Graham Greene e sua biografia

Olhando minha lista de livros a comprar, sinto-me na obrigação de esclarecer que comprei os três volumes da magnífica biografia de Graham Greene escrita por Norman Sherry. No total os três volume chegam perto de 2.500 páginas, que custaram a Norman Sherry bem mais de uma década de vida.

Estou avançado na leitura do primeiro volume, que cobre a vida de Greene do nascimento, em 1904, até 1939. Ao mesmo tempo, estou relendo três dos livros dele de que mais gosto: The Power and the Glory, The Heart of the Matter e The End of the Affair (cujo filme, em sua versão mais recente, com Julianne Moore e Ralph Fiennes, é maravilhoso).

Ao ler a biografia fico me perguntando o que leva uma pessoa, como Norman Sherry, a dedicar tantos anos de sua vida a biografar uma outra — por mais importante e interessante que seja essa outra pessoa…

Consta que Norman Sherry visitou todos os lugares que se sabe que Graham Greene visitou, retraçando os passos do seu biografado. Leu tudo o que se sabe existir que tenha partido da pena ou da máquina de escrever de Graham Greene, inclusive cartas particulares, caçadas mundo afora. Investigou tudo o que já foi publicado sobre Graham Greene, inclusive em autobiografias e memórias. Entrevistou milhares de pessoas.

Acho fantástico esse esforço, notável essa dedicação a uma tarefa.

Cortland, OH, 30 de Dezembro de 2004

Ajuda às vítimas da tragédia na Ásia

Escrevo em 30/12/2004, penúltimo dia do ano de 2004.

Sem dúvida o terremoto que aconteceu recentemente na Ásia, seguido da invasão de vários países por ondas oceânicas gigantescas, que ficaram conhecidas como tsunamis, e que causou um número de mortes cuja estimativa parece a cada hora aumentar, é algo consternador, e é um tributo à generosidade da raça humana ver a mobilização de indivíduos e organizações privadas para ajudar as vítimas que sobreviveram ou os sobreviventes das vítimas que não tiveram tanta sorte.

Não acredito, porém, que governos democráticos, pelo menos os dois países não atingidos,  tenham o direito de fazer contribuições em dinheiro ou espécie para os países atingidos ou seus cidadãos.

Governos não geram riquezas. Toda a riqueza do mundo é produzida por indivíduos ou organizações produtivas de bens ou serviços. Governos vivem do dinheiro que conseguem arrancar, através de taxação, dos habitantes de seus territórios ou das atividades exercidas nesses territórios (ainda que por agentes estrangeiros). As chamadas organizações multilaterais (as do sistema das Nações Unidas e outras) vivem das contribuições que lhes fazem os países membros. Fundações e ONGs são financiadas por indivíduos produtivos ou por empresas. É evidente que a única fonte de riqueza são indivíduos e empresas (organizações produtivas).

Países democráticos deveriam levar a sério o princípio de que o dinheiro que o governo arrecada por impostos não é dele — é dos cidadãos que pagam esses impostos. Por isso, ao contemplar qualquer taxação, o governo deveria, primeiro, esclarecer aos cidadãos sobre os quais o imposto irá recair os princípios que, se aprovado o imposto, iriam reger sua cobrança e aplicação: quem iria arcar com ele, e em quanto, e para que seria usado aquele recurso. Com essas informações, a população atingida teria de decidir, caso a caso, se concordava ou não com a taxação pretendida. Mais ou menos como acontece em alguns condados dos Estados Unidos, como expliquei em mensagem anterior neste blog. Se a população atingida estiver de acordo com o uso pretendido do imposto, e com o valor e a duração de sua cobrança, irá pagá-lo sem reclamar. Se não estiver, o governo estará proibido de cobrá-lo. Ponto final. Tertium non datur.

O governo não é dono do dinheiro arrecadado por impostos. Por isso não pode dispor dele como dá na cabeça dos governantes de plantão. Nem o Lula, nem o Bush, nem nenhum outro governante de país democrático, tem o direito de pegar o dinheiro arrecadado de seus cidadãos pagantes de impostos e doá-lo a outros países e/ou a seus cidadãos, por maior que seja a necessidade destes e por mais nobre que seja ajudá-los. O direito à propriedade significa que só os donos do dinheiro podem dispor dele, podem decidir os usos que serão dados a esse dinheiro.

Pessoas físicas e organizações produtivas podem e devem fazer isso — as empresas, caso seus acionistas, ou quem claramente os represente, esteja de acordo. Não governos.

É fácil, mas não correto, ser generoso com o dinheiro alheio.

Recentemente, quando Lula viajou para alguns países da África, fez generosidade com o dinheiro alheio. Doou até laboratórios de computadores para crianças do Gabão, creio — país governado por um ditador de cuja longevidade no poder Lula declarou ter inveja. O dinheiro para fazer essa generosidade não era dele. Se ele desse os laboratórios com a aposentadoria de perseguido pelo regime militar que recebe, teria sido menos ilegítimo — mas nem mesmo essa aposentadoria, paga em parte com o meu dinheiro, eu considero legítima: eu nunca concordei com ela nem fui instado a me manifestar.

Cortland, OH, 30 de Dezembro de 2004

Educação pública nos Estados Unidos

No momento (20041203) estou aqui nos Estados Unidos estudando um programa muito interessante de desenvolvimento profissional de professores usando os próprios professores ("Desenvolvimento profissional ‘inter pares’", ou "Peer Coaching", em Inglês — vide http://peercoach.net). Mas sobre isso falarei noutra hora na lista 4pilares (http://4pilares.net).

Aqui queria ressaltar algo que me impressionou. No processo estou visitando algumas escolas públicas e distritos educacionais aqui no estado de Washington.

A educação básica pública (K-12 — Jardim da Infância até o final do Ensino Médio) aqui é financiada por impostos — e, portanto, gratuita para o usuário. A merenda (almoço, lanche, etc. — os alunos ficam o dia inteiro na escola), porém, apesar de ser fornecida pela escola em um restaurante (cafeteria), é paga pelos alunos, exceto por aqueles que vivem no nível de pobreza (cerca de 2 mil dólares por mês para uma família de quatro).

As escolas estão vinculadas a um distrito educacional — algo equivalente a uma antiga delegacia de ensino do Estado de São Paulo. O distrito educacional que tenho visitado (Edmonds, Estado de Washington) possui 35 escolas mais uma escola experimental.

O superintendente do distrito educacional é eleito pela população do distrito — e pode ser removido se não tiver desempenho satisfatório. Diretores, em regra, são escolhidos pelo superintendente do distrito, dentre professores da escola, em processo de negociação com a escola (não é eleição pela escola).

Mas o mais interessante, em minha opinião, é o seguinte conjunto de fatos:

a) O orçamento de custeio básico das escolas [pessoal, material de consumo, despesas com água, luz, telefone, etc.] já está previsto nos impostos (LOCAIS) pagos pela população.

b) Qualquer investimento [construção de nova escola, reforma de uma escola já existente, aquisição de computadores ou demais equipamentos, substituição de computadores e outros equipamentos, reforço significativo da biblioteca], ou mesmo a implantação de um projeto de reforma pedagógica, etc., dependem de impostos especiais, pagos apenas para cobrir aquela despesa, e que precisam ser especificamente aprovados pela população do distrito.

c) As autoridades educacionais do distrito, como o superintendente e sua equipe, precisam formular o pedido, justificá-lo, objetivamente, e dar à população as informações necessárias para tomar sua decisão — mas estão proibidas, por lei, de advogar a sua aprovação, de fazer lobby para o aumento (ainda que episódico) de impostos. A advocacia do pedido só pode ser feita por grupos de cidadãos, residentes no distrito, interessados em sua aprovação. As autoridades educacionais podem ser presas (sic) se se envolverem na advocacia da suas próprias causas, ainda que justas, fazendo, por exemplo, uma declaração pública a favor do aumento de impostos pleiteado.

d) Dessa forma, a população de um distrito sustenta as suas escolas, mas não dá cheque em branco ao governo local: o dinheiro que dá é dirigido a projetos específicos e sua aplicação, naqueles projetos, é supervisionada e controlada de perto.

É isso. Que diferença.

Vide algumas fotos que tirei numa visita a uma escola (Meadowsdale Elementary School) aqui neste espaço.

Redmond, WA, 3 de Dezembro de 2004