Educação: conceito, modelos, paradigmas – II

George Scharffenberger uma vez disse (num encontro preparatório do World Economic Forum em Brasília) que há três formas de encarar o uso de tecnologia (concebida de forma genérica) na escola—o que ele chamou de “os três ‘S’":

a) Para sustentar (apoiar) o que já se faz (uso conservador)

b) Para suplementar (enriquecer) o que já se faz (uso reformador)

c) Para subverter o que se faz — e introduzir uma nova forma de fazer as coisas (uso transformador ou, se preferirem, revolucionário).

Até certo ponto, a escolha de como usar a tecnologia na escola depende do professor. Se ele considera o que já faz bastante bom, provavelmente vai usar a tecnologia de forma conservadora, isto é, para sustentar e apoiar aquilo que já faz; se ele está convicto que deve melhorar o que faz, mas sem mudar de paradigma, provavelmente vai usar a tecnologia de forma reformadora, suplementando e enriquecendo o que faz; e se ele estiver insatisfeito com o que faz, provavelmente vai procurar usar a tecnologia para deixar para trás o que já faz e encontrar uma nova forma de fazer as coisas, trocando o paradigma.

Ilustro.

A livraria do centro da cidade um dia operava quase sem tecnologia alguma. O estoque era gerenciado em fichas de papel, a contabilidade feita em papel (com a ajuda, talvez, de máquinas manuais ou elétricas de calcular). Quando os microcomputadores se tornaram populares, provavelmente a tecnologia foi usada de forma conservadora: para gerenciar o estoque, fazer a contabilidade, manter o cadastro dos empregados, etc. Com o tempo, a tecnologia começou a ser usada de forma reformadora: a livraria colocou um site na Internet e começou a vender livros para o país inteiro. Por fim, inventou-se a livraria virtual: a Amazon Books transformou, revolucionou o mercado livreiro. E não teria conseguido fazê-lo sem o uso criativo e inovador da tecnologia.

Disse atrás que até certo ponto, a escolha de como usar a tecnologia na escola depende do professor. Enfatizo: "até certo ponto". Ferramentas são ferramentas, e ferramentas são feitas em geral fazer alguma coisa razoavelmente específica. Embora um martelo possa ser usado até para matar alguém, ele em geral serve para fixar ou arrancar um prego. Para fazer coisas razoavelmente diferentes de fixar ou arrancar um prego, precisamos de outras ferramentas. (O computador, em si, é uma notável exceção: embora criado para mastigar números, tornou-se uma ferramenta aberta e versátil que se encaixa em quase qualquer atividade — até o romance).

Há ferramentas interessantes, mas apenas para certas finalidades. PowerPoint é um caso desses: é ótimo como apoio a apresentações feitas ao vivo e em tempo real. Mas não ajuda muito na elaboração de apresentações que possam ser usadas como módulos no Ensino a Distância (considero o Ensino a Distância apenas uma das modalidades da Educação a Distância). Outras ferramentas vão além de PowerPoint e o complementam de forma interessante – esse é o caso de Teaching Mate. Mas tanto PowerPoint como Teaching Mate são ferramentas de apresentação, ao vivo ou no Ensino a Distância. Ou seja: são ferramentas dentro do paradigma convencional da educação. É muito difícil imaginar essas duas ferramentas sendo usadas para fazer algo radicalmente diferente daquilo que se concebe como educação no paradigma tradicional: apresentar informações aos alunos (e testá-los para verificar se as assimilaram).

Para fazer uma educação diferente precisamos de ferramentas diferentes. Se aprendemos em comunicação, interação e colaboração, como diz Paulo Freire, precisamos de ferramentas pedagógicas que facilitem a comunicação, a interação, e a colaboração (não de ferramentas voltadas simplesmente para transmitir ou apresentar informações).

Nossos professores, em regra, não estão muito interessados em transformar o que fazem — e alguns que estão, muita vezes, não sabem como. Mas acho incoerente pregar a necessidade de mudança transformadora, que quebra paradigma, e, no entanto, colocar nas mãos dos professores ferramentas que sustentam e reforçam o paradigma que se deseja substituir.

Não é questão do que vem antes: a mudança do professor ou a tecnologia inovadora. As duas coisas devem vir juntas.

O professor insatisfeito com sua prática convenciona, e que deseja transformá-la, comumente se frustra com tecnologia que apenas sustenta e reforça a prática convencional. A tecnologia apresentada ontem não me parece "sub-ótima" — SE aquilo que realmente queremos é transformar, ou seja, melhorar, radical e qualitativamente, a educação, e isso porque ela sustenta e reforça a prática tradicional e deixa o professor com a impressão de que ele está inovando só porque está usando um notebook e um projetor de multimídia — ou, no caso de Ensino a Distância, a Internet.

As duas coisas têm de vir juntas: uma pedagogia inovadora e uma tecnologia que a facilita e incentiva.

E, na minha opinião, não podemos esperar que esses poços de reacionarismo que são as Faculdades de Educação se transformem antes, porque não o farão. Temos de começar com o pessoal que já está no campo, com a mão na massa, apresentando-lhes idéias novas e ferrmentas inovadoras, tudo junto. E torcer para que o tempo e a geração digital acabem com as Faculdades de Educação.

Em São Paulo, 27 de Novembro de 2008

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