Aharon Sapsezian, amigo e irmão

Ontem tive a oportunidade de rever um grande amigo – mais do que um simples amigo, um irmão: Aharon Sapsezian.

A ocasião foi o almoço que celebrou os cinqüenta anos do casamento do Aharon com a Zabel. A reunião foi no Clube Armênio de São Paulo. A Paloma, a Bianca e a Priscilla estavam lá comigo. E lá encontramos um outro casal de amigos: o Rubem Alves e a Thaís, também amigos do Aharon e da Zabel.

Conheci o Aharon já há mais de quarenta anos, em algum momento no segundo semestre de 1966 ou no primeiro semestre de 1967. Eu era, na ocasião, um ex-seminarista: havia sido expulso do Seminário Presbiteriano de Campinas, em decorrência do tsunami que assolou a Igreja Presbiteriana do Brasil a partir de Junho de 1966, e estava tentando não parar de estudar… O Reitor do Seminário na ocasião era o médico Dr. Eduardo Lane Júnior… (Mais sobre os Lanes adiante).

No segundo semestre de 1966 eu trabalhei na Bosch, em Campinas, SP, calculando custos na WWK: Werkswirtschaftskontrol – algo assim… Trabalho insípido, mas, pelo menos, me trazia mensalmente mais dinheiro do que eu havia jamais visto (embora, nos anos de 1959 e 1960, já houvesse trabalhado em duas outras empresas privadas, o Banco Indústria e Comércio de Santa Catarina e a Companhia Swift do Brasil).

No primeiro semestre de 1967 eu juntei os dinheirinhos que tinha conseguido economizar trabalhando na Bosch e fui estudar, por conta própria, e contra a vontade da Igreja Presbiteriana do Brasil, na Faculdade de Teologia da Igreja Evangélica de Confissão Luterana no Brasil, em São Leopoldo, RS. Mas o dinheiro não dava para mais de um semestre de estudos.

Nesse momento, enquanto estava em São Leopoldo, recebo uma carta do Prof. Dr. Rev. Gordon Eugene Jackson, então Deão do Pittsburgh Theological Seminary, de Pittsburgh, PA, Estados Unidos, e de quem eu havia sido intérprete quando sua estada em Campinas em 1965, me oferecendo uma bolsa de estudos para fazer o Mestrado lá. Mas a bolsa não vinha com passagem… E o meu dinheiro não dava para a passagem… E o meu pai não podia, nem iria querer se pudesse, me ajudar (ele estava sem falar comigo por causa da expulsão do Seminário – creio que a maior vergonha pela qual ele passou na vida: chegou a me dizer que preferia que eu tivesse morrido a me ver expulso do Seminário em que ele estudou…)

Sabendo de meu problema, alguém me sugeriu que procurasse a recém-criada Associação dos Seminários Teológicos Evangélicos – ASTE e pleiteasse junto a ela uma bolsa de viagem.

O Aharon era um dos fundadores da ASTE e seu primeiro Secretário Executivo. Foi no escritório da ASTE que o conheci. O escritório era na Rua Rego Freitas, creio que número 92, perto da Praça da República. Ele me ouviu atentamente, como só ele sabe fazer, e não fez doce, não: me arrumou uma bolsa de viagem com recursos fornecidos pelo National Council of the Churches of Christ dos Estados Unidos. Naquela época o valor parecia uma fortuna para mim. Comprei a passagem pela PanAm. Ao todo, vi o Aharon apenas umas duas ou três vezes. Ele, ali, foi meu pai: fez por mim o que o meu pai não teria feito, nem se pudesse.

Fui para os Estados Unidos, fiquei lá sete anos, voltei para o Brasil em 1974, fui para a UNICAMP… Ao voltar para o Brasil, lembrei-me de novo do Aharon, porque a minha passagem de volta foi ainda paga com o dinheiro da ASTE, apesar de terem passado sete anos…

Treze anos depois de eu voltar dos Estados Unidos, lá pelo final de 1987, eu estava cedido pela UNICAMP para a Secretaria de Estado da Saúde, onde dirigia o Centro de Informações de Saúde, a convite de meu amigo e colega José Aristodemo Pinotti. O meu trabalho me levou a Genebra, Suíça, cidade sede da Organização Mundial da Saúde (OMS), que é parte da Organização das Nações Unidas (ONU).

Antes de sair para Genebra conversei com o Rubem Alves, que eu sabia que conhecia bem Genebra, para pegar algumas dicas… Ele me recomendou que procurasse o Aharon lá… Eu nem sabia que o Aharon estava morando lá. Sabia que havia ido para Inglaterra e, depois, para a Suiça. Mas pensei que estivesse em Neuchatel. Disse ao Rubem que nem conhecia o Aharon direito, que só o havia visto rapidamente umas duas ou três vezes, mas o Rubão me garantiu que eu seria bem recebido.

No meu segundo dia em Genebra liguei para o Aharon e me apresentei. Por via das dúvidas, citei a recomendação do Rubem. Apesar de ele, naturalmente, não se lembrar de mim, o Aharon me tratou excepcionalmente bem, como se eu fosse um velho amigo. Convidou-me para ir jantar em sua casa naquela mesma noite. Ele morava no Petit Saconex, perto do Conselho Mundial de Igrejas, onde ele trabalhava, e da Fundação Mundial Luterana, onde a Zabel trabalhava – e também perto da OMS. Fui a pé, seguindo instruções que ele me passou.

Aquela foi a primeira vez que me encontrei com o Aharon em um contexto não profissional. Fiquei encantado com ele: com a gentileza, o tato, a curiosidade, a inteligência, os olhos vivos, o humor fino… E ele querendo notícias e análises sobre o Brasil. Era insaciável a sua curiosidade, sua vontade de saber, sua vontade de conversar, de discutir…

Encontrâmo-nos virtualmente todos os dias durante minha estada de mais de um mês em Genebra naquele final de 1987. Ele me levou para conhecer os arredores de Genebra: Ferney-Voltaire, Évian-les-Bains, Montreux, Lausanne, o Mont Blanc… Fazia questão de cozinhar e sempre arrumava uns “rouges” deliciosos para acompanhar a comida… Tudo isso em companhia da Zabel e das duas filhas jovens deles, a Christina e a Cláudia.

(A Christina e a Cláudia estavam na festa das Bodas de Ouro, cada uma com seu marido, e a Christina com seus três filhos.)

Ficamos amigos, o Aharon e eu, de um dia para o outro. Parece contraditório dizer que nos tornamos velhos amigos à primeira vista — em um mês. Mas foi isso que aconteceu.

A amizade adquiriu uma dimensão mais profunda quando descobrimos que meu pai, Rev. Oscar Chaves, havia sido professor de caligrafia do Aharon no Instituto Bíblico Eduardo Lane, de Patrocínio, MG, no início da década de 30… O pai do Aharon era mascate e viajava pelo sul de Minas. A casa da família ficou sendo em Patrocínio, onde havia uma boa escola evangélica. Sim, os Sapsezians eram crentes. Meu pai, recém convertido do Catolicismo para o Presbiterianismo pelo próprio Rev. Eduardo Lane (Senior), em cuja homenagem em ganhei o nome de Eduardo. O pai do futuro Reitor que iria um dia me expulsar do Seminário de Campinas havia arrumado um empreguinho para o meu pai no Instituto, enquanto meu pai esperava a oportunidade de vir para Jandira, SP, para, no Instituto José Manuel da Conceição (onde também estudei quase trinta anos depois), preparar-se para fazer Teologia no Seminário de Campinas (do qual fui expulso) e entrar no ministério evangélico…

No dia seguinte liguei para o meu pai em Santo André (a essas alturas já havíamos voltado a conversar havia muito tempo) e lhe perguntei se ele se lembrava de uma família Sapsezian em Patrocínio… E o velho se lembrava: falou o nome do Aharon (que ele achava meio modernista porque chegado
a causas ecumênicas…), do irmão dele, e da irmã dele, Asniv, que morava em Campinas.

As coincidências que iriam nos unir ainda mais começavam a aparecer…

Ao voltar a Campinas, mencionei para a minha tia mais querida, Alice de Campos Sanvido, irmã de minha mãe, que havia conhecido em Genebra o Aharon (expliquei quem era), e lhe perguntei se ele, porventura, não conhecia a Asniv, irmã do Aharon, que freqüentava a mesma igreja que ela, minha tia: a Igreja Presbiteriana do Jardim Guanabara (que eu havia freqüentado enquanto no Seminário). Para minha surpresa, a tia Alice me declarou que não só conhecia, como a Asniv era sua melhor amiga… Assim, através da minha tia, fiquei conhecendo também a Asniv…

(As duas eram tão amigas que escolheram morrer com menos de seis meses de intervalo, há cerca de dois anos. Grande perda de duas mulheres excepcionais, uma da minha família, outra da família do Aharon.)

Meu serviço na Secretaria da Saúde me levou de volta a Genebra umas sete ou oito vezes até 1990. Sempre via o Aharon e a Zabel e, naturalmente, as meninas deles – cada vez maiores, já namorando… Discutíamos religião, política, futebol (ele é corinthiano), filosofia. Ele sempre foi meio que cristão-esquerdista, mas mesmo assim se interessou em ler Ayn Rand em decorrência de nossas conversas e comprou a maior parte dos livros dela… Grandes debates entabulamos acerca de Miss Rand…

Numa das idas a Genebra, conheci a Priscila, filha da Asniv, que estava passando uns tempos lá, na casa do Aharon, para estudar Francês – e que, do lado, estava ganhando umas graninhas trabalhando no Pizza Hut que fica na frente da Gare.

(A Priscilla estava na festa das Bodas de Ouro também).

Algum tempo depois fiquei sabendo que um dos filhos do Eduardo Lane Júnior (sim, o ex-Reitor do Seminário que de lá me expulsou, mas também presbítero presbiteriano, médico, professor de ginecologia, e, portanto, meu colega, na UNICAMP e filho do Rev. Eduardo Lane, pa) iria se casar com a outra filha da Asniv… Os relacionamentos do lado paterno de minha família se integravam com os relacionamentos do lado materno da família…

(Na festa das Bodas de Ouro do Aharon e da Zabel fiquei conhecendo o neto do Rev. Eduardo Lane e o filho do Prof. Dr. Eduardo Lane Junior, sua mulher e seu filho.)

Em 2002 tive um infarto. Alguns anos depois o Aharon também teve um – mas o dele foi mais sério, teve parada cardíaca e tudo. Mas ele está são e bom… – e, felizmente, eu também.

No almoço de ontem falaram vários – inclusive o Rubem Alves e eu. E, naturalmente, o Aharon, ao final. Ele fez uma linda homilia, em que atribuiu à sua “grande família”, que inclui o Rubem e a mim, e as nossas mulheres, porque não é formada apenas por consagüinidade, mas, também, por afinidade, o mérito pela longevidade de seu casamento. Bondade dele. O mérito é dele – e da Zabel, naturalmente.

Na minha falinha tive o privilégio de contar, para os presentes na festa, alguns aspectos dessa nossa história cheia de coincidências. Uma história de amizade que amarra várias outras pessoas, que se projeta para o passado, que se projeta para os lados, e, tenho certeza, que se projetará também para o futuro por um bom tempo ainda. Deo volente.

Aharon, meu amigo, meu irmão: um abraço e, como fazem os armênios, um beijo estalado em cada face. Espero ver você muitas vezes ainda.

Em São Paulo, 22 de Abril de 2009

  1. Eu me lembro quando você me disse, certa vez, que o Aharon era seu melhor amigo… Agora, depois de conhecê-lo pessoalmente, é fácil entender o porquê. Que pessoa especial, iluminada, abençoada… Que privilégio o seu, tê-lo como amigo… Que privilégio o dele tê-lo como amigo também…

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  2. Repito e acrescento o que disse no Facebook: Muitíssimo lindo, belíssimo e tocante depoimento!!!!!!!!!!!!!!!!! Como disse minha queridíssima Paloma…, ambos são privilegiados… Conheci apenas uma pessoa de origem armênia… Hagop Yeghiaian, meu chefe, engenheiro, diretor comercial da Nitriflex S.A. Indústria e Comércio, onde tive o privilégio de trabalhar do fim de 1986 ao início de 1990. Não tive mais notícia do Hagop, espero que esteja muito bem…, sempre foi um gentleman, excelente profissional, pessoa boníssima, culta, educadíssimo… seriam características inerentes aos armênios…???? Ao Hagop rendo aqui minhas sinceras e respeitosas homenagens, extensivas ao seu patrício Aharon que, embora não tenha o prazer de conhecê-lo, estou certo de que é merecedor de minhas modestas e singelas homenagens…Em tempo: é incrível como o nosso pai, de uma forma ou de outra, sempre entra em nossas histórias… incrível não…, pois foi o nosso pai…, mas é interessante notar a sua (dele…) influência nos filhos…flá

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  3. O Aharon faleceu ontem, 28/5/2012, às 16h hora local (11h aqui), em Commugny, pertinho de nossa querida Genebra. Como diz a Zabel, sua mulher, “a prorrogação chegou ao final, e o Juiz apitou”. Descanse em paz, meu amigo e irmão.

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