Natal: famílias, tradições, transições

Escrevo no dia de Natal – o dia mais tradicional do ano em países que se dizem cristãos (isto é, que pretendem seguir a tradição cristã – tradição essa que, como todos sabem, já passou por várias transições…).

No Natal as famílias aderem não só à tradição religiosa de comemorar o nascimento de Jesus, como a várias outras tradições: a de armar uma árvore enfeitada, a de iluminar as casas e os jardins, a de dar presentes, a de fazer, em família, uma ceia na véspera ou um almoço especial no dia (ou até mesmo os dois).

Essa última tradição (ceia na véspera e almoço no dia), em especial, embora muito cultivada, traz vários problemas de natureza logística para as famílias. Por exemplo: se a família envolve mais de uma geração de pessoas casadas, o que é comum, há o problema de definir onde, e com quem, se fará a ceia ou o almoço.

Um casal sem pais (digamos que os pais dele e dela já tenham morrido ou morem muito distante) e sem filhos não tem o problema. Os dois ceiam juntos – sozinhos ou, por escolha, com parentes ou amigos.

Esse mesmo casal, com filhos novos, também não tem maiores problemas: todos ceiam ou almoçam juntos.

Quando os filhos crescem e começam a namorar, porém, os problemas se iniciam. Um rapaz que está namorando pode, cavalheirescamente, querer passar a ceia de Natal com a família da namorada… – para desespero da mãe dele. Uma moça que está namorando provavelmente insistirá que o namorado ceie ou almoce com ela e os pais – algo que certamente causará alguns problemas para ele (com a família dele).

Os problemas mais sérios surgem, porém, quando, no caso de um casal, os pais de um e de outro estão ainda vivos – ou, deslocando o problema uma geração, os filhos do casal por sua vez se casam.

Analisemos o caso típico de um casal cujos pais, em ambos os casos, ainda estão vivos. Onde fazer a ceia ou o almoço de Natal? Na casa do próprio casal, na casa dos pais dele, ou na casa dos pais dela? São três candidatos para apenas dois eventos…

Nesse caso, o problema poderia ser facilmente resolvido (em teoria), fazendo a ceia ou o almoço na casa do casal de filhos, com a participação dos pais de ambos nos dois eventos. O problema é que, na prática, a teoria é outra. Os pais são mais velhos e, em geral, já firmaram uma determinada tradição para o dia – e não gostam de rompê-la. Nesse caso, o problema é em geral resolvido fazendo-se um compromisso: a ceia na casa dos pais de um na véspera e o almoço na casa dos pais do outro no dia de Natal – alternando-se o local a cada ano, se for necessário.

A situação se complica quando, no caso em pauta, o casal, cujos pais ainda estão vivos, tem, ao mesmo tempo, filhos casados. Os filhos, quando solteiros, provavelmente participavam da ceia ou do almoço na casa dos dois casais de avós, junto dos pais. Mas agora os filhos têm de lidar com a família do cônjuge, e o problema começa a ficar muito complicado. Tão mais complicado quanto maior é o número de filhos casados na família.

A equação é simples. Um casal tem dois filhos. Um se casa, o que era uma família vira duas. Quando os dois se casam, o que era uma família vira três… Ou seja: as famílias se complicam através de casamentos. E quanto mais filhos e, portanto, casamentos, cada vez mais difícil manter as tradições familiares. Casamentos, afinal, são momentos de transição, em que as famílias se multiplicam (por adição).

O problema de observância das tradições começa a ficar perto de insolúvel, entretanto, quando há separações e novos casamentos – e principalmente quando os separados não convivem.

Nesse caso, sofrem as tradições, sofrem as pessoas – e a razão principal é que as famílias ficaram extremamente complicadas. Mas famílias, como vimos, famílias sempre são complicadas, mesmo quando não há separações… Ou vejamos.

Quando um filho de um casal se casa, o que era uma família passa a ser duas famílias: a do casal original e a do filho. Aqui houve multiplicação de famílias (como vimos, por adição).

Quando um casal se separa e os dois se casam de novo, o que era uma família passa a ser duas famílias.  Aqui houve multiplicação de famílias – mas por divisão (se é que faz sentido falar em multiplicação por divisão).

Se o casal que se separa tinha filhos, os filhos agora fazem parte de duas famílias: a do pai e a da mãe, pois o pai e a mãe agora constituíram famílias distintas. Se, nos novos casamentos, cada um se casa com pessoas que já foram casadas e também tinham filhos, a questão vai ficando cada vez mais complicada…

Tente-se organizar ceias e almoços de Natal numa situação dessas… As transições tornam virtualmente impossível que as famílias mantenham as tradições, como as ceias e os almoços de Natal.

Em situações assim, novas tradições precisam ser iniciadas. Felizmente, o são. Ainda que seja preciso trazer até o Ano Novo no acerto.

Em São Paulo, 25 de Dezembro de 2008

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