A questão da arte “engagée” e “partisane”

Em resposta a alguns dos comentários, vou tentar esclarecer um pouco o que estava na minha cabeça ao fazer a observação que o Antonio Morales cita, a saber:

“Discordo dos críticos que afirmam que o cinema e a literatura desengajados politicamente, ‘inorgânicos’, alienam, quando eles assumem que essa alienação é ruim. Eu acho que sem ela a vida seria muito mais pobre e muito mais difícil de viver”.  

Note-se que eu disse: “Discordo dos críticos que afirmam que o cinema e a literatura desengajados politicamente, alienam

Esse enunciado citado claramente não é um enunciado artístico (literário) – enunciado, digamos, de primeira ordem lógica. Nem é um enunciado metaliterário, como os que fazem os críticos de arte, isto é, um enunciado, de segunda ordem lógica, sobre obras de arte, em geral, e a literatura, em particular. O enunciado é de terceira ordem lógica. Seu objeto não é a obra de arte, mas, sim, o que dizem os críticos de arte sobre as obras de arte. Essa terceira ordem lógica é o domínio da filosofia: no caso, da filosofia da arte — um ramo da filosofia que alguns chamam de estética.

Não tenho maiores problemas com quem faz arte “engagée”, “partisane”, etc. Pelo contrário. Adoro os romances de Ayn Rand , que, no meu julgamento, estão entre as melhores obras de ficção jamais produzidos pela literatura universal. No entanto, dificilmente vai haver uma literatura mais “engagée” e “partisane” do que a dela (engajada e tomando partido em favor da liberdade individual e do liberalismo mais radical do século XX). Também não tenho maiores problemas com críticos literários que avaliam esse tipo de arte, quer eles a elogiem, quer eles a critiquem, por qualquer razão que hajam por bem invocar.

Tenho sérios problemas, entretanto, com quem defende uma filosofia da arte que afirma, por razões puramente ideológicas, que a literatura (ou a arte) não “engagée” e “partisane” — leia-se: não engajada e partidária em geralmente em favor do comunismo ou do socialismo, ou da revolução social, ou do igualitarismo, etc. — é “alienante”. Esses filósofos da arte, se confrontados com uma literatura como a de Ayn Rand, que certamente é “engagée” e “partisane”, questionariam o engajamento e a tomada de posição dela, afirmando que engajamento e tomada de posição “do lado errado” não contam… — assim mostrando que o que criticam não é a falta de engajamento e de tomada de posição, mas a ausência de um engajamento e de uma tomada de posição que eles favorecem e privilegiam.

Ao mesmo tempo em que gosto de uma literatura como a de Ayn Rand, engajada e compromissada com a causa liberal, nunca defendi a tese de que toda literatura, ou toda arte, deva necessariamente ser engajada e comprometida para ser boa. De modo algum. Muita arte “engagée” e “partisane” eu acho um lixo. E, por outro lado, há arte, como a manifestada nos filmes Scent of a Woman e The Bridges of Madison County, que não é “engagée” e “partisane” em nenhum sentido válido desses dois termos. Esses filmes lidam com problemas humanos, com problemas da condição humana, como diria André Malraux, sem dúvida alguma — mas são, em grande medida, problemas pessoais, individuais, não algo que se pudesse qualificar de problema social, quanto mais político. Há, num e noutro filme, leves pinceladas de crítica social, ou melhor, crítica dos costumes (quando, por exemplo, em Scent of a Woman, se ridiculariza as escolas privadas americanas que tentam imitar as britânicas, ou, em The Bridges of Madison County, se ridiculariza a bisbilhotagem e a fofoquice da sociedade rural de Iowa). Mas isso não permite qualificar os filmes como exemplos de engajamento e comprometimento com causas políticas. No entanto, apesar dessa sua natureza totalmente a-política, os dois filmes são geniais, enquanto arte.

Espero que isso esclareça o que eu penso.

Em Campinas, já em 28 de agosto de 2006

Literatura, cinema… Alienação?

Filmes… Literatura… 

Como seria nossa vida sem eles? Sem as histórias que nos trazem? Certamente muito mais pobre.

[Volto a esse tema em decorrência de algumas mensagens trocadas com meu amigo Julio de Angeli, a quem agradeço não só por ter me provocado a refletir, mas por ter me autorizado a dizer que foram seus e-mails que me fizeram voltar ao tema. As citações feitas a partir de roteiros de filmes são de uma chamada primeira versão do roteiro encontrada na Internet, em vários sites. Ela pode não corresponder exatamente à última versão. Algumas partes do roteiro original evidentemente acabam fora da versão final — seja do próprio roteiro, seja da versão editada do filme.]

Escrevo enquanto ouço “Por Una Cabeza”, o tango de Scent of a Woman / Perfume de Mulher, que Al Pacino (Coronel Frank Slade) e Gabrielle Anwar (simplesmente Donna, na história) dançaram no que talvez seja a cena mais tocante do filme (a competição entre essa cena e o discurso de Pacino / Slade diante da assembléia estudantil é dura).

Um dos detalhes que me chamou a atenção naquela cena é que Gabrielle / Donna havia acabado de atravessar um furacão emocional nos braços de Pacino / Slade. O namorado dela, David Lansbury (simplesmente Michael, na história), chega, logo a seguir, para levá-la a outro local. Ele nem nota que a namorada está em estado de graça, que parece ter tido uma ‘visio beatifica’… Quando estão saindo, ele nem percebe que ela olha desesperadamente para trás, aparentemente esperando, em vão, que Pacino / Slade ou, quem sabe, Chris O’Donnel (Charlie Sims), fizesse algo que a ajudasse a tornar aquele um momento perpétuo… ela tinha vivido, como lhe prometera Pacino / Slade, uma vida inteira em poucos minutos. Mas a decisão de não ir com o namorado, e ficar com Pacino / Slade, teria de ser dela, e ela não teve coragem de tomá-la. Assim, ela vai para o que, em comparação com o momento vivido, será inevitavelmente a mediocridade do encontro que o namorado preparou para ela.

Michael está junto da namorada — e, evidentemente, não é cego.  Mas não enxerga. Ele não percebe coisas que o cego coronel enxerga sem precisar ver… Sensibilidade é isso. Em poucos minutos, o Coronel Slade decodificou, por assim dizer, aquela alma feminina na sua frente. Primeiro, pelo olfato refinado: de longe percebeu que ela havia tomado banho com Ogilvy Sister’s Soap. Depois, pela conversa, com a qual a convenceu a dançar com ele, mesmo ele sendo cego e ela não sabendo dançar direito. Por fim, pelo tato e pelo movimento na pista de dança. Seu namorado a via todo dia, certamente transava com ela — mas não a conhecia como aquele cego a ficou conhecendo em poucos minutos de interação…

Há dias escrevi algo aqui sobre o destino de meus hard disks e, na crônica, mencionei que nossos parentes (cônjuges, filhos, etc.) em geral não conhecem a gente. Mencionei, naquela crônica, o filme The Bridges of Madison County / As Pontes de Madison, outro filme magnífico, repleto de detalhes cheios de sensibilidade. O filme foi  dirigido (e interpretado) por Clint Eastwood – ex-“Dirty Harry” e ex-prefeito de Carmel, CA, EUA.

No filme, na carta que Francesca Johnson (Meryl Streep) deixou para seus filhos, contando a eles de seu "affair" extra-conjugal, até então desconhecido deles (e de todo mundo), ela diz:

"Primeiro, e acima de tudo, eu amo vocês dois muito. Embora eu esteja me sentindo bem, cheguei à conclusão de que chegou a hora de colocar os meus negócios (‘affairs’) em ordem — se vocês podem me perdoar o trocadilho. . ." [O filho, aqui, ouvindo a irmã ler isso, revoltado afirma: "Não posso acreditar que ela esteja fazendo piada sobre isso…"]. . . É duro escrever de coisas assim para meus próprios filhos. Eu poderia decidir deixar que esse segredo morresse com o resto de mim, suponho. Mas, quando a gente vai ficando velho, a gente perde os medos, ou resolve ignorá-los. O que se torna mais importante é se deixar conhecer — ser conhecido por tudo aquilo que você fez durante essa curta vida. Quão triste me parece deixar esta vida sem que aqueles que você mais ama realmente saibam quem você foi… É fácil para uma mãe amar seus filhos, não importa o que aconteça — isto é algo que simplesmente acontece assim. Vocês estão sempre tão bravos por causa da maneira errada com que nós os criamos. Mas eu achei que era importante lhes dar uma chance: a oportunidade de me amar por aquilo que eu realmente fui… O nome dele era Robert Kincaid. . . Está tudo lá nos três cadernos. Leiam os cadernos em ordem. Se vocês não quiserem ler, suponho que essa decisão seja okay também. Mas, nessa hipótese, quero que vocês saibam de uma coisa: nunca deixei de amar seu pai. Ele era um homem muito bom. Só que meu amor por Robert era diferente. Ele foi capaz de descobrir em mim coisas que ninguém, nem eu mesma, sabia que estavam lá, e que ninguém mais soube desde então. Ele me fez sentir como uma mulher de um jeito que muito poucas mulheres jamais têm condição de experimentar. . ."

Eu me emociono com os inúmeros detalhes sensíveis do filme. É difícil imaginar o “Dirty Harry” Clint Eastwood tendo tanta sensibilidade. Mas ela está lá — é verdade que de certo modo comandada pelo bom roteiro de Richard LaGravenese, que melhorou muito (na minha opinião) o livro em que se baseou o roteiro, de autoria de Robert James Waller. Mas nenhum bom roteiro substitui uma direção competente. Como diz Sean Pflueger, “Okay, o roteiro de Richard LaGravenese para ‘As Pontes de Madison” é um  ‘salto gigantesco para a humanidade’ em relação às poças de lama que é o romance de Robert James Waller. Mas é a direção de Clint Eastwood e os desempenhos de Eastwood e Meryl Streep que torna a canção para banjo que Waller escreveu em uma ópera”. [Em Entertainment Weekly, http://www.ew.com/ew/article/commentary/0,6115,525659_1%7C8273%7C%7C0_0_,00.html%5D.

O detalhe da “screen door” da cozinha, que todos (marido e filhos) deixavam bater, e que feria as emoções de Francesca mais do que os seus ouvidos – mas que Robert Kincaid (Clint Eastwood) segurou, impedindo que batesse, provocando um sorriso leve nos lábios de Francesca, como se ela dissesse, pra si mesma: “Finalmente alguém sensível, que, como eu,  não gosta de ouvir barulhos desnecessários…”

Diz o roteiro: "Michael [o filho] entra na cozinha, vindo do quintal, e deixa a screen door bater forte, com um barulho. Francesca lhe diz: ‘Michael, o que foi que eu lhe falei sobre essa porta?’ Em seguinda entra Richard [o marido], deixando a screen door bater de novo, do mesmo jeito. Francesca quase diz algo, mas desiste".

O detalhe do rádio… seja na cozinha, seja no carro. Ela procurava sintonizá-lo em estações de música leve, geralmente clássica ligeira, baixinho, agradável. Havia aprendido a gostar desse tipo de música na sua Itália nativa. Os filhos e o marido, desrespeitando a sua preferência, sempre mudavam a estação, colocando o rádio em estações que tocavam estridentes músicas country, certamente apreciadas na região de Iowa. Quando Kincaid sintonizou o rádio e o colocou em uma estação de Chicago que tocava um blue suave com Dinah Washington, acompanhada por saxfone, Francesca ficou convicta de que estava tratando com alguém diferente…

Como a screen door, o rádio era uma fonte de irritação constante para ela, que ninguém ao seu redor parecia perceber — ou que, se percebia, não parecia se importar.

Depois, Francesca tomando banho e imaginando que ali, momentos antes, ele, Kincaid, havia tomado o seu… Na banheira dela. A água que acariciava seu corpo devia sentir como mais tarde iria sentir a mão dele…

A dança dos dois. O dilema de Francesca diante da tensão emocional que aumentava e tornava inevitável uma tomada rápida de decisão: fazer amor com ele? A não tomada de uma decisão ali seria uma decisão. Era o “either-or” kierkegaardiano. Radical. Agora, ou nunca mais.

Mais tarde, uma decisão ainda mais difícil. Deixar a família e ir embora com Robert Kincaid ou continuar na mesma vidinha de sempre… A mão na maçaneta de camioneta, querendo abrir a porta, mas, também, ao mesmo tempo, lutando para não abri-la…  

E mais um sem número de detalhes.  

Ao começar a relatar o seu "affair" aos filhos, Francesca afirma que, pouco antes de encontrar Kincaid, andava inquieta, sem saber exatamente por quê.

"Suponho que sua entrada em minha vida foi, de muitas maneiras, preparada, durante semanas, talvez meses, antes de nos encontrarmos. Havia em mim uma inquietação, um sentimento inquieto. Vinha, como se fosse, do nada, sem nenhuma causa aparente. Nada causa mais medo a uma mulher que tem estado ‘assentada’ por quase vinte anos do que, subitamente, se sentir ‘desassentada’… Não sei quando começou."

Foi só retrospectivamente que ela percebeu esse sentimento de inquietação em seus sentimentos, essa forma de sentir-se "desassentada", fora de lugar…

O que fica evidente no filme é que, apesar do amor que sentia pelo marido e pelos filhos, e da rotina que a vida em uma fazenda em Iowa havia estabelecido, ela odiava aquele lugar e a sua gentinha medíocre.

Robert Kincaid percebeu isso à primeira vista.

Sentindo a dimensão do problema, ele pergunta a ela como era o seu marido (que ela havia encontrado durante a Segunda Guerra na Itália, conforme acabara de lhe contar). Tudo o que ela consegue dizer é: "Muito trabalhador. Muito honesto. Se preocupa com a gente. É gentil. Um bom pai". (Isso me faz lembrar um conto de Monteiro Lobato: "Coitada da das Dores… Tão boazinha!" Boazinha era tudo o que se conseguia dizer de bom a respeito dela).

Ele vai adiante. Pergunta como é a vida em um lugar pequeno em Iowa: "Então você deve gostar aqui de Iowa, eu suponho…" Ela hesita. Ele diz, como se soubesse o que ela vai confessar: "Pode dizer: fica comigo, eu não conto pra ninguém…" Ela se surpreende. Não só ele sabe o que ela vai dizer, mas ele de antemão lhe assegura que ele entende o que ela sente, e que sabe que aquele sentimento tem sua razão de ser e é justificado. Ele valida o que ela sente. Ela hesita mais uma vez, ele lhe sorri e faz que sim com a cabeça — e ela explode: "Eu odeio isso aqui…"

Ao acabar sua explosão, ela se sente esgotada, totalmente exposta — mas aliviada. Alguém sabe o que ela sente, e o percebeu antes mesmo de ela tomar consciência do fato e ser capaz de verbalizá-lo. E, acima de tudo, não a criticou por se sentir assim, referendou e validou o que ela sentia, sem precisar dizer uma palavra. 

Mesmo assim, ela sentiu que devia dizer que estava com vergonha de dizer tudo aquilo… Ele responde com humor, aliviando a tensão e o embaraço dela: "Por quê? Você tirou a rolha da garrafa. Pelo que posso perceber, eu cheguei aqui na hora certa. Tivesse demorado um pouco mais e você teria sido manchete de primeira página, correndo nua pela Main Street. . ." Ela ri… "Mas nós nem nos conhecemos!" Ele, desta vez, não referenda e valida o que ela sente, mas diz a ela que ela está errada em sentir o qe sente: "Você não tem razão de se sentir envergonhada. Você não disse nada que você não tivesse o direito de dizer. E se alguém discorda — mande falar comigo!".

O mais assustador do filme é que, no caso de Francesca, o marido e os filhos nunca haviam notado que ela era infeliz — infeliz no seu âmago, no mais fundo do seu ser, e profundamente infeliz… Na verdade, nem ela mesma havia se dado conta de todo o ressentimento que se acumulava dentro de si em virtude de tudo aquilo a que havia renunciado para ter, o que agora ficava claro, aquela vidinha pobre de sentimento no interior de Iowa – até que o contato com Roberto Kincaid, viajante de muitas plagas (que conhecia até mesmo a pequenina Bari, cidade em que ela nasceu na Itália), quem sabe amante de muitas mulheres sofisticadas, sem querer, lhe revelou…  E ela, que estava traindo o marido, sentiu ciúmes dos amores que o amante deveria ter tido antes de conhecê-la!!! Só percebe e consegue expressar esse fato alguém que tem profunda sensibilidade…

Que conflito deve ter sofrido Francesca. Ali, naqueles poucos dias com Kincaid, ela se apaixonou, eles se amaram, e tudo foi lindo — mas os dois sabiam que havia uma decisão que ela deveria tomar – ela, mais do que ele, porque era ela que tinha mais a perder (a despeito de tudo o que sentia sobre Iowa). A decisão dele era fácil: era solteiro (divorciado), sem compromissos, e queria Francesca, sem dilemas e sem conflitos. Mas a decisão dela era difícil: abandonar uma vida, medíocre é verdade, sem paixão, aparentemente até mesmo sem um amor que tocasse fundo no seu ser (apesar da afirmação feita aos filhos), mas sabida e conhecida, na qual possuía pelo menos um certo carinho do marido e dos filhos e a certeza do hábito e da rotina, por uma paixão que muito promete mas, no fundo, leva ao desconhecido.

E a tragicidade da coisa é que, mesmo que Francesca tivesse tomado a decisão oposta, teria sofrido muito. Talvez até mais. Tal é a condição humana. Francesca tomou sua decisão — e viveu com ela. Ela termina, porém, sua "carta testamento" aos filhos dizendo: "Façam o que vocês têm de fazer, e sejam felizes nesta vida. Há tanta beleza nela!" Felicidade,  beleza…

Filmes… Literatura… Ficção… Histórias inventadas… Na verdade, não totalmente inventadas, mas aproveitadas da vida vivida, da experiência, própria ou dos outros, e reunidas em personagens e acontecimentos que, como tais, nunca viveram ou aconteceram. O cinema e a literatura nos permitem viver, vicariamente, experiências que muitas vezes não nos é dado viver na vida real. E, assim, enriquecem a nossa vida, refinam e aprofundam a nossa sensibilidade. (Já discutimos aqui a questão da educação da sensibilidade). Ou, então, nos preparam para viver essas experiências, se e quando elas nos forem dadas.

Alguns, pouco preocupados com a sensibilidade, dizem que esse tipo de filme e literatura alienam. Até certo ponto é verdade. Eles nos alienam, isto é, afastam, temporariamente, do dia-a-dia, com seus vales e suas planícies, que em geral ficam no pé da montanha, e muitas vezes não têm muita graça, porque não permitem que se aviste longe, e nos levam para os picos e cumes da experiência humana, daquilo que nossa vida, de certo modo, poderia, quem sabe, ter sido, se a gente tivesse registrado as oportunidades que apareceram e feito escolhas diferentes…

Discordo dos críticos que afirmam que o cinema e a literatura desengajados poltiicamente, “inorgânicos”, alienam quando eles assumem que essa alienação é ruim. Eu acho que sem ela a vida seria muito mais pobre e muito mais difícil de viver.  

Em Salto, 25 de agosto de 2006

Lost in Translation

Acho muito interessante o filme "Lost in Translation" de Sofia Coppola (ela dirigiu e escreveu o roteiro), com Bill Murray e Scarlett Johansson. Acho que o nome do filme em Português é "Encontros e Desencontros" — que não indica que o filme em gira em torno de problemas lingüísticos que, por sua vez, se traduzem em problemas culturais.

(Quem não assistiu ao filme pode ver um resumo em http://imdb.com e um trailler em http://mymovies.net)

O filme descreve com muita propriedade as dificuldades que ocidentais têm para entender orientais — especialmente para entender orientais em contextos envolvendo comunicação lingüística.

Nos últimos dois anos vim várias vezes à Asia: Taiwan, três vezes, Hong Kong, duas vezes, Macau, uma vez, Coréia do Sul, uma vez, Cingapura, uma vez — quase sempre passando por Tóquio, cidade cujo aeroporto (Narita) possui todo um setor da United — onde apenas ela controla cerca de 30 portões de embarque.

A maior parte do tempo, quando estou aqui, e quero sair, alguém me acompanha: ou alguém local, que fala a língua local (chinês [mandarin], chinês [cantonês], coreano), ou, então, um grupo de estrangeiros que, embora não falando a língua local, compartilham a ignorância da língua e, assim, socializam qualquer passo em falso…

Ontem, porém, Sábado, dia 6, saí sozinho aqui em Taipei. Não é uma experiência fácil. Estou no Grand Hotel, uma construção de estilo chinês, enorme e magnífica, que fica no alto de um morro, cercada por um bosque que, por sua vez, é cercado por pistas de alta velocidade. Sair do hotel andando, como eu normalmente gosto, é complicado. Logo, saí de taxi.

Problema número um: quase nenhum motorista de taxi aqui em Taiwan fala Inglês (ou qualquer outra língua além do chinês de pronúncia cantonesa]). Exigência número um, portanto: sair do hotel munido de descrições em chinês acerca dos locais aos quais você deseja ir, bem como com um cartão de visitas do hotel, que tenha, em chinês, o nome, o endereço e o telefone do hotel. Na saída do hotel os bell-boys lêem o seu papelzinho, falam com o motorista, anotam em um outro papel o número e a placa do taxi, bem como o nome do motorista e lhe dão. Perguntei a eles para que servia aquilo. Disseram, sorrindo como sempre: para sua segurança. Fiquei na mesma. Na mesma, bem, não: fiquei mais preocupado do que estava. Mas não deixei isso transparecer. Procurei demonstrar segurança. Ao chegar ao destino, o motorista apenas apontou para o taxímetro (na ida foi 125 Taiwan dollars, na volta 140, não sei exatamente por que, pois saí de volta exatamente do mesmo local a que cheguei, apesar de ter rodado pelo centro da cidade). Você paga e ele lha dá o troco. Como você não conhece as notas nem as moedas, coloca tudo no bolso, porque conferir levaria tempo demais. 

Problema número dois: muito poucos vendendores nas lojas falam Inglês — e aqueles que falam em geral falam o mínimo indispensável para vender alguma coisa, e, em geral, com uma pronúncia que é muito difícil entender. Eu fui a um local conhecido aqui em Taipei, onde há "trocentas" lojinhas pequenas de eletrônica no espaço de mais ou menos um quarteirão, dispostas quase como estandes de 3×3 ou 2×3 ou até 1×3 numa exposição (como uma feira de informática). Têm de tudo. Mas muitas estavam fechadas. Quando encontrava um vendedor que parecia falar melhor o Inglês, perguntava: "Why so many stores closed?" — Por que tantas lojas fechadas. Recebia em resposta um daqueles olhares indicativos de que a pessoa não entendeu absolutamente nada. Fiquei sem saber se era porque era sábado, se era porque era antes do meio-dia, ou se havia alguma outra razão.

Problema número três: a Joyce Weng, que é a diretora da empresa que organizou a logística do Congresso do qual vim participar, me disse: não pague o que eles lhe pedirem, barganhe. Eu lhe disse: barganhar como??? Ela me disse: quando você achar algo que lhe interessa, aponte para a coisa e pergunte o preço — dizendo "How much?" (isso eles entendem) ou raspando o polegar no indicador ou no pai-de-todos, para indicar dinheiro (que parece ser um gesto com significado universal). Eles vão lhe responder pegando uma calculadora grande e digitando nela o preço. Você pega a calculadora das mãos deles, calcula, digamos, 80% do preço, e mostra pra eles. E por aí vai. Fiquei preocupado. Em geral não sou bom negociador — e barganhar desse jeito parece estar além da minha capacidade. E se eu não me lembrasse de como se calcula porcentagens na calculadora??? 

Mas encurtemos a história.

Na primeira lojinha que encontrei, logo na entrada no complexo (que tem cerca de 15 enormes barracões, todos com ar condicionado, banheiro, caixas eletrônicos, etc., direitinho), encontrei algo que estava procurando: discos rígidos de 2,5 polegadas. Eles em geral são vendidos pelados, sem o estojo. Você tem de comprar o disco pelado, o estojo do disco, pedir para eles instalarem o disco no estojo, formatar o disco e lhe mostrar que o disco está funcionando e tem a capacidade anunciada. Além disso, se você é como eu, você vai querer comprar uma capinha de couro (ainda que seja couro "genérico") para guardar o seu minúsculo disco rígido (menor do que um Palm). Você tem de comprá-la em separado. (Sei disso por que anteriormente já comprei três desses, dois de 80 GB e um de 120 GB — mas comprei-os quando estava acompanhado de gente que falava a língua e barganhava por mim…).

Na lojinha em questão um jovem gordo e careca falava ao telefone exatamente no balcão onde estavam os discos. Tentei chamar a atenção de um outro vendedor, que estava sem fazer nada, mas ele fez sinal de não com a mão, apontando para o gorducho. Enquanto este terminava a ligação, olhei as caixinhas na vitrina. Havia caixinha de disco de 40 GB, de 60 GB e de 80 GB. Eu queria, naturalmente, o de 120 GB. Apontei para as  caixinhas e perguntei: One hundred and twenty gig? Ele me respondeu, Ya. Eu perguntei: How much? O desgraçado não seguiu o script. Ele pegou a calculadora, ligou, e a virou para mim, sem digitar nada. Olhei para ele assim com a minha melhor cara de perdidão. Não adiantou. Fiz um gesto de quem não havia entendido. Ele me respondeu: Make offer — faça uma oferta. Já disse que não sou bom em negociação. Mas quando alguém me dá um preço, em geral sou capaz de oferecer algo assim como cinco por cento abaixo. Mas eu começar dando preço à mercadoria do outro é algo que definitivamente não gosto de fazer. Fiz um sinal de esqueça e fui saindo… O gordão estava rindo, condescendentemente — e levemente sacuindo sua cabeça negativamente. Parecia estar dizendo que ocidentais não sabem negociar. É verdade. Orientais e árabes são muito melhor nisso do que a gente.

Fiquei umas quatro horas por lá. Desenvolvi uma dorzinha de cabeça chata. E não comprei quase nada. Razão: basicamente, insegurança — tanto para a compra parca como para a dorzinha de cabeça. Quando o preço era mais ou menos bom, eu perguntava: Brand? – Marca? E a marca era uma marca taiwanesa, totalmente desconhecida. Quando a marca era Sony, Fujitsu, Samsung, o preço me parecia alto demais — o que me obrigaria a barganhar bastante, coisa que, convenhamos, eu não estava muito disposto a fazer. O pior é você fazer uma pergunta simples e eles ficarem dois minutos conversando em chinês entre eles antes de lhe dar uma resposta — ou, ainda pior, cair na risada sem que você saiba por quê…

O filme de Sofia Coppola lida com essas realidades. Vivenciar meio-dia sozinho num mercado de tecnologia em Taiwan me ajudou a elevar mais a minha avaliação do filme. Não o percam, caso ainda não o tenham visto. Se não gostarem da história, os homens, pelo menos, vão adorar Scarlett Johansson: a menina de 20 anos, por aí, que todo cinqüentão, como Bill Murray, pediu a Deus — e o idiota do marido dela virtualmente a jogou nos braços dele. Mas já conto o final: exceto por um beijo, o caso incipiente dos dois não foi a lugar nenhum: terminou quando ele voltou de Tóquio para os Estados Unidos. Comme il faudrait, peut-être.

Em Taipei, 7 de maio de 2006

"2 Filhos de Francisco"

Vi na quarta-feira, dia 31/8, o filme 2 Filhos de Francisco. Achei o filme lindo – enquanto história e enquanto cinema.

A história de Zezé di Camargo e Luciano – Mirosmar e Welson – é emocionante.

Até os nomes reais de cada um refletem sua origem pobre. O irmão mais novo, que começou a dupla com Mirosmar, mas depois morreu, se chamava Emival. Alguém já imaginou um rico pondo nome de Mirosmar, Emival e Welson em seus filhos? Rico hoje, por uma inversão curiosa, coloca em seus filhos nomes simples, como José, Joaquim, Pedro, Benedito, que antes eram reservados à pobreza. E os pobres buscam nomes mais complicados, às vezes até pretensiosos. No entanto, antes de alcançar o sucesso, Mirosmar vira José (Zezé) e Welson, Luciano.

Mirosmar, Welson e seus (muitos!) irmãos, filhos de seu Francisco e de dona Helena, nasceram na pobreza. Alguns nasceram perto de Pirinópolis, GO, num sitiozinho pobre, com casa de adobe, que pertencia ao avô Benedito (pai de dona  Helena), que um dia resolveu tomá-lo de volta. Os mais novos nasceram num barraco em Goiânia – que, em termos de casa, era pior do que a do sítio. Todos viviam na pobreza — pobreza mesmo, dessas em que a menina ia deitar de bruços pra ver se, comprimindo o estômago, a fome passava. O dono do armazém da esquina estava negando o fiado, porque a dívida havia ficado grande demais e passara a ser um risco.

O pai, seu Francisco, que gostava de música sertaneja, não põe muita fé na habilidade musical do filho mais velho. Este havia desafinado terrivelmente ao cantar “Beijinho Doce” em cima de um caminhão num desses encontros musicais de vilarejo do nosso Brasil profundo. Mas mesmo assim lhe dá uma gaita de presente por haver tentado – gaita com a qual Mirosmar agora atormenta toda a família, tocando – ou tentando tocar – o tempo todo. Mas um dia, Seu Francisco, ao ouvir o menino tocar “Menino da Porteira” na gaita, começa a acreditar que o menino tem futuro na música. Usa o dinheiro da venda de toda a colheita, mais um porco e o revólver para comprar-lhe uma sanfona – e para o irmão mais novo, um violão. Não sossega até o sanfoneiro mais famoso da região lhe dá uma primeira – e única – lição. O menino aprende a tocar o necessário para se acompanhar na sanfona – e o irmão faz o mesmo com o violão.

Como o sogro pede o sítio de volta, Seu Francisco resolve que é chegada a hora de ir para uma cidade grande. Empacota “os trens” e vai com a família para Goiânia – morar num barraco de periferia. Na roça sempre havia alguma coisa pra comer, mas na cidade grande a família chega a passar fome, enquanto seu Francisco faz bicos como ajudante de pedreiro. Para ajudar a família a comprar comida Mirosmar resolve agir. Quando chegavam em Goiânia, viu duplas sertanejas cantando na rodoviária em troca de dinheiro. Chama Emival e lá vão os dois para a rodoviária, de sanfona e violão nas costas. Na rodoviária foram impedidos de cantar em frente a uma lanchonete. Mas quando estavam sentados, desanimados, sem saber o que fazer, alguém provocou Mirosmar: “Sabe tocar essa sanfona?” “Sei”, disse ele. E começou a tocar e a cantar. Cutucou o irmão para que pegasse o violão e também cantasse. Quando os dois viram o interesse do público, puxaram uma caixinha de papelão que estava embaixo do assento — e ela rapidamente se encheu de trocados.

Com o sucesso que fizeram na rodoviária, não demorou para a dupla encontrar um “empresário”, meio sacana, que os levou a uma “tournée” pelo interior de Goiás. Depois de um relacionamento meio conflituoso com a família no início, o empresário começa a ser bem aceito — mas numa das viagens, seu carro (um carro "novo", um Maverick, que já havia sido comprado com o dinheiro ganho com a dupla para substituir à velha Kombi) bate em um caminhão e Emival morre. A família, já sofredora, toma um baque do qual vai levar muito tempo para se recuperar. Mirosmar pára de cantar por um bom tempo: perdera não só o irmão, mas o parceiro.

Quando Mirosmar volta a cantar, o faz tanto em dupla com outros cantores quanto cantando sozinho. Welson, que viria a se tornar Luciano, ainda é muito novinho (tem onze anos a menos do que o irmão). Mirosmar começa também a compor. Eventualmente grava um disco sozinho (já com o nome de Zezé di Camargo — o "di" deve ser coisa de marketeiro do interior) – mas embora algumas de suas músicas alcancem algum sucesso em gravações de outros cantores (como a dupla Leandro & Leonardo), o seu disco não faz nenhum sucesso.

Enquanto canta em eventos no interior goiano Mirosmar encontra Zilu e se casa. Logo vem uma filha (Wanessa – tinha de ser com “w”… ). Resolvem ir tentar a sorte em São Paulo. Mas nada dá certo. Para que o marido continuasse compondo, Zilu tem de, além de cuidar das filhas (uma outra havia chegado), de fazer bicos vendendo bugigangas – o sustento da família depende desses bicos.

Lá em Goiânia, Welson cresce, arruma uma namorada e um filho, e se interessa pela música – mas não mostra grande talento. Quando a namorada o abandona, levando o filho, ele vem pra casa do irmão em São Paulo – e lhe dá uma injeção de confiança, garantindo-lhe, num momento em que a confiança deste estava perto de esmoronar, que iriam alcançar sucesso e vender mais de um milhão de discos.

Mirosmar começa a treinar o irmão para que possa novamente ter um parceiro. E continua a compor. Acha uma gravadora que se dispõe a gravar suas músicas, mas sem garantia de que lançará um disco.

Nesse momento Mirosmar compõe “É o Amor!” e grava a música com seu irmão – agora já “batizado” de Luciano. Mas a gravadora ainda não acredita que o disco tenha condições de ser lançado: duvida de que terá sucesso.

Numa visita à família em Goiânia, a dupla mostra a fita de “É o Amor!” à família. Esta fica encantada – e não se conforma de que a gravadora não queira lançar o disco. Sem que os meninos soubessem, seu Francisco pega a fita e a leva a uma das rádios de Goiânia, onde conhecia um DJ. Ao voltar para casa, começa a ligar para a rádio, pedindo que toquem a música dos filhos. Chega ao extremo de gastar quase o salário inteiro em fichas, distribuindo-as aos colegas de obra, fazendo com que cada um telefonasse para a rádio pedindo para que tocasse “É o Amor!”. O estratagema funciona. Um dia, enquanto a família almoça no barraco, o rádio sempre ligado, ouvem a música – já alçada ao topo da parada de sucessos da rádio – e entram em delírio.

É o começo do sucesso – e o sucesso contagia, gera mais sucesso. Como dizem os americanos, “nothing succeeds quite like success” – “nada traz tanto sucesso como o sucesso”, algo assim. A gravadora em São Paulo finalmente resolve lançar o disco. O resto é história. Mais de um milhão de cópias vendidas com o primeiro disco da dupla.

O filme termina nesse ponto. Assim que o disco alcança sucesso o filme corta para um show da dupla – mas agora já são os próprios cantando no presente, não os atores que os representaram no filme. E o pai e a mãe também entram no filme em pessoa. Todos fazem alguns depoimentos comoventes.

Enquanto aparecem os créditos, no final do filme, há um dueto em que Caetano Veloso e Maria Bethânia cantam Tristeza do Jeca. Caetano assina a trilha sonora com Zezé di Camargo, e participa cantando algumas músicas – como o fazem Bethânia e Ney Matogrosso. O CD com a trilha certamente também será um sucesso.

A história é emocionante, porque é a história de um sonho. Originalmente, o sonho do pai. Mas o sonho do pai contagia o filho. E, eventualmente, o sonho de Mirosmar contagia Welson.

Os sonhos da gente humilde deste país são assim: sonhos de se tornar cantor de música sertaneja, sonho de se tornar jogador futebol, sonho de se tornar sindicalista e, quem sabe, um dia presidente… Alguns desses sonhos se tornam realidade. É assim que surgem os Zezés di Camargo e Lucianos, os Ronaldos, Ronaldinhos e Robinhos, os Lulas.

Para quem olha de fora, parece que o sucesso um dia chega assim de forma misteriosa, como se fosse dádiva divina. Quem olha de fora não vê, na história dos envolvidos, o pensamento, que não se deixa esmorecer, de que o sucesso, isto é, a vida melhor, é possível, mesmo para quem não tem nada, a não ser um sonho; não vê o propósito inarredável de alcançar esse sucesso; não vê a paixão pela realização desse sonho, que leva o pai a investir toda a sua colheita, e ainda mais alguma coisa, para comprar um instrumento para os filhos, ou todo o seu salário, para trazer à gravação dos filhos o reconhecimento que ela devia; não vê os planos feitos para abrir caminhos; não vê a paciência diante das maiores dificuldades; não vê a persistência de quem não se deixa quebrar nem mesmo quando a morte imprevistamente ataca e rouba um dos pilares em que se sustentava a esperança. Pensamento, propósito, paixão, planos, paciência, persistência… Seis "P"s que explicam o sucesso na vida.

Não resta dúvida que Mirosmar / Zezé di Camargo tem talento – e se tem hoje, tinha, quando era pequeno. Ele tem voz privilegiada e é excelente compositor desse gênero de música. E seu talento é bem complementado pela voz de Luciano, que o considera, além de irmão e parceiro, um segundo pai. Mas esse talento, ainda que tenha componente genético (de que não duvido), precisou ser estimulado, cultivado, burilado… Quem os ouve cantar hoje fica com a impressão de que cantar é tão fácil para eles quanto para os canários da terra. Mas não imagina o esforço que está por traz da competência desenvolvida – tão desenvolvida que o seu exercício parece natural e automático. Não imagina, isto é, a menos que veja o filme…

É por isso que a história é boa, engajante, comovente – mesmo que a gente, ao entrar no cinema, já conheça o fim do filme. Ela nos mostra os bastidores do sucesso, o esforço que está por trás do desenvolvimento do talento e da aquisição da competência, a importância de um ambiente que nutra e dê apoio aos nossos sonhos.

Educar é criar condições para que as pessoas possam se desenvolver como seres humanos, possam realizar seus potenciais, possam transformar a dependência e incompetência com que nascem em autonomia e competência na definição e realização de um projeto de vida – que nada mais é do que um sonho que não fica apenas sonho, e nada mais.

Falei muito da história – e ainda nada do filme.

Não é sempre que o cinema brasileiro produz uma obra de primeira qualidade como esta. Tudo é bom. A direção, competente, é de Breno Silveira. O história corre fácil e gostosa, sem que a gente sinta o tempo passar. Cenas emocionantes, em que quase todo o cinema chora, são misturadas com cenas engraçadas. O roteiro é de Patrícia Andrade e Carolina Kotscho, que o construíram em cima de entrevistas, relatos e um sem número de “causos” – afinal de contas, exceto por Emival, os personagens estão todos aí, vivos e, felizmente, bem de saúde. Quanto à trilha sonora, a simples assinatura de Caetano é sinal de qualidade – e a de Zezé de Camargo não é de modo algum desprezível. A interpretação das canções que entram na trilha fica na medida certa.

Mas o mais importante é que a interpretação dos atores principais é impecável. Eis a lista completa deles:

Ângelo Antônio: seu Francisco

Dira Paes: dona Helena

Dablio Moreira: Mirosmar (inicialmente Camargo, depois Daby) [criança]

Marcos Henrique: Emival (inicialmente Camarguinho, depois Diebersson) [criança]

Wigor Lima: Welson (Luciano) [criança]

Márcio Kieling: Mirosmar (Zezé Di Camargo) [adulto]

Thiago Mendonça: Welson (Luciano) [adulto]

Paloma Duarte: Zilu [mulher de Mirosmar]

Lima Duarte: Benedito [pai de Helena]

Natália Lage: Cleide [primeira mulher de Welson]

Jackson Antunes: Zé do Fole [sanfoneiro]

José Dumont: Miranda [empresário]

Enfim. Há quem se surpreenda de eu estar recomendando o filme. Acho que esse resumo responde a essa surpresa. Esse não é um filme que agrada apenas os amantes de música sertaneja: agrada qualquer um que gosta de ver na tela uma boa história competentemente contada.

Em Campinas, 5 de setembro de 2005

"Adeus, Lênin"

Assisti há dois dias – no mesmo dia em que assisti a “2 Filhos de Francisco” – ao filme alemão de 2003 “Good-bye Lenin” (“Adeus Lênin”, em Português).

Achei o filme simplesmente fantástico.

Fiquei tão bem impressionado pelo filme que fui procurar informações sobre ele na Internet. Tive várias surpresas. A maior delas é que o filme é geralmente classificado como comédia… A mim me pareceu que o filme, embora tenha partes engraçadas, é drama — perto de tragédia. Mesmo as piores tragédias podem ter partes engraçadas.

Vou procurar explicar nesta mensagem porque acho o filme um drama próximo da tragédia.

Certamente não considero o filme uma tragédia porque ele descreve os estertores e o fim do comunismo na antiga Alemanha Oriental (ironicamente – e orwelliamente — denominada DDR ou RDA – Deutsche Demokratische Republik ou República Democrática Alemã). Isso foi uma tragédia só para os dirigentes comunistas que mandavam na não-democrática não-república (de verdadeiro no nome do país só o “Alemã”).

A tragédia é de outro tipo, mais sutil. Mas para explicá-la, tenho de resumir o filme – que é dirigido por Wolfgang Becker.

A história começa mostrando uma mãe de família (dois filhos, um rapaz e uma moça) vivendo o que parece ser um processo de abandono pelo marido – que estaria fugindo para a Alemanhã Ocidental (essa sim, república democrática) acompanhado de uma amante. Essa a história oficial que ela conta aos filhos e aos amigos. O filme mostrará, mais tarde, que a história não era bem assim. Nada no filme é “bem assim”…

A mulher, cujo nome no filme é Christiane Becker, e que é representada pela atriz Kathrin Sa, é professora, cidadã ativa e entusiasta do regime da DDR. Depois de perder o marido, o foco de sua vida passa a ser a defesa do regime comunista de seu país. Sem marido, ela se casa com o comunismo. Dedica-se de corpo e alma a essa causa, doutrinando crianças, formando corais patrióticos de crianças, combatendo a opressão capitalista, etc. Assim, torna-se um troféu para os políticos poderosos que dominavam a nação – convivendo, superficialmente, nos mais elevados círculos do poder.

Mas, durante os eventos tumultuosos que antecederam a queda do muro de Berlin, em 1989, a queda do regime comunista na DDR, e eventualmente a reunificação das duas Alemanhas, ela vê seu filho (Alexander, representado por Daniel Brühl) sendo preso e jogado dentro de um caminhão, ensangüentado, numa manifestação de rua em protesto contra o regime. Através de seus contatos políticos ela consegue libertar o filho. Mas seu choque e desgosto foram tão grandes que tem um enfarto e fica em coma, num hospital, durante oito meses, depois dos quais recobra a consciência mas continua inválida numa cama de hospital.

A família foi advertida pelos médicos de que deveria proteger a mãe de qualquer choque emocional – pois, em sua condição, uma alteração emocional maior poderia ser fatal.

Acontece que, durante os oito meses em que Christine Becker ficou em coma no hospital, a DDR virtualmente acabou – só a unificação com a Alemanha Ocidental ainda não aconteceu. O muro de Berlin caiu, o trânsito de alemães da parte ocidental pela Alemanhã Oriental, e vice-versa, passou a ser permitido, a Alemanha Oriental começou a passar por “um choque de democracia e capitalismo”, as instituições comunistas começaram a ruir, a estrutura paternalista (travestida de “aquisições sociais”, “les acquis sociaux” de que falam os franceses) deixou de funcionar, o desemprego aumentou, o caos imperava em muitos aspectos da vida, indústrias multinacionais começaram a entrar no país, muitos alemães orientais, com medo de um retrocesso, fugiram para o Leste enquanto era possível (abandonando casas e apartamentos mobiliados, roupas e outros pertences pessoais), e outros, ainda mais fiéis ao comunismo, por convicção ou interesse, simplesmente estavam perdidos: não sabiam o que fazer – porque o mesmo estava acontecendo nos outros países da Cortina de Ferro e a União Soviética não fazia nada, em parte porque ela mesma atravessava igual processo.

O raciocício do filho Alexander (que nisso não é entusiasticamente acompanhado por sua irmã, Ariane, representada por Maria Simon) o levou a concluir que a única forma de preservar a saúde da mãe era impedindo-a de saber o que estava acontecendo.

O enredo todo do filme, a partir desse ponto, gira em torno dos esforços de Alexandre para criar um “mundo de faz-de-conta” para a mãe, que a poupasse de um choque emocional. É esse esforço que produz algumas cenas muito divertidas, que leva alguns a classificar o filme como comédia. Mas, convenhamos, são cenas engraçadas diante de uma situação trágica.

No aniversário da mãe, Alexander monta uma festinha no quarto do hospital, trazendo antigos líderes políticos, amigos da mãe, agora fora do poder, devidamente “persuadidos” a participar… Traz um pequeno sub-conjunto de um dos ex-corais dirigidos pela mãe – as crianças devidamente uniformizadas, como antigamente.

Cristiane Becker, a mãe, tem vontade de comer os produtos com que estava acostumada (e que agora, sem que ela saiba, não existem mais…) Alexandre e sua namorada (uma loirinha russa linda, que era enfermeira do hospital, chamada Lara [o que mais?], representada por Chulpan Khamatova) começam a vasculhar apartamentos abandonados por seus donos para ver se encontravam os produtos desejados pela mãe (e os encontram).

Mas o pior de tudo é que Christiane Becker, a mãe, resolve que quer assistir à televisão no quarto – em especial ao noticiário das 19h30, a que sempre assistia, como se fosse um dever religioso. O que fazer??? Com a ajuda de um amigo que tinha interesse em se tornar produtor de programas de TV e de uma câmara amadora de mão, Alexander monta, diariamente, um noticiário falso, de 30 minutos, contendo imagens retiradas do noticiário verdadeiro, mas tendo, como âncora, o amigo – ambos sendo responsáveis pela redação do roteiro, que interpreta as imagens. Assim se produz um noticiário falso, que é gravado em fita cassete e exibido na TV através de um aparelho de video-cassete colocado fora da porta do quarto.

O presidente da DDR, explica o noticiário, resolveu abrir as fronteiras para que os alemães do Leste pudessem ver in loco o que é o comunismo. Imagens do muro de Berlin arrebentado são mostradas à mãe no noticiário – junto de imagens de multidões se atropelando para atravessar para o outro lado. O âncora explica que se trata de alemães ocidentais, desiludidos com a opressão capitalista, tentando passar para a Alemanha Oriental para usufruir das benesses do comunismo…

E assim vai.  Há inúmeras variações sobre o mesmo tema.

A mãe vê, pela janela, cuja cortina o vento temporariamente afasta, um enorme banner da Coca-Cola. Quer saber o que está acontecendo… Para não deixar o fato inexplicado, Alexander inicialmente diz que aquilo é um reflexo de um edifício do Leste. Mais tarde, porém, o noticiário explica que a empresa de refrigerantes da Alemanha Oriental está em negociações com a Coca-Cola para resolver uma disputa judicial, porque se descobriu que a Coca-Cola copiou a fórmula da companhia comunista… Isso é demais até para a mãe, que diz algo assim: “Mas a Coca-Cola não fabrica Coca-Cola há mais de cem anos? Como pode ter copiado nossa fórmula?”

O problema maior é que nem tudo pode ser controlado. A mãe melhora um pouco. Ao ver a netinha (filha da filha com um de seus inúmeros namorados) andar pela primeira vez, resolve tentar andar de novo – e consegue. (Alguns vêem nesta cena uma metáfora dos primeiros passos do novo país ao lado dos últimos passos, claudicantes, de um país enfermo e condenado à morte…). Enquanto o filho dorme na poltrona, ela sai – e não faz o menor sentido do que vê. Especialmente perplexa lhe deixa a visão de um helicóptero levando embora parte da estátua de Lênin, que parece estar apontando para ela — episódio que acaba dando nome ao filme. Christiane Becker acaba tendo um outro enfarte (que, depois de algum tempo, lhe traz, enfim, a morte há tanto temida, mas antecipada).

Enfim. A história, me parece, longe de ser comédia, é um drama – na verdade, uma tragédia. Na tela é uma tragédia concreta, embora fictícia, que, na forma de parábola, denuncia uma tragédia ainda mais trágica: a dos intelectuais comunistas, socialistas e esquerdizantes (os MSCV — marxistas, socialistas e companheiros de viagem — de que falei em outra mensagem) que criaram para si um mundo fictício que lhes permite não ver a realidade “externa” e, assim, continuar a crer nas ilusões mercadejadas pelos vários tipos de socialismo. Esse mundo fictício tem os seus noticiários próprios, os seus jornais, as suas revistas, a sua literatura de ficção, a sua poesia, a sua música. É um mundo mais fechado do que o de Christiane Becker. Esta desconfia de que pelo menos algumas das coisas noticiadas pelo noticiário de seu mundo não são verdade. O mundo dos intelectuais MSCV não admite dúvidas.

Nesse mundo fictício, Fidel Castro é um grande estadista, amado por seu povo, que está há 46 anos no poder não porque seja um ditador violento e sanguinário, mas porque o povo o ama, entre outras coisas porque conseguiu dar saúde e educação a todos (e porque em Cuba até as putas são sadias e têm diploma de curso superior). A situação de Cuba só não é ainda melhor por causa do “bloqueio” americano que a impede de negociar com os países capitalistas.

Nesse mundo fictício, Hugo Chavez também é um estadista, que está promovendo, por fins pacíficos, a integração do continente sul-americano, quem sabe sendo capaz de trazer a América Central e parte do Caribe para essa enorme frente latinoamericana que vai mostrar sua força “a los hermanos del Norte” – pobres desgraçados que não percebem que vivem debaixo de uma tirania e, em grande parte, na miséria. A parte relativa à miséria vai ser aliviada em breve, porém, pois Chavez pretende vender petróleo a preço de custo aos mais de 30 milhões de pobres americanos (que, coitados, vivem em famílias que, na média, possuem quatro membros com renda de pouco mais de 1.600 dólares por mês).

Os Estados Unidos, nesse mundo fictício, são um país sem liberdade que possui um governo corrupto que foi eleito numa eleição fraudada. É verdade que os que vivem nesse mundo têm um pouco de dificuldade para explicar porque pessoas do mundo inteiro querem ir trabalhar e viver nos Estados Unidos, acreditando que o país é uma terra de liberdade e oportunidade. Para eles, só a ignorância e a mídia mentirosa pode explicar isso.

Para os habitantes desse mundo fictício que vivem aqui no nosso Brasil a crise política que vivemos foi criada pela mídia, sempre subserviente da elite dominante. Na pior das hipóteses, pode ter havido algum descuido de dois ou três dirigentes petistas que podem ter cometido algum erro – ainda não totalmente comprovado. Mas o governo (pete-socialista) não sabia. O presidente Lulla, então, estava muito ocupado promovendo uma política exterior terceiro-mundista para se ocupar de detalhes como quem estava pagando os empréstimos que fez para levar Mme. Lulla à China. Os outros partidos fizeram muito, muito pior quando estiveram no poder. O PT sobreviverá à crise e continuará sendo o paladino da moral contra os corruptos. Estão mal-intencionados aqueles que afirmam que a ética petista nada mais do que a ética revolucionária marxista de que qualquer meio é legítimo se fortalece o partido do “proletariado”, isto é, dos trabalhadores…

Tenho lido por aí que marxistas de persuasão mais ortodoxa, entre os quais alguns colegas de departamento meus na UNICAMP, não conseguiram assistir ao filme até o fim. Literalmente passaram mal.

ET: O marido de Christiane Becker não fugiu para a Alemanha Ocidental com uma amante. Conforme ela própria admite aos filhos, ele e ela haviam feito um plano de que iriam participar de um congresso de um congresso na Alemanha Ocidental e ficariam por lá – tentando, depois, levar os filhos. Por estratégia, ele foi primeiro. Ela, porém, não conseguiu reunir coragem ou convicção suficiente para fugir. Até aí, nesse detalhe, o filme deixa claro que lado estava a mentira.

Em Campinas, 2 de setembro de 2005