Antonio Cândido Sobre o Direito de um Homem Ter uma Companheira e a Forma de um Homem se Divertir com as Mulheres 

Quero tecer dois comentários breves (OK, talvez, nem tanto…) quanto a uma entrevista de Antonio Cândido, disponível no YouTube, no seguinte endereço:

[https://www.youtube.com/watch?v=rvnuWlDcX8M

O vídeo foi extraído de um material mais amplo da TV Cultura, que pode ser visto, também no YouTube, em:

[https://www.youtube.com/watch?v=Xv0Z_8DFjmE]

Infelizmente, não tenho a data da gravação do material original.

O vídeo foi postado no Facebook por minha amiga Priscila Gonsales (Prigon), em 12 de Maio de 2017, que o honrou com o seguinte comentário:

“E viva a ‘ética da transgressão’ e da alegria! #AntonioCândico [sic] e seu legado! <3”

[https://www.facebook.com/priscila.gonsales/posts/10211637460045542]

Minha mulher, Paloma Epprecht e Machado de Campos Chaves (Pa), comentou o vídeo e o comentário da Priscila Gonsales, já no dia 13 de Maio, dizendo:

“Eu gosto da ideia da ética da transgressão… Gosto muito, mesmo! Mas não me soaram muito agradáveis dois aspectos de sua fala: quando ele se refere ao “direito” de todo homem de ter uma companheira (não creio que seja um direito, mas uma possibilidade que ele precisa conquistar, pois envolve o querer de outra pessoa); e na citação que ele faz do filme de Renoir, em que a mulher aparece em uma posição meio vulnerável, manipulável, em relação ao homem… Ok… Posso estar exagerando… Mas senti isso…” [há um emoticon ao final que não consigo transcrever fielmente aqui].

A esse comentário da Paloma a Priscila retorquiu com o seguinte comentário, também no dia 13 de Maio:

“Minha leitura não foi essa, Pa, achei leve, bem humorado, mas entendo seu ponto, hoje em dia muitos autores, compositores, pintores, escritores (incluindo Monteiro Lobato) causariam muita polêmica!”

Meus comentários originais, transcritos em Apêndice, ao final, podem ser encontrados em:

[https://www.facebook.com/eduardo.chaves/posts/10155226795527141]

[https://www.facebook.com/eduardo.chaves/posts/10155226848952141]

Este artigo é uma elaboração revista dos meus dois comentários originais, dando a eles o tom de um artigo sobre a questão — artigo esse que esclarece o teor de minha conversa com a Paloma depois de ambos vermos o vídeo.

O primeiro comentário é sobre o que, de acordo com Antonio Cândido, está envolvido no que ele chama de “ética da transgressão. O segundo está envolvido no que ele chama de “ética da alegria”.

1. ANTONIO CÂNDIDO E A ASSIM CHAMADA “ÉTICA DA TRANSGRESSÃO”

Sobre a “ética da transgressão” Antonio Cândido alega a existência de um direito que, felizmente, ainda não foi incluído na “Constituição Cidadã” (expressão com que Ulysses Guimarães batizou a Constituição Brasileira de 1988):

“O direito que todo homem tem de ter sua companheira”.

Considero absurda a afirmação desse suposto direito (que, na realidade, efetivamente inexiste e não deveria nem sequer ser cogitado).

Só pode dizer um absurdo desses quem está definitivamente contaminado pela visão de que os direitos humanos incluem (além dos direitos individuais negativos que todo liberal clássico defende) também direitos positivos, em geral chamados de sociais (embora incluam igualmente os econômicos). Com a existência desses direitos positivos nenhum liberal clássico concorda.

Os direitos individuais negativos são negativos porque não impõem, sobre as demais pessoas, nenhuma obrigação positiva de agir, de fazer alguma coisa, mas, sim, apenas a obrigação negativa de não agir, de não fazer nada, não interferindo, portanto, com o seu exercício. Assim são os direitos de ir e vir, de fazer associações para fins lícitos, etc. Assim também é o direito de buscar a felicidade — que nunca foi um direito de alcançar a felicidade, de apossar-se dela, ou seja, um direito de ser feliz, que seria um direito positivo.

Os chamados direitos sociais positivos são positivos porque eles impõem obrigações sobre as demais pessoas. Se eu tenho direito a uma moradia, alguém tem a obrigação de me prover essa moradia; se eu tenho o direito de estudar em uma escola, ou de ser tratado em um hospital, alguém tem a obrigação de me prover essa escola e esse hospital. Como quase ninguém faz isso se não for obrigado, o dever acaba por recair (por default) sobre o estado, que, tendo o monopólio no uso inicial da força e da coerção, obriga parte da população a fornecer moradia (“Minha casa minha vida”), escola (pública) e hospital (do SUS) para os demais que necessitam, ou afirmam necessitar, desses bens e serviços e não podem pagar por eles ou não estão dispostos a fazê-lo. É por isso que, até bem pouco tempo, a cidade de São Paulo escrevia nos ônibus: “Transporte, direito do cidadão, dever do estado”. Os cidadãos que não usam ônibus nunca foram consultados se estavam de acordo em pagar ou subsidiar o custo do transporte público dos demais. Se esses cidadãos, por iniciativa própria, deduzissem de seu IPTU (município) ou de seu IPVA (estado) uma pequena parcela que fosse, do valor total, para se reembolsar do custo do transporte de terceiros que estava assumindo ou subsidiando, seriam presos.

Só uma pessoa assim contaminada por essa nefasta ideologia que ainda nos assola diria:

  1. todo homem [todo ser humano] tem direito de ter uma casa — concluindo que, logo, o estado tem o dever de criar políticas públicas para prover moradias para todos, ou, pelo menos, para todos os que se acham necessitados de moradia, sem poder ou querer pagar por ela com recursos próprios;
  2. todo homem [todo ser humano] tem direito a ter educação, saúde, etc — concluindo que, logo, o estado tem o dever de criar políticas públicas para prover escolas, clínicas, laboratórios, hospitais, etc. para todos, ou, pelo menos, para todos os que se acham necessitados dessas coisas, sem poder ou querer pagar por elas com recursos próprios.

Mesmo dentro dessa visão de que existem direitos positivos ou sociais (que aqui admito apenas ad argumentandum, por amor ao argumento, posto que dela discordo totalmente), não faz o menor sentido afirmar que todo homem tem direito a uma companheira. Nos casos anteriores (moradia, educação, saúde, etc.), aos supostos direitos corresponde sempre um suposto dever: o dever do estado. Mas e aqui? Se o homem tem direito a uma companheira, e não consegue arrumar uma por si só, quem vai prover-lhe essa companheira? O estado? O estado vai caçar alguma mulher para atender ao presumido direito do dito cujo? Vai sortear mulheres disponíveis entre os homens necessitados ou simplesmente desejosos de uma companheira? Não faz o menor sentido.

Antonio Cândido nem sequer contempla a possibilidade de que a mulher pode não querer participar desse arranjo, seja por não querer ser companheira de ninguém, seja por preferir ser companheira de outro homem (ou de vários, simultaneamente — a poligamia está às portas), seja por preferir ser companheira de outra mulher (ou de várias, simultaneamente — o casamento gay e o “poliamor multigênero” está por aí), e não daquele homem específico ao qual o estado, através de seus burocratas, pretende lhe destinar… Esses, sim, são direitos reais e legítimos que uma mulher poderia postular, pois são negativos e, assim, não impõem dever positivo a ninguém — só o dever (dos outros e do estado) de não se meter na questão. A mulher (se for liberal clássica) pode simplesmente preferir que o estado não se meta em sua vida nem que seja para arrumar-lhe um companheiro, achando que, tendo ela interesse na coisa, procurar um companheiro é direito individual dela, que ela pode ou não exercer, e que, se optar por exerce-lo, ninguém, a não ser ela, tem direito, muito menos dever, de se meter no processo ou de definir-lhe parâmetros.

É verdade que Antonio Cândido diz o que diz no contexto de uma referência ao celibato clerical, propondo, como se fosse um incendiário 500 anos atrasado em relação a Lutero (daí a “ética da transgressão”), que padres e monges deveriam simplesmente sair por aí se casando, a despeito da proibição da igreja. Mas foi isso que Lutero fez em 1525 (e tantos outros reformadores antes dele, como Karlstadt, e depois dele). O direito que Lutero afirmou foi o direito de todo homem, querendo, procurar uma mulher que queira se casar com ele e, encontrando-a, e estando ambos de acordo, casarem-se os dois. Ele nunca afirmaria que “todo homem tem direito de ter uma companheira”, e que, por causa disso, o Papa, ou o Eleitor da Saxônia, ou seja lá quem fosse, teria o dever de arrumar-lhe uma.

Essa “ética da trangressão” de Antonio Cândido é muito mais velha do que os 98 anos com que ele morreu.

2. ANTONIO CÂNDIDO E A ASSIM CHAMADA “ÉTICA DA ALEGRIA”

Agora quanto à suposta “ética da alegria”.

A passagem de Jean Renoir, retirada do roteiro do filme La Règle du Jeu (A Regra do Jogo, de 1939; Renoir foi, além de diretor, co-roteirista do filme), que Antonio Cândido cita de memória é:

“Moi, Monsieur le Marquis, quand j’ai une femme,
je la fais tout d’abord rigoler,
parce quand une femme rigole,
vous avez ce que vous voulez d’elle”.

Tradução:

“Quanto a mim, Senhor Marquês, quando estou com uma mulher,
eu faço antes de tudo que ela se divirta,
porque, quando uma mulher está se divertindo,
você consegue dela qualquer coisa que você quer”.

Na verdade, o que a frase original afirma, na segunda parte, é algo um pouquinho diferente:

“Parce que quand une femme rigole,
elle est désarmée,
vous en faîtes ce que vous voulez!”

Tradução:

“Porque, quando uma mulher está se divertindo,
ela fica desarmada,
e diante disso [“en”] você faz o que quer [com ela]”.

A frase citada por Antônio Cândido dá a impressão de que, porque a mulher está se divertindo, você consegue que ela consinta fazer qualquer coisa que você quer dela ou que você quer fazer com ela. A frase no original [que, admito, não é muito melhor], afirma que, estando a mulher a se divertir, você, diante desse fato, faz o que você quer que ela faça.

De qualquer forma, a frase é horrorosa, em qualquer das duas versões. Para que vejam quão horrorosa, basta substituir a primeira parte dela com esta variante:

“Quanto a mim, Senhor Marquês, quando estou com uma mulher,
eu a faço antes de tudo que ela se embebede,
porque, quando uma mulher fica bêbada,
você consegue dela qualquer coisa que você quer”.

Feministas, que acharam bonitas as afirmações do doce e simpático Antonio Cândido, que irão dizer, agora, de sua “ética da transgressão” e da sua “ética da alegria”?

3. BREVE CONCLUSÃO

  1. Todo homem tem direito a ter uma companheira, sem que as potenciais companheiras se manifestem de acordo? Evidentemente que não.
  2. Todo homem tem direito de se divertir, se simplesmente presume que a companheira que ele arrumou está se divertindo também, ou, pior, se presume que ela não tem condições de se manifestar explicitamente de acordo — ou contra? Evidentemente que não.
  3. Por que é que há pessoas, em especial mulheres, e mulheres inteligentes e engajadas em causas que defendem os direitos das mulheres, que louvam as besteiras defendidas por Antônio Cândido nesse vídeo, em vez de sentirem ultrajadas por elas? Só porque ele é um ícone da esquerda, supostamente bem-humorado? Deixo a pergunta aos leitores — não me cabe tentar respondê-la aqui.

4. APÊNDICE

Acrescento este Apêndice, apesar de ele ser em grande parte redundante, apenas para deixar registrado o Sitz im Leben do artigo ao qual ele é acrescentado.

A. Primeira parte de material original que resultou nesse artigo, retirado do Facebook, na data de 13 de Maio de 2017:

[https://www.facebook.com/eduardo.chaves/posts/10155226795527141]

ANTONIO CÂNDIDO – 1 (continua com ANTONIO CÂNDIDO – 2)

Compartilho, via Paloma Epprecht Machado Campos Chaves e Priscila Gonsales. Vou comentar abaixo.

[PS: Tentei coloca-lo abaixo, mas não consegui. Acrescentei-o como novo post, a seguir. EC]

A Paloma fez o seguinte comentário:

“Eu gosto da ideia da ética da transgressão… Gosto muito, mesmo!

MAS, não me soaram muito agradáveis dois aspectos da fala de Antonio Cândido.

1 – Quando ele se refere ao DIREITO de todo homem de ter uma companheira… Não creio que seja um direito, mas uma possibilidade. Afinal, como me lembrou o Eduardo Chaves, aqui do meu lado, todo direito pressupõe uma obrigação. Alguém precisa garantir esse direito. E, em se tratando de relacionamentos, não existem garantias, obrigações, pois envolve o querer de outra pessoa; e

2 – A citação que ele faz do filme de Renoir, denota uma INTENÇÃO de ‘divertir’ a mulher para ‘desarmá-la’, deixando-a em uma posição vulnerável, manipulável… Ok, é natural que em um ambiente divertido as pessoas se desarmem e convivam de forma mais leve e harmoniosa. Mas a intencionalidade, nesse caso, pode trazer uma conotação meio desagradável…

Tá bom… Posso estar exagerando…”

Em São Paulo, 13 de Maio de 2017 (data do meu primeiro comentário)

B. Segunda parte de material original que resultou nesse artigo, retirado do Facebook, na data de 13 de Maio de 2017:

[https://www.facebook.com/eduardo.chaves/posts/10155226848952141]

ANTONIO CÂNDIDO – 2 (continuação de ANTONIO CÂNDIDO – 1)

Nota Preliminar: Comentário que tentei postar no post anterior, como comentário, e não consegui. O post comentado é o compartilhamento que a Paloma fez de um post da Priscila Gonsales que, por sua vez, era um vídeo de um pouco mais de 2,5 minutos do Antonio Cândido, recém falecido.

O vídeo está disponível em:

[https://www.youtube.com/watch?v=rvnuWlDcX8M]

o O o

Dois comentários breves (OK, talvez, nem tanto…) quanto à entrevista de Antonio Cândido, que esclarecem o que eu conversei com a Paloma depois de ver o vídeo. O primeiro comentário é sobre o que, segundo ele, está envolvido no que chama de “ética da transgressão; o outro, está envolvido no que chama de “ética da alegria”.

Sobre a “ética da transgressão” Antonio Cândido alega a existência de um direito que, felizmente, ainda não foi incluído em nossa “Constituição Cidadã” (expressão com que Ulysses Guimarães a batizou):

“O direito que todo homem tem de ter sua companheira”.

Considero absurda a afirmação desse suposto direito (que, na realidade, efetivamente inexiste e não deveria nem sequer ser cogitado).

Só pode dizer um absurdo desses quem está definitivamente contaminado pela visão de que os direitos humanos incluem (além dos direitos individuais negativos que todo liberal clássico defende) também direitos positivos, em geral chamados de sociais (embora incluam igualmente os econômicos). Com a existência desses direitos positivos nenhum liberal clássico concorda.

Os direitos individuais negativos são negativos porque não impõem, sobre as demais pessoas, nenhuma obrigação positiva de agir, de fazer alguma coisa, mas, sim, apenas a obrigação negativa de não agir, de não fazer nada, não interferindo, portanto, com o seu exercício. Assim são os direitos de ir e vir, de fazer associações para fins lícitos, etc. Assim também é o direito de buscar a felicidade — que nunca foi um direito de ter a felicidade, ou de ser feliz, que seria um direito positivo.

Os direitos sociais positivos são positivos porque eles impõem obrigações sobre as demais pessoas. Se eu tenho direito a uma moradia, alguém tem a obrigação de me prover essa moradia; se eu tenho o direito de estudar em uma escola, ou de ser tratado em um hospital, alguém tem a obrigação de me prover essa escola e esse hospital. Como quase ninguém faz isso se não for obrigado, o dever acaba por recair (por default) sobre o estado, que, tendo o monopólio no uso da coerção e da força, obriga parte da população a fornecer moradia (“Minha casa minha vida”), escola (pública) e hospital (do SUS) para os demais que necessitam, ou afirmam necessitar, desses bens e serviços. É por isso que, até bem pouco tempo, a cidade de São Paulo escrevia nos ônibus: “Transporte, direito do cidadão, dever do estado”. Os cidadãos que não usam ônibus nunca foram consultados se estavam de acordo em pagar ou subsidiar o custo do transporte público dos demais. Se esses cidadãos deduzissem de seu IPTU (município) ou de seu IPVA (estado) uma parcelinha que fosse, do valor total, para se reembolsar do custo do transporte de terceiros que estava assumindo ou subsidiando, seriam presos.

Só uma pessoa assim contaminada por essa nefasta ideologia que ainda nos assola diria:

  1. todo homem [todo ser humano] tem direito de ter uma casa — concluindo que, logo, o estado tem o dever de criar políticas públicas para prover moradias para todos, ou, pelo menos, para todos os que se acham necessitados de moradia;
  2. todo homem [todo ser humano] tem direito a ter educação, saúde, etc — concluindo que, logo, o estado tem o dever de criar políticas públicas para prover escolas, clínicas, laboratórios, hospitais, etc. para todos, ou, pelo menos, para todos os que se acham necessitados dessas coisas.

Mesmo dentro dessa visão de que existem direitos positivos ou sociais (que aqui admito apenas ad argumentandum, por amor ao argumento, posto que dela discordo totalmente), não faz o menor sentido afirmar que todo homem tem direito a uma companheira. Nos casos anteriores (moradia, educação, saúde, etc.), aos supostos direitos corresponde sempre um suposto dever: o dever do estado. Mas e aqui? Se o homem tem direito a uma companheira, e não consegue arrumar uma por si só, quem vai prover-lhe essa companheira? O estado? O estado vai caçar alguma mulher para atender ao presumido direito do dito cujo? Vai sortear mulheres disponíveis entre os homens necessitados (e desejosos) de uma companheira? Não faz o menor sentido.

Antonio Cândido nem sequer contempla a possibilidade de que a mulher pode não querer participar desse arranjo, seja por não querer ser companheira de ninguém, seja por preferir ser companheira de uma outra mulher (ou de várias, simultaneamente — poliamor está por aí), e não de um homem (ou de vários)… Esses, sim, são direitos reais e legítimos que uma mulher poderia postular, pois são negativos e, assim, impõem dever positivo a ninguém — só o dever (dos outros e do estado) de não se meter na questão. A mulher (se for liberal clássica) pode simplesmente preferir que o estado não se meta em sua vida nem que seja para arrumar-lhe um companheiro, achando que, tendo ela interesse na coisa, procurar um companheiro é direito individual dela, que ela pode ou não exercer, e que, se optar por exerce-lo, ninguém, a não ser ela, tem direito, muito menos dever, de se meter no processo.

É verdade que Antonio Cândido diz o que diz no contexto de uma referência ao celibato clerical, propondo, como se fosse um incendiário 500 anos atrasado em relação a Lutero (daí a “ética da transgressão”), que padres e monges deveriam simplesmente sair por aí se casando, a despeito da proibição da igreja. Mas foi isso que Lutero fez em 1525 (e tantos outros reformadores antes e depois dele). O direito que Lutero afirmou foi o direito de todo homem, querendo, procurar uma mulher que queira se casar com ele e, encontrando-a, e estando ambos de acordo, casarem-se os dois. Ele nunca afirmaria que “todo homem tem direito de ter uma companheira”, e que, por causa disso, o Papa, ou o Eleitor da Saxônia, ou quem de direito, teria o dever de arrumar-lhe uma.

Essa “ética da trangressão” de Antonio Cândido é muito mais velha do que os 98 anos com que ele morreu.

Agora quanto à suposta “ética da alegria”.

A passagem de Jean Renoir, retirada do roteiro do filme La Règle du Jeu (A Regra do Jogo, de 1939; Renoir foi, além de diretor, co-roteirista do filme), que Antonio Cândido cita de memória é:

“Moi, Monsieur le Marquis, quand j’ai une femme,
je la fais tout d’abord rigoler,
parce quand une femme rigole,
vous avez ce que vous voulez d’elle”.

Tradução:

“Quanto a mim, Senhor Marquês, quando estou com uma mulher,
eu faço antes de tudo que ela se divirta,
porque, quando uma mulher está se divertindo,
você consegue dela qualquer coisa que você quer”.

Na verdade, o que a frase original afirma, na segunda parte, é algo um pouquinho diferente:

“Parce que quand une femme rigole,
elle est désarmée,
vous en faîtes ce que vous voulez!”

Tradução:

“Porque, quando uma mulher está se divertindo,
ela fica desarmada,
e diante disso [“en”] você faz o que quer”.

A frase citada por Antônio Cândido dá a impressão de que, porque a mulher está se divertindo, você consegue que ela consinta fazer qualquer coisa que você quer dela. A frase no original [que, admito, não é muito melhor], afirma que, estando a mulher a se divertir, você, diante desse fato, faz o que você quer que ela faça.

De qualquer forma, a frase é horrorosa, em qualquer das duas versões. Para que vejam quão horrorosa, basta substituir a primeira parte dela com esta variante:

“Quanto a mim, Senhor Marquês, quando estou com uma mulher,
eu faço antes de tudo que ela se embebede,
porque, quando uma mulher fica bêbada,
você consegue dela qualquer coisa que você quer”.

Feministas, que acharam bonitas as afirmações do doce simpático Antonio Cândido, que dizer, agora, de sua “ética da transgressão” e da sua “ética da alegria”?

Todo homem tem direito a ter uma companheira, sem que as potenciais companheiras se manifestem de acordo?

Todo homem tem direito de se alegrar, se presume que a companheira que ele arrumou está se divertindo também, ou, pior, se ela não tem condições de se manifestar explicitamente de acordo?

Em São Paulo, 13 de Maio de 2017 (data do meu segundo comentário)

Em  São Paulo, 10 de Outubro de 2017 (revisão de todo o material e recomposição do artigo)

 

 

Elizabeth Cady Stanton: The Making of a Feminist

(Mais um post dedicado à minha filha Priscilla Epprecht Machado França.)

Este post é, em certo sentido, uma continuação do anterior, embora ele lide com a vida de Cady Stanton antes de ela se tornar importante e famosa — antes de ela ser considerada a “Mãe do Feminismo Americano”.

Ela nasceu em 1815 em uma família razoavelmente abastada, que morava no Estado de New York, a noroeste da capital, Albany, uns 65 km. Seu pai era advogado e se tornou juiz. Os pais dela tiveram onze filhos — mas cinco morreram novinhos. Sobreviveram a infância seis deles: um menino e cinco meninas. Cady foi a oitava dos filhos. O irmão era mais velho, assim como duas das irmãs. Outras duas eram, naturalmente, mais nova do que ela.

Quando Cady tinha onze anos (em 1826) o único homem dos filhos morreu, aos vinte anos. Foi um tsunami emocional para a família — especialmente para o pai, que esperava que Eleazar, o filho que morreu, o substituísse na prática da advocacia e, quem sabe, também se tornasse um juiz.

Não passou despercebido a Cady que aos pais não ocorria que uma das cinco meninas poderia vir a substituir o pai no lugar do irmão morto. Ela começou a pensar por quê.

Lembrou-se de que, quando tinha quatro anos, sua irmã Margareth nasceu — e a reação de todo mundo na casa, mesmo ainda estando vivo o irmão, foi: “Ah que pena que é mais uma menina!”

Inteligente e precoce, Cady achou que mulheres normalmente exerciam funções dentro de casa, e não fora, na rua, no escritório, na fábrica, porque, para trabalhar fora, você precisa estudar bastante e ser ambicioso, ousado, corajoso. Ao alcançar essa conclusão ela resolveu que ela iria estudar bastante, ser uma excelente aluna, e iria exibir aquelas características que faziam os homens ser bem sucedidos fora de casa, no mundo do trabalho.

Ela se tornou uma excelente aluna, a única mulher na academia de Johnstown, que ela frequentou, optou por praticar esportes, entre os quais cavalaria, e se tornou ativa na vida da escola.

Um dia ela ganhou um prêmio pelo seu desempenho em Grego. Chegando em casa, foi correndo contar para seu pai, na certeza de que ele, agora, iria considera-la igual ao filho perdido, permitindo que ela seguisse a mesma carreira e o sucedesse…  O pai ouviu a história e lhe disse, meio desapontado: “Ah… você deveria ter nascido menino!”

Ela ficou desapontada, mas não esmoreceu. Resolveu estudar a fundo, por conta própria, o que era que impedia as mulheres de seguirem carreiras como a do pai. O escritório do pai era anexo à casa e ela começou passar seu tempo livre por lá, ouvindo histórias dos clientes, lendo, refletindo…

Logo descobriu que, na sociedade em que ela vivia, uma mulher casada se tornava basicamente uma mulher morta, depois de casada, aos olhos da lei. Descobriu que, se ela tivesse alguma propriedade antes de casar, ao se casar a propriedade passava a ser do marido, que podia dispor dela sem autorização da mulher. Descobriu que, se ela viesse a trabalhar fora de casa, recebendo salário, ao se casar o seu salário pertenceria ao marido, que, basicamente sendo dono dela, era dono de tudo que lhe pertencia.

Até dos filhos. A mulher casada não tinha a guarda dos próprios filhos. Se o marido perdesse sua confiança de que a mulher era capaz de criar bem os filhos, podia, contra a vontade dela, ou mesmo sem informa-la de sua decisão, optar por dar seus filhos para adoção por parte de terceiros — e estes poderiam optar por nunca mais deixa-los ver sua mãe biológica.

Cady começou a se enveredar pelo Direito, para entender como essas coisas absurdas podiam acontecer. Os estagiários de seu pai, todos estudantes de Direito, faziam brincadeiras com ela por causa das leis que negavam à mulher direitos básicos que os homens possuíam e assumiam com naturalidade. Um dia ela mostrou a um deles um colar e um bracelete de coral que havia ganho no Natal. O colega lhe disse que, se ela se casasse com ele, o colar e o bracelete passariam a ser dele e ela só poderia usa-los com sua permissão… E acrescentou que, se ele desejasse, poderia trocar o colar e o bracelete por uma caixa de charutos e Cady então assistiria a transformação em fumaça do presente que tanto a orgulhava…

“The making of a feminist” estava em pleno andamento…

Quando terminou de cursar a academia de Johnstown, pensou em fazer a faculdade na mesma escola em que seu irmão estava estudando quando morreu, o Union College de Schenectady, NY. Logo descobriu que não poderia: a escola não aceitava mulheres!

“Novamente”, disse ela, “eu senti mais agudamente do que em qualquer momento anterior, a injustiça e a humilhação de não poder fazer algo que eu queria fazer, não por incapacidade, mas por causa do meu sexo”.

A construção de uma feminista ganhou mais um punhado de tijolos…

Ela teve de se contentar em ir estudar em uma escola para moças — com o nome esquisito de Troy Female Seminary — que oferecia, para mulheres, uma educação parecida com aquela que era oferecida para os homens.

Na escola, teve experiência direta do que era um Reavivamento Espiritual — daqueles promovidos por Charles Grandison Finney. Ela havia sido criada na Igreja Presbiteriana, uma igreja que ela considerava meio triste, tétrica até, porque ali se pregava que Deus, em sua soberania, já havia decidido quem iria para o céu e quem iria para o inferno… Independentemente de como as pessoas vivessem, do que fizessem… Tudo que uma pessoa podia fazer era ter esperança de estar entre os eleitos que seriam salvos do inferno!

A pregação de Finney mexia com as emoções das pessoas — e mexeu com as de Cady. Ela ficou muito impressionada: achou que ele era um terrorista da alma, a manipular as emoções das pessoas. Quando voltou para casa, ao final do ano letivo, conversou seriamente com seu pai e com seu cunhado, marido de sua irmã mais velha, que era um indivíduo interessante, cético, racionalista, bom argumentador, culto, com quem Cady gostava de conversar. Seu pai resolveu fazer uma viagem com ela e convidou sua irmã e o cunhado para irem juntos.

A viagem foi um marco para ela, que, ao longo da viagem, começou a abandonar aquilo que ela chamou de suas superstições religiosas e a aceitar uma visão mais racionalista e científica da vida. Aos poucos o medo foi dando lugar a um sentimento mais positivo, de confiança no futuro e em sua capacidade de enfrenta-lo. Sentiu-se feliz. Parece que a vida poderia ter perspectivas interessantes, afinal das contas…

A frustração de ver tantas portas fechadas para as mulheres e o medo de enfrentar um futuro que já estaria decidido de antemão foram, aos poucos, sendo substituídos pela confiança de que ela poderia ter um papel importante em mudar esse estado de coisas.

Estava formada, no plano mais básico, uma feminista.

(Dados retirados do livro Elizabeth Cady Stanton and Susan B. Anthony: A Friendship that Changed the World, de Penny Colman, e da autobiografia de Elizabeth Cady Stanton, com o título Eighty Years and More; Reminiscences 1815-1897. Ambos os livros disponíveis como e-books em formato Kindle na Amazon.)

Em Salto, 23 de Fevereiro de 2016.

Elizabeth Cady Stanton: Mãe do Feminismo Americano

(Post dedicado à minha filha, Priscilla Epprecht Machado França.)

Elizabeth Cady Stanton (12 de Novembro de 1815/26 de Outubro de 1902) foi chamada por algumas pessoas bem situadas para fazer essa atribuição, em especial por sua amiga e colega de lutas Susan Brownell Anthony (20 de Fevereiro de 1820/13 de Março de 1906), de “Mãe do Feminismo Americano” [1].

Não vou destacar aqui as muitas realizações de Cady Stanton (como geralmente era chamada) – ou de sua amiga e companheira de lutas em favor da mulher, Susan Anthony. A Wikipedia tem vários artigos sobre elas [2].

Vou chamar a atenção apenas para um livro, em dois volumes, escrito por Cady Stanton, que é considerado, por muitos, a primeira tentativa séria de lidar com a questão da visão bíblica da mulher, e, portanto, um importante precursor do que hoje se chama de “Teologia Feminista”: The Woman’s Bible (A Bíblia da Mulher) [3]. Não se trata de um livro que cristãos conservadores provavelmente venham a apreciar – apesar de a hermenêutica utilizada por Cady Stanton em sua interpretação da Bíblia desagradar também a maioria dos cristãos liberais. Mais sobre isso adiante.

O primeiro volume de TWB foi publicado em 1895 e o segundo em 1898 [4]. Ambos os volumes analisavam passagens bíblicas, tanto do Velho quanto do Novo Testamento, que se referiam a mulheres ou que tratavam de temas que tinham implicações acerca da questão da opressão da mulher.

Eis como Cady Stanton descreve o projeto: “Analisar e comentar apenas aquelas passagens que se referem diretamente às mulheres e aquelas em que menção deveria ter sido feito às mulheres mas não foi feita, deixando-as de fora. Ao todo, isso corresponde a cerca de 10% do texto bíblico” (Prefácio).

Note-se, porém, que a ideia original de Cady Stanton, lançada quase dez anos antes (em 1886) era editar um Comentário Feminista à Bíblia na sua totalidade escrito exclusivamente por mulheres, dentro dos cânones acadêmicos, envolvendo análise crítica (literária e histórica) dos textos bíblicos. Mas ela não conseguiu reunir colaboradoras em número suficiente. Não havia, naquela época, muitas mulheres que dominassem as línguas originais da Bíblia e se dispusessem a se engajar na causa feminista (ou mesmo apenas sufragista [5]). Diante disso, Cady Stanton se dispôs, quase uma década mais tarde, a escrever, ela própria, um comentário sobre passagens selecionadas da Bíblia sem recorrer ao aparato técnico geralmente utilizado por scholars bíblicos e utilizando a interpretação literal como método hermenêutico – método esse geralmente privilegiado pelos teólogos conservadores.

Embora os teólogos conservadores adotassem, preferencialmente, o método de interpretação literal do texto bíblico (exceto onde ele produzisse resultados claramente indesejáveis), os teólogos liberais preferiam, diante de textos que colocavam dificuldades para sua visão de mundo, partir diretamente para uma interpretação simbólica, mística ou alegórica (“descobrindo” no texto um “sentido espiritual” mais profundo – o sensus plenior da teologia católica – que substituísse o sentido literal inaceitável).

Assim, Cady Stanton acabou desagradando a gregos e troianos.

Desagradou os teólogos conservadores, porque, interpretando literalmente várias afirmações bíblicas acerca da mulher, ela visava mostrar que a Bíblia é a principal fonte, na cultura Ocidental, para uma visão negativa da mulher.

Desagradou os teólogos liberais, porque se recusou a atribuir um sentido espiritual supostamente mais profundo a textos que, interpretados literalmente, serviam de evidência para a condenação da cultura Judaico-Cristã pela condição de opressão da mulher vigente no Ocidente (e quiçá no mundo inteiro).

Façamos referência aqui a algumas passagens bíblicas que Cady Stanton critica – mas antes comecemos com uma que ela não critica, pelo contrário. Vou depender, para esse resumo, basicamente da estrutura do relato de Dorrien, já mencionado no rodapé, inserindo algumas citações que retirei diretamente do texto de TWB para ilustrar melhor o ponto de vista da autora.

É fato sabido que há, no Velho Testamento, especificamente no livro de Gênesis, dois relatos da criação (inclusive da criação dos seres humanos): um no capítulo primeiro, o outro no capítulo segundo (começando com o versículo 4b e indo até o versículo 25).

No capítulo primeiro, começando com o versículo 26, Deus teria dito: “(26) Façamos o homem [ser humano, homem no sentido genérico] à nossa imagem, conforme a nossa semelhança; tenha ele domínio . . . sobre toda a terra.  . . . (27) Criou Deus, pois, o homem [ser humano] à sua imagem, à imagem de Deus o criou; homem e mulher os criou. (28) E Deus os abençoou e lhes disse: Sede fecundos, multiplicai-vos, enchei a terra e sujeitai-a. . . (30) E assim se fez. (31) Viu Deus tudo quanto fizera, e eis que era muito bom. . . .” [Almeida-RA].

Segundo Cady Stanton, esse relato da criação, especialmente no versículo 27, atribui, por implicação, um elemento feminino à divindade, pois Deus se propõe a criar o ser humano à sua imagem e semelhança e o cria, segundo parece em um mesmo momento, “homem e mulher”. Isso indicaria, segundo ela, que a divindade possui um elemento masculino e um elemento feminino, os dois elementos em perfeita igualdade de condição [6].

O que afirma Cady Stanton sobre esse relato do primeiro capítulo de Gênesis? Para ela, no momento de criar o ser humano, o texto bíblico desse primeiro capítulo, ao observar que Deus disse “Façamos o ser humano à nossa imagem, conforme à nossa semelhança”, deixa claro que houve uma interação ou “consultação” — não entre as três pessoas (todas masculinas!) da Trindade como muitos teólogos pretendem, vislumbrando aí uma “prova” da natureza triúna (e masculina) de Deus — mas entre o elemento masculino e o elemento feminino inerentes e igualmente representados na Divindade. Segundo ela, deveríamos nos referir a Deus como “Nosso Pai e Nossa Mãe Celestial”. Como o homem, a mulher é igualmente superior ao restante da criação, não havendo, no primeiro capítulo de Gênesis, qualquer indicação de que um dos dois seja superior ao outro e mereça do outro a sujeição. (TWB, Capítulo I, Gênesis).

Mas a Bíblia contém também o relato do segundo capítulo de Gênesis. Nesse relato, Deus cria primeiro o homem, a partir do “pó da terra”, soprando-lhe “o fôlego de vida” nas narinas, de modo a torna-lo “alma vivente” (versículo 7). O homem (não mais no sentido genérico, mas agora no sentido masculino do termo) foi colocado no Jardim do Éden “para o cultivar e o guardar” (versículos 8 e 15). Apesar da lindeza do jardim, o homem aparentemente não estava feliz, de modo que Deus concluiu que “não é bom que o homem esteja só; far-lhe-ei uma auxiliadora que lhe seja idônea” (versículo 18). A partir dessa conclusão, Deus, fazendo Adão dormir, retirou dele uma de suas costelas, e “fechou o lugar com carne” (versículo 18), e, em seguida, “transformou [a costela do homem] em uma mulher” e a entregou ao homem (versículo 22).

Não resta dúvida de que esse segundo relato, longe de preconizar igualdade de condição entre o homem e a mulher, criados ambos à imagem e semelhança de Deus, rebaixa a condição da mulher. Quem foi criado primeiro foi o homem. Foi a ele que foi dado o encargo de “cultivar e guardar” o jardim e dominar a terra. A mulher, aparentemente, só foi criada porque o trabalho era muito e, por isso, não era bom que o homem fosse o único a realiza-lo. Por isso, Deus lhe deu a mulher como auxiliar – fazendo questão de ressaltar que ela era “idônea”. O processo de criação da mulher não foi o mesmo envolvido na criação do homem. Ela não foi criada do “pó da terra”, nem Deus soprou-lhe “o fôlego da vida” nas narinas, para que se tornasse “alma vivente”. Ela foi confeccionada a partir de uma costela do homem – aparentemente já como “alma vivente”. Deus a chamou “varoa, porquanto do varão foi tomada” (versículo 23).

O que comentou Cady Stanton acerca desse segundo relato?  Segundo ela, “na minha opinião, essa segunda história foi inventada por algum judeu, que manipulou a primeira história de modo a emprestar autoridade divina à tese de que a mulher deve obedecer ao homem com que casa. . . . É evidente que algum escritor esperto, diante da perfeita igualdade entre o homem e a mulher descrita no primeiro capítulo, achou que era importante preservar a importância do homem e seu domínio sobre a mulher, deixando claro que esta era de alguma forma subordinada àquele” [7].

Cady Stanton resume a visão da mulher apresentada neste segundo relato bíblico da criação com as seguintes palavras: “Nele fica claro que a mulher foi criada depois do homem (como um “afterthought“), do homem, e para o homem, um ser inferior, criado para servi-lo e a ele sujeito” (TWB, Introdução).

Eis como Cady Stanton resume como a Bíblia enxerga a mulher:

“A Bíblia ensina que a mulher trouxe o pecado e a morte ao mundo, que ela precipitou a queda da raça, que ela foi trazida diante do tribunal dos céus, julgada, condenada e sentenciada. O casamento seria para ela uma condição de servidão, e a maternidade um período de dor e sofrimento. Em silêncio e sujeição ela deveria desempenhar o papel de um ser dependente da generosidade do homem para satisfazer as suas necessidades materiais. Se desejasse alguma informação para satisfazer a uma necessidade do momento, deveria perguntar ao homem, na intimidade do lar. Esta é a posição da Bíblia sobre a mulher, em poucas palavras” (TWB, Introdução).

É evidente, como o tratamento do segundo relato da criação deixa claro, que Cady Stanton acreditava que a Bíblia havia sido escrita por homens, claramente não inspirados por Deus, que introduziram nela todos os seus preconceitos contra a mulher, preconceitos esses hostis à tese da igualdade de condição e de direitos entre o homem e a mulher. Ela reconhecia que na Bíblia, como nos escritos sagrados de outras religiões, há passagens em que se prega o amor, a caridade, a justiça, a liberdade, e a igualdade de toda a família humana. Mas também há nela, e neles, mesmo quando o teor do discurso é positivo, os elementos básicos que levaram à opressão e à escravização da mulher. Ela cita, por exemplo, Deuteronômio 2:34 e 3:6, que descreve, no seu entender, o “código militar” das tribos judaicas a ser aplicado em suas guerras contra as tribos vizinhas, código esse que lhes permite destruir todos os seres vivos, fazendo questão de acrescentar que até mesmo “mulheres e crianças”. Esse código “demonstra total desprezo para com todas as decências da vida e para com os direitos naturais das mulheres como pessoas. . . . Esse código contido no Pentateuco só pode ter emanado das mentes mais obscenas que uma época bárbara pode produzir” [8].

A forma que Cady Stanton encontrou para combater a cultura ocidental, criada em cima de princípios judaico-cristãos, que denigria e oprimia a mulher, foi atacar a autoridade da Bíblia. Ela frequentemente ligava a condição oprimida da mulher no presente à continuada influência e autoridade da Bíblia. “Há vários exemplos no Velho Testamento em que mulheres foram jogadas à multidão, como se joga um osso aos cachorros, para pacificar suas paixões; e as mulheres continuam a sofrer hoje essas lições de desprezo ensinadas por um livro tão reverenciado pelo povo” [9].

O Novo Testamento não se sai melhor do que o Velho, na opinião de Cady Stanton. É verdade que ela ressalva a posição pessoal de Jesus. Mas, fora ele, o Novo Testamento mantém a mesma visão acerca da mulher que é apresentada no Velho. Nas Epístolas Pastorais, por exemplo, a subordinação da mulher ao homem é ensinada com requintes de especificidade. Mesmo a história de Maria e José ela considera degradante. A tese do nascimento virginal de Jesus ela considera totalmente sem sentido. Se Jesus precisava ter um pai divino, por que não também uma mãe divina? [10]

Como disse, ela ressalva a posição pessoal de Jesus, “que nunca ensinou que a mulher fosse sujeita ao seu marido, nem que devesse ficar calada na igreja”. Jesus não ensinou que o homem devesse dominar a mulher – e nem que a mulher devesse dominar o homem. Para ele, o sexo da pessoa não significa nada para sua condição espiritual, nem circunscreve ou delimita a sua esfera de ação [11].

Cady Stevens chegou a propor que se produzisse uma versão da Bíblia, Velho e Novo Testamento, da qual fossem expurgadas as passagens que denegriam a mulher ou que pudessem servir para justificar sua opressão e a tese de sua obediência e subserviência ao homem [12].

Pode parecer, a julgar pelos trechos aqui citados e mencionados, que Cady Stanton não passava de mais uma herege ou ateia, como tantos que havia no século 19. Mas não, ela era, ainda que no plano não acadêmico e não profissional, uma defensora de várias teses da teologia liberal – se bem que combinadas como uma hermenêutica conservadora, calcada na interpretação literal das Escrituras. Mas mesmo sua hermenêutica conservadora serve, de certo modo, a um propósito liberal.

A essência da teologia liberal do século 19 está na tese de que é preciso acomodar, adaptar ou compatibilizar a herança cristã tradicional aos tempos modernos. A maioria dos liberais propunha que isso fosse feito reinterpretando a tradição, mesmo a herança bíblica, e isto significava deixar de lado a interpretação literal das Escrituras. Para Cady Stanton, porém, era importante manter a interpretação literal das Escrituras para mostrar que a tradição judaico-cristã foi responsável pela opressão da mulher, porque foi uma tradição cultivada e mantida por homens que não viam as mulheres como suas iguais, e que conseguiram anular o impacto positivo do primeiro relato da criação e do ensino não opressivo de Jesus. O que era preciso fazer, segundo ela, era, reconhecendo a responsabilidade dessa tradição para com a atual condição da mulher (oprimida, sem voz, sem participação), reeditar a Bíblia, reescrever a tradição numa linha igualitária, deixando de lado as passagens que refletissem uma linha diferente.

Thomas Jefferson, um século antes, já havia proposto algo semelhante. Ele produziu e editou o que hoje é chamado de A Bíblia de Jefferson (Jefferson’s Bible), uma versão bastante reduzida da Bíblia que apenas incluía os ensinamentos morais que ele julgava aceitáveis.

Um pouco depois de Cady Stanton ter escrito sua TWB, Adolf von Harnack, um dos mais conhecidos teólogos liberais, publicou, em 1899/1900, A Essência do Cristianismo (Das Wesen des Christentums), em que ele defendeu tese semelhante: a essência do Cristianismo estava nos ensinamentos morais atribuídos a Jesus. O resto era invenção da igreja, que pode ser dispensada (junto com a tradição judaica) pelo cristão de hoje.

É interessante constatar que questões éticas, discutidas em contextos religiosos e teológicos, estivessem tão envolvidas nas origens do feminismo moderno. Como Cady Stanton bem salientou, a questão do voto era importante, mas estava longe de ser a única, ou mesmo a mais importante.

NOTAS

[1] Compare-se Gary Dorrien, The Making of American Liberal Theology, vol. 1, “Imagining Progressive Religion (1805-1900)” (Westminster John Knox Press, Louisville, 2001), p.260.

[2] Vide, por exemplo, https://en.wikipedia.org/wiki/Elizabeth_Cady_Stanton e https://en.wikipedia.org/wiki/Susan_B._Anthony. A Amazon distribui gratuitamente, no formato e-book para os leitores Kindle, uma autobiografia de Cady Stanton, que tem o título de Eighty Years and More; Reminiscences 1815-1897 (http://www.amazon.com/Eighty-Years-More-Reminiscences-1815-1897-ebook/dp/B0082SJZH6/ref=sr_1_3?ie=UTF8&qid=1456216000&sr=8-3&keywords=Elizabeth+Cady+Stanton).

[3] Vide, e.g., https://en.wikipedia.org/wiki/The_Woman’s_Bible. A Amazon distribui esse livro gratuitamente no formato e-book para os leitores Kindle (http://www.amazon.com/Womans-Bible-Elizabeth-Cady-Stanton/dp/1453780971/). Daqui para frente vou me referir a esse livro como TWB.

[4] Dorrien, op.cit., pp.257-258.

[5] A causa feminista era entendida por Cady Stanton como sendo bem mais ampla do que a causa sufragista. Esta era a causa voltada para obter o direito de voto para as mulheres. A causa feminista visava comprovar a condição de opressão em que a mulher viveu durante toda a história e organizar a luta pela sua liberação.

[6] Confira-se Dorrien, op.cit., p.258.

[7] Confira-se também Dorrien, loc.cit..

[8] Dorrien, op.cit., pp.258-259.

[9] Confira-se Dorrien, op.cit., p.259.

[10] Dorrien, loc.cit..

[11] Dorrien, op.cit., pp.259-260.

[12] Dorrien, op.cit., p.260.

Em Salto, 23 de Fevereiro de 2016.