Golpes da Sorte, Bênçãos e os 18 Anos da Bianca

Bianca - 18 anos

Bianca – 18 anos

Sempre tive muita sorte. No dizer popular (meio vulgar) de minha mãe e minha tia (irmã de minha mãe), ambas de mui saudosa memória, “nasci com aquilo virado para a Lua”. Ou sempre fui muito abençoado — sem merecer as muitas bênçãos. Em Inglês se diz: “Someone up there must like me”.

Muitas vezes fui vítima de ações de terceiros que pareciam, na ocasião, destruir meus sonhos e meus planos. Mas as coisas sempre viraram de tal maneira que ficaram ainda melhores do que eram antes.

Uma dessas coisas aconteceu em 1966. Em Agosto fui mandado embora do Seminário Presbiteriano de Campinas, por obra e graça do Rev. Boanerges Ribeiro (amigo do meu pai). Eu estudava lá desde 1964. Pareceu, naquele momento, que minha vida ruía. Um ano depois, porém, em Agosto de 1967, eu estava viajando para Pittsburgh, PA, com bolsa completa do Pittsburgh Theological Seminary, para fazer meu Mestrado (sem mesmo ter terminado o meu curso de Teologia aqui). Não havia solicitado admissão lá, nem, muito menos, bolsa. O presente, de certo modo, caiu do céu. Depois da bolsa de Mestrado, ganhei, lá, ao terminar o Mestrado, do próprio seminário, e novamente sem pedir, uma bolsa completa para fazer o Doutorado na University of Pittsburgh. Perdi o título de Bacharel em Teologia do Seminário Presbiteriano de Campinas e ganhei o título de Doctor of Philosophy pela University of Pittsburgh (que, na época, tinha o melhor Departamento de Filosofia dos Estados Unidos). Saí ganhando, e muito.

Outras vezes, tomei decisões conscientes, com base no que eu desejava e, no meu entender, tinha direito de buscar, que, embora eu tenha alcançado o que pleiteava, complicaram sensivelmente a minha vida, dificultando ou mesmo bloqueando meu relacionamento com pessoas que eu amo (minha filha, meus enteados e meus netos do segundo casamento, por exemplo). Mas, novamente, além de conseguir o que desejava (o que me fez o mais feliz dos homens…), o custo ou o preço de obtê-lo foi sensivelmente compensado e, assim, reduzido, pelas coisas que ganhei e que não esperava vir a ter: um novo gosto pela vida, novos parentes, renovado relacionamento com meus próprios irmãos e sobrinhos, novos amigos, e, destaco e sublinho, duas enteadas lindas, que se tornaram, no processo, filhas de verdade, que eu amo tanto quanto as amaria se fossem minhas filhas biológicas: a Bianca e a Priscilla.

Amanhã, 4 de Novembro, a Bianca, fará 18 anos (a festa, linda e alegre, com quase 50 jovens, de várias igrejas [presbiteriana, adventista, batista] foi ontem, aqui em casa). Quando a Paloma e eu começamos a viver juntos a Bianca tinha meros 11 aninhos (e a Priscilla tinha 9). Eram menininhas. Hoje a Bianca virou uma moça e se tornou uma mulher linda, sensível, carinhosa, fazendo o Curso Superior em Gestão Ambiental.

Parabéns, minha filha, pelo seu aniversário amanhã. Escrevo este artigo para que você, pessoalmente, saiba que considero uma sorte muito grande poder conviver com você, com sua irmã e com sua mãe (a quem tive a sorte de conhecer fez dez anos em 26 de agosto deste ano).

Talvez “sorte” não seja a palavra certa ou mais adequada… “Bênção” certamente é uma palavra melhor.

Minha formação é calvinista. Apesar das dificuldades que as doutrinas calvinistas da predestinação, eleição e providência apresentam, sou muito inclinado a, pelo menos, ver um fundo de verdade nessas doutrinas tão controvertidas.

E, calvinisticamente, tenho certeza de que não mereci e continuo a não merecer tudo de bom que veio para o meu caminho, durante minha vida inteira, mas especialmente nestes últimos seis anos e pouco. Mas eu, humilde e arminiamente, aceito esses presentes, esses “dons gratuitos”, essas bênçãos.

Bi, de novo: Feliz Aniversário nos seus 18 anos. Vamos celebrar o ano inteiro, passando, se Deus quiser, por Colónia del Sacramento e Montevideo, no Uruguai, e Ushuaia, na Argentina, neste final de ano e começo do ano vindouro. São cidades que você ama e que eu sei que eu e a mãe vamos amar também (a mãe já ama as duas do Uruguai, porque esteve lá com vocês duas).

(Neste ano de 2014 a Bi teve, durante um pouquinho mais de 10 meses, 17 anos — e eu, durante quase quatro meses, tive, e, Deus querendo, ainda terei, 71 anos: apenas o mesmo número com os algarismos invertidos. Adoro essas coincidências.)

Em São Paulo, 3 de Novembro de 2014

O PT nos Roubou a Esperança

Dia 22/9/2014 escrevi no Facebook, enquanto preparava uma aula sobre teologia protestante no século 20:

“Jürgen Moltmann, teólogo alemão, escreveu algo interessante, no prefácio de um livro que foi editado com base em suas conferências nos EUA de Set-1967 (quando eu estava lá chegando) até Abr-1968 (quando o mundo meio que pegou fogo…), e que recebeu o título de Religion, Revolution and the Future. Ele se confessou admirado com o povo americano, que estava constantemente em movimento, “always on the go“, aparentemente “going places“… Mas ressaltou que, depois de muita observação, ficou com a nítida impressão de que o movimento não era em direção de algo (“toward something“) que se desejava e buscava, mas, sim, um movimento de fuga de algo (“away from“) que não se desejava mais e do qual se queria manter distância. . .”

Eu comentei que achei bonita a imagem. Fiquei pensando no Brasil de hoje… Às vezes a gente fica inquieto, com vontade de se mexer, de se mandar, mas não é mais porque algo nos inspire, chame, atraia, mas, sim, porque algo nos incomoda, revolta, repele. . . Estou me sentindo basicamente desse jeito em relação ao Brasil. Tenho vontade de me pôr em movimento, de me mandar daqui, mas não tanto para ir a algum outro lugar que me atraia, que me pareça muito melhor, mas porque o mau cheiro da política brasileira, que virou um chiqueiro moral, me incomoda terrivelmente.

Alguns amigos curtiram o que transcrevi e escrevi, outros, mais chegados, comentaram… Eis alguns dos comentários (retirados os nomes de quem os fez):

[1] “Acho que muitos — eu também entre eles — estamos desse mesmo jeito em relação ao Brasil. Mudam as gerações e não aprendemos a fazer política decente.”

[2] “Assino ‘in totum’. Gostei do texto. De observação inspirada. Eu me sinto em situação semelhante. Afinal, governados por desonestos que instalam quadrilhas em todos os espaços possíveis e, ainda, com grande parte da nossa população a apoiar o que aí está, só nos resta encontrar o meio de nos defender de uns e de outros. É desesperador. Não dá para ter esperança no momento. Talvez o Brasil tenha de se destruir para que, então, vejamos o que surgirá como sobrevivência.”

[3] “As duas coisas… O Brasil me espanta a cada dia e a Bélgica me chama mais e mais… Um passaporte com tempo maior de permanência seria muito bem vindo. Sem ser a Bélgica existe a opção Austrália — Nova Zelândia (vejam os artigos do Prof. Miguel Sacramento que esteve por lá numa pesquisa muito interessante) e o sempre objeto do desejo Canadá!”

[4] “Interessante que nos últimos dias tenho me sentido assim também. Parece que nosso “mundico” não tem jeito e a gente quer outro lugar em que a situação fosse mais propícia. E isso coincide com este período eleitoral, quando me sinto “encantoado”, sem grandes perspectivas.”

[5] “Me lembrei, de ‘Ora, destruídos os fundamentos, que poderá fazer o justo?’ Salmo, 11:3”.

Volto eu a falar, agora hoje [27/9/2014]…

Meus caros [1], [2], [3], [4], [5]… A cada dia fico mais persuadido de que o principal legado que esse maldito governo petista dos últimos doze anos vai deixar é uma descrença generalizada no ser humano e na democracia.

Mais do que apenas dinheiro, os petistas roubaram a crença, que a maioria dos brasileiros tinham, de que as pessoas são basicamente boas e honestas, de que a democracia, malgrado suas fraquezas, era uma forma viável de governo, que ela poderia funcionar, que a corrupção dos políticos, embora pudesse ocorrer aqui e ali, era algo excepcional e combatível, porque, no fundo, as pessoas que governam tem boa índole e boas intenções, que com educação o povo aprenderia a escolher governantes cada vez melhores, etc. etc. etc.

Essa crença, razoavelmente otimista, deixou de existir. O governo petista a destruiu. Ele mostrou que Agostinho, Lutero e Calvino estavam certos: a natureza humana é, de fato, um desastre: totalmente degradada. O PT mostrou que gente educada, culta, instruída e até já rica, rouba e se vende. Os políticos só querem se eleger para poder roubar. Não há nem um que se salve. Nem o Suplicy, com a campanha dele, que basicamente diz que ele é o único político honesto. E o povo se vende por qualquer boquinha, seja ela um emprego num órgão público, uma bolsa qualquer coisa, uma subvenção dada para uma ONG que eles criaram apenas para mamar nas tetas corruptas do governo.

Uns se corrompem pelo dinheiro, outros pelo poder. Os políticos querem se eleger para continuar a ter poder e grana; outros se corrompem apenas pela graninha que cai no bolso e chega em casa sem esforço. As diversas bolsas, instituídas para ajudar os mais pobres, se tornaram o maior esquema de compra de votos que este país já viu. Basta analisar o mapa de onde a maior parte das bolsas está e o mapa dos votos petistas. Mas não é só bolsa família, bolsa eletricidade, bolsa gás, bolsa banda larga: é a bolsa para fazer universidade privada, para viajar para o exterior, para fazer pesquisa, para criar uma empresinha, para se tornar empreendedor… Há bolsas para empreendedores, para empresários, para ricos, até para banqueiros.

E há o “emprego público”. Um emprego público se tornou o objeto de desejo da maioria dos brasileiros. Criou-se uma indústria de cursinhos e agências de viagem para ajudar o brasileiro a arrumar um emprego público. Ele quer ser um “servidor público”??? De jeito nenhum: ele quer ser um “servidor próprio”, ter garantia de renda sem precisar trabalhar muito, ou sem precisar trabalhar, com a certeza de que faz greve por mais de cem dias sem perder um dia de salário e benefício… E, quem sabe, no emprego público, consegue receber unzinho por fora…

O indivíduo se beneficia uma vez com esse sistema corrupto e não consegue largar mais. Duvido que haja alguém neste país que acredite que os petistas são honestos, que eles não roubam, que eles não desviam dinheiro para os próprios bolsos e para o caixa dos partidos.

Todo mundo sabe que isso acontece. Cada dia aparece um escândalo novo. Todo mundo sabe que o Lulla é corrupto e a Dillma uma besta quadrada.

Mas o povo comprado, com bolsa, com emprego, com boquinha, com ProUNI, com bolsa de estudos no exterior, com emprego público, com a promessa de transporte gratuito, de uma pista para andar de bicicleta (!!!), etc. quer continuar mamando nas tetas do governo petista, e, por isso, tapa o nariz e vota no PT. Alguns nem precisam tapar o nariz mais: já se acostumaram com o mau cheiro do chiqueiro moral em que vivemos. Disseminou-se a crença de que todo mundo, podendo, rouba, e os que não conseguem roubar mamam nas tetas do governo e comem na mão dos que conseguem roubar — e sonham poder continuar fazer isso per saecula saeculorum. Para muita gente, essa é a única visão do paraíso que eles conseguem ter.

Estou convicto de que o Comentarista [2] acertou em cheio quando disse, acima: “Governados por desonestos que instalam quadrilhas em todos os espaços possíveis e, ainda, com grande parte da nossa população a apoiar o que aí está, só nos resta encontrar o meio de nos defender de uns e de outros. É desesperador. Não dá para ter esperança no momento. Talvez o Brasil tenha de se destruir para que, então, vejamos o que surgirá como sobrevivência.” O comentário resume com perfeição a herança maldita do PT. É isso aí. A destruição de nossa crença razoavelmente otimista, ainda que com algumas reservas e ressalvas, de que a democracia poderia funcionar e fazer com que o Brasil tomasse jeito, e a sua substituição pela crença de que não tem jeito, não há esperança de mudança não traumática, que o único jeito de mudar alguma coisa é destruindo tudo para ver se, começando de novo do zero, a esperança ressurge…

A única esperança que sobrou talvez seja a esperança de um dia, de alguma forma, voltar a ter esperança…

Em São Paulo, 27 de Setembro de 2014

Estado, Governo, País, Nação…

Avatar de Eduardo ChavesHistória da Igreja

Menos de um ano atrás, em 2 de Novembro de 2013, publiquei um artigo no meu blog Liberal Space, com o título “Nós os Liberais e a Questão da Direita vs Esquerda de Novo”. Vide: http://liberalspace.net/2013/11/02/nos-os-liberais-e-a-questao-da-direita-vs-esquerda-de-novo/.

Nesse artigo discuti uma série de conceitos, como nação, país, governo, estado, sociedade e indivíduo. Não vou repetir tudo o que escrevi lá, porque meu objetivo aqui é outro, mas vou aproveitar algumas definições e um exemplo.

A discussão dos conceitos será feita na ordem inversa em que os listei aqui.

Indivíduo:

O menos problemático da série de conceitos, indivíduo é o ser humano considerado do ponto de vista de sua unidade, pessoalidade, e unicidade.

Sociedade:

Sociedade é um conjunto dos indivíduos que vivem em um determinado lugar, em um determinado momento, e que se reconhecem, de alguma forma, ainda que vaga, como parte de um todo. Nesse sentido, podemos considerar, num extremo, que…

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50 Anos Atrás

Estou lendo uma biografia de Rudolf Karl Bultmann. O título é Rudolf Bultmann: A Biography, e o autor é Konrad Hammamm. Estou lendo em um e-book comprado da Amazon Kindle.

Li Bultmann pela primeira vez há 50 anos. Em 1964 eu fui para o Seminário Presbiteriano de Campinas e lá fui apresentado a Bultmann. Não pelos professores: Bultmann era muito avançado e radical para eles. Foram os colegas que me apresentaram Bultmann: Waldir Berndt, Elias Abrahão… Principalmente eles. Foi o contato com Bultmann que começou a desestruturar a fé simples, não-refletida, ingênua, que eu havia trazido comigo para o seminário. Uma fé que se contentava consigo mesma, que se bastava a si mesma, que não buscava, como um dia sugeriu Santo Anselmo, o entendimento. Uma fé sem entender, que cria mesmo naquilo que não entendia.

O que os colegas me falavam sobre Bultmann despertou minha curiosidade. Acabei comprando um livro, em dois volumes, chamado Kerygma and Myth, editado por Hans Werner Bartsch, que começava com um artigo de Bultmann, com o título “The New Testament and Mythology” e trazia uma série de artigos que discutiam o artigo programático de Bultmann. Comecei a ler — e fiquei abalado. Fiquei em dúvida se deveria continuar lendo. Eu tinha apenas 20 anos, mas sabia que seria arriscado. Aquilo que eu já havia lido falava sobre questões acerca das quais eu nunca havia pensado, em minha santa ingenuidade de primeiro anista de seminário. Mas eu imediatamente percebi que o artigo de Bultmann era nitroglicerina pura. Se eu optasse por continuar a lê-lo, sabia que minha fé correria risco. Mas parar de ler não era mais uma opção. Li, então, até o fim. Era longo. E resolvi traduzir o artigo, oportunamente, para o Português. Fiz isso já no meu segundo ano de seminário, 1965. O Setor de Apostilas do Centro Acadêmico “Oito de Setembro” (CAOS) publicou a tradução em apostila — usando estênceis (não sei se o termo stencils se traduz assim), daqueles velhos, encerados, e um mimeógrafo que era propriedade do CAOS. Eu mesmo digitei (datilografei) o texto nos estênceis. Publicado, interna corporis, sem pedir permissão a ninguém, o artigo causou furor. Ajudou preparar a crise do ano seguinte, 1966.

O que mais me causava surpresa no artigo de  Bultmann era o seguinte. Se ele tivesse sido escrito por um ateu, o impacto em mim não teria sido tão grande. De um ateu você normalmente não espera grande coisa. Na verdade, você até mesmo espera que ele critique sua religião. Mas Bultmann era “crente”. Mais do que isso: era pastor luterano — e teólogo, um dos mais famosos do mundo protestante, professor de teologia numa das mais conceituadas universidades mundiais: Marburg, na Alemanha. Havia livro com sermões dele… O exemplo dele falou tanto quanto seu artigo. Levou-me a crer que era possível defender as ideias que Bultmann defendia no artigo e continuar a ser crente, pastor, teólogo, professor de teologia…

Talvez eu mantivesse, ao acreditar nisso, um pouco da minha ingenuidade. Quem sabe era possível acreditar naquilo que Bultmann dizia e continuar a ser crente e pastor na Alemanha, país avançado… Mas, na Igreja Presbiteriana, aqui do Brasil, não seria. E não foi. Fui defenestrado do seminário em 1966. Em parte por causa de minha propaganda das ideias bultmannianas.

Mas fui parar, intermediariamente, na Faculdade de Teologia da Igreja Evangélica de Confissão Luterana no Brasil (IECLB), em São Leopoldo. Lá vi que luteranos se entendem. Bultmann lá não era escândalo: era normal. Aos poucos eu comecei a conviver com as ideias de Bultmann como se fosse normal olhar para a Bíblia, Jesus Cristo, e o Cristianismo daquele jeito…

Começava meu exílio da fé, que durou cerca de 40 anos.

Agora estou aqui, de volta, lendo uma biografia de Bultmann, 50 anos depois. Descubro, na biografia, que ele também enfrentou problemas por causa de suas ideias. Sofreu oposição. Universidades, como a de Leipzig, o convidaram para se transferir para seu Departamento de Teologia, como professor e parte do corpo docente, apenas para, depois, retirar o convite por pressão da Igreja Luterana… a mesma que, em grande medida, apoiou, logo depois, Hitler e o Nacional Socialismo. Senti-me mais irmanado a Bultmann ao descobrir isso. A igreja luterana alemã apoiou, em grande medida, o Nazismo — e a igreja presbiteriana brasileira apoiou, em grande medida, a Ditadura Militar brasileira…

Os livros de e sobre Bultmann que comprei nos anos 60 e 70 do século passado — são uns cinquenta — ainda os possuo: nunca achei que devia me livrar deles. Eles eram — e continuam sendo — parte de mim. Dispor deles era como me livrar de um pedaço de mim. Não do meu corpo, mas da minha alma. As ideias deles entraram pelo meu sistema de ideias, foram mastigadas, algumas mal, outras melhor, foram todas de alguma forma digeridas, e, depois, algumas ficaram no sistema, outras foram excretadas, mas as que ficaram se misturaram com o que já estava no meu sistema e passaram a fazer parte de mim, parte do meu DNA. . .

Bultmann morreu em Julho de 1976, quando eu já era Diretor Associado da Faculdade de Educação da UNICAMP e pensava que havia deixado a teologia definitivamente para trás. Mais um engano meu. Autoengano.

Em Salto, 23 de Agosto de 2014.

Já lá se vão 47 anos. . .

Em 1967, quarenta e sete anos atrás, neste dia, então um sábado, eu estava, nesta hora (cerca de 19h) no Aeroporto de Viracopos, em Campinas, acompanhado de minha mãe, de minha tia, e de minhas irmãs, para viajar para os Estados Unidos, onde iria fazer o Mestrado, no  Pittburgh Theological Seminary (http://pts.edu), em Pittsburgh (http://pittsburghpa.gov/), no oeste do estado da Pensilvânia, já quase no estado de Ohio (onde minha filha mais velha mora hoje — de Pittsburgh até a casa dela, em Cortland, são, eu diria, cerca de 100 km, se tanto). Meu pai não foi ao aeroporto — estava sem conversar comigo. Meu irmão creio que não foi — não sei por que razão. 

Na época eu estava a menos de três semanas de completar 24 anos (como estou, hoje, de completar 71). Vocês podem conferir a minha foto daquele ano, de um mês antes, por aí, que tirei para o passaporte — o meu primeiro. Estava contente, mas ansioso. O meu Inglês era bastante bom (tinha começado a aprender cedo, havia tido, no Instituto JMC, onde éramos internos, uma namorada que falava Inglês nativo, pois era filha de missionários, e havia completado o curso da União Cultural Brasil-Estados Unidos em Campinas). Mas nunca havia ido aos Estados Unidos e tinha grande expectactiva sobre como iria me sair entre os nativos do país. Depois de uns dias iniciais meio traumáticos, saí-me bem. 

Os mais novos vão ficar surpresos de que eu estivesse saindo de Viracopos. Mas a explicação é simples. Naquela época o Aeroporto Internacional de Guarulhos ainda não existia. O Maluf ainda não havia sido nem prefeito nem governador de São Paulo… Cumbica era apenas uma base militar. E o Aeroporto de Congonhas não comportava aviões do porte de um Boeing 707, que eu iria tomar. Voei com a então tradicional PanAmerican World AirWays (PanAm), que, quando fechou, vendeu para a United as suas rotas latinoamericanas. O vôo, se bem me lembro, era PA 202, originado em Montevideo e que chegava a Campinas depois de uma escala em Buenos Aires. O vôo PA 201 fazia a direção contrária, a partir de Nova York. Fizemos uma escala no Rio, no Aeroporto do Galeão (que era um Aeroporto Internacional, além de uma base militar). Do Rio fui direto para Nova York, nonstop, desembarcando no dia seguinte no Aeroporto John Fitzgerald Kennedy (JFK). Este aeroporto havia sido inaugurado em Julho de 1948, com o nome de Idlewild Airport, mas, depois da morte do Presidente Kennedy, em 22 de Novembro de 1963, foi rebatizado em sua honra, na véspera do Natal daquele ano. Do JFK peguei um vôo para Pittsburgh (não me lembro nem da companhia nem do número do vôo, infelizmente), onde me esperava uma família, os Eichleays, com quem iria ficar por uma semana, antes de começarem as aulas. 

A estada com os Eichleays (ele se chamava William, do nome da mulher e da filha me esqueço) foi gentileza de uma instituição fantástica, o Pittsburgh Council for International Visitors (PCIV), uma ONG criada para recepcionar e apoiar estrangeiros (visitantes internacionais, no “politicamente correto” de então) que chegassem à cidade. O PCIV era informado pelas universidades e faculdades da cidade quando estudantes ou professores estrangeiros iam chegar à cidade, ou pelas empresas quando os visitantes eram empresários ou seus empregados. Eles então contatavam as pessoas e indagavam, no caso de estudantes, se queriam ficar, por uma semana, com uma família que, voluntariamente, sem receber nada por isso, se dispunha a hospedar o visitante e “aclimata-lo” na cidade. Eu, naturalmente, aceitei. Minhas aulas só iriam começar depois do Dia do Trabalho americano, comemorado na primeira segunda-feira de Setembro. Assim, me dispus a ser hóspede dos Eichleays de 20, domingo, dia de minha chegada, a 27 de Agosto — o domingo seguinte.

Já de início, naquele domingo, levaram-me para um restaurante muito chique. Nunca tinha ido a um restaurante tão bacana. Comi sirloin steak, com legumes. Achei delicioso. Tomei, de aperitivo, dois martinis. Foi a primeira vez que experimentei esse drinque americano. Depois do segundo, senti o efeito e fiquei meio zonzo. Tive um pouco de medo de que eles notassem isso. Mas se notaram, foram delicados o suficiente para não me deixar perceber. Com a comida, o impacto passou. De sobremesa, experimentei (também pela primeira vez) cheese cake. Achei delicioso. 

Depois do almoço, deram-me uma tournée da cidade, que achei linda. Pittsburgh é cortada por dois rios, o Allegheny e o Monangahela, que se unem, no centro da cidade, para formar o rio Ohio. A cidade era conhecida, nos anos 30, como “Dust City” (Cidade da Poeira), por causa da poluição causada pelas inúmeras indústrias que tinham sede na cidade, em especial várias indústrias do aço, das quais a US Steel, criada por Andrew Carneggie, o homem mais rico do mundo na passagem do século 19 para o 20, era a principal. Pittsburgh era sede de várias universidades, das quais as principais eram a University of Pittburgh – Pitt (vide http://pitt.edu), a Carneggie-Mellon University (vide http://cmu.edu), tecnológica, que, quando cheguei lá, era chamada de Carneggie Institute of Technology, e a Duquesne University (http://duq.edu),  católica. Era sede de três times esportivos profissionais: os Pittsburgh Steelers, de futebol americano (http://www.steelers.com/), os Pittsburgh Pirates, de beisebol (http://pirates.com), e os Pittsburgh Penguins, de hóquei sobre o gelo (http://penguins.nhl.com/). Os Steelers nunca haviam ganho um superbowl. Desde então ganharam seis, sendo o time que mais vezes foi campeão americano. Os Pirates haviam sido campeões mundiais (como eles chamam os campeões americanos) em 1960 e vieram a ser novamente em 1970, quando eu ainda estava lá. Os Penguins foram formados em 1967, e, portanto, não haviam ganho nada ainda quando cheguei lá, mas, depois, foram campeões nacionais três vezes, em 1991, 1992 e 2009. O time de futebol americano universitário da Pitt eram os Panthers, que era ruim quando eu estava lá, mas melhorou muito, sem, contudo, jamais chegar a ficar por muito tempo entre os melhores. A cidade tinha uma fantástica Orquestra Sinfônica (http://www.pittsburghsymphony.org/pso_home). O PCIV dava, semanalmente, bilhetes para jogos e concertos para os estrangeiros da cidade, numa base primeiro a chegar, leva. Como a sede do PCIV era dentro da Pitt, onde eu fiz o doutorado, de 1970 a 1972 eu aproveitei o fato para não perder muitos jogos. Infelizmente, não aproveitei igualmente os concertos. 

Pittsburgh era também uma cidade famosa por suas faculdades de medicina e hospitais. O hospital mais famoso era o Presbyterian University Hospital, que faz parte do University of Pittsburgh Medical Centers como seu principal hospital de clínicas. Ele fica ao lado do estádio dos Panthers, dentro do campus. 

O campus tinha dois prédios célebres. A Cathedral of Learning (Catedral da Aprendizagem), de 38 andares, no centro do campus, que era, naturalmente, uma catedral secular (http://www.nationalityrooms.pitt.edu/about/cathedral-learning), e a Heinz Memorial Chapel (http://www.heinzchapel.pitt.edu/), que funcionava como a igreja não-denominacional do campus, tendo sido construída com recursos doados pelo famoso industrial H. J. Heinz (fabricante de ketchup e mostarda). A empresa dele (vide http://en.wikipedia.org/wiki/H._J._Heinz_Company) é hoje parte do império do suíço-brasileiro Jorge Paulo Lemann e seus sócios. 

Enfim, é isso. 

Fiquei em Pittsburgh cinco anos, de 20 de Agosto de 1967 até 20 de Agosto de 1972, quando me mudei para a California, onde arrumei um emprego em Hayward, na Baía de San Francisco. 

Comemoro a data 19 de Agosto todo ano e sou grato a todos os que viabilizaram a oportunidade que tive de estudar nos Estados Unidos. Foi um privilégio. Cito, em especial, o Rev. Gordon E. Jackson, Deão do Seminário Presbiteriano de Pittsburgh, que me convidou para ir para lá e me deu a bolsa que me permitiu ficar lá durante cinco anos, e o Rev. Aharon Sapsezian, então Secretário Executivo da Associação de Seminários Teológicos Evangélicos (ASTE), aqui de São Paulo, que em 1967 me deu a passagem para ir e voltar. O Aharon virou, em 1987, um de meus mais diletos amigos. Ele faleceu recentemente. Com o Rev. Jackson perdi contato, mas imagino que já tenha falecido. 

Em São Paulo, 19 de Agosto de 2014.

Processo de Desconversão

Sou um relicário (no sentido de depósito ou guardador de relíquias). Guardo quase tudo que escrevo. Mas nem sempre registro com cuidado quando um texto foi escrito.

[O texto abaixo foi escrito na forma de e-mail. Não me lembro quando – mas faz bastante tempo (embora, por uma referência feita na mensagem, tenha sido depois de 1990). Foi escrito numa época em que eu não havia ainda voltado para a igreja – e foi escrito para responder à pergunta de uma amiga: “Para onde foi a fé do fervoroso menino que, aos 19 anos, me fazia uma exortação evangélica tão comovente?” O ano era 1963 e eu estudava então no Instituto “José Manuel da Conceição” quando, como afirma a pergunta, fiz uma “exortação evangélica” à minha amiga. Não me lembro do episódio, nem, muito menos, de qual teria sido o conteúdo da dita exortação. O que vale, aqui, é minha resposta, que contém uma descrição franca do que aconteceu com a minha fé de 1964 ao momento em que a pergunta foi feita e a resposta dada. Há, no texto, mistura de línguas – Português e Inglês. Vou deixar assim. Omito o nome da minha amiga por não ter autorização dela para revela-lo. Também fiz pequenas melhorias de redação no texto, sem alterar-lhe a substância. Devo fazer a mesma ressalva que fiz em outros artigos antigos aqui transcritos. Meu ponto de vista teológico mudou desde que escrevi este texto. Aos poucos venho revelando “bits and pieces” do que penso hoje na área da Teologia. Aos poucos vou montando meu relato da desconversão da desconversão — em termos… Eduardo Chaves]

                                                           o O o

Minha fé se foi, disto não há dúvida. Foi-se esvaindo aos poucos, um pedacinho aqui, outro ali, sem maiores traumas ou dores. Eu havia sido criado num tipo de religião calvinista em que a crença na doutrina certa ou verdadeira – “recta doctrina” — era a coisa mais importante. Crer em doutrinas que se presumem verdadeiras era “the very essence” do presbiterianismo em meio ao qual cresci. Isso era mais importante até do que a virtude, o comportar-se corretamente (embora isso fosse também enfatizado). Na realidade, dava-se mais importância ao cognitivo, ao saber o que é certo (mesmo que, na nossa falibilidade, ou “pecaminosidade”, a gente não conseguisse fazer o certo), do que à ação, isto é, do que ao fazer o que é certo, sem saber que é certo. Ao cognitivo dava-se mais importância do que ao conativo ou ao emotivo. A afirmação de Paulo, “o bem que eu quero, esse não faço, mas o mal que não quero, esse faço”, é a epítome, na ética, dessa visão da religião – tudo bem, ele não faz o que é certo (“porque a carne é fraca”), mas pelo menos ele sabe o que é certo (a carne é fraca; o espírito reconhece o erro, o lastima e o perdoa com mais facilidade do que se o erro fosse no plano cognitivo). Assim sendo, quando perdi a fé, foi-se a minha religião. Não sobraram sequer os aspectos morais, emocionais, comunionais dela — pois todos eles, na visão por mim aceita, ficavam sem fundamento quando não ancorados na fé. A fé, ela não era “trust“, era “belief“. Seu objeto não era uma pessoa (“I have faith in you”, “I believe in you“) mas uma proposição (“Creio em Deus Pai, todo poderoso, criador do céu e da terra e em Jesus Cristo seu único filho”, “Creio na morte expiatória de Cristo”, “Creio na ressurreição dos mortos”, etc.)

Se a religião era ancorada na fé, dentro dessa visão, a fé, por sua vez, era ancorada na razão, em fatos supostamente demonstráveis: “Se Cristo não ressuscitou, é vã a vossa fé”. Magnífica declaração de falibilismo epistemológico popperiano. A fé se sustenta na razão, que, por sua vez, se sustenta nos fatos, que são a evidência disponível para a fé. A fé, portanto, é sempre racional. No presbiterianismo clássico crê-se naquilo que se acredita racionalmente justificado. A fé, para Calvino, ao contrário do que era para Tertuliano, Agostinho, mesmo Lutero, Kierkegaard, depois dele, Barth, é algo racional. Creio porque entendo e me convenço – “credo quia intelligo” — e não creio porque é absurdo – “credo quia absurdum”. A apologética (a defesa racional da fé cristã) nasceu nesse tipo de visão do papel da teologia: mostrar as bases racionais da fé cristã.

Por causa de tudo isso, fui, enquanto religioso, um religioso racionalista – ou, talvez, fosse mais correto dizer que fui um racionalista religioso. Com o tempo, as leituras no Seminário, a reflexão cada vez mais cuidadosa e profunda, tudo isso contribuiu para que a minha identidade racionalista prevalecesse sobre a minha identidade religiosa, e eu, racionalista, fosse gradualmente apontando o arsenal das armas que eu vinha aprendendo a dominar contra as minhas próprias crenças religiosas. Elas não sobreviveram; sobreviveu o racionalista. Por uns tempos fui um cético, achando que nada era digno de credência. Aos poucos, fui redescobrindo que é importante crer racionalmente — mas nunca mais achei que as crenças racionais fossem aquelas que herdei de meus pais. Hoje encontro no Objetivismo de Ayn Rand a mais bem acabada versão do racionalismo. Mas não sou um cultista de Rand — já tive minha parcela de religião quando moço.

Não sou, entretanto, um combatente da religião — embora ache que, no fundo, ela faça mais mal do que bem. Assim, resolvi nunca me tornar um missionário da irreligião. Deixando de lado os aspectos cognitivos e éticos da religião, que não aceito, os aspectos comunionais e estéticos me intrigam (mais do que me fascinam). Continuo, assim, de certa forma, um estudioso da religião — que, entretanto, não é religioso, não se engaja naquilo que investiga. Um estudioso desengajado.

Como é que foi essa evolução da fé para a descrença (from faith to unfaith, from belief to disbelief)? É uma história longa. Se você tiver interesse e tempo, leia no meu web site, o artigo “How Far Can a Doctrine Change Without Becoming Something Else”. Apresentei esse artigo numa Assembléia das Religiões do Mundo (“Assembly of the World’s Religions”) convocada por none other than the Rev. Sun Myung Moon… But that’s another long story….

Pardon me the mixture in languages. I love doing this. Writing a piece in Portuguese, another in English, another in French — sometimes even in German or Latin, when memory serves me well. It is good to mix languages — your thoughts come out much more forceful. (How would you say that in Portuguese, pray tell?).

Um abraço.

Eduardo

[Transcrito aqui em 26 de Maio de 2014. O artigo mencionado foi republicado aqui nesta data]

Exegética, Hermenêutica e Sermônica

[ Artigo transcrito aqui a partir de meu blog “Liberal Space” (http://liberal.space) e do meu blog História da Igreja (http://historiadaigreja.info)]

1. Preambulatoria

Lembro-me com um desgosto enorme do fato de ter precisado ler, quando no primeiro ano do Seminário (1964), um longo livro de John A. Broadus chamado On The Preparation and Delivery of Sermons. O livro foi concluído em 1870 (data do copyright original) e publicado no ano seguinte. Vai fazer, portanto, 150 anos. Eu o li numa tradução brasileira (O Preparo e a Entrega de Sermões), feita por Waldemar W. Wey (o WWW original, pelo jeito) e publicada pela Casa Publicadora Batista em 1960 – mais de 50 anos atrás, mas apenas quatro anos antes do momento em que o li.

Disse que li o livro com grande desgosto por várias razões.

    • Meu interesse em estudar teologia (que se mantém até hoje) sempre foi muito mais acadêmico do que pastoral. Queria encontrar respostas para minhas perguntas (perguntas que ainda persistem, e, lamento dizer, persistem sem resposta satisfatória, na maioria dos casos), não me preparar para o exercício de um ofício na igreja. Naquela época, o único jeito plausível de estudar teologia era se declarando interessado em se preparar para o ministério pastoral. Logo, não estava nem um pouco interessado em como preparar e apresentar sermões (detesto o termo “entrega” como tradução do Inglês “delivery” – prefiro “apresentação”).
    • Estava lendo constrangido. A leitura do livro fora considerada obrigatória pelo meu professor de Homilética, o Rev. Adauto Araújo Dourado, um grande “entregador de sermões”. E eu, infelizmente, sempre fui muito “caxias” em relação às coisas consideradas meus deveres (antigamente ainda mais do que hoje). Procurava sempre cumpri-los à risca. Logo, pus-me a ler o livro, assim que fui informado da obrigatoriedade da tarefa. Não digo que estava lendo obrigado, porque há sempre formas alternativas de nos desobrigar de deveres que nos são impostas. Digo que eu lia o livro constrangido, e nunca é bom ler um livro dessa forma.
    • Meu pai me ensinou, e por muitos anos eu cumpri bem à risca o princípio ensinado, que nunca se deve abandonar uma tarefa, uma vez iniciada. É possível, em muitos casos, rejeitar uma tarefa que alguém tenta nos impor. Mas, uma vez aceita, ainda que tacitamente, a tarefa, deve-se ir até o fim com ela: desistir, nunca. Logo, não abandonei a leitura do livro uma vez iniciada (como frequentemente o faço hoje).

Se a leitura obrigatória tivesse sido de um livro, não de “sermônica” (termo que prefiro hoje ao tradicional “homilética”), mas de exegese ou hermenêutica, eu o teria lido com prazer. Na verdade, com o maior prazer, se fosse de hermenêutica, e apenas com prazer simples, se fosse de exegese. O exegeta bíblico é um scholar, um erudito, um profissional que se preocupa com pormenores e detalhes históricos, literários e linguísticos, e que conhece muito bem as línguas bíblicas e as correlatas. O hermeneuta bíblico é um comentarista bíblico ou um teólogo, um profissional que se preocupa muito mais com como conseguir fazer com que a Bíblia ainda fale para hoje, ainda que tenha que “torcer e espremer” um pouco o sentido original que o exegeta extrai do texto… O sermonista bíblico, porém, é um divulgador, um popularizador… Suas habilidades maiores devem ser a do comunicador, que capta a atenção de uma audiência e não a perde durante os 30 minutos ou mais que dura um sermão. Nas seções seguintes discorrerei um pouco sobre esses conceitos meio ecléticos e, para o público em geral, frequentemente obscuros.

2. Exegese

Faz parte do trabalho de muita gente analisar textos e descobrir o que é que o autor quis dizer com aquilo que escreveu. Há casos em que o trabalho de uma pessoa se resume a isso. É esse o caso do chamado exegeta profissional – a pessoa cujo trabalho é, basicamente, analisar textos e descobrir o seu sentido original. Mas é muito mais comum que pessoas que têm outras ocupações sejam obrigadas a fazer, de vez em quando, uma exegese.

Um advogado, por exemplo, faz exegese quando procura analisar um trecho de uma lei – digamos, da nossa Constituição Federal – e descobrir o seu sentido. O artigo 5o de nossa Constituição diz o seguinte, no caput e em seu Incisos XXII e XXIII :

Art. 5O – Todos são iguais perante a lei, sem distinção de qualquer natureza, garantindo-se aos brasileiros e aos estrangeiros residentes no País a inviolabilidade do direito à vida, à liberdade, à igualdade, à segurança e à propriedade, nos termos seguintes:

. . .

XXII – é garantido o direito de propriedade;

XXIII – a propriedade atenderá a sua função social”

Primeiro, o advogado pode se perguntar por que o legislador, que já havia garantido o direito à propriedade no caput, se sentiu obrigado a reiterar esse direito no Inciso XXII. Segundo, ele certamente se perguntará o que significa exigir que uma propriedade “atenda a sua função social”. E por aí vai. Ao se fazer essas perguntas e tentar repondê-las, o advogado estará fazendo exegese de um trecho de nossa Constituição. Juristas que se ocupam da Constituição fazem isso quase que o tempo todo.

Um crítico literário, ao escrever uma resenha (que, escrita por ele, só pode ser crítica, pois sua função é ser crítico) de uma obra literária (que, escrita por outrem, pode não ser altamente literária), tem de analisar o texto e tentar encontrar o seu sentido. Ao escrever sobre Dom Casmurro, de Machado de Assis, na tentativa de responder à pergunta se, na cabeça do autor, Capitu era inocente ou culpada, o crítico literário estará fazendo exegese do texto. Se o crítico descobrir, lendo outras fontes, que, uma vez, indagado acerca dessas questão, Machado teria respondido: “Talvez culpada, quem sabe inocente?”, ele poderá se permitir a conclusão de que o autor não quis deixar a resposta à pergunta clara, explícita e definida, mas optou pela ambiguidade…

E um pastor, antes de elaborar seu sermão, deve escolher um texto bíblico no qual vai baseá-lo e prover a análise do texto com vistas à determinação do seu sentido. (Dizem as más línguas que a maior parte dos pastores decide que o vai dizer e depois procura um texto bíblico ao qual possa amarrar a sua mensagem. O texto, neste caso, é mais pretexto do que texto, propriamente dito, e o que ele faz é mais eisegese do que exegese).

Exegese, no fundo é isso. Na Exegese, a pessoa principal é o autor do texto. O que é que ele quis dizer — evidentemente, para os seus contemporâneos?

3. Hermenêutica

Uma vez feita a exegese de um texto, surge a seguinte indagação: este texto, escrito, muitas vezes, em um tempo e lugar (contexto) muito diferentes do meu, me diz alguma coisa hoje? Será que ele ainda faz sentido hoje, para mim e para meus contemporâneos, anos ou séculos depois de ter sido escrito? Será que ele me ajuda a responder questões importantes que eu tenho hoje, em pleno Século 21?

Se, na Exegese, a pessoa principal é, ele, o autor do texto (“O que é que ele quis dizer para os seus contemporâneos?”) na Hermenêutica a pessoa principal passa a ser eu; não mais o exegeta, mas o hermeneuta, o intérprete daquele texto (muitas vezes antigo) para a situação atual, para a realidade de hoje.

Pode ser que, em muitos casos, quiçá a maioria, eu, como hermeneuta, não encontre nenhum sentido no texto do qual foi feita a exegese que valha a pena tentar relacionar com as questões e os problemas que hoje nos afligem. A Palavra dos Talentos, nos Evangelhos (Mateus 25:14-30 e Lucas 19:17-27), contada há mais de vinte séculos, pode ser usada, dois mil e tantos anos depois, para justificar a desigualdade socioeconômica de uma sofisticada sociedade capitalista pós-industrial? Ou será que os contextos são diferentes demais para tentar fazer essa ponte entre o passado e o presente, entre ele, o autor, e mim, o intérprete do texto, da realidade de então para a realidade atual?

O exegeta interessado no assunto procurará analisar o texto bíblico para descobrir o que ele diz acerca do sexo, do casamento, do incesto, das relações “homoafetivas”, que incluem as homossexuais, do divórcio, do casamento múltiplo, simultâneo ou em série, dos transgêneros e das mudanças de sexo, etc. Uma leitura ainda que superficial do trabalho de alguns exegetas atuais mostra que a Bíblia de fato diz muitas e diferentes coisas sobre esses assuntos todos, nem sempre muito fáceis de compatibilizar e tornar coerentes. E essa leitura às vezes nos mostra que a Bíblia é totalmente silente sobre tópicos que hoje são da maior importância.

O hermeneuta tem a ingrata tarefa de se perguntar se aquilo que a Bíblia diz sobre o assunto, acrescido daquilo que ela relata acerca de alguns dos principais heróis bíblicos, como Abraão, Isaque e Jacó, bem como Davi e Salomão, ainda tem algum sentido para a nossa sociedade, digamos, “pós-moderna”…

O exegeta bíblico procurará descobrir qual era a visão do mundo das pessoas do longo período que a Bíblia abrange. Provavelmente concluirá que, para elas, o mundo era plano, em três andares, com a terra no meio, o céu em cima e o inferno embaixo. Para elas, sobe-se ao céu e desce-se ao inferno. Provavelmente descobrirá que, para o povo bíblico, muitas das doenças cujas causas naturais (biológicas ou mentais) são hoje bem conhecidas, eram então atribuídas a possessão demoníaca, sendo curadas apenas se o demônio responsável por ela fosse exorcizado da pessoa. Para a maioria das pessoas do tempo bíblico, havia vários deuses, um deles sendo, talvez, o principal, e os demais exercendo tarefas específicas (deus da música, deus da sabedoria, deus do amor, deus do prazer, deus da guerra…).

O hermeneuta mais uma vez tem a ingrata tarefa de se perguntar se essa visão do mundo ainda tem algum sentido para as pessoas do Século 21, e, caso seja afirmativa a resposta, qual seria esse sentido.

Hermenêutica, em suma, é esse trabalho de “tradução de sentido” de um contexto para o outro. É relacionar o sentido que o autor procurou imprimir ao texto, lá e então, com as questões e os problemas de minha / nossa vida, aqui e agora.

4. Sermônica

Aquele que estou chamando de sermonista é o mesmo para quem John A. Broadus escreveu seu livro. Ele é aquele que prepara e apresenta (prega) sermões num contexto em que sermões, se não exigidos, são esperados. O que aqui digo sobre sermões se aplica também às aulas do professor, às conferências dos intelectuais, manifestações do advogado em juízo…

Quando disse, atrás, que o trabalho do sermonista é o de popularizador e comunicador, não quis menosprezar o seu trabalho. Boa parte da minha vida exerci essa função, sendo pregador em igrejas, palestrante e conferencista em encontros e congressos, professor em sala de aula, e já redigi muitas peças para os mais de cinquenta processos em que estive envolvido na Justiça…  Se tivesse sido advogado, provavelmente teria sido “advogado de júri”, aquele que tem a função de persuadir o júri da inocência de seu cliente… Todos esses sermonistas se baseiam em um texto cuja exegese foi feita por um exegeta e cujo sentido foi transportado para o caso e a situação em pauta por uma hermeneuta. Mas a linguagem da maior parte dos hermeneutas é rebuscada mas seca, cheia de termos difíceis mas sem ritmo, sem poesia, sem emoção… Suas orações são longas, cheio de intercaladas, raramente em ordem direta. É tarefa do sermonista conseguir que a audiência se interesse naquilo que os hermeneutas estão dizendo acerca de um texto não raro escrito em uma língua morta, que pouca gente hoje entende, cujo sentido foi extraído pelo exegeta. . .

Na sociedade espetáculo de hoje, não raro bons sermonistas são bem mais bem-pagos do que hermeneutas e os exegetas da mais alta qualidade. Nas igrejas, eles em geral são pastores auxiliares, porque apenas pregam uma ou, no máximo duas vezes em sua própria igreja, atendendo a convites de outras igrejas nos demais domingos. Enquanto isso, o pastor titular tem de pregar, cuidar da liturgia, preocupar-se com a educação cristã na Escola Dominical (ou Sabatina), envolver-se nos cuidados pastorais, planejar o projeto de crescimento e/ou revitalização da igreja, etc.

5. Conclusoria

Enfim, é isso. Como disse, meu interesse maior está, pela ordem, em hermenêutica e em exegese. Como hermeneuta bíblico, tenho refletido muito sobre o livro de Eclesiastes, que parece ter uma visão cética, pessimista, niilista mesmo da vida, que parece muito difícil compatibilizar com outras partes, mais proeminentes, da mensagem bíblica.

Mas ganho minha vida, a maior parte do tempo, como sermonista. Por quase dez anos (1964-1972), preguei em igrejas, aqui no Brasil e nos Estados Unidos. Por quase quarenta e cinco anos dei aulas em universidades. Por mais de trinta e cinco anos tenho dado palestras e feito conferências. (Esses anos todos têm sobreposições). Por isso, devo valorizar o prato em que tenho comido. O exegeta e o hermeneuta fazem seu trabalho no back office. Quem aparece no front office, ou sob a luz dos refletores, e, hoje, diante da lente das câmeras, é o sermonista. E se ele não conseguir comunicar sua mensagem, os outros dois provavelmente terão trabalhado em vão.

Em São Paulo, 9 de Maio de 2014

[Transcrito no Blog História da Igreja (http://historiadaigreja.info) em 19 de Agosto de 2014]

[Transcrito aqui no Blog Theological Space (http://theological.space) em 11 de Setembro de 2015]

A autobiografia como um processo de (re)construção do eu

Construímos nosso passado – e, John Locke estando certo, nossa identidade — a partir de fragmentos de lembranças perpetuados na memória – da mesma forma que o historiador constrói o passado a partir de fragmentos de evidência que o passado, ao não destruir, nos legou.

Se estou certo no meu post “Memória e Esperança”, nossa identidade também se constrói por aquilo que esperamos nos tornar – pelos nossos projetos de vida.

De um lado, nosso passado, de certo modo, nos condiciona – às vezes, nos condena. De outro lado, o futuro que desejamos alcançar nos puxa para a frente. Entre um e outro, construímos e reconnstruímos nosso eu, nossa identidade pessoal.

Já fiz algumas das seguintes perguntas…

Por que nos lembramos tão bem de algumas coisas, não raro distantes no tempo, e, às vezes, até desimportantes, e temos tanta dificuldade para lembrar outras, às vezes recentes e até mesmo importantes?

Por que traumas nos levam a perder a memória daquilo que os circundou? Quem passa por eles muitas vezes se lembra do que ocorreu antes, até determinado momento, e do que aconteceu depois, no momento em que, em regra, recobraram a consciência perdida.

Por que a memória é tão seletiva? Seria porque, inconscientemente, tentamos preservar apenas aquilo que se harmoniza com a identidade que queremos projetar, exibir ao mundo, com o nosso “eu público”,  nosso public self?

Seria verdade que tudo o que vimos, sentimos, pensamos está registrado na memória, mas que nosso poder de recuperação é limitado? Estaria mesmo o problema, não no nosso “banco de memórias”, o nosso  memory bank (tudo estaria gravado lá), mas com a nossa “máquina de recuperação”, a nossa retrieval machine? Poderia a hipnose, por exemplo, nos dar acesso a memórias que doutra forma ficariam para sempre inacessíveis, perdidas, como se não existissem? Existiriam outros métodos de “acesso direto à memória” (de direct memory access), sem precisar passar pelonosso  “sistema operacional” (nosso operating system) que tem uma máquina de recuperação (retrieval machine) com recursos muito limitados? Seriam as terapias psicanalíticas e as envolvendo hipnose, para não mencionar os métodos de reprogramação neurolíngüistica, formas aceitáveis de alterar aquilo de que nos lembramos e, assim, mudar nossa identidade e, conseqüentemente, nosso eu, nossa personalidade?

E se, no processo de escrever uma autobiografia, viermos a nos lembrar de coisas de que não nos lembrávamos, e a descobrir que algumas de nossas memórias eram inverídicas, estaremos nós mudando a nossa identidade no processo? Neste caso, a pessoa que termina de escrever a autobiografia não seria a mesma que começou a escrevê-la?

Caro leitor: não se desespere. Eu sou isso aí. Eu sou as coisas que aprendi a pensar e a fazer. Eu sou os problemas que um dia achei interessantes. Eu sou aquele que não consegue deixar de levantar essas questões que você bem pode achar idiotas.

Darcy Ribeiro, em suas Confissões, diz que, quando sua mãe estava morta, começou a cantar uma música de procissão, de que, em outras condições, nunca imaginaria que conseguisse lembrar: “Saiu de mim uma cantiga de procissão que eu não me lembraria nunca de que me lembrasse” (Confissões). A construção é canhestra: parece envolver a lembrança da lembrança, a memória da memória…

Darcy Ribeiro, na obra mencionada, também conta o caso de quando reencontrou um antigo diário e, ao lê-lo, percebeu quanta coisa havia acontecido em sua vida das quais não mais se lembrava, quanta coisa havia acontecido das quais as suas memórias atuais, quando confrontadas com o que dizia o diário, estavam totalmente equivocadas.

Doris Lessing também observa que, ao forçar a vinda para o consciente de memórias por muito tempo ilembradas, perguntava-se se realmente havia sido tão má — ou tão boa, ou tão ingênua — assim.

As pessoas têm memórias umas das outras. Às vezes essas memórias são negativas. Um dia, entretanto, algo acontece e as pessoas começam a ver os mesmos fatos sob uma outra luz – e as memórias se alteram. A negatividade das memórias iniciais talvez tenha feito a pessoa soterrar no subconsciente algumas memórias que possuissem uma “dissonância cognitiva” com as memórias privilegiadas — porque essas memórias colidiam com a imagem que queriam manter da outra pessoa. De repente, algo acontece, e torna-se possível abrir um canal com o passado que permite que as boas memórias fluam de novo. O passado se reconstrói. Será uma construção do passado mais fiel do que a anterior? Serão ambas legítimas, fotografias de diferentes momentos do nosso being-in-motion?

Por que tudo tem de ser tão complicado?

Faz 18 anos que tive a idéia de escrever minha autobiografia. Nunca imaginei escrever uma autobiografia muito amarrada, com antecedentes, começo, meio e… bem, o fim não seria eu a escrever. Imaginei assim uma série de auto-retratos escritos – Retratos de Mim Mesmo. Cada um revelaria um pouco de mim, o meu eu de uma certa perspectiva em um determinado momento. Imaginei que pudesse me tornar um van Gogh da escrita, cheio de auto-retratos.

A ideia foi surgindo naturalmente a partir do momento em que coloquei meu site pessoal na Internet, em Setembro de 1995. Naquele mês eu completei 52 anos. (Rousseau começou a preparar suas Confissões quando tinha 54 anos). Escrevi ali um primeiro esboço autobiográfico, e gradativamente fui acrescentanto material, revelando mais e mais de mim mesmo.

Em 19 de fevereiro de 1997, numa passagem escrita depois de ler alguns comentários que alguém fez sobre o meu site, afirmei:

“Que bom que você gostou do meu site particular. Há momentos em que acho que, no meu arremedo de autobiografia, acabei me despindo demais, fazendo quase que um strip tease da alma…  Se o resultado ficou de certa forma parecido comigo, deu certo. Mas seja lá qual for o resultado, eu gostei de tentar capturar em palavras um monte de coisas até aqui apenas vividas. Quem sabe ainda escrevo uma autobiografia pra valer, talvez apenas para consumo próprio?”

Interessante… Desde então meu “arremedo de autobiografia” já foi reescrito algumas vezes. Não só acrescentei coisas: por vezes, retirei coisas, mudei coisas que estavam escritas para que recebessem uma nova ênfase. Nesses dezoito anos, de 1995 para cá, me separei, divorciei, casei de novo, voltei para a igreja da qual me havia afastado, pensava eu definitivamente, em 1972.

Quando decidi escrever essa minha autobiografia aos pedaços iniciei uma busca por mim mesmo: buscava pedaços de mim mesmo perdidos por esse mundo afora. Muita gente fez parte do meu passado – todos aqueles com quem interagi. E eles podem se lembrar de incidentes de minha vida dos quais eu não mais me lembro – pedaços de mim mesmo que eu perdi. Quando encontramos pessoas com quem convivemos bastante (por exemplo, na escola), mas que não vemos há muito tempo, em geral tem lugar uma “hora da nostalgia”: um lembra algo que os demais já esqueceram, outro acrescenta um detalhe, ou o corrige…

Com minha decisão, minha interação com o meu passado alcançou níveis de obsessão. Cartas, diários, livros, artigos – não só meus, mas dos outros com os quais interagi – tudo isso passou a ser parte de uma busca interminável por pistas que pudesse vir a reacender uma nova trilha de memórias que me me viesse a me permitir encontrar pedaços de mim mesmo que eu já havia soterrado em meu inconsciente!

Minha decisão de investir no site do Instituto “José Manuel da Conceição”, onde estudei de 1961 a 1963, fez parte dessa busca. Tenho textos velhos, escritos a mão ou datilografados, fotografias pequenas, em branco e preto, em que é difícil reconhecer a face das pessoas. . .

Assim a vida passa, a gente fica mais velho, hopefully wiser, e fica mais interessado em avaliar o que passou antes – o que fui, o que sou, o que tenho ainda a chance de ser. Naquele momento, aos 52 anos, nunca imaginaria que pudesse vir a me casar de novo, a voltar a ser membro de uma igreja…

Normalmente, lembro-me apenas de pequenos trechos de minha vida. Com esforço, e a ajuda de outros, tento pegar uma agulha e alinhavar os pedaços soltos, na esperança de que eles se conectem em algo que pareça autobiografia. Por isso o meu interesse atual em reencontrar velhos amigos, reatar velhos contatos, amarrar as pontas dos fios que me ligam a pessoas que conheci faz muito tempo, para que os tecidos não desfiem mais do que já desfiaram pelo desgaste natural do tempo.

Dezoito anos depois, hoje, em 2013, a obsessão diminuiu um pouco. Mas não despareceu de todo. Tanto que estou aqui escrevendo esses artigos. Tanto que tenho me envolvido de cabeça na discussão das biografias não autorizadas.

Sei o quanto a nossa memória distorce os fatos, reconstrói lembranças. Pode até, como disse Mark Twain, construir memórias ex nihilo, construir um passado que nunca foi.

Por isso, sou totalmente a favor de biografias não autorizadas. Elas fornecem uma contrapartida necessária para aspectos fictícios do nosso eu.

Em São Paulo, 29 de Outubro de 2013