Interessante…

Só depois de postar a última matéria é que me dei conta… Se a data hoje adotada tem permanecido a mesma, a primeira festa do Oscar provavelmente aconteceu em Fevereiro ou comecinho de Março de 1928 — exatamente quando o Instituto "José Manuel da Conceição", minha alma mater no Ensino Secundário (Clássico), começou a funcionar. Tanto o Oscar quanto a fundação do JMC comemoraram este mês oitenta anos. A diferença é que o Oscar continua firme, e o JMC foi fechado pela Igreja Presbiteriana do Brasil em 1969 ou 1970 — aos quarenta e um ou quarenta e dois anos de vida.

Em Campinas, 26 de Fevereiro de 2008

As férias do fim de ano – 2

A segunda grande atividade minha nessas férias de fim de ano foi a leitura de coisas que o trabalho não vinha me deixando ler. Coisa séria (mas não urgente) e coisa simplesmente prazerosa.

Do lado sério, li The Secret World of American Communism, de Harvey Klehr, John Earl Haynes e Fridrikh Igorevich Firsov (Yale University Press, 1995). Um catatau, cheio de análises interessantes e de documentos mais interessantes ainda.

Por décadas historiadores e jornalistas identificados com a esquerda americana (o mais das vezes esquerda "light", social-democrata, alinhada com o Partido Democrata) demonizaram o movimento de "caça aos comunistas escondidos no governo americano", movimento esse que acabou ficando conhecido como McCarthysmo, em decorrência do papel proeminente (e, por vezes, meio desastrado) nele representado pelo Senador Joseph McCarthy.

Segundo os historiadores e jornalistas de esquerda, não havia comunistas escondidos no governo americano, muito menos operando como informantes e espiões para a União Soviética. Julius e Ethel Rosenberg, condenados e executados por passarem segredos atômicos para a União Soviética, teriam sido vítimas de uma caça às bruxas injustificada. Alger Hiss, alto funcionário do Departamento de Estado (Relações Exteriores) dos Estados Unidos, acusado de pertencer a um círculo de espiões trabalhando sob ordem da União Soviética, foi condenado por perjúrio, com base principalmente no testemunho e nos documentos amealhados por Whitakker Chambers — vilipendiado pela esquerda. Relatos e depoimentos de ex-comunistas, que revelavam até mesmo os nomes dos agentes, como é o caso de Elizabeth Bentley, nunca foram levados a sério pela esquerda americana — pelo contrário, eram objeto de tentativas de desmoralização.

Bem, tudo isso é história, hoje. Com a gradativa liberação (de 1990 para cá) dos arquivos secretos da União Soviética, e com o trabalho sério do Russian Center for the Preservation and Study of Documents of Recent History, existe, hoje, farta documentação que comprova, além de qualquer dúvida, que, entre outros, os Rosenberg e Alger Hiss eram culpados, como haviam sido acusados, e que centenas de outros membros do Partido Comunista dos Estados Unidos, operando em missões naturalmente secretas, eram informantes e espiões a soldo da União Soviética, e que, apesar de (em muitos casos) serem cidadãos americanos, dedicam lealdade primeira ao governo soviético, traindo vergonhosamente a sua pátria.

O mais interessante é que os acusados sempre negaram — até mesmo que eram membros do PC americano (que, ressalte-se, nunca foi considerado ilegal naquele país). Agora se pode manusear documentos que comprovam, além de qualquer dúvida, que havia boa razão para McCarthy dizer que o governo americano estava cheio de quintas-colunas comunistas, que trabalhavam contra os Estados Unidos e a favor da União Soviética — a maioria dos quais havia entrado para o governo durante os diversos governos de Franklin Roosevelt.

Bom esse foi um dos livros que li nos últimos dez dias.

Um outro livro sério que li foi Lições de Guerra – Vencendo as Batalhas de sua Carreira, de Danilo Talanskas, presidente da Elevadores Otis do Brasil. Ouvi uma entrevista do autor para o Heródoto Barbeiro na CBN e comprei o livro. O estilo é auto-ajuda, mas o livro é interessante. Discute as lições que a estratégia de guerra podem nos ensinar na gestão de nossa vida — em especial de nossa vida profissional.

O que me chamou a atenção na entrevista do autor foi sua classificação das competências que todos devemos ter: competências de natureza pessoal, competências de natureza relacional (especialmente necessárias hoje para o trabalho em equipe), e competências de natureza executiva (relacionadas à ação, especialmente ao empreendedorismo, mesmo no caso de empregados). Essas três categorias me fizeram imediatamente lembrar dos Quatro Pilares da Educação do Relatório Jacques Delors da UNESCO: aprender a ser, aprender a conviver, aprender a fazer, aprender a conhecer. Faltou esse último pilar no livro de Danilo Talanskas, mas o livro é muito útil no contexto pedagógico, e não apenas como material de auto-ajuda.

Por fim, li La Suma de los Días, de Isabel Allende — delicioso, como todos os livros dela. Este livro é claramente autobiográfico, traçando a história da vida de Isabel Allende e sua família de 1993 para cá — 1993 sendo o ano em que morreu sua filha Paula. Na realidade, o livro é uma série de cartas de Isabel para Paula, narrando o que tem acontecido com a família. Gostoso de ler, sensível, triste às vezes, divertido outras, esse livro, vindo na seqüência de uma grande obra, faz de Isabel Allende uma série candidata latinoamericana ao Prêmio Nobel da Literatura. Ainda gostaria que Mario Vargas Llosa recebesse o prêmio antes dela, por ser mais velho e ter uma clara militância política liberal, mas ela também está a merecer o prêmio (a despeito de ser parente de Salvador Allende…).

Além das leituras, assisti a uma série de filmes em DVD — mas sobre eles não vou falar. Em minha mensagem de fim de ano comentei um deles: a biografia de Sylvia Plath. Mas assisti a vários outros, também muito bons.

Bons livros e bons filmes para 2008! Que seria de nós sem eles??? 

Em Salto, 1º de Janeiro de 2008.  

As férias do fim de ano – 1

Neste primeiro dia de 2008 escrevo sentado na rede — uma rede velha, de casal, que comprei no centro de Fortaleza em Julho de 2003, e que é minha rede favorita. Não é fácil equilibrar o notebook entre as pernas — especialmente porque quero também que a rede tenha um balanço mínimo… Mas a paisagem compensa — e o canto dos pássaros é um presente adicional.

Dia 20/12 foi o dia de minha última reunião de trabalho do ano. Desde então tenho ficado aqui no sítio. Assumi solenemente um compromisso comigo mesmo de não fazer nada que se caracterize como trabalho até o dia 7/1. Tenho conseguido honrar até aqui o compromisso assumido. De hoje até 6/1 vai ser fácil: amanhã vou para Ilha Bela, para estar com minha filha Tatiana e meu neto Gabriel.

O que eu fiz nesses dias todos além de dormir, nadar e andar por aí?

A primeira grande tarefa foi organizar, tanto quanto possível, minhas fotos digitais. (Neste mensagem só vou falar dessa tarefa — em outra falarei de minhas leituras).

Já tive quatro câmeras digitais (incluindo a atual). A primeira, comprada no início de 1999, é uma Mavica, linda, daquelas que usavam disquetes de 3 1/4" para armazenar as fotos. Ela conseguia armazenar uma média de vinte fotos com resolução de 640×480 num disquete. Cada disquete, uma vez cheio, era copiado no disco rígido do computador. Tenho, dela, 323 disquetes com fotos, ou seja, perto de 6.500 fotos digitais. Ainda guardo a câmera, mas está, naturalmente, aposentada. ‘

Em 2003 comprei uma Sony Cybershot P72, de 3.2 megapixels. Usei-a um bocado. Era bem mais fácil de usar do que a Mavica, porque não era necessário trocar de disquetes a cada vinte fotos. Ela usava, como armazenamento, um cartãozinho (memory stick)da própria Sony. Veio com um de 128MB, que eu prontamente substituí por um de 1GB. Tenho perto de 3.500 fotos dessa máquina. Ainda guardo essa câmera também, devida museificada. (Na verdade, não jogo nada fora, em geral não vendo os objetos de uso pessoal de algum valor que foram meus, e raramente dou minhas coisas de presente).

Em Junho de 2004, ao participar de uma oficina sobre Digital Story Telling na Universidade de Virginia, aquela que foi fundada por Thomas Jefferson, ganhou uma Canon CP200, também de 3.2 megapixels, de meu amigo Glen Bull, que conduzia a oficina. Ela é uma câmera lindinha, pequena, fácil de usar, que adota, como dispositivo de armazenamento, um SD Card (SD=Secure Digital). Era tão fácil carregar essa câmera para baixo e para cima e tão fácil tirar as fotos, que exagerei: tirei foto de tudo quanto é coisa e gente. Tenho mais de 6.500 fotos tiradas nela. Hoje essa câmera pertence ao meu neto Gabriel, que está se tornando um exímio fotógrafo digital.

Finalmente, em Julho de 2005 comprei uma Sony Cybershot P200, de 7.2 megapixels, que é a câmera que uso até hoje. Já tirei mais de 23.500 fotos com ela. Mas a características de que mais gosto nela é a capacidade de fazer filmes de excelente qualidade, na resolução 640×480 (que, para filme, é razoável), sem precisar quebrá-los em pedacinhos de trinta segundos, coisa assim, como várias outras câmeras. Ela vai tirando o filme enquanto houver espaço no Memory Stick Pro que ela usa para armazenamento. Uso cartões de 1 GB, que armazenam filmes de até cerca de dez minutos. Nada mal. Virei um camera man com ela — ou, melhor dizendo, um cinematógrafo.

Somando tudo, dá cerca de quarenta mil fotos, só de minhas câmeras. Tenho diretórios reservados às câmeras da Sueli e de cada um dos filhos, bem como à câmera do Gabriel, da minha cunhada, da minha "filha adotiva" Camila… E tenho as fotos tiradas em eventos da Microsoft, do Instituto Ayrton Senna, da Escola Lumiar, e de palestras independentes que dou… E fotos velhas da família, escaneadas por mim (sou meio preguiçoso pra fazer isso) e pelo meu primo Anello (o maior escaneador de fotos velhas da família). E fotos que parentes e amigos me enviam. E assim vai. É foto para não acabar mais. Vocês imaginam o trabalhão que deu colocá-las todas, de forma organizada, em um um disco rígido portátil (USB) de 200 GB.

Para visualizar a fotos uso o Microsoft Digital Suite Photo Library, edição 2006. É eficiente, faz o que programas desse tipo devem fazer. Cria thumbnails de fotos em discos externos (o que alguns programas se recusam a fazer, insistindo em importar as fotos para o disco rígido local) e funciona bem com o Microsoft Digital Suite Photo Editor, que, com ele, compõe a Microsoft Digital Suite Photo Suite.

Foi um trabalho penoso, mas agradável. Descobri fotos que tinha que não me lembrava mais de que havia tirado. Centenas de fotos de cada neto, fotos das cidades mais bonitas que visitei depois de ter essas câmeras (Santiago, Bogotá, Buenos Aires, Caracas, Quito, Panama City, San Jose, San Juan, Victoria, Vancouver, Seattle, Phoenix, Charlottesville, Praga, Cesky Krumlov, Vienna, Salzburg, Innsbruck, Heidelberg, Augsburg, Genève, Paris, Versailles, Avignon, Strasbourg, Lisboa, Porto, Chaves, Taipei, Taichung, Kaohsiung, Hualien, Hong Kong, Macao, Seoul, Kuala Lumpur, Tokyo…).

Bom, foi assim que passei parte de minhas férias.

Salto, em 1º de Janeiro de 2008.

24 de Dezembro

Na Lapônia, a essas horas, Papai Noel (aka São Nicolau, Santa Claus, "o bom velhinho", etc.) está se preparando para sua longa viagem de entrega rápida. Quem sabe já tenha saído. Não são nem sete da manhã aqui em Salto, mas a Lapônia está quatro horas na frente. Espero que tenha todas as suas renas em boa forma, e que nenhuma tenha sido abatida neste ano que finda para se tornar churrasco nas mesas dos restaurantes típicos da Finlândia.

Há menos de dois meses estive lá pertinho da Lapônia. Fui até Oulu, na parte central da Finlândia — mais um pouquinho e poderia ter visitado Papai Noel. Contentei-me com uma réplica: um Papai Noel de enfeite, lindo de morrer, que hoje enfeita a minha lareira, ao lado da árvore de Natal. Lareira é algo que combina com Natal e com Papai Noel. Em geral se acredita que ele desce pelo chaminé da lareira. Por isso é que as crianças penduram na lareira suas meias — ou o que lhes faz as vezes — para que ele as recheie de presentes. Nos países do Norte faz sentido essa associação entre Natal, Noel, frio, neve e lareira. Aqui no Brasil, é algo discrepante. Mas quem liga? O pobre velhinho tem de vestir uma roupa quente, usar uma barba que esquenta ainda mais o rosto, portar um gorro… tudo isso a temperaturas que chegam a 30 graus — ou passam.

Há anos a TAM obrigava seus funcionários, durante o Natal, a usar gorrinhos de Noel. Há dias, num hotel no Rio, do lado da Catedral Presbiteriana, na Silva Jardim, debaixo de um calor que chegava aos 35 graus, as funcionárias da recepção, do restaurante e do bar estavam todas de gorros vermelhos e verdes. Os rapazes, não. Perguntei à moça que me atendia a razão de os rapazes não terem gorro. Ela disse: "Vá saber". Fiquei sem saber. Provavelmente a razão é que os rapazes acharam que ficariam ridículos usando os gorrinhos — no que provavelmente estavam certos. As moças pelo menos ficavam com uma carinha graciosa de Assistentes do Papai Noel (Santa’s Helpers), como aquelas que a gente vê nos shoppings, levendo as crianças indefesas até o colo do Papai Noel.

Ouvi reportagem na TV há uns três dias sobre o número de cartas que são enviadas por crianças para o Papai Noel. Um grupo de voluntários as responde. Fico imaginando o que dizem em suas respostas. Entre as crianças que escrevem provavelmente há crianças de classe média e acima, cujos pais (não noéis) lêem as cartas e têm condições de atender ao pedido. Mas e as outras? O que dizer a elas? O que dizer a uma criança que pede um presente que ela com certeza não vai ganhar? "Querido Renato: Papai Noel recebeu seu pedido de presente. Infelizmente o estoque de bicicletas este ano está baixo, razão pela qual ele vai lhe entregar uma bola de borracha com o distintivo do Corinthians. Um abraço." (A bola foi fabricada antes da queda do Corinthians para a segundona, e, decepcionados com os times, os corinthianos se vingaram contra os fabricantes de bola. Resultado: bolas corintianas em liqüidação que aumentaram o estoque de Papai Noel. E eu, nem no Natal deixo de cutucar os gambás. Que meus amigos corintianos me desculpem — por incrível que pareça, tenho alguns: o mais antigo, Aharon Sapsezian, que lá de Genebra chorou a incompetência do seu time; Ana Maria Tebar, que já deveria ter trocado de time em deferência à Marina; Gandhi Ferrari, que faria melhor em torcer pelo Uberlândia FC…).

Ontem fiquei durante quase quatro horas, sem fazer nada além de jogar conversa fora, olhando o céu de plenilúnio que se abriu bem em frente o meu terraço aqui no sítio. A cada pequeno intervalo, um avião passava no alto, sempre na mesma rota, que passa por cima de Campinas, vai seguindo sobre a Anhangüera e, depois, a Bandeirantes, até chegar perto da Marginal, quando vira para a esquerda e se dirige a Cumbica. Toda vez que volto dos Estados Unidos e o tempo está bom identifico Campinas do alto. Dá para ver o campo da Ponte Preta, o campo do Guarani (que corre risco de ser vendido para pagamento de dívidas), o shopping Iguatemi, o Carrefour, o Leroy Merlin, a Decathlon… Se tivesse um pouco mais de tempo localizaria minha casa. Mas daqui do sítio a gente só vê as luzinhas piscantes aparecerem de um lado e rapidamente cruzarem o espaço. No início da noite, passavam por cima da lua. Depois passaram no rumo da lua. Lá pela meia-noite a lua já havia subido tanto que os aviões passavam por baixo dela no céu.

Impressionante o luar. Apagamos as luzes da casa e não fez diferença nenhuma em nossa capacidade de enxergar. Coisa linda é uma lua cheia. Lembrei-me de "A lua vai surgindo cor de prata no alto da montanha verdejante"… Ouvíamos música, Sueli, Rodrigo e eu — fornecidas pelo meu iPod. Seleção musical minha. Bing Cosby, Dean Martin, Frank Sinatra, Perry Como, George Whitakker, Rod Stewart, Tony Bennett, Engelbert Humperdinck, Charles Aznavour, Jacques Brel, Yves Montand, Gilbert Bécaud, Jane Morgan, Patti Page, Billie Holiday, Doris Day, Connie Francis, Anne Murray, Joan Baez, Edith Piaf, Madeleine Peyroux, Patricia Kaas, e, no que diz respeito a conjuntos, The Ames Brothers, The Platters, Simon and Garfunkel, Abba, Bee Gees, Fifth Dimension (Aquarius, Let the sunshine in), The Carpenters, Peter Paul and Mary, The Mamas and the Papas… Saudosismo para ninguém botar defeito. Ninguém brasileiro na coleção. Efeito do colonialismo cultural, dirão os esquerdopatas. Dizem isso ao mesmo tempo em que celebram Natal e fazem de conta que são Papai Noel para os pobres, sem perceber a contradição. Celebram o nascimento de um judeu na Galiléia, usando como símbolo da data um velhinho que, em lenda, vive no mais Norte da Europa…

Mas não vou ficar ranzinza neste dia. Na árvore há presentes para mim também, não apenas para as crianças. Passarei o Natal este ano apenas com o Rodrigo e família (Adriana, Gabriela e Felipe). A Tatiana estará celebrando o Natal com a família do Alexandre — e levará o Gabriel com ela. A Patrícia e a Andrea estão lá em Cortland, com o Rubens e o Rick, e, naturalmente, com o Marcelo, a Olivia e a Madeline. Sobrou pouca gente aqui para o Natal do sítio este ano. Mas não será menos alegre por isso. No domingo comemos bacalhau. Ontem, pintado na brasa. Hoje comemoraremos com camarão. Só pratos oriundos da água. Nada de leitoa, pernil, tender… Para acompanhar, vinho. Distribuiremos os presentes mais cedo, porque as crianças dormem cedo. Depois comeremos sossegados, ouvindo mais música do iPod. Quem sabe acharei umas músicas natalinas, Christmas Carols tocados pela New York Symphony Orchestra.

No ano passado deixei aqui neste Space uma anti-mensagem de Natal. Houve quem gostou, houve quem não gostou. Este ano deixo esta mensagem simples, desejando a todos um Natal Feliz e, naturalmente, um Ano Novo Próspero. Próspero, no meu dicionário, quer dizer cheio de grana, com muita saúde, pleno de realizações — e isso tudo traduz felicidade.

Em Salto, 24 de Dezembro de 2007.

Rancho 53 na Castello: Imperdível

Ontem tive uma das noitadas mais deliciosas da minha vida. Fui, com a Sueli e um casal de amigos (Heitor e Adriana, companheiros do Rotary de Salto Moutonnée), jantar no Rancho 53, na Rodovia Castello Branco, que fica (naturalmente) no km.  53, sentido interior, da Castello.

Já conhecia o Rancho 53. Quase sempre paro lá quando venho de São Paulo aqui para Salto. Têm um bolinho de bacalhau delicioso e uma excelente seleção de vinhos portugueses. Na verdade, já cheguei até mesmo a almoçar lá, com meu amigo Les Foltos, do Puget Sound Center. Comemos um excelente bacalhau e tomamos um maravilhoso vinho branco, precedendo tudo com uma caipirinha e bolinhos de bacalhau. De sobremesa, quindins, queijadinhas e pastéis de Belém.

Mas nada disso se compara à experiência de ontem à noite. A razão é que, às quintas-feiras, das 21h até depois da meia-noite, há fado ao vivo na casa. Um excelente grupo, composto, no acompanhamento, de uma guitarra portuguesa e uma guitarra clássica, e, no canto, por três grandes fadistas — um dos quais (Thiago) um excelente comediante. Cantaram fados durante quase quatro horas (tempo corrido — houve vários intervalos pequenos) deleitando a casa completamente cheia. (É necessário fazer reservas — e em geral não há como para a semana em curso e a seguinte).

Voltarei à música. Mas antes, uma palavra sobre a comida. Os pratos são para dois (preço base do prato de bacalhau, que é só o que se serve, 130,00 reais). Pedimos dois Bacalhaus a Narciso. O bacalhau, no caso, é assado na brasa e servido com cebola, alho, arroz com brócolis, e batatas "ao murro" (uma batata assada que literalmente leva um murro que a esborracha um pouco). De antes do prato propriamente dito, comemos os indeclináveis bolinhos de bacalhau e tomamos bagaceira e cerveja / chopp. Para acompanhar o bacalhau, tomamos vinho do Dão – Meirinho. O vinho estava muito bom e não era muito caro: 35,00 reais a garrafa (tomamos duas). O garçon, ao anotar o pedido, honestamente nos disse que, como havíamos todos optado pelo mesmo prato, poderíamos pedir apenas um e meio Bacalhaus a Narciso, que seria mais do que suficiente. Foi. Comemos tudo o que pudemos e trouxemos para casa o que sobrou. Vou almoçar Bacalhau a Narciso daqui a pouco. E estava delicioso, regado a Azeite Virgem de Oliva. De sobremesa, uma bandeja com doces portugueses. Quase houve briga pelos quindins. A Adriana ia pegar o único quindim na bandeja, mas, conhecendo o marido, deixou o quindim para ele. A Sueli, que não conhecia o gosto do Heitor, atacou o quindim. Era preciso ver a cara do Heitor: parecia nenê de quem se tirou um brinquedo… Foi necessário trazer mais dois quindins, que o Heitor devorou. Eu fiquei com as queijadinhas. Ao final, café. Tudo da melhor qualidade.

Mas voltemos à música. Foi de padrão internacional o show. Cantararam todos os fados mais conhecidos: Coimbra, Lisboa Antiga, Casa Portuguesa, e, naturalmente, Nem às Paredes Confesso (que me trouxe lágrimas aos olhos). E houve envolvimento da platéia, especialmente quando cantava o Thiago, que fez com a Ciça um desafio, envolvendo os homens (maioria na casa) e as mulheres. Divertidíssimo.

Havia um grupo grande na casa, capitaneado por alguém chamado Tuca, que já foi declamador do Teatro Municipal do Rio de Janeiro (segundo ele próprio disse). Ao final, já bem depois da meia-noite, ele foi convidado pela Ciça a declamar uma poesia. Quase caí da cadeira quando ele anunciou que iria declamar "Gesto Heróico", uma poesia religiosa de autoria de Mário Barreto França que decorei quando tinha quatorze anos e já declamei várias vezes. Fiquei imaginando a probabilidade de num restaurante de beira de estrada haver duas pessoas que sabiam "Gesto Heróico" de cor, e concluí que a probabilidade beirava zero. Apesar de ser uma poesia religiosa e, até certo ponto, cafona, fiquei emocionado, porque tudo aquilo havia sido parte integrante de minha vida de adolescente e de jovem. "A sineta bateu convocando o colégio… O diretor, egrégio, e antigo mestre entrou!"… A cafonice pode ser linda se o contexto é certo.

Chegamos de volta a O Canto da Coruja mais de uma hora da manhã.  Embora houvesse bebido duas Bohemias Premium, tomado uma bagaceira, e dividido uma garrafa de vinho com a Sueli, estava perfeitamente lúcido ao retornar na escuridão da Castello e da Santos Dumont, quando já passa de meia-noite.

Agradeço ao Heitor por ter nos convidado a sair. Deveriam ter ido outros companheiros do Rotary, mas acabamos ficando apenas os quatro. Valeu a pena.

Em Salto, 14 de Dezembro de 2007, ao meio-dia (enquanto bebo Napoleon Brandy, acompanhado de queijo mineiro de meia cura, me preparando para a segunda rodada de Bacalhau a Narciso)

Primavera no sítio

O mês passado (Setembro/2007) fez seis anos que comprei meu sítio em Salto, SP. Muita gente me disse, quando o comprei, que a compra de um sítio em geral traz duas alegrias: a primeira, quando se compra; a segunda, quando se vende… Sei não. Passados seis anos, só tive alegrias com o sítio. Os quatro alqueires iniciais se tornaram oito e o lugar está muito mais bonito do que era — embora já fosse bonito quando o comprei. É verdade que foi aqui que tive o meu infarto, no dia 1/3/2002, cinco anos e meio atrás. Mas o sítio não foi  culpado. Pelo contrário. Tenho tido aqui meus melhores momentos. Ao chegar aqui, sinto paz, tranqüilidade, serenidade. Arrumei meu canto direitinho. Construí uma casa nova, com um quarto e um banheiro excelentes, uma sala grande onde pendurei meus quadros, e um mezanino de 90 m2 onde oportunamente será meu escritório (no momento está vazio).

Adoro escadas em caracol. Não sosseguei aqui no sítio até que inventei o mezanino ao qual acedo por uma ida escada em caracol em ferro fundido. Lá em cima é o meu esconderijo, o meu refúgio tranqüilo (como dizia Pearl Buck). Tenho "uma rede preguiçosa" onde cochilo nos dias não muito quentes. (Nos dias quentes, cochilo no quarto, que tem ar condicionado). Para lá vou quando a casa está muito cheia e barulhenta. De lá vejo a paineira da entrada e a terra preparada para plantar beringelas. Sinto-me, lá, imagino, como Voltaire se sentia em seu recanto Les Délices, a poucos quilômetros de Genève, CH, hoje em Fernay Voltaire – FR, em plena Savóia.

Nesta Primavera, a despeito da estiagem, as flores começaram a florir cedo e as árvores frutíferas a dar suas frutas — frutonas e frutinhas: no momento a enorme jaqueira está cheia de jacas (é um risco estacionar debaixo dela, a despeito da sombra convidativa) e as jabuticabeiras, pitangueiras e amoreiras estão carregadas de frutas.

Tudo o que é bom tem seu lado ruim… Um dia desses notei umas manchas roxas nas pedras mineiras que circundam a piscina. Peguntei ao caseiro o que estava causando aquilo. Ele me respondeu com a simplicidade e precisão das pessoas simples: “O senhor não vai acreditar, seu Eduardo, mas esses filhos das putas dos passarinhos comem amora e depois vêm cagar aqui em cima – com tanto lugar pra cagar por aí… E daí mancham as pedras…“ Fazer o quê? Mesmo que houvesse um banheirinho público para eles, seria inútil. Deve ser uma delícia (para um passarinho, naturalmente) cagar lá do alto e ver a bosta bater nas pedras mineiras limpinhas lá embaixo…

As plantas "floríferas" estão começando a florir. As primaveras, assanhadas, soltam suas flores primeiro: brancas, rosas, liláses, champanhes, vermelhas, roxas… Mas perdem em beleza para as orquídeas que abraçam vários de meus coqueiros e palmeiras. Quando compramos ou ganhamos uma orquídea, deixamos que ela fique no vaso por um tempo e, depois, a transplantamos para um dos coqueiros ou palmeiras. Ficam lindas lá. As heras também resolveram abraçar os coqueiros e palmeiras. Nas árvores maiores há folhagens que começam a esconder os troncos frondosos.

E os passarinhos? Nunca vi tantos como este ano, talvez por causa da quantidade excepcionalmente grande de frutas. Há canários, sabiás, bem-te-vis, pintassilgos, joão-de-barros (só um coqueiro tem quatro casinhas), beija-flores, andorinhas, rolinhas, pica-paus, chupins do brejo (bonitos, mas malandros e sem-vergonhas: botam seus ovos nos ninhos dos outros passarinhos para não ter de chocar seus ovos…), bigodinhos, pássaros pretos, anus-pretos, anus-brancos, quero-queros, tico-ticos (ticos-reis), maritacas, periquitos, pardais (naturalmente), pombas (naturalmente)… Papagaios aparecem de vez em quando, em bandos — até doze já contei em uma só árvore. Já apareceram aqui araras azuis e vermelhas, sempre em pares. E (que Deus me perdoe) até um simpático tucano já apareceu por aqui. (Simpático tucano não seria um redundância? Eles são todos tão finos, tão bem falantes, tão bons de bico! Por isso escolheram esse símbolo…). Siriemas aparecem de vez em quando, com seu canto triste e melancólico… Meu pai adorava o canto de siriema. Quando criança, tínhamos um isco (78 RPM, naturalmente) das Irmãs Castro chamado "Siriema do Mato Grosso". Começava assim: "Ah, siriema do Mato Grosso, teu canto triste me faz chorar…". Há, naturalmente, os predadores. Hoje um gavião malvado (existe gavião que não o seja?) perseguiu uma pombinha linda que acabou colidindo contra o alambrado e morrendo, deixando viúva a sua parceira, que guardava o ninho, bem na área da casa). E há minhas corujas, também pássaros predadores, mas que têm uma cara séria mas bondosa. São menos malvadas do que os gaviões. Não saem por aí perseguindo pombinhas indefesas. Sou apaixonado por minhas corujas, talvez porque sejam o símbolo da sabedoria… Dei ao sítio o nome de "Canto da Coruja" porque, na primeira vez que vim aqui, com o corretor, vi duas corujas nos mourões da cerca de entrada. Faz seis anos e elas (ou suas descendentes) continuam lá, lindas, impassíveis. O termo "canto", naturalmente, é ambíguo: tanto pode significar morada como pode significar voz. Gosto da voz delas também. Um canto assim sem maiores modulações, mas simpático.

Desde que comprei o sítio comecei a colecionar corujas de todos os tipos: madeira, argila, palha, pedra, cristal. Tenho várias dezenas delas. Os amigos me presenteiam corujas (enfeites) de vez em quando. Até minha ex-mulher me deu duas corujas que ela comprou numa "garage sale" lá nos Estados Unidos, onde mora. (Gente civilizada é assim mesmo: minha ex-mulher de vez em quando nos visita aqui, quando minha filha com ela está aqui no Brasil, e traz seus irmãos, cunhados e sobrinhos — que considero como se também meus fossem, porque a gente se separa do cônjuge, não necessariamente dos parentes).

E, por fim, entre os pássaros há os taperás. Deixei os taperás por último porque eles são o pássaro símbolo de Salto. O estribilho do hino de Salto, cuja letra foi escrita pelo saltense Archimedes Lammoglia, diz: "Salto! Da linda cascata, das praças floridas, dos bandos de taperás… Salto! Que eles encantam, voando e cantando pra lá e pra cá".

Da última vez que fiz um censo das plantas frutíferas que tenho aqui, registrei (algumas não são propriamente árvores frutíferas, como a Batata Doce e o Hortelã, mas vá lá — é possível fazer doce ou sorvete com seus produtos): abacate, abóbora, acerola, ameixa, amora, banana, batata doce, cana de açúcar, carambola, castanha, cenoura, cereja, coco, fruta do conde, hortelã, jaca, jabuticaba, laranja (vários tipos), limão, lichia, mamão, manga (vários tipos), maracujá, mexerica, milho, pitanga, tangerina, uvaia… Ainda pretendo plantar cupuaçu, graviola, mangaba e uva.

Metade do sítio tinha cana de açúcar, que, agora, este ano, está sendo substituída por beringela. Dois terços da outra metade eram pasto — agora vendi minhas vaquinhas, meus bezerros e meu tourinho (a seca deixou o pasto inviável) e estou substituindo o pasto por plantação de beringelas também. Tornei-me um micro-produtor rural no sentido estrito da palavra. Gosto do cheiro da terra revirada pelo arado, para ficar pronta para o plantio — como gosto do cheiro da terra molhada pela chuva (que está demorando para chegar) e, por incrível que pareça, do cheiro do curral.

Durante meus primeiros oito anos vivi um bom tempo em sítio, perto de Marialva, PR. Lembro-me de ver meu pai atirando (com sua garrucha de cano serrado) em gambás, lagartos e cobras que vinham atacar os ovos das galinhas. Lembro-me dele cortando o pescoço das galinhas com um machadinha para o almoço de domingo — e lembro-me, distintamente, de que, algumas vezes, a galinha sem pescoço saía correndo pelo quintal, para cair, morta, lá adiante, despescoçada. Horrível — tanto que me lembro perfeitamente até hoje da cena. Eu, de pijamas, olhando, e o meu pai, de gravata (pastor não tira a gravata nem para ir ao banheiro), assassinando a galinha… Fiquei tão "traumado" (como dizia uma professora amiga nossa, que há muito não vemos) que não consigo nem destroncar o pescoço de uma galinha.

Vou parando. Deveria estar trabalhando — e isto, pra ser franco, não parece muito com trabalho…

Em Salto, 7 de Outubro de 2007

Elevadores

O elevador aqui do hotel tem uma placa que diz: "Máximo de 15 pessoas ou 1000 kg"…

Para ter 15 pessoas com o total de 1000 kg, cada uma teria de pesar menos de 70 kg — algo não muito difícil aqui em Taiwan, onde as pessoas são pequenas e, em geral, magras. Nos  Estados Unidos, porém…

Mas quando desci agora há pouco, havia nove pessoas no elevador, das quais eu era, digamos, o maiorzinho — e não consegui ver como seria possível acomodar 15 ali…

Esses avisos de elevador sempre me causaram espécie. No Brasil, eles têm um aviso de que você é obrigado a verificar se o elevador está mesmo no andar, antes de entrar no elevador. Em apoio, cita-se a exigência de uma lei.

Estranha lei, essa.

Primeiro, porque não dá para entrar no elevador se ele não estiver no andar: na pior das hipóteses, você entra no poço.

Segundo, se você não cumprir a lei, qual  será a penalidade em que você incorre?

Em Hualien, TW, 27 de agosto de 2007