Uma família olhando múltiplas telas na mesma sala ao mesmo tempo…

Aqui em casa o que esse artigo descreve acontece com razoável frequência: quatro pessoas, cada um com (pelo menos) uma tela diferente, cada um fazendo o que lhe interessa… Em alguns momentos, em vez de falarem um com o outro, mandam um SMS, ou uma mensagem instantânea, um e-mail… Assim não interrompem sem necessidade o que o outro está fazendo.

Alguns podem achar isso uma coisa horrível. Eu não acho. É uma realização do princípio famoso da filosofia, “the one and the many”: uma sala, uma família, muitas pessoas, muitos interesses diferentes… É o triunfo da individualidade que, entretanto, preserva uma forma diluída do coletivo. É o fim da ditadura do “precisamos todos fazer a mesma coisa juntos”, que sabe ao coletivismo totalitarizante dos soviéticos.

Hoje se defende ardorosamente a educação personalizada, que respeita as diferenças individuais, que se alimenta dos interesses de cada um. Defende-se também a educação horizontal, entre pares, em que muitos se comunicam com muitos, em que não há professores nem alunos, mas todos aprendem, em que ninguém educa ninguém, mas ninguém se educa sozinho (Paulo Freire). No âmbito da família essa educação ubíquita, esse anytime, anywhere learning acontece no ambiente descrito no primeiro parágrafo.

O artigo que transcrevo de The New York Times, traduzido pela Folha, capta bem esse espírito. Ele foi publicado em:

http://www1.folha.uol.com.br/fsp/newyorktimes/ny1605201113.htm

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CIÊNCIA & TECNOLOGIA

A família adquire hábito de se reunir diante de muitas telas

Por ALEX WILLIAMS

Dianne Vavra, executiva do setor de cosméticos em Nova York, levantou os olhos do iPad onde via as novidades da moda no site Refinery29.com e notou que seu marido, Michael Combs, estava absorto com uma partida de basquete que passava no seu laptop.

O filho deles, Tom, 8, havia mergulhado no jogo Mario Kart, do Wii, na TV. A filha, Eve, 10, brincava com aplicativo chamado Love Calculator, num iPod Touch. “A família estava na mesma sala, mas não estava junta”, lembrou Vavra. Uma família. Uma sala. Quatro telas. Quatro realidades.

“A transformação da sala de estar americana em central de comunicações e entretenimento com múltiplas telas” promete “alterar nossa esfera doméstica”, disse Lutz Koepnick, professor de mídia da Universidade Washington, em St. Louis. “Os indivíduos da família podem se descobrir alegremente conectados a mundos paralelos quase o tempo todo.”

De fato, o consultor ambiental Brad Kahn, de Seattle, disse que, muitas vezes, se comunica com sua esposa, Erin, por e-mail, mesmo quando eles estão sentados a poucos metros de distância, com seus laptops.

Evan Gotlib, contato publicitário em Manhattan, lembra-se de estar recentemente na cama com sua esposa, Lindsey Pollak, cada um com seu iPad. Ele jogava palavras-cruzadas à distância contra sua irmã, Val, e, a certa altura, disse: “A Val acaba de conseguir uma palavra de 46 pontos!”.

“Puxa”, disse a esposa, “ela acaba de fazer uma de 32 pontos contra mim”. Nesse momento, Gotlib percebeu que sua esposa estava envolvida no seu próprio jogo contra a irmã dele.

Ben Schippers, que dirige uma empresa de criação de software no Brooklyn, descobriu algo curioso quando sua mulher se mudou para Iowa para estudar veterinária, e o casal ficou em contato por Skype: ele acha suas noites semelhantes ao que eram quando ela estava em Nova York. Em qualquer situação, “é ela no LCD dela, eu no meu LCD”, afirmou.

Sherry Turkle, autora de “Alone Together: Why We Expect More From Technology and Less From Each Other” (“separados juntos: por que esperamos mais da tecnologia e menos uns dos outros”), argumenta em seu livro que ao se tornarem mais dependentes da tecnologia no estabelecimento de intimidade emocional, as pessoas se sentem inundadas e vazias. Mas essa não é a primeira vez que o aparecimento de mídia doméstica causa revolta -talvez, vendo agora, desnecessariamente.

“Se você recuar 200 anos, houve reclamações similares sobre dispositivos tecnológicos, mas, naquela época, eram os livros”, disse Koepnick. “A sala familiar cheia de pessoas diferentes lendo livros criou muita preocupação e ansiedade, principalmente em relação às mulheres, porque, de repente, elas estavam sozinhas, suas mentes estavam vagando para áreas que não eram mais controladas.” Da mesma forma, a TV, durante décadas, trouxe o espectro de famílias americanas se transformado em zumbis viciados em sitcoms.

Mas Barry Wellman, professor de sociologia na Universidade de Toronto e estudioso dos efeitos da tecnologia sobre as comunidades sociais, disse que há pesquisas indicando que as pessoas consideram que a tecnologia está reunindo as famílias. O comportamento dentro de um casulo cibernético pode ser surpreendentemente interativo. “Tem muito ‘Ei, olha isso!” ou ‘Vamos planejar nossa viagem a Las Vegas!'”, disse ele.

Para Gotlib, as novas opções tecnológicas e midiáticas permitem que ele e sua esposa “experimentem novos níveis de intimidade”. “Três ou quatro anos atrás, eu estaria no andar de baixo assistindo à TV, e ela estaria no andar de cima lendo. Eu garanto que nós passamos 80% a mais de tempo juntos por causa do iPad.”

Ao invés de ser um sinal de relacionamento disfuncional, tal comportamento pode ser interpretado como indício de sanidade, disse Ronald Levant, professor de psicologia da Universidade de Akron, em Ohio. “As pessoas que pensam a cada minuto que ‘estamos juntos, precisamos nos conectar’ vão enlouquecer umas às outras, porque todos nós precisamos de um tempo sozinhos, não importa quão compatível um casal seja”, afirmou.

Essa foi a conclusão à qual chegou Vavra, a executiva do setor de cosméticos. Ela aprendeu a apreciar o intercâmbio resultante das noites em que cada membro da família está olhando a sua própria tela.

Possivelmente, disse ela, tal situação traga mais proximidade do que as noites passadas em volta de algum jogo de tabuleiro, como era na época analógica.

“‘Tempo juntos’, no passado, às vezes era um esforço, um momento forçado, em que programávamos: ‘Ok, após jantar, toda noite às 19h, vamos ver isso ou jogar aquilo’, e a garotada dizia: ‘Mas, mãe, eu quero fazer tal coisa'”, lembrou Vavra. “Agora, não é nada forçado. Acontece organicamente. Cada um consegue fazer suas próprias coisas, em vez de: ‘Temos de jogar Detetive de novo?’.”

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Em São Paulo, 16 de Maio de 2011

Cutucando ainda mais o paradigma…

Artigo de número dez que escrevo para o Blog das Editoras Ática e Scipione, no URL

http://blog.aticascipione.com.br/eu-amo-educar/cutucando-ainda-mais-o-paradigma/

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No último artigo prometi falar sobre Ivan Illich. Cumpro aqui a promessa, mas não vou falar só dele. Vou colocá-lo no contexto de Cutucando o Paradigma…, artigo em que apresentei O Direito de Aprender, de Bruce Dixon e Susan Einhorn.

Nele, os autores reconhecem e defendem o direito de aprender da pessoa humana e expressam a preocupação de que a escola possa se tornar uma barreira para o pleno exercício desse direito, em vez de ser, como seria lícito esperar, uma via para a sua fruição. O artigo foi escrito recentemente – na verdade, neste ano de 2011.

Quarenta anos antes, em 1971, Ivan Illich, um sacerdote católico nascido em 1926 na Áustria, mas radicado em Cuernavaca, no México – onde dirigia o Centro Intercultural de Documentación(CIDOC), criado por ele próprio em 1961 –, publicou seu livro mais conhecido: Deschooling Society, traduzido como Sociedade Sem Escolas (a tradução literal  seria, naturalmente,Desescolarização da Sociedade).

No prefácio da obra ele expressa sua convicção de que “para a maioria das pessoas o direito de aprender é limitado e restringido pelo dever de frequentar a escola”. Ou seja: a escolarização obrigatória é, para a maioria das pessoas, um impedimento para o pleno exercício de seu direito de aprender (não uma forma de viabilizá-lo). Ou, ainda em outras palavras: mais escola não implica em mais aprendizagem, pelo contrário.

Illich morreu em 2002, na Alemanha – leia aqui uma breve biografia. (Estou usando o texto em inglês de Deschooling Society, e as traduções para o português são minhas).

Ainda no prefácio do livro, Illich admite que, por muito tempo, acreditou, como a maioria das pessoas, que obrigar todos a frequentarem a escola era algo bom. Quem o convenceu do contrário foi Everett Reimer, um autor que alcançou certa notoriedade nos anos 70 com seu livro School is Dead (A Escola Está Morta), publicado também em 1971. Reimer faleceu em 1998.

Illich toma o cuidado de dizer que a escolaridade obrigatória conspira contra o direito de aprender “para a maioria das pessoas”. Essa ressalva deixa a porta aberta para o reconhecimento do fato de que algumas pessoas têm uma experiência positiva na escola e de fato aprendem coisas importantes nela. Mas isso, para ele, é a exceção, não a regra.

A minha opinião é a de que as pessoas que tiveram uma experiência positiva de aprendizagem na escola a tiveram porque foram afortunadas de encontrar neste ambiente professores que, além de professores, eram pessoas excepcionais, que acabaram por fazer uma diferença na vida de seus alunos. O fato de que essas pessoas foram encontradas na escola é, em grande medida, fruto do acaso, e representa a exceção, não a regra. O mais comum é que esses contatos significativos aconteçam fora da escola: um pai, um avô, um tio, um pastor, um amigo… A revista Seleções do Reader’s Digestcostumava ter uma seção chamada “Meu Tipo Inesquecível” destinada a permitir que as pessoas registrassem experiências com essas pessoas especiais – que raramente eram professores.

Na breve passagem a seguir, John Steinbeck, grande escritor americano, Prêmio Nobel da Literatura de 1962, aborda a questão:

“É comum que adultos se esqueçam de quão difícil, chata e interminável é a escola. (…) A escola não é coisa fácil e, a maior parte do tempo, não é nada divertida. Contudo, se você tem sorte, pode ser que encontre ali um grande professor. Professores verdadeiros, com a melhor das sortes, você vai encontrar no máximo uns três durante a vida. Acredito que um grande professor é como um grande artista: há poucos deles, como há poucos grandes artistas. . . . Os meus três tinham estas coisas em comum: (a) todos eles amavam o que estavam fazendo; (b) eles não nos diziam o que saber, mas catalisavam em nós um desejo fervente de aprender; (c) e, sob sua influência, os horizontes de repente se abriam, o medo ia embora e o desconhecido se tornava conquistável. Resumindo, por sua influência a verdade, essa coisa perigosa, se tornava bela e muito preciosa”.

(Ênfase acrescentada: infelizmente, não consegui traçar a referência dessa citação, que me foi passada pela Profa. Maria Eugênia Castanho da Faculdade de Educação da Pontifícia Universidade Católica de Campinas – PUCCAMP. Nem mesmo ela dispõe, atualmente, da referência. Não excluo de todo a possibilidade de que o texto não seja dele.)

Esses professores especiais – e eu tive minha cota deles – em regra não fizeram diferença em nossa vida pelo que falaram (ensinaram) ou fizeram em sala de aula, mas, sim, por serem as pessoas que eram.

Michael Hammer, em seu livro Beyond Reengineering (1996), caracterizou a educação como “aquilo que permanece conosco depois que nos esquecemos do que nos foi ensinado”. Se não formos afortunados de encontrar na escola nenhum dos professores especiais de que fala Steinbeck, podemos muito bem passar pela escola sem nela obter educação alguma… Educar, como disse alguém, é algo semelhante a acender uma vela, não algo como encher um balde…

Mas voltemos a Illich.

Se desescolarizarmos a sociedade, se acabarmos com a escola (pelo menos com a escola obrigatória), não teremos nem mesmo a oportunidade de aprender por encontros com as pessoas especiais que às vezes encontramos na escola. Neste caso, como aprenderemos?

A resposta de Illich é surpreendente, em especial diante do fato de que foi dada em 1971, cerca de apenas um ano após a internet ter sido criada em universidades americanas, com recursos fornecidos pelas Forças Armadas daquele país – e mais de trinta anos antes de a Internet haver saído do gueto acadêmico-universitário e ter se tornado popular (algo que se deu nos Estados Unidos por volta de 1993 e no Brasil cerca de dois anos depois). Illich diz que devemos aprender através de redes – “teias educacionais” (educational webs), ele as chama – que proporcionariam, a cada um de nós, a oportunidade “de transformar cada momento de nossa vida em um momento de compartilhamento, de preocupação e cuidado com o outro, de aprendizagem, enfim” (prefácio).

É interessante que, ao fazer referência a pessoas que o influenciaram, Illich inclua Paulo Freire, que havia publicadoPedagogia do Oprimido (disponível na íntegra, em PDF, aqui) no ano anterior (1970) àquele em que Illich publicou o seu livro. Paulo Freire diz, nessa sua obra maior: “Ninguém educa ninguém, como tampouco ninguém se educa a si mesmo: os homens se educam em comunhão, mediatizados pelo mundo”. Essa é uma das passagens mais radicais de nosso grande educador, cujo retorno definitivo ao Brasil, em junho de 1980, para trabalhar na Faculdade de Educação da UNICAMP, eu tive a satisfação de ajudar a viabilizar, quando era Diretor da Faculdade de Educação daquela universidade (cargo que exerci de Abril de 1980 a Abril de 1984). Nessa passagem Freire enfatiza que nossa educação é “mediatizada pelo mundo” – não pela escola – e se dá num processo de “comunhão”, em que nos educamos uns aos outros – sem qualquer referência a professores. (O Projeto Memória traz um breve relato do retorno definitivo de Freire ao Brasil, em junho de 1986).

O primeiro capítulo de Deschooling Society começa com a seguinte passagem lapidar:

“Muitos alunos, especialmente aqueles que são pobres, intuitivamente têm conhecimento daquilo que a escola faz a eles: a escola os leva a confundir processo com substância (…), ensino com aprendizagem, progressão de uma série para a outra com desenvolvimento na educação, diploma com competência e fluência com a habilidade de dizer algo novo. Sua imaginação, uma vez ‘escolarizada’, é levada a aceitar serviço em vez de valor.”

Mais adiante, no mesmo capítulo, Illich observa:

“A mera existência da escola desencoraja os pobres  de assumir controle de seu próprio aprendizado. No mundo inteiro a escola tem um efeito sobre a sociedade que contraria os interesses da educação. A escola é reconhecida como instituição que se especializa em prover educação para as pessoas. Quando ela não faz isso, esse fato é percebido, pela maioria das pessoas, não como fracasso da escola, mas como prova de que a educação é um processo muito oneroso, muito complexo, sempre arcano, e, frequentemente, uma tarefa quase impossível”.

Acrescento: que requer mais investimento, salários mais altos para os professores, melhores condições de trabalho… Por mais que invistam na educação, os governos são acusados de ter descaso com a educação, de estar sucateando a escola…

Diz Illich, mais adiante:

“O  paradoxo  das escolas  é  evidente:  quanto  mais  se  investe nelas, mais destrutivas elas se tornam. (…) A escalada das escolas é tão destrutiva quanto a escalada das armas, mas é menos visível. A equalização de oportunidades educacionais é um objetivo desejável e alcançável, mas é absurdo considerar esse objetivo equivalente à meta de escolarização obrigatória universal. Confundir esses dois é a mesma coisa que confundir a salvação com a igreja”.

Na sequência, Illich nos dá o seu entendimento da aprendizagem:

“Aprender é adquirir uma nova habilidade ou uma nova forma de ver o mundo”.

Ele continua dizendo que é inadmissível considerar aprendizagem e escolarização como equivalentes, e que o importante é desenvolver competências, não passar pelo currículo prescrito pela escola. Ele sugere que deveria haver leis proibindo discriminação das pessoas com base em sua escolaridade, da mesma forma que há leis proibindo discriminação das pessoas com base em suas convicções políticas e religiosas, ou em sua linhagem, ou em seus hábitos sexuais, ou em sua raça ou etnia.

“É uma ilusão – e essa ilusão está na base do sistema escolar – que a maior parte da aprendizagem seja o resultado do ensino. (…) A maior parte das pessoas adquire a maior parte de suas habilidades e de seus conhecimentos fora da escola e, quando alguma aprendizagem tem lugar na escola, isso se dá apenas porque, em alguns países ricos, a escola se tornou um local de confinamento obrigatório dos alunos por períodos cada vez maiores de suas vidas. A maior parte do aprendizado ocorre casualmente, e mesmo a maior parte da aprendizagem intencional não é decorrente de instrução planejada. Crianças normais aprendem sua primeira língua casualmente, embora o façam mais rapidamente se seus pais lhe dão a atenção devida. A maior parte das pessoas que aprendem bem uma segunda língua o faz em decorrência de uma série de circunstâncias às vezes insólita, não através de ensino sequencial: elas vão viver com seus avós, que falam a língua, ou se apaixonam por um estrangeiro, por exemplo. Fluência em leitura também é, a maior parte do tempo, o resultado de atividades extracurriculares. As pessoas que leem bastante, e bem, e com prazer, apenas acreditam que adquiriram o hábito e a competência na escola, mas, se interrogadas, a maior parte acaba admitindo influências extraescolares. A aprendizagem em geral ocorre casualmente como subproduto de alguma atividade geralmente classificável como lazer ou trabalho.  (…) Só se aprende em decorrência de instrução quando se está altamente motivado para adquirir uma habilidade nova, específica e complexa. Às vezes o desenvolvimento de uma habilidade depende do domínio prévio de outra habilidade, mas não requer que ela tenha sido desenvolvida por um processo especificado”.

Aos poucos Illich fornece mais detalhes sobre seu ponto de vista, ainda no primeiro capítulo:

“Aprendizagem  criativa  e  exploratória  requer que pares  (peers)  estejam naquele momento encafifados com algum problema ou alguma questão. [Para que isso se concretize, é preciso reunir pessoas com interesses afins.] As pessoas poderiam, a qualquer momento, e por um preço mínimo, se identificar em um computador, fornecendo seu endereço e número de telefone, e indicando quais as coisas (livros, artigos, filmes, gravações) para as quais gostariam de ter parceiros de discussão. Em poucos dias, receberiam pelo correio uma listagem com os nomes, endereços e telefones de pessoas com os mesmos interesses. Isso lhes permitiria contatar os possíveis parceiros, agendar uma reunião, conversar e discutir com elas. Não é preciso que essas pessoas se conheçam previamente. A única exigência é que estejam, todas, interessadas em discutir o mesmo assunto”.

Essa é a rede, a “teia educacional”, que Illich imaginava em 1971. O que ele não diria acerca do potencial para a aprendizagem de nossas redes sociais de hoje? De Facebook, por exemplo.

Partidos políticos, igrejas, sindicatos, clubes, centros comunitários e sociedades profissionais, continua Illich, também poderiam reunir pessoas com interesses afins desejosas de encontrar parceiros de discussão. Dessa forma a aprendizagem teria lugar num contexto libertário, democrático, não autoritário – e a sociedade iria se desescolarizando e se tornando mais educacional…

A educação para todos”, afirma Illich ao chegar próximo do final do primeiro capítulo, “é, necessariamente, a educação por todos”.

Continuarei a apresentar e comentar as ideias propostas por Illich no próximo capítulo.

Mas minha apresentação e meus comentários não são discussão… Se você acha essas ideias dignas de discussão, vamos discuti-las aqui neste blog. Não hesite em deixar uma resposta, concordando com elas ou delas discordando. Vamos criticar as propostas de Illich, que em 2011 completam quarenta anos, não simplesmente ignorá-las, como se apenas uma mente desvairada ou mal-intencionada pudesse tê-las gerado. A escola que temos é uma instituição humana, criada por nós para determinados fins. Não é uma instituição sacrossanta. Não é heresia discutir se ela é ou não necessária, especialmente na era da comunicação intensiva propiciada pelas redes sociais. Não é porque somos professores e trabalhamos em escolas que a discussão crítica do ofício do mestre e da função da escola como ambiente de aprendizagem estará vedada. De nada adianta rotular como crítica a nossa postura ou abordagem se nos negamos a discutir o que fazemos, como, onde e por que o fazemos.

Prometo comentar o que você disser, elogio ou crítica. Vamos fazer deste espaço virtual uma verdadeira “teia educacional”, como a imaginou Illich, para discutir questões básicas acerca da educação e da aprendizagem – e do papel da escola e do professor nelas. Vamos usar as redes sociais de hoje para aprender. Para, quem sabe, criarmos coragem para desafiarmos o paradigma…

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Em São Paulo, 16 de Maio de 2011

Cutucando o paradigma…

Publiquei no início da semana meu nono artigo no Blog das Editoras Ática e Scipione, no URL http://blog.aticascipione.com.br/eu-amo-educar/cutucando-o-paradigma/. Ele terá continuidade no início da semana que vem com um artigo sobre Ivan Illich.

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Neste meu nono artigo no blog vou dialogar, de forma talvez um pouco provocadora, com três artigos que me vieram parar nas mãos nos últimos dias. Há, a meu ver, um tema comum a perpassar os três. E esse tema me faz lembrar de Ivan Illich e A Sociedade Sem Escolas (1971 – a tradução literal do título do livro de Ivan Illich seria A Desescolarização da Sociedade)… E me sugere algo do tipo: “The school is dead! Long live learning”.

(O artigo é longo. Deixo-o assim porque o assunto merece. Mas se você é daqueles que acha a escola uma instituição “imexível”, tome uma maracujina antes de continuar.)

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O primeiro dos três artigos é um instigante texto de Rosa María Torres, educadora equatoriana, diretora do Instituto Fronesis. O artigo tem o título de (traduzindo do correspondente em Inglês) “Aprendizagem ao Longo da Vida: indo além de Educação para Todos” e foi apresentado primeiro como conferência principal no Fórum Internacional sobre Aprendizagem ao Longo da Vida que se realizou em Shanghai, na China, entre 19 e 21 de maio de 2010. (O texto do artigo de Rosa María Torres e as demais contribuições ao Fórum podem ser encontrados aqui).

O texto discute sutis diferenças de ênfase entre dois movimentos iniciados pela UNESCO nos últimos anos, Educação para Todos e Aprendizagem ao Longo da Vida.

Educação para Todos foi (na verdade, ainda é) um movimento iniciado pela UNESCO em 1990, na Conferência Mundial da Educação de Jomtien, na Tailândia. Nessa Conferência, participantes de 155 países e 150 organizações aprovaram a Declaração Mundial sobre Educação para Todos, em que se comprometiam a buscar a meta de, nos dez anos seguintes (até no ano 2000, portanto), oferecer educação básica para todas as crianças, jovens e adultos do planeta – e ter a oferta aceita (vide os sites da UNESCO sobre o movimento e sobre a declaração).

O movimento Educação para Todos alcançou sua culminância no Fórum Mundial da Educação que teve lugar em Dakar, no Senegal, dez anos depois, em 2000. Esse fórum também aprovou um documento, a Estrutura para Ação de Dakar: Como Implementar o Nosso Compromisso Coletivo com a Educação para Todos (vide os sites da UNESCO sobre o fórum e sobre o documento).

(É bom registrar, em parênteses, que, quando esses documentos falam em educação, eles têm em vista a educação básica formal, isto é, a educação básica oferecida em escolas. A Constituição Federal Brasileira de 1988 define educação básica de modo a incluir a educação infantil, a educação fundamental e a educação de nível médio. Ela cobre, portanto, cerca de 14 anos da vida da pessoa: digamos que dos quatro aos 17 anos, se atribuirmos apenas dois anos à educação infantil. Aqui entre nós, 14 anos é duração de pena para crime razoavelmente sério… É mais do que o dobro da pena mínima para homicídio simples, que tem pena de reclusão de seis a 20 anos, por exemplo. Fim do parêntese).

O documento de Dakar, de 2000, constata que houve progresso na década anterior em direção ao objetivo maior de propiciar educação básica para todos, mas que o objetivo ainda estava longe de ser alcançado. Metas bem mais modestas, mas mais realistas, foram então propostas – o prazo também sendo estendido para o ano 2015, porque o prazo anterior estava esgotado.

Entre essas metas estavam:

  1. Expandir e aprimorar o cuidado e a educação de crianças pequenas, “em especial as mais vulneráveis”;
  2. Garantir que todas as crianças, “especialmente as meninas, as crianças em circunstâncias difíceis e as crianças pertencentes a minorias étnicas”, tenham acesso a “educação primária” de boa qualidade, gratuita e compulsória;
  3. Garantir que as necessidades de aprendizagem de jovens e adultos sejam atendidas através de programas apropriados, voltados para o desenvolvimento das habilidades requeridas para a aprendizagem e para a vida;
  4. Alcançar melhoria de 50% nos níveis de alfabetização de adultos, “especialmente para as mulheres”;
  5. Reduzir disparidades entre a educação primária e secundária oferecida a pessoas de um sexo e de outro (neste caso, até 2005) e totalmente eliminar essas disparidades até 2015;
  6. Disponibilizar programas de educação básica e educação continuada para todos os adultos.

Novamente entre parênteses, no Brasil a campanha Todos pela Educação (vide http://www.todospelaeducacao.org.br/) propõe que lutemos para alcançar as seguintes metas (relativamente modestas) até o ano 2022:

  1. Toda criança e jovem de quatro a 17 anos na escola;
  2. Toda criança plenamente alfabetizada até os oito anos (i.e., ao começar o seu quarto ano na Educação Fundamental);
  3. Todo aluno tendo aprendizado adequado à sua série;
  4. Todo jovem concluindo a Educação de Nível Médio até os 19 anos;
  5. O investimento em educação sendo ampliado e bem gerido.

Voltando ao artigo de Rosa María Torres, mais recentemente a UNESCO propôs a discussão do tema Aprendizagem ao Longo da Vida, que, segundo a autora, introduz sutis diferenças nas questões propostas até então.

Em primeiro lugar, fala-se agora em aprendizagem, não em educação. Com isso parece que a importância da distinção entre aprendizagem formal (escolar) e aprendizagem não-formal (não-escolar) é reduzida, pois se trata, em ambos os casos, igualmente de aprendizagem. Assim, a escola deixa de ser o foco exclusivo de atenção, pois se reconhece o papel, na aprendizagem, também da família, da comunidade, dos meios de comunicação e acesso à informação, da vida profissional, e das atividades culturais e de lazer, viabilizadas ou não pela tecnologia – como bem já o colocava Jacques Delors, no prefácio de 1996 ao relatório publicado no Brasil como Educação: Um Tesouro a Descobrir.

(Mais algumas observações entre parênteses. É curioso que, em sua edição original em inglês, o relatório da Comissão de Jacques Delors tem o título de Learning: The Treasure Within. Por que os tradutores brasileiros substituíram “Learning”, que deve ser traduzido como “Aprendizagem”, por “Educação” é algo sobre que só se pode especular – especialmente porque “Aprendizagem” é uma palavra acima de qualquer suspeita. Outra mudança sutil é a tradução de “Within”, “Dentro”, por “A Descobrir”. Um tesouro a descobrir sugere algo que está fora da pessoa e que ela pode encontrar, como numa caça ao tesouro. Um tesouro dentro sugere que o tesouro está dentro da pessoa e precisa ser buscado ali… Por fim, os tradutores traduziram “The Treasure”, “O Tesouro”, por “Um Tesouro”… Durma-se com um barulho desses.)

Em segundo lugar, na argumentação de Rosa María Torres, enfatiza-se agora o fato de que a aprendizagem tem lugar ao longo da vida toda, desde o nascimento da pessoa até a sua morte. Com isso parece que a importância da aprendizagem que acontece na educação básica escolar é relativizada, passando a receber ênfase comparável à que é dada à educação de jovens e adultos, à educação técnica, tecnológica e profissional, ao que se chamava anteriormente de educação de adultos, às diversas formas de aprendizagem decorrentes de programas de educação continuada (mesmo os que têm lugar no contexto do trabalho), ao e-learning corporativo, e, por que não, até mesmo ao ensino superior (graduação e pós-graduação). Tudo isso está incluído em Aprendizagem ao Longo da Vida – e tudo isso está fora da educação básica oferecida pela escola.

Pessoalmente, considero essas mudanças sutis destacadas por Rosa María Torres um grande e bem-vindo avanço – mas esse avanço só torna as metas que a UNESCO se propõe alcançar ainda mais difíceis. (Tudo aquilo que, não sendo natural, como o ar que respiramos, é para todos, não resta dúvida que é difícil – em especial aprendizagem de qualidade para todos ao longo de toda a sua vida).

Isso quer dizer que, no Dia Mundial da Educação celebrado em 28 de abril passado, o grande desafio continuou sendo conseguir envolver a todos na luta pela educação para todos e na busca de uma aprendizagem que possa ser cultivada por cada e um e por todos ao longo de toda a sua vida.

E, naturalmente, conseguir que a qualidade da educação e das experiências de aprendizagem melhore em relação ao nível de qualidade alcançado hoje – que, convenhamos, é baixo.

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O segundo artigo com o qual quero sucintamente dialogar é um white paper escrito por meu amigo Bruce Dixon, presidente daAnytime Anywhere Learning Foundation, com a cooperação de Susan Einhorn. O título do artigo é: O Direito de Aprender: Identificando Precedentes para Mudanças Sustentáveis. (O texto completo do artigo está disponível aqui).

Bruce Dixon resume a discussão realizada e as sugestões feitas na Reunião de Cúpula Global sobre Grandes Ideias 2010, que foi dedicada ao tema de Um Computador por Criança (não por Aluno). A reunião foi realizada em Portland, Maine, em Junho do ano passado, perto da residência de Seymour Papert, que foi o convidado de honra. Tive o privilégio de participar do evento e de revê-lo. (Maine foi escolhido para sediar a cúpula por ser o primeiro estado americano a colocar um computador nas mãos de cada aluno. O governador que tomou essa ousada decisão foi Angus Watkins, que, agora ex-governador, participou da reunião. Foi um prazer conhecê-lo.)

As principais sugestões feitas pelos participantes às autoridades responsáveis por políticas educacionais, ou a quem de direito, foram:

  1. Reconhecer o direito de aprender da pessoa humana, pois é aprendendo que ela se desenvolve;
  2. Permitir que as pessoas foquem sua aprendizagem em seus talentos e paixões;
  3. Garantir que os ambientes de aprendizagem orientem  e apoiem os desejosos de aprender, expandindo suas oportunidades e não lhes criando barreiras artificiais;
  4. Usar a avaliação como parte natural do processo de desenvolvimento da pessoa, não como barreira;
  5. No caso da escola, focar a preparação de professores no seu papel de protetores e promotores desse direito essencial do ser humano.

Aqui, novamente, é preciso estar atento às ênfases, porque elas são sutis.

Primeiro, o direito que se proclama é o direito de aprender – não o direito à educação, vale dizer, o direito de frequentar a escola (que, na nossa legislação, é um direito que também é um dever – mais sobre isso, adiante).

Segundo, indica-se, no espírito das observações de Sir Ken Robinson sobre O Elemento, já discutidas por mim em dois artigos anteriores (aqui e aqui), que a aprendizagem que vale a pena é a que une os talentos e as paixões das pessoas.

Terceiro, sugere-se que a escola (o principal ambiente de aprendizagem reconhecido), longe de proteger e promover esse direito, concebido na forma indicada, tem construído barreiras artificiais ao seu exercício – como os currículos padronizados, “de tamanho único”, o foco nos conteúdos em vez de nas competências, o foco exclusivo no cognitivo em detrimento do não-cognitivo, as avaliações na forma de testes padronizados, os professores especialistas em conteúdo que raramente conhecem bem os fatos necessários acerca do desenvolvimento humano e da aprendizagem e raramente possuem as competências pessoais e interpessoais necessárias para atuar como protetores e promotores do direito de aprender das alunos e facilitadores do seu exercício.

Como se pode ver, o que aqui se propõe não é incompatível com as sutilezas que Rosa María Torres detecta na evolução das iniciativas da UNESCO. Pelo contrário: leva a discussão um passo adiante.

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Finalmente, o terceiro artigo, uma matéria de Rosely Sayão na Folha de S. Paulo no último 3 de maio, com o título de “Infância roubada”. (Disponível na íntegra para assinantes da Folha ou do portal UOL).

Destaco algumas passagens do texto da conhecida psicóloga:

“A criança deve ter o direito de ser criança enquanto pode. Deveríamos, todos, defender essa causa.”

“Temos nos ocupado tanto com o futuro das crianças que esquecemos que elas têm um presente que precisa ser vivenciado, explorado, vivido até as últimas consequências. Aliás, antes de tudo, vamos lembrar que a maneira como vivemos o presente ajuda a desenhar o traçado do futuro.”

“Será que, porque o destino da criança é crescer, precisamos fazer com que isso aconteça o mais rapidamente possível? Não faz o menor sentido pensar e agir assim. Seria a mesma coisa pensar que, já que vamos mesmo morrer, não faz o menor sentido viver, não é verdade?”

“Já não lembramos mais que a maioria dos adultos chegou onde chegou tendo vivido calmamente a sua infância, sem grandes preparações para o futuro. E isso faz com que a gente tente atropelar a infância de quem hoje é criança.”

Neil Postman já havia apontado alguns desses problemas, e ainda outros, em seu livro O Desaparecimento da Infância, de 1982. As crianças estão se tornando adultos precoces, porque as tratamos como se o fossem. Nós, os pais, damos-lhes demasiadas responsabilidades antes que elas estejam preparadas para assumi-las, discutimos com elas assuntos e problemas que elas não entendem direito e para os quais elas pouco podem contribuir – e o fazemos para lhes dar a impressão de que somos todos democraticamente iguais… Enchemos seu horário de compromissos (escola, curso de Inglês, de judô, de dança, de tênis de mesa, acampamentos, passeios programados…) de tal modo que elas precisam de uma agenda para coordená-los – e, quem sabe, um motorista, para atendê-los todos. Deixamos – ou mesmo incentivamos – que as meninas se vistam, se calcem, se pintem e se comportem como mulheres adultas… Resultado: nossas crianças passam pela vida como Dom Fulgêncio, o homem que não teve infância. O pior é que a infância suprimida às vezes aponta a sua cara quando elas já são adultas, o adulto infantil sendo, talvez, a contrapartida necessária, mas ridícula, da criança adulta.

*

Concluindo…

Preocupa-me a superescolarização da nossa sociedade. Preocupa-me a tendência de colocar a criança na escola o mais cedo possível (dois anos está se tornando padrão nas classes A-C), de aumentar o número de dias letivos no ano, de estender as horas em que as crianças são obrigadas a ficar na escola (até o dia todo, o famigerado, mas tão louvado, “período integral”), de reduzir o tempo do recreio e as “janelas vagas” no horário das turmas, de pressionar o professor a não “desperdiçar” o tempo em sala de aula com conversa miúda com os alunos e tarefas burocráticas, de estender os anos ou as idades de escolaridade obrigatória (eram quatro, passaram a ser oito, depois nove, logo serão doze…).

A menos que a escola proporcione excepcionais experiências de aprendizagem (que a maioria das escolas hoje certamente não proporciona), precisamos reduzir a presença da escola na vida das crianças, precisamos reduzir o tempo em que as crianças ficam institucionalizadas (a sua “sentença”), permitindo que elas brinquem mais, desfrutem mais as alegrias da infância, vivam mais, aprendam mais, em contextos não-formais, como conseguir que seus talentos e suas paixões convirjam…

O que é que diz o poema “Instantes”, atribuído a Jorge Luís Borges? O autor está no fim da vida, com mais de 80 anos, e reflete:

“Si pudiera vivir nuevamente mi vida,
en la próxima trataría de cometer más errores.
No intentaría ser tan perfecto, me relajaría más.
Sería más tonto de lo que he sido,
de hecho tomaría muy pocas cosas con seriedad.

(…)

Si pudiera volver a vivir,
comenzaría a andar descalzo a principios de la primavera
y seguiría descalzo hasta concluir el otoño;
daría más vueltas en calesita,
contemplaría más amaneceres, y jugaría con más niños…
si tuviera otra vez vida por delante.”

O poema “Epitáfio”, cantado pelos Titans, vai na mesma linha:

“Devia ter amado mais, ter chorado mais,
Ter visto o sol nascer…
Devia ter arriscado mais e até errado mais,
Ter feito o que eu queria fazer…

(…)

Devia ter complicado menos, trabalhado menos
Ter visto o sol se pôr…
Devia ter me importado menos com problemas pequenos
Ter morrido de amor…”

(O texto completo dos dois poemas estão publicados em meu blog).

Mas a tônica dos dois poemas pode ser resumida na frase de Horácio: carpe diem, quam minimum credula postero – aproveite o dia de hoje, porque no futuro não se pode confiar…

Quando vamos aprender?

A inteligência, como disse um colega meu, professor de filosofia da PUC-SP, requer uma certa dose de ociosidade – vagabundagem, mesmo – para prosperar. A criatividade, como disse um jornalista famoso que trata de educação, requer liberdade e uma certa dose de indisciplina – anarquia e bagunça, mesmo – para prosperar.

O senador Cristovam Buarque, com quem tive o privilégio de compartilhar uma mesa redonda no último dia 3 de maio, no IPEA, em Brasília, em encontro promovido pela UNESCO sobre Educação e Desenvolvimento: Integrando Políticas, sugeriu que devemos parar de pensar em crescimento econômico e pensar em decrescimento econômico, vida mais simples e frugal, redução de consumo, redução de produção… Menos, neste caso, pode ser mais: menor crescimento econômico, maior qualidade de vida, no sentido que realmente importa. Mas, para o Senador, precisa haver mais escola e mais tempo na escola :-( .

Será que, nesse espírito, seria uma heresia muito grande se eu propuser menos escola? Menos escola, e mais qualidade de vida, mais brincadeira, mais ociosidade, e mais aprendizagem, no sentido que realmente importa, que envolve mais inteligência e mais criatividade?

Ou será que o senador e eu somos, cada um a seu modo, sonhadores incorrigíveis?

Nossa Constituição diz que a educação (escolar, no caso – tente educar seus filhos em casa para ver como o Ministério Público vem atrás de você) é um direito de todos (Art. 6º). Diz também que a liberdade é um direito individual nosso. No entanto, obriga as crianças a frequentar a escola dos 7 (agora 6) aos 14 anos, e obriga os pais a colocarem os filhos na escola. O que era para ser um direito passou a ser um dever – para as crianças, uma sentença, a menos que ir para a escola se torne algo que lhes traga prazer, por permitir que, lá, elas encontrem o seu “elemento”.

Onde está Ivan Ilyich quando a gente mais precisa dele? Este ano faz 40 anos que ele escreveu A Sociedade sem Escolas (A Desescolarização da Sociedade). Ele morreu em 2002 – mas o seu livro, publicado no auge da contracultura e do movimento hippie, apesar de ter influenciado importantes pessoas, como John Holt, morreu antes. Na verdade, porém, e surpreendentemente, o livro é mais radical hoje do que quando foi publicado. A sociedade, em vez de se desescolarizar, como ele propunha e queria, está cada vez mais escolarizada. E o estabelecimento educacional acredita que criticar a escola é mais inadmissível do que profanar o nome da Santíssima Trindade. Illich, nas palavras de um resenhador, “vê na escola moderna um falso mito da salvação”. (Vide o texto completo do livro de Ivan Illich e a resenha mencionada, escrita por Justin Wyllie).

Semana que vem, Illich e as redes sociais. O artigo de hoje foi apenas um preâmbulo.

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Em São Paulo, 14 de Maio de 2011

Uma Homenagem a John Holt

Fuçando pela Internet sobre textos acerca de Ivan Illich (que será o foco de meu artigo de 16 de Maio no Blog das Editoras Ática e Scipione) encontrei o artigo abaixo, de Patrick Farenga, sobre John Holt e as origens do movimento contemporânea a favor da educação em casa – contra a educação na escola. Infelizmente, o artigo está em Inglês.

Resolvi transcrevê-lo aqui como minha homenagem a John Holt, um educador de quem gosto muito. Tenho todos os seus livros. Ele já morreu – em 1985, aos 62 anos. Mas deixou uma quantidade extensa de livros cheios de idéias que combinam originalidade e com senso.

O pensamento mais maduro de John Holt foi fortemente influenciado por Ivan Illich, como diz a seguinte passagem do artigo:

“But it was Ivan Illich’s Deschooling Society (1971) that most influenced Holt. After Deschooling Society appeared, Holt studied and corresponded with Illich at length, and was deeply influenced by Illich’s analysis, particularly with his analysis that school serves a deep social function by firmly maintaining the status quo of social class for the majority of students. Further, schools view education as a commodity they sell, rather than as a life-long process they can aid, and this, according to Illich, creates a substance that is not equally distributed, is used to judge people unfairly, and — based on their lack of school credentials — prevents people from assuming roles they are otherwise qualified for.”

John Holt também editou o que foi talvez o primeiro periódico em favor de educação em casa, fora da escola, chamado Crescendo Sem Escolarização (primeiro número em 1977).

O título dos últimos livros de John Holt, escritos depois de ele ter lido Ivan Illich (cujo livro Educação Sem Escolas data de 1971), indicam a direção de seu pensamento mais maduro. Os primeiros livros tentam explicar porque as crianças fracassam na escola – a razão sendo que as escolas não levam em conta como as crianças de fato aprendem.

Eis uma lista de livros de John Holt:

How Children Fail (1964) – Como as Crianças Fracassam

How Children Learn (1967) – Como as Crianças Aprendem

The Underachieving School (1969) – A Escola que não Faz o que Deve

What Do I Do Monday? (1970) – O que eu Faço na Segunda-Feira?

Freedom and Beyond (1972) – Liberdade e Além

Instead of Education: Ways to Help People Do Things Better (1976) – Em vez de Educação: Formas de Ajudar as Pessoas a Fazer as Coisas Melhor

Learning All the Time: How Small Children Begin to Read, Write, Count And Investigate the World, Without Being Taught (1989) – Aprendendo o Tempo Todo: Como Crianças Pequenas Começam a Ler, Escrever, Contar e Investigar o Mundo sem Ser Ensinadas

Aqui vai o artigo.

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http://mhla.org/information/resourcesarticles/holtorigins.htm

John Holt and the Origins of Contemporary Homeschooling

Patrick Farenga

Published in PATHS OF LEARNING: Options for Families and Communities http://www.great-ideas.org

Far from being a new idea, homeschooling has grown and developed over the centuries, and came into focus in the late 20th century as the forces of standardization and cultural homogenization took over schools and people sought alternatives to them. Homeschooling didn’t emerge from the vision or work of any one person, and it is not the province of any one political party. By focusing on the work of author and teacher John Holt though, one can trace not only a personal journey from school reformer to unschooler, but also an intellectual and educational legacy that led to homeschooling that is little reported by conservative and liberal media alike.

The sixties and seventies were times of great ferment for new ideas about education. Some education and social critics, like John Holt, became popular writers by questioning methods of schooling. The battles over look-say reading methods versus phonics, training teachers to be gentle facilitators or drill instructors, whether to encourage hands-on learning or test-taking skills, were well-worn battles to these writers even in the sixties. Many school reformers, such as Herbert Kohl, noted that it is a wide variety of methods, materials, schedules, and techniques that help children learn, and that the teacher should have the freedom to use any combination of things and ideas to help students. Further, some writers, such as A. S. Neill and Holt, suggested that the student should have complete freedom to choose how, when, and from whom they wanted to learn. In the early sixties, Paul Goodman, in Compulsory Miseducation and Growing Up Absurd, argued that compelling children to attend school is not the best use of their youth, and that education is more a community function than an institutional one. This idea was developed and amplified over the years by many authors, but most forcefully by John Holt.

John Holt was a fifth grade teacher who worked in private schools. In 1964, his book How Children Fail created an uproar with his observations that forcing children to learn makes them unnaturally self-conscious about learning and stifles children’s initiative and creativity by making them focus on how to please the teachers and the schools with the answers they will reward best, a situation that creates a fake type of learning. To paraphrase Holt, the only difference between a good student and a bad student is that the good student is careful not to forget what he studied until after the test is taken. His subsequent book, How Children Learn (1967), also became widely known. The two are still in print and together they have sold over a million and a half copies and have been translated into over 14 languages.

Holt went on to become a visiting lecturer at Harvard and Berkeley, but his tenure at both places was short-lived. Holt did not feel the school establishment was serious about change in the ways he wanted to go, such as changing the relationship of the child to the teacher and the school to the community. During this time Holt wrote two books about why he thought schools weren’t working and how they could be made better: The Underachieving School (1969) and What Do I Do Monday? (1970). Holt was intrigued by the free school movement of the late sixties and supported it as a way to help children who weren’t thriving in conventional schools. However, by the early seventies Holt developed reservations about free schools and proposed other ways to reunite living and learning.

In Freedom and Beyond (1972), Holt openly questioned and analyzed the free school movement, and in particular what educators really mean when they use the words freedom, discipline, authority, and choice. Most importantly, it is in this book that Holt decides that bringing more freedom into the classroom is not the solution to educational problems; he recasts the problem as a social one rather than a technical one. He writes:

People, even children, are educated much more by the whole society around them and the general quality of life in it than they are by what happens in schools. The dream of many school people, that schools can be places where virtue is preserved and passed on in a world otherwise empty of it, now seems to me a sad and dangerous illusion. It might have worked in the Middle Ages; it can’t work in a world of cars, jets, TV, and the mass media…. The beyond in the title Freedom and Beyond means, therefore, that we must look beyond the question of reforming schools and at the larger question of schools and schooling itself. Can they do all the things we ask them to do? Are they the best means of doing it? What might be other or better ways? (Freedom and Beyond, p. 4)

Other writers at this time also proposed ways to alter compulsory schooling. Hal Bennett wrote an operator’s manual in 1972 entitled No More Public School, which explains how you can take your child out of public school and educate him at home. In The 12-Year Sentence (1974), a collection of essays edited by William F. Rickenbacker, one of the writers proposed that gifted parents should be able to teach their own children if they wish. But it was Ivan Illich’s Deschooling Society (1971) that most influenced Holt. After Deschooling Society appeared, Holt studied and corresponded with Illich at length, and was deeply influenced by Illich’s analysis, particularly with his analysis that school serves a deep social function by firmly maintaining the status quo of social class for the majority of students. Further, schools view education as a commodity they sell, rather than as a life-long process they can aid, and this, according to Illich, creates a substance that is not equally distributed, is used to judge people unfairly, and — based on their lack of school credentials — prevents people from assuming roles they are otherwise qualified for.

By the late seventies Holt had given up on the possibility that schools would welcome and assist the sorts of changes he and others were suggesting. He sought ways to make these changes as individuals and communities, thus bypassing, rather than confronting, school resistance to these ideas. One tactic Holt wrote about was to fight for children’s rights — which he thought would not only help kids escape bad schools, but also help them escape bad social situations — by granting children the full protection and responsibilities of US citizenship. Holt’s Escape from Childhood: The Needs and Rights of Children (1974) continues to stir passions on both sides of the argument, particularly now that some of the scenarios Holt discusses, such as giving children the right to choose their own legal guardian, the right to control their own learning, and the right to legal and financial responsibility, have come into our courts twenty- five years later. A concept that runs throughout Holt’s work gets further developed in this book. Even though our institutions may not be the way we want them to be in order to bring about a better world, we can still act, in our daily lives, as far as we can, as if that world existed. For instance, we don’t have to wait for the courts to grant children the right of privacy for us to act as if they have a right to privacy. In this book, Holt also expands on his theme that it is not what children are taught, but how they are treated, that determines the sort of adult they will become. Holt continued to develop these ideas and practices in his next book, which led directly to his work in homeschooling.

In Instead of Education: Ways to Help People Do Things Better (1976), Holt not only described actual non-compulsory schools, learning centers, and informal learning arrangements in action, but also proposed

a new Underground Railroad to help children escape from S-chools. Some may say that such a railroad would be unfair, since only a few children could get on it. But most slaves could not escape from slavery, either, yet no one suggested or would suggest that because all the slaves could not be freed, none should be. Besides, we have to blaze a new trail if only so that others may follow. The Children’s Underground Railroad, like all movements of social protest and change, must begin small; it will grow larger as more children ride it. (Instead of Education, p. 218)

In this book, Holt proposed removing children from school legally or as an act of civil disobedience. While the education establishment barely recognized this particular book of Holt’s, it struck a chord with some parents. Some wrote to Holt explaining that they were teaching their children at home legally, others that they were doing so underground. Some were rural families, some city dwellers, others were in communes. Intrigued, Holt corresponded with them all and decided to create a newsletter that would help put these like-minded people in touch with one another. In August of 1977, the first issue of Growing Without Schooling (GWS) was published, and the nation’s, and probably the world’s, first periodical about homeschooling was born. Holt wanted to help bring about a social change not by writing about it from a distance while employed at a university or at a think tank, but by being engaged in action with like-minded people. It is, I feel, important to note that Holt never believed that more than a very small percentage of parents would homeschool even if it were a widely accepted practice, which is why he never gave up trying to help schools change. In her editorial comments in A Life Worth Living: Selected Letters of John Holt, Susannah Sheffer writes (p. 11) that during the last years of Holt’s life he was collecting material for a book about school reform, indicating that even though he had made conscious resolutions to stop trying to change what he could not change, he apparently never quite lost the hope that if shown the way more clearly we would do what needed to be done. Holt urged educators and parents to catch the spirit of unschooling, be inspired by the variety of approaches and methods homeschoolers show, and reconsider assumptions about schooling based on what ordinary parents, as well as some alternative schools, were doing with children. It is in this regard that Holt is so different from many education writers and school reformers. He never felt that only trained teachers should teach students. Holt never studied education in school, which he considered an advantage since his mind was thus not full of assumptions about what kids can and can’t do. He was a practitioner who learned from what worked and what didn’t, in his experience, and he felt very strongly that any concerned adult could do as well or better than he in this regard.

In this sense, his book Never Too Late: My Musical Autobiography (1978) is instructive, not only as a description of how an adult learns new things, in this case how to play the cello, but also as testimony against the view that one must become expert in something before one can truly love it and do it effectively with others. Holt (and we who heard him play!) knew he would never be in a league with Yo-Yo Ma, but that never stopped him from playing the cello. Likewise, Holt’s support of homeschooling parents, many of whom have never been professional teachers, is inspiring. Holt often wrote that there is no need to duplicate institutional teaching and assumptions in non-institutional settings, and he therefore saw no need to make parents anxious about their abilities to learn from their children how to best teach them. As long as children and parents communicate clearly, solutions can be found for all situations, utilizing family and community resources.

For instance, Holt wrote in the second issue of GWS about how a welfare mother who doesn’t know how to read can still teach her own kids by finding a child, relative, or friend who can teach them all to read. He cites various mass literacy programs used in a number of poor countries in which as fast as people learn to read they begin to teach others, as well as various schools whose policy of allowing older children to teach younger children to read has borne excellent results. He notes that reading, and teaching reading, are not a mystery. The schools, in teaching the poor (and the rich, too) that no one except a trained teacher can teach, have done them (and all of us) a great and crippling injury and wrong. Trained teachers are not trained in teaching, but in classroom management, i.e., in controlling, manipulating, measuring, and classifying large numbers of children. These may be useful skills for schools, or people working in schools. But they have nothing whatever to do with teaching — helping others to learn things.

The growth of homeschooling often led to strange bedfellows, or mixed allies as Holt referred to them in GWS:

Those who read GWS, and want to take or keep their children out of schools, may have very different, in some cases opposed reasons for doing this.

[For example], some may feel that the schools spend too much time on what they call the Basics; others that they don’t spend enough.

Some may feel that the schools teach a dog-eat-dog competitiveness; others that they teach a mealy-mouth Socialism.

Some may feel that the schools teach too much religion; others that they don’t teach enough, but teach instead a shallow atheistic humanism. I think the schools degrade both science and religion, and do not encourage either strong faith or strong critical thought.

What is important is not that all readers of GWS should agree on [the reasons for a family to homeschool], but that we should respect our differences while we work for what we agree on, our right and the right of all people to take their children out of schools, and help, plan, or direct their learning in the ways they think best.

Twenty-two years after Holt wrote that, more and more writers about homeschooling keep creating new ways to define themselves, since they agree only with bits and pieces of various practices. Some are uncomfortable with unschooling, since Holt asks parents to respect children and allow them freedom to pursue their intellectual interests (although he never dictates that they do so), particularly when these interests veer away from school subject matter; some prefer to literally do home school, with the national anthem sung each morning, six hours of school work with a break for recess, and so on. Other parents consider most of Holt’s ideas untenable, but like his life-long advocacy of using whatever works — with parental discretion — to help children learn. They refer to themselves as eclectic homeschoolers. Some will follow various curricula. Some purchase canned curricula and follow them to the letter; others purchase curricula and use them as broad outlines. Some homeschoolers work with private schools through the mail or the internet. Some prefer no label at all, daring you to capture the richness of their family life with a phrase.

As homeschooling has grown, so has the market for selling a variety of methods, philosophies, products, and services to homeschoolers. Some families prefer to develop communal resources rather than buying them; they join together to form homeschooling co-ops and learning centers in people’s homes or to share facilities, costs, and teachers for group instruction. The idea that we need to have one best way for all children to learn is effectively refuted by the diversity and growth of the homeschooling movement. But this was hardly enough for Holt. In 1983, he wrote, “A life worth living and work worth doing that is what I want for children (and all people) — not just, or not even, something called a better education” (A Life Worth Living, p. 266).

Holt presided over the slow but steady increase in subscribers to Growing Without Schooling, and in 1983 revised his two most popular books, How Children Learn and How Children Fail. Holt felt the revisions were needed in light of his work with homeschoolers. The changes made both books significantly different from their original printings, and Holt kept the original text alongside the newer text so that the reader can see the differences. Both books are worth reading on their own of course, but they also serve as demonstrations of Holt’s philosophy that living and learning are interrelated, that we learn more from our mistakes and successes than from tests and instruction, and that it is never too late to learn more about ourselves and the world in which we live.

In the late seventies and early eighties, Holt would often speak about homeschooling to small groups of parents. Often Holt would get a speaking engagement at a large university and when he was done there he would travel to speak to local homeschoolers in smaller venues, such as parks, homes, and small hotels. By the mid-eighties, large-scale (1000 or more attendees) homeschooling conferences began to spring up across the nation, but Holt would not be able to address them. In 1985, John Holt died of cancer at the age of 62. His final book, Learning All the Time: How Small Children Begin To Read, Write, Count And Investigate The World, Without Being Taught, which contains a lot of writing that Holt did for GWS, was published posthumously in 1989.

The history of homeschooling is still being written. Homeschooling continues to spread across the United States and other countries; as of this writing, GWS contains listings for homeschooling support groups in Canada, Ireland, England, France, Australia, Spain, South Africa, New Zealand, and Japan. Homeschooling is legal in all 50 states. One recent benchmark of homeschooling’s growing popularity is that Newsweek (October 5, 1998) ran a cover story about it with the headline, “More Than A Million Kids And Growing: Can It Work For Your Family?”

Some will argue that I assign Holt too big a place in the history of homeschooling, since others have influenced more people to actually undertake homeschooling than did Holt. I don’t dispute that others influenced the growth of homeschooling as much as, if not more than, Holt, particularly among religiously oriented homeschoolers. But John Holt does not only speak to the choir of would-be and current homeschoolers, political parties, or education theorists. His work speaks to adults and children in school as well as out; it addresses larger social concerns beyond school, and continues to inspire thousands of people from all walks of life.

Notes:

1. Unschooling was Holt’s neologism for describing what families were doing at home with their kids during school hours. He created this word in order to avoid giving the impression that families were merely creating miniature schools in their homes, as the word homeschooling connotes. However, Holt used unschooling and homeschooling interchangeably in his writing, and eventually felt that homeschooling, for better or worse, was the term most people would use when discussing the idea that one can learn without going to school.

2. In Instead of Education (p. 19), Holt uses the spelling S-chool to denote “[t]he schools for educators, which get and hold their students by the threat of jail or uselessness or poverty,” and s-chools to denote “[t]he schools for do-ers, which help people explore the world as they choose.”

Bibliography

Bennett, Harold. 1972. No More Public School. New York: Random House.

Holt, John. 1989. Learning All the Time: How Small Children Begin to Read, Write, Count And Investigate the World, Without Being Taught. New York: HarperCollins.

Holt, John. 1995. Freedom and Beyond. Portsmouth, NH: Heinemann.

Sheffer, Susannah, ed. 1990. A Life Worth Living: Selected Letters of John Holt. Columbus, OH: Ohio State University Press.

Holt, John. 1989. Instead of Education. Cambridge, MA: Holt Associates.

Rickenbacker, William F., ed. 1974. The 12-Year Sentence. LaSalle,
IL: Open Court.

Patrick Farenga worked closely with the author and teacher John Holt for four years, until Holt’s death in 1985. He is the President of Holt Associates Inc. and was the Publisher of Growing Without Schooling magazine (GWS) from 1985 until it stopped publishing in Nov. 2001.

Farenga and his wife homeschool three girls, ages 18, 15, and 12. In addition to writing for GWS for twenty years, he has authored and presented many articles, books, chapters, speeches, and workshops about homeschooling. His latest book is Teach Your Own: The John Holt Book of Homeschooling (Perseus, May 2003).

Farenga also appears in local and national newspapers, television and radio shows as a homeschooling expert. Farenga has addressed audiences about homeschooling and the work of John Holt throughout the United States, Canada, England, and Italy.

Farenga now works as a writer, speaker, and education consultant. He can be contacted through the website www.holtgws.com.

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Em São Paulo, 7 de Maio de 2011

Como Aplicar “O Elemento” à Aprendizagem Escolar

Transcrevo a seguir meu oitavo artigo no Blog das Editoras Ática e Scipione, que foi publicado ontem. Ele trata da aplicação do princípio que Sir Ken Robinson chama de “o elemento” à aprendizagem escolar.

O texto original foi publicado em:

http://blog.aticascipione.com.br/eu-amo-educar/como-aplicar-o-elemento-a-aprendizagem-escolar/

Infelizmente, porém, esse blog não existe mais.

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Como aplicar “o elemento” à aprendizagem escolar

No meu sexto artigo aqui neste blog, que teve o título de “O Elemento”, falei da necessidade de invertermos o nosso enfoque em relação ao trabalho. Em vez de trabalhar fazendo algo de que não gostamos, apenas para ganhar dinheiro que nos permita fazer, fora do trabalho (no fim do dia, nos fins de semana, nos feriados, nas férias, na aposentadoria), as coisas que realmente nos dão prazer, devemos descobrir e cultivar as coisas das quais realmente gostamos, que nos dão prazer, e que a gente faria por puro prazer, mesmo que ninguém nos pagasse para fazê-lo, e, daí, encontrar ou inventar formas de ganhar dinheiro, fazendo-as.

Neste artigo, o oitavo, queria aplicar esse princípio à aprendizagem escolar.

A escola básica é um ambiente em que crianças, adolescentes e jovens aprendem aquilo que é considerado necessário e importante para a sua educação, para o seu desenvolvimento. Em geral as crianças não têm grande interesse em aprender a maioria das coisas que a escola deseja e espera que aprendam. Por isso, o problema da motivação – na verdade, o problema da falta de motivação – acaba se tornando um dos maiores obstáculos para a aprendizagem dos alunos na escola.

Diante da ausência de motivação intrínseca por parte dos alunos (falta de interesse em aprender o que a escola deseja que aprendam), a escola procura motivá-los extrinsecamente. Aprender as coisas que ali são propostas, afirma-se, é necessário para arrumar um bom emprego e auferir uma boa renda, que, daí, lhes permitirá fazer as coisas em que realmente têm interesse – fora do horário de trabalho, nos fins de semana, nos feriados, nas férias, na aposentadoria… Bons professores tentam, muitas vezes, fazer as aulas divertidas, prazerosas, para compensar a falta de interesse dos alunos. Professores de cursinhos se tornam, em muitos casos, verdadeiros artistas de palco para motivar extrinsecamente os estudantes. Muitas vezes conseguem tornar a aula razoavelmente divertida e conseguem entretê-los relativamente bem – mas não conseguem que fiquem intrinsecamente interessados no que estão fazendo.

É possível, entretanto, encontrar uma solução melhor…

Se o currículo escolar, em vez de focar a assimilação de conteúdos informacionais disciplinares, focar o desenvolvimento de competências e habilidades básicas, é possível mudar o enfoque, de forma análoga à sugerida em O Elemento, o livro de Sir Ken Robinson – e resolver o problema da falta de motivação dos alunos para a aprendizagem.

Digamos que uma das competências previstas no currículo seja resolver ou solucionar problemas – problemas de vários tipos. O foco estará em construir métodos e técnicas para resolver diferentes tipos de problemas. Neste caso, é perfeitamente possível deixar os alunos escolherem em que problema, ou em que tipo de problema, querem trabalhar. Uma aluna pode querer descobrir se animais podem manter relacionamentos homossexuais. Outro aluno pode querer saber por que a temperatura está quente aqui no sul do Brasil quando está fria no norte dos Estados Unidos e da Europa, e vice-versa. Outra aluna pode estar interessada em saber por quanto tempo teria de olhar as crianças da vizinha para ganhar dinheiro suficiente para comprar uma bicicleta. Outro aluno pode querer saber como é que o trem do metrô consegue parar exatamente no lugar certo na estação mesmo sem ter um condutor. E assim vai.

Todos podem trabalhar nos problemas que lhes interessam – e, no entanto, todos vão aprender, se bem assistidos por um professor competente, os mesmos métodos e técnicas de solucionar problemas.

Em outras palavras, aborda-se a aprendizagem a partir dos interesses dos alunos, das coisas que eles já estão interessados em fazer, e daí se descobrem ou inventam maneiras de eles aprenderem, fazendo o que lhes interessa, os métodos e técnicas de solução de problemas que a escola deseja que aprendam. O problema da falta de motivação nem surge aqui.

Na Escola Lumiar de São Paulo, quando trabalhei lá, os alunos escolhiam as propostas em que queriam trabalhar – e, depois, a equipe pedagógica encontrava formas de estruturar os projetos de aprendizagem de modo que eles aprendessem também outras coisas importantes, enquanto faziam o que lhes interessava.

Certa vez os alunos escolheram, por votação, trabalhar com a preparação de alimentos. Queriam aprender a cozinhar, iniciativa que recebeu o grandioso nome de Projeto Gastronomia. O trabalho envolveu a preparação de diversas receitas, de sushi e sashimi, a churrasco, massas, saladas e diferentes tipos de sobremesa.

Enquanto preparavam os pratos, os alunos eram levados a contemplar questões de diversos tipos: por que em alguns alimentos colocamos sal e, em outros, açúcar? Como é que a gente sabe quanto sal deve colocar numa massa ou no arroz e quanto açúcar colocar na massa do bolo? Por que algumas coisas são medidas por xícaras, outras por colheres de sopa, outras por colheres de sobremesa? Não seria possível medir tudo em gramas? Por que alguns alimentos estragam mais rapidamente se ficarem fora do refrigerador? Por que alguns alimentos mofam? Por que ficamos com dor de barriga, ou ainda coisa pior, quando comemos comida estragada? Por que alguns alimentos fazem mal à saúde e outros são considerados sadios? Por que seus prazos de validade são diferentes? Por que as regiões ou países têm hábitos alimentares tão distintos? É sadio tomar leite não pasteurizado? Por que a maior parte dos indianos adota o vegetarianismo? Por que os judeus não comem carne de porco? Por que, tradicionalmente, católicos não comem carne na Quaresma? Por que se consome mais peixe na Semana Santa? Por que os japoneses (e tantos outros) gostam de carne crua? Por que gostamos mais de alimentos que ficam bonitos depois do preparo? A propósito, por que alguns tipos de carne diminuem de tamanho quando cozidas? Por que diferentes tipos de alimentos produzem cheiros diferentes durante seu preparo?

Provavelmente, se um professor tentasse fazer com que as crianças aprendessem as respostas a todas estas perguntas num outro contexto, elas achariam o aprendizado extremamente chato… Aqui, entretanto, quando estão fazendo o que escolheram fazer, tais questionamentos se encaixam bem.

Note-se que não se propõe aqui um anarquismo pedagógico, uma escola em que cada um aprenda o que quiser – inclusive nada, se assim for sua decisão. Defende-se aqui a necessidade de a escola ter uma proposta pedagógica e uma definição clara do que ela espera que seus alunos aprendam, daquilo que espera que os alunos saiam de lá sabendo e sabendo fazer. Mas há, isto sim, o reconhecimento do fato de que existem várias maneiras de aprender algo, e que é possível aprender a resolver problemas, por exemplo, ou a responder perguntas cuja resposta se desconhece, ou a fazer pesquisa, trabalhando com tópicos ou assuntos os mais diversos. Por isto, é perfeitamente possível deixar que os alunos trabalhem naquilo que lhes interessa e, ainda, aprendam o que a escola deseja – desde que o currículo da instituição esteja focado no desenvolvimento de competências básicas ao invés da assimilação de informações de natureza disciplinar, e desde que os professores sejam capazes de mediar o aprendizado desejado a partir dos interesses de cada um dos alunos.

O princípio, aqui, é o mesmo proposto no livro O Elemento, de Ken Robinson. Achar uma coisa que nos interessa, que queremos fazer, independentemente do aprendizado que ela possa propiciar, e daí descobrir ou inventar formas de desenvolver competências e habilidades importantes fazendo aquilo que queremos, de qualquer forma, fazer.

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Transcrito aqui neste blog Liberal Space em Brasília, 3 de Maio de 2011. (Revisto em Salto, em 29 de Agosto de 2022.)

Redes Sociais, Um Computador por Aluno e a Reinvenção da Escola

Transcrevo aqui o meu artigo de ontem no Blog das Editoras Ática e Scipione, que foi originalmente publicado em http://blog.aticascipione.com.br/eu-amo-educar/um-computador-por-aluno/.

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Volto, neste sétimo artigo da série, ao tema do primeiro: as Redes Sociais que se criaram a partir da chamada Web 2.0. E acrescento um tema novo: Um Computador por Aluno.

Encontrei uma passagem interessante sobre a Web 2.0 em um estimulante livro de Marc Prensky: Teaching Digital Natives: Partnering for Real Learning. Ele é a pessoa que criou e popularizou o uso das expressões “Nativo Digital” e “Imigrante Digital”. Só isso já lhe valeria um prêmio…

Mas eis o que Prensky diz sobre a Web 2.0:

É difícil, hoje, falar em tecnologia e escola sem mencionar os grandes benefícios da Web 2.0 para a aprendizagem. Caso você não saiba, o que as pessoas querem dizer por Web 2.0 é que, além de ser um meio (medium) em que se leem e se veem coisas (que, faz muito tempo, ela já é), a Web também é um meio (medium) em que qualquer um pode publicar seus textos, suas fotos, seus vídeos etc.

Também isso não é muito novo. O inventor da Web, Tim Berners-Lee, já disse, muitos anos atrás, que ‘aquilo que as pessoas colocam na Web é muito mais importante do que aquilo que elas retiram de lá’.

A Web 2.0 só assusta aqueles que enxergam a Web apenas como uma biblioteca, um lugar de ler e ver coisas. Quem ainda adota esse modelo da Web não tem sido capaz de perceber a evolução que vem ocorrendo nela.

O que acontece hoje é que ferramentas extremamente amigáveis permitem que qualquer um – inclusive os nossos alunos – publique seus textos, suas fotos, seus vídeos na internet, para o mundo inteiro ler e ver. Assim, qualquer aluno pode ser um editor (publisher) de seu trabalho.

A publicação do trabalho dos alunos é importante para o aprendizado, especialmente quando acompanhada de feedback dos que o leem ou veem o que foi publicado.

(…)

Os alunos devem ser encorajados a usar as ferramentas da Web 2.0, como blogs, wikis, YouTube, as Redes Sociais, etc., o mais possível. E todos devemos ficar à espreita, na espera da Web 3.0, a ‘web semântica’, em que a gente vai poder pesquisar qualquer coisa em qualquer trabalho jamais criado (texto, imagem, video etc.) e daí facilmente interligar (link) os resultados num novo trabalho.

A Web 3.0 está pertinho… Basta virar a esquina”.

o O o

Há escolas que, ainda hoje, proíbem seus alunos de entrar em suas dependências com telefones celulares – mesmo que não sejamsmartphones com acesso à internet. E há professores, e muitas outras pessoas que se julgam avançadas, que acham que esta proibição está certa.

Li, há algum tempo, um livrinho sobre Um Computador por Aluno (1:1 Computing), publicado por algumas das maiores empresas de tecnologia do nosso tempo. Nesse livrinho, ao mesmo tempo que se defendia a necessidade de que, nas escolas, cada aluno tivesse seu computador, e até mesmo pudesse levá-lo para casa ao fim da jornada escolar, tentava-se arrancar palmas de professores resistentes a essa medida dizendo algo mais ou menos assim (parafraseio de memória):

“O fato de cada aluno ter em mãos seu próprio computador não significa, professor, que você vai perder controle de sua sala de aula. A escola, e se ela não o fizer, você, no âmbito da sua sala de aula, deve estabelecer normas para uso dos computadores durante a aula. Você pode estipular, por exemplo, que enquanto você estiver falando, todos os notebooks ficarão obrigatoriamente com as tampas baixadas a um ângulo de 45 graus”.

Se empresas que se julgam avant garde na educação sugerem isso, o que não acontecerá nas salas de aula dos locais mais recônditos do país?

Mas esse cenário vai mudar.

Você já imaginou uma empresa que proíba seus funcionários de usar computadores conectados à internet dentro da empresa porque os funcionários podem desperdiçar seu tempo em Redes Sociais, lendo jornais, enviando mensagens para seus amigos, etc., ou porque o uso do computador na frente dos chefes é um gesto de desrespeito à sua autoridade?

Não faz sentido, não é mesmo? Nem na empresa, nem na escola.

Mas você já pensou, professor, o que vai fazer quando, em sua escola, todos os seus alunos tiverem acesso a um notebook conectado à internet 100% do tempo, contarem com autorização da administração da escola para utilizá-lo até mesmo dentro da sua sala de aula, criarem seus blogs, seus wikis, seus sites de desenhos, pinturas e fotos, seus sites de pequenos vídeos stop and motion, e estiverem ansiosos para abastecê-los com crônicas, contos, poemas, desenhos, pinturas, fotos e histórias em vídeo?

Será que você é daqueles que, ao contemplar um cenário desses, dá graças a Deus porque imagina que, quando isso acontecer, você já estará gozando sua merecida aposentadoria?

Ou será que você fica aliviado porque acredita que a administração de sua escola nunca vai permitir uma coisa dessas?

O futuro espera que você seja daqueles que contemplam esse quadro, refletem sobre ele, e dizem, com esperança: Imagine the possibilities!?

o O o

A  Web 1.0 ampliou, facilitou  e assim democratizou o consumo da informação. Nunca antes na história da humanidade se viu tanta informação sendo consumida como nos últimos anos do século XX e nos primeiros anos do século XXI.

A Web 2.0 está possibilitando, entretanto, que milhões de indivíduos se tornem produtores de informação – algo anteriormente limitado a uma minoria extremamente restrita. Hoje, o céu é o limite. Em princípio, nada impede que todo mundo se torne um produtor de informação – inclusive cada um de nossos alunos. E provavelmente os próximos anos serão anos dos quais venhamos a dizer que nunca na história da humanidade tanta gente produziu tanta informação de forma tão democrática…

Como disse Marc Prensky, a publicação dos trabalhos dos alunos na internet é importante para o seu aprendizado, especialmente quando acompanhada de feedback dos que o leem ou veem o que foi publicado. Paulo Freire ressaltou que aprendemos uns com os outros, num plano horizontal, bilateral ou multilateral, em comunhão, não em relações verticais, unilaterais, como a que prevalece entre professor e aluno na sala de aula. Na sala de aula, o professor fala, em geral sobre um assunto que o aluno não escolheu e em que não está interessado – o aluno é obrigado a ficar quieto e prestar atenção. Poucos ambientes são mais inadequados à aprendizagem do que esse.

A Web 2.0, com sua interatividade, com sua liberalidade, com a promiscuidade entre experts e iniciantes que ela permite nas Redes Sociais, se tornou, desta forma, um gigantesco “supermegahiper” ambiente de aprendizagem extremamente importante para o desenvolvimento dos alunos – muito mais importante, ouso dizer, do que as salas de aula de nossas escolas.

o O o

Meu querido amigo Les Foltos, criador do programa Peer Coaching(Aprender em Parceria, no Brasil), hoje distribuído no mundo inteiro pela Microsoft, uma vez contou a Mary Grace Andrioli (minha mulher, Paloma, e eu fomos testemunhas), o seguinte causo, acontecido nos primórdios da era dos blogs, quando a expressão Web 2.0 ainda nem existia. Um professor de Redação e Composição nas cercanias de Seattle resolveu estimular seus alunos de 11-12 anos a criar seus blogs e neles escrever sobre assuntos de seu interesse. O negócio virou uma febre, e os blogs dos alunos começaram a receber visitantes externos, que deixavam palavras de estímulo, faziam comentários e sugestões, ou, por vezes, criticavam um ou outro aspecto do que havia sido publicado.

O professor deixou claro para os alunos, porém, que esse trabalho com os blogs era, por assim dizer, e aproveitando um termo da teologia, supererrogatório: ficava além do que era necessário como trabalho obrigatório da classe e não deveria ser visto como um substitutivo para as exigências regulares. Assim sendo, surpreendeu-se um dia quando uma menininha, que era uma das melhores alunas da classe e sempre fora pontual na entrega dos deveres, lhe disse que não havia feito a tarefa de casa prescrita no dia anterior e que agora lhe era cobrada. O professor logo imaginou que a menina tivesse ficado doente, algo assim, para deixar de fazer seu dever. Mas surpreendeu-se ainda muito mais com a resposta da menina: “Professor, eu estava escrevendo uma coisa tão bacana no meu blog, que pensei assim: se eu parar de escrever isso para fazer a tarefa, dezenas, quem sabe centenas, de pessoas na internet não vão poder ler um artigo novo no meu blog. E elas normalmente deixam comentários e elogios. Se eu não fizer a minha tarefa, que só o professor lê, raramente comenta e quase nunca elogia, apenas ele ficará sem algo meu para ler e comentar. Diante disso, achei preferível não fazer a tarefa de casa.”

Dá pra entender? Bem, claro que dá para entender. Quem sabe no lugar dela a gente não faria o mesmo, não é verdade? Quem sabe a gente já não fez algo equivalente, em condições semelhantes, quando optou por fazer algo que dava mais satisfação e não o que era esperado e nos seria cobrado…

Mas o que faz um professor numa situação inusitada dessas? A menina não inventou uma desculpa qualquer que enganasse o seu professor. Podia muito bem tê-lo feito – tantos o fazem! Ela disse, na cara do professor, e com todas as palavras, que havia encontrado algo mais importante para fazer do que realizar para ele pequenos deveres de casa.

o O o

Meu amigo Glen Bull, diretor do Centro de Tecnologia e Formação do Professor da Faculdade de Educação da Universidade de Virgínia, em Charlottesville, VA, uma vez me contou um caso interessante sobre John Grisham, o famoso escritor de bestsellers, que mora ao lado de Charlottesville. Vendo a história pelo preço que paguei por ela… John Grisham, que é um filantropo batista muito interessado na educação, e que está rico com as vendas de seus livros e dos direitos de filmagem sobre eles, resolveu fazer uma proposta para a High School que fica perto de seu ranch. Daria um notebook para cada aluno e equiparia a escola com redes sem fio da última geração, bem como com acesso à internet da melhor qualidade, sob uma condição: a escola não deveria impor restrições ao uso dos notebooks pelos alunos, fora ou dentro da sala  de aula. Nada de tampa baixada num ângulo de 45 graus aqui.

A escola concordou. Aqui entre nós: que administrador de escola não concordaria?

Você já se imaginou, professor, nesse tipo de escola? Se você diz alguma coisa interessante, todos os alunos vão checar o que você disse na internet. Se algo não bate, você provavelmente vai ficar sabendo através de um nerdzinho ou de alguém que é amigo, no Facebook, de um grande especialista na área. Se você diz coisas que não são interessantes, você perde os alunos, que vão fazer outra coisa, não prestando mais atenção ao que você está dizendo.

E daí? Fazer o quê?

o O o

Um contexto escolar assim, em que cada aluno tem seu computador e tem acesso constante e de qualidade à internet, em especial à Web 2.0, dentro e fora da sala de aula, vai nos obrigar a repensar a educação escolar: será preciso reinventar a escola, talvez abandonar a ideia de aula e de sala de aula, recriar, quem sabe a partir do zero, o nosso ofício de mestre. A aprendizagem será 24/7/52: ela acontecerá vinte e quatro horas por dia, sete dias por semana, 52 semanas por ano – e ela será eminentemente horizontal, multilateral.

O quanto antes começarmos a pensar nisto, melhor.

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Em São Paulo, 26 de Abril de 2011

Ainda o Colégio da Embraer

Mais uma matéria sobre o Colégio da Embraer, esta retirada do site do Estadão. É mais recente do que a outra – 2009, mas curiosamente também do mês de Abril.

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http://www.estadao.com.br/noticias/vidae,1-colegio-eng-juarez-wanderley,362114,0.htm

Colégio Eng. Juarez Wanderley
São José dos Campos

29 de abril de 2009

Simone Menocchi

Fundado em fevereiro de 2002, o Colégio Engenheiro Juarez Wanderley, de São José dos Campos, já formou 1.100 alunos e se tornou referência no ensino gratuito de qualidade. A escola só aceita estudantes que cursaram os últimos quatro anos do nível fundamental na rede pública. Quem vem da rede particular não entra. É hoje a melhor escola do interior paulista, mantida pelo Instituto Embraer, que atua nas comunidades onde a fabricante brasileira de aviões mantém suas unidades: São José dos Campos, Gavião Peixoto e Botucatu. “É uma forma de retribuir tudo o que São José dos Campos e a região nos dá”, diz o diretor do instituto, Pedro Ferraz. A empresa tem planos de fazer uma nova escola em outra cidade.

A cada ano, aumenta mais a procura para o “colégio da Embraer”, como é chamado. Os estudantes são selecionados por meio de concurso administrado pela Vunesp (Vestibular da Universidade Estadual Paulista). A procura é grande. No ano passado foram 25 alunos por vaga.

“Quando chegamos aqui, o choque é grande, não só pela carga horária, mas pela forma como são colocadas as disciplinas”, afirma Jade Antunes Simões, de 17 anos. Já determinada em seguir carreira para administração de empresas e economia, a aluna do 3º ano aprendeu na escola a importância de se esforçar para conquistar a tão sonhada vaga no ensino superior. “Além das dez horas aula, chego em casa e estudo mais três horas. A responsabilidade é minha de passar no vestibular, de construir meu futuro.” O pensamento dela é o da maioria dos 600 alunos, que estudam dez horas por dia.

A média de ex-alunos que ingressaram numa universidade pública é de 80%. E todos passaram em pelo menos um vestibular. Os alunos ganham desde o transporte até o material didático, que se baseia no Sistema Pitágoras. Tudo é cedido pelo Instituto Embraer, que investe cerca de R$ 14 mil por ano por aluno. Depois que o estudante se forma, ele tem direito a receber uma bolsa de R$ 490 para se manter durante a faculdade. Há ainda parcerias feitas com empresas externas.

Para o diretor da escola, Jamerson Mansur Peixoto, os índices que os alunos do colégio da Embraer alcançam mostram que é possível resgatar o déficit de aprendizagem constatado hoje no País. “Há recursos para isso, mas é preciso que sejam bem geridos. O foco de toda população tem que estar na educação, é prioridade”, afirma.

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Em São Paulo, 19 de Abril de 2011

O Colégio Engo Juarez Wanderley da Embraer

Estive na quinta-feira passada (14/04/2011) no Colégio da Embraer. Voltei muito bem impressionado. Fui procurar coisas sobre o clégio na Internet e achei essa matéria da Veja de cinco anos atrás, quase no dia da visita: 12/04/2006.

Mais à frente vou tecer alguns comentários meus. Por enquanto, ficam os da revista.

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http://veja.abril.com.br/120406/p_126.html

Educação

O futuro a jato

Como um colégio gratuito, mantido pela Embraer, consegue colocar a maioria de seus  alunos – jovens carentes – na universidade

Rafael Corrêa

Foto de Fabiano Accorsi

 

Colégio Juarez Wanderley: no primeiro dia de aula, os alunos são recebidos com aplausos por professores e funcionários

O estudante Flávio José dos Santos Lima, de São José dos Campos, a 100 quilômetros de São Paulo, sempre foi um dos melhores alunos de sua classe. Na escola onde estudava, além de tirar as melhores notas, era instrutor do laboratório de informática. Mas, quando terminou o ensino fundamental, deparou com o problema que aflige milhões de alunos da rede pública. Ele sabia que precisava cursar um bom colégio para entrar na universidade, mas não tinha dinheiro para isso. Candidatou-se a bolsas de estudo em escolas particulares, mas não conseguiu uma que lhe desse um desconto compatível com o orçamento da família. “Aí, recebi uma das notícias mais felizes da minha vida”, conta. Flávio foi aprovado no processo seletivo do Colégio Engenheiro Juarez Wanderley, gratuito e mantido pela Embraer, uma das mais espetaculares histórias de sucesso entre os projetos destinados a auxiliar estudantes pobres no Brasil. Nos últimos dois anos, em média 95% dos alunos do Juarez Wanderley passaram no vestibular – 66% conseguiram entrar em universidades públicas. Esse alto índice de aprovação é equivalente ao das melhores escolas particulares do Brasil.

Criado quatro anos atrás, o Juarez Wanderley seleciona seus 600 estudantes entre os alunos mais aplicados das escolas públicas da região de São José dos Campos, onde fica a sede da Embraer. Nos períodos de seleção, há em média 27 candidatos para cada vaga. Ou seja, só entram no colégio aqueles que realmente se esforçam nos estudos e desejam subir na vida. Para esses, a escola oferece condições de ensino muito superiores às dos colégios públicos. São nove horas diárias de aulas, contra uma média de cinco nos estabelecimentos mantidos pelo Estado. Exige-se que os alunos leiam muito: cada um deles retira em média cinco livros por mês da biblioteca. Os principais professores do Juarez Wanderley não se equilibram em vários empregos, e sim dedicam-se exclusivamente ao colégio. Para ajudar na escolha profissional e mostrar exemplos a ser seguidos, a instituição promove freqüentes palestras com profissionais bem-sucedidos em sua área. A Embraer já investiu 27 milhões de reais em sua escola. Cada aluno custa 900 reais por mês. Na rede pública do estado de São Paulo, o investimento médio mensal em cada estudante é de 175 reais.

Foto de Fabiano Accorsi

O FÃ DE DOM QUIXOTE

Luis Fernando da Costa Oliveira, de 17 anos, sempre estudou em escolas mantidas pelo Estado. Antes de entrar no colégio Juarez Wanderley, achava que nem valeria a pena fazer vestibular. “A faculdade é uma realidade muito distante da escola pública, ela não existia nem em sonho para mim”, diz. Hoje, depois de passar em três universidades públicas e três particulares, optou pelo curso de engenharia aeronáutica. O colégio também lhe despertou o gosto pela literatura. Já leu obras clássicas como Os Miseráveis eDom Quixote

“O Juarez Wanderley é administrado como a própria Embraer: procura-se o máximo de resultados com os recursos disponíveis”, diz o engenheiro Luiz Sérgio Cardoso, diretor do Instituto Embraer de Educação e Pesquisa, órgão gestor da escola. Essa mentalidade empresarial se estende também à forma como os coordenadores e professores organizam suas atividades. Eles seguem um plano de metas a ser cumpridas com os alunos. Aplicam-se exames gerais para verificar o nível de aprendizagem. No ano passado, sentindo que tinham algumas deficiências para enfrentar a batalha do vestibular, os próprios estudantes do 3º ano pediram à direção três horas diárias a mais de aula. A preparação extra deu resultado. Muitos alunos conseguiram passar em mais de uma faculdade. É o caso de Luis Fernando da Costa Oliveira, 17 anos, aprovado no vestibular das três maiores universidades públicas paulistas. Acabou optando pelo curso de engenharia aeronáutica da Universidade de São Paulo (USP), em São Carlos. “Sempre gostei de ciências exatas, mas, depois que vi palestras com funcionários da Embraer, tive certeza de que queria trabalhar com aviões”, diz Luis Fernando. “Nossos alunos sabem que não terão uma segunda chance para passar no vestibular, porque não podem bancar cursinhos. Então, são mais responsáveis e se dedicam muito mais aos estudos”, comenta Maria Regina de Almeida Passos, diretora do colégio desde sua inauguração.

A oferta de ensino gratuito e de qualidade para os jovens de baixa renda é uma iniciativa pouco comum entre as empresas que investem em ações sociais. Além da escola da Embraer, há pelo menos outro caso de sucesso reconhecido: a Fundação José Carvalho, que há quase trinta anos oferece ensino básico às comunidades carentes de Pojuca, a 70 quilômetros de Salvador, e dos municípios vizinhos. Criada por um empresário local, José Carvalho, dono de uma empresa de metalurgia, a fundação conta com orfanatos, escolas de ensino fundamental, médio e técnico. Mesmo com uma estrutura mais enxuta que a do Juarez Wanderley – os alunos só recebem o ensino gratuito e o material didático –, o colégio da fundação é conhecido pela excelência no ensino. Ele adota um currículo extenso, que funciona como uma pré-universidade. Os estudantes fazem resenhas, artigos e ensaios como na faculdade e lêem dezenas de obras clássicas e contemporâneas. Só de história é indicada meia centena de livros por ano. “A maioria de nossos alunos não sente nenhuma dificuldade quando começa a estudar na universidade. Aqui, eles já estão no ritmo de ensino superior”, diz Jorge Ubiratan, professor de história do colégio. Em 2005, o índice de aprovação no vestibular dos estudantes do colégio José Carvalho foi de 85%. Cada aluno custa à fundação, por mês, 360 reais – contra uma média de 60 reais na rede pública da Bahia. “Comecei a fazer cursinho para reforçar o que estava aprendendo na escola, mas desisti no segundo mês. Percebi que, estudando em casa, com o material do colégio, lucraria muito mais”, diz Tiala Souza de Jesus, aluna do 3º ano.

Foto de Marco Lima

BORDADOS E MUITO ESTUDO

Desde pequena, a baiana Tiala Souza de Jesus, de 17 anos, mora com a avó em Catu, no interior da Bahia. Nas horas vagas, ajuda-a a fazer bordados para complementar o orçamento familiar. No resto do dia, cursa o 3º ano do colégio da Fundação José Carvalho, centro de excelência em ensino gratuito para jovens de baixa renda, e se prepara para o vestibular. “Meus amigos comentam que eu estudo demais. Mas sei que isso é necessário para o meu futuro”, diz. Tiala adora os projetos sociais coordenados pelo colégio e o efeito positivo que eles têm na comunidade. Ela já escolheu a carreira que vai seguir. “Quero fazer psicologia. Gosto de trabalhar com pessoas”

Segundo uma pesquisa da Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Econômico (OCDE), que avaliou recentemente o nível dos alunos de quarenta países, os brasileiros estão entre os piores do mundo, atrás dos tunisianos e dos indonésios. Isso mostra a diferença que iniciativas como a do Instituto Embraer e a da Fundação José Carvalho podem fazer para a comunidade em que atuam. “Essas escolas funcionam como um farol. A comunidade tem uma referência do que é um ensino de qualidade e pode cobrar uma melhora do próprio ensino público”, diz Ilona Becskeházy, diretora do Instituto Social Maria Telles (Ismart), entidade criada pela iniciativa privada para ajudar estudantes de baixa renda com bom currículo acadêmico. “Sem contar que esses colégios significam uma oportunidade real de quebrar o ciclo de pobreza, colocando os jovens pobres na universidade pública.”

Com reportagem de Lilian Carame

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Em São Paulo, 19 de Abril de 2011

“O Elemento” – A Propósito do Livro de Sir Ken Robinson

Há muitos anos assisti na TV a um filme antigo, daqueles em branco e preto, de cujo nome já me esqueci. Mas não me esqueci de um trecho do filme em que um personagem explica a outro o seguinte.

As pessoas, diz ele, em geral trabalham fazendo coisas de que não gostam, apenas para ganhar dinheiro que custeie as necessidades básicas da vida e, quem sabe, permita que, no tempo livre (à noite, nos fins de semana e feriados, nas férias, na aposentadoria), possam fazer aquilo que realmente gostam de fazer e que lhes dá prazer, satisfação e realização.

É muito difícil ser bem sucedido no trabalho, explicou ele, se a gente não gosta do que faz e, por conseguinte, trabalha sem nenhum prazer.

A chave do sucesso, continuou ele, está em descobrir o que a gente realmente gosta de fazer, e que faria por puro prazer, mesmo que ninguém nos pagasse para fazê-lo, e, daí, encontrar ou inventar formas de ganhar dinheiro fazendo aquilo.

Se conseguirmos realizar essa proeza, conclui sabiamente, passaremos a vida inteira sem sentir que estamos trabalhando, nunca precisaremos nos aposentar, e, possivelmente, seremos bem sucedidos e realizados na vida profissional e felizes na vida pessoal.

Sir Ken Robinson, educador britânico atualmente residindo nos Estados Unidos, é um fantástico palestrante e um grande escritor. Em suas palestras é, além de tudo, divertido (uma busca pelo seu nome no YouTube vai revelar inúmeras apresentações e entrevistas dele – todas excelentes. Recomendo especialmente o conjunto de duas palestras de quinze minutos – assista aos trechos aqui e aqui – em que ele denuncia o fato de que a escola frequentemente desvia as crianças daquilo que elas realmente gostam de fazer e assim mata a sua criatividade. Vale a pena assistir. Essas duas palestras estão legendadas para o português.

Neste artigo, porém, não vou comentar as palestras em vídeo de Ken Robinsonas, mas, sim, um livro dele, publicado em 2009 com o título de The Element: How Finding your Passion Changes Everything (O Elemento: Como sua Vida Pode Mudar se Você Encontrar sua Paixão). “Paixão”, no título, não se refere a amor romântico, naturalmente: refere-se ao que mencionei anteriormente: aquilo que realmente gostamos de fazer, aquilo que nos faz vibrar, aquilo que nos dá prazer sustentável – aquilo que faríamos por puro prazer, mesmo que ninguém nos pagasse nada para fazê-lo.

O livro de Ken Robinson discute, portanto, o mesmo assunto daquele trecho do filme antigo que me ficou na memória até hoje, apesar de visto há cerca de duas décadas.

O termo “elemento” não é fácil de entender e deve ser explicado. Robinson não gasta muito tempo nesse detalhe, de modo que a explicação é em grande parte minha.

Cada animal tem um elemento no qual vive naturalmente – no qual, digamos, se sente em casa. Para os pássaros, é o ar. Embora vivam bem na terra também, é no ar que parecem se realizar. Para os peixes, por outro lado, é a água. Para boa parte dos demais animais, e para nós humanos, o elemento é a terra. A terra é a nossa casa. (Também a Terra o é, mas aqui estamos falando na terra, com minúscula, algo que se contrasta com o ar e a água.)

O ser humano, porém, tem características especiais. Sua “programação genética”, por assim dizer, é relativamente aberta, o que lhe permite definir, no devido tempo, que tipo de indivíduo deseja ser. Mas ele nasce, segundo tudo indica, não uma tabula rasa, na qual qualquer coisa pode ser escrita, mas com certas características pessoais e capacidades ou aptidões naturais (como a de aprender) que o fazem único e inconfundível entre as espécies animais.

Para se desenvolver como ser humano, o bebê humano precisa, em interação com o seu meio social, cultural e natural, desenvolver capacidades adicionais, que são adquiridas ou construídas através da sua capacidade ou aptidão natural para aprender. A essas capacidades adquiridas ou construídas dá-se hoje o nome de competências. Uma competência é um conjunto de habilidades adquiridas ou construídas pela aprendizagem que permite ao ser humano fazer coisas que ele não sabe fazer naturalmente – como, por exemplo, falar uma linguagem verbal específica, ou ler e escrever o código escrito dessa linguagem.

No devido tempo, o ser humano precisa definir para si um projeto de vida: isto é, ele precisa decidir que tipo de vida quer ter ou levar, que tipo de pessoa gostaria de ser… O processo que chamamos de educação é, em última instância, um processo de desenvolvimento humano que abrange dois componentes:

  • Um é a definição da pessoa que realmente gostaríamos de ser e da vida que realmente gostaríamos de ter ou levar [isso seria nossa “paixão”, nosso “interesse maior”];
  • O outro é o aprimoramento de nossos talentos naturais e o desenvolvimento das competências necessárias para ser essa pessoa e viver essa vida [isso seria o nosso talento, em sentido amplo, não havendo, aqui, necessidade de distinguir o que seria inato e o que seria aprendido e, por conseguinte, adquirido]..

[Nessa visão da educação não somos nós, os educadores, que definimos o tipo de ser humano que queremos “formar”, mas, sim, a criança que escolhe que tipo de pessoa ela quer ser, vale dizer, que ela pretende tornar-se.]

Algumas competências básicas, como falar uma linguagem verbal, são essenciais para qualquer projeto de vida. No tipo de sociedade desenvolvida em que vivemos, ler e escrever o código escrito dessa linguagem também são competências essenciais para qualquer projeto de vida. Muitos argumentam que manejar tecnicamente as tecnologias digitais, e saber o que fazer com elas, também são competências essenciais aos seres humanos privilegiados que vivem no século 21, em que essas tecnologias estão por toda a parte.

Mas, depois dessa excursão a terreno próprio, voltemos ao livro de Sir Ken Robinson.

Ele não tem dúvida (e eu também não tenho, embora reconheça que essa questão, como qualquer outra, esteja aberta à discussão) de que todos nós nascemos com certas capacidades e aptidões naturais adicionais, isto é, além da capacidade ou aptidão de aprender. Normalmente chamamos essas capacidades ou aptidões adicionais de talentos naturais, ou dons – um dom é algo que nos é dado, que não fomos nós que adquirimos ou construímos. Uns têm o dom da comunicação verbal (oral ou escrita), outros o dom de lidar com números, outros o dom da música (que se desdobra em vários dons subsidiários), outros o dom da dança (que também se desdobra em vários dons subsidiários), outros o dom do esporte (que igualmente se desdobra em vários dons subsidiários), outros o dom da negociação e da resolução de conflitos, que desemboca, quando bem sucedida a sua aplicação, em acordos e consensos. E por aí se vai. 

Há cinco coisas importantes que precisam ser ditas acerca desses talentos naturais ou dons:

  • Primeiro, os talentos naturais ou dons dos seres humanos são incrivelmente variados e divergentes;
  • Segundo, todos nós temos algum talento natural ou dom – ou, em muitos casos, mais de um;
  • Terceiro, muitos de nós passamos a vida inteira sem descobrir quais são os nossos talentos naturais ou dons;
  • Quarto, mesmo quando os descobrimos, nada garante que venhamos a ter prazer no exercício de nossos talentos naturais ou dons;
  • Quinto, a escola é uma instituição convergente, oposta à diversidade, e, ao tentar vestir em todos nós a camisa de força da padronização e da uniformização, conspira contra a descoberta de nossos talentos naturais ou dons ou contra o exercício prazeroso e sem culpa deles.

O segundo desses itens pode parecer a alguns um artigo de fé, mas todo o trabalho que tem sido feito acerca do que Howard Gardner chama de “inteligências múltiplas” parece confirmar esse princípio.

Ao lado de nossos talentos naturais ou dons, todos nós – ou, talvez, a maioria de nós – tem uma paixão, pelo menos “umazinha”: alguma coisa que realmente gostamos de fazer, e que faríamos por puro prazer, mesmo que ninguém nos pagasse para fazê-la. Alguns, quem sabe, bafejados pela sorte, têm mais de uma paixão (nesse sentido que estamos usando o termo).

Como disse atrás, é possível ter talento natural ou dom para alguma coisa cujo exercício, entretanto, não nos dá nenhum prazer. O talento sem paixão pode até levar a razoável sucesso, mas não traz realização profissional e pessoal.

Por outro lado, muitos de nós somos apaixonados por coisas para as quais não temos muito talento natural ou dom. Todos nós conhecemos gente que adora cantar ou tocar violino mas acaba martirizando seus amigos com essa paixão sem talento. A paixão sem talento pode até trazer prazer e alguma realização pessoal, mas dificilmente leva à realização profissional e ao sucesso. (Neste caso, se a paixão é cantar, o banheiro, com a porta bem trancada e algum dispositivo de isolamento acústico, é um lugar bastante adequado para o exercício dessa paixão.)

O desafio, diz Sir Ken Robinson ecoando o personagem do filme antigo mencionado no início, é encontrar aquele ponto em que nossos talentos naturais ou dons e nossa paixão  (ou nossas paixões) convergem e finalmente se misturam. Quando o encontramos, estamos naquilo que ele chama de “nosso elemento”. 

Talvez este seja realmente um artigo de fé, mas se o procurarmos com afinco, e principalmente a escola e outras instituições sociais não nos atrapalharem, todos nós oportunamente encontraremos o “nosso elemento”. Infelizmente, às vezes tarde demais para nos valer alguma coisa significativa.

Como sou filósofo por formação, vou terminar vendendo meu peixe. Entre as atribuições da filosofia da educação está definir um conceito de educação. Faz uma diferença enorme – mas enorme, mesmo – qual é o nosso conceito de educação, e, portanto, o nosso entendimento da educação.

Se entendemos a educação como o fez o sociólogo francês Émile Durkheim (1858 – 1917), como o processo através do qual as gerações mais velhas “procuram suscitar e desenvolver, nas crianças, (. . .) [os] estados físicos, intelectuais e morais, reclamados pela sociedade política no seu conjunto e pelo meio especial a que a criança, particularmente, se destine”, nós vamos ver a função da escola de um jeito…

A educação, neste caso, é um processo que age de fora para dentro, é algo que as gerações mais velhas fazem com as mais novas, com o intuito de adaptá-las à vida social, em geral, e para as funções sociais específicas a que a criança particularmente se destine. Nesse caso, os talentos naturais ou os dons da criança – o seu potencial – pouco importam. Ela  tem de ser o que ela tem de ser.

Se entendemos a educação, entretanto, como o faz meu amigo Antonio Carlos, o Toninho, professor de educação básica em Campinas, que chega a dar aulas de História 60 horas por semana na escola pública, como o processo mediante o qual nos tornamos capazes de sonhar os próprios sonhos e competentes para transformá-los em realidade, nós vamos ver a função da escola de um outro jeito…

A educação, neste caso, é o processo que contribui para que encontremos o nosso elemento – e a escola, a instituição que busca promovê-lo, não coibi-lo ou cerceá-lo.

Fazendo a ponte com um artigo anterior, sobre ferramentas e brinquedos, quando estamos no nosso elemento, nossas ferramentas são também nossos brinquedos, e nossos brinquedos, as nossas ferramentas de trabalho.

E, neste caso, não faz sentido nenhuma outra educação que não a personalizada.

Transcrito aqui neste blog Liberal Space em São Paulo, 18 de Abril de 2011; revisto em Salto, 15 de Setembro de 2016; revisto novamente em Salto, 29 de Agosto de 2022. 

(Artigo originalmente publicado no Blog das Editoras Ática e Scipione, que não existe mais há muito tempo. O URL original era: http://blog.aticascpione.com.br/ — mas esse link, infelizmente, não existe mais.)

Tecnologia: Ferramentas e Brinquedos

[ NOTA ORIGINAL DO AUTOR (11.04.2011): O artigo a seguir foi publicado originalmente no Blog das Editoras Ática e Scipione, da empresa Abril Educação, então parte do Grupo Abril, em 11 de Abril de 2011, no URL http://blog.aticascipione.com.br.

[ NOTA ATUAL DO AUTOR (11.4.2021, dez anos depois da nota anterior): A empresa Abril Educação não existe mais, enquanto tal, e o blog mencionado na nota anterior foi fechado. Como, na mesma data em que publiquei o artigo no Blog das Editoras Ática e Scipione eu o publiquei, também, com a devida autorização da empresa, em meu blog Liberal Space, é esta a referência atual para o artigo: https://liberal.space/2011/04/11/tecnologia-ferramentas-e-brinquedos ]

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Em meu artigo inicial nesta série eu disse que iria usar, neste blog, uma definição bastante abrangente de tecnologia: tecnologia é tudo aquilo que o ser humano inventa para tornar sua vida mais fácil ou mais agradável.

Às invenções humanas que se destinam a tornar nossa vida mais fácil decidi dar o nome genérico de ferramentas; as invenções humanas que têm por objetivo nos dar prazer, tornar nossa vida mais agradável, resolvi chamar de brinquedos.

Uma classificação interessante da tecnologia, portanto, a divide nessas duas categorias: ferramentas (tools) e brinquedos (toys). Technology: tools and toys. Três palavrinhas interessantes iniciadas com a letra “t” em Inglês.

Os leitores dedicados de Rubem Alves, e há muitos, reconhecerão aqui a influência de sua tese de que a educação deve nos capacitar a criar e utilizar duas caixinhas: uma caixinha de ferramentas, cheia de coisas úteis, que nos ajudam a permanecer vivos, ou seja, a sobreviver, e uma caixinha de brinquedos, cheia de coisas inúteis, mas prazerosas, que nos dão as razões necessárias para querer permanecer vivos, posto que nos permitem fruir a vida.

O arado, o martelo, a chave-de-fenda são ferramentas. Também o são os utensílios domésticos (o fogão, a geladeira, a batedeira), que são chamados assim porque são úteis na casa. A penicilina, o aparelho de raio x, o tomógrafo, também estão nessa categoria. O quadro-negro, o giz, o lápis, o caderno, o livro, o retroprojetor (já esqueceram que isso um dia existiu?) – tudo isso é ferramenta. Também o é o mimeógrafo a álcool. Ele foi muito útil para muitos professores. Mas não conheci nenhum professor que derivasse prazer de sujar seus dedos de roxo com ele…

Uma pipa, um peão, uma bola, por outro lado, são brinquedos. Um aparelho de videogames também o é, sem dúvida. Lego também. Todas essas coisas são absolutamente inúteis em termos de nossa sobrevivência. Mas nos dão prazer. Um violino também é um brinquedo, porque dá prazer, a quem toca e a quem ouve.

É verdade que um violino pode ser também ferramenta de trabalho, caso seja usado por um músico profissional para ganhar a vida. O violino, nesse caso, passa a ser meio de vida. Mesmo assim, tocá-lo continua a dar prazer ao violonista, a maior parte das vezes – e ao público, que chega a pagar para ouvi-lo.

Um computador é uma tecnologia que pode ser tanto ferramenta como brinquedo, pois podemos trabalhar ou brincar com ele…

Nesse contexto é interessante levantar desde já a seguinte questão, com duas faces:

a) aprender é mais como trabalhar ou mais como brincar?

b) a tecnologia mais relevante para a educação é a tecnologia-ferramenta ou a tecnologia-brinquedo?

Nós, educadores, usamos várias tecnologias para educar. Usamos, naturalmente, o livro, mas usamos também o quadro negro, o giz, o lápis, a borracha, a caneta, o mimeógrafo, quem sabe até o retroprojetor, a máquina fotográfica, o projetor de slides, o toca-discos, o gravador e reprodutor de sons, a câmera de vídeo, o DVD player, o televisor, o projetor multimídia, o telão… Enfim, usamos uma quantidade enorme de tecnologias no nosso trabalho pedagógico.

Por que essas tecnologias apenas, e não também computadores, tablets e telefones celulares?

Por que somente essas e não o PSP, o DS/DSi/DX, o Wii e o Xbox Kinect?

Os telefones celulares são ferramentas. Falamos uns com os outros com eles, mandamos torpedos, verificamos e respondemos nossos e-mails, conferimos a programação do cinema na Internet, encontramos a rota para o nosso destino no trânsito…

Mas será que os celulares são apenas ferramentas? Pergunte a um adolescente qualquer se o telefone dele é apenas uma ferramenta. Claramente não é. Além de ferramenta, é brinquedo, é fonte de lazer e de prazer.

A maior parte dos professores é contra o uso do celular dentro da escola por quê? Por que ele é ferramenta? Mas há tantas dentro da sala de aula, a começar pelo livro, pelo caderno, pela esferográfica ou lapiseira!

Será que o celular não é proibido dentro da escola porque é (também) brinquedo, fonte de prazer, e a gente acha que educação é coisa séria?

Quando é que vamos reconhecer que, da mesma forma que aprendemos enquanto trabalhamos, podemos aprender, e muito, enquanto brincamos?

Será possível imaginar que o Wii e o Xbox Kinect um dia venham a adquirir direito de cidadania no ambiente escolar?

Vamos complicar a discussão um pouco. E a arte? A educação artística faz parte do currículo da maior parte das escolas de educação fundamental. Mas é bom lembrar o que disse Ana Ralston no lançamento dos sites de Mídia Social da Ática e da Scipione: tudo o que entra na escola a escola mastiga, digere, e transforma em escola… Será por isso que, na escola, a arte vira educação artística ou arteducação – e, no processo, perde a graça?

Será que ler Dom Casmurro e A Moreninha porque estão na lista de “livros paradidáticos” exigidos, ou na lista de livros que podem cair no Vestibular, é a mesma coisa que ler esses livros por prazer?

Participei uma vez, faz tempo, de um colóquio sobre Ensino a Distância no Ensino Superior na sede da Microsoft, em Redmond, perto de Seattle. Alguns professores universitários das melhores universidades do mundo estavam perplexos diante do enigma causado pelo fato de que estas duas premissas desse quase silogismo não produziam, na prática, o resultado esperado:

Jovens gostam de tecnologia

Ensino a Distância usa tecnologia

Logo…

Logo, jovens devem gostar de Ensino a Distância, certo? ERRADO. Jovens gostam de tecnologia para promover seus interesses, porque isso lhes traz satisfação, lhes dá prazer… Mas uma aula sobre um assunto que não tem interesse para eles continua a ser chata, ainda que faça uso da mais mirabolante tecnologia… Se a tecnologia é desconhecida, ela pode até despertar algum interesse no início, fruto mais da curiosidade do que do prazer – mas, assim que a tecnologia é dominada, o mistério desaparece e o interesse se esvai.

Acho que a frustração que muitos professores sentem ao tentar usar a tecnologia com seus alunos está no fato de que os professores veem a tecnologia mais como ferramenta (uma ferramenta de ensinar, ou de ajudar o ensino), enquanto os alunos a veem mais como brinquedo.

Voltando às perguntas feitas atrás:

a) aprender é mais como trabalhar ou mais como brincar?

b) a tecnologia mais relevante para a educação é a tecnologia-ferramenta ou a tecnologia-brinquedo?

Se prestarmos atenção ao processo que uma criança usa para aprender – para aprender a andar, a falar, a correr, a saltar, a pular corda, a fazer estrela, a andar de bicicleta, a pedalar no jogo de futebol, a nadar, a jogar um videogame difícil, a fazer um desenho ou uma pintura para adornar a mesa de trabalho da mãe, a consertar um brinquedo que quebrou, etc… – veremos que aprender, para ela, é muito mais afim ao brincar do que ao trabalhar.

Não é preciso reencantar a educação: ela já é encantada.

Consequentemente, a tecnologia mais relevante para a educação é a tecnologia-brinquedo, a tecnologia que a criança já gosta de usar fora do contexto escolar.

Mas é preciso tomar cuidado para que a escola não mastigue e digira a tecnologia, transformando-a em escola. Um livro chato lido num iPad continua a ser chato… O Podcast de uma aula, também. A tecnologia não é uma alquimia que transforma o chato em agradável, o indigesto em saboroso.

Mário Prata uma vez escreveu uma deliciosa crônica intitulada “As Meninas-Moça”. O texto está em http://www.marioprataonline.com.br/obra/cronicas/prata990407.html. Ele era torcedor do time de vôlei da Leites Nestlé (que fabrica o Leite Moça) – e, pelo jeito, até meio apaixonado por aquela jogadora alta e bonita, a Leila… Mas não o suficiente para não admirar também as pernas da Karim e outros atributos da Helena e da americana Tara.

Tempo depois, o Mário Prata escreveu uma outra crônica, intitulada “O que é isso, Ministro Paulo Renato?”. É impossível resumi-la. Por isso vou citar alguns trechos (mas você pode lê-la na íntegra em http://www.marioprataonline.com.br/obra/cronicas/prata990616.html):

Saber que uma crônica minha, publicada aqui neste espaço, foi tema da prova de português num vestibular para medicina só me envaidece. O ego dá um pulo. Melhor até mesmo que um elogio no The New York Times (sorry, mas eu tinha de contar).

A crônica imposta aos jovens se chama As Meninas-Moça. Publicaram a danada inteira e depois fizeram oito perguntas em forma de múltipla escolha.

E eu, que escrevi, que sou o autor, errei as oito.

Imagino os meninos e as meninas, que querem ser médicos, submetidos a tal dissecação.

Fico aqui me perguntando, ministro, pra que isso? Será que, para cuidar de uma dor de cabeça, um jovem tem de saber se a minha expressão “esparramados em seios esplêndidos” é uma paráfrase, uma metáfase, uma paródia, uma amplificação ou o resumo de um texto bem conhecido pelo cidadão brasileiro? Com toda a sinceridade, ministro da Educação Paulo Renato, você sabe me responder isso? Algum assessor seu sabe? . . .

O título da crônica do vestibular, já disse, era As Meninas-Moça e eu me referia ao time feminino de vôlei da Leites Nestlé, que ia acabar. Olha o que eles perguntaram aos alunos, sobre o título:

a – ao usar meninas-Moça, não flexionou no plural o segundo elemento porque criou um neologismo, processo que não se submete a normas da língua;

b – ao criar um novo vocábulo, não transgrediu as regras de flexão dos compostos;

c – usou uma flexão admissível porque o segundo elemento é um nome próprio feminino;

d – ao usar a expressão do composto, violentou a regra da língua que preconiza, para esse caso, a variação no plural para os dois elementos;

e – usou apropriadamente a forma meninas-Moça, visto que o segundo elemento tem função apositiva. . . .

E agora, meu querido ministro, só para terminar a aula, me diga, nas expressões abaixo, onde você identifica um exemplo de intertextualidade:

a – “… principalmente o feminino balé de braços, de loiras e altitudes mil”;

b – “Não, leite Moça foi feito para flanar esparramado em seios esplêndidos, chacoalhando no ar, jornadando até as estrelas”;

c – “Aquelas meninas-moças, todas voando pela quadra já fazem parte da latinha”;

d – “Embaixo, está escrito: indústria brasileira”;

e – “… que saem de dentro da lata como que convocadas pelos gênios das lâmpadas que iluminam.”

E agora, C, D, ou F?

O MEC, o patrão das escolas, desencantou o que era encantado. Mastigou, digeriu e transformou em escola a crônica do Mário.

O que precisa se tornar encantado é a escola. Não é o caso de reencantá-la. Não acredito que ela jamais tenha sido encantada. É uma pena. Mas ela precisa pelo menos aprender a não desencantar o que é encantado, a não tratar como ferramenta o que é brinquedo.

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Eduardo Chaves

Em São Paulo, 11 de Abril de 2011