“El Secreto de sus Ojos” – 1

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A Paloma e eu vimos, hoje à tarde, “El Secreto de sus Ojos”. Magnífico. Um dos melhores filmes que eu vi nos últimos tempos.

O filme, que é argentino, concorre ao Oscar de Melhor Filme Estrangeiro. Não vi os concorrentes – mas não tenho dúvida de que “El Secreto de sus Ojos” merece ganhar.

A direção é de Juan José Campanella, que também dirigiu os excelentes “El mismo Amor, la misma Lluvia” (1999) e “El Hijo de la Novia” (2001–também indicado ao Oscar).

O ator principal, o excelente Ricardo Darín, estrelou nos três filmes. A atriz principal é a linda e brilhante Soledad Villamil, que também estrelou em “El mismo Amor, la misma Lluvia”. Destaque-se ainda a participação inspirada de Guillermo Francella.

O site IMDB (vide http://www.imdb.com/title/tt1305806/) tem 23 resenhas de pessoas que viram o filme e resolveram deixar sua análise ou sua avaliação. Todas elas, com exceção de duas, foram entusiasticamente positivas. Do tipo “o melhor filme que eu já vi”. As duas que não foram entusiásticas não foram negativas, embora apontassem aspectos que os resenhadores não gostaram.

Do que eu gostei? De tudo. Mas quero destacar os pontos positivos, um a um:

1) A história é magnífica. O romance que inspirou o filme, que tem o título La Pregunta de sus Ojos, é de Eduardo Sacheri.

2) O roteiro (script) é do próprio diretor, Juan José  Campanella. É uma obra prima.

3) A direção é impecável. O uso de flashbacks (o filme começa em 1999, mas a história volta para 1974, vinte e cinco anos antes) é perfeito. O uso de closeups é impressionante pelo impacto que causa. O diretor também usa, de forma muito eficaz, imagens meio “blurred” (manchadas, borradas) ou de rostos parcialmente cobertos por objetos. A forma em que a história é contada prende a audiência. O desenrolar da história cria suspense – e, quando você pensa que a história vai acabar vem a maior surpresa…

4) A interpretação dos dois atores principais é impecável e a de Guillermo Francella não fica atrás.

5) A fotografia é linda.

6) A trilha sonora se mistura com o filme de forma a não chamar a atenção para si mesma.

7) Apesar de se tratar de um drama e um thriller policial, o uso de humor é cuidadoso e eficaz. As melhores cenas de humor ficam com Guillermo Francella.

8) Por fim, os pequenos detalhes que apenas um diretor inspirado pode bolar… Um deles é a velha máquina de escrever que não tinha mais o “a” – só no fim se entende por que ele escreveu, a mão, T E M O, quando queria dizer T E A M O… Outro, o fecha a porta / abre a porta da sala da linda Irene — só na última cena se entende por quê. Terceiro, a última cena, linda e frustrante – o beijo ficou por trás da porta.

Enfim. Vale a pena ver. Duvido que você não goste.

Em São Paulo, 28 de Fevereiro de 2010

Filmes antigos de que eu gosto…

Meu sobrinho me pediu para fazer uma lista de meus filmes antigos favoritos… Escolhi 1989 como a linha divisória – afinal, filmes lançados em 1989 já têm vinte anos e, por conseguinte, contam como antigos,,, 🙂

Aqui vão eles, começando com os mais antigos:

Gone with the Wind (1939)
Rebecca (1940)
For Whom the Bell Tolls (1943)
Viva Zapata! (1952)
Rear Windows (1954)
Love is a Many-Splendored Thing (1955)
Picnic (1955)
Giant (1956)
The Eddy Duchin Story (1956) 
An Affair to Remember (1957)
A Farewell to Arms (1957)
Vertigo (1958)
Inherit the Wind (1960)
Alexis Zorba (1964)
The Sound of Music (1965)
The Sandpiper (1965)
Ship of Fools (1965)
Doctor Zhivago (1965)
Guns for San Sebastian (1968)
Ryan’s Daughter (1970)
The Summer of 42 (1971)
The Effect of Gamma Rays on Man-in-the-Moon Marigolds (1972)
Sophie’s Choice (1982)
Yentl (1983)
Paris, Texas (1984)
84 Charing Cross Road (1988)
The Unbearable Lightness of Being (1988)
The Tenth Man (1988)
Camille Claudel (1988)
Dead Poet’s Society (1989)
Cousins (1989)

Em  São Paulo, 26 de Outubro de 2009

O Leitor / The Reader: Uma Resenha

[NOTA: Este post é um estraga-prazeres para aqueles que gostam de assistir filmes sem saber o que vai acontecer. Se você é um desses, não leia.]

Assisti na tarde de ontem (24/02/2009) ao filme O Leitor / The Reader – filme dirigido por Stephen Daldry e baseado em livro, com o mesmo título, de Bernhard Schlink. O filme concorreu ao Oscar (referente a 2008, ano em que foi lançado) nas categorias Melhor Filme, Melhor Diretor, Melhor Roteiro Adaptado, e “Cinematografia”, sem ganhar, e, na categoria Melhor Atriz em Papel Principal, merecidamente trouxe para Kate Winslet, o seu primeiro Oscar. Kate Winslet ganhou ainda inúmeros outros prêmios por este filme (vide http://www.imdb.com/title/tt0976051/awards/). 

Minha primeira sensação, ao sair do cinema, foi de que esperava mais do filme do que ele trouxe… Mas, depois, com conversa, leitura de resenhas e fóruns (no site http://imdb.com), e, naturalmente, com minha própria reflexão, minha opinião sobre o filme foi melhorando… Pode ser que melhore ainda mais.

Apesar de ser descrito como um filme sobre o Holocausto, O Leitor se desenrola por inteiro na Alemanha do pós-guerra. A primeira data referência, em que a história começa a se desenvolver, é 1995. O local, Berlin. Michael Berg, um advogado que aparenta ter uns 45 anos (muito bem conservados – vamos ver depois que nasceu em 1943), representado por Ralph Fiennes, com um olhar distante, triste, melancólico mesmo, reflete sobre sua vida. (Poucos atores conseguem ser tão convincentemente melancólicos como Ralph Fiennes: vide Fim de Caso, O Paciente Inglês, Jardineiro Fiel…). O objeto de sua reflexão é seu relacionamento com Hanna Schmitz, uma mulher que, à época, tinha mais do dobro da idade dele (representada magnificamente por Kate Winslet, no papel que lhe valeu o primeiro Oscar em seis indicações)… Mas já se revela que Michael foi casado (não com Hanna) e que tem uma filha jovem.

O cenário se altera. O tempo volta para 1958, mas o local ainda é Berlin. Michael Berg tem 15 anos (e é agora representado por David Kross, num magnífico desempenho) – o que significa que nasceu durante a guerra, em 1943 (o mesmo ano em que eu nasci…). Hanna Schmitz nasceu em 1922 – o que significa que, em 1958, tinha 36 anos – mais do dobro da idade de Michael. Ele começa a passar mal numa rua, entra no pré-vestíbulo de um prédio, vomita – e é socorrido por Hanna, que age de forma aparentemente grosseira, lavando a calçada, ordenando que ele levante os pés para que ela possa jogar água… Ele volta para casa e é diagnosticado com escarlatina. Fica isolado por três meses, mas, quando liberado, compra flores e vai agradecer Hanna. Na sequência, ele a visita mais vezes. Numa dessas, ela lhe pede que traga, do porão, dois baldes de carvão. Ele volta imundo. Ela lhe ordena que tire a roupa (que ela lava) e tome um banho. Depois do banho, ela, já nua, o abraça – e, na sequência, transa com ele. A frase é correta: foi ela que tomou a iniciativa. Não se pode nem dizer que ela o tenha seduzido. Ela virtualmente o atacou (embora com delicadeza e com a sensibilidade de uma mulher experiente que sabe estar lidando com um iniciante). O caso não fica só nessa transa. Eles têm um affair intenso e bonito – embora ela nada revele a ele sobre si própria, além do nome.

O relacionamento entre os dois não é apenas físico. Ela pergunta a ele sobre a escola, e ele lhe fala sobre os textos que tem de ler: A Odisséia, As Aventuras de Huckleberry Finn, A Mulher e o Cachorrinho, peças de Tchekov… Ela lhe pede que leia para ela – e ele o faz. Ela elogia a leitura dele – que não imaginava que fosse bom naquilo… O fato de estar tendo um caso com uma mulher mais velha e bonita, e o elogio que ela lhe faz, fazem com que Michael ganhe a auto-confiança necessária para melhorar sensivelmente até o seu desempenho nos jogos de basquetebol… Tudo influência dela…

Na sequência, Mchael descobre que Hanna é cobradora de bonde… A história mostra que ela está para ser promovida. Mas, um dia, ela desaparece misteriosamente, deixando Michael perto do desespero.

Nova mudança no cenário… Oito anos se passam. O ano agora é 1966, a cidade, ainda Berlin. Michael, agora com 23 anos, é estudante de Direito e, como tal, vai com seus colegas e um de seus professores (Professor Rohl, interpretado por Bruno Ganz), assistir a um julgamento de seis mulheres que trabalharam no Serviço Secreto nazista durante a Segunda Guerra, como guardas de campos de concentração – e são acusadas da morte de centenas de mulheres judias. Uma acusação é a de que regularmente cada guarda tinha de selecionar dez mulheres para morrer. Mas a principal acusação é que essas guardas deixaram, uma vez, 300 prisioneiras morrer em uma capela que pegava fogo, sem abrir a porta para que escapassem…

Entre as guardas, para a surpresa de Michael, estava Hanna – agora com 44 anos. Cinco das acusadas estão unidas, negando a acusação, e afirmando que a responsável é Hanna. Interrogada, Hanna responde com simplicidade e uma sinceridade quase irrespondível… Ela não nega que indicava, regularmente, dez prisioneiras para morrer…

Por que fazia isso? Ora, o campo de concentração tinha lotação limitada e constantemente novas prisioneiras chegavam… A solução encontrada era enviar um certo número das prisioneiras mais antigas para a morte para que houvesse lugar para as novas… “O que o senhor faria, em meu lugar?”, pergunta Hanna ao juiz… Nos testemunhos ficou evidente que Hanna protegia algumas prisioneiras, as mais fracas e doentes, em troca de um favor: que elas lessem para ela… Quanto à capela, Hanna, arguida pelo juiz sobre por que não abriu a porta da capela quando o incêndio começou, redarguiu com lógica impecável: “Como eu poderia solta-las, se o meu emprego era mantê-las presas???” Apenas uma mulher se salvou (não se explica como) – e a filha dessa mulher (de nome, no filme, Ilana Mather) subsequentemente escreveu um livro sobre o episódio. Mãe e filha depõem no julgamento. (A mãe, no julgamento, e a filha, depois, são representadas pela grande Lena Olin, infelizmente em dois papéis pequenos).

Ao final, as demais acusadas afirmam que um relatório altamente incriminador havia sido redigido por Hanna apenas. O juiz quer confrontar a letra do relatório com a letra de Hanna Spitz, e ordena que ela escreva algo em um bloco de papel… Tensão na acusada, que finalmente se recusa a escrever e admite ter sido ela a autora do relatório.

Nesse ponto, Michael, na audiência, tem certeza de que ela é analfabeta! Um dia havia pedido que ela lesse um dos livros, e ela se recusou, dizendo que preferia ouvir a leitura dele… Ele se lembra de que, um dia, quando fez uma excursão de bicicleta pelo campo com ela, e pararam para comer algo, ela olhou o menu e o colocou de lado, dizendo a ele que iria comer a mesma coisa que ele escolhesse… Pelo testemunho ouvido no julgamento, Hanna, no seu serviço como guarda, protegia prisioneiras que liam para ela…

Conclusão: agora, para não sofrer o vexame de se ver revelada analfabeta, Hanna prefere mentir e admitir que foi ela a autora do relatório…

Dilema para Michael, que tem informação que pode, em princípio, inocentar Hanna. Ele conversa com seu professor – que não o ajuda muito. Tenta racionalizar, para si próprio, a decisão de ficar quieto, alegando que ela mesma havia optado por não revelar a verdade – por que iria ele, agora, agir diferentemente? Ela havia tomado uma decisão para não passar pelo vexame de se revelar analfabeta – que direito tinha ele de fazê-la passar por esse vexame, ainda que fosse para salvá-la de uma sentença mais dura?

O final é previsível. As outras cinco acusadas são condenadas, mas recebem penas leves. Hanna é condenada à prisão perpétua.

O tempo entre o cenário de 1958 e o cenário de 1966 não é preenchido no filme. Mas o tempo entre o cenário de 1966 e o de 1995 é preenchido como pequenos “flashes”. Michael, depois de casado e separado, redescobre o caderninho em que ele anotava os livros que tinha de ler na escola, e resolve começar a gravar em cassete os livros que um dia havia lido para ela, enviando as fitas para ela na prisão: dezenas e dezenas de fitas. Ela, na prisão, começa a retirar da biblioteca os livros que ele gravou, e, pouco a pouco, vai aprendendo a ler, comparando o que está escrito no livro com aquilo que ela ouve na fita… Manda pequenos bilhetes para ele, pedindo que grave este ou aquele livro…

Um dia, por volta de 1986, a responsável pelo presídio entra em contato com Michael, para dizer-lhe que Hanna vai ser libertada por ter cumprido vinte anos da pena – e que ele é o único contato que ela tem fora do presídio. Outro dilema, embora agora menor. Ele arruma um emprego e um apartamento, ambos simples, para ela, e comunica a ela o fato em um único contato face-a-face – em que ela tenta segurar a mão dele e ele, visivelmente embaraçado, a remove, depois de poucos segundos.

No dia em que ela deveria ser libertada, ele vai buscá-la – mas ela havia se suicidado no dia anterior. Aparentemente usou uma pilha de livros em cima da mesa para conseguir se enforcar. Não havia arrumado suas coisas para sair da cela, fato que indicava que não pretendia sair de lá viva…

Numa carta testamento, Hanna deixa para Ilana Mather, a filha da sobrevivente do incêndio na capela, uma latinha de chá com o dinheiro vivo que possuía, mais uma soma de cerca de sete mil marcos que tinha no banco, com instruções para que Michael entregasse o dinheiro à destinatária. Ele, durante uma viagem a New York, tenta entregar o dinheiro, mas Ilana se recusa a recebê-lo, ficando apenas com a latinha, que parecia uma que ela tinha tido durante o tempo em que ficara no campo de concentração, mas perdera. Ele pede sugestões sobre organizações filantrópicas judias às quais ele pudesse doar o dinheiro. Ela diz que organizações judias não precisariam desse dinheiro. Por fim ele sugere que o dinheiro seja doado a instituições voltadas para a alfabetização de adultos, e ela não vê por que não, mas deixa que ele decida e escolha…

O filme termina com Michael, já de volta em 1995, levando sua filha, da qual havia se afastado, depois do divórcio, para conhecer o túmulo de Hanna – local em que ele começa a lhe revelar a sua história.

o O o

Como disse, eu, depois de ver o filme, fiquei com a sensação frustrante de que esperava mais dele. Mas essa sensação vem, gradualmente, diminuindo, por razões que passo a expor.

O filme trata – dentro das limitações do “medium” (filme, cinema) – de alguns dilemas morais importantes.

O principal deles diz respeito às consequências de erros morais que cometemos, muitas vezes no que, no momento, parece ser o exercício do dever, e o sentimento de culpa, de revolta, de necessidade de fazer justiça que esses erros suscitam nas pessoas (tanto nas vítimas como, por vezes, nos perpetradores dos erros e, também, nos bystanders) bem como na sociedade em que aconteceram.

O filme levanta uma outra questão interessante. Tenho eu o direito, ou mesmo o dever, de revelar algo sobre uma outra pessoa, que pode reduzir sua pena ou até mesmo salvar sua vida, quando essa pessoa se recusa a fazê-lo ela mesma, por considerar o objeto da revelação vexatório? Tenho eu o direito ou o dever de agir no que presumo ser o melhor interesse da pessoa, quando ela própria acha que seu melhor interesse é preservar o segredo e a privacidade de uma condição que considera vergonhosa?

Outra questão importante: crimes, como os descritos, podem vir a ser expiados ou perdoados e produzir redenção ou reconciliação? Ou é tarefa das vítimas, e seus herdeiros, garantir que até o último culpado receba sua justa punição?

Ainda mais uma questão interessante. Numa aula, o professor de direito de Michael, um sobrevivente do Holocausto, afirma que “as sociedades gostam de imaginar que operam com base em princípios morais, mas isso não é verdade: elas operam com base na lei”… Agora, se a lei prescreve comportamentos que são considerados imorais, o que faz a pessoa simples, que quer apenas desempenhar bem o seu trabalho, que não é intelectual, que não filósofa??? Hanna Schmitz, mesmo em seu julgamento, em 1966, ainda está perfeitamente convencida de que seu trabalho era guardar as prisioneiras, evitar que fugissem… – como poderia ela abrir a porta da capela para deixa-las escapar do fogo, sim, mas também da custódia em que se encontravam??? Ela participou dos crimes nazistas porque “that was my job”, e ela acreditava ser seu dever fazer o seu trabalho bem feito, porque seus chefes estavam no poder legalmente, tinham a autoridade de lhe dizer o que deveria fazer e tinham o direito de esperar que ela fizesse o que lhe era ordenado…

A lei, a despeito da necessidade de interpretação, e do relativo subjetivismo do processo hermenêutico, tem por base um texto, que é algo razoavelmente objetivo. Mas a moralidade, ancora-se em quê? Se vamos julgar a lei por critérios morais, que moralidade vamos usar? Vamos usar a moralidade católica para impedir que o divórcio, ou o aborto, se tornem legais? Vamos usar a moralidade protestante puritana para impedir que a lei faculte que as pessoas andem seminuas nas praias, que as mulheres façam topless onde quiserem, que os assim chamados naturistas pratiquem o seu nudismo em praias reservadas para essa prática (praticando ali  tanto o topless como o bottomless)? Vamos usar essa mesma moralidade para proibir, com a força da lei, a edição e circulação de revistas que exibem pessoas nuas, filmes de sexo explícito, livros considerados pornográficos? Por outro lado, parece que, ao separarmos a lei da moralidade, e afirmarmos que, no mundo sócio-político, vale a lei, não a moralidade, nos curvamos ao cinismo daqueles que afirmam, ao ser flagrados em falcatruas de todo tipo, que seu comportamento ficou dentro dos limites da lei. E não é só de falcatruas financeiras que se trata: afinal de contas, Hanna Schmitz agiu dentro dos ditames da lei – e, por causa disso, trezentas mulheres inocentes morreram.

Hanna, apesar de ser descrita por suas vítimas, ou por aqueles que as representam, como um monstro, não é uma pessoa má… Ela é uma pessoa simples, que acha que tem de cumprir com o seu dever e fazer, da melhor forma possível, o que os seus chefes lhe ordenam e esperam dela… Quanta gente não pensa do mesmo jeito, e só não comete crimes, pequenos ou horrendos, porque seu chefe nunca lhe pediu que fizesse algo moralmente errado?

Enfim: a pessoa comum tem a obrigação de entender as questões mais intricadas da ética filosófica e da filosofia política? É razoável esperar isso, quando mesmo filósofos profissionais discordam frontalmente em relação a essas questões? 

O que fazer daqueles que, dentro de igrejas e partidos políticos, aceitam uma ética de segunda mão, sobre a qual nunca refletem? Os católicos que se opõem ao aborto, ou ao controle da natalidade, ou ao divórcio, porque é isso que a Igreja Católica Romana ensina que é certo, e eles não têm ou a vontade ou a capacidade de destrinchar essas questões morais complicadas, essas pessoas não estão, porventura, sem perceber, correndo o risco de agir erroneamente, ou até mesmo de cometer crimes contra determinadas pessoas, porque agem segundo uma moralidade recebida por autoridade, sobre a qual não refletem, ou porque não querem, ou porque não podem, ou porque não acham que é preciso?

A questão do analfabetismo de uma pessoa adulta, mesmo numa sociedade desenvolvida como a Alemanha da época da Segunda Guerra, embora central para a trama, parece ocupar um lugar claramente secundário diante dessas outras grandes questões.

Kate Winslet representa na tela uma personagem que muitas pessoas considerariam um monstro. Mas ela consegue fazer com que o mostro, sem deixar de ser monstro, tenha cara humana, sofra, goste de ouvir a melhor literatura, ria, faça amor, traga prazer e confiança para um menino (que ela chamava de “kid”)… Um grande feito. Poucas atrizes conseguiriam fazer isso. Sem dúvida o melhor papel de Kate Winslet até hoje. Com seus 33 anos, ela promete muito mais. Consegue ser convincente até quando, com a ajuda da maquiagem, evidentemente, representa uma mulher de quase sessenta e cinco anos.

Quando, em seu último encontro, Michael pergunta a Hanna se ela tem pensado muito sobre o passado, ela lhe pergunta: sobre o nosso passado? Ele diz que não: sobre o passado em geral. Ela lhe responde: “Não importa o que eu penso. Não importa o que eu sinto. Os mortos continuam mortos”.

Isso é verdade: os mortos continuam mortos. Mas o resto não é verdade: o que pensamos e o que sentimos importam. E vendo filmes como esse, somos forçados a pensar e a sentir. E se pensarmos e sentirmos, provavelmente corremos menor risco de cometer erros morais e mesmo crimes por estarmos vivendo e agindo em piloto automático.

Em São Paulo, 25 de Fevereiro de 2009; revisado em Salto, 20 de Maio de 2017.

O multiculturalismo do Oscar

Por incrível que pareça estou encontrando uma série de matérias que sou capaz de endossar na Folha Ilustrada de hoje (24/2/2009)… Aqui está uma terceira, de Sérgio Rizzo.

Não é meu feitio transcrever tanta matéria assim num dia só, mas esta também vale a pena. Assim vou pautando minhas próprias matérias para o futuro…

A notinha sobre High School Musical no finalzinho é pertinente. Que os brasileiros, que tanto tentam ganhar um Oscarzinho, atentem a ela.

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Folha de S. Paulo
24 de Fevereiro de 2009

Análise
Lógica comercial está por trás de Oscar multicultural

Afagos a outros países, que duram minutos na festa, têm alto valor de mercado

SÉRGIO RIZZO
CRÍTICO DA FOLHA

Multiculturalismo, para a Academia, é distribuir prêmios para profissionais de diferentes etnias, saudar a possibilidade de rodar filmes de apelo comercial em lugares ermos e com orçamentos menores do que a média, e reconhecer que pode haver vida inteligente no cinema fora de Hollywood.

De acordo com essa ideia prosaica que empresta ao termo um significado oportunista, o Oscar viveu no domingo outra noite multicultural, na linha da que consagrou, em 1988, "O Último Imperador", de Bernardo Bertolucci, com nove Oscar -quase nas mesmas categorias em que triunfou "Quem Quer Ser um Milionário?".

Esse aceno generoso a outras culturas tem um sentido de inclusão, como os novos tempos nos EUA sugerem, mas segundo a lógica comercial. Um afago a um país (ou a uma comunidade irmanada pelo mesmo idioma) na noite de premiação dura poucos minutos e, simbolicamente, realimenta simpatias de valor de mercado incalculável.

Um Oscar para Penélope Cruz, por exemplo, pautará por muito tempo toda a mídia da Espanha e associará para sempre o prêmio ao nome da atriz. Seu discurso de agradecimento em espanhol, no entanto, alcança todos os países hispânicos, despertando o sentimento de que "um de nós chegou lá".

Vários de "nós" chegaram lá na cerimônia de domingo, a começar pelos australianos (o apresentador Hugh Jackman, a família de Heath Ledger), pelos indianos de "Quem Quer Ser Um Milionário?" e pelos japoneses que, vencedores nas categorias de filme estrangeiro e de curta-metragem, alegremente disseram "zankiu". Sem falar em italianos (Sophia Loren ao vivo, mais imagens de Roberto Benigni) e até poloneses (com o diretor de fotografia Janusz Kaminski pagando mico em um quadro). A transmissão da própria cerimônia é fonte de receita e, com a audiência global em queda, a escolha de apresentadores se tornou ainda mais estratégica.

Não por acaso, também deram as caras ídolos do público jovem, como os atores de "High School Musical" e de "Crepúsculo". Se a Academia quis simbolicamente dizer a alguém que aquele enorme brinquedo um dia será seu, foi para essa nova geração de astros nada multiculturais, e não para os alegres indianos de "Quem Quer Ser um Milionário?".

Escrito e transcrito em São Paulo, 24 de Fevereiro de 2009

Kate Winslet

Depois de escrever o post anterior, achei esta preciosidade sobre Kate Winslet na Folha de hoje, 24/2/2009. Genial. A menina de 33 anos cresceu no meu conceito… (Ela nasceu em 5 de Outubro de 1975, em Reading, na Inglaterra).

A tirada sobre Susan Sarandon é impagável… Valeria o preço de muitas entradas ver Susan Sarandon, a musa da esquerda cor-de-rosa americana, fazendo as cenas de nudez que Mme. Winslet faz em O Leitor… 

No site IMBD (http://www.imdb.com/name/nm0000701/bio – vide "Personal Quotes") há referência ao fato de que Kate Winslet teria dito, depois de sua quinta indicação para o Oscar, sem ganhá-lo, que, para ganhar, seria necessário fazer um filme sobre o Holocausto… Well: fez e levou. Realismo e determinação. Admirável. Visão, Motivação, Competência (vide meu site http://vmc.vc).

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Folha de S. Paulo
24 de Fevereirod e 2009

Winslet foge do padrão de Hollywood

DO ENVIADO A LOS ANGELES

Quando fez uma participação no hilariante seriado "Extras", interpretando ela mesmo, Kate Winslet dizia ironicamente que "se você faz um filme sobre o Holocausto, seu Oscar é garantido". Ela fez um filme sobre o Holocausto -como uma segurança da SS- e levou a estatueta, após cinco derrotas.

Anteontem, à imprensa, avisou ao jornal de sua cidade-natal que outra Winslet estamparia a primeira página: é que em dezembro sua mãe ganhou o concurso local de confecção de picles de cebola. Irônica, franca e sem travas: assim é a detentora do prêmio de melhor atriz.

É uma saudável exceção no mundo pasteurizado de Hollywood. Indagada sobre a crítica da imprensa britânica ao excesso de emoção demonstrado por ela em premiações anteriores, disse: "É triste que meu país não consiga ter prazer no sucesso de uma das suas". Sobre declaração de que não faria mais cenas de nudez e instada por um jornalista a passar "o bastão das cenas tórridas", escolheu "Susan Sarandon". (SD)

Escrito e transcrito em São Paulo, 24 de Fevereiro de 2009

Ainda o Oscar 2009

Transcrevo abaixo uma matéria de João Pereira Coutinho, publicada na folha de hoje, 24/2/2009. Dos filmes que concorreram na categoria de melhor filme, só vi O Curioso Caso de Benjamin Button e Quem Quer Ser um Milionário. Em relação a eles, concordo, em grande parte, com a análise do autor.

Devo acrescentar que, na minha opinião, Benjamin Button mereceu ganhar alguns Oscars técnicos e o tema da história, como ressalta Coutinho, lida com uma questão que fascina o ser humano. Mas a execução do filme, o desenrolar da história, deixa muito a desejar. Falta enredo, falta trama — o filme se arrasta. Talvez seja um pouco exagerado chamá-lo de não-filme, mas tiro o chapéu para esta frase de Coutinho: "Benjamin não é apenas desprovido de propósito; todo o filme, em sua autocomplacência visual, parece acompanhar o vazio da personagem. Não se trata de um mau filme. Trata-se de um não-filme."

Quanto a Quem Quer Ser um Milionário? vi-o aqui em casa, ontem à tardinha/noitinha, na tela do computador, em formato .avi. Coutinho mais uma vez chega perto da perfeição ao dizer que o filme escolhido como o melhor é (dentre os cinco indicados) "provavelmente o pior de todos: uma história ridiculamente sentimental sobre um indiano das favelas que, em gesto de amor, vai a concurso televisivo para ganhar fortuna redentora". Vai além: Afirma que a "histeria visual de Danny Boyle", o diretor, "é indistinguível de um videoclipe".

Não vi os outros três filmes ainda.

Creio que nem vá ver Milk. Suspeitava que o filme "não consegu[isse] se distanciar do panfleto gay e de seus clichês ideológicos", como afirma Coutinho. E decididamente não gosto de Sean Penn como ator. Não o conheço como pessoa, mas suspeito que não gostaria dele em pessoa também. A adoração que a esquerda cor-de-rosa lhe devota o torna ainda mais indeglutível. E o cor-de-rosa aqui nada tem que ver com os gays: tem que ver com o espectro político. "Esquerda cor-de-rosa", para mim, é a esquerda tipo Martha Suplicy, feita de intelectuais e ricos com dor de consciência…

Provavelmente vá ver O Leitor. A história é interessante e Kate Winslet está linda… Perdeu aquele ar de menina gordinha que tinha em Titanic. Isso compensa outras falhas.

A propósito, Cate Blanchett também está linda em Benjamin. Ela redime algumas falhas do filme (que oculta a melhor coisa que Brad Pitt tem como ator: um visual incomparável)…

Duas mulheres lindas com nome que soa do mesmo jeito — mas é grafado de forma diferente, com K e com C. Kate e Cate.

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Folha de S. Paulo
24 de Fevereiro de 2009

JOÃO PEREIRA COUTINHO

Hollywood: uma autópsia

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Os indicados ao Oscar são prova da estagnação que Hollywood vem denunciando há anos

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OSCAR: VOCÊS conhecem o jogo. Um filme vence, quatro filmes perdem. Aconteceu neste ano: "Quem Quer Ser um Milionário?" levou a estatueta dourada. Mas houve uma derrota suplementar: a derrota do cinema como arte revolucionária e vital, e não falo apenas do filme de Danny Boyle.

Segundo dizem, os cinco indicados ao Oscar de melhor filme representam a excelência que a indústria produziu em 2008. Eu assisti aos cinco, em cinco dias seguidos, para escrever texto crítico a respeito. Puro desperdício. Se o melhor do cinema anglo-americano está em "O Curioso Caso de Benjamin Button", "Milk – A Voz da Igualdade", "Frost/ Nixon", "Quem Quer Ser um Milionário?" e "O Leitor", por favor, preparem a tumba.

Exagero? Antes fosse. Primeiro que tudo, digo em minha defesa: nunca embarquei no desprezo tipicamente terceiro-mundista de olhar para Hollywood com escárnio. Longe disso: o cinema nasceu na Europa mas foi nos Estados Unidos que ele se ergueu como arte distinta, muitas vezes servida por diretores europeus.

E quando me falam nas "teorias de autor", que alegadamente se opõem ao reles comercialismo americano, lembro sempre que o conceito de "autor" é indissociável de Hollywood: de nomes como John Ford ou Howard Hawks, que os intelectuais de Paris teorizaram e, ironia das ironias, importaram de volta para os Estados Unidos.

Scorsese não existiria sem a influência da nouvelle vague. Mas a nouvelle vague não existiria sem o patrimônio fílmico que Hollywood produziu na primeira metade do século 20 e que se ofereceu à geração dos "Cahiers du Cinéma" como laboratório de estudo e subversão.

Tudo isso me parece agora distante e até deslocado. Os cinco filmes indicados ao Oscar são prova do cansaço e da estagnação que Hollywood vem denunciando há vários anos.

Claro que nem todos os filmes são comparáveis. "Quem Quer Ser um Milionário?", apesar da vitória, é provavelmente o pior de todos: uma história ridiculamente sentimental sobre um indiano das favelas que, em gesto de amor, vai a concurso televisivo para ganhar fortuna redentora. O problema não está na natureza fantasiosa da história: se assim fosse, seria preciso desqualificar uma parte importante do patrimônio cinematográfico, de Georges Méliès a Tim Burton. O problema está na histeria visual de Danny Boyle, que constrói uma narrativa sem uma única ideia de cinema a servi-la. O caso não é novo: "Trainspotting – Sem Limites" já anunciava ao mundo que, para Danny Boyle, o cinema é indistinguível de um videoclipe.

Exatamente o contrário do que sucede com "O Curioso Caso de Benjamin Button".

O filme, inspirado vagamente em conto prodigioso de Scott Fitzgerald, pretende oferecer-se como meditação sobre a irreversibilidade do tempo. Mas o que existia de excesso em Danny Boyle é agora ruminação sem sentido em Fincher: o seu Benjamin não é apenas desprovido de propósito; todo o filme, em sua autocomplacência visual, parece acompanhar o vazio da personagem. Não se trata de um mau filme. Trata-se de um não-filme.

Mas a verdadeira desgraça de Hollywood talvez não esteja em "Quem Quer Ser um Milionário?" ou "O Curioso Caso de Benjamin Button": obras falhadas fazem parte de qualquer atividade artística, certo? A desgraça maior talvez esteja em "Milk – A Voz da Igualdade", "Frost/ Nixon" e "O Leitor", três filmes medianos, e medianos por seu academismo vulgar.

"Milk" começa por surpreender exatamente por isso: Gus van Sant tem obras estimáveis no início da carreira, como "Drugstore Cowboy". Em "Milk", biopic sobre o primeiro político assumidamente homossexual a ser eleito para cargo público, Gus van Sant não consegue se distanciar do panfleto gay e de seus clichês ideológicos. Essa preguiça programática é ainda amplificada pelo convencionalismo formal que Gus van Sant imprime a "Milk".

Restam "Frost/Nixon" e "O Leitor", que talvez se salvassem do dilúvio se Ron Howard ou Stephen Daldry fossem, no verdadeiro sentido da palavra, "autores". Não são.

"Frost/Nixon" denuncia as suas origens teatrais, e denuncia da pior forma possível: ao tornar desnecessariamente caricatural o que apenas os palcos eram capazes de suportar. A composição de Frank Langella como Nixon prova-o de forma clara e, para mim, dolorosa.

"O Leitor" apenas prolonga a trivialidade de "Frost/Nixon": o poderoso livro de Bernhard Schlink sobre a relação amorosa entre uma antiga guarda nazista e um jovem estudante na Alemanha do pós-guerra não passa de uma composição desinspirada e televisiva. Disse "televisiva"? Corrijo. O Oscar deste ano confirma, pelo contrário, que a moderna ficção televisiva substituiu há muito, em inventividade e desafio, o papel visual e narrativo que o cinema teve durante um século.

Escrito e transcrito em São Paulo, 24 de Fevereiro de 2009

O Oscar 2009

Como faço todo ano, segue, abaixo, a lista dos vinte e quatro indicados para o Oscar de hoje à noite, com as categorias e os nomes dos filmes em Português e em Inglês. Os vencedores estão indicados por um asterisco.

Ando tão desligado da televisão ultimamente que só agora há pouco, durante o Fantástico (curto por causa do Carnaval), fiquei sabendo que a entrega do Oscar era hoje…

Felizmente a entrega do prêmio é no Domingo de Carnaval. Assim dá para dormir mais amanhã cedo (que é um daqueles feriados que não são feriados)…

É esta a lista completa dos indicados, em Português:

1. Melhor filme

O Curioso Caso de Benjamin Button
Frost/Nixon
Milk
O Leitor
* Quem Quer Ser um Milionário? (Slumdog Millionaire )

2. Melhor diretor

* Danny Boyle (Quem Quer Ser um Milionário? – Slumdog Millionaire)
Stephen Daldry (O Leitor)
David Fincher (O Curioso Caso de Benjamin Button)
Ron Howard (Frost/Nixon)
Gus Van Sant (Milk)

3. Melhor ator

Richard Jenkis (The Visitor)
Frank Langella (Frost/Nixon)
* Sean Penn (Milk)
Brad Pitt (O Curioso Caso de Benjamin Button)
Mickey Rourke (The Wrestler)

4. Melhor atriz

Anne Hathaway (O Casamento de Rachel)
Angelina Jolie (A Troca)
Melissa Leo (Frozen River)
Meryl Streep (Dúvida)
* Kate Winslet (O Leitor)

5. Melhor ator coadjuvante

Robert Downey Jr. (Trovão Tropical)
Philip Seymour Hoffman (Dúvida)
* Heath Ledger (Batman – O Cavaleiro das Trevas)
Josh Brolin (Milk)
Michael Shannon (Foi Apenas um Sonho)

6. Melhor atriz coadjuvante

Amy Adams (Dúvida)
* Penelope Cruz (Vicky Cristina Barcelona)
Viola Davis (Dúvida)
Taraji P. Henson (O Curioso Caso de Benjamin Button)
Marisa Tomei (The Wrestler)

7. Melhor roteiro original

Frozen River
Simplesmente Feliz
Na Mira do Chefe
* Milk
Wall-E

8. Melhor roteiro adaptado

O Curioso Caso de Benjamin Button
Dúvida
Frost/Nixon
O Leitor
* Quem Quer Ser um Milionário? (Slumdog Millionaire )

9. Melhor trilha sonora original

Alexandre Desplat (O Curioso Caso de Benjamin Button)
James Newton Howard (Defiance)
* A. R. Rahman (Quem Quer Ser um Milionário? (Slumdog Millionaire)
Danny Elfman (Milk)
Thomas Newman (Wall-E)

10. Melhor canção original

Down to Earth (Wall-E)
* Jai Ho (Quem Quer Ser um Milionário? – Slumdog Millionaire)
O Saya (Quem Quer Ser um Milionário? – Slumdog Millionaire)

11. Melhor filme estrangeiro

Der Baader Meinhof Komplex, de Uli Edel (Alemanha)
Waltz With Bashir, de Ari Folman (Israel)
The Class, Laurent Cantet (França)
* Departures, Yojiro Takita (Japão)
Revanche, de Gotz Spielmann (Áustria)

12. Melhor animação

Bolt – Supercão
Kung Fu Panda
* Wall-E

13. Melhor curta de animação

* La Maison en Petits Cubes, de Kunio Kato
Lavatory – Lovestory, de Konstantin Bronzit
Oktapodi, de Emud Mokhberi e Thierry Marchand
Presto, de Doug Sweetland
This Way Up, de Alan Smith e Adam Foulkes

14. Melhor documentário

The Betrayal (Nerakhoon), de Ellen Kuras e Thavisouk Phrasavath
Encounters at the End of the World, de Werner Herzog e Henry Kaiser
The Garden, de Scott Hamilton Kennedy
* Man on Wire, de James Marsh e Simon Chinn
Trouble the Water de Tia Lessin e Carl Deal

15. Melhor documentário em curta-metragem

The Conscience of Nhem En
The Final Inch
* Smile Pinki
The Witness – From the Balcony of Room 306

16. Melhor curta-metragem

Auf der Strecke (On the Line)
Manon on the Asphalt
New Boy
The Pig
* Spielzeugland (Toyland)

17. Melhor direção de arte

A Troca
* O Curioso Caso de Benjamin Button
Batman – O Cavaleiro das Trevas
A Duquesa
Foi Apenas um Sonho

18. Melhor fotografia

A Troca (Tom Stern)
O Curioso Caso de Benjamin Button (Claudio Miranda)
Batman – O Cavaleiro das Trevas (Wally Pfister)
O Leitor (Chris Menges and Roger Deakins)
* Quem Quer Ser um Milionário? (Slumdog Millionaire) (Anthony Dod Mantle)

19. Melhor edição

O Curioso Caso de Benjamin Button (Kirk Baxter e Angus Wall)
Batman – O Cavaleiro das Trevas (Lee Smith)
Frost/Nixon (Mike Hill and e Hanley)
Milk (Elliot Graham)
* Quem Quer Ser um Milionário? (Slumdog Millionaire) (Chris Dickens)

20. Melhor mixagem de som

O Curioso Caso de Benjamin Button (David Parker, Michael Semanick, Ren Klyce e Mark Weingarten)
Batman – O Cavaleiro das Trevas (Lora Hirschberg, Gary Rizzo e Ed Novick)
* Quem Quer Ser um Milionário? (Slumdog Millionaire) (Ian Tapp, Richard Pryke e Resul Pookutty)
Wall-E (Tom Myers, Michael Semanick e Ben Burtt)
O Procurado (Chris Jenkins, Frank A. Montaño e Petr Forejt)

21. Melhor edição de som

* Batman – O Cavaleiro das Trevas (Richard King)
Homem de Ferro (Frank Eulner e Christopher Boyes)
Quem Quer Ser um Milionário? (Slumdog Millionaire) (Tom Sayers)
Wall-E (Ben Burtt e Matthew Wood)
O Procurado (Wylie Stateman)

22. Melhores efeitos especiais

* O Curioso Caso de Benjamin Button (Eric Barba, Steve Preeg, Burt Dalton e Craig Barron)
Batman – O Cavaleiro das Trevas (Nick Davis, Chris Corbould, Tim Webber e Paul Franklin)
Homem de Ferro (John Nelson, Ben Snow, Dan Sudick e Shane Mahan)

23. Melhor maquiagem

* O Curioso Caso de Benjamin Button (Greg Cannom)
Batman – O Cavaleiro das Trevas (John Caglione, Jr. e Conor O’Sullivan)
Hellboy II (Mike Elizalde e Thom Floutz)

24. Melhor figurino

Austrália (Catherine Martin)
O Curioso Caso de Benjamin Button (Jacqueline West)
* A Duquesa (Michael O’Connor)
Milk (Danny Glicker)
Foi Apenas um Sonho (Albert Wolsky)


Indicados em Inglês:

1. Best motion picture of the year

“The Cu
rious Case of Benjamin Button” (Paramount and Warner Bros.), A Kennedy/Marshall Production, Kathleen Kennedy, Frank Marshall and Ceán Chaffin, Producers
“Frost/Nixon” (Universal), A Universal Pictures, Imagine Entertainment and Working Title Production, Brian Grazer, Ron Howard and Eric Fellner, Producers
“Milk” (Focus Features), A Groundswell and Jinks/Cohen Company Production, Dan Jinks and Bruce Cohen, Producers
“The Reader” (The Weinstein Company), A Mirage Enterprises and Neunte Babelsberg Film GmbH Production, Anthony Minghella, Sydney Pollack, Donna Gigliotti and Redmond Morris, Producers
“Slumdog Millionaire” (Fox Searchlight), A Celador Films Production, Christian Colson, Producer

2. Achievement in directing

“The Curious Case of Benjamin Button” (Paramount and Warner Bros.), David Fincher
“Frost/Nixon” (Universal), Ron Howard
“Milk” (Focus Features), Gus Van Sant
“The Reader” (The Weinstein Company), Stephen Daldry
“Slumdog Millionaire” (Fox Searchlight), Danny Boyle

3. Performance by an actor in a leading role

Richard Jenkins in “The Visitor” (Overture Films)
Frank Langella in “Frost/Nixon” (Universal)
Sean Penn in “Milk” (Focus Features)
Brad Pitt in “The Curious Case of Benjamin Button” (Paramount and Warner Bros.)
Mickey Rourke in “The Wrestler” (Fox Searchlight)

4. Performance by an actress in a leading role

Anne Hathaway in “Rachel Getting Married” (Sony Pictures Classics)
Angelina Jolie in “Changeling” (Universal)
Melissa Leo in “Frozen River” (Sony Pictures Classics)
Meryl Streep in “Doubt” (Miramax)
Kate Winslet in “The Reader” (The Weinstein Company)

5. Performance by an actor in a supporting role

Josh Brolin in “Milk” (Focus Features)
Robert Downey Jr. in “Tropic Thunder” (DreamWorks, Distributed by DreamWorks/Paramount)
Philip Seymour Hoffman in “Doubt” (Miramax)
Heath Ledger in “The Dark Knight” (Warner Bros.)
Michael Shannon in “Revolutionary Road” (DreamWorks, Distributed by Paramount Vantage)

6. Performance by an actress in a supporting role

Amy Adams in “Doubt” (Miramax)
Penélope Cruz in “Vicky Cristina Barcelona” (The Weinstein Company)
Viola Davis in “Doubt” (Miramax)
Taraji P. Henson in “The Curious Case of Benjamin Button” (Paramount and Warner Bros.)
Marisa Tomei in “The Wrestler” (Fox Searchlight)

7. Original screenplay

“Frozen River” (Sony Pictures Classics), Written by Courtney Hunt
“Happy-Go-Lucky” (Miramax), Written by Mike Leigh
“In Bruges” (Focus Features), Written by Martin McDonagh
“Milk” (Focus Features), Written by Dustin Lance Black
"WALL-E” (Walt Disney), Screenplay by Andrew Stanton, Jim Reardon, Original story by Andrew Stanton, Pete Docter

8. Adapted screenplay

“The Curious Case of Benjamin Button” (Paramount and Warner Bros.), Screenplay by Eric Roth, Screen story by Eric Roth and Robin Swicord
“Doubt” (Miramax), Written by John Patrick Shanley
“Frost/Nixon” (Universal), Screenplay by Peter Morgan
“The Reader” (The Weinstein Company), Screenplay by David Hare
“Slumdog Millionaire” (Fox Searchlight), Screenplay by Simon Beaufoy

9. Achievement in music written for motion pictures (Original score)

“The Curious Case of Benjamin Button” (Paramount and Warner Bros.), Alexandre Desplat
“Defiance” (Paramount Vantage), James Newton Howard
“Milk” (Focus Features), Danny Elfman
“Slumdog Millionaire” (Fox Searchlight), A.R. Rahman
“WALL-E” (Walt Disney), Thomas Newman

10. Achievement in music written for motion pictures (Original song)

“Down to Earth” from “WALL-E” (Walt Disney), Music by Peter Gabriel and Thomas Newman, Lyric by Peter Gabriel
“Jai Ho” from “Slumdog Millionaire” (Fox Searchlight), Music by A.R. Rahman, Lyric by Gulzar
“O Saya” from “Slumdog Millionaire” (Fox Searchlight), Music and Lyric by A.R. Rahman and Maya Arulpragasam                  

11. Best foreign language film of the year

“The Baader Meinhof Complex” A Constantin Film Production, Germany
“The Class” (Sony Pictures Classics), A Haut et Court Production, France
“Departures” (Regent Releasing), A Departures Film Partners Production, Japan
“Revanche” (Janus Films), A Prisma Film/Fernseh Production, Austria
“Waltz with Bashir” (Sony Pictures Classics), A Bridgit Folman Film Gang Production, Israel

12. Best animated feature film of the year

“Bolt” (Walt Disney), Chris Williams and Byron Howard
“Kung Fu Panda” (DreamWorks Animation, Distributed by Paramount), John Stevenson and Mark Osborne
“WALL-E” (Walt Disney), Andrew Stanton

13. Best animated short film

“La Maison en Petits Cubes” A Robot Communications Production, Kunio Kato
“Lavatory – Lovestory” A Melnitsa Animation Studio and CTB Film Company Production, Konstantin Bronzit
“Oktapodi” (Talantis Films), A Gobelins, L’école de l’image Production, Emud Mokhberi and Thierry Marchand
“Presto” (Walt Disney), A Pixar Animation Studios Production, Doug Sweetland
“This Way Up” A Nexus Production, Alan Smith and Adam Foulkes

14. Best documentary feature

“The Betrayal (Nerakhoon)” (Cinema Guild), A Pandinlao Films Production, Ellen Kuras and Thavisouk Phrasavath
“Encounters at the End of the World” (THINKFilm and Image Entertainment), A Creative Differences Production, Werner Herzog and Henry Kaiser
“The Garden” A Black Valley Films Production, Scott Hamilton Kennedy
“Man on Wire” (Magnolia Pictures), A Wall to Wall in association with Red Box Films Production, James Marsh and Simon Chinn
“Trouble the Water” (Zeitgeist Films), An Elsewhere Films Production, Tia Lessin and Carl Deal

15. Best documentary short subject

“The Conscience of Nhem En” A Farallon Films Production, Steven Okazaki
“The Final Inch” Vermilion Films in association with Google.org, Irene Taylor Brodsky and Tom Grant
“Smile Pinki” A Principe Production, Megan Mylan
“The Witness – From the Balcony of Room 306” A Rock Paper Scissors Production, Adam Pertofsky and Margaret Hyde

16. Best live action short film

“Auf der Strecke (On the Line)” (Hamburg Shortfilmagency), An Academy of Media Arts Cologne Production, Reto Caffi
“Manon on the Asphalt” (La Luna Productions), A La Luna Production, Elizabeth Marre and Olivier Pont
“New Boy” (Network Ireland Television), A Zanzibar Films Production, Steph Green and Tamara Anghie
“The Pig” An M & M Production, Tivi Magnusson and Dorte Høgh
“Spielzeugland (Toyland)” A Mephisto
Film Production, Jochen Alexander Freydank

17. Achievement in art direction

“Changeling” (Universal), Art Direction: James J. Murakami, Set Decoration: Gary Fettis
“The Curious Case of Benjamin Button” (Paramount and Warner Bros.), Art Direction: Donald Graham Burt, Set Decoration: Victor J. Zolfo
“The Dark Knight” (Warner Bros.), Art Direction: Nathan Crowley, Set Decoration: Peter Lando
“The Duchess” (Paramount Vantage, Pathé and BBC Films), Art Direction: Michael Carlin, Set Decoration: Rebecca Alleway
“Revolutionary Road” (DreamWorks, Distributed by Paramount Vantage), Art Direction: Kristi Zea, Set Decoration: Debra Schutt

18. Achievement in cinematography

“Changeling” (Universal), Tom Stern
“The Curious Case of Benjamin Button” (Paramount and Warner Bros.), Claudio Miranda
“The Dark Knight” (Warner Bros.), Wally Pfister
“The Reader” (The Weinstein Company), Chris Menges and Roger Deakins
“Slumdog Millionaire” (Fox Searchlight), Anthony Dod Mantle

19. Achievement in film editing

“The Curious Case of Benjamin Button” (Paramount and Warner Bros.), Kirk Baxter and Angus Wall
“The Dark Knight” (Warner Bros.), Lee Smith
“Frost/Nixon” (Universal), Mike Hill and Dan Hanley
“Milk” (Focus Features), Elliot Graham
“Slumdog Millionaire” (Fox Searchlight), Chris Dickens

20. Achievement in sound mixing

“The Curious Case of Benjamin Button” (Paramount and Warner Bros.), David Parker, Michael Semanick, Ren Klyce and Mark Weingarten
“The Dark Knight” (Warner Bros.), Lora Hirschberg, Gary Rizzo and Ed Novick
“Slumdog Millionaire” (Fox Searchlight), Ian Tapp, Richard Pryke and Resul Pookutty
“WALL-E” (Walt Disney), Tom Myers, Michael Semanick and Ben Burtt
“Wanted” (Universal), Chris Jenkins, Frank A. Montaño and Petr Forejt

21. Achievement in sound editing

“The Dark Knight” (Warner Bros.), Richard King
“Iron Man” (Paramount and Marvel Entertainment), Frank Eulner and Christopher Boyes
“Slumdog Millionaire” (Fox Searchlight), Glenn Freemantle and Tom Sayers
“WALL-E” (Walt Disney), Ben Burtt and Matthew Wood
“Wanted” (Universal), Wylie Stateman

22. Achievement in visual effects

“The Curious Case of Benjamin Button” (Paramount and Warner Bros.), Eric Barba, Steve Preeg, Burt Dalton and Craig Barron
“The Dark Knight” (Warner Bros.), Nick Davis, Chris Corbould, Tim Webber and Paul Franklin
“Iron Man” (Paramount and Marvel Entertainment), John Nelson, Ben Snow, Dan Sudick and Shane Mahan

23. Achievement in makeup

“The Curious Case of Benjamin Button” (Paramount and Warner Bros.), Greg Cannom
“The Dark Knight” (Warner Bros.), John Caglione, Jr. and Conor O’Sullivan
“Hellboy II: The Golden Army” (Universal), Mike Elizalde and Thom Floutz

24. Achievement in costume design

“Australia” (20th Century Fox), Catherine Martin
“The Curious Case of Benjamin Button” (Paramount and Warner Bros.), Jacqueline West
“The Duchess” (Paramount Vantage, Pathé and BBC Films), Michael O’Connor
“Milk” (Focus Features), Danny Glicker
“Revolutionary Road”  (DreamWorks, Distributed by Paramount Vantage), Albert Wolsky

o O o

Como se pode ver, Quem Quer Ser um Milionário? (Slumdog Millionaire), indicado para dez Oscars, acabou ganhando a competição contra O Curioso Caso de Benjamin Button (The Curious Case of Benjamin Button), indicado para treze Oscars: ganhou mais Oscars e Oscars mais importantes (inclusive Melhor Filme e Melhor Diretor). Minha preferência, porém, era por Benjamin Button. Mas é bom ver a participação bem sucedida da Índia num filme de primeira linha.

Fiquei muito contente com dois Oscars. Primeiro, o de Penelope Cruz na categoria Melhor Atriz Coadjuvante. Ela está magnífica em Vicky Cristina Barcelona: ofuscou minha “ídola” Scarlett Johansson. Segundo, o de Kate Winslet, na categoria Melhor Atriz, pelo filme O Leitor (The Reader). Ela é sempre excelente.

Apesar de ter gostado do Oscar de Kate Winslet, eu também teria adorado se Meryl Streep tivesse ganho o Oscar de Melhor Atriz. Indicada pela décima quinta vez (um record), Meryl Streep merece qualquer Oscar que ainda vier para ela (apesar de já ter ganho dois).

Fiquei triste de Brad Pitt não ter ganho na categoria Melhor Ator, pelo filme O Curioso Caso de Benjamin Button (The Curious Case of Benjamin Button).

Por fim, uma palavra sobre a produção do show. Foi de longe o melhor Oscar, ever. Os múltiplos cenários estavam magníficos. Mas a melhor inovação foi o procedimento para indicar os melhores nas categorias de Melhor Atriz e Melhor Ator. Cinco ganhadores nessas categorias fizeram um breve resumo da biografia dos cinco indicados. Ficou excepcional. Por fim, a apresentação foi competente, profissional, séria e discreta: o australiano Hugh Jackman foi um apresentador de primeira, não um aprendiz de palhaço, como alguns apresentadores de outras vezes.

São Paulo, em 22 de Fevereiro de 2009

Vicky Cristina Barcelona

Assisti ontem à noitinha (no Shopping que fica em frente ao Conjunto Nacional, onde fica a Livraria Nobel de meu amigo Nivaldo Cordeiro) ao último filme dirigido por Woody Allen (com o título acima): a história de duas amigas americanas (Vicky – representada por Rebecca Hall, virtualmente desconhecida, e Cristina – representada por Scarlett Johansson, a nova musa de Woody Allen). Contracenam com as duas Chris Messina e Penelope Cruz – ambos muito bem em seus papéis. 

Recomendo. 

A história é bem bolada – Woody Allen além de diretor é o roteirista, e, sendo a história original, é, na verdade, o autor de uma história bastante interessante. Os diálogos são “sharp”, os personagens bem desenhados e representados. O contraste entre Vicky e Cristina é traçado em linhas fortes, mas não escapa da realidade: a primeira é a certinha, a outra a ousada… Os personagens representados por Messina e Cruz às vezes beiram o exagero, mas sem cair nele: ele o amante latino irresistível (especialmente para turistas americanas…), ela a amante latina adorável mas terrivelmente temperamental. E o cenário é lindo: Barcelona e Oviedo.

Woody Allen, na minha opinião, fica cada vez melhor à medida que envelhece. Já havia gostado muito de Match Point (de 2005) e, agora, gosto muito deste último filme (de 2008) – ambos com Scarlett Johansson. Entre os dois ela fez, também com Woody Allen, Scoop (de 2006), que eu ainda não vi – além de vários outros filmes com outros diretores.

Repito: vale a pena ver.

Em São Paulo, 26 de Novembro de 2008

Nights in Rodanthe (2008, Noites de Tormenta)

“Nunca é tarde para uma nova chance” – é este o slogan (“tagline”) do filme na International Movie Data Base (IMDB). Bastante apto. O filme trata de um recomeço para dois e a dois – um recomeço que que se tornou possível por causa do acaso. Ou, para quem não acredita em acaso e tem pendores calvinistas, por graça e obra de uma providentia divina specialissima, que opera de forma oculta e misteriosa, detrás dos bastidores, dirigindo nossos afazeres, determinando nossas decisões, condicionando nossas escolhas…

A história é bonita – e é interpretada quase à perfeição. Ela se baseia em um livro de Nicholas Sparks, com o mesmo título do filme. Já assisti a três outros filmes baseados em livros dele: The Notebook (2004,  Diário de uma Paixão, em Português), A Walk to Remember (2002, Um Amor para Recordar, em Português), e Message in a Bottle (1999, Uma Carta de Amor, em Português). Todos muito bons.

Nicholas Sparks é hoje famoso por suas histórias de amor simples, não raro tristes, mas muito bem contadas. É possível que nunca seja um sucesso de crítica nem ganhe um Nobel de Literatura. Mas será sempre um bestseller – e um campeão de bilheterias, quando suas histórias são transformadas em filmes, como várias já foram.

Noites de Tormenta, lançado este ano, traz Richard Gere e Diane Lane – o mesmo par de Unfaithful (2002, Infidelidade, em Português) e The Cotton Club (1984, Cotton Club, em Português). Ambos estão perfeitos em seus papéis. Gere, do alto de seus 59 anos, está melhor do que nunca, e Lane está perfeita. Esse terceiro filme deles mostra que os diretores afinal descobriram que os dois juntos fazem uma parceria que é sucesso garantido. 

A história é sobre um casal que se encontra (por acaso?) em uma pousada, à beira do mar, em Rodanthe, no litoral da Carolina do Norte. Ela (Adrienne Willis) foi para lá para tomar conta da pousada para a proprietária, sua amiga. Ele (Paul Flanner) é o único hóspede durante a baixa temporada – na verdade, na temporada das tormentas e dos furacões.

Adrienne está separada do marido, que quer que ela volte para ele. Em seu pleito, o ex-marido tem o apoio dos filhos, um casal. Adrienne hesita. Pensa nela, que não quer voltar. Pensa nos filhos, que querem que ela volte. A temporada na pousada lhe dará tempo para pensar.

Paul é um médico, em cujas mãos morreu uma paciente já idosa, da qual ele retirava um cisto no rosto. A família da mulher morta o processou. No entanto, o viúvo, que mora perto da pousada, lhe envia uma carta convidando-o para uma conversa. É por isso que ele se dirige para a pousada, onde ficará conhecendo Adrienne.

Um encontro que tem lugar por obra do acaso? Ou será que há forças ocultas que, mesmo quando não planejamos, ou até mesmo quando estamos inconscientes dos motivos de nossas ações, nos colocam no lugar certo, na hora certa?

A primeira conversa entre Paul e o viúvo mostra um Paul defensivo, dizendo que não teve culpa na morte da mulher, e sem sensibilidade para com a dor do outro. Adrienne observa a conversa. E decide intervir – sem saber aonde a intervenção vai levar. 

Desde o primeiro encontro dos dois protagonistas se percebe que há uma química especial que os aproxima um do outro. Aos poucos ela vai se abrindo e lhe contando sua história. Ele, meio a contragosto, vai revelando a dele a ela – o resto ela vai descobrindo. Embora os dois tenham problemas, um vai procurando ajudar o outro – e o amor aparece sem ter sido convidado: os dois se apaixonam. Cenas lindas dos dois andando abraçados pelas praias de Rodanthe.

Ela o estimula a procurar o viúvo mais uma vez e a mostrar-lhe solidaridade e sentimento. Ele o faz – e a conversa franca e dura com o homem lhe alivia um pouco a alma. Ela o estimula, de igual forma, a procurar o filho, também médico, que, depois do acidente, abandonou o hospital em que ambos trabalhavam e foi prestar serviços médicos a populações carentes no Equador.

A história caminha e os dias de sua permanência juntos na pousada chegam ao fim. Ela volta para casa, ele parte ao encontro do filho. Planejam o dia em que se reunirão.

Em casa ela comunica aos filhos e ao ex-marido que não quer refazer o casamento. A filha adolescente se revolta. O menino mais novo, embora triste, tem um comportamento mais receptivo, e abraça a mãe.

O tempo passa. A filha dela, distante. O amor entre os dois, cultivado apenas por cartas apaixonadas. No Equador, ele se reconcilia com filho, ao entrar de cabeça no trabalho social. Fica um tempo relativamente longo lá – depois do qual anuncia para ela que estará retornando em breve. Marca o dia, informa o vôo.

E não chega… Ela fica agarrada ao telefone a noite inteira. Liga para a companhia aérea e ele não estava no vôo.

Pouco tempo depois toca a campainha e é o filho dele – com uma caixa de cartas e objetos pessoais na mão. O desfecho é evidente: Paul Flanner morreu. Numa tempestade a casa em que o filho trabalhava e morava no Equador desabou sobre ele – quando ele corajosamente entrou nela para tentar salvar os medicamentos que lá estavam.

O final do filme é lindo e triste. Ela cai em crise de depressão por uns dias. A filha finalmente se aproxima da mãe e a ajuda material e emocionalmente. O sofrimento visível da mãe comove e muda a filha. A cena em que Adrienne examina os objetos da caixa trazida pelo filho dele é memorável… A dor e a angústia se estampam no rosto dela a cada objeto tocado, a cada carta aberta — inclusive uma última, dele para ela, não enviada.

Filme sensível, que faz pensar e faz chorar (como Diário de uma Paixão e Uma Carta de Amor).

Uma linda história de amor – apesar de triste.

Em Brasília, 8 de Outubro de 2008

Juliette Binoche e Olivier Martinez

Acabei de ver meu segundo filme hoje — este em DVD, um lindo filme Francês, com os atores cujos nomes estão no título deste post. O título do filme é longo, em Português: O Cavaleiro do Telhado e a Dama das Sombras. O título original é Le Hussard sur le Toit (literalmente, O Cavaleiro no Telhado), de 1995. Trata-se de um filme de época, passado em Provence, no sul da França, em 1832 — momento em que acontecia uma terrível epidemia de cólera que dizimou a população local.

Os artistas são de primeira grandeza – ambos franceses.

Ela, Juliette Binoche, premiada na França e nos Estados Unidos, é famosa no Brasil por razões certas e por razões erradas. Começando com estas, ela foi atriz do famoso Je Vous Salue, Marie, de 1985, que o Presidente José Sarney, apesar de terminada a ditadura e abolida a censura, resolveu proibir que fosse exibido no Brasil a pedido do lobby católico. (Hoje a gente compra o filme em DVD por 9.99 reais nas Lojas Americanas). O filme não é grande coisa e só ficou famoso aqui pela censura sarneyana. Entra as boas razões de sua fama estão The Unbearable Lightness of Being (A Insustentável Leveza do Ser), de 1988, na minha opinião o seu melhor trabalho falando Inglês: história forte e com um grau de erotismo elevadíssimo nas cenas em que ela contracenou com Daniel Day-Lewis.  Em 1992 participou de Wuthering Heights (O Morro dos Ventos Uivantes), mas sua boa atuação não chamou tanto a atenção, e de Damage (Perdas e Danos), onde representou cenas lindas de amor quentíssimo com Jeremy Irons — bem mais velho do que ela e o pai de seu namorado no filme. O filme aqui comentado foi feito em 1995 e sua atuação foi excelente. Mas a consagração em nível mundial veio em 1996 com The English Patient (O Paciente Inglês), que lhe trouxe o Oscar de Melhor Atriz em Papel Principal, e em 2000 com Chocolat (Chocolate), filme que lhe trouxe nova indicação para o Oscar de Melhor Atriz em Papel Principal. Duas indicações e uma vitória nessa prestigiosa categoria do Oscar em menos de cinco anos é algo notável, em especial em se tratando de atriz que não fez carreira nos Estados Unidos e cuja língua principal não é o Inglês – mas, no caso, inteiramente merecido. Eu uma vez disse que Juliette Binoche (como Julianne Moore) não é uma atriz tipicamente bonita pelos padrões de beleza de Hollywood – mas quando interpreta se torna lindíssima. Continuo a achar isso.

Olivier Martinez é menos conhecido do que ela, mas ficou famoso com o filme Unfaithful (Infidelidade), de 2002, em que tem um caso bastante quente com Diane Lane, mulher de Richard Gere na história. Não é conhecido fora da França por nenhum outro filme. Mas teve papel destacado no filme aqui comentado. Bonito, é conhecido com o Brad Pitt Francês.

Juliette Binoche viveram juntos de 1995 a 1998 — ou seja, durante três anos, logo depois do filme.

Mas volto ao filme mencionado no início – que é uma linda história de amor. Como as mais lindas histórias de amor, é uma história que não dá certo. Dar certo, no caso, significaria que os dois protagonistas terminassem o filme juntos. Ficam separados. O amor surge e cresce entre eles enquanto ela procura o marido, que havia sumido no início da epidemia de cólera e ele a ajuda e protege. Mas o marido reaparece no final do filme e eles não conseguem consumar o amor que havia surgido entre eles. Amores não consumados são sempre tristes e frustrantes. E a história termina nesse tom de desapontamento.

Mas o filme vai além da história e filme termina com uma mensagem desesperança na tela dizendo que o marido percebeu, antes dela, que o amor que ela vivera com o amante (amante que foi, sem nunca ter sido) era algo que ela nunca iria esquecer — e dizendo que, por isso, o marido, generoso e compreensivo, não a impediria de sair um dia ao encontro do amado, se ela assim o desejasse.

A audiência, tenho certeza, teria seria sido unânime em aplaudir a decisão, se ela acontecesse. Juliette Binoche não tomou essa decisão dentro dos 135 minutos do filme. Fê-lo, entretanto, na vida real. Durante o caso de três anos dos dois, correram freqüentemente na imprensa sérios boatos de que ela havia ficado grávida dele.  Os boatos, evidentemente, não se confirmaram. Mas se tivessem tido um filho, a criança provavelmente teria sido linda, inteligente, forte de personalidade, e talentosa, como ambos são. Um menino, eu diria…

Em Salto, 26 de Julho de 2008