou…

Crise. Crise de identidade. Crise de importância – mais precisamente, crise de desimportância…

Nunca tive coragem de perguntar ao meu cardiologista, depois do meu enfarto, quanto tempo de vida ele achava que eu ainda teria. Médico experiente que ele é, ele me disse, em minha primeira consulta depois da alta no hospital, que eu poderia viver até os 90 anos — SE… um monte de ses se seguiram: se eu tomasse religiosamente os meus remédios, se eu me alimentasse de forma sensata, se eu caminhasse regularmente, se eu não me excedesse em atividades físicas ou em emoções extraordinárias, se eu visitasse o cardiologista periodicamente… Venho tentando fazer algumas dessas coisas. Em outras, tenho falhado miseravelmente…

Tempos atrás encontrei um site na Internet — infelizmente me esqueci da URL — que fazia aos visitantes uma longa série de perguntas sobre sua história de vida, sobre seus antecendentes familiares, sobre seus hábitos, etc., para lhes fazer uma previsão acerca do dia de sua morte. Lembro-me de que, no meu caso, minha morte foi prevista para o dia 23 de agosto de 2023 — uns dias antes de eu completar 81 anos. Mas isso foi antes do enfarto… Provavelmente a data, hoje, seria antecipada um pouco… Ou será que o site previu o me enfarto e, com tato, omitiu a informação? Quem sabe seriam 81 anos (ou quase) com o enfarto, 100 anos sem ele… 🙂

Quem não viu o filme e já passou dos 60 deve vê-lo. A história faz a gente pensar sobre o sentido de nossa própria vida, sobre o que fazer do tempo que nos resta…

Quem tem idade menor não sente essa pressão: pensa que tem todo o tempo do mundo – não tem urgências…

Que bom que assisti a About Schimidt de novo ontem. Revivi, seis anos depois, muitas das coisas que senti ao ver o filme pela primeira vez. E senti várias coisas novas. É por isso que a gente deve assistir de novo (várias vezes, se necessário) o mesmo filme – se ele é bom. O filme é o mesmo, mas a gente não é o mesmo nas diversas vezes que o assiste.

Em São Paulo, 31 de Outubro de 2010

Atores favoritos

Al Pacino faz setenta anos hoje (25/4/2010) – nasceu em 1940.

Ele, Robert de Niro, Jack Nicholson e Anthony Hopkins estão entre meus atores favoritos.

De Al Pacino o meu filme favorito é Scent of a Woman (Perfume de Mulher) – em especial a cena em que ele dança o tango “Por una Cabeza” com Gabrielle Anwar, com, naturalmente, com os trechos que precedem e sucedem a dança, propriamente dita (cena que, a meu ver, é uma das melhores da cinematografia americana), e a cena final, do discurso que ele faz na Assembléia do colégio. 

De de Niro gosto especialmente de sua capacidade de, depois de participar de filmes seríssimos, como The Godfather (O Poderoso Chefão), fazer comédia com extrema competência em Meet the Parents (Entrando numa Fria) e Meet the Fockers (Entrando numa Fria Maior Ainda). Vai haver uma seqüência de Meet the Fockers. Parece que já está em produção. De Niro nasceu (como eu) em 1943. É o guri dessa turma.

De Nicholson gosto de vários filmes, especialmente de três, dois dramas e uma comédia: As Good as it Gets (Melhor é Impossível), About Schmidt (As Confissões de Schmidt), e Something’s Gotta Give (Alguém tem que Ceder). Nicholson nasceu em 1937.

De Anthony Hopkins gosto de quase tudo que ele faz, mas cito, em especial, The Remains of the Day (Vestígios do Dia), Shadowlands (Terra das Sombras), Meet Joe Black (Encontro Marcado), The Human Stain (A Culpa Humana) e Fracture (Um Crime de Mestre). Hopkins também nasceu em 1937. [No comentário que escrevi no Facebook lamentavelmente me esqueci de mencionar Anthony Hopkins].

Mas acrescento dois atores: um, em função de sua interpretação em apenas um filme; o outro, em função de sua interpretação em pelo menos dois.

Primeiro, Dustin Hoffman, em Tootsie. Hoffman nasceu também em 1937 (safra boa!).

Segundo, Clint Eastwood, em The Bridges of Madison County (As Pontes de Madison) e Gran Torino (Gran Torino, mesmo, em Português) – filmes bastante diferentes um do outro, em que ele é ator e diretor.

Clint Eastwood nasceu em 1930. Fará 80 anos no próximo dia 31 de maio – ou seja, daqui a um pouquinho mais de um mês. É o vovô dessa turma.

Isso quer dizer que ele interpretou e dirigiu Gran Torino quando tinha nada menos do que 77 anos (o filme foi lançado em 2008). Com quase 80 anos, continua trabalhando firme, e cada vez com mais competência e dedicação. O site IMDB indica que três filmes dirigidos por ele estão para sair: Invictus, Hereafter e Hoover. Os filmes que ele dirige são ousados e muito diferentes um do outro, o que mostra a sua criatividade, amplitude de interesses e diversidade de técnicas.

Nesse ponto, Clint Eastwood é meu ídolo sem competição no cinema.

Gostaria, na vida, de chegar aos oitenta com a mesma competência, criatividade, saúde e energia…

Em São Paulo, 25 de Abril de 2010 (enquanto me preparo para viajar para Taipei, capital de Taiwan)

“El Secreto de sus Ojos” – 7 (e o Cinema Brasileiro)

Este é o sétimo post sobre “El Secreto de sus Ojos”. Como o sexto, porém, ele passa pelo filme argentino para discutir questões que o tangenciam e que foram levantadas no último post, no artigo de Luiz Felipe Pondé.

Não resta dúvida de que o cinema argentino, através da direção competente de Juan José Campanella, está achando o seu caminho – e é um caminho bom. “El Mismo Amor, La Misma Lluvia”, “El Hijo de la Novia”, e, agora, “El Secreto de sus Ojos” são prova disso. Os dois últimos foram indicados para o Oscar de Melhor Filme Estrangeiro – o último, ganhando o prêmio. Isso mostra que o mundo está de olho no cinema argentino.

Quando vi “O Quatrilho” (1995) pensei que o cinema brasileiro tivesse começando a achar seu caminho. O filme foi reconhecido através de sua indicação para o Oscar de Melhor Filme Estrangeiro (não o tendo ganho por uma injustiça, no meu jeito de ver). “Bella Donna” (1998) foi também um bom filme. Mas agora o cara me vem com “Lula, o Filho do Brasil”, um filme com todo o jeito de um comercial político…

Por que o Brasil não engrena na Sétima Arte? Por que essa tentação, aparentemente quase irresistível, para alternar entre a Scylla da chanchada (quando não da pornochanchada) e a Charybdis do filme pseudo político, onde há abundância de violência e carência de enredo, de boa história?

Por que, com raríssimas exceções, que se contam nos dedos de uma mão, o brasileiro não é capaz de fazer um filme como “El Secreto de sus Ojos”, que faz você sair do cinema emocionado, com lágrimas nos olhos, comentando “Que coisa mais linda!!!”?

O cinema é uma arte narrativa. Por isso, uma boa história, transformada em enredo por quem entende da coisa, é essencial. “The End of the Affair”, de Graham Greene. Que história magnífica. Já foi transformada em filme duas vezes, uma em 1955, outra em 1999, tão boa é. “The Bridges of Madison County”, outra história fantástica, esta de Robert James Waller. “The Remains of the Day”, de Kazuo Ishiguro. As várias boas histórias de Nicholas Spark: “The Notebook”, “Message in a Bottle”, “Nights in Rodanthe”… Todas essas lindas histórias foram transformadas em excelentes filmes (que portaram bem o título do romance em que se inspiraram). Se a história é boa, meio caminho está andado.

Mas o cinema é uma arte narrativa visual. Embora ela seja essencial, a boa história não basta: ela tem de ser contada através de imagens bem tomadas. Aqui o trabalho do cinegrafista (ou cinematógrafo) é essencial – embora ele precise estar bem ajustado com o diretor. Por fim, o cinema é uma arte que depende muito mais de grandes diretores do que de grandes atores. A boa história, visualizada em imagens engajantes, tem de ser narrada por um “master story teller”. Compare-se o suspense criado pelos flashbacks criados por Campanella em “El Secreto de sus Ojos”, por Neil Jordan em “The End of the Affair”, e por Clint Eastwood, em “The Bridges of Madison County”.

Boa história, belas imagens, narração competente.

O Brasil tem boas histórias em sua literatura, como bem salienta Pondé. Deve ter bons cinematógrafos. Fábio Barreto e Fernando Meirelles provam que temos bons diretores. Por que não temos um número razoável de bons filmes? Por que a Argentina está na nossa frente nessa área – e aumentando a distância?

Parece que a “estética cinematrográfica brasileira” está definida, não por uma boa história, belas imagens, e narração competente, mas por violência (policial, política), sexo e humor escrachado (a essência da chanchada). Essa receita não dá filme bom. Quando a abandonamos, como em “O Quatrilho”, quase levamos o Oscar. Mas no restante, passamos longe.

Em São Paulo, 31 de Março de 2010

“El Secreto de sus Ojos” – 6 (e o Cinema Brasileiro)

O artigo abaixo, de Luiz Felipe Pondé, é o sexto que publico sobre o filme ganhador do Oscar de Melhor Filme Estrangeiro este ano, passa de relance sobre o filme argentino para fazer uma crítica contundente ao cinema brasileiro.

Eis o núcleo da crítica, em cinco parágrafos:  

“Para além de chanchadas requentadas, o pressuposto de que o cinema seja instrumento de consciência social enche o saco de qualquer pessoa que gosta de cinema. Nada mais monótono do que cinema com consciência social, além do mais, porque sabemos que a ‘indústria do bem’ não passa de um disfarce. Os agentes de transformação social pela arte são mero produto, como qualquer outro produto da indústria cultural.

Cinema deve contar histórias, onde o olhar da câmera deve estar no lugar da voz. O conteúdo deve se alimentar de questões eternas, por isso, melhor se alimentar de temas morais do que de políticos, quando não for apenas bom entretenimento. E deve falar à alma e não a pseudodramas políticos de época.

Muitos de nossos futuros cineastas vêm da elite econômica (fazer cinema demanda muito dinheiro e disponibilidade de tempo), e muitas vezes são torturados com falsos dramas de consciência justamente porque são membros da elite. Como se devessem se redimir do que são, dando voz apenas aos pobres, bandidos e miseráveis do país.

E aí vem a repetição: Nordeste, fome, miséria, bandido (como se só por ser bandido, alguém fosse necessariamente vítima de alguma forma de injustiça, quando na realidade muitos bandidos o são porque são maus mesmo), ditadura (essa, então, no cinema, é uma enorme indústria de vítimas bem-sucedidas), favela. E daí, nós recomeçamos: Nordeste, fome, miséria, bandido, ditadura, favela… Nordeste, fome…

Voltemos a Shakespeare, Dostoiévski, Machado de Assis, deixemos Foucault, Glauber e Bourdieu “dormirem” um pouco no formol, para ver se eles sobrevivem ao tempo.“

É isso. Vale a pena ler o artigo inteiro de Pondé.

———-

Folha de S. Paulo
29 de Março de 2010

LUIZ FELIPE PONDÉ
O olhar da câmera



E por qual razão nós não conseguimos fazer filmes como nossos primos argentinos?


O OSCAR DO filme “O Segredo dos Seus Olhos” foi um prêmio mais do que justo para o cinema argentino. O cinema de “los hermanos” é melhor do que o nosso. E digo isso com lágrimas nos olhos porque sou envolvido diretamente na formação de novos cineastas no Brasil. E por que não conseguimos fazer filmes como nossos primos argentinos?

Resumidamente, eu diria que nosso cinema é, em grande parte, imaturo, sem tradição estética, obcecado por certos temas monótonos, quase amador em termos de conteúdo, e se vê como instrumento de transformação social.

Começaria perguntando o seguinte: a arte deve ser política? Não. Muitas vezes isso atrapalha. E mesmo quando o for, deve ir além desse lero-lero de luta de classes, como no caso do “Segredo dos Seus Olhos” e o tratamento do ambiente pré-ditadura na Argentina, que não é foco principal do enredo. A política mata a arte, tornando-a datada como um panfleto qualquer. A política como tema da arte acaba sempre banal como a política o é na realidade: arranjos pragmáticos de violência e interesses. Quando ela se faz mais do que isso, fica mentirosa ou ridícula.

Nosso cinema varia entre cinema político chato e uma verborragia psicanalítica adolescente. Com exceções.

Outro problema é o culto dispensado a figuras como Glauber Rocha. Se ele foi “revolucionário” em algum momento, o foi apenas no aspecto formal (ainda que eu o tenha sempre achado apenas cansativo e presunçoso, e essa coisa de “cinema novo” sempre me pareceu sobrevalorizada), mas quanto ao conteúdo, acho-o apenas datado e equivocado. Sua intenção revolucionária banhada em marxismo condenou sua visão de mundo a uma “historinha” que parece ter sido escrita em centros acadêmicos de gente de 18 anos (nos anos 60 e 70), que pouco revela da vida real e a sangria moral e existencial que ela realmente é.

Lembremos que foi o próprio Glauber que escreveu em meados dos anos 60 que Machado de Assis seria esquecido porque não captou a luta de classes no período do Segundo Império no Brasil. Meu Deus, tenha piedade dele, porque não sabia a besteira que falava! Machado de Assis é eterno, enquanto ele, assim que a maioria dos formadores dos jovens cineastas pararem de idolatrá-lo, poderá ser confundido com a lata de lixo da história do cinema nacional.

Algumas obsessões de conteúdo, ao meu entender, travam a produção nacional no nível de cineclube de centro acadêmico estudantil. Nada mais aborrecido do que alunos que acham que mudam o mundo: normalmente isso nada mais é do que uma forma chique de matar aula e estudar pouco. Com raras exceções. A força do jovem está no ato de emprestar aos dramas humanos ancestrais a beleza de seu encantamento, desprendimento, coragem e futuro desencantamento.

Para além de chanchadas requentadas, o pressuposto de que o cinema seja instrumento de consciência social, enche o saco de qualquer pessoa que gosta de cinema. Nada mais monótono do que cinema com consciência social, além do mais, porque sabemos que a ‘indústria do bem’ não passa de um disfarce. Os agentes de transformação social pela arte são mero produto, como qualquer outro produto da indústria cultural.

Cinema deve contar histórias, onde o olhar da câmera deve estar no lugar da voz. O conteúdo deve se alimentar de questões eternas, por isso, melhor se alimentar de temas morais do que de políticos, quando não for apenas bom entretenimento. E deve falar à alma e não a pseudodramas políticos de época.

Muitos de nossos futuros cineastas vêm da elite econômica (fazer cinema demanda muito dinheiro e disponibilidade de tempo), e muitas vezes são torturados com falsos dramas de consciência justamente porque são membros da elite. Como se devessem se redimir do que são, dando voz apenas aos pobres, bandidos e miseráveis do país.

E aí vem a repetição: Nordeste, fome, miséria, bandido (como se só por ser bandido, alguém fosse necessariamente vítima de alguma forma de injustiça, quando na realidade muitos bandidos o são porque são maus mesmo), ditadura (essa, então, no cinema, é uma enorme indústria de vítimas bem-sucedidas), favela. E daí, nós recomeçamos: Nordeste, fome, miséria, bandido, ditadura, favela… Nordeste, fome…

Voltemos a Shakespeare, Dostoiévski, Machado de Assis, deixemos Foucault, Glauber e Bourdieu “dormirem” um pouco no formol, para ver se eles sobrevivem ao tempo.

ponde.folha@uol.com.br

———-

Em São Paulo, 29 de Março de 2010

“El Secreto de sus Ojos” – 5

Para essa quinta matéria sobre o filme ganhador do Oscar, recorro simplesmente ao texto instigante de Marcelo Coelho na Folha de hoje. Discordo da primeira frase. Acho El Secreto de sus Ojos uma grande obra de arte. Pertíssimo de uma obra prima.

———-

Folha de S. Paulo
24 de Março de 2010

MARCELO COELHO
Paixão, esquecimento, impunidade



Em “O Segredo dos Seus Olhos”, vencedor do Oscar, o passado é algo que não passa jamais


SEM SER GRANDE obra de arte, “O Segredo dos Seus Olhos”, de Juan José Campanella, tem tudo o que se pode desejar de um filme. A história é excelente, complicada na medida certa, com aquelas boas reviravoltas e surpresas que, quase, quase, o espectador conseguiria adivinhar.

Como convém a um ganhador do Oscar, mistura-se bem todo tipo de ingrediente: crime, política, humor, amor, atores convincentes em cada gesto, coadjuvantes inesquecíveis, diálogos perfeitos (entre outras coisas, “O Segredo dos Seus Olhos” é uma apologia da gíria e do sarcasmo argentinos).

Tudo dá certo como entretenimento, e ainda assim o longa deixa algumas questões interessantes para se pensar em casa. Dizem que para os argentinos, ao contrário dos brasileiros, o passado não passa nunca. Morto há mais de 70 anos, Carlos Gardel possui na Argentina uma atualidade que seria impensável no caso do nosso Francisco Alves, por exemplo.

A impossibilidade de qualquer esquecimento é um dos temas principais do filme de Campanella. Aliás, numa chave mais íntima e sentimental, o diretor já cuidava disso em “O Filho da Noiva”: tratava-se de reencenar um amor antigo, salvando simbolicamente um casamento do naufrágio do mal de Alzheimer. “O Segredo dos Seus Olhos” enfrenta mais diretamente o aspecto político da questão, num país que guarda, como o Brasil, o trauma da ditadura. Criminosos a serviço do Estado continuam impunes, lá menos do que aqui. Será possível simplesmente esquecer o assunto e levar a vida como se nada tivesse acontecido?

Para os personagens de “O Segredo dos Seus Olhos”, a resposta é não. Parte do filme se concentra numa investigação policial, em meio à ausência completa de pistas. Até que… Não vou contar nada de específico. Só digo que parte do mistério se resolve quando alguém recorre a uma teoria básica sobre o comportamento humano. A de que uma pessoa pode mudar de nome, de religião, do que quiser, mas não abandona jamais sua própria paixão.

Um maníaco por sapatos, um fanático por boxe, um chocólatra convicto não deixará nunca de ser fiel ao seu objeto de desejo. Será verdade? Minha experiência indica, por vezes, o contrário. Paixões mudam, se perdem, se esquecem. Principalmente quando se realizam. Creio que só permanecem ao longo da vida quando não foi suficientemente feito o seu funeral. No caso das torturas, dos esquadrões da morte e demais crimes da repressão (no filme, os malfeitores aparecem ainda no governo eleito de Isabelita Perón), sem dúvida a impunidade corresponde a essa “ausência de funeral”. Não se esquece o que não foi vingado.

Mas a mensagem de “O Segredo dos Seus Olhos” não se resume a defender o fim da impunidade. O empenho em fazer justiça pode arruinar tanto o justiceiro quanto o justiçado. Bem ao contrário de tantos filmes produzidos nos Estados Unidos, aqui fica claro por que deve caber ao Estado, e não à vítima, a reparação por um crime cometido. Espanta-me, em todo caso, a tranquilidade com que tantas vítimas da ditadura bem ou mal convivem, no Brasil, com seus algozes. Se eu tivesse sido torturado, tenho certeza de que não sossegaria antes de me vingar pessoalmente de quem me torturou. Talvez as pessoas dispostas a dar a vida por uma causa política tenham uma visão mais prática do problema: alcançar o poder vale o preço de não buscar retaliação. Talvez elas reconheçam que estavam erradas também.

Seja como for, não acredito na possibilidade de simplesmente se reavivar a memória histórica de uma ditadura sem dar o passo seguinte, que é o de punir quem matou e torturou. Anistias, em geral, são atos de generosidade dos vencedores frente aos vencidos. Quando resultam de uma complicada acomodação política, estão sujeitas à mudança das circunstâncias em que foram produzidas.

A questão, no Brasil, é saber o quanto as circunstâncias permitem a revisão da Lei de Anistia. De tempos em tempos, vem o teste -e sempre se verifica que os adeptos da punição têm menos respaldo político do que necessitam. De resto, são os primeiros a depender das forças que gostariam de condenar.
Se é assim, cite-se então o célebre poema e que se toque um tango argentino. Se a música não agrada a todos, que se tente o cinema argentino então: anda um bocado mais adulto do que o nosso.

coelhofsp@uol.com.br

———–

Em São Paulo, 24 de Março de 2010

O Oscar de 2010

Todo ano compartilho aqui neste space a lista ganhadores do Oscar e dos indicados.

Este ano me senti feliz com o resultado na área de filme estrangeiro: El Secreto de sus Ojos, sobre o qual escrevi quatro posts aqui, ganhou, merecidamente, o Oscar de melhor filme estrangeiro.

A lista foi aproveitada do site http://g1.com.br/bomdiabrasil 

São os seguintes os vencedores do Oscar 2010:

Melhor filme: "Guerra ao terror"
Melhor direção: Kathryn Bigelow, “Guerra ao terror”
Melhor atriz: Sandra Bullock, "Um sonho possível"
Melhor ator: Jeff Bridges, “Coração louco”
Melhor filme estrangeiro: “O segredo dos seus olhos” (Argentina)
Melhor edição (montagem): “Guerra ao terror”
Melhor documentário: “The cove”
Melhores efeitos visuais: “Avatar”
Melhor trilha sonora: “Up – Altas aventuras”
Melhor cinematografia (fotografia): “Avatar”
Melhor mixagem de som: “Guerra ao terror”
Melhor edição de som: “Guerra ao terror”
Melhor figurino: “The young Victoria”
Melhor direção de arte: “Avatar”
Melhor atriz coadjuvante: Mo’Nique, “Preciosa”
Melhor roteiro adaptado: “Preciosa”
Melhor maquiagem: “Star trek”
Melhor curta-metragem: “The new tenants”
Melhor documentário em curta-metragem: “Music by Prudence”
Melhor curta-metragem de animação: “Logorama”
Melhor roteiro original: “Guerra ao terror”
Melhor canção: “The weary kind”, de “Coração louco"
Melhor animação: “Up – Altas aventuras”
Melhor ator coadjuvante: Christoph Waltz, “Bastardos inglórios”

Esta é a lista dos indicados ao Oscar:

MELHOR FILME
"Avatar", de James Cameron
"O lado cego", de John Lee Hancock
"Distrito 9", de Neill Blomkamp
"Uma educação", de Lone Scherfig
"Guerra ao terror", de Kathryn Bigleow
"Bastardos inglórios", de Quentin Tarantino
"Preciosa", de Lee Daniels
"Um homem sério", de Ethan e Joel Coen
"Up – Altas aventuras", de Pete Docter e Bob Peterson
"Amor sem escalas", de Jason Reitman

MELHOR ATOR
Jeff Bridges, “Crazy heart”
George Clooney, “Amor sem escalas”
Colin Firth, “A single man”
Morgan Freeman, “Invictus”
Jeremy Renner, “Guerra ao terror”

MELHOR ATOR COADJUVANTE
Matt Damon, “Invictus”
Woody Harrelson, “The messenger”
Christopher Plummer, “The last station”
Stanley Tucci, “Um olhar do paraíso”
Christoph Waltz, “Bastardos inglórios”

MELHOR ATRIZ
Sandra Bullock, “O lado cego”
Helen Mirren, “The last station”
Carey Mulligan, “Uma educação”
Gabourey Sidibe, “Preciosa”
Meryl Streep, “Julie & Julia"

MELHOR ATRIZ COADJUVANTE
Penélope Cruz, “Nine”
Vera Farmiga, “Amor sem escalas”
Maggie Myllenhaal, “Crazy heart”
Anna Kendrick, “Amor sem escalas”
Mo’Nique, “Preciosa”

MELHOR FILME ANIMADO
“Coraline”
“O fantástico Sr. Raposo”
“A princesa e o sapo”
“O segredo de Kells”
“Up – Altas aventuras”

MELHOR DIRETOR
Quentin Tarantino, por "Bastardos Inglórios"
Kathryn Bigelow, por "Guerra ao Terror"
Lee Daniels, por "Preciosa – Uma História de Esperança"
James Cameron, por "Avatar"
Jason Reitman, por "Amor sem Escalas"

MELHOR FILME ESTRANGEIRO
Argentina, "O Segredo dos Seus Olhos", de Juan Jose Campanella
França, "Un Prophète", de Jacques Audiard
Alemanha, "A Fita Branca", de Michael Haneke
Israel, "Ajami", de Scandar Copti e Yaron Shani
Peru, "A Teta Assustada", de Claudia Llosa

ROTEIRO ORIGINAL
"Guerra ao Terror"
"Bastardos Inglórios"
"O Mensageiro"
"A Serious Man"
"Up – Altas Aventuras"

ROTEIRO ADAPTADO
"Distrito 9"
"Educação"
"In the Loop"
"Preciosa – Uma História de Esperança"
"Amor sem Escalas"

DIREÇÃO DE ARTE
"Avatar"
"O Mundo Imaginário do Dr. Parnassus"
"Nine"
"Sherlock Holmes"
"The Young Victoria"

CANÇÃO ORIGINAL
"Almost There", de "A Princesa e o Sapo"
"Down in New Orleans", de"A Princesa e o Sapo"
"Loin de Paname", de "Paris 36"
"Take It All", de "Nine"
"The Weary Kind", de "Crazy Heart"

TRILHA SONORA
"Avatar"
"O Fantástico Mundo do Senhor Raposo"
"Guerra ao Terror"
"Sherlock Holmes"
"Up – Altas Aventuras"

EDIÇÃO DE SOM
"Avatar"
"Guerra ao Terror"
"Bastardos Inglórios"
"Star Trek"
"Up – Altas Aventuras"

MIXAGEM DE SOM
"Avatar"
"Guerra ao Terror"
"Bastardos Inglórios"
"Star Trek"
"Transformers – A Vingança dos Derrotados"

EFEITO ESPECIAL
"Avatar"
"Distrito 9"
"Star Trek"

CURTA-METRAGEM
"The Door"
"Instead of Abracadabra"
"Kavi"
"Miracle Fish"
"The New Tenants"

CURTA-METRAGEM DE ANIMAÇÃO
"French Roast"
"Granny O’Grimm’s Sleeping Beauty"
"The Lady and the Reaper"
"Logorama"
"A Matter of Loaf and Death"

MAQUIAGEM
"Il Divo"
"Star Trek"
"The Young Victoria"

EDIÇÃO
"Avatar"
"Distrito 9"
"Guerra ao Terror"
"Bastardos Inglórios"
"Preciosa – Uma História de Esperança"

FOTOGRAFIA
"Avatar"
"Harry Potter e o Enigma do Príncipe"
"Guerra ao Terror"
"Bastardos Inglórios"
"A Fita Branca"

FIGURINO
"Bright Star"
"Coco Antes de Chanel"
"O Mundo Imaginário do Doutor Parnassus"
"Nine"
"The Young Victoria"

DOCUMENTÁRIO
"Burma VJ"
"The Cove"
"Comida S/A"
"The Most Dangerous Man in America: Daniel Ellsberg and the Pentagon Papers"
"Which Way Home"

DOCUMENTÁRIO CURTA-METRAGEM
"China’s Unnatural Disaster: The Tears of Sichuan Province"
"The Last Campaign of Governor Booth Gardner"
"The Last Truck: Closing of a GM Plant"
"Music by Prudence"
"Rabbit à la Berlin"

No Rio de Janeiro, 8 de Março de 2010
Dia Internacional da Mulher

“El Secreto de Sus Ojos” – 4

ATENÇÃO: Se você ainda não viu o filme, e gosta de surpresa, não leia esta quarta parte de meu comentário sobre “El Secreto de Sus Ojos”: ela contém um “spoiler” (uma revelação que tira a surpresa do filme).

Este é um filme cheio de detalhes preciosos. Na segunda parte da minha resenha, destaquei alguns (a porta que abre e fecha, a máquina de escrever sem o “a”…). Aqui está outro – este mais denso, do ponto de vista filosófico.

Ao final (1h55m) do filme descobrimos que Isidoro Gómez, o assassino representado por Javier Godino, é mantido em cárcere privado, em condições sub-humanas, por longos vinte e cinco anos, por Ricardo Morales, o marido da jovem assassinada, representado por Pablo Rago. Durante todo esse tempo, meio século, Morales só alimentou Gómez o suficiente para que este continuasse vivo. Não lhe dirigiu sequer a palavra. Supõe-se que ninguém mais chegou perto do prisioneiro esse tempo todo – até que o policial, Benjamín Esposito, representado por Ricardo Darín, descobriu a cela secreta do prisioneiro.

É esta a pena, pior do que a morte, que Morales escolheu e aplicou para o assassino de sua mulher.

Quando Esposito chega perto de Gómez, a primeira pessoa (com a exceção de Morales) que o vê ou que é visto por ele, o prisioneiro lhe diz:

“Por favor… peça a ele… peça a ele… ainda que seja… que ao menos fale comigo…“

Naquele momento em que finalmente encontra alguém que não é seu carcereiro, depois de vinte e cinco anos vivendo a casca de pão seco e água, em condições sub-humanas, imundas, a coisa que o prisioneiro pede é que se fale com ele… “Por favor… pídale… pídale que… aunque sea… por lo menos me hable” (a frase exata é muito difícil de entender, no que talvez seja a única falha técnica do filme – embora a fala rouca e semi-inteligível do prisioneiro possa ter sido um recurso técnico invocado pelo diretor para realçar o fato de que o prisioneiro não falava há vinte e cinco anos).

Não é atendido.

Uma bela lição àqueles de nós que não gostam muito de conversar, que gostam de ficar calados, ensimesmados. A ausência total e forçada da fala humana é uma das maiores punições que se pode infligir ao ser humano. Reduz-nos ao nível da animalidade talvez mais rápido do que qualquer outro fator.

Em São Paulo, 2 de Março de 2010

Os melhores filmes que já vi

Na minha base de dados de filmes que já vi e gostei bastante tenho atualmente 263 filmes. Deles, apenas quatorze (cerca de 5%) mereceram nota dez de minha parte:

Eles são (pela data de lançamento, do mais antigo para o mais recente):

Casablanca (1942)
Scent of a Woman (1992)
Shadowlands (1993)
The Remains of the Day (1993)
Sommersby (1993)
The Bridges of Madison County (1995)
Meet Joe Black (1998)
October Sky (1999)
Sunshine (1999)
The End of the Affair (1999)
El Hijo de la Novia (2001)
The Notebook (2004)
Atonement (2007)
El Secreto de sus Ojos (2009)

Note-se que há um gap de 50 anos entre o primeiro e o segundo. Foi em 1992 que eu comecei a me interessar por filmes. Assim, a maior parte dos filmes vem dessa data em diante. Os anos de 1993 e 1999 têm três filmes cada.

Notem que deixei de fora Gone with the Wind, Dr. Jhivago e vários outros filmes de que também gosto muito – mas que, no meu julgamento, não merecem nota dez.

Quem quiser ver a lista completa dos 263 filmes, verifique http://imdb.com/mymovies/list?l=2465740.

Se tivesse tempo, me deitaria na minha poltrona do sítio durante alguns dias e ficaria vendo esses filmes todos de novo, um atrás do outro, time and again.

Em São Paulo, 1 de Março de 2010

“El Secreto de sus Ojos” – 3

El Secreto de sus Ojos - 3

Houve uma coisa de que não gostei no “El Secreto de sus Ojos” ontem aqui em São Paulo: o legendamento.

O filme se passa em algo equivalente a uma delegacia ou inspetoria de polícia. O linguajar nesses lugares é pesado.

Assim, em inúmeros momentos os personagens dizem “hijo de puta”, “la puta que te parió”, “culo”, “carajo”, várias formas dos verbos “joder”, “cagar”, etc.

Quem traduziu o filme para legendamento abrandou todos esses palavrões. “Hijo de puta” virou, sistematicamente “filho da mãe”. Os demais palavrões foram evitados mudando-se a construção da frase.

Pergunto: quem determinou que o tradutor de um filme deve poupar nossos ouvidos dos palavrões que quem fez o filme houve por bem colocar nele? Quem é responsável por esse paternalismo ridículo e injustificado???

Abaixo com ele.

A gente ouve palavrão o tempo todo. Na rua, na TV (ligue no Jô Soares ou no BBB ou na transmissão de futebol que deixa um microfone aberto no gramado). Por que a gente deveria ser poupado dos palavrões em uma obra de arte, como um filme?

É ridículo ler na legenda do filme que um policial adulto, irado (puto da vida), chamou um assassino desclassificado de “filho da mãe” – quando a gente ouve a trilha original dizer que ele o chamou (como devia) de “hijo de puta”.

Não tenho paciência com essa mania de purificar a linguagem nossa de cada dia no cinema através da tradução (legendamento ou dublagem). Quando passa uma chanchada brasileira no cinema, a gente só ouve palavrão. Por que uma obra de arte como “El Secreto de sus Ojos” deve ser castrado, emasculado da linguagem forte que ele tem no original?

Poupem-me.

Em São Paulo, 1 de Março de 2010

“El Secreto de sus Ojos” – 2

El Secreto de sus Ojos - 2

Sem querer revelar o enredo do filme, queria destacar alguns temas da história e algumas características do filme.

Começo com as características.

O filme trata do assassinato frio e brutal de uma jovem – linda, casada e aparentemente feliz. Mas é muito diferente de filmes americanos que tratam de tema semelhante. “El Secreto de sus Ojos” não é um filme de ação, em que sai tiro por todo lado, assassinatos em que o sangue espirra na tela, perseguições mirabolantes de automóvel em ruas movimentadas… O filme trata mais do que se passa na cabeça das pessoas, no seu âmago, que leva algumas a cometer crimes horrendos, outras a tentar lidar com a perda, outras a não descansar enquanto não elucidarem o que de fato se passou, e por quê…

O filme é razoavelmente longo (129 minutos) e não é rápido: tem um ritmo tranqüilo, diferentemente de thrillers americanos. O suspense não é daqueles que deixa você com o coração na mão o tempo todo. A trilha sonora não deixa você estressado… O filme termina, depois de mais de duas horas, e você fica sentado na poltrona olhando a tela com a porta fechada e apenas o título do filme sobreposto à imagem: “El Secreto de sus Ojos”.

O título do filme, em Espanhol (e em Português) contém uma ambigüidade. Trata-se do segredo (ou o secreto!) dos olhos de quem? De Espósito? de Irene? do assassino? Quem traduziu o título para o Inglês encontrou dificuldade e saiu pela tangente: “The Secret of Their Eyes” – pluralizou o “sus”, que, em Espanhol (e em Português) pode se referir a uma pessoa só, ou a várias pessoas, do sexo masculino ou feminino. São os olhos de quem que trazem um segredo? Uma só pessoa ou várias? Será que os olhos, destinados a ver, são capazes de esconder segredos?

Quanto aos temas do filme. Há vários.

O primeiro é o risco, que todos corremos, de “vivir una vida vacia, una vida llena de nada”…  Espósito é aquele que corre esse risco e carrega essa reflexão. Quando começa o filme (em 1999) ele está aposentado – mas carrega essa sensação de que viveu uma vida vazia, cheia de nada. Tem no peito um amor enorme,que já dura 25 anos, desde 1974 – mas o contém, porque é um amor por sua chefe, de nível social e educacional maior do que o seu… E que, durante a parte final da história, estava casada e com dois fihos… O que leva uma pessoa que é capaz de agir e lutar por aquilo em que acredita no plano profissional a não ter coragem de agir e lutar pelo amor que lhe consome o peito? A se contentar com uma vida vazia, cheia de pequenos nadas que não a preenchem? Seria esse o segredo? Seriam os seus os olhos que ocultam o segredo?

Esse amor é tão grande que muitos de nós o descreveriam como paixão… Mas há paixões e paixões, como nos revela o segundo tema do filme.

Esse segundo tema é complexo… Sandoval, o personagem coadjuvante representado por Guillermo Francella, em determinado momento do filme diz algo assim: “Um cara pode mudar qualquer coisa. Pode mudar sua face, sua casa, sua família, seu amor, sua religião, seu Deus. Mas há algo que ele não pode mudar. Ele não pode mudar a sua paixão…”

A sugestão aqui é que nossa paixão última é um valor ou uma causa maior que, aparentemente, antes de ser escolhido(a) por nós, nos escolhe e, para o resto da vida, nos impede de ser diferentes… A justiça, por exemplo – aquela fome e sede por justiça… Ou a liberdade – que leva alguns, como Patrick Henry, o revolucionário americano, a dizer, em 1776: “Será a vida tão valiosa, ou a paz tão doce, que estejamos dispostos a pagar por elas o preço da sujeição, da submissão, da escravidão? Que o Deus Todopoderoso nos livre disso! Não sei que curso de ação os demais irão escolher. Mas quanto a mim, ou eu tenho liberdade, ou prefiro a morte”. A liberdade era a paixão de Patrick Henry. A paixão dele continua a inspirar a paixão de muita gente. Essa paixão não é uma paixão sensual: é uma paixão-valor, uma paixão-causa.

Podemos mudar de amor, diz Sandoval, mas não conseguimos nos livrar desse tipo de paixão… Espósito conseguiu resistir por vinte e cinco anos ao amor que o consumia. Mas não conseguia resistir à paixão que o movia a procurar o assassino, para fazer com que ele recebesse a punição que merecia…

Mas que punição seria essa???

O terceiro tema começa girando em torno da reação de que alguém que vê a pessoa a quem ama assassinada fria e brutalmente. Sua vida era “cheia de graça” e, de repente, um criminoso a esvazia de sentido. O que fazer com esse assassino desumano, se ele for encontrado? Qual seria a punição adequada para um crime desse porte? Matar o criminoso com as próprias mãos, para vê-lo estrebuchar ali na nossa frente? Ou, mais civilizadamente, lutar pela sua condenação à pena de morte? Muitos acham que a pena de morte é punição exagerada, não importa o crime. Mas o filme nos mostra que a morte, em certas situações, é uma punição branda demais. Em um segundo, o assassino está morto – sem descobrir o que é sofrer, minuto após minuto, vinte e quatro horas por dia, dia após dia, ano após ano, a sensação de viver uma vida esvaziada de sentido… Mas se a morte é uma punição branda demais para um crime tão brutal, qual seria a punição adequada? Esse o dilema do viúvo. Mas era também o dilema de Espósito. Seria o dilema de quem o encontrasse primeiro…

Mas para punir o assassino, é preciso identificá-lo e encontrá-lo…

O quarto, o tema do olhar (que dá título ao filme)… A única pista que os investigadores que desvendaram o crime (Espósito e Sandoval) encontraram para levá-los ao criminoso foram fotos antigas, em que alguém (que não o marido) olhava a vítima… O olhar, aqui, continha seus segredos – a pulsão do futuro assassino. Mas também foi o olhar do psicopata que revelou aos investigadores a pista que lhes permitiu identificá-lo. O olhar, no caso, não só oculta: também revela. E como revela!!! Como um olhar diz coisas – não só para quem é o destinatário daquele olhar, mas também para os ciscunstantes que olham o olhar do outro… (Muitas vezes não nos damos conta de que nosso olhar é olhado…). Olhares revelam interesse, amor, paixão, cobiça, indiferença, desamor, ódio, desprezo… Há olhares que machucam mais do que muitas palavras. Que machucam mais do que muitas porradas, talvez… Lembro-me de que meu pai conseguia fazer com que a gente ficasse gelado d
e medo do outro lado da sala apenas com um olhar…

Por fim, o quinto tema: provavelmente só um apaixonado (no sentido revelado por Sandoval) realmente consegue entender o outro… A paixão-valor ou paixão-causa do criminoso era seu time de futebol, o Racing… Só outro apaixonado pelo Racing ajudou Sandoval a chegar ao criminoso. Espósito, a quem o futebol não interessava, não via sentido naquela linha de investigação. Sandoval, em meio a toda sua bebedeira, viu – e isso o levou ao criminoso (e, infeliz e indiretamente, por engano, à sua própria morte).

É isso, por enquanto… Quem saiba eu ainda descubra mais coisas no filme, à medida que continue a pensar sobre ele. Como, por exemplo, a convicção de Espósito de que, em meio àquele crime horrível, havia uma história linda para contar…

Em São Paulo, 1 de Março de 2010
(Dia em que faz oito anos que tive meu enfarto)