Já lá se vão 47 anos. . .

Em 1967, quarenta e sete anos atrás, neste dia, então um sábado, eu estava, nesta hora (cerca de 19h) no Aeroporto de Viracopos, em Campinas, acompanhado de minha mãe, de minha tia, e de minhas irmãs, para viajar para os Estados Unidos, onde iria fazer o Mestrado, no  Pittburgh Theological Seminary (http://pts.edu), em Pittsburgh (http://pittsburghpa.gov/), no oeste do estado da Pensilvânia, já quase no estado de Ohio (onde minha filha mais velha mora hoje — de Pittsburgh até a casa dela, em Cortland, são, eu diria, cerca de 100 km, se tanto). Meu pai não foi ao aeroporto — estava sem conversar comigo. Meu irmão creio que não foi — não sei por que razão. 

Na época eu estava a menos de três semanas de completar 24 anos (como estou, hoje, de completar 71). Vocês podem conferir a minha foto daquele ano, de um mês antes, por aí, que tirei para o passaporte — o meu primeiro. Estava contente, mas ansioso. O meu Inglês era bastante bom (tinha começado a aprender cedo, havia tido, no Instituto JMC, onde éramos internos, uma namorada que falava Inglês nativo, pois era filha de missionários, e havia completado o curso da União Cultural Brasil-Estados Unidos em Campinas). Mas nunca havia ido aos Estados Unidos e tinha grande expectactiva sobre como iria me sair entre os nativos do país. Depois de uns dias iniciais meio traumáticos, saí-me bem. 

Os mais novos vão ficar surpresos de que eu estivesse saindo de Viracopos. Mas a explicação é simples. Naquela época o Aeroporto Internacional de Guarulhos ainda não existia. O Maluf ainda não havia sido nem prefeito nem governador de São Paulo… Cumbica era apenas uma base militar. E o Aeroporto de Congonhas não comportava aviões do porte de um Boeing 707, que eu iria tomar. Voei com a então tradicional PanAmerican World AirWays (PanAm), que, quando fechou, vendeu para a United as suas rotas latinoamericanas. O vôo, se bem me lembro, era PA 202, originado em Montevideo e que chegava a Campinas depois de uma escala em Buenos Aires. O vôo PA 201 fazia a direção contrária, a partir de Nova York. Fizemos uma escala no Rio, no Aeroporto do Galeão (que era um Aeroporto Internacional, além de uma base militar). Do Rio fui direto para Nova York, nonstop, desembarcando no dia seguinte no Aeroporto John Fitzgerald Kennedy (JFK). Este aeroporto havia sido inaugurado em Julho de 1948, com o nome de Idlewild Airport, mas, depois da morte do Presidente Kennedy, em 22 de Novembro de 1963, foi rebatizado em sua honra, na véspera do Natal daquele ano. Do JFK peguei um vôo para Pittsburgh (não me lembro nem da companhia nem do número do vôo, infelizmente), onde me esperava uma família, os Eichleays, com quem iria ficar por uma semana, antes de começarem as aulas. 

A estada com os Eichleays (ele se chamava William, do nome da mulher e da filha me esqueço) foi gentileza de uma instituição fantástica, o Pittsburgh Council for International Visitors (PCIV), uma ONG criada para recepcionar e apoiar estrangeiros (visitantes internacionais, no “politicamente correto” de então) que chegassem à cidade. O PCIV era informado pelas universidades e faculdades da cidade quando estudantes ou professores estrangeiros iam chegar à cidade, ou pelas empresas quando os visitantes eram empresários ou seus empregados. Eles então contatavam as pessoas e indagavam, no caso de estudantes, se queriam ficar, por uma semana, com uma família que, voluntariamente, sem receber nada por isso, se dispunha a hospedar o visitante e “aclimata-lo” na cidade. Eu, naturalmente, aceitei. Minhas aulas só iriam começar depois do Dia do Trabalho americano, comemorado na primeira segunda-feira de Setembro. Assim, me dispus a ser hóspede dos Eichleays de 20, domingo, dia de minha chegada, a 27 de Agosto — o domingo seguinte.

Já de início, naquele domingo, levaram-me para um restaurante muito chique. Nunca tinha ido a um restaurante tão bacana. Comi sirloin steak, com legumes. Achei delicioso. Tomei, de aperitivo, dois martinis. Foi a primeira vez que experimentei esse drinque americano. Depois do segundo, senti o efeito e fiquei meio zonzo. Tive um pouco de medo de que eles notassem isso. Mas se notaram, foram delicados o suficiente para não me deixar perceber. Com a comida, o impacto passou. De sobremesa, experimentei (também pela primeira vez) cheese cake. Achei delicioso. 

Depois do almoço, deram-me uma tournée da cidade, que achei linda. Pittsburgh é cortada por dois rios, o Allegheny e o Monangahela, que se unem, no centro da cidade, para formar o rio Ohio. A cidade era conhecida, nos anos 30, como “Dust City” (Cidade da Poeira), por causa da poluição causada pelas inúmeras indústrias que tinham sede na cidade, em especial várias indústrias do aço, das quais a US Steel, criada por Andrew Carneggie, o homem mais rico do mundo na passagem do século 19 para o 20, era a principal. Pittsburgh era sede de várias universidades, das quais as principais eram a University of Pittburgh – Pitt (vide http://pitt.edu), a Carneggie-Mellon University (vide http://cmu.edu), tecnológica, que, quando cheguei lá, era chamada de Carneggie Institute of Technology, e a Duquesne University (http://duq.edu),  católica. Era sede de três times esportivos profissionais: os Pittsburgh Steelers, de futebol americano (http://www.steelers.com/), os Pittsburgh Pirates, de beisebol (http://pirates.com), e os Pittsburgh Penguins, de hóquei sobre o gelo (http://penguins.nhl.com/). Os Steelers nunca haviam ganho um superbowl. Desde então ganharam seis, sendo o time que mais vezes foi campeão americano. Os Pirates haviam sido campeões mundiais (como eles chamam os campeões americanos) em 1960 e vieram a ser novamente em 1970, quando eu ainda estava lá. Os Penguins foram formados em 1967, e, portanto, não haviam ganho nada ainda quando cheguei lá, mas, depois, foram campeões nacionais três vezes, em 1991, 1992 e 2009. O time de futebol americano universitário da Pitt eram os Panthers, que era ruim quando eu estava lá, mas melhorou muito, sem, contudo, jamais chegar a ficar por muito tempo entre os melhores. A cidade tinha uma fantástica Orquestra Sinfônica (http://www.pittsburghsymphony.org/pso_home). O PCIV dava, semanalmente, bilhetes para jogos e concertos para os estrangeiros da cidade, numa base primeiro a chegar, leva. Como a sede do PCIV era dentro da Pitt, onde eu fiz o doutorado, de 1970 a 1972 eu aproveitei o fato para não perder muitos jogos. Infelizmente, não aproveitei igualmente os concertos. 

Pittsburgh era também uma cidade famosa por suas faculdades de medicina e hospitais. O hospital mais famoso era o Presbyterian University Hospital, que faz parte do University of Pittsburgh Medical Centers como seu principal hospital de clínicas. Ele fica ao lado do estádio dos Panthers, dentro do campus. 

O campus tinha dois prédios célebres. A Cathedral of Learning (Catedral da Aprendizagem), de 38 andares, no centro do campus, que era, naturalmente, uma catedral secular (http://www.nationalityrooms.pitt.edu/about/cathedral-learning), e a Heinz Memorial Chapel (http://www.heinzchapel.pitt.edu/), que funcionava como a igreja não-denominacional do campus, tendo sido construída com recursos doados pelo famoso industrial H. J. Heinz (fabricante de ketchup e mostarda). A empresa dele (vide http://en.wikipedia.org/wiki/H._J._Heinz_Company) é hoje parte do império do suíço-brasileiro Jorge Paulo Lemann e seus sócios. 

Enfim, é isso. 

Fiquei em Pittsburgh cinco anos, de 20 de Agosto de 1967 até 20 de Agosto de 1972, quando me mudei para a California, onde arrumei um emprego em Hayward, na Baía de San Francisco. 

Comemoro a data 19 de Agosto todo ano e sou grato a todos os que viabilizaram a oportunidade que tive de estudar nos Estados Unidos. Foi um privilégio. Cito, em especial, o Rev. Gordon E. Jackson, Deão do Seminário Presbiteriano de Pittsburgh, que me convidou para ir para lá e me deu a bolsa que me permitiu ficar lá durante cinco anos, e o Rev. Aharon Sapsezian, então Secretário Executivo da Associação de Seminários Teológicos Evangélicos (ASTE), aqui de São Paulo, que em 1967 me deu a passagem para ir e voltar. O Aharon virou, em 1987, um de meus mais diletos amigos. Ele faleceu recentemente. Com o Rev. Jackson perdi contato, mas imagino que já tenha falecido. 

Em São Paulo, 19 de Agosto de 2014.

“Quanto Custa o Voto Evangélico?”

Cristianismo Hoje, Capa, Edição 42

Cristianismo Hoje, Capa, Edição 42

A revista Cristianismo Hoje, edição 42, ano 7, que recebi hoje, tem, como matéria de capa, a seguinte reportagem: “Quanto Custa o Voto Evangélico?”

Há uma foto enorme de uma mão pastoral (episcopal? apostolar? pseudorabínica?) guardando no bolso interno de um paletó pastoral (idem), um maço de notas de 100 reais.

Um artigo de Valdemar Figueiredo pergunta: “Os piores vícios da política brasileira se reproduzem nas igrejas?”

O Editorial de Carlos Fernandes, Editor-Executivo também é muito bom.

Recomendo.

Em São Paulo, 11 de Agosto de 2014

Descendentes do Patriarca José de Oliveira Machado

Sou fã de genealogias. Por isso venho, há vários anos, tentando elaborar a da minha família – minha árvore genealógica já tem cerca de 600 pessoas.

É verdade que ela cresceu bastante quando a Paloma e eu juntamos nossas famílias em Setembro de 2008. Embora só tenhamos nos visto pela primeira vez em 2004 (fará dez anos no dia 26 de Agosto deste ano de 2014), é possível constatar, através deste breve relato, há tangenciamentos, entrelaçamentos e coincidências significativas entre nossas famílias – em especial da minha família com o lado paterno da família da Paloma, que é o lado da família dela que vou apresentar aqui.

O que passo a relatar eu descobri conversando com a Paloma e principalmente os pais dela, mas tive subsídios dos demais parentes, em especial da tia dela, Josira Machado.

JOSÉ DE OLIVEIRA MACHADO, bisavô da Paloma pelo lado paterno, nasceu em 10 de Outubro de 1886, em Campinas, SP, e morreu em 29 de Junho de 1974, em São Paulo.

Casou-se com ALBERTINA MAURI MACHADO, que nasceu em 4 de Janeiro de 1893, também em Campinas, SP, e morreu em 16 de Agosto de 1982, em Diadema, SP. Albertina é a bisavó da Paloma, no lado paterno.

[Abro um primeiro parêntese para registrar que há um tangenciamento interessante entre os bisavós do lado paterno da Paloma, José e Albertina, e meus avós maternos, José e Angelina. Faço este primeiro parêntese para mostrar isso. O parêntese está em itálico. Quem quiser pular, pode.

O meu avô materno, José de Campos, nasceu, também em Campinas, SP, em 7 de Novembro de 1898, e morreu também em Campinas, em de 27 de Agosto de 1967. Casou-se com Angelina Claro Godoy de Campos, que nasceu em 8 de Maio de 1895, e morreu em 28 de Fevereiro de 1969.

Meus avós maternos eram, portanto, da mesma geração que os bisavós da Paloma pelo lado paterno. Os quatro nasceram num intervalo de quase exatamente 12 anos (entre 10/10/1886 e 7/11/1898), os quatro na mesma cidade: Campinas. Faleceram num intervalo de quase exatamente 15  anos (entre 27/8/1967 e 16/8/1982), dentro de um raio de mais ou menos 120 km (distância entre Campinas e Diadema).
 
Há mais coincidências: o bisavô pelo lado paterno da Paloma e o meu avô materno se chamava, ambos, José. E a bisavó pelo lado paterno da Paloma e a minha avó materna ambas tinham nomes terminados em “ina”: Albertina e Angelina. A coisa vai mais longe ainda: a mãe da Albertina também se chamava Angelina, como a minha avó materna.

Fecho o primeiro parêntese.]

[E abro um segundo parêntese… Minha avó agora paterna era chamada, em solteira, Alvina Jacyntha de Oliveira, como o bisavô e o pai da Paloma… Ela nasceu em 24/8/1888 e morreu em 19/4/1959.

Fecho o segundo parêntese.]

José de Oliveira Machado e Albertina Mauri Machado tiveram, pelo que consta em minha base de dados genealógica, 10 (dez) filhos. Com risco de omitir, errar, vou lista-los, pela data de nascimento (embora em um caso, que listo por último, não tenha a data de nascimento. Quando fornecida outra data após a do nascimento, é a da morte.

•    Paulo Machado – 1/2/1912 – 13/8/1992
•    Ruth Machado – 21/2/1914 – 3/5/1976
•    Carlita Machado (Silva) – 29/6/1916 –     /   /2010
•    Jandira Machado (Brito) – 4/9/1918 – 13/6/1977
•    Abelardo Machado (avô paterno da Paloma) – 1/12/1920 – 18/10/2007
•    Wanda Machado (d’Ávila) – 19/9/1923 –    /   /   ?  (conheci o marido dela, Rev. Jacques d’Ávila)
•    Daniel José Machado – 16/8/1925 – 6/12/1925 (viveu apenas um pouco mais de 3 meses)
•    Esther Machado (Dias) – 10/12/1927 (ela nega… :-)) – vivíssima
•    Roberto Machado – 9/3/1933 – vivíssimo
•    Maria Helena Machado –   /   /  ?  –    /   /   ?

Dois dos filhos de José Oliveira Machado e Albertina Mauri Machado estiveram no Encontro da Família Machado realizado em Salto, em 19/7/2014, Esther e Roberto.

Os outros 41 presentes no Encontro eram descendentes de Esther e Roberto, dos outros filhos, já falecidos,  de José de Oliveira Machado e Albertina Mauri Machado, ou, como eu, agregados.

Eis a lista completa, tentando agrupar as pessoas por núcleo, cada núcleo sendo capitaneado por um dos filhos de José de Oliveira Machado e Albertina Mauri Machado. Ordenei os núcleos pela data do nascimento do “capitão” do núcleo, começando com o mais velho.

Apenas três dos dez filhos de José de Oliveira Machado e Albertina Mauri Machado não estiveram presentes no Encontro ou não tiveram nenhum descendente presente no encontro: Ruth, Daniel e Maria Helena.

I. NÚCLEO PAULO MACHADO (“SENIOR”)
01. Paulo Machado Junior [filho de Paulo (“Senior”)]
02. Anita Bueno Machado [mulher de Paulo Junior]
03. Nadieliz Foizer Moraes [filha de Nancy Machado (Foizer), filha de Paulo (“Senior”)]
04. Samuel Barros Moraes [marido de Nadieliz]

II. NÚCLEO CARLITA MACHADO (SILVA)
05. Celma Albertina da Silva [filha de Carlita]

III. NÚCLEO JANDIRA MACHADO (BRITO)
06. Almir Brito [filho de Jandira]
07. Francine Mariane Schoof Brito [filha de Almir]
08. Maurício Rodrigues [noivo de Francine]
09. Sheila Brito Lima [filha de Almir]
10. Fábio Cabral de Lima [Marido de Sheila]
11. Mayara Raquel Rodrigues Brito de Lima  [Filha de Sheila e Fábio]

IV. NÚCLEO ABELARDO MACHADO
12. José de Oliveira Machado Neto (“Machadinho”) [filho de Abelardo]
13. Ana Maria Epprecht Machado [mulher de Machadinho]
14. Ana Patrícia Epprecht Machado [filha de Machadinho]
15. Fábio Kohatsu Kofazu [marido de Ana Patrícia]
16. Júlia Machado Kofazu [filha de Ana Patrícia e Fábio]
17. Paloma Epprecht e Machado de Campos Chaves [filha de Machadinho]
18. Eduardo Oscar Epprecht e Machado de Campos Chaves [marido de Paloma]
19. Bianca Epprecht Machado França [filha de Paloma]
20. Priscilla Epprecht Machado França [filha de Paloma]
21. Aline Machado Kato [filha de Ana Patrícia]
22. Alexandre Keiti Kato (“Japa” [marido de Aline]
23. Milena Machado Kato [filha de Aline e Japa]
24. Ovenice Maia (“Veninha”) [mulher de João Maia, filho de Abelardo]

V. NÚCLEO WANDA MACHADO (D’ÁVILA)
25. Iara D’Ávila Le Du [filha de Wanda]
26. Gerard Lucien Le Du [marido de Iara]

VI. NÚCLEO ESTHER MACHADO (DIAS)
27. Esther Machado Dias [filha de José de Oliveira Machado]
28. Roseli Machado Dias [filha de Esther]
29. Silvia Machado Dias [filha de Esther]
30. Nilton Cordiolli de Oliveira [marido de Silvia]
31. Hamilton Machado Dias (Pituto”) [filho de Esther]
32. Elaine Sanchez Dias [mulher de Hamilton]
33. Thaís Cristina Sanchez Dias [filha de Hamilton e Elaine]
34. Vitor Henrique Sanchez Dias [filho de Hamilton e Elaine]
35. Guilherme Felipe Sanchez Dias [filho de Hamilton e Elaine]
36. Leonardo Vinicius Sanchez Dias [filho de Hamilton e Elaine]

VII. NÚCLEO ROBERTO MACHADO
37. Roberto Machado [filho de José de Oliveira Machado]
38. Anacelis Nogueira Machado [mulher de Roberto]
39. Denise Machado Leme [filha de Roberto e Anacelis]
40. Marilia Machado Leme [filha de Denise]
41. Marcela Machado Leme [filha de Denise]
42. Paulo Roberto Nogueira Machado [filho de Roberto e Anacelis]
43. Sônia [namorada de Paulo Roberto (falta nome completo)]

Espero que estejam certas as informações. Se não estiverem, por favor, me contatem, deixando um comentário a este post.

[Agora uma palavra sobre os entrelaçamentos. Quando adolescente, certamente me encontrei com a Adair Aguiar Arruda (Machado), mulher de Abelardo Machado, e seus filhos, inclusive o Machadinho, pai da Paloma. Isto se deu na Igreja Presbiteriana do Parque das Nações, em Santo André, da qual meu pai, Oscar Chaves, era pastor e a Adair organista e regente do coral. Na realidade, a Albernice Machado (Santos), irmã mais velha do Machadinho, tem a minha idade (nascemos com intervalo de menos de um mês), e ela se casou com um amigo meu, Gideão dos Santos. O Abelardo Machado Júnior, irmão mais novo do Machadinho, se casou com Miriam dos Santos, filha de Rubem dos Santos, também meu amigo, pois era irmão do Gideão. O meu pai fez esses dois casamentos. Apesar de todos esses entrelaçamentos com a família do pai dela, só vim encontrar a Paloma pela primeira vez, como disse, em 2004. Antes tarde do que nunca, não é verdade?]

Em São Paulo, 21 de Julho de 2014

Rubem Azevedo Alves: 15/9/1933 – 19/7/2014

Rubem Azevedo Alves

Foto de Vitor Chaves, Agosto de 2011

. . .

Faleceu hoje cedo, aos 80 anos, meu grande amigo de mais de 50 anos, Rubem Alves. Não tenho muito o que dizer. Há tempo vinha pressentindo que esse dia se aproximava — e ele o sabia também, tanto que muitos de seus textos falavam sobre a morte.

Publico abaixo um texto dele que acredito ser inédito — pois ele o escreveu para mim, a meu pedido, em 6 de Março de 2003, há mais de onze anos. Eu havia acabado de escrever um livro sobre educação, ao qual dei o título de Educação para o Desenvolvimento Humano — Uma Educação para uma Nova Era. A Editora SENAC aceitou-o para publicação e eu pedi ao Rubem que o prefaciasse. Ele gentilmente acedeu ao pedido, com o texto abaixo.

Eu, porém, depois de o texto final já estar nas mãos da editora, com Prefácio e tudo, mudei minhas ideias sobre alguns temas e resolvi retirar o livro da editora. Isso foi onze anos atrás. Mexi e mexi no texto e nunca fiquei totalmente contente com ele. Resultado: não o publiquei até hoje. Mas o Prefácio o Rubem nunca o pediu de volta. E Prefácios são coisas muito pessoais. Logo, imagino que esse texto não tenha sido publicado em outro lugar. Lembro-me de uma vez em que ele me perguntou sobre o livro e eu lhe disse que ainda estava mexendo no texto — e ele nunca mais tocou no assunto.

Agora, com a morte dele, publico o texto aqui no blog. Se vier a publicar o livro e o Prefácio ainda for pertinente, quem sabe o usarei, mesmo que não inédito. É um fantástico texto.

o O o

Prefácio – Rubem Alves

Quero, preliminarmente, esclarecer o leitor sobre a minha maneira de ler, pois é ela que determina minha maneira de escrever. Eu leio antropofagicamente: devoro os livros que amo. Depois de devorá-los eles entram no meu sangue. Circulando no meu sangue deixam de pertencer ao autor: passam a ser parte de mim. Assim, ao escrever sobre um livro, escrevo sobre ele tal como foi por mim digerido amorosamente. Tolo seria um homem apaixonado que, ao escrever sobre o jantar que sua amada lhe preparou, transcrevesse as receitas dos pratos que foram servidos… Assim, não vou transcrever e nem resumir. Vou falar sobre aquilo que esse livro fez comigo depois de digerido…

o O o

Digo primeiro que a leitura desse livro me fez ficar alegre. E isso porque, ao lê-lo, dei-me conta de que eu e o Eduardo estamos fazendo um dueto, tocando a mesma música…

Vou explicar. Eu e o Eduardo temos sido amigos por muitos anos. Nossa amizade se iniciou na juventude, porque andávamos pelo mesmo caminho. Naqueles tempos escolhemos o caminho que, acreditávamos, nos levaria aos deuses. Estudamos no mesmo lugar, lemos os mesmos livros de teologia e brincamos com as mesmas idéias.

Mas o tempo passou e nós mudamos. Talvez por razões diferentes abandonamos o caminho dos deuses com as suas certezas e resolvemos caminhar por caminhos mais modestos e mais humanos. Seguimos o conselho do poeta alemão Heine: deixamos os céus aos anjos e aos pardais…

Mas não seguimos juntos. Apareceu uma bifurcação e aí nos separamos: eu fui por um lado e o Eduardo foi por outro. E assim vivemos por vários anos, caminhando por caminhos diferentes. Mas nunca deixamos de ser amigos. Até ríamos das nossas diferenças. Rafael pintou uma tela em que aparecem, caminhando lado a lado, os filósofos Platão e Aristóteles. Conversam enquanto caminham. Mas a tela deixa claro que eles não estavam de acordo. Platão aponta para cima enquanto a mão de Aristóteles sugere os caminhos de baixo… Platão quer as alturas; quer ser ave. Aristóteles, talvez se lembrando do destino trágico de Ícaro, indica os caminhos da terra, mais seguros para criaturas desprovidas de asas. Assim éramos nós… O Eduardo e eu chegamos mesmo a imaginar um jogo de palavras. Se eu dissesse Platão ele responderia com Aristóteles. Se eu falasse Santo Agostinho ele invocaria Santo Tomás de Aquino. Se eu propusesse Lutero, ele contraproporia Calvino. Ao meu Pascal ele retrucaria com Descartes. E se ele dissesse Hume e Kant eu diria Nietzsche e Kierkegaard…

Eu segui o caminho da literatura e da poesia, onde só se fala por meio da imprecisa e ambígua linguagem das imagens e das metáforas. O Eduardo, ao contrário, preferiu o rigoroso e paciente caminho das idéias claras e distintas, da lógica e da razão, e não foi por acidente que ele escolheu como tema da sua dissertação de doutorado o pensamento do filósofo Hume.

Mas estes não são caminhos contraditórios. Tanto a emoção quanto a razão são manifestações da vida. A vida, só com a razão, é monótona e triste. E a emoção sozinha, sem a razão, é frágil e efêmera. É do seu encontro amoroso que universos são gerados.

Há pessoas que conseguem de forma maravilhosa brincar com as duas ao mesmo tempo. Tal é o caso de Gaston Bachelard que, por um lado, escreveu livros filosóficos clássicos sobre epistemologia e filosofia da ciência e, ao mesmo tempo, obras de rara beleza e sensibilidade poética, tais como “A Chama de uma Vela” e “A Poética do Espaço”. Havia o Bachelard diurno e o Bachelard noturno…

Os dons não são escolhas nossas. Não escolhemos a nossa maneira de pensar e de escrever. Milan Kundera, no seu livro Os Testamentos Traídos, observa que os pensamentos de um filósofo não são produtos deliberados de uma decisão consciente. Os pensamentos, ele acrescenta citando Nietzsche, vêm “de fora, do alto ou de baixo… Um pensamento vem quando ‘ele’ quer…” (p. 135). Assim aconteceu conosco. Eu não escolhi o meu jeito de pensar e escrever. E o Eduardo não escolheu o seu. Os pensamentos nos escolheram, cada um a seu modo. E a minha alegria está precisamente nisso: que havendo caminhado por caminhos diferentes por tanto tempo, agora nossos caminhos se encontram e começamos a tocar a mesma música…

Digerido, o livro me fez pensar.

A propósito do livro best-seller Inteligência Emocional, o Eduardo observa que a questão não é fazer com que a inteligência se torne emocional. (Na verdade, eu pessoalmente não acredito que isso seja possível e nem que seja desejável). E observa: “Não é a inteligência (razão) que deve se tornar emocional: é a emoção que deve se tornar inteligente”. Isso sim é desejável, possível e necessário. Na ordem da vida a emoção é a origem de todas as coisas. É nela que se encontra a força propulsora da ação. Os sonhos são o rosto visível das emoções. Deus sonhou primeiro e agiu depois. Sonhou com um paraíso e foi desse sonho que surgiu o verbo criador. No princípio era o sonho… Mas o sonho sozinho com suas emoções não nos diz o que fazer para realizá-lo. Por outro lado, sem o sonho, a inteligência permanece flácida, impotente e inútil… O sonho precisa de um aliado que o torne forte. Parafraseando o poeta William Blake: “O sonho engravida. A inteligência faz parir.” Nietzsche, que seguia o caminho da emoção, tinha clara consciência disto. Dizia que o corpo, lugar das emoções e dos sonhos, é o início de todas as coisas e o chamava de Grande Razão. E é essa Grande Razão, bela e impetuosa, que cria a inteligência, a “pequena razão”, como uma ferramenta e um brinquedo para os seus sonhos. Para quê? Para que os sonhos não permaneçam apenas sonhos. Para que os sonhos se transformem em realidade. Para que a gravidez se realize em nascimento…

O que é este livro? Ele é uma exploração meticulosa, exaustiva, detalhada, clara, dos caminhos a serem seguidos para dar inteligência à emoção. Minha alegria está nisso: que o Eduardo fez aquilo que eu mesmo não fiz.

Dar inteligência à emoção… Isso nos permite dizer o que uma escola deveria e poderia ser. Uma escola é um tempo-espaço onde as crianças têm liberdade para sonhar e compartilhar seus sonhos. Mas mais do que isso: é um tempo-espaço onde elas, no exercício da inteligência, criam as competências necessárias para que seus sonhos se realizem.

Uma boa metáfora ilumina mais que uma dúzia de conceitos. O Eduardo se vale da metáfora da construção de uma casa para explicar a maneira como se aprende. Trata-se de uma metáfora fácil de ser entendida porque, afinal de contas, temos estado repetindo que aprendizagem é construção…

Onde se inicia a construção de uma casa? Na compra do terreno? No financiamento? Na casa dos materiais de construção? Na planta do engenheiro? Não. Uma casa não começa nesses lugares sólidos. Ela começa num lugar frágil, que nem mesmo existe. Uma casa começa num desejo, naquele momento em que uma pessoa diz: “Como seria bom seu eu pudesse construir uma casa!” O desejo é como um feto: a princípio não se percebe nele qualquer forma definida. Mas à medida que ele cresce, ganha um rosto. Torna-se visível como sonho. É o que disse Fernando Pessoa: “O meu desejo porque é forte entra na substância do mundo.”

“No princípio era o sonho…” O que vale para uma casa vale também para todas as criações, das mais simples às mais complexas: vale para um jardim e uma catedral, para um carrinho de lata de sardinha e uma nave espacial, para um assobio e uma sinfonia. “Deus quer, o homem sonha, a obra nasce…” (Fernando Pessoa). Polya, matemático da Universidade de Princeton, escreveu um enorme livrinho sobre a arte de resolver problemas. O seu primeiro conselho é “comece do fim”. Não é assim que procedemos ao planejar as férias? Primeiro sonhamos o lugar para onde queremos ir. A seguir o sonho pergunta à inteligência: “Qual é o caminho para se chegar lá?” E é assim também que acontece com a vida, que é o maior projeto de construção que qualquer pessoa possa ter, porque o que está em jogo é o sonho do que queremos ser. A escola é precisamente o lugar onde os sonhos das crianças põem suas inteligências a trabalhar para que elas possam ser o que desejam ser.

Sim, as escolas são tempos-espaços em que as crianças se constroem. Mas é preciso perguntar: De quem são os sonhos? De quem é o projeto? Quem tomou as decisões?

Para a educação tradicional a resposta é muito clara. “A educação é algo que os adultos (‘as gerações mais velhas’) fazem com as crianças (‘as gerações mais jovens’)”. Desta forma, ela atribui “aos adultos (pais, professores, etc.) o papel de atores principais no processo educacional.” Às crianças “cabe apenas assimilar o que os adultos desejam que elas aprendam.” Na escola tradicional, crianças ficam quietas e prestam atenção. “Aprender”, ali, “é um processo essencialmente passivo, que têm lugar principalmente quando elas ouvem e lêem”. Paulo Freire deu o nome de “educação bancária” a esse tipo de procedimento escolar: as crianças e os alunos são cofres vazios onde os adultos vão depositando os saberes que os programas determinam. Essa imagem bancária da educação é muito verdadeira porque foram as próprias escolas que a adotaram ao empregar a palavra “crédito” para se referir aos cursos que um aluno cursou.

Aos alunos cabe o silêncio… Na verdade pressupomos que as crianças são estúpidas e nada sabem. Não podem, portanto, opinar e decidir sobre os seus rumos nas escolas. A educação tradicional, assim, ignorando que as crianças têm sonhos e têm o direito de sonhar, impõe sobre elas desejos que não são delas, desejos dos adultos, para que elas deixem de ser elas mesmas e se tornem outras. Haverá forma mais cruel de alienação? Pois alienação não é precisamente isso, esquecer os próprios sonhos e passar a sonhar os sonhos de um estranho? O que me faz lembrar um doloroso verso de Álvaro de Campos: “Não existo. Sou o intervalo entre o meu desejo e o que os desejos dos outros fizeram de mim…” Por causa disto Alberto Caieiro se entregou à tarefa de desaprender tudo o que lhe haviam ensinado, para que pudesse voltar ser ele mesmo…

Na escola tradicional o professor vai seguro para a sala. Sua aula está preparada. Ele segue o programa. Não haverá surpresas. Ele sabe o que vai falar. É ele quem vai dar o tema. Se uma criança fizer uma pergunta enviesada ele dirá que em outro lugar do programa ela será respondida. Às crianças compete prestar atenção, escutar. O ato de avaliação, que freqüentemente decide o destino de uma criança, tem o preciso objetivo de verificar se as crianças ouviram bem o que lhes foi falado, se elas internalizaram os saberes determinados por outros, outros que não estão lá…

O que está pressuposto por detrás dessa prática é que as crianças são tolas. Nada sabem. O que têm a dizer não é para ser levado a sério. Se as escutamos é por um mero ato de delicadeza. Não é um escutar de verdade, para aprender delas. É um escutar de “faz de contas”…

Mas não são poucos aqueles que perceberam o contrário. Bernardo Soares se refere à “diferença hedionda entre a inteligência das crianças e a estupidez dos adultos.” Ricardo Reis, num poema sapiencial, diz que é preciso viver “tendo as crianças por nossas mestras e os olhos cheios de natureza”. Nietzsche, que os doutos professores universitários dos seus dias nunca entenderam, refugiava-se nas crianças e dizia que o máximo de maturidade que um adulto pode atingir é quando ele tem a seriedade que as crianças têm ao brincar. Novalis contemplava as crianças e se encantava: “O primeiro homem é o primeiro visionário de espíritos. O que são as crianças, senão primeiros homens? O fresco olhar da criança é mais transcendente que o pressentimento do mais resoluto dos visionários.” E Janusz Korczak, o educador polonês judeu que morreu numa câmara de gás nazista com suas crianças, escrevendo aos professores, disse: “Vocês dizem: ‘Cansa-nos ter de conviver com as crianças’. Têm razão. Vocês dizem ainda: ‘Cansa-nos porque precisamos descer ao seu nível de compreensão’. Descer. Rebaixar-se, inclinar-se, ficar curvado. Estão equivocados. Não é isso o que nos cansa, e sim o fato de termos de elevar-nos até alcançar o nível de sentimentos das crianças. Elevar-nos, subir, ficar nas pontas dos pés, estender a mão. Para não machucá-las.”

O fato é que as crianças são inteligentes. Suas inteligências ainda não foram petrificadas pelo hábito. Seus olhos se espantam com todas as coisas. Querem saber. São curiosas. Investigam. O dedinho da criança procurando buracos onde enfiá-lo é um maravilhoso símbolo da sua curiosidade. “Ninguém precisa ensinar uma criança pequena a aprender”, diz o Eduardo citando Peter M. Senge. “Na verdade, ninguém precisa ensinar nada a uma criança pequena. Elas são infinitamente inquisitivas, aprendentes competentes que aprendem a andar, a falar e a basicamente mandar em suas casas, tudo sozinhas.”

Uma Nova Escola tem de se iniciar com uma transformação amorosa na nossa imagem da criança. Reconhecer que todas as crianças – na verdade, todas as pessoas – têm sonhos. Mais do que isso: que elas têm direito aos seus sonhos, porque seus sonhos são a sua alma. E que são os sonhos que determinam o programa: são eles, os seus sonhos, que dizem quais são os saberes a serem buscados. Porque todos os saberes só têm uma função: a de permitir que os sonhos sejam realizados. Quando um sonho se realiza vem a alegria. Todo o trabalho para a realização dos sonhos é um trabalho feliz. Mesmo o trabalho penoso. Lembro-me de Oswald de Andrade, no “Manifesto Antropofágico”: “A alegria é a prova dos nove…”. O espaço-tempo da escola, assim, se organiza como uma oficina onde as crianças são encorajadas a sonhar os seus próprios sonhos. Nenhum sonho será jamais castigado. É um espaço feliz. E o professor se descobre então como um provocador e escutador de sonhos…

Isso produz uma perturbação nas rotinas do professor. Na escola tradicional todos os saberes estão definidos pelo programa. O professor é o portador desses saberes. Sua missão é fazer com que as crianças aprendam. Mas agora esse programa fixo deixa de existir. Serão os desejos e sonhos dos alunos que indicarão quais os saberes que lhes serão necessários no seu projeto de vida. Crianças nas praias do Nordeste, nas montanhas de Minas, nas florestas da Amazônia, nos bairros ricos das grandes cidades, nas favelas, nos pequenos vilarejos pobres – quantos sonhos diferentes! Quantos projetos de vida diferentes! Seria, por acaso, possível, submetê-las a um programa único? Impossível. Serão as crianças que dirão os seus sonhos e pedirão ao professor: “Ajude-nos a realizá-los!” E o professor perceberá que ele não tem respostas para as perguntas que lhe vêm dos alunos. Ele não sabe! Ele terá de dizer que não sabe. E isso não será vergonhoso. Ninguém sabe todas as coisas. Ele não sabe as respostas. Sua função não é ensinar respostas. Sua função é ajudar os alunos e a si mesmo a perguntar e a procurar as respostas.

É preciso que nos libertemos da insensatez dos programas prefixados e universais. Eles pressupõem que aqueles são os saberes que as crianças devem aprender, sem explicar por quê. Qual o sentido dos nomes das enzimas que entram no processo digestivo para um adolescente de periferia? O que pode ele fazer com aqueles nomes? E pressupõem ainda que os alunos são todos iguais. E que devem aprender as mesmas coisas. No mesmo ritmo… Nenhum desses pressupostos se justifica psicologicamente.

Por vezes o absurdo literário nos ajuda a compreender o absurdo real. Imaginemos que um homem decidido a construir uma casa vá a um depósito de materiais de construção e se ponha a fazer um estoque de todos os produtos que ali se encontram. Afinal de contas, ele vai construir uma casa e aquele é o lugar onde estão estocados os materiais para a construção de uma casa. Claro que isso é um absurdo. Ninguém procede assim. Só um louco. O que todo mundo faz, orientado pelo senso comum, é ir comprando os materiais à medida que se tornam necessários. Mas aquela é, precisamente, a filosofia dos programas: os alunos são obrigados a aprender os saberes que, hipoteticamente, irão usar um dia, eventualmente… Não seria muito mais racional ir aprendendo os saberes à medida que se tornarem necessários à construção do projeto de vida?

Tenho dó dos professores sabedores dos programas. Porque a cada ano eles são obrigados a andar pelos mesmos caminhos, a repetir as mesmas coisas. Fazem-me lembrar os guias turísticos que, dia após dia, levam os turistas aos mesmos monumentos e mecanicamente repetem as mesmas informações. É uma monotonia sem fim! Não admira que, com o transcorrer dos anos, a alegria desapareça dos seus rostos e eles desaprendam a arte de sonhar! Passam a sonhar com a aposentadoria… Mas, indo ao sabor dos sonhos das crianças a cada dia eles terão de enfrentar o desafio de mundos desconhecidos e a surpresa de coisas novas! E ficarão mais ricos. E mais interessantes. Esse é um projeto de vida que vale a pena!

Para que aprender? O corpo aprende para se tornar mais eficiente para resolver os problemas vitais do dia a dia. “Saber por saber! Isso é desumano!”, dizia Miguel de Unamuno. Tecnologia são todos os artifícios inventados pela inteligência para aumentar a competência do corpo para resolver os problemas vitais. Marshall McLuhan observou que todos os produtos tecnológicos, da cuia ao computador, são extensões dos nossos membros e da nossa inteligência. Saberes são ferramentas. No mundo há milhares, milhões de ferramentas. Eu nunca usarei todas. Portanto, não tenho de aprender todas. Aprenderei as ferramentas que me são necessárias para viver. É esse “para viver” que dá sentido ao conhecimento. Assim, aprendemos para nos tornar competentes.

O que é competência? Menino, eu tinha inveja do meu pai. Ele descascava laranjas como ninguém: cascas inteiras, sem ferir a laranja. Eu queria ser como ele. Para isso eu teria de aprender várias coisas. A segurar o canivete. A amolar o canivete. A segurar a laranja. A girar a laranja. A cortar a casca no ângulo certo. Ninguém me disse que aprendesse. Ninguém me ensinou. Aprendi sozinho porque queria. Me esforcei até que fiquei competente. Descasco laranjas como o meu pai. Esse saber não se encontra em nenhum programa…

Competência é ter a capacidade para resolver os problemas que nos desafiam no dia a dia. Muito cedo, sem que ninguém saiba como, a criança adquire competência para andar. Com isso ela resolve o problema de deslocar-se no espaço. E aprende a falar. Com isso ela se torna competente na comunicação. O menino que roda o pião ficou competente em rodar pião. A menina que pula corda ficou competente em pular corda. O jovem que toca violão se tornou competente em tocar violão. Para isso foi necessário que o seu sonho fosse muito forte. Se ele não sonhasse forte ele não teria paciência… Sempre que o sonho é forte a inteligência trabalha com paciência e persistência. Não é preciso que ninguém lhe dê ordens.

A vida é feita de competências. Corrijo-me. A vida é feita de sonhos e competências. São os sonhos que buscam as competências. As competências nos dão os “meios para viver”. Os sonhos nos dão as “razões para viver”. As competências existem para que os sonhos se realizem.

É possível que a imprensa tenha sido a tecnologia que mais revolucionou a educação. Ela foi capaz de colocar o mundo dentro de um livro. E dentro de uma sala de aulas. Mas, para fazer essa tarefa fantástica ela teve de se valer de um artifício: transformou o mundo multidimensional, desorganizado, sempre em mutação, numa linha contínua de palavras. Para que as palavras façam sentido é preciso que os olhos deslizem sobre elas, da esquerda para a direita, sem saltos. O problema de um escritor é sempre esse: colocar numa linha aquilo que não existe em linha… A escrita determinou nossa maneira de pensar o mundo: pensamos o mundo através de uma linha reta deslizante. À moda de uma centopéia, sem pulos.

Vieram então os computadores. E a Internet. Com isso surgiu um outro jeito de andar: aos pulos, como uma pulga. Podem rir da metáfora. Eu também a acho engraçada. Mas acho que Nietzsche a aprovaria pois dizia que aqueles que só sabem andar não seriam capazes de segui-lo. Seria preciso que fossem capazes de saltar de pico em pico. E acrescentou: “Mas para isso é preciso ter pernas longas…” A Internet nos deu pernas longas. Podemos saltar de pico em pico. Podemos visitar o mundo aos pulos. Quantas revoluções no pensamento, nos arranjos espaciais e temporais, nas trocas de informações, acontecem em decorrência da presença de computadores e da Internet numa escola. Alguns não se dão conta do que está ocorrendo. Pensam que um computador ligado à Internet é apenas mais um artefato tecnológico moderno. Não se dão conta de que ele representa uma transformação radical no nosso mundo, nas formas de conhecer, de comunicar e de ganhar novas competências. Hoje, para ser competente, é preciso aprender a pensar com os saltos da pulga. As linhas retas nos levam por caminhos batidos. Os saltos nos levam a lugares não pensados.

O que há de fascinante neste livro é que o seu autor nos leva passo a passo no processo de construção do projeto de vida daqueles que estão aprendendo. Porque isso é a única coisa que importa. Resumindo: é o sonho em busca da inteligência.

O nosso sonho é que o dueto se transforme em orquestra…

Rubem Alves
Campinas, 6 de março de 2003

Obrigado, Rubem. Resquiecat in pace.

Transcrito aqui em Salto, 19 de Julho de 2014. Dia triste.

Agora que a Seleção perdeu, o Brasil tem mais condições de ganhar. . .

Em 11/6/2014, véspera da abertura da Copa, escrevi um artigo aqui com o singelo título de “A Copa” (http://liberalspace.net/2014/06/11/a-copa-2/). Este artigo é a sequência. A Copa não acabou ainda — mas, para o Brasil, acabou.

Os que estavam torcendo para o Brasil que me desculpem, mas eu me senti de alma lavada ao final do jogo de ontem. Ficou de excelente tamanho. Como disse no artigo anterior, eu queria uma derrota acachapante, humilhante, vergonhosa. O jogo foi todo isso para o Brasil. A Alemanha brincou em campo, treinou como se fosse com o juvenil do Bayern — ou pior. A Alemanha poderia ter feito mais, mas o fato de não ter feito demonstrou elegância. E, no último minuto, deixou o Brasil fazer o gol de honra — noblesse oblige. Acho que a crise de choro do Oscar ao final do jogo, que terminou com o seu gol, foi agravada por ele perceber que os homens deixaram que ele fizesse o gol… Nada óbvio demais, mas se o jogo valesse alguma coisa naquele momento, o Oscar nunca teria feito um gol daquele jeito.

Enfim, cada um luta com as armas que tem. As minhas foram não dar apoio a uma Copa feita: (a) para favorecer a corrupção e o roubo e (2) porque o Lulla percebeu, lá atrás, que 2014 era um ano de eleição, e que se ele conseguisse se caracterizar como o Pai dessa Copa poderia colocar mais uma eleição debaixo do braço — dele próprio e de seus cupinxas — em mais um estelionato eleitoral, especialidade dele.

Os que estão do lado dos petralhas, em alguns casos, para disfarçar o uso político que fariam da Copa, no caso de uma vitória do Brasil, se opuseram a que os adversários — “a direita” — fizesse uso político da Copa — como se eles já não o estivessem fazendo (haja vista o discurso da presidente em 11/6) e não fossem faze-lo ainda mais.

Enfim… estou aliviado — o que significa que estou de alma leve hoje.

Para os que estão de alma machucada só gostaria de dizer que nem mesmo no futebol devemos usar o slogan “meu país, certo ou errado”. Patriotismo não se resue, nem mesmo se exemplifica em torcer para um time de futebol, ainda que o time seja a Seleção Nacional. Aqueles, como eu, que torceram para a Seleção Brasileira perder estavam torcendo para o Brasil — país e não time — ganhar.

Estou mais confiante, hoje, de que, apesar e por causa da derrota de ontem, o Brasil tem mais chances de ganhar.

Em Salto, 9 de Julho de 2014 — Dia em que se comemora a Pátria Paulista.

Minha Gestão na Direção da Faculdade de Educação da UNICAMP (1980 a 1984) *

Fui Diretor da Faculdade de Educação de Abril de 1980 a Abril de 1984. Antes disso, fui Diretor Associado, na gestão do Prof. Antônio Muniz de Rezende (Abril de 1976 a Abril de 1980). Fiquei, portanto, na Direção da Faculdade, como Diretor ou Diretor Associado, durante os oito anos que se seguiram aos quatro anos iniciais da Faculdade, em que ela foi dirigida pelo finado Prof. Marconi Freire Montezuma (do início, em 1972, até Abril de 1976). Embora tenha ativamente participado da gestão da Faculdade enquanto Diretor Associado, vou limitar minhas observações ao período em que ocupei o cargo de Diretor, visto que o Prof. Rezende cobrirá o quadriênio em que ele exerceu este cargo.

Vou procurar reunir minhas considerações, admitidamente muito pessoais, ao redor de seis temas:

  • O Processo de Escolha
  • A Primeira Fase da Gestão: O Fortalecimento dos Diretores
  • A Crise de Outubro de 1981
  • A Segunda Fase da Gestão: Tecnologia Educacional
  • Rápida Apreciação
  • O Futuro

I. O Processo de Escolha

O implantador e primeiro Diretor da Faculdade de Educação foi escolhido através de decisão pessoal do então Reitor da Universidade, Prof. Zeferino Vaz. A escolha recaiu inicialmente sobre o Prof. José Aloísio Aragão, que, entretanto, veio a falecer, sendo, em seu lugar, escolhido o Prof. Marconi Freire Montezuma, que, contudo, apenas respondeu pelo expediente da Direção. (O Prof. José Aloísio Aragão era irmão do Dr. Francisco Alcilone Aragão, que, desde a criação da Faculdade até a sua aposentadoria, exerceu função que, na prática, era a de Secretário da Faculdade).

O segundo Diretor, Prof. Antônio Muniz de Rezende, também foi nomeado pelo Reitor Zeferino Vaz, que acatou a indicação feita pelo Prof. Montezuma. Este fez sua indicação depois de consultar vários membros da então pequena comunidade da Faculdade, tendo o nome do Prof. Rezende alcançado consenso entre os consultados, apesar de ele haver chegado à Faculdade pouco tempo antes (cerca de um ano).

No meu caso, o processo de escolha foi mais elaborado e, do ponto de vista da democracia, representou certo avanço. Já havia, na Faculdade, um Colegiado, que fazia as vezes da futura Congregação, que não podia ainda ser implantada em virtude de uma alegada não institucionalização da Faculdade. Do Colegiado participavam o Diretor, o Diretor Associado, os Coordenadores de Curso, os Chefes de Departamento, os representantes dos vários níveis docentes e representantes dos alunos de Graduação (Pedagogia e Licenciatura) e Pós-Graduação. Cada Departamento, cada nível docente e cada categoria de alunos se reuniu, discutiu a questão, e veio ao Colegiado com uma lista de nomes que representava um elenco hierarquizado de preferências. Meu nome alcançou consenso, tendo obtido o voto de todos os dezenove participantes da reunião do Colegiado. Para compor a lista a ser encaminhada ao Reitor – então já o Prof. Plínio Alves de Moraes – foram usados nomes de outros docentes da Faculdade, menos votados (já que cada participante da reunião podia votar em até três nomes). Com o respaldo da decisão do Colegiado, minha indicação para a Direção foi encaminhada ao Reitor pelo Prof. Rezende.

Minha nomeação, entretanto, demorou um pouco para sair, porque havia jogo de pressões nos bastidores, do qual participaram vários elementos da cúpula da Universidade que não estavam totalmente satisfeitos com o meu nome, em grande parte em virtude de meu ativo envolvimento, enquanto Diretor Associado, na famosa greve de 1979 e no processo de contratação do Prof. Paulo Réglus Freire, naquele mesmo ano. Neste episódio, em particular, eu, na qualidade de Diretor Associado da Faculdade, no exercício da Direção (o Prof. Rezende estava afastado), havia, à revelia da Reitoria, enviado uma carta, co-assinada pelo Reitor da PUC-SP, ao Ministério das Relações Exteriores, solicitando a liberação de passaporte para o Prof. Paulo Freire, que se encontrava na Suíça, visto que tínhamos, a Faculdade de Educação da UNICAMP e a PUC-SP, interesse em contratar o Prof. Paulo Freire – algo que, de fato, eventualmente ocorreu. Essa carta, graças à atuação bem intencionada mas desastrada do Prof. Moacir Gadotti (que, tendo, em Genebra, sido “apadrinhado” do Prof. Paulo Freire, acabou se tornando seu “padrinho” aqui no Brasil), recebeu desmedida atenção da imprensa local, dado o fato de que o Prof. Paulo Freire estava proscrito, proibido de retornar ao país, etc. É oportuno lembrar que a anistia “ampla, geral e irrestrita” não havia ainda sido concedida. Lembro-me bem, entretanto, do dia em que o Prof. Plínio me comunicou, durante a festa de casamento de um dos filhos dos Profs. Morency e Lucila Arouca, que minha nomeação estava saindo, como de fato saiu. Os elementos da cúpula da Universidade que resistiam ao meu nome não haviam, porém, desistido da luta, como ficaria claro 18 meses depois, na chamada Crise de 1981.

Minha gestão pode ser dividida em duas fases, separadas pela Crise de 1981. A primeira, que durou exatos 18 meses (de Abril de 1980 até a eclosão da crise, em Outubro de 1981), foi dedicada principalmente a atuação externa, no âmbito da Universidade. A segunda fase durou exatos dois anos, de Abril de 1982 a Abril de 1984. A crise durou exatos seis meses.

II. Primeira Fase da Gestão: O Fortalecimento dos Diretores

A gestão do Prof. Zeferino Vaz na Reitoria foi a do homem forte que era. Embora houvesse homens fortes na Direção de algumas unidades durante sua gestão, não havia dúvida de que eles, caso discordassem do Reitor, eventualmente seriam alijados de sua posição, como cabalmente demonstraram os “affaires” Fausto Castilho, no Instituto de Filosofia e Ciências Humanas, e Marcelo Damy de Souza Santos, no Instituto de Física.

Preferiu o Prof. Zeferino ser sucedido por alguém que não lhe fizesse sombra, e, assim, conseguiu, junto ao então Governador Paulo Egydio Martins, que fosse nomeado como seu sucessor o Prof. Plínio Alves de Moraes – pessoa boníssima, a quem respeito até hoje, mas sem a menor condição política de exercer o cargo de Reitor, especialmente diante de um Governador forte, como era o caso de Paulo Salim Maluf, que assumiu o cargo em 1979. O Prof. Plínio foi o terceiro da lista enviada ao Governador Paulo Egydio Martins.

O Prof. Plínio, sendo um Reitor politicamente fraco, deixou espaço para o fortalecimento político dos Diretores, enquanto grupo, dentro da Universidade – especialmente daqueles Diretores que, tendo sido indicados, pela primeira vez na Universidade, por processo razoavelmente democrático de consulta e votação, estavam respaldados por sua comunidade. O resultado disso foi que os chamados “Diretores Democráticos”, com apoio da Representação Docente no Conselho Diretor (inexistia ainda o Conselho Universitário), ocuparam o vazio deixado pela fraqueza do Reitor – com a simpatia deste mas contra a vontade de seus acólitos, em especial do Dr. Paulo Gomes Romeu, “raposa velha”, então Vice-Reitor, como houvera sido na gestão do Prof. Zeferino Vaz, ex-Presidente do Conselho Estadual da Educação e burocrata por vocação; Dr. Pérsio Furquim Rebouças, Procurador-Geral da Universidade, de inexcedível incompetência, mas para quem a função de Procurador da Universidade nada mais era do que uma excelente ocasião de ajustar as leis e as normas à vontade daqueles a quem pessoalmente servia; Sr. Zuhair Warwar, Coordenador da Administração Geral, que cobria de mistério os mais elementares processos operacionais para que pudesse tipificar como gênio administrativo toda vez que isso pudesse lhe trazer algum dividendo, político ou de outra natureza; e Dr. Arnaldo Camargo – ex-Delegado do DOPS, com contatos nos mais recônditos porões da Ditadura Militar, figura tétrica e ameaçadora, que serviu de Chefe de Gabinete tanto do Prof. Zeferino Vaz como do Prof. Plínio Alves de Moraes. Que eu saiba, o único que teve coragem de enfrentar o Dr. Camargo foi o Prof. Rezende. Ele certamente se lembra disso.

Quando assumi a Direção da Faculdade, em Abril de 1980, estava em pleno processo de consolidação o “Grupo dos Diretores Democráticos”. Desde que o Prof. Plínio assumiu a Reitoria da UNICAMP, em 1978, ficou claro que a saída do Prof. Zeferino da Reitoria criara um vácuo de poder. Enquanto viveu o Prof. Zeferino, ele ainda se imiscuiu muito nos negócios da Universidade. Entretanto, após sua morte, em Abril de 1981, o vácuo ficou clamando para ser preenchido e os Diretores, que vinham gradativamente, e um pouco nas sombras, assumindo os espaços, e, assim o poder, no âmbito do Conselho Diretor, começaram a se articular mais às claras, junto com a Representação Docente, para assumir a Direção da Universidade, conduzindo o processo de sucessão do Prof. Plínio.

Faziam parte do Grupo o Prof. Maurício Prates de Campos Filho, da Faculdade de Engenharia (que incluía em uma só as atuais Faculdades de Engenharia Elétrica, Engenharia Mecânica e Engenharia Química), e que era reconhecidamente o líder do grupo; o Prof. Carlos Franchi, do Instituto de Estudos de Linguagem; o Prof. André Maria Pompeu Villalobos, do Instituto de Filosofia e Ciências Humanas (que então englobava o atual Instituto de Economia); o Prof. Yaro Burian Júnior, do Instituto de Artes (apesar de ser Engenheiro Elétrico); o Prof. Aécio Pereira Chagas, do Instituto de Química; o Prof. Carlos Alfredo Argüello, do Instituto de Física; a Prof. Ayda Ignez Arruda, já falecida, do Instituto de Matemática, Estatística e Ciência da Computação (que então englobava o atual Instituto de Computação); e eu, da Faculdade de Educação. Ao todo, oito Diretores.

Na divisão de tarefas, coube-me ser Presidente da Comissão de Orçamentos e Patrimônio (COP) do Conselho Diretor, função para a qual fui eleito em 1980 e reeleito em 1981. Junto com a Comissão de Legislação e Normas (CLN), que era presidida pelo meu colega e amigo, Prof. Rubem Azevedo Alves, então representante dos Professores Titulares no Conselho Diretor, a COP tinha um potencial político explosivo. Entre outras funções, tinha a atribuição de examinar as finanças da Universidade e de analisar a proposta de orçamento, recomendando ao Conselho Diretor as prioridades para a alocação de recursos. As comissões anteriores sempre haviam referendado o que o Coordenador da Administração Geral (Zuhair Warwar) lhes trazia pronto. A COP presidida por mim resolveu mexer em vários vespeiros: os contratos com a Ensatur (de propriedade do Deputado Nabi Abib Chedid), que tinha exclusividade no transporte fretado de funcionários, professores e alunos (visto que os ônibus urbanos de Campinas não chegavam até o campus); o processo de compras de gêneros alimentícios para os restaurantes, que envolvia recursos vultosos e era precedido de obscuras licitações; as verbas destinadas aos programas de residência médica no Hospital de Clínicas, que eram menina dos olhos do Prof. Zeferino; as gratificações dos altos funcionários da Universidade; etc. Na minha gestão na Presidência da COP o Conselho Diretor começou a democratizar o processo de preparação do orçamento e de execução orçamentária, com resultados que se mostraram assustadores para a cúpula da Universidade. A Administração Geral da UNICAMP (leia-se: Zuhair Warwar) fez guerra surda o tempo todo, em função da perda de poder, da revelação de quanto se gastava com a Ensatur e com as compras de gêneros alimentícios, etc.. Os Médicos Residentes fizeram greve por não desejarem que sua remuneração fosse fixada pela FUNDAP, conforme determinação do Governo, e porque queriam que se alocassem recursos para seu pagamento diferenciado, pretensão negada pela COP. Os funcionários mais altos da Universidade ganharam uma polpuda gratificação da Reitoria, mas a COP não alocou recursos para seu pagamento, o que fez com que entrassem todos com processos na Justiça. Em termos de democratização de procedimentos, é importante registrar que, quando da programação orçamentária e da concessão de suplementação de verbas, fazia-se uma reunião da COP com todos os Diretores para decidirem, em conjunto, como distribuir os recursos. Isso, naquela época, era inusitado.

Em conversas pessoais, o Reitor estimulava o ataque aos burocratas encastelados na alta administração da Universidade. Nas reuniões do Conselho Diretor, entretanto, procurava não confrontá-los diretamente, embora em muitas ocasiões tenha deixado de lhes dar a sustentação a que haviam se acostumado.

Esse processo de arejamento do Conselho Diretor alcançou seu ponto mais alto quando o Conselho, contra a orientação e a vontade da Mesa, aprovou uma Resolução, decorrente de proposta do Prof. Rubem Alves, que deflagrava o processo de sucessão na Reitoria, definindo uma agenda que previa a apresentação de candidatos, definia um prazo para debates com a comunidade, e estipulava uma data, na segunda quinzena de 1981, para uma Consulta à Comunidade. O mandato do Prof. Plínio se encerraria (como de fato se encerrou) em Abril de 1982. A resolução do Conselho pretendia que, realizada a consulta, o Conselho a apreciasse, e, naturalmente, referendasse o seu resultado, durante o mês de Novembro, encaminhando ao Governador a lista de nomes em tempo mais do que hábil para a indicação do novo Reitor. Esperavam os Diretores e as Representações Docente e Discente que a lista sêxtupla a ser enviada ao Governador não lhe deixasse escolha: todos os seis nomes escolhidos pela comunidade e referendados pelo Conselho deveriam ser de professores afinados com o grupo considerado democrático.

Os oito Diretores mencionados atrás resolveram se candidatar à sucessão do Prof. Plínio. Dois representantes docentes no Conselho, os Profs. Hermano Tavares e Jorge Lobo Miglioli, também se candidataram. Também se apresentou candidato o Prof. Paulo Freire, que não era membro do Conselho mas se identificava com o grupo majoritário no Conselho. Além desses, apresentaram-se outros candidatos, não afinados com esse grupo, como os Profs. Rogério Cerqueira Leite (ex-Diretor do Instituto de Física e ex-Coordenador Geral das Faculdades), José Aristodemo Pinotti (ex-Diretor da Faculdade de Ciências Médicas), Morency Arouca (ex-Diretor da Faculdade de Engenharia Civil, então em Limeira), e Attílio José Giarola (ex-Coordenador Geral de Pós-Graduação e na época Coordenador Geral das Faculdades).

III. A Crise de Outubro de 1981

A Consulta à Comunidade com vistas à escolha do sucessor do Prof. Plínio estava marcada para a semana de 19 de Outubro de 1981. No dia 17, um Sábado, a comunidade acadêmica foi surpreendida com a publicação, no Diário Oficial do Estado, de uma Portaria do Reitor, datada do dia anterior, dispensando de suas funções os oito Diretores que eram candidatos ao cargo de Reitor, sob a alegação de que não eram Professores Titulares, visto que, segundo pretendia o Reitor (com base num parecer rapidamente forjado pelo Conselho Estadual de Educação, a pedido do Dr. Paulo Gomes Romeo), a expressão “Professor Titular” deveria ser interpretada como significando “Professor Titular Concursado”. Ressalte-se que, na Universidade inteira, naquele momento, só havia dois Professores Titulares Concursados: o Prof. Pinotti, que conseguira, a todo custo, e agora ficava claro porquê, fazer aprovar seu concurso no Conselho Diretor meses antes, e o Prof. Arouca, que havia feito o concurso na Universidade de São Paulo, de onde viera para a UNICAMP.

Ao mesmo tempo que exonerava os oito Diretores, o Reitor nomeou oito novos Diretores, prontamente batizados de Interventores pela comunidade. A pressa na nomeação dos novos Diretores fez com que a Reitoria não avaliasse o impacto político, e nem mesmo jurídico, de seus atos. Para a Faculdade de Educação foi nomeado o Prof. Eduardo Daruge, dentista e professor da Faculdade de Odontologia de Piracicaba. Para algumas unidades foram nomeados professores de fora da Universidade.

Não é difícil imaginar a conturbação que a Portaria gerou na comunidade universitária. Imediatamente foi decretada uma greve que durou seis meses. A Consulta à Comunidade foi realizada, mesmo com a comunidade em greve, tendo a lista sêxtupla sido constituída, nesta ordem, pelos Profs. Paulo Freire, Maurício Prates, Carlos Franchi, Rogério Cerqueira Leite, Yaro Burian e por mim.

Alguns dos Interventores tentaram tomar posse e foram barrados dos prédios das respectivas unidades. O Interventor do Instituto de Matemática, Estatística e Ciência da Computação, de cujo nome felizmente não me lembro mais, mas que era de fora da Universidade, foi intencionalmente levado, pelo motorista da unidade, para um edifício muito distante, e teve que andar de volta até a Reitoria, perdido pelo campus, sob vaias e toda sorte de insultos, sendo alvo de moedas, balas, bolinhas de papel e outros pequenos objetos que lhe eram atirados. Na Faculdade de Educação o Prof. Daruge, depois de várias tentativas frustradas, finalmente conseguiu entrar no prédio, sendo recebido pelos membros do Conselho Interdepartamental da Faculdade que, através do Decano da Faculdade, Prof. Montezuma, então na Chefia do Departamento de Psicologia Educacional, lhe passaram, por ter aceito o cargo, severa e merecida descompostura, da qual o Prof. Daruge provavelmente nunca mais vai se esquecer até sua morte. O efeito imediato foi que o Interventor nunca mais colocou os pés nem mesmo perto da Faculdade de Educação. Consta que renunciou, mas a renúncia, se ocorreu, não foi publicada. De qualquer forma, ele sumiu.

Entrementes, a crise continuou e a Universidade permaneceu parada. De todo o país vieram moções de solidariedade à comunidade universitária agredida. Políticos de toda estirpe procuraram “faturar” em cima da crise, comparecendo ao campus, participando de reuniões, fazendo declarações, etc..

Alguns Interventores de pronto renunciaram, como o do Instituto de Filosofia e Ciências Humanas, um biólogo, que foi substituído pelo Prof. Carlos Rodrigues Lessa, professor de economista do próprio Instituto, em episódio que gerou enorme controvérsia no campus e manchou para sempre a reputação dos envolvidos. O nome do Prof. Lessa para substituir o Interventor original foi indicado à Reitoria pelos economistas da Universidade: Profs. Sérgio Salomé da Silva (Diretor Associado do Instituto, que exercia interinamente a Direção, na ausência do Prof. André), Ferdinando de Oliveira Figueiredo, Jorge Lobo Miglioli, Wilson Cano, João Manoel Cardoso de Mello, Luciano Coutinho de Oliveira, Luiz Gonzaga de Mello Belluzzo, Maria Conceição Tavares e Paulo Renato Costa Souza (então em fim de mandato como Presidente da ADUNICAMP). Alegavam esses professores (e outros que lhes davam apoio) ser melhor ter um “interventor democrático” a um interventor não-democrático. O Prof. Lessa, embora residisse no Rio de Janeiro, dava uma aula por semana no Departamento de Economia da UNICAMP (da mesma forma que a Profa. Maria Conceição Tavares), assim fazendo parte, oficialmente, do Grupo dos Economistas da UNICAMP, mas era Professor, aparentemente Titular Concursado, da Universidade Federal do Rio de Janeiro. A indicação do Prof. Lessa foi aceita pela Reitoria, pois esta estava interessada em rachar o movimento e pôr fim à crise. O Prof. Lessa, sem nenhuma vergonha e nenhum escrúpulo, tomou posse do cargo do Prof. André, e foi prontamente considerado pelos economistas da UNICAMP o legítimo Diretor do Instituto.

Os economistas da UNICAMP, portanto, dispensaram qualquer sutileza e deram um “golpe branco” no Diretor legitimamente eleito do IFCH, o Prof. André. Abriram, assim, em proveito próprio, uma brecha no movimento. Sua iniciativa foi energicamente repudiada pela comunidade. O campus foi forrado de pichações e faixas dizendo “Fora Lessa, Interventor”. As reais intenções políticas do Grupo dos Economistas da UNICAMP começaram a ficar claras naquele momento para toda a comunidade universitária. A partir de então, os economistas da UNICAMP, através do Prof. Lessa e, frequentemente, também dos outros membros do grupo, tornaram-se aliados da Reitoria e deixaram de fazer parte da oposição ao ato de força do Reitor. Maquiavel não poderia ter encontrado melhor evidência de Realpolitik.

Para mim o episódio Lessa não teria sido doloroso se não tivesse levado vários professores da Faculdade de Educação, simpatizantes dos economistas, a propor que se buscasse uma “solução Lessa” também para a Faculdade de Educação. Deixo de mencionar os nomes dos que aderiram a essa proposta, por estarem ainda conosco, mas sua ideia era a de que era preferível encontrar algum Professor Titular Concursado democrático em alguma universidade, e convidá-lo para assumir a Direção da Faculdade, a correr o risco de ter um outro Prof. Daruge na Direção. Felizmente, e para crédito da comunidade da Faculdade de Educação, os proponentes dessa tese ficaram na minoria e ela não prosperou.

Achei que era chegada a minha vez de agir sozinho. Com a assessoria da Dra. Ana Maria Tebar, amiga pessoal e advogada que trabalhava na Secretaria Geral da Universidade, foram rascunhadas as linhas mestras de um Mandado de Segurança contra o ato do Reitor. Usamos argumentos próprios e outros que foram apresentados pelo Prof. Dalmo de Abreu Dallari, que emitiu circunstanciado parecer denunciando o arbítrio e o abuso de poder do Reitor da UNICAMP. Através do Prof. Rubem Alves, contatei o Dr. Waldemar Thomazine, Juiz do Trabalho aposentado e membro da Comissão Justiça e Paz de Campinas, que se dispôs a gratuitamente impetrar o Mandado, colocando nossos argumentos em forma jurídica apropriada. No início de Dezembro de 1981, com muito poucos na Universidade sabendo o que estava sendo feito, o Mandado foi impetrado e liminar favorável foi concedida pelo Juiz de Direito Álvaro Érix Ferreira, então novo na cidade.

A liminar do Juiz caiu como uma bomba na comunidade e na cidade (foi manchete de primeira página dos dois jornais de Campinas), posto que me reconduzia ao cargo de Diretor. Imediatamente impetramos Mandados de Segurança em nomes de todos os Diretores exonerados, exceto os Profs. Carlos Franchi e Yaro Burian, que, por razões pessoais, preferiram não apelar à Justiça. Todos os que impetraram os Mandados receberam liminares favoráveis.

A Reitoria, apavorada, contratou, sem licitação e por uma fábula de dinheiro, o escritório do Dr. Alfredo Buzaid, indigníssimo proponente do Ato Institucional nº 5, para defendê-la nos Mandados de Segurança (assim, implicitamente, reconhecendo a incompetência do Dr. Pérsio Furquim Rebouças). O Dr. Buzaid trouxe seu quartel-general para Campinas, tentou intimidar os Juízes locais (tendo sido bem sucedido em uma instância, em que um Juiz voltou atrás na liminar), entrou com Agravos de Instrumento no Tribunal de Justiça – tudo sem sucesso (exceto no caso do Juiz que voltou atrás aqui em Campinas).

Quando a Reitoria percebeu que uma das liminares, envolvendo dois dos Diretores, fora revogada, resolveu agir com presteza. Convocou uma Reunião do Conselho Diretor para a Sexta-feira anterior ao Carnaval, em Fevereiro de 1982, com a finalidade de elaborar a Lista Sêxtupla para o Governador do Estado, Paulo Salim Maluf. Não contente com essa manobra, reforçou o seu time. Os seis representantes do Governo no Conselho Diretor foram substituídos por pesos-pesados oriundos do mais retrógrado órgão da burocracia educacional daquela época, o Conselho Estadual da Educação.

O Conselho Diretor, reunido, elaborou, sob veementes protestos do Prof. Rubem Alves e meus próprios, uma lista sêxtupla, colocando o nome do Prof. Pinotti em primeiro lugar. Após a reunião, que terminou depois das 18 horas, a lista foi encaminhada pessoalmente ao Governador Maluf, que estava viajando pelo Estado, em um de seus Governos Itinerantes. Num milagre de eficiência, a nomeação do Prof. Pinotti foi publicada no Diário Oficial do dia seguinte, um Sábado de Carnaval. Apropriado.

Pelos mapas de votação, competentemente organizados pelos alunos Cláudio de Oliveira Pinto e Sandra Aparecida Riscal, Representantes Discentes no Conselho, ficou patente que o Prof. Jorge Miglioli, economista e Representante Docente no Conselho, havia votado para o Prof. Pinotti, o fato deixando claro que os economistas haviam encontrado em uma aliança com o Prof. Pinotti, Professor Titular Concursado, a solução de seu problema (o acesso ao poder a qualquer custo). A posterior nomeação dos Profs. Wilson Cano, Ferdinando de Oliveira Figueiredo, e Paulo Renato Costa Souza para altos cargos na administração do Prof. Pinotti simplesmente confirmou o que já estava óbvio. Em 1984 o Prof. Pinotti indicou o Prof. Paulo Renato para o cargo de Secretário da Educação, para o qual ele, Reitor, havia sido convidado pelo Governador André Franco Montoro. Em 1985, o Prof. Pinotti apoiou a candidatura do Prof. Paulo Renato para substituí-lo na Reitoria da UNICAMP e, em contrapartida, foi ocupar o seu lugar na Secretaria da Educação em Abril de 1986, ao sair da Reitoria e passá-la para o Prof. Paulo Renato. Mas com isso saio do período que me compete analisar.

A crise certamente não terminou com a nomeação do Prof. Pinotti. Os processos continuaram a tramitar e, eventualmente, meu processo recebeu uma belíssima sentença definitiva, que chamou o Reitor de arbitrário, denunciou-o por abuso de poder e desmascarou até mesmo a ficção dos concursos. A Universidade continuou em greve.

O Prof. Pinotti, Reitor indicado, mas ainda não empossado, convidou o Prof. Maurício e a mim para uma conversa em sua casa. Ali propôs que retirássemos os processos da Justiça. Em contrapartida, anularia todos os atos do Prof. Plínio contra nós, pagaria as gratificações de Diretor correspondentes aos seis meses, de Outubro de 1981 a Abril de 1982, de todos os exonerados e nos daria o espaço político que desejássemos (desde que não na esfera da mais alta administração, que já estava toda definida). O Prof. Pinotti queria assumir o cargo como o Grande Pacificador da Universidade. Conversamos com os Diretores exonerados e todos concordaram que a proposta era razoável e que a Universidade deveria voltar à normalidade. Assim, assinamos um acordo e retiramos os processos da Justiça. (O meu processo estava em vias de receber uma sentença favorável em Segunda Instância, no Tribunal de Justiça, e isso, certamente, desempenhou um papel importante na decisão do Reitor nomeado).

Com destaque para a ausência conspícua do Prof. Maurício, a maior parte dos Diretores participou da posse do Prof. Pinotti, no Teatro do Centro de Convivência. Os Diretores assinaram um acordo, mas os alunos, não. Estes lotaram as dependências do teatro, fantasiados de palhaços, vaiaram o novo Reitor durante toda a cerimônia, não o deixando ler seu discurso. No entanto, o novo Reitor tomou posse e, aos poucos, o clima se acalmou dentro da Universidade.

O resultado da crise, no que me diz respeito, foi desilusão acerca de muitos colegas e um considerável cinismo acerca da política universitária. Depois da crise, realizei pouco pela Faculdade, tanto externa como internamente, porque fiquei profundamente desestimulado pelo jogo político sujo de que fui testemunha e vítima, e que me convenceu de que, até mesmo dentro da Faculdade, havia pessoas dispostas a promover, por baixo do pano, sua agenda política, e mesmo político-partidária, às custas da vontade expressa da maioria absoluta da comunidade da UNICAMP, em geral, e da Faculdade de Educação, em particular. A crise me fez perder a ingenuidade política, que me levava a crer que as pessoas, dentro da Universidade, estavam primariamente interessadas em preservar a integridade da Universidade contra ingerências externas, viessem de onde viessem, mostrando-me que muitos colegas, na Universidade, se opuseram à intervenção, não porque ela era intervenção, mas porque os interventores não portavam as mesmas cores e bandeiras políticas, e que estariam plenamente dispostos a conviver com a intervenção, desde que os interventores iniciais fossem trocados por interventores politicamente corretos, como o economista Carlos Lessa.

III. A Segunda Fase da Gestão: Tecnologia Educacional

Diante desse quadro, resolvi pensar um pouco mais em mim e um pouco menos na Universidade. A Crise de 1981 me demonstrou que, se eu houvesse sido exonerado de meu cargo de Professor, além do de Diretor, não teria muitas opções, porque não sabia fazer outra coisa na vida. Concluí que era hora de mudar isso. Assim que a crise foi equacionada, em Abril de 1982, matriculei-me num curso de computação (Programação em COBOL, duração 14 meses), na única escola de computação da cidade, a People Computação (que me foi indicada pelo Prof. Maurício). Dentro da Universidade, envolvi-me com o grupo que pesquisava o uso do computador da educação, liderado pelos Profs. Fernando Curado, do Instituto de Matemática, Estatística e Ciência da Computação, e Raymond Paul Shepard, da Faculdade da Educação. Em 1983 propus à Reitoria a criação do Núcleo de Informática Aplicada à Educação (NIED). O Prof. Pinotti acatou minha sugestão, criou o Núcleo e me nomeou seu primeiro Coordenador.

Ao mesmo tempo, coordenei, na UNICAMP, em 1983, a elaboração do Projeto EDUCOM, apresentado ao MEC, que foi um dos cinco projetos aprovados em 1984 (dentre os 26 submetidos) e os trabalhos de tradução da linguagem LOGO para o Português, em Convênio com a Itaú Tecnologia S/A (Itautec). Esse convênio trouxe para a Faculdade de Educação três dos primeiros quatro microcomputadores a entrar na Universidade (o outro foi para projeto do Prof. Mario Jino, na Faculdade de Engenharia).

IV. Rápida Apreciação Pessoal

Minha atenção à política universitária, nos primeiros dezoito meses, a total paralização de atividades durante os seis meses da crise, e minha desmotivação, nos últimos vinte e quatro meses, significam que minha gestão não se distinguiu por grandes realizações no âmbito da própria Faculdade. Na verdade, acho que, internamente, realizei muito mais como Diretor Associado do que como Diretor, porque o Prof. Rezende me delegou boa parte das tarefas de administração interna e havia muito mais a ser feito, para por a casa em ordem, administrativamente, em 1976 do que em 1980.

É verdade que meu trabalho no âmbito do Conselho Diretor, minha candidatura à Reitoria, minha colocação entre os seis primeiros na lista da comunidade, meu papel na solução jurídica da crise, ajudaram a elevar a reputação da Faculdade de Educação dentro da Universidade – reputação esta que, é imprescindível que se diga, já havia tido considerável ascensão na proba e inatacável gestão do Prof. Rezende, mentor, colega e amigo, a quem publicamente manifesto meu mais profundo respeito e minha incondicional admiração.

Aproveito o ensejo para registrar minha profunda admiração por dois outros colegas e amigos. Um deles, o Prof. Rubem Alves, primeiro Presidente da ADUNICAMP e o mais bravo representante que a comunidade docente jamais teve no Conselho Diretor da Universidade. Com sua reputação internacional e, sobretudo, com suas ideias originais e sua integridade moral, o Rubem muito contribuiu para a necessária deflagração da Crise de 1981 e, posteriormente, para sua mais adequada solução. O outro, o Prof. Maurício Prates, líder inato, motivador por natureza, provocador nos momentos certos, sempre irrequieto, e incomparável realizador. A UNICAMP foi a que mais perdeu em decorrência de o Maurício não ter se tornado o seu Reitor em 1982, como devia. Teria sido realmente Magnífico. Aposentado da UNICAMP, a PUCCAMP hoje se beneficia de sua infindável energia e de seu contagioso entusiasmo.

Além desses três amigos, é preciso registrar que sem Ana Maria Tebar, Waldemar Thomazine e Álvaro Érix Ferreira não teria havido uma solução satisfatória da crise. Os dois últimos provavelmente não se deem conta disso; ela, entretanto, sabe – e sabe que eu sei, e agradeço. Mas agradeço aos outros dois também, onde quer que estejam.

Minha gestão não me cabe avaliar além dessa rápida apreciação pessoal. No futuro alguém provavelmente o fará, e gostaria que o fizesse com base na melhor documentação possível. Por isso, aproveito o ensejo para propor a criação, dentro da Faculdade, de um pequeno Centro de Memória da História da Faculdade de Educação, ao qual terei prazer de legar principalmente os recortes de jornais e as cópias dos processos judiciais relativos à crise. Duvido que alguém mais os tenha guardado.

V. O Futuro

Na gestão dos que me sucederam, a Faculdade de Educação cresceu, institucionalizou-se, ganhou prédio próprio, projetou-se nacional e internacionalmente, ganhou um setor audiovisual, aumentou consideravelmente o número de computadores disponíveis para funcionários, professores e alunos, e criou órgãos internos voltados para a pesquisa em tecnologia educacional. Cumprimento aqui todos os que me sucederam, inclusive o atual Diretor, por essas realizações.

Entretanto, a despeito da visível presença de tecnologia dentro das dependências da Faculdade, não me parece que a comunidade da Faculdade, no seu todo, ou mesmo em sua maior parte, tenha plenamente compreendido o impacto que os novos meios de comunicação, que convergem, inelutavelmente, para o computador, estão tendo, e cada vez mais vão ter, sobre a educação. Continuamos a formar semianalfabetos nessa área, tanto em nosso curso de Pedagogia como em nossas Licenciaturas, para não mencionar os Cursos de Pós-Graduação.

Estou convicto de que a educação, no século XXI, será cada vez mais informal, mais difusa, mais permeada pela tecnologia, mais desintermediada, mais permanente, mais tendente à onipresença e ubiquidade. Isso significa que a escola e o professor, em seus modelos atuais, terão um papel cada vez menor na educação, perdendo espaço para outras instituições e outros agentes que desempenharão um papel cada vez mais central na educação das pessoas.

Há muito que considero que o foco de atenção da Faculdade de Educação, voltado quase exclusivamente para a educação formal no âmbito da escola pública, representa um sério erro de avaliação – exemplo de miopia pedagógica que só consegue ver o que está perto. Dentro do cenário atual, e, mais ainda, dentro do que se descortina, acho que esse erro de avaliação passa a ser grave anacronismo, que poderá rapidamente pôr a perder a reputação que a Faculdade a duras penas angariou ao longo de seus 25 anos de vida.

 Campinas, 19 de Agosto de 1997

 * Trabalho apresentado na Mesa Redonda de Ex-Diretores da Faculdade de Educação no dia 19 de Agosto de 1997, quando se comemorou o 25º aniversário da criação da Faculdade.

Transcrito aqui em Salto, 3o de Junho de 2014

Aniversário de Quarenta Anos de Ingresso na UNICAMP

Hoje, 1/7/2014, faz quarenta anos que fui contratado pela UNICAMP, mediante proposta da Faculdade de Educação. Eu havia chegado, dias antes ((na realidade, em 7/6/1974), dos Estados Unidos, onde vivi por sete anos seguidos e ininterruptos. Meu nome foi sugerido à Diretoria da Faculdade de Educação, que buscava um filósofo da educação, pelo meu primo, Anello Sanvido, que hoje mora no Canadá, mas então fazia Química na Universidade. O Rubem Alves, que eu conhecera quando estudei no Seminário Presbiteriano da UNICAMP, e que já era professor da UNICAMP, no Instituto de Filosofia e Ciências Humanas, apoiou a sugestão do Anello – e isso aparentemente decidiu a questão.

Naquela época, em que a UNICAMP estava se iniciando, e estava longe de ser completamente institucionalizada, havia um procedimento administrativo, chamado “Designação”, mediante o qual o Reitor, Prof. Zeferino Vaz, nomeava a título precário, e enquanto o processo de contratação tramitava pelas diversas comissões e por outros órgãos da burocracia universitária, as indicações de professores feitas pelos Diretores das unidades.

O ofício encaminhando minha indicação foi assinado e levado em mãos, naquela ocasião, pelo Prof. Marconi Freire Montezuma, que respondia pela Direção da Faculdade de Educação, porque a pessoa indicada para exerce-la, o Prof. José Aloísio Aragão, havia falecido pouco tempo antes em acidente de carro.

O Prof. Zeferino Vaz despachou, autorizando a minha designação em nível MS-4 (MS=Magistério Superior do Estado), e encaminhando o ofício à Diretoria da Administração para abertura de processo e envio do processo à CPDIDP – Comissão Permanente de Dedicação Integral à Docência e à Pesquisa.

Enquanto o processo tramitava, lentamente, entrou em efeito, em 15/8/1974, a lei que proibia contratações pelo serviço público por noventa dias antes e depois das eleições de 15/11/1974. Minha contratação formal, por causa disso, só se deu em 8/5 do ano seguinte, mas todos os efeitos foram retroagidos a 1/7/1974. Fui contratado em Tempo Integral (40 horas semanais) e Dedicação Exclusiva. Para isso tive de submeter Plano de Pesquisa à CPDIDP. Meu Plano de Pesquisa versou sobre a questão da Doutrinação, com especial atenção às áreas da Política, Moralidade e Religião.

Assim começou minha vida acadêmica no Brasil. Em 1977 fui promovido para o cargo de professor em nível MS-5 e, em 1980, através de processo seletivo interno, ascendi ao cargo de Professor Titular, no nível MS-6, nível mais alto da carreira docente nas universidades paulistas. Eu tinha 36 anos quando isso aconteceu.

Logo depois de assumir minhas funções docentes, no segundo semestre de 1974, dando um curso de Filosofia da Educação I para as alunas do Curso de Pedagogia, iniciado naquele ano, fui designado pelo Reitor, novamente por indicação do Prof. Montezuma, para exercer a função de Coordenador de Graduação da Faculdade (Curso de Pedagogia). Isso se deu em Setembro de 1974. Em Junho de 1975 foi criado o Curso de Pós-Graduação em Educação – Mestrado da Faculdade, e fui indicado para compor a Comissão de Pós-Graduação da Faculdade, ao lado dos professores Joel Martins e Newton Aquiles von Zuben. Em Fevereiro de 1976 fui indicado Coordenador do Curso de Pós-Graduação e Diretor Associado da Faculdade – fazendo dupla com o Prof. Antonio Muniz de Rezende, que havia sido designado para substituir o Prof. Montezuma, só que agora com o cargo de Diretor da Faculdade (não Responsável pela Direção).

Exerci os dois cargos por um tempo e, depois, deixei o cargo de Coordenador de Pós-Graduação ficando só com Direção Associada da Faculdade, que exerci até Abril de 1980, quando passei a ocupar a Direção, tendo sido escolhido pelo Colegiado (embrião da Congregação), com unanimidade dos dezenove votos. Faziam parte do Colegiado então o Diretor, o Diretor Associado, os três Coordenadores (Pós-Graduação, Graduação-Pedagogia e Graduação-Licenciaturas), os chefes dos cinco Departamentos (Filosofia e História da Educação; Psicologia da Educação; Sociologia da Educação; Administração e Supervisão Educacional; e Didática e Metodologia de Ensino).

Minha indicação pelo Colegiado foi feita em Fevereiro de 1980, porque a Reitoria, então exercida pelo Prof. Plínio Alves de Moraes, estava sendo pressionada por elementos reacionários da administração (o Chefe de Gabinete do Reitor era ex-diretor do DOPS…) a não aprovar a minha indicação. A razão tinha que ver com o fato de que eu, alguns meses antes, enquanto no exercício da Direção (o Prof . Antonio Rezende ficou afastado de suas funções, durante os últimos seis meses de sua gestão, para preparar tese de Livre Docência), havia batalhado pelo retorno do Prof. Paulo Freire ao Brasil, tendo enviado ofício, em nome da Faculdade da Educação, ao Itamaraty, pedindo nova concessão de passaporte ao Prof. Paulo, que estava em Genebra. Essa decisão não caiu bem junto à cúpula da UNICAMP, que me ameaçou até mesmo de demissão, alegando que eu havia quebrado a hierarquia do serviço público, dirigindo-me a um Ministro, algo que apenas o Reitor da universidade poderia fazer.

Para encurtar, o Prof. Plínio conseguiu vencer as pressões e me nomeou, tomando eu posse em 16/4/1980.

Encerro este relato aqui. Acrescento em outro artigo um relato dos meus conturbados quatro anos frente à Diretoria da Faculdade de Educação.

NOTA: Algumas questões mencionadas neste artigo recebem tratamento um pouco mais detalhado no artigo seguinte, que resume a minha gestão como Diretor da Faculdade de Educação (1980-1984).

Em Salto, 30 de Junho de 2014.

Internet, Liberdade e Censura

Excelente artigo de meu amigo Jarbas Novelino sobre censura da Internet na escola. Uso o recurso de “Republicar” (“Reblog”) do WordPress, disponível no artigo do Jarbas, para compartilha-lo aqui.

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Há uns dois anos tive que aguardar um longo período para fazer entrevistas numa pesquisa que realizei numa faculdade. Gentilmente, uma das coordenadoras me cedeu uma sala para que eu pudesse usar a internet. Quis escrever um post no meu blog. Não foi possível. Quis verificar mensagens novas no meu twitter. Não foi possível. Em ambos os casos apareceu na tela um Protection Alert, comandado por um cão de guarda. Tal sistema protetor tinha algumas informações que resolvi ler. Uma das mensagens dizia que o twitter é um Social Networking (rede social). Motivo suficiente para ser censurado naquela escola. Como o protetor tinha um link para Social Networking fui conferir. Aprendi então que “redes sociais da internet podem conter material ofensivo”.

Narro outro episódio. Carta Capital na Escola publicou uma reportagem sobre WebGincanas, modelo de uso da internet que desenvolvi com meus alunos. Certo dia na universidade eu quis ver…

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Lulla, o Tullius Détritus

Nas revistas do Asterix havia um personagem chamado Tullius Détritus. Sua característica principal era semear cizânia, causar dissenção, dividir as pessoas. Para isso, mentia, usava meias verdades (que são meias mentiras), fazia insinuações maldosas, intrigava…

Lulla é um verdadeiro Tullius Détritus. Seu objetivo único na vida é provocar os outros, ainda que, para isso, tenha de mentir deslavadamente – algo que faz com a maior cara de pau, sem nenhum constrangimento.

Li num comentário de leitor nos jornais (que não consegui localizar de novo para pegar a referência) a observação de que o Lulla conseguiu separar até mesmo o P do T. De um lado, estão ele e os apparatchiks do Partido, todos eles encastelados no governo federal, apoiados por aqueles que não são trabalhadores, posto que são bolsistas do governo federal. Do outro estão os que trabalham – os verdadeiros Trabalhadores – que sustentam os bolsistas através de seus impostos.

O percentual de pessoas que vai votar no PT nas eleições deste ano vai acabar se limitando aos apparatchiks do Partido e os bolsistas. O restante, que realmente trabalha e paga impostos, e, assim, sustenta os bolsistas e os burocratas do Partido que aparelham o governo federal, está cada vez mais desiludido com Lulla, Dillma e o PT. Quer mudança. 70% dos eleitores querem mudança. Os 30% que sobram é que vão votar para o PT. Em sua maioria absoluta devem ser bolsistas ou apparatchiks.

Em Salto, 21 de Junho de 2014