Obedientes ou rebeldes?

Nós os queremos obedientes ou rebeldes?

Deleito-me quando minha filha Patrícia me conta as estripulias de meu neto Marcelo. Segundo ela (parecendo desanimada), ele anda respondão, desobediente, mal-comportado, só faz o que quer… E apenas acabou de fazer cinco anos.

Pode isso?

Mas ela mesma, enquanto conta as histórias, no fundo sente orgulhosa da rebeldia – vale dizer, da autonomia precoce – da cria. Prefere-o assim a um menino obediente, bem comportado, que só faz o que a mãe deixa, que não revida quando agredido na escola…

É isso? É isso, sim.

Excelente a parte que transcrevo abaixo do artigo de Contardo Calligaris na Folha de hoje. É o dilema da modernidade na criação dos filhos.

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Folha de S. Paulo
6 de Maio de 2010

Você prefere os obedientes ou os rebeldes?

Contardo Calligaris

Todos queremos que filhos ou alunos respeitem nossa autoridade. Agora, todos também consideramos que nossa tarefa de pais ou educadores só será cumprida quando filhos e alunos pensarem por conta própria, ou seja, quando eles sejam capazes de desconsiderar nossos conselhos e desobedecer a nossas ordens.

Seria cômodo se, como nas sociedades tradicionais, a gente dispusesse de ritos de passagem sancionando a entrada na idade adulta: aos 15 anos e um dia, saia sozinho pela savana, armado de uma lança, e só volte tendo matado seu primeiro leão. A partir de então, você será autônomo.

Infelizmente, para nós, o tempo de se tornar adulto se estende sem limites definidos: não sabemos quando ele acaba e, mais problemático ainda, não sabemos quando começa. Consequência: pais e educadores podem sofrer, exasperados pela rebeldia de moleques e meninas incontroláveis e, ao mesmo tempo, deliciar-se ao relatar as travessuras de filhos e alunos. Qualquer terapeuta já atendeu pais "desesperados" com a insubordinação dos filhos, mas que, de repente, abrem um sorriso extasiado na hora de contar "o horror" que é sua vida com esses descendentes que os desrespeitam.

Eis o problema que torna educar quase impossível, em nossa cultura: a autonomia, para nós, é um valor tão importante que ela precisa ser confirmada pela desobediência. Com isso, qualquer pai prefere, no fundo, lidar com um filho revoltado a imaginar que o filho possa ter uma vida servil e, portanto, medíocre.

Os santos mais respeitados são os que foram grandes pecadores e descrentes (Agostinho, Francisco, o próprio Paulo etc.). No imaginário cristão, aliás, uma conversão tem mais valor do que a fé de quem sempre acreditou. A parábola do pastor que deixa o rebanho para procurar a ovelha perdida sugere que, assim como a gente, talvez Deus prefira os rebeldes.

Uma anedota. Em maio de 1969, no átrio da Universidade de Genebra, junto com amigos anarquistas, eu distribuía panfletos criticando a iminente visita do papa à cidade.

Um professor, passando por nós, perguntou-me: "Será que o senhor tem uma autorização para distribuir esses panfletos?". Respondi imediatamente: "Senhor, tenho muito mais do que uma autorização, tenho uma proibição formal".

Fato coerente com o que acabo de argumentar, ele achou engraçada minha impertinência e deixou que continuássemos.

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Em Redmond, 6 de Maio de 2010

Brasil: A Primeira Potência de Semiletrados (Gustavo Iochpe na VEJA)

Artigo muito interessante de Gustavo Iochpe na VEJA.

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VEJA
14/4/2010

Brasil: A Primeira Potência de Semiletrados?

Gustavo Iochpe

"Apesar do oba-oba, o Brasil está próximo de ser um colosso econômico e esquecer a formação de sua gente"

"Quando voltei ao Brasil, depois de anos no exterior, queria montar meu escritório rapidamente. Contratei, então, um desses serviços de secretariado virtual para me ajudar enquanto iniciava o processo de busca por uma equipe permanente. Notei que a secretária virtual não era um gênio, mas achei que quebraria o galho. Certo dia, mandei um e-mail a ela pedindo que me conseguisse a informação de contato do cônsul brasileiro em Houston (EUA). Informação encontrável na internet em poucos minutos. Passaram-se cinco minutos, cinco horas, e nada.

Três dias depois, recebi um e-mail da fulana: "Sr. Gustavo, procurei na Cônsul e até na Brastemp, mas ninguém conhece esse tal de Houston". Pensei que fosse piada. Reli. Não era. Para quem havia ficado alguns anos construindo teses acadêmicas sobre a importância da educação para o desenvolvimento das nações, através do seu impacto na produtividade de uma população, estava ali o exemplo pronto e acabado de como é difícil produzir algo quando a ignorância campeia à volta. É assim para uma pessoa, uma empresa e um país.

Os economistas Gustav Ranis, Frances Stewart e Alejandro Ramirez ilustraram essa relação de forma clara. Analisaram 76 países durante um período de 32 anos. Dividiram-nos de acordo com dois critérios: crescimento econômico e desenvolvimento humano (nesse caso, medido através de uma combinação de indicadores de educação e saúde). Usando essas duas dimensões, você pode ter duas situações de equilíbrio (quando o lado humano e o econômico são igualmente altos ou baixos) e duas de desequilíbrio (quando o humano é alto e o econômico baixo, e vice-versa).

Surgem algumas conclusões interessantes desse estudo.

A primeira é que as situações de desequilíbrio duram pouco. Se um país tem muito crescimento econômico e pouco capital humano (CH), ele tende a parar de crescer (caso, sim, do Brasil nas décadas de 60 e 70) ou a aumentar seu lado humano.

A segunda: é muito difícil sair de uma situação de equilíbrio negativo: mais da metade dos países que tinham baixo crescimento e baixo CH em 1960 permanecia empacada na mesma posição na década de 90.

A terceira é que o crescimento econômico, quando desacompanhado de evolução do lado humano, dura pouco: de todos os países que tinham alto crescimento econômico e baixo CH no início do período, nenhum conseguiu chegar ao equilíbrio em alto nível. Todos, sem exceção, terminaram o período com baixo crescimento e baixo CH.

A quarta, e mais importante, é que a estratégia de privilegiar o lado humano dá frutos muito melhores do que aquela que enfatiza só o lado econômico: dos países que começaram o período com alto CH e baixo crescimento econômico, um terço chegou ao nirvana da alta renda e alto nível humano; um terço continuou com um lado mais desenvolvido que o outro, e apenas um terço regrediu para o fim trágico do baixo crescimento e baixo CH.

O resumo da ópera é o seguinte: é muito difícil passar de uma situação de subdesenvolvimento e chegar ao chamado Primeiro Mundo. Mas, se o período 1960-92 servir de guia, das duas estratégias possíveis – privilegiar o crescimento econômico versus privilegiar o crescimento humano –, a primeira se mostrou um fracasso total, e só através da segunda é que um terço dos países chegou ao objetivo desejado.

Esse aprendizado é, hoje, especialmente importante para o Brasil. Apesar de todo o oba-oba com o país nas capas de revistas e jornais estrangeiros, o Brasil está, na verdade, perigosamente próximo de repetir a trajetória do fim da década de 60: ser um colosso em termos de crescimento econômico e esquecer a formação de sua gente. Essa estratégia tem destino certo: a falta de pessoas qualificadas faz com que o processo emperre e o crescimento acabe. Temo, inclusive, que seja tarde demais para evitar parte desse enredo: várias indústrias, especialmente as ligadas à engenharia, já têm seu crescimento cerceado pela impossibilidade de encontrar gente qualificada. O problema será muito pior nos próximos vinte anos, à medida que a demanda por pessoas qualificadas for aumentando e as escolas continuarem formando incompetentes.

Há três diferenças importantes entre o momento atual do Brasil e aquele da época do milagre econômico.

A primeira é que o atraso educacional brasileiro em relação aos países desenvolvidos aumentou consideravelmente. Há trinta anos, o ensino superior era um nível para poucos, mesmo nos países mais ricos. Levantamento feito em 2000 mostrou que a porcentagem de adultos com diploma universitário no Brasil era bastante parecida com a de outros países – 1 ou 2 pontos porcentuais abaixo de Chile e Argentina e 3 a 4 pontos abaixo de Itália e França, por exemplo. Quando se olha para a taxa de matrícula atual do ensino universitário, porém, nota-se que o Brasil tem uma diferença de 20 pontos porcentuais para nossos vizinhos latino-americanos e de 40 ou mais pontos para os países desenvolvidos. A maioria dos brasileiros não se dá conta de quão ruim é a educação nacional. Uma pesquisa de 2009 sobre alfabetização, feita pelo Instituto Paulo Montenegro, mostrou que apenas 25% da população adulta brasileira é plenamente alfabetizada. Deixe-me repetir: só um quarto dos brasileiros conseguiria ler e entender um texto como este. Nenhum país jamais se tornou potência com uma população de semianalfabetos. É improvável que o Brasil seja o primeiro, mesmo com todos os recursos naturais de que dispomos.

Segunda diferença: nos anos 60/70, pouquíssimo se falava sobre educação. Hoje, a questão está em pauta. O diacho é que a maior parte do discurso ainda é pré-científica (ou anticientífica) e continua insistindo em teses furadas e demagógicas: que o Brasil investe pouco e que o principal problema é o salário do professor.

A terceira e última é que naquela época éramos uma ditadura inserida no polo pró-americano em um contexto de Guerra Fria, e hoje somos uma democracia altiva em um mundo multipolar. Se então nossos males nos eram impostos por um regime autocrático, hoje temos liberdade e responsabilidade por nossos destinos. Os problemas e os erros são todos nossos, e as soluções também terão de ser."

FabioAccorsi

Foto de Fabio Accorsi que acompanhou o artigo na VEJA. Tinha a seguinte legenda:
"QUALIFICAÇÃO TECNOLÓGICA: Ela é crucial para que o Brasil possa mesmo ser uma real potência econômica"

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Em Campinas, 20 de Abril de 2010

Educação e Ideologia

Trecho do artigo do Rubem Alves na Folha de S. Paulo de 13/4/2010, sobre um assunto que alimenta discussões constantes aqui neste Space:

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Como educador, considero que a tarefa mais importante das escolas é ensinar a pensar, e a ideologia é a negação do pensamento.

O que é pensar? Pensar é um processo mental que acontece quando nos defrontamos com um problema que a vida nos propõe e que precisa se resolvido. Pensamos para resolver problemas. Sem o desafio dos problemas, o pensamento ficaria dormindo, inerte. O pensamento, assim, acontece quando um "não saber" nos desafia. Se alguém se julga possuidor da verdade, não pensa. Pensar, pra que?

O que é "ideologia"? Ideologia é o oposto do pensamento. Ideologia é um conjunto de crenças tidas como verdade. Julgando-se possuidora da verdade, a ideologia torna desnecessário o trabalho de pensar. Ao invés de pensar, a ideologia repete as fórmulas. A ideologia, assim, tem a mesma função que têm os catecismos nas religiões. Catecismos são livros que contêm afirmações tidas como verdadeiras e que, por isso mesmo, devem ser aprendidas de cor e repetidas.
Lembro-me de uma experiência que tive logo que me tornei professor da Unicamp, lá pelo início da década de 70, quando a ideologia da esquerda sabia que "só o materialismo histórico é Deus e Marx, o seu profeta". Eu, sem conhecer direito as regras do jogo acadêmico, pus-me a conversar com um colega sobre ecologia e a crise ambiental -temas provocados pelo Clube de Roma- que eram assuntos proibidos pelo catecismo dominante.

Ele ficou em silêncio, mediu-me de alto a baixo e fulminou-me com uma verdade definitiva: "Tudo isso se resolve com a luta de classes…" Não era necessário pensar, porque a ideologia já tinha a resposta.

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Exceto pelo uso do verbo “ensinar”, que me causa ojeriza, assino embaixo.

Em São Paulo, 13 de Abril de 2010

“Educação sem Doutrinação” e “Escolas sem Partido”

Quando fui contratado pela UNICAMP em Julho de 1974, tive de elaborar um Plano de Pesquisa que justificaria minha permanência na universidade em tempo integral e dedicação exclusiva. Meu plano de pesquisa foi sobre Educação e Doutrinação.

Não consigo encontrar, no momento (posto que estou separado de meus arquivos e de meus livros), o texto daquele plano. Mas encontrei um artigo, que originalmente escrevi em 1976 (“A Filosofia da Educação e a Análise de Conceitos Educacionais”, publicado no livro Introdução Teórica e Prática às Ciências da Educação, organizado por Antonio Muniz de Rezende, Editora Vozes, Petrópolis, 1977), que que resumiu parte de minha pesquisa. O material apresentado a seguir consta de uma segunda versão, expandida desse artigo, versão que publiquei na Internet. Introduzo nessa segunda versão, agora, algumas pequenas alterações editoriais:

Quem doutrina, ao contrário de quem educa, está interessado em que seus alunos simplesmente venham a aceitar (acreditar em) os pontos de vista que ele adota e esposa. Ele é, acima de tudo, um partidário, um mercador de pontos de vista.

Quem educa, ao contrário de quem doutrina, está interessado em que seus alunos venham a examinar os fundamentos dos diferentes pontos de vista sobre um determinado assunto, e, assim, venham, em conseqüência desse exame, a compreender o assuntosó tomando a decisão de aceitar ou rejeitar os diferentes pontos de vista (acreditar ou não acreditar neles) em decorrência do exercício livre de seu julgamento das credenciais dos fundamentos epistêmicos (em termos de evidências e argumentos) desses pontos de vista.

Procurei a seguir esclarecer um dilema que aflige muitos pais e educadores bem intencionados.

A possibilidade da doutrinação faz com que aqueles que se preocupam com a educação, de seus filhos ou de seus alunos, se confrontem com um sério dilema. Este dilema, embora possa surgir em qualquer área, aparece mais freqüentemente naquelas áreas em que a evidência parece ser mais inconcludente mas em que, por ironia do destino, se encontram algumas das questões mais básicas e importantes com que tem de se defrontar o ser humano: a moralidade, a política, e a religião.

Por um lado, nós, como pais e educadores, em geral acreditamos (por exemplo) ser necessário apresentar a nossos filhos e alunos o ponto de vista moral, o lado moral das coisas, para que venham a ser seres morais.

Por outro lado, acreditamos (se somos bem intencionados) que temos de evitar a doutrinação, se queremos realmente educar nossos filhos e alunos, isto é, se queremos que eles se tornem indivíduos livres para pensar, escolher e agir, liberdade esta que é pré-condição para que eles venham a ser seres morais.

É diante desse dilema que temos de procurar as melhores maneiras de prosseguir, sabendo, de antemão, que a tarefa é difícil e que muitos, antes deles, optaram, OU por não oferecer nenhum ensino nessas áreas, OU, então, pela doutrinação pura e simples como única outra alternativa viável.

É em confronto com esse dilema que muitos têm optado pela alternativa da chamada “educação negativa”, que não é nem educação nem negativa, devendo, talvez, ser descrita como “não educação neutra”, por pardoxal que essa expressão possa parecer. Eles afirmam que o ensino da moralidade, da política, e da religião não deve ser ministrado até que a criança atinja maturidade suficiente para analisar a evidência e tirar suas próprias conclusões.

Outros têm se desesperado e concluído que a única outra alternativa, apesar dos pesares, é doutrinar – estes são os doutrinadores contra sua própria vontade. [Estes são os pais e educadores bem intencionados, que prefeririam não doutrinar mas concluem que, em algumas áreas, em especial na área da moralidade, da política e da religião, é impossível não doutrinar. Eles diferem dos pais e educadores mal intencionados que não respeitam a liberdade dos filhos e alunos desejam doutriná-los, para que venham a pensar como eles, pais e professores, pensam.]

Tanto os defensores da “educação negativa” como os que, contra a vontade, optam pela doutrinação, não vêem uma terceira alternativa, não vêem uma solução realmente educacional para o problema. Embora não seja fácil promover essa alternativa,,desenvolvimentos recentes no campo da educação moral, da educação política e da educação religiosa, têm nos indicado o caminho a seguir na direção de uma educação moral, política e religiosa viável e digna do nome. Mas ainda há muito por fazer nessa área.

Concluindo aquele artigo de 1976, procurei resumir por que a doutrinação é indesejável.

Fica claro, do que foi dito, porque a doutrinação é indesejável e moralmente censurável.

Quem doutrina não respeita a liberdade de pensamento e de escolha de seus filhos e alunos, procurando incutir crenças em suas mentes e não lhes dando condições de analisar e examinar a evidência, decidindo, então, por si próprios.

Quem doutrina desrespeita os cânones de racionalidade e objetividade, tratando questões abertas como se fossem fechadas, questões incertas como se fossem certas, enunciados falsos ou não demonstrados como verdadeiros como se fossem verdades acima de qualquer suspeita.

É verdade que essa tomada de posição contra à doutrinação já implica, ao mesmo tempo, um comprometimento com certos valores e ideais básicos, como o da liberdade de pensamento e de escolha dos alunos (e de qualquer pessoa), o da racionalidade, etc. É importante que se reconheça isso para que não se incorra no erro de pensar que a adoção desses valores e ideais não precisa ser defensável, e, mais que isto, defendida, através da argumentação. Argumentos contra a adoção desses valores e ideais precisam ser cuidadosamente analisados para que, ao propor a tese da indesejabilidade e falta de apoio moral da doutrinação, não o façamos de modo a imitar os doutrinadores, isto é, tratando como fechada uma questão que é realmente aberta. Cremos não ser esta a ocasião de fazer esta defesa dos valores e ideais da liberdade de pensamento e escolha, nem da racionalidade. Mas isto não significa que estes valores e ideais não precisem ser defendidos.

Com estas observações concluímos esta seção sobre doutrinação. Cremos que a análise desse conceito, além de valiosa em si mesma, nos ajuda a compreender melhor, por contraste, o que seja a educação. Uma análise mais completa deveria incluir um exame das semelhanças e diferenças existentes entre doutrinação, treinamento, condicionamento, lavagem cerebral, etc. Há importantes diferenças, bem como semelhanças, entre esses conceitos. Isto, porém, precisará ficar para um outro trabalho.

Em 1974, em que acabava de retornar ao Brasil depois de sete anos nos Estados Unidos, preocupava-me principalmente a doutrinação religiosa, da qual eu havia sido, em parte, vítima. Mas me preocupava, também, naquela época, a infeliz iniciativa dos militares de tornar obrigatória em nossas escolas a “Educação Moral e Cívica” – destinada a incutir “bom mocismo”, patriotismo e, naturalmente, lealdade ao governo dos alunos. (Comecei a me preocupar com isso quando, no final da década de sessenta, quando eu morava nos Estados Unidos, minhas irmãs, nascidas em 1957 e 1959, começaram a me enviar cartas em que as palavras vinham escritas, alternadamente, nas cores verde, amarela e azul — em um papel branco).

Não tinha, naquela ocasião, idéia do que estava por vir com o fim do regime militar e a implantação, a partir de 1984, de uma república que se pretendia nova. A odiosidade do regime militar permitiu que esquerdistas (especialmente comunistas e socialistas) tivessem condições de difundir o ponto de vista de que fora a esquerda que havia derrubado o regime militar e reimplantado o estado de direito e a democracia no país.

Esse ponto de vista, além de mentiroso, por ignorar o papel dos liberais na luta pela liberdade (afinal de contas, Ulysses Guimarães, Tancredo Neves, Franco Montoro, etc. não eram esquerdistas), é especialmente odiosa porque os comunistas e a boa parte dos socialistas não queriam a reimplantação do estado de direito e da democracia no país. Queriam, isto sim, substituir a ditadura militar por uma ditadura de esquerda, supostamente do proletariado ou dos trabalhadores, liderados por uma vanguarda intelectual, política, e sempre ativista, composta de esquerdistas de carteirinha.

Esse ponto de vista gerou também um trabalho de “formiguinha” dessa vanguarda de esquerda que, antes de assumir controle da máquina política (agora em grande parte controlada), aparelhou a máquina acadêmica, em especial os mecanismos de formação de professores, doutrinando os futuros professores na cartilha (“vulgata”) marxista.

O resultado está aí, vinte e poucos anos depois: um sistema educacional que, até mesmo na rede privada, vomita o tempo todo em cima dos alunos um lixo esquerdizante horrível, com o objetivo de doutrinar esses alunos, tornando-os sensíveis às campanhas políticas e às manobras eleitoreiras da esquerda.

O sucesso desse empreendimento pode ser julgado em muitas frentes.

Uma frente é, naturalmente, a política.

Depois de dezesseis anos de governo de viés esquerdizante no governo federal, temos, agora, em 2010, uma campanha presidencial em que todos os principais candidatos são nitidamente de viés esquerdista: um ex-presidente da União Nacional dos Estudantes, uma ex-terrorista, uma militante ambiental, e um ex-governador metido a radical de esquerda, que foi ministro do governo Lulla durante as duas gestões.

Não nos deixemos enganar pelas manobras da esquerda. O PT tenta descaracterizar o PSDB como esquerda, procurando colar nele o rótulo de neo-liberal (apesar de o partido se rotular de “Partido da SOCIAL-Democracia Brasileira” e se comportar, consistentemente, como social-democrata. Lulla tenta descaracterizar FHC como esquerda. No entanto, todos comemoraram, juntos, em 1994, a “eleição [de FHC] como o primeiro presidente de esquerda do Brasil”. O PT e os partidos mais à esquerda comemoraram, de novo, em 2002, oito anos depois, a “eleição [agora de Lulla] como o primeiro presidente de esquerda do Brasil”. Os partidos mais à esquerda de Lulla, e mesmo parte do PT, não hesitam agora em rotular Lulla como neo-liberal. Para eles, Serra é de direita…

A outra frente, mais importante no longo prazo, porque viabiliza a frente política, é a educacional. Seguindo a orientação de Gramsci, a esquerda assumiu controle de todos os espaços formadores de opinião, dos quais a educação (seguida da mídia e das editoras) é o principal.

O resultado, nessa frente, é descrito e denunciado muito bem no excelente site: “Escolas sem Partido” – que tem o lema “Educação sem Doutrinação”.

Leiam, em especial:

“Envenando a mente das crianças”

http://www.escolasempartido.org/index.php?id=38,1,article,2,283,sid,1,ch

“O que ensinam às nossas crianças”

http://www.escolasempartido.org/?id=38,1,article,2,182,sid,1,ch

Eis, a seguir, duas páginas desse site.

A primeira, “Deveres do Professor”, descreve deveres do professor que não quer doutrinar. Ela descreve o oposto daquilo que se vê na sala de aula dos professores politicamente engajados na esquerda e que militam, simultaneamente, em partidos políticos de esquerda.

A segunda é uma apresentação do site.

Recomendo que visitem o site e leiam o que ali está descrito e denunciado.

O Coordenador do site está sendo processado, com grande alarde, pelo COC (Curso Oswaldo Cruz), com sede em Ribeirão Preto, por ter denunciado o fato de que um livro de História daquela rede de ensino está cheio de lixo esquerdista.

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http://www.escolasempartido.org/index.php?id=38,1,article,2,154,sid,1,ch

DEVERES DO PROFESSOR

1. O professor não abusará da inexperiência, da falta de conhecimento ou da imaturidade dos alunos, com o objetivo de cooptá-los para esta ou aquela corrente político-ideológica, nem adotará livros didáticos que tenham esse objetivo.

2. O professor não favorecerá nem prejudicará os alunos em razão de suas convicções políticas, ideológicas, religiosas, ou da falta delas.

3. O professor não fará propaganda político-partidária em sala de aula nem incitará seus alunos a participar de manifestações, atos públicos e passeatas.

4. Ao tratar de questões políticas, sócio-culturais e econômicas, o professor apresentará aos alunos, de forma justa – isto é, com a mesma profundidade e seriedade –, as principais versões, teorias, opiniões e perspectivas concorrentes a respeito.

5. O professor não criará em sala de aula uma atmosfera de intimidação, ostensiva ou sutil, capaz de desencorajar a manifestação de pontos de vista discordantes dos seus, nem permitirá que tal atmosfera
seja criada pela ação de alunos sectários ou de outros professores.

http://www.escolasempartido.org/?id=38,1,topico,2,20,new_topic

EscolasemPartido.org é uma iniciativa conjunta de estudantes e pais preocupados com o grau de contaminação político-ideológica das escolas brasileiras, em todos os níveis: do ensino básico ao superior.

A pretexto de transmitir aos alunos uma “visão crítica” da realidade, um exército organizado de militantes travestidos de professores prevalece-se da liberdade de cátedra e da cortina de segredo das salas de aula para impingir-lhes a sua própria visão de mundo, normalmente identificada com a de alguma corrente política e ideológica.

Como membros da comunidade escolar – pais, alunos, educadores, contribuintes e consumidores de serviços educacionais –, não podemos aceitar esta situação. Entretanto, nossas tentativas de combatê-la por meios convencionais sempre esbarraram na dificuldade de provar os fatos e na incontornável recusa de nossos educadores em admitir a existência do problema.

Ocorreu-nos, então, a idéia de divulgar testemunhos de alunos, vítimas desses falsos educadores. Abrir as cortinas e deixar a luz do sol entrar. Afinal, como disse certa vez um conhecido juiz da Suprema Corte dos Estados Unidos, “a little sunlight is the best disinfectant”.

Quando começávamos a pôr mãos à obra, tomamos conhecimento de que um grupo de pais e estudantes, nos EUA, movido por idêntica preocupação, já havia percorrido nosso caminho e atingido nossa meta: NoIndoctrination.org.

Inspirados nessa bem sucedida experiência, decidimos criar o EscolasemPartido.org, uma associação informal, independente, sem fins lucrativos e sem qualquer espécie de vinculação política, ideológica ou partidária.

Miguel Nagib – coordenador

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Em Salto, 10 de Abril de 2010

NOTA de 11/5/2018

Este artigo é parte de uma série de cinco artigos que começou há quase dez anos neste blog Liberal Space e que defende o Liberalismo Clássico e uma Educação Liberal, que leve o Liberalismo Clássico a sério, combatendo uma educação que não merece o nome, pois é mais doutrinação do que educação, que foi moldada para combater o Liberalismo Clássico e para promover uma educação de viés socialista, quando não comunistizante.

São estes os cinco artigos:

O mais antigo dos artigos, “Dogmatismo e Doutrinação“, foi publicado em 3/4/2009, há quase dez anos, no endereço https://liberal.space/2009/04/03/dogmatismo-e-doutrinacao/.

Em seguida, “‘Educação Sem Doutrinação’ e ‘Escolas Sem Partido’“, que foi publicado em 10/4/2010, no endereço https://liberal.space/2010/04/10/educacao-sem-doutrinacao-e-escolas-sem-partido/.

O terceiro artigo, “Doutrinação e Educação: A Esquerda Pretende Argumentar que Doutrinar não Passa de um Jeito ‘Crítico’ de Educar“, que foi publicado em 28/5/2016, no endereço https://liberal.space/2016/05/28/doutrinacao-e-educacao-a-esquerda-pretende-argumentar-que-doutrinar-nao-passa-de-um-jeito-critico-de-educar/.

O quarto artigo, “A Controvérsia Acerca do ‘Escola Sem Partido’ Continua: PL 867/2015“, publicado em 14/5/2018, no endereço https://liberal.space/2018/05/14/a-controversia-acerca-do-escola-sem-partido-continua/.

Por fim, o quinto artigo, “A Escola e a Liberdade”, publicado em 10/11/2018, no endereço https://liberal.space/2018/11/10/a-escola-e-a-liberdade/.

Eduardo CHAVES

“O ranço ideológico na educação”

Magnífico editorial do Estadão em sua edição de hoje (7/4/2010). Dispensa comentários.

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http://www.estadao.com.br/estadaodehoje/20100407/not_imp534839,0.php

O Estado de S.Paulo
07 de abril de 2010 | 0h 00

Editorial

O ranço ideológico na educação

A exemplo do que ocorreu com as Conferências Nacionais de Comunicação e Direitos Humanos, as propostas aprovadas pela 1.ª Conferência Nacional de Educação, que foi encerrada na última quinta-feira com a participação do presidente Lula, têm como denominador comum a expansão do dirigismo estatal e a supressão da liberdade de iniciativa no setor. Atualmente, as universidades particulares respondem por 75% das matrículas do ensino superior no País e muitas delas, além de abrir capital, têm recebido vultosas somas de fundos de investimentos para financiar sua expansão.

A justificativa dos participantes da 1.ª Conferência Nacional de Educação é que o ensino superior seria um "bem público", motivo pelo qual a oferta de vagas por universidades privadas e confessionais teria de ser feita por meio do regime de concessão, como ocorre nas áreas de energia, petróleo e telecomunicações. Para os 3 mil sindicalistas e representantes de movimentos sociais e ONGs que aprovaram essa proposta absurda, se cabe ao governo federal "articular" o sistema educacional, a União deveria "normatizar, controlar e fiscalizar" as instituições de ensino superior do País, por meio de uma agência reguladora, além de estabelecer parâmetros para currículos, projetos pedagógicos e programas de pesquisa para todas elas.

Essa tese colide frontalmente com a Constituição de 88, que é clara e objetiva em matéria de ensino. Ela prevê a livre iniciativa no setor educacional, concede autonomia didática, científica, administrativa e patrimonial às universidades e assegura aos Estados e municípios ampla liberdade para organizar suas respectivas redes escolares.

Como ocorreu nas Conferências Nacionais de Comunicação e Direitos Humanos, as entidades representadas na 1.ª Conferência Nacional de Educação ? das quais pelo menos 40 atuam em áreas estranhas aos meios acadêmicos ? em momento algum esconderam sua aversão ao livre jogo de mercado. Segundo elas, por visar ao lucro, as universidades particulares, ao contrário das universidades públicas, não se preocupariam com a qualidade dos serviços que prestam.

A afirmação é falaciosa, uma vez que há instituições privadas muito bem classificadas no ranking do Sistema Nacional de Avaliação da Educação Superior (Sinaes), assim como existem instituições federais que certamente não seriam autorizadas a funcionar, caso o Ministério da Educação fosse mais rigoroso na aplicação das regras por ele mesmo estabelecidas. É esse o caso das Universidades Federais do Vale do Jequitinhonha, que foi inaugurada por Lula sem ter corpo docente, e do ABC, que funciona em meio a um canteiro de obras atrasadas e abriu seu primeiro processo seletivo sem dispor sequer de laboratórios e de bibliotecas.

Além de investir contra a iniciativa privada, as propostas aprovadas na 1.ª Conferência Nacional de Educação esvaziam as competências das Secretarias Municipais e Estaduais de Educação, atribuindo-lhes o papel de meros fóruns consultivos. E, em nome da "democratização" do ensino, defendem a inclusão de integrantes da "sociedade civil organizada" nos órgãos educacionais. Com isso, os Conselhos Nacional e Estaduais de Educação deixariam de existir e sindicalistas vinculados à Central Única dos Trabalhadores, militantes de agremiações partidárias e representantes de ONGs sustentadas por dinheiro governamental poderiam interferir na formulação, implementação e execução da política do setor, colocando os interesses corporativos, políticos e ideológicos à frente do interesse público.

Tão ou mais espantoso do que o ranço ideológico das propostas da 1.ª Conferência Nacional de Educação foi a reação das autoridades educacionais. Elas se comprometeram a incluí-las no Plano Nacional da Educação ? o projeto do MEC que define as principais políticas educacionais dos próximos dez anos e que em breve será enviado ao Congresso. Nos países desenvolvidos, o poder público estimula o aumento dos investimentos privados no ensino superior. O MEC, que na gestão do presidente Lula não conseguiu diminuir as taxas de evasão e repetência, faz o contrário.

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Em São Paulo, 7 de Abril de 2010

A leitura

A leitura talvez seja, de todos os vícios humanos, o único que não faz mal: pelo contrário, contribui para o nosso desenvolvimento como humanos.

É bonito ver uma criança, em idade tenra, com um livro na mão, absorta, ainda que seja apenas pelas imagens.

É bonito ver livrarias e bibliotecas cheias de crianças, esparramadas em puffs ou deitadas de bruços no chão, lendo.

Talvez dentro de algum tempo as crianças venham a ter um e-book reader na mão. Mas elas estarão lendo – e o que vierem a ler ainda será um livro.

O livro é uma tecnologia que expande a nossa experiência, enriquece a nossa vivência. Através dele, vivenciamos, vicariamente, experiências de outrem – e aprendemos com elas.

A tecnologia digital alterou o nosso acesso ao livro e, até certo ponto, modificou a nossa forma de escrever e ler certos textos. O hipertexto está aqui para ficar e, com ele, surgiu a escrita e a leitura não lineares, que operam “em saltos”. O hipertexto fez do livro um texto com vários possíveis itinerários e finais. Mas não substituiu, nem vai substituir, o livro linear, com começo, meio e fim.

Há muitas formas de contar histórias. Umas lineares, seqüenciais. Outras, cheias de saltos que nos levam para lugares diferentes e flashbacks que nos jogam para tempos diferentes. O livro, bem como o cinema, que dele depende, é a tecnologia mais adaptada para a narrativa – a seqüencial ou a que envolve saltos para diferentes tempos e lugares.

Sem o livro, impresso ou digital, seríamos muito mais pobres, teríamos muito menos oportunidades de desenvolvimento.

Em São Paulo, 2 de Abril de 2010

Educação, Mudanças e Inovação: Proposta de Palestra

Nunca o mundo experimentou uma onda de mudanças tão ampla, profunda, radical, duradoura e acelerada como nos sessenta e cinco anos decorridos desde o fim da Segunda Guerra Mundial.

Essas mudanças – sociais, culturais, tecnológicas, econômicas – têm um grande impacto sobre a educação. Elas afetam:

a) O contexto mais amplo em que histórico e social em que a educação acontece

b) Os ambientes específicos em que a aprendizagem ocorre

c) Os materiais e recursos que as pessoas usam para aprender

d) O perfil dos alunos que chegam à escola

No entanto, os sistemas e as escolares não parecem estar levando muito a sério o impacto dessas mudanças sobre a educação, em geral, e a prática escolar, em particular.

Em última instância, há dois tipos de mudanças:

  • Mudanças incrementais, parciais, menores, lentas, superficiais, de longo prazo (graduais)
  • Mudanças sistêmicas, radicais, maiores, rápidas, profundas, de curto prazo (abruptas)

O que separa e diferencia um tipo de mudança do outro é o grau de inovação presente na mudança.

  • Mudanças pouco inovadoras, que ficam perto da prática atual, reforçam o paradigma vigente
  • Mudanças muito inovadoras, que se distanciam bastante da prática atual, tendem a subverter e eventualmente a destruir o paradigma vigente

Nicholas Negroponte, o conhecido ex-diretor do Media Lab do MIT, e a mente por detrás do programa de Um Laptop por Criança (aqui chamado de UCA), disse uma vez que os países cujos sistemas educacionais são bem considerados nas avaliações internacionais (Finlândia, Coréia, Cingapura, Taiwan, etc.) provavelmente serão os menos indicados para promover mudanças muito inovadoras na educação – porque têm receio de assumir os riscos envolvidos em processos de mudanças sistêmicas e radicais. Têm muito a perder. Segundo Negroponte, são países como o Brasil, que têm ficado nos últimos lugares das avaliações internacionais da educação, que devem aproveitar a oportunidade para “leapfrog”: saltar estágios, pulando para estágios mais avançados, através da alavanca da tecnologia, sem precisar passar pelos mesmos estágios que os países hoje desenvolvidos passaram.

Mas isso requer visão e coragem.

Para promover mudanças sistêmicas e radicais na escola é preciso deixar de tentar soluções parciais e buscar soluções globais, que transformem os seguintes aspectos:

  • A Visão da Educação e da Aprendizagem e a Estratégia Pedagógica (para que, embora informada pelo passado, seja focada no futuro)
  • A Liderança (para que seja iluminada e inspiradora em nível sistêmico e local)
  • Os Profissionais da Educação (para que sejam engajados e bem capacitados)
  • Os Ambientes de Aprendizagem (para que integrem, de forma natural e “sem costuras”, o formal e o não formal, o presencial e virtual, de forma rica, diversificada e flexível)
  • Os Recursos de Aprendizagem (para que sejam desafiadores, eficazes e eficientes)
  • A Comunidade (para que seja envolvida e apoiadora, em nível local, regional, nacional e até mesmo global)

Todas essas mudanças devem ocorrer mantendo o foco nos alunos, para que possam ser aprendentes motivados, ativos, interativos e colaborativos, com amplo acesso a todos os elementos do sistema.

Na palestra me concentro no primeiro desses aspectos – embora ciente que mudar apenas esse aspecto provavelmente não vá trazer resultados significativos.

A mudança da Visão da Educação e da Aprendizagem e da Estratégia Pedagógica deve abranger os seguintes aspectos:

  • Mudança do Conceito de Educação (incluindo a mudança do objetivo educacional para o desenvolvimento humano e dos resultados esperados da educação para competência, autonomia e responsabilidade)
  • Mudança do Conceito de Aprendizagem (foco em construção de capacidades mais do que em absorção de informações)
  • Mudança no Entendimento de Currículo (o que os alunos devem aprender?), Metodologia de Aprendizagem (como vão aprender?) e Forma de Avaliação (como aferir se de fato aprenderam?) para um Currículo Baseado em Competências, uma Metodologia de Aprendizagem Baseada em Projetos e uma Avaliação Baseada em Observação, Interação e Desafios.

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Interessado? Contate-me, por favor.

São Paulo, 22 de Março de 2010
Eduardo Chaves
echaves@edutec.net

Saber-Fazer

A Edição 964 revista Exame, com data de 24/3/2010, traz uma memorável matéria com Jorge Paulo Lemannm Marcel Telles e Carlos Alberto Sicupira – os gênios por detrás do Garantia, da GP Investimentos, das Lojas Americanas, da Ambev e da AbInBev. Desta gigante multinacional, que é agora é dona da Anheuser-Busch, eles são os três maiores acionistas individuais.

Cito uma passagem que me parece antológica de Sicupira, em resposta à pergunta: “Na formação de gente, o que é inato e o que se pode ensinar?”

“Ensinar vontade é muito difícil. É uma característica inata, da mesma forma que você pode nascer com olho verde ou azul. A Endeavor, por exemplo, não tenta transformar ninguém em empreendedor. A idéia é mostrar a um empreendedor que ele pode fazer um negócio muito maior do que estava pensando. A gente tem de alavancar a vontade que a pessoa tem. Disciplina dá para ensinar. O que uma pessoa tem de saber? Não tem de saber nada. As pessoas valem pelo que elas são capazes de fazer, e não por aquilo que elas conhecem. Algumas pessoas sabem de tudo, mas não conseguem transformar isso em nada”.

É isso. Está aqui o princípio básico que, se fosse realmente entendido, revolucionaria nosso sistema escolar. Uma educação centrada no desenvolvimento de competências, ancorada nos interesses, nos talentos, nos pontos fortes dos alunos.

Os saberes que a escola transmite de nada valem. As pessoas precisam ser capazes de fazer, precisam saber-fazer. O que a escola deveria fazer é desenvolver competências. Em cima de interesses e talentos que já existem.

Na página principal deste space, numa seção que tem o título de “Como eu vejo o que eu faço hoje”, cito uma frase de Herbert Spencer (1820-1903), que disse: “O grande objetivo da educação não é conhecimento, mas ação”. É isso. E sabemos disso há muito tempo. Era hora de colocar isso em prática em nosso sistema educacional.

A seguir, o trecho da matéria da Exame que contém a entrevista com Sicupira – que, a meu ver, é o ponto alto da matéria.

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http://portalexame.abril.com.br/revista/exame/edicoes/0964/especiais/melhor-ideia-gente-boa-nao-vai-lugar-algum-541040.html?page=full 

Exame Especial Cultura

“A melhor ideia, sem gente boa, não vai a lugar algum"

O empresário Carlos Alberto Sicupira conta como se dedica atualmente ao que muitas vezes não passa de platitude no jargão corporativo – a formação de pessoas

Sicupira (centro), com a equipe da Endeavor:

Sicupira (centro), com a equipe da Endeavor: "Meu papel hoje é mostrar caminhos que já tive"
(Foto de Germano Lüders)

Entrevista de Cristiane Mano
17.03.2010 | 13h05

O empresário Carlos Alberto Sicupira, um dos controladores da ABInBev e presidente do conselho de administração da Lojas Americanas, não tem hoje escritório em nenhuma das duas grandes empresas em que investe. Mas ele ainda faz questão de ocasionalmente circular, em seu traje habitual – tênis, camisa e calça jeans -, entre os funcionários de ambas as empresas. Uma dessas rondas deve acontecer na China, no final de março, num encontro dos 300 principais executivos da cervejaria em todo o mundo. Trata-se de uma chance valiosa, segundo ele, de conhecê-los de uma só vez. Gente é uma de suas obsessões declaradas. Ao lado dos sócios Jorge Paulo Lemann e Marcel Telles, Sicupira deu sentido próprio a algo que muitas vezes não passa de platitude no jargão corporativo. Aos 62 anos, ele dedica boa parte de seu tempo a formar talentos em três ONGs – a Endeavor, que promove o empreendedorismo, a Fundação Brava, que apoia projetos de gestão no setor público, e a Fundação Estudar, que patrocina bolsas de estudo. Cada uma a seu modo, todas servem para o que ele chama de "alavancar gente". Numa rara entrevista, concedida a EXAME em São Paulo, Sicupira conta como faz isso acontecer.

Quanto tempo o senhor dedica hoje a causas fora das companhias que controla?

Como não tenho mais escritório em empresa alguma, tenho de arrumar mais o que fazer. Não consigo parar de me meter em encrenca. Grande parte do meu tempo hoje é dedicada às causas em que acredito – empreendedorismo, governos mais eficientes e educação. Estou sempre disponível para todas elas, por isso minha de dicação fica meio difusa. As coisas aca bam muito interligadas. Se estou no governo, às vezes vejo uma oportunidade para a Endeavor. Na Endeavor, vejo uma oportunidade para a Fundação Estudar. Mas todas elas se baseiam no mesmo princípio de alavancar pessoas. Meu papel é ba sicamente mostrar caminhos que já tive. Na Endeavor, o senhor vem ajudando a formar uma rede de empresários e executivos que se tornam mentores de empreendedores. Como isso funciona? Hoje, temos 300 voluntários dedicados a ajudar os empreendedores. Alguns procuram a Endeavor. Em outros casos, a gente faz o convite. É uma oportunidade única para os empreendedores, já que a hora desses voluntários não está à venda por preço nenhum. O Fabio Barbosa (presidente do banco Santander no Brasil) ou o Pedro Passos (um dos controladores), da Natura, não vão alugar a hora deles para ninguém. Mas eles estão ali disponíveis para atender essas empresas que estão surgindo.

Tanto nas empresas como nas ONGs, uma das marcas do senhor e de seus sócios é colocar gente muito nova em cargos de chefia. Por quê?

A gente acredita que a pessoa é capaz de dar o próximo pulo com base no que ela fez até então e sobretudo na pessoa que ela é. O Rodrigo (Teles) assumiu a diretoria-geral da Endeavor aos 28 anos. É preciso dar a chance às pessoas que querem fazer. Tem risco? Sim. Mas é muito calculado. Risco muito maior é botar alguém que você tem certeza de que não vai errar mas que também não vai fazer nada porque a forma mais fácil de não errar é não fazer nada.

Em sua trajetória o senhor também aprendeu muita coisa na fogueira?

A vida toda. Trabalho desde os 14 anos de idade. Comecei com compra e venda de carros. Aos 17, pedi a meu pai para me emancipar para comprar uma distribuidora (de títulos e valores) do
Banco Central. Vendi e, mais para a frente, comprei outra. Estudava à noite e trabalhava durante o dia.

Quem mais influenciou as suas decisões como empresário?

O Jorge Paulo (Lemann) e o Sam Walton (fundador do Walmart) são as pessoas que mais me inspiraram.

O senhor ainda busca novas influências?

Sempre. Todo ano a Endeavor mundial monta uma visita, geralmente nos Estados Unidos. A última aconteceu no Vale do Silício. Visito todo ano uma ou duas companhias que eu acho excepcionais em alguma coisa para ver o que dá para aprender. É como a gente fez com o Sam Walton ou com o Goldman Sachs. E com a própria Anheuser-Busch. Em 1991, o Marcel (Telles) foi visitar a empresa e várias coisas que fizemos no Brasil foram totalmente copiadas de lá. Que companhias o senhor colocou em sua lista de visitas recentemente? Hoje existem algumas coisas tão transformacionais no mundo que ninguém pode deixar de acompanhar. Passei um dia no Google para entender como eles funcionam, há uns três anos. Voltei com uma porção de ideias. Tenho interesse também na coreana Hyundai, que tem uma maneira criativa de abordar o consumidor. No meio da crise, eles ofereceram um seguro para garantir que as prestações fossem quitadas caso o comprador perdesse o emprego.

Na formação de gente, o que é inato e o que se pode ensinar?

Ensinar vontade é muito difícil. É uma característica inata, da mesma forma que você pode nascer com olho verde ou azul. A Endeavor, por exemplo, não tenta transformar ninguém em empreendedor. A ideia é mostrar a um empreendedor que ele pode fazer um negócio muito maior do que estava pensando. A gente tem de alavancar a vontade que a pessoa tem. Disciplina dá para ensinar. O que uma pessoa tem de saber? Não tem de saber nada. As pessoas valem pelo que elas são capazes de fazer, e não por aquilo que elas conhecem. Algumas pessoas sabem tudo, mas não conseguem transformar isso em nada.

Quanto tempo o senhor se dedicou a formar gente durante toda a vida?

A vida toda. Só faço isso. Gente é a pedra fundamental de tudo. A melhor ideia, sem gente boa, não vai a lugar algum. A execução não vai ser boa e também vai parar de aparecer ideia boa. O pilar básico de tudo é: gente boa, unida por um sonho comum, reconhecida e com oportunidade de crescer.

A valorização das pessoas é um daqueles discursos corporativos que muitas vezes se perdem entre outras prioridades. Na correria para entregar resultados, dá tempo de realmente se preocupar com as pessoas?

É o contrário. Você se preocupa com as pessoas e as pessoas vão transformar o resultado. Se você se preocupar com o resultado, e não com as pessoas, o resultado vai acontecer uma vez só. Se for diferente, você tem uma perpetuação de resultado. Durante o ano inteiro, eu não pergunto a ninguém sobre o resultado. Minha preocupação é como eu posso ajudá-los a fazer isso acontecer.

E o que as empresas podem fazer para motivar as pessoas?

Não acho que se deva motivar ninguém. A pessoa tem de ser automotivada. Senão, será preciso ter o Silvio Santos o dia todo ao lado dela. As pessoas se sentem motivadas a trabalhar se existe um ambiente em que possam se dar bem pessoal e financeiramente. A vida é um pacote. Não adianta acreditar que basta alguém se rea lizar no trabalho fazendo coi sas importan tes mas sem ganhar nada. Também não adianta dar dinheiro e a pessoa não fazer algo que lhe interesse. É preciso ter certeza de que ela vai se realizar ao fa zer coisas grandes e reconhecê-la por isso.

Numa estrutura grande, como garantir que isso aconteça?

O grande desafio é manter a chama acesa numa companhia muito grande. Tenho hor ror a companhias grandes. A chance de uma companhia grande virar medíocre é enorme. Meu grande desafio é impedir que isso aconteça. Para isso, tenho de conhecer as pessoas, estabelecer os desafios. É preciso fomentar uma cultura que aceite esse tipo de profissional. Se prevalecer uma cultura em que não se pode arriscar, as pessoas com esse perfil não ficam. E então alguém do seu ramo vai acabar te passando.

Como o senhor faz isso na prática?

Primeira coisa: conhecendo as pessoas. Nos encontros de conselho, sempre busco jovens para fazer as apresentações. Senão você fica vendo as mesmas caras a vida inteira. No fim de março vou à China para uma reunião com todas as lideranças da ABI, durante quatro dias, para trabalhar juntos em diversos temas. Para mim é o momento mais importante. Vou ver as 300 principais pessoas da companhia. Alguém me diz: "Dá uma olhada naquele cara ali". Ou: "Aquele outro é interessante". Chamo um deles para almoçar. É muito bom para ter certeza de que a cultura está no lugar e para ter contato com todo mundo.

O senhor diz que não dá para ensinar vontade a um profissional nem motivá-lo. Mas como é possível inspirar?

Exemplo é tudo. Você tem de fazer o que você fala. Todo mundo está olhando o tempo todo para o líder de uma organização. Não dá para falar uma coisa e fazer outra. Senão todo mundo vê logo que se trata de um discurso de mentira. A gente, por exemplo, acredita que uma vantagem é ter custos mais baixos. Nas viagens da companhia, todos ficam nos mesmos hotéis. Todos os conselheiros seguem as mesmas regras que os demais funcionários. Não tem essa de ficar num hotel melhor e viajar em primeira classe. Se eu quero fazer isso, viajo no meu avião ou pago a passagem eu mesmo. Isso é dar o exemplo.

É muito comum a associação da capacidade de inspirar a um líder carismático. O que o senhor acha sobre a importância do carisma?

Na minha definição de boa liderança, a palavra carismático não aparece. Boa liderança é atingir o resultado proposto com as pessoas certas fazendo as coisas certas. Prefiro o líder que entrega ao líder que tem carisma. Ter um carisma louco pode ser muito bom para você ter um programa de televisão ou ser político. Nas companhias, você tem de procurar gente que vai entregar. Carisma num sentido messiânico, de alguém com grande poder de convencimento, não garante nada. O desafio de qualquer empresa é fazer tudo dar certo sem a necessidade de uma pessoa específica estar lá, é institucionalizar as coisas.

O que pode ser mais nocivo numa empresa?

Não ter cultura. Qualquer agrupamento de pessoas gera uma cultura, um protocolo de comportamento. Você sempre vai ter uma cultura, o problema é quando você não tem controle sobre ela. O que você tem de fazer é desenhar uma de acordo com seus objetivos e valores. Várias empresas têm valores escritos em algum lugar mas não têm cultura, porque não associaram uma coisa a outra. Às vezes
o empresário acha que a companhia segue os mesmos valores que ele, mas aquilo ali nunca foi dito para ninguém.

O que move o senhor hoje?

Construir coisas duradouras de excelência. Construir e institucionalizar. Fico feliz de saber que a Endeavor, por exemplo, não depende de mim.

O senhor e seus sócios sempre pregaram a máxima de que sonhar grande ou sonhar pequeno dá o mesmo trabalho. Hoje vocês estão à frente da maior cervejaria do mundo. Vocês esperavam chegar até aqui?

Muito mais (risos). O sonho é grande mesmo.

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Em São Paulo, 20 de Março de 2010

Veneno Curricular

Da coluna de Élio Gaspari na Folha de S. Paulo de 14/3/2010:

“VENENO CURRICULAR

A Secretaria de Educação do Rio de Janeiro preparou uma proposta curricular para a disciplina de sociologia das escolas de ensino médio da rede do Estado. Entre os tópicos relacionados com as "desigualdades sociais", está a recomendação para que o professor leve os alunos a "compreender que a dominação europeia expressa pelo colonialismo e pelo imperialismo é a causa fundamental das desigualdades sociais".

Não explicaram como se ensinará o fracasso do colonialismo inglês na América do Norte, onde surgiram nações prósperas e livres como as dos Estados Unidos e do Canadá.”

Em Salto, 14 de Março de 2010

“No Child Left Behind” or “No Child Moving Ahead”

O Presidente George W Bush criou, logo que assumiu o governo em seu primeiro mandato, um mega-programa educacional chamado “No Child Left Behind” – Nenhuma Criança Deixada para Trás. Seu objetivo é melhorar a qualidade da educação americana e combater a desigualdade de oportunidades educacionais. Para isso apelou-se para uma reforma educacional fundamentada em padrões (standards), que se baseia na crença que a qualidade da educação melhora quando se propõem para a educação objetivos elevados traduzidos em metas mensuráveis. O programa exige que os estados elaborem avaliações (testes) de habilidades básicas a serem aplicados a todos os alunos de certa idade (e em certas séries). Se as metas não são alcançadas, o governo federal não repassa recursos; se são, os estados recebem considerável ajuda do governo federal. Os padrões não são fixados pelo governo federal: são fixados pelos estados.

A tentação é enorme, dado o volume de recursos disponibilizado pelo governo federal, de baixar o nível de padrões e de criar mecanismos, não para que os mais fracos não fiquem para trás, mas para que os mais fortes não disparem na frente, assim reduzindo a desigualdade – sem melhorar a qualidade…

Pode?

Em São Paulo, 9 de Março de 2010