Vaticano tenta tapar o sol com a peneira

Há dias publiquei aqui o post “Pedofilia entre padres” (http://ec.spaces.live.com/blog/cns!511A711AD3EE09AA!3386.entry).

Ali argumentei em favor de minha conjetura (em três partes) acerca das causas principais desse número relativamente elevado de padres que se envolvem com pedofilia homossexual. 

1) O seminarista, futuro padre, é desde cedo doutrinado a ver na mulher a fonte número um do pecado. Como ele vai ser celibatário, e sabe disso, a mulher é a tentação que ele deve evitar a todo custo. A mulher é, para ele, símbolo de tentação.

2) A Igreja trancafia o futuro padre, em muitos casos desde cedo, em seminários, onde ele fica segregado de mulheres: só vê guris mais ou menos da sua idade – e, naturalmete, os professores (todos homens). Internatos unissex parece que foram bolados para gerar, nos adolescentes, interesse pelo mesmo sexo (principalmente quando o interesse no sexo oposto é proibido).

3) Quando vai exercer o sacerdócio, o padre acaba ficando rodeado de coroinhas, parecidos com os seus coleguinhas de seminário menor, que, agora, o admiram e olham para ele como figura de autoridade. E ele, por outro lado, pela sua doutrinação é condicionado a fugir das mulheres e pela sua formação em internato unissex foi condicionado a se interessar por meninos… Sendo figura de autoridade, não tem muita dificuldade em convencer os meninos de que sexo (em alguma modalidade) com o sacerdote é parte de seus deveres.

Essa combinação de fatores é fatal: ela acaba produzindo essa série aparentemente infindável de casos de pedofilia homossexual entre padres católicos. Não se trata, como já disse, de meros escândalos sexuais em relação aos quais se possa dizer: “Sou culpado, mas que igreja pode dizer que não é?” Trata-se de um fenômeno tipicamente católico que não adianta tentar generalizar.

O UOL Notícias – Últimas Notícias de hoje (29/3/2010) traz uma matéria mostrando que o Vaticano está tentando argumentar que o celibato clerical não tem nada com isso. A Igreja tenta, mais uma vez, tapar o sol com a peneira. Dizer é fácil – substanciar o que se diz com fatos e argumentos, entretanto, é outra coisa, e isso o Vaticano não faz.

Vide a matéria:

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http://noticias.uol.com.br/ultimas-noticias/afp/2010/03/29/para-vaticano-celibato-nao-e-causa-de-abusos-sexuais.jhtm

29/03/2010 – 10h08

Para Vaticano celibato não é causa de abusos sexuais

O presidente do Conselho Pontifício para a Promoção dos Cristãos, o cardeal alemão Walter Kasper, declarou nesta segunda-feira que "o celibato não tem relação com os abusos sexuais de menores cometidos por padres", ao mesmo tempo que cada vez mais denúncias de pedofilia abalam a Igreja Católica da Europa.

O onda de escândalos de pedofilia que afeta o Velho Continente gerou um debate sobre as repercussões do celibato e da abstinência sexual nos sacerdotes, uma tradição milenar que o Vaticano defende de modo ferrenho.

"Todos os especialistas sustentam que a maioria dos abusos acontece dentro da família e não em meios religiosos", afirmou o cardeal alemão, um defensor do celibato, que para ele "não deve ser absolutamente abolido".

Kasper considera que abrir o debate sobre o celibato é "o abuso dos abusos e constitui uma instrumentalização dos casos de pedofilia".

"O celibato é respeitado na Igreja desde antes de virar uma regra canônica no século XI", recordou Kasper.

"Não é um dogma, sim uma antiga tradição que conserva intacta sua razão e não é necessária revisar esta legislação, nem modificar as coisas", destacou.

"É inoportuno abrir o tema neste momento, envenenado pelas polêmicas e os escândalos pelos abusos sexuais cometidos por padres e religiosos", acrescentou.

Apesar das posições intransigentes, alguns religiosos, entre eles o arcebispo de Viena, o cardeal Christoph Schoenborn, pediu recentemente à Igreja uma revisão do tema do celibato.

O cardeal italiano Carlo Maria Martini, renomado intelectual e que está entre os religiosos mais progressistas do colégio cardinalício, considera que "é preciso revisar a obrigação do celibato para os padres".

"Temos que encontrar novos caminhos", afirmou o cardeal Martini, arcebispo emérito de Milão, que não evita o debate sobre temas fundamentais.

"Assuntos profundos como a sexualidade devem ser revisados com as novas gerações, porque apenas um debate aberto pode devolver sua autoridade à Igreja", disse em uma entrevista à imprensa austríaca.

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Em São Paulo, 29 de Março de 2010

Pedofilia entre padres

Voltou ao noticiário, aparentemente com maior intensidade do que da última vez, a questão da pedofilia entre sacerdotes católicos romanos. Respingos dos escândalos andam  beirando até a família de Sua Santidade num colégio interno católico dirigido por um irmão do Papa na Alemanha. Li na VEJA da semana passada a história de um padre de 82 anos com seu coroinha de 20 – aqui no Brasil. A coisa está feia.

Fico me perguntando o seguinte: por que a quebra do voto de castidade dos sacerdotes católicos parece acontecer, em regra, com pessoas do mesmo sexo, e bem mais jovens – em alguns casos, meninos, mesmo? Pastores protestantes e sacerdotes de outras igrejas de vez em quando se envolvem escândalos sexuais – mas raramente o fazem com pessoas do sexo masculino e quase nunca com crianças. O que explica essa preferência dos sacerdotes católicos por meninos, muitos deles coroinhas?

Que fique claro: no caso dos sacerdotes católicos não se trata de mero “escândalo sexual” a ser punido com uma providência burocrático-administrativa, de nível meramente interno. Trata-se predominantemente de pedofilia, que é crime – e pedofilia homossexual. (O fato de ser homossexual não agrava o crime, mas nos ajuda a entender o fenômeno).

Tenho uma conjetura.

Em primeiro lugar, o seminarista, futuro padre, é desde cedo doutrinado a ver na mulher a fonte número um do pecado. Como ele vai ser celibatário, a mulher é a tentação que ele deve evitar a todo custo. A mulher é, para ele, o que a serpente foi para Eva, na história da queda. A doutrina do celibato clerical, assim, começa a afetar o futuro padre muito antes de ele efetivamente fazer os seus votos (dos quais o de castidade parece ser o mais difícil de cumprir).

Em segundo lugar, trancafiam o futuro padre, em muitos casos desde os dez anos (início da quinta série) em um Seminário Menor, onde ele fica segregado de mulheres: só vê guris mais ou menos da sua idade – e, naturalmete, os professores (todos homens). Internatos unissex parece que foram bolados para gerar, nos adolescentes, interesse pelo mesmo sexo. Numa época em que o instinto sexual está aflorando e se tornando a preocupação número um-dois-e-três do adolescente, ele é apartado da convivência com o sexo oposto e confinado à convivência com homopares. Acaba ficando fixado em menino. Sua curiosidade pelo sexo só pode ser satisfeita pelos colegas. Quando cresce, o desejo sexual não cresce com ele: continua fixado em meninos.

Em terceiro lugar, quando vai exercer o sacerdócio, o padre acaba ficando rodeado de coroinhas, parecidos com os seus coleguinhas de seminário menor, que, agora, o admiram e olham para ele como figura de autoridade. E ele, por outro lado, pela sua doutrinação é condicionado a fugir das mulheres e pela sua formação em internato unissex foi condicionado a se interessar por meninos… Sendo figura de autoridade, não tem muita dificuldade em convencer os meninos de que sexo (em alguma modalidade) com o sacerdote é parte de seus deveres. (O que mais pode levar um coroinha de vinte a se engajar em atividade sexual com um sacerdote de 82?)

Esse conjunto de fatores acaba produzindo essa série aparentemente infindável de casos de pedofilia homossexual entre padres católicos. Não se trata, como já disse, de meros escândalos sexuais em relação aos quais se possa dizer: “Sou culpado, mas que igreja pode dizer que não é?” Trata-se de um fenômeno tipicamente católico que não adianta tentar generalizar.

Se minha conjetura faz sentido, a solução, evidentemente, é tripla: que a Igreja Católica acabe com o celibato clerical, acabe com a formação para o sacerdócio no confinamento de internatos unissex, e acabe com as figuras de coroinhas e outros meninos que ficam rodeando o padre na sacristia. 

Estudei em um internato (protestante) durante meu curso Clássico. Mas não era unissex. Era misto. Nunca tive conhecimento de colegas que tivessem se interessado por colegas do mesmo sexo. A regra era que se interessassem pelas meninas. E se interessavam bastante.

Que fique claro que não considero o homossexualismo um pecado, muito menos um crime. Nada tenho contra quem faz a opção por exercer sua sexualidade com pessoas do mesmo sexo. Mas a pedofilia, sim, é crime. Crime que, no caso dos padres, é agravado pelo fato de o padre estar em posição de autoridade em relação aos meninos dos quais abusa. A Igreja Católica não pode continuar a tratar a pedofilia sacerdotal com a leniência de sempre: uma reprimanda, uma mudança de paróquia, etc. Não se trata de um pecadilho: trata-se de um crime muito sério.

O problema exige soluções mais drásticas. 

A seguir, um ponto de vista contrário, retirado da Folha de S. Paulo de hoje (23/3/2010). Deixo aos leitores a tarefa de julgar os méritos relativos da minha posição e da de João Pereira Coutinho (que parece ser um jornalista português que escreve para a Folha – vide http://www.jpcoutinho.com/).

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Folha de S. Paulo
23 de Março de 2010

JOÃO PEREIRA COUTINHO

Padres e pedófilos


O jornalismo preguiçoso deveria separar a histeria anticatólica da verdade criminal


ESTAMOS SEMPRE a aprender: vocês sabem como se diz "bastardo" em língua germânica? "Pfaffenkind." Ou, em tradução literal, "o filho do padre". As curiosidades não acabam aqui: ainda na Alemanha protestante, a expressão coloquial para designar a frequência de bordéis era "agir como um bispo".

É claro que não precisamos viajar até a Alemanha para encontrar esse glorioso imaginário em que membros do clero (católico) se entregam à lascívia. De Chaucer a Boccaccio, passando pelos textos centrais do Iluminismo continental (a "Religiosa", de Diderot; o "Émile", de Rousseau; as múltiplas mediocridades de Sade), o padre não é simplesmente o pastor espiritual em missão evangélica.

O padre é o "fornicador" incansável, sempre disposto a atacar donzelas virgens ou mulheres casadas. Sem falar do resto: o lesbianismo das freiras, a sodomia entre monges e a tortura física por que passa o seminarista casto, que se fustiga com prazer masoquista para compensar uma dolorosa ausência de fêmea (ou de macho).

Sejam sinceros: quando existem escândalos sexuais na Igreja Católica, eles não são apenas escândalos sexuais pontuais e localizados. Esses escândalos, que existem em todo o lado (e em todas as denominações religiosas), bebem diretamente no patrimônio literário e anticatólico do Ocidente.

O caso é agravado pela arcana questão do celibato. No mundo moderno e hipersexualizado em que vivemos, o celibato não é visto como uma opção pessoal (e espiritual) legítima e respeitável. O celibato só pode ser tara; só pode ser um convite ao desvio; só pode ser pedofilia. Esses saltos lógicos são tão comuns que já nem horrorizam ninguém.

Ou horrorizam? Philip Jenkins é uma exceção e o seu "Pedophiles and Priests: Anatomy of a Contemporary Crisis" (Oxford, 214 págs.) é o mais exaustivo estudo sobre os escândalos sexuais que sacudiram a Igreja Católica nos Estados Unidos durante a década de 1990.

Jenkins não nega o óbvio: que existiram vários abusos; e, mais, que as autoridades eclesiásticas falharam na detecção ou denúncia dos mesmos.
Porém, Jenkins é rigoroso ao mostrar como os crimes foram amplificados de forma desproporcionada com o objetivo de cobrir toda a instituição com cores da infâmia.

Padres católicos cometem crimes sexuais? Fato. Mas esses crimes, explica Jenkins, existem em proporção idêntica nas outras denominações religiosas (e não celibatárias). A única diferença é que, sendo o número de padres católicos incomparavelmente superior ao número de pastores de outras igrejas; e estando os crimes de pedofilia disseminados pela população adulta, será inevitável que exista um maior número de casos entre o clérigo católico.

Como explicar, então, que as atenções mediáticas sejam constantemente voltadas para os suspeitos do costume?

Jenkins não é alheio à dimensão "literária" do anticatolicismo ocidental; muito menos à hipersexualização moderna, que vê na doutrina sexual da igreja um anacronismo e, em certos casos, uma ameaça.

Mas o autor vai mais longe e revela como a amplificação dos crimes é, muitas vezes, promovida por facções dissidentes dentro da própria Igreja Católica que esperam assim conseguir certas vitórias "culturais" (o fim do celibato, a ordenação de mulheres para o sacerdócio etc.) pela disseminação de uma imagem de corrupção endêmica. "A maior ameaça à sobrevivência da igreja desde a Reforma", escreve Jenkins, citando as incontáveis reportagens que repetiam essa bovinidade.

Isso significa que os crimes das últimas semanas na Europa podem ser desculpados ou justificados? Pelo contrário: esses crimes não têm desculpa nem justificação. E é de saudar que o papa Bento 16, em atitude inédita, tenha escrito uma carta plena de coragem e dignidade ao clérigo irlandês, condenando os abusadores, pedindo perdão às vítimas e esperando que a justiça faça o seu caminho.

Mas não é apenas a justiça que tem de fazer o seu caminho. O jornalismo preguiçoso também deveria trilhar o seu, separando a histeria anticatólica da verdade criminal.

Um contributo: para ficarmos no país de Ratzinger, existiram na Alemanha, desde 1995, 210 mil denúncias de abusos a menores. Dessas 210 mil, 300 lidaram com padres católicos. Ou seja, menos de 0,2%. Será isso a maior ameaça à sobrevivência da igreja desde a Reforma?

jpcoutinho@folha.com.br

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Em São Paulo, 23 de Março de 2010

Mario Vargas Llosa sobre Lulla

Transcrevo, de O Estado de S. Paulo.

Maria Vargos Llosa, peruano, é, em minha opinião, o maior escritor latino-americano da atualidade. E um dos grandes porta-vozes do liberalismo. Foi candidato a Presidente do Peru contra Alberto Fujimori. Perdeu por pouco – por causa de uma campanha sórdida dos adversários. O tempo mostrou a verdadeira natureza desses adversários, hoje na cadeia. Os peruanos provavelmente lamentam até hoje a sua derrota.

Ele aqui critica Lulla. É uma crítica violenta. Mas totalmente justa e merecida.

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O Estado de S. Paulo – Domingo- 07/03/2010

Mario Vargas Llosa

A decepcionante visita de Lula

Minha capacidade de indignação política atenua-se um pouco nos meses do ano que passo na Europa. Suponho que a razão disso seja o fato de que, lá, vivo em países democráticos nos quais, independentemente dos problemas de que padecem, há uma ampla margem de liberdade para a crítica, e a imprensa, os partidos, as instituições e os indivíduos costumam protestar de maneira íntegra e com estardalhaço quando ocorrem episódios ultrajantes e desprezíveis, principalmente no campo político.

Entretanto, na América Latina, onde costumo passar de três a quatro meses ao ano, esta capacidade de indignação volta sempre, com a fúria da minha juventude, e me faz viver sempre temeroso, alerta, desassossegado, esperando (e perguntando-me de onde virá desta vez) o fato execrável que, provavelmente, passará despercebido para a maioria, ou merecerá o beneplácito ou a indiferença geral.

Na semana passada, experimentei mais uma vez esta sensação de asco e de ira, ao ver o risonho presidente Lula do Brasil abraçando carinhosamente Fidel e Raúl Castro, no mesmo momento em que os esbirros da ditadura cubana perseguiam os dissidentes e os sepultavam nos calabouços para impedir que assistissem ao enterro de Orlando Zapata Tamayo, o pedreiro pacifista da oposição, de 42 anos, pertencente ao Grupo dos 75, que os algozes castristas deixaram morrer de inanição – depois de submetê-lo em vida a confinamento, torturas e condená-lo com pretextos a mais de 30 anos de cárcere – depois de 85 dias de greve de fome.

Qualquer pessoa que não tenha perdido a decência e tenha um mínimo de informação sobre o que acontece em Cuba espera do regime castrista que aja como sempre fez. Há uma absoluta coerência entre a condição de ditadura totalitária de Cuba e uma política terrorista de perseguição a toda forma de dissidência e de crítica, a violação sistemática dos mais elementares direitos humanos, de falsos processos para sepultar os opositores em prisões imundas e submetê-los a vexames até enlouquecê-los, matá-los ou impeli-los ao suicídio. Os irmãos Castro exercem há 51 anos esta política, e somente os idiotas poderiam esperar deles um comportamento diferente.

DESCARAMENTO

Mas de Luiz Inácio Lula da Silva, governante eleito em eleições legítimas, presidente constitucional de um país democrático como o Brasil, seria de esperar, pelo menos, uma atitude um pouco mais digna e coerente com a cultura democrática que teoricamente ele representa, e não o descaramento indecente de exibir-se, risonho e cúmplice, com os assassinos virtuais de um dissidente democrático, legitimando com sua presença e seu proceder a caçada de opositores desencadeada pelo regime no mesmo instante em que ele era fotografado abraçando os algozes de Zapata.

O presidente Lula sabia perfeitamente o que estava fazendo. Antes de viajar para Cuba, 50 dissidentes lhe haviam pedido uma audiência durante sua estadia em Havana para que intercedesse perante as autoridades da ilha pela libertação dos presos políticos martirizados, como Zapata, nos calabouços cubanos. Ele se negou a ambas as coisas. Não os recebeu nem defendeu sua causa em suas duas visitas anteriores à ilha, cujo regime liberticida sempre elogiou sem o menor eufemismo.

Além disso, este comportamento do presidente brasileiro caracterizou todo o seu mandato. Há anos que, em sua política exterior, ele desmente de maneira sistemática sua política interna, na qual respeita as regras do estado de direito, e, em matéria econômica, em vez das receitas marxistas que propunha quando era sindicalista e candidato – dirigismo econômico, estatizações, repúdio dos investimentos estrangeiros, etc. -, promove uma economia de mercado e da livre iniciativa como qualquer estadista social-democrata europeu.

Mas, quando se trata do exterior, o presidente Lula se despe de suas vestimentas democráticas e abraça o comandante Chávez, Evo Morales, o comandante Ortega, ou seja, com a escória da América Latina, e não tem o menor escrúpulo em abrir as portas diplomáticas e econômicas do Brasil aos sátrapas teocráticos integristas do Irã.

O que significa esta duplicidade? Que Lula nunca mudou de verdade? Que é um simples mascarado, capaz de todas as piruetas ideológicas, um político medíocre sem espinha dorsal cívica e moral? Segundo alguns, os desígnios geopolíticos para o Brasil do presidente Lula estão acima de questiúnculas como Cuba, ou a Coreia do Norte, uma das ditaduras onde se cometem as piores violações dos direitos humanos e onde há mais presos políticos. O importante para ele são coisas mais transcendentes como o Porto de Mariel, que o Brasil está financiando com US$ 300 milhões, ou a próxima construção pela Petrobrás de uma fábrica de lubrificantes em Havana. Diante de realizações deste porte, o que poderia importar ao "estadista" brasileiro que um pedreiro cubano qualquer, e ainda por cima negro e pobre, morresse de fome clamando por ninharias como a liberdade? Na verdade, tudo isto significa, infelizmente, que Lula é um típico mandatário "democrático" latino-americano.

Quase todos eles são do mesmo feitio, e quase todos, uns mais, outros menos, embora – quando não têm mais remédio – praticam a democracia no seio dos seus próprios países, mas, no exterior, não têm nenhuma vergonha, como Lula, em cortejar ditadores e demagogos, porque acham, coitados, que desta maneira os tapinhas amistosos lhes proporcionarão uma credencial de "progressistas" que os livrará de greves, revoluções e de campanhas internacionais acusando-os de violar os direitos humanos.

Como lembra o analista peruano Fernando Rospigliosi, em um artigo admirável: "Enquanto Zapata morria lentamente, os presidentes da América Latina – entre eles o algoz cubano – reuniam-se no México para criar uma organização (mais uma!) regional. Nem uma palavra saiu dali para exigir a liberdade ou um melhor tratamento para os mais de 200 presos políticos  cubanos." O único que se atreveu a protestar – um justo entre os fariseus – foi o presidente eleito do Chile, Sebastián Piñera.

De modo que a cara de qualquer um destes chefes de Estado poderia substituir a de Luiz Inácio Lula da Silva, abraçando os irmãos Castro, na foto que me revoltou o estômago ao ver os jornais da manhã. Estas caras não representam a lib
erdade, a limpeza moral, o civismo, a legalidade e a coerência na América Latina. Estes valores estão encarnados em pessoas como Orlando Zapata Tamayo, nas Damas de Branco, Oswaldo Payá, Elizardo Sánchez, a blogueira Yoani Sánchez, e em outros cubanos e cubanas que, sem se deixarem intimidar pelas pressões, as agressões e humilhações cotidianas de que são vítimas, continuam enfrentando a tirania castrista. E se encarnam ainda, em primeiro lugar, nas centenas de prisioneiros políticos e, sobretudo, no jornalista independente Guillermo Fariñas, que, enquanto escrevo este artigo, há oito dias está em greve de fome em Cuba para protestar pela morte de Zapata e exigir a libertação dos presos políticos.

O curioso e terrível paradoxo é que no interior de um dos mais desumanos e cruéis regimes que o continente conheceu se encontrem hoje os mais dignos e respeitáveis políticos da América Latina.

Yoani SanchezYoani Sánchez

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Em São Paulo, 15 de Março de 2010

10 inovações que afetarão o mundo dos negócios

Os onze textos abaixo são retirados da Folha de S. Paulo de hoje (14/3/2010), que, por sua vez, o traduziu do Financial Times. Vale a pena ler.

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http://www1.folha.uol.com.br/fsp/dinheiro/fi1403201006.htm

DO "FINANCIAL TIMES"

"Financial Times" mapeia tendências de consumo e de gestão diante de um cenário que concilia o pós-crise a novas tecnologias

Daniel Mihailescu – 2.mar.10/France Presse

Visitantes da feira de tecnologia CeBIT, em Hannover, na Alemanha, são retratados em tela que detecta, em tempo real, gênero, idade e humor dos passantes

A CRISE econômica que se alastrou pelo mundo no fim de 2008 e causou transtornos só superados, nos últimos cem anos, pelo crash de 1929 pôs em xeque dogmas de gestão. A obsessão pelo lucro, simbolizada por empresas como o Lehman Brothers, o uso insustentável de recursos naturais, materiais e humanos e mesmo a noção de que é preciso esconder os fracassos de uma companhia mostraram-se técnicas ineficientes, quando não prejudiciais, de administração.

Paralelamente, novos comportamentos, associados a tecnologias inovadoras nas áreas financeira, energética e computacional, sinalizam transformações profundas na maneira de fazer negócios em todo o planeta.

Esses fenômenos, alguns dos quais já perceptíveis, foram mapeados por colunistas e repórteres do diário britânico "Financial Times", que nestas páginas apresentam tendências que devem se disseminar até o final da próxima década.

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http://www1.folha.uol.com.br/fsp/dinheiro/fi1403201007.htm

1 – Computação em céu aberto: Portáteis serão como supercomputadores

DO "FINANCIAL TIMES"

O assunto quente do setor de tecnologia, nos últimos anos, vem sendo a ascensão da "computação em nuvem". Mas o que exatamente é esse novo desdobramento, e de que maneira influenciará as nossas vidas? São necessárias duas coisas para compreender a plataforma. A primeira se relaciona ao poder de processamento e de armazenagem de dados, que vem se transferindo de máquinas individuais para grandes centrais remotas de processamento de dados.

Isso permite que números sejam processados em escala industrial e que o poderio de um supercomputador seja aplicado a tarefas cotidianas: analisar os padrões de tráfego de uma cidade, por exemplo, e prever onde surgirão congestionamentos.

A segunda parte se relaciona aos bilhões de aparelhos pessoais inteligentes -por exemplo, netbooks e celulares inteligentes- capazes de se conectar a esse recurso centralizado de computação via internet. Isso significa que indivíduos (e não apenas empresas ou governos) poderão tirar vantagem dessas "nuvens" de informações.

Assim, para onde isso nos conduz? Duas previsões gerais surgem rapidamente. Uma é a de que oferecer tanto poder de processamento e armazenagem a baixo custo resultará em novos avanços.

A ciência, por exemplo, poderia ser revolucionada, já que os pesquisadores ganhariam acesso a montanhas inimagináveis de dados e desenvolveriam maneiras de produzir referências cruzadas entre as diferentes disciplinas.

A segunda previsão é a de que os aparelhos pessoais de computação se tornarão superinteligentes, à medida que puderem aproveitar a inteligência da "nuvem". O Google já está falando sobre adicionar tradução de voz instantânea aos recursos de seus celulares. As grandes mudanças que esses avanços da computação representarão podem não estar concluídas ao final da próxima década, mas estarão a caminho.

RICHARD WATERS, chefe da sucursal de San Francisco

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http://www1.folha.uol.com.br/fsp/dinheiro/fi1403201008.htm 

2 – Trabalhar por mais tempo: Aposentadoria dá lugar à gestão de empresas

DO "FINANCIAL TIMES"

A próxima década verá pessoas mais velhas trabalhando por mais tempo. Não surpreende: além da elevação da idade mínima de aposentadoria pelos governos do Reino Unido e da Grécia, as baixas taxas de juros e a morte das aposentadorias de valor fixo significam que muita gente não terá dinheiro bastante, aos 65 anos, para desfrutar de lazer nos anos de ocaso. Essas pessoas terão de trabalhar para bancar suas contas.

O que considero interessante -e pode mudar o mundo dos negócios- é o fato de que elas talvez prefiram trabalhar por conta própria. Um recente estudo conduzido pela seguradora Standard Life sugeriu que um em cada seis britânicos dos 46 aos 65 anos planeja abrir um negócio novo, em lugar de se aposentar.
Isso representa sete vezes mais potenciais empresários do que na geração precedente -e pode significar o surgimento de milhões de novas empresas no Reino Unido.

A experiência, os contatos e a sabedoria dessas pessoas serão suas armas secretas. Mas é igualmente provável que elas tenham mais tempo e dinheiro a gastar do que a atual geração de empresários. Hoje, a idade típica em que uma pessoa abre sua empresa fica entre os 30 e os 45 anos. Um aspecto inconveniente desse fato é que, nessa idade, as pessoas também costumam ter filhos pequenos e hipotecas a pagar.

Os empresários mais velhos, enquanto isso, estarão em muitos casos próximos de liquidar essas responsabilidades, bem como ávidos por encontrar maneiras de se manter em contato com pessoas de todas as gerações, como clientes, parceiros, fornecedores ou funcionários. Prevejo que muitas companhias importantes serão criadas nos próximos anos. A geração de mais de 50 anos bem pode se tornar a maior responsável por acelerar a recuperação.

LUKE JOHNSON escreve uma coluna sobre empresários e dirige a Risk Capital Partners, uma empresa de capital privado

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http://www1.folha.uol.com.br/fsp/dinheiro/fi1403201009.htm

3 – A geração X chega ao topo: Após crise, geração
X ganha espaço

DO "FINANCIAL TIMES"

No final dos anos 90, as regras usuais de senioridade no trabalho não pareciam se aplicar aos trabalhadores na casa dos 20 e começo dos 30 anos. O boom da internet transferiu poder a esses jovens -a geração X- e permitiu que seus líderes enriquecessem.

Mas o estouro da bolha da internet expôs a ilusão e forçou os jovens a aceitar papéis subalternos. O fim do castigo, porém, parece estar próximo. Hoje, com 30 ou 40 anos, muitos dos membros da geração X devem chegar ao apogeu de seu poderio profissional até 2020 -e sua falta de ideologia pode ser vantajosa diante dos desafios modernos.

Mas há um novo grupo que já tenta conquistar espaço. Confortáveis no uso de tecnologias digitais, os membros da geração Y não gostam de hierarquias. A crise prejudicou sua ascensão, mas a recuperação pode complicar a retomada da geração X.

ADAM JONES, repórter especial de empresas

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http://www1.folha.uol.com.br/fsp/dinheiro/fi1403201010.htm 

4 – Energia mais inteligente: Novas tecnologias racionalizam a geração e o uso da eletricidade

DO "FINANCIAL TIMES"

Já estamos vendo algumas das maneiras pelas quais as fontes de energia mudarão nos próximos dez anos. Leitores inteligentes de eletricidade nos EUA, por exemplo, oferecem aos consumidores e às empresas de energia informações detalhadas sobre o seu uso e não só contam com o apoio do presidente Barack Obama como devem substituir os medidores "burros" convencionais.

Isso significa que uma pessoa em breve poderá saber quanta energia está sendo usada em sua casa e quanto dinheiro está sendo gasto, por meio de uma divisão aparelho a aparelho -o que permitirá que a iluminação e o aquecimento sejam ajustados para reduzir custos.

Eletrodomésticos inteligentes, enquanto isso, vão se comunicar com a rede elétrica. Assim, uma secadora de roupas pode se desligar nos horários de pico (e tarifa mais elevada) e ligar de novo quando o preço da eletricidade for mais baixo. As empresas de energia mesmo poderiam interferir ao reduzir um pouco o ar-condicionado no auge da demanda.

Também estamos vendo as vantagens dos diodos emissores de luz (LEDs) como substitutos das velhas lâmpadas incandescentes (e novas fluorescentes, que economizam mais energia). Enquanto as lâmpadas incandescentes geram calor para produzir luz, os LEDs a criam com movimentos de elétrons em chips de silício. A luz é mais natural, pode mudar de cor, pode ser mais precisa e pode ser atenuada ou intensificada sem dificuldade.

A próxima década verá as cidades substituírem sua iluminação pública por LEDs, que duram anos a mais e podem reduzir sua intensidade de forma inteligente quando não houver tráfego, minimizando o uso de energia e a poluição luminosa.

Já que 20% da demanda mundial de eletricidade se relaciona à iluminação, a capacidade dos LEDs para reduzir em 75% o uso de energia pode ter efeito dramático sobre as emissões de dióxido de carbono.

As fontes de energia também podem mudar, especialmente no que tange a aparelhos de pequeno porte. Energia gratuita pode ser capturada de fontes como o calor do corpo ou ondas de rádio de torres de telefonia móvel e Wi-Fi. Girar o controlador para ler um e-mail em um BlackBerry gerará energia suficiente para aumentar a duração da bateria.

CHRIS NUTTALL, correspondente de tecnologia

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http://www1.folha.uol.com.br/fsp/dinheiro/fi1403201011.htm

5 – A informação tem valor: Dogma do conteúdo gratuito perde força

DO "FINANCIAL TIMES"

Se existe uma ortodoxia dos últimos dez anos que o setor de mídia tem todos os motivos para amaldiçoar é aquela que surgiu em 1984, quando Stewart Brand declarou, em palestra na Hackers" Conference, que "a informação deseja ser livre".

As pessoas ainda discordam sobre o que ele quis dizer, mas a frase oferece uma capa de respeitabilidade intelectual a diversas coisas, da pirataria de música à ideia de que não pagar pelo acesso a notícias é traço imutável da cultura da web.

Quando as pessoas ainda falavam em "via expressa da informação", desdenhavam a ideia de que a estrada proposta precisasse de pedágios. A publicidade on-line supostamente cobriria os custos incorridos pelos donos da informação.

Mas o conteúdo grátis para todos erodiu os modelos de negócios das companhias de mídia e acarreta o risco de sobrecarga das redes de informação. Agora, os proprietários de conteúdo, de editoras de revistas a emissoras de TV imaginam por que teriam depositado toda a sua confiança em uma só fonte de receita, a publicidade.

É hora de relermos a citação completa de Brand: "Por um lado, a informação deseja ser dispendiosa, porque é muito valiosa. Por outro lado, ela deseja ser livre [ou gratuita], porque o custo de obtê-la não para de cair. Por isso, temos essas duas tendências em permanente combate".

Na primeira década digital do novo século, esse combate muitas vezes não aconteceu, mas agora o lema de que "a informação quer ser dispendiosa" vem ganhando força. As editoras pressionaram a Amazon.com a elevar os preços dos livros eletrônicos. A "economia dos aplicativos" criada pela Apple está permitindo que até mesmo sites gratuitos cobrem pelo acesso via iPods e iPads, e o "New York Times" está seguindo o exemplo de publicações especializadas como o "Financial Times" e o "Wall Street Journal" de cobrar pelo acesso on-line às suas notícias.

Para os consumidores que desfrutavam de todo esse conteúdo gratuitamente, isso parece ameaçador. Por outro lado, acabamos de passar uma década nos fartando de conteúdo excessivo e de muito baixo valor nutritivo. Talvez o conteúdo pago se prove mais denso. Quanto à máxima de Brand, é melhor que tentemos uma nova, na próxima década: o conteúdo quer ser valioso.

ANDREW EDGECLIFFE-JOHNSON, editor de mídia nos Estados Unidos

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http://www1.folha.uol.com.br/fsp/dinheiro/fi1403201012.htm 

6 – Ganhando com o fracasso: Tentativa e erro viram técnica de negócios

DO "FINANCIAL TIMES"

O fracasso sempre foi parte fundamental da economia de mercado. Se os mercados funcionam, fazem-no porque novas ideias são constantemente tentadas. A maioria fracassa. As que encontram o sucesso podem causar o fracasso de ideias mais antigas.

Nos Estados Unidos, cerca de 10% das empresas existentes desaparecem a cada ano. Trata-se de percepção desconfortável -mas tentativa e erro podem enfim estar assumindo o papel que merecem como técnica de negócios, em lugar de serem vistos como um segredinho sujo do capitalismo.

Existem alguns sinais positivos. Stefan Thomke, da escola de administração de empresas da Universidade Harvard, argumenta que os avanços na computação tornaram possível conduzir experiências com novos produtos sem maiores dificuldades, com a tentativa de muitas ideias e a expectativa de grande número de fracassos.

Agora é fácil, por exemplo, experimentar mudanças no layout de um site, mostrando diferentes versões a diferentes usuários e acompanhando as reações em tempo real. O Google, enquanto isso, costuma lançar seus produtos novos com o rótulo "beta", ou experimental. E superastros do mundo acadêmico, tais como Stephen Levitt, o coautor de "Freakonomics", vêm fazendo palestras a executivos sobre o papel da experimentação no mundo dos negócios.

Também estamos começando a aprender mais sobre a psicologia de aprender com os erros. Richard Thaler, o economista comportamental que criou a Nudge, cunhou a frase "edição hedonista" para descrever nosso hábito de combinar pequenas derrotas a grandes vitórias, a fim de mascarar as dores das derrotas.

Esconder os fracassos é humano, mas também significa não aprender com eles. Thaler e seus colegas chegaram a estudar o comportamento dos participantes em game shows televisivos. Ele constatou que as pessoas que faziam escolhas desafortunadas começavam a aceitar riscos insensatos, o que muitas vezes resultava em agravar perdas.

A crise nos conscientizou de que um sistema incapaz de tolerar certa dose de fracasso é muito perigoso. A ideia de que uma instituição fosse "grande demais para falir" costumava parecer reconfortante. Não é mais esse o caso.

TIM HARFORD, colunista e autor do livro "Undercover Economist"

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http://www1.folha.uol.com.br/fsp/dinheiro/fi1403201013.htm

7 – A cobiça não é tão boa: Obsessão pelo lucro pode quebrar empresas

DO "FINANCIAL TIMES"

Nos anos 80, o economista Al Rapaport capturou o espírito da era ao desenvolver um novo objetivo para as empresas: a maximização de valor para os acionistas. A medida das realizações de um executivo seria o retorno total conquistado pelos acionistas em seu mandato.

Bill Allen, o lendário líder da Boeing entre 1945 e 1968, descreveu o espírito de sua companhia assim: "Beber, respirar e dormir o mundo da aeronáutica". Por volta de 1998, o novo presidente da companhia, Phil Condit, dizia: "Vamos avançar para um ambiente cuja base é o valor e no qual o custo unitário, o retorno sobre o investimento e os retornos dos acionistas serão as medidas sob as quais seremos avaliados".

Isso aconteceu em múltiplos setores. Quando John Reed e Sandy Weill, que eram copresidentes do Citigroup no final dos anos 90, descreveram os propósitos do conglomerado recém-criado, Reed, banqueiro tradicionalista, declarou que "o modelo que tenho em mente é o de uma companhia global de serviços ao consumidor, que ajude a classe média com algo em que não foi bem servida". Weill, mais sintonizado no espírito do tempo, interrompeu: "Meu objetivo é aumentar o valor para os acionistas". Tudo isso terminaria mal.

Sob Allen, a Boeing conquistou a liderança do setor aeronáutico; sob Condit, a empresa não só perdeu sua liderança como se envolveu em escândalos.

Weill forçou a saída de Reed, mas se envolveu em problemas de reputação que abalaram a empresa. Em 2008, quase todo o valor do Citigroup para os acionistas foi destruído.

A Enron, paradigma do novo modelo, quebrou de forma espetacular em 2001. Em 2008, o colapso do Lehman Brothers, banco cujo foco obsessivo era o lucro, quase derrubou o sistema financeiro mundial. Essas duas quebras abriram e encerrarão a década com uma lição: concentração obsessiva nos lucros faz com que uma empresa corra o risco de perder a oportunidade de lucrar.

JOHN KAY, colunista

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http://www1.folha.uol.com.br/fsp/dinheiro/fi1403201014.htm

8 – Livrai-nos das contas: Internet agora muda a forma de lojas físicas

DO "FINANCIAL TIMES"

Da mesma forma que a chegada das prateleiras que permitiam self-service mudou a disposição física das lojas nos cem últimos anos, as compras on-line o farão no novo século. Já vimos o comércio via internet se tornar concorrente sério das lojas físicas. Agora ele fará com que mudem de forma. No Walmart, por exemplo, mais de 40% dos pedidos pelo site da cadeia de varejo nos EUA são enviados a uma loja local da rede para retirada, porque os clientes preferem evitar os custos e a incerteza de horários das entregas domiciliares.

A empresa, como resposta, está testando opções "drive-through" de retirada e alterando suas unidades de forma a instalar balcões de retirada. No Reino Unido, a rede de supermercados Tesco adotou arranjo semelhante (mas por enquanto sem "drive-through").

Em uma loja piloto perto de Chicago, chamada MyGofer, a Sears Holdings foi além, e 80% do espaço serve como armazém de estoque, com um quinto da área reservada a clientes que retiram compras ou usam terminais de computador para pedir o que desejam da loja.

Eis outra variante: o Kmart também está tentando persuadir outras redes de varejo a usar suas lojas como ponto central para retirada de pedidos feitos on-line. Alguns analistas do setor de varejo especulam que até mesmo a Amazon, que só opera on-line, poderia um dia estabelecer pontos de retirada.

A web também mudará os produtos presentes nas prateleiras. Um cliente que vá a uma loja com seu celular inteligente pode obter preços comparativos de lojas rivais -a menos que o produto em questão só esteja à venda naquela loja específica.

Assim, haverá mais pressão da parte do varejo por acordos seletivos com marcas líderes -ou pelo desenvolvimento de mais produtos com marca própria, em todas as categorias.

JONATHAN BIRCHAIL, correspondente de varejo nos Estados Unidos

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http://www1.folha.uol.com.br/fsp/dinheiro/fi1403201015.htm

9 – Fazer mais com menos: Concorrência força ganho de eficiência

DO "FINANCIAL TIMES"

O triunfo inevitável dos Brics (Brasil, Rússia, Índia e China) se tornou quase um lugar-comum no mundo empresarial. Mesmo que alguns ovos exóticos estejam sendo contados antes que sejam chocados, a ameaça que representam está mudando o modo como as empresas pensam.

Com a concorrência, as empresas hoje dominantes terão de ser mais eficientes. É por isso que, ao longo dos próximos anos, será comum ouvir variações do seguinte lema: fazer mais com menos. Outro fator de estímulo será a sustentabilidade ambiental: produzir mais usando menos recursos.

Mas uma demanda permanente para que produzamos mais com menos pode se revelar prejudicial e resultar em um mundo de trabalho permanente, que por sua vez poderia afetar a qualidade do trabalho realizado. O ímpeto de fazer mais pode conter as sementes de sua própria derrota.

STEFAN STERN, repórter de gestão

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http://www1.folha.uol.com.br/fsp/dinheiro/fi1403201016.htm

10 – O hedge, agora pessoal: Temidas, inovações financeiras podem estimular o crescimento

DO "FINANCIAL TIMES"

Inovação financeira se tornou uma expressão obscena nos últimos meses, devido ao papel dos títulos complexos -pacotes de hipotecas e outras formas de passivo- na crise. Mas o segredo sujo é que, se as economias ocidentais desejam se recuperar devidamente, as verbas terão de vir dos mercados. E a concorrência por dinheiro será tamanha que alguns projetos devem se ver forçados a criar inovações a fim de atrair investidores.

Uma dessas inovações é a transferência de risco. Transação que vinha ganhando popularidade antes da crise, ela agora está de volta. Robert Schiller, professor de economia na Universidade Yale, publicou em 2003 um livro no qual propunha novos instrumentos financeiros para indivíduos que permitiriam que se protegessem contra os riscos que correm -fizessem hedge- por contratos negociados em Bolsa. Se você, por exemplo, estiver preocupado com a possibilidade de que a carreira que escolheu não vá oferecer o salário que planeja ter dentro de dez anos, poderia criar um contrato sob o qual receberia certa quantia caso sua renda naquela data for inferior a determinado patamar.

Os investidores se interessarão em apostar nesse tipo de coisa, diz Schiller. De fato, mercados como esses estão sendo criados para grandes organizações. Há, por exemplo, o mercado futuro das nevascas, sob o qual cidades ou empresas recebem dinheiro caso as tempestades de neve sejam piores que o esperado. No mês passado, um grupo de bancos, fundos de pensão e seguradoras anunciou que estava desenvolvendo um novo mercado para longevidade -o risco de que as pessoas vivam mais que o esperado.

Será que essa ideia não parece terrível, tendo em vista a situação em que os contratos de risco deixaram os bancos no passado recente? Schiller argumenta que a crise de crédito simplesmente demonstra que "muito mais trabalho precisa ser feito para democratizar as finanças. A crise ocorreu porque os princípios de gestão de risco financeiro não estavam sendo aplicados à mais ampla população possível".

Ou seja, o risco é para todos: empresas, governos e cidadãos agora podem rolar os dados nesse negócio arriscado.

JENNIFER HUGHES, correspondente sênior de mercados

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Em Salto, 14 de Março de 2010

Lulla se afunda cada vez mais ao defender o governo de ditadores

Infelizmente sou obrigado a elaborar mais um dossiê dos disparates que o presidente Lulla perpetra no caso dos prisioneiros de consciência em Cuba. O primeiro dossiê foi no dia 27/02/2010 e tem o título “Luís Inácio Lulla da Silva vs Orlando Zapata Tamayo”.

Os disparates agora são piores.

Protestam, na edição de hoje de A Folha de S. Paulo, a própria Folha, em Editorial, o ex-ministro da Justiça José Carlos Dias, Clóvis Rossi, e Carlos Heitor Cony. Protesta também o Estadão, em editorial.

O editorial da Folha chama as novas declarações de Lulla de “escandalosas” — “mesmo para os padrões de Lula, que habitou os brasileiros a seus disparates”.

Clóvis Rossi as descreve como “ignomínia, uma completa ignomínia”.

É pouco. Mas fica registrado – com os parabéns à Folha e aos seus contribuidores. E parabéns ao Estadão, embora o material da Folha seja mais contundente.

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Folha de S. Paulo
11 de Março de 2010

Editoriais
editoriais@uol.com.br
Passou do limite

Ao defender mais uma vez a ditadura cubana, e equiparar presos políticos a comuns, Lula escarnece dos valores democráticos

NÃO PARECE demais, em nome do registro histórico, reproduzir mais uma vez as palavras do presidente Luiz Inácio Lula da Silva em entrevista à Associated Press: "Temos de respeitar a determinação da Justiça e do governo cubanos de deter as pessoas em função da legislação de Cuba. A greve de fome não pode ser utilizada como pretexto de direitos humanos para liberar as pessoas. Imagine se todos os bandidos presos em São Paulo entrarem em greve de fome e pedirem liberdade".

A declaração é escandalosa -mesmo para os padrões de Lula, que habituou os brasileiros a seus disparates. Lembre-se, por exemplo, quando disse, ainda em 2003: "Quem chega a Windhoek [capital da Namíbia], não parece que está num país africano. Poucas cidades do mundo são tão limpas e bonitas arquitetonicamente quanto esta".

Desta vez, porém, a manifestação não se reveste de nenhuma graça, tosca que seja. E não pode ser atribuída a mais um entre tantos deslizes de quem abusa dos improvisos, não esconde o orgulho por falar errado e se diverte com as gafes que comete. Não. Lula, este personagem satisfeito com as suas próprias precariedades, desta vez passou dos limites na agressão aos valores democráticos.

Vejamos mais de perto a escalada de impropriedades: Lula endossa uma ditadura que reprime a divergência de opinião. Prega "respeito" pela legislação cubana, que autoriza a prisão de pessoas cujo crime é dar sinais de "conduta manifestamente em contradição com as normas da moralidade socialista".

A seguir, avança outra casa ao qualificar os direitos humanos de "pretexto" dos presos políticos que fazem greve de fome. Pretexto? Em 2003, o governo cubano fuzilou três dissidentes que tentaram fugir do país. Outros 75 opositores foram presos, entre os quais Orlando Zapata. Condenado inicialmente a três, ele teve sua pena ampliada para mais de 25 anos de prisão. Morreu após uma greve de fome, no dia em que Lula chegou à ilha, semanas atrás, para visitar Fidel Castro pela quarta vez.

Surpreendido por jornalistas, primeiro alegou desconhecer o apelo que entidades defensoras dos direitos humanos haviam feito para que intercedesse por Zapata. Limitou-se, a seguir, a lamentar que "um preso se deixe morrer por greve de fome".

Como disse ontem à Folha o jornalista e dissidente cubano Guillermo Fariñas, também em greve de fome: "Lula demonstra seu comprometimento com a ditadura dos Castro e seu desprezo com os presos políticos".

Nada supera, porém, o escárnio da conclusão presidencial: os presos políticos da ditadura cubana são equiparáveis aos presos comuns de um país democrático, no caso o Brasil. "Imagine se todos os bandidos presos em São Paulo entrarem em greve de fome e pedirem liberdade."

Imaginemos, nós, com mais razão, que tal aberração a serviço da defesa de um regime homicida não seja apenas um tropeço, mas, antes, a revelação do real apreço de Lula pela democracia.

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Folha de S. Paulo
11 de Março de 2010

TENDÊNCIAS/DEBATES

Palavras ao Lula

JOSÉ CARLOS DIAS


Presidente Lula, ex-preso político, como é possível submeter a filtro ideológico a questão do direito de oposição, de contestação?

 


PELA PRIMEIRA vez escrevo algumas palavras que eu gostaria que fossem lidas pelo Lula presidente -Lula que conheci quando ele veio ao meu escritório, na década de 1970, para que eu defendesse seu irmão, meu amigo até hoje, conhecido como Frei Chico, então presidente do Sindicato dos Metalúrgicos de São Caetano, que estava preso.

Após esse episódio, encontramo-nos muitas vezes naquela época em que ele era o grande líder sindical dos metalúrgicos, e eu, advogado de muitos perseguidos políticos e presidente da Comissão Justiça e Paz de São Paulo.

Lembro-me especialmente de uma madrugada na sua casa, e isso ocorreu durante a greve dos metalúrgicos de São Bernardo, em 1980. Lá estava Frei Betto, e a casa tinha sido rodeada por policiais à paisana que esperavam para prendê-lo, o que viria a ocorrer ao amanhecer. Logo depois, também Dalmo Dallari foi preso em sua casa.

Ao sair de casa em direção ao escritório, onde pretendia preparar um habeas corpus para ambos, eu também vim a ser preso, na praça Panamericana, de forma espalhafatosa.

Ficamos no Dops com cerca de 20 prisioneiros. Dalmo, Lula e eu ficamos isolados numa sala. Algumas horas depois, após interrogatório, Dalmo e eu fomos libertados. Lula permaneceu preso por muitos dias mais.

Essas cenas afloraram à memória e lembro que a sua história merece respeito e reverência, mesmo por parte dos que se opõem ao seu governo e às suas posições de hoje.

E por isso mesmo me espanta a notícia de que Lula se solidariza com o governo cubano, não somente naquilo que historicamente representa de importante e positivo mas também naquilo que tem de abjeto, que é o desrespeito aos direitos humanos daqueles que se opõem ao regime.

O nosso presidente chegou ao desplante de comparar os presos políticos de Cuba aos criminosos comuns. Condenou Lula a greve de fome ali utilizada, instrumento também adotado por tantos brasileiros que se opuseram à ditadura.

Frei Betto, nosso querido Frei Betto, um dos que heroicamente optaram por se expor à morte, descreve o que foi a greve de fome na penitenciária de Presidente Venceslau (SP).

E, por falar em Frei Betto, lembro-me de frei Tito, morto pela memória da tortura, de frei Giorgio Callegari e de todos aqueles mortos na cadeira do dragão, como Vladimir Herzog e Manuel Fiel Filho.

A indignação contra a violência, que levou tantos heróis à morte ou que os expôs à morte, é a mesma que deve estar presente quando os mesmos métodos são adotados por fundamentação ideológica diversa.

Acompanhei, com visitas diárias, vários clientes que sentiram que a greve de fome era o último recurso para que fossem respeitados os direitos mínimos que lhes eram sistematicamente negados. Acaso poderiam ser rotulados de criminosos comuns também nossos heróis?

Então, presidente Lula, ex-preso político, como é possível submeter a um filtro ideológico a questão do direito de oposição, de contestação?

Por que não usou o presidente Lula, pelo respeito à sua história, a força de seu prestígio e de seu carisma para influenciar os irmãos Castro a dar um basta à tortura e às violências contra os opositores do regime?

Se queremos apresentar ao mundo o rosto de um país que preserva a democracia, não podemos ser tolerantes nem lenientes com a violação de direitos humanos, trocando afagos com os dirigentes de um país que adota a tortura ao mesmo tempo em que é enterrado um opositor do regime, morto de inanição como derradeira forma de protesto.

Tive que escrever estas poucas linhas para sentir-me coerente com o compromisso de respeito aos direitos humanos que devem ser preservados -qualquer que seja a ideologia do preso e do detentor do poder.

Os tempos mudaram. Um operário corajoso de ontem representa esta República, uma conquista pelo voto democrático. Mas o coração que batia em seu peito de metalúrgico deve continuar a bater no mesmo ritmo no peito do presidente.

A coerência impõe o dever de expressar com mesmo ímpeto a indignação contra a violência quando ela é praticada contra qualquer preso, seja comum, seja político, seja qual for a vertente política do ordenante e do carrasco.

JOSÉ CARLOS DIAS , 70, advogado criminal, foi secretário da Justiça do Estado de São Paulo (governo Montoro) e ministro da Justiça (governo FHC).

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Folha de S. Paulo
11 de Março de 2010

CLÓVIS ROSSI
Ignomínia

SÃO PAULO – É uma ignomínia, uma completa ignomínia, a coleção de absurdos que o presidente Luiz Inácio Lula da Silva disparou a respeito de Cuba, em entrevista à agência Associated Press.

Seria ignominioso em qualquer pessoa decente, mas se torna exponencial no caso de Lula, porque seus conceitos contra os dissidentes cubanos em greve de fome e a favor da ditadura acabam sendo uma condenação a seu próprio passado.

Ao equiparar a motivação (política) dos dissidentes a uma eventual ação similar dos criminosos de São Paulo, Lula está se declarando um ex-delinquente. Afinal, ele fez greve de fome, que agora repudia, e por motivos políticos.

Lula diz que é preciso "respeitar a determinação da Justiça e do governo cubano de deter as pessoas em função da legislação em Cuba".

Por que, então, não respeitou determinações da Justiça e do governo brasileiro no tempo em que era um líder sindical?

Pela simples e boa razão de que determinações de um poder judicial totalmente subordinado ao governo -e um governo ditatorial- não merecem respeito dos democratas. Nem aqui nem em Cuba.

A menos que Lula ache que há "boas" ditaduras e ditaduras "más".

Não há. O que há são valores universais: liberdades públicas, respeito aos direitos humanos -enfim, democracia. São princípios que organizam a convivência, os únicos decentes que o ser humano inventou até agora.

Em sendo assim, não há como discordar do preso político Guillermo Fariñas quando diz, como o fez a Flávia Marreiro, desta Folha, que Lula demonstrou seu "comprometimento com a tirania dos Castro".

Uma tirania que fez de Cuba o museu do fracasso do socialismo real, só louvado por três ou quatro intelectuais de quinta, que, sem público em seus próprios países, vêm à América Latina lamber as botas de tiranos e tiranetes de opereta.

crossi@uol.com.br

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Folha de S. Paulo
11 de Março de 2010

CARLOS HEITOR CONY
Pisada de bola

RIO DE JANEIRO – Que Lula pisou na bola, pisou. Sua declaração a propósito da greve de fome de um dissidente cubano foi infeliz -e, além de infeliz, oportunista e contrária à sua própria biografia.

Infeliz porque se espera de Lula uma coerência mínima com o seu passado, passado de luta na oposição. Ele próprio chegou a ser um preso político e sabe melhor do que ninguém a diferença entre um deles e o preso comum.

A greve de fome é antes de mais nada um recurso à propaganda contra um regime ou contra as condições subumanas das prisões. É um recurso válido até mesmo para os presos comuns, e muito mais para os presos políticos.

O oportunismo de Lula está claro: as suas relações com o regime cubano são estridentes e até louváveis, pois, de certa forma, sem o apelo à violência, a cartilha do petismo não é tão diferente da cartilha castrista, seja ela administrada por Fidel ou por Raul.

Ele sabe compensar essa predileção pelos governos de esquerda indo visitar amistosamente velhos ditadores de direita, o que lhe dá uma aura de equidistante, de cidadão do mundo.

Mas condenar a greve de fome de um dissidente de um regime antidemocrático, como o de Cuba, é ir além da imagem que ele procura firmar, de político mais importante do mundo.

A comparação que ele fez também foi infeliz. Se os presos comuns de São Paulo fizessem greve de fome, não deveriam ser soltos, mas atendidos em suas exigências de tratamento carcerário, que, como sabemos, não é lá essas coisas.

Em resumo: a declaraç
o de Lula sobre o dissidente cubano mostra que cada vez mais ele se afasta de suas origens pessoais e políticas, tornando-se não um preso comum, mas um político comum.

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O Estado de S. Paulo

Quinta-Feira, 11 de Março de 2010

Editorial

A ditadura justificada

O presidente Lula, que tanto admira o cubano Fidel Castro, devia saber que certa vez ele disse: "Os tiranos tremem na presença de homens capazes de morrer por seus ideais." Essas palavras datam de maio de 1981, quando o ativista irlandês Bobby Sands morreu depois de 66 dias de greve de fome em protesto contra as condições carcerárias a que eram submetidos os seus companheiros e pelo direito de ser considerado prisioneiro político. Hoje, quando a tirania castrista se vê confrontada pela morte do preso político Orlando Zapata Tamayo, depois de 85 dias de jejum, e pela greve similar, que já dura 16 dias, do dissidente Guillermo Fariñas, Lula descortina o lado mais tenebroso de sua personalidade política, ao condenar os "homens capazes de morrer por seus ideais" ? e, pior ainda, ao sair em defesa dos seus algozes.

A morte de Tamayo, em 23 de fevereiro passado, coincidiu com a presença do brasileiro em Cuba. Já então, instado pelos jornalistas que o acompanhavam a se manifestar sobre a tragédia, lamentou "que uma pessoa se deixe morrer por uma greve de fome", calando sobre as razões que a levaram a esse extremo. Um dos 75 condenados da infame leva de 2003, o pedreiro de 42 anos tinha sido adotado pela Anistia Internacional como "prisioneiro de consciência". À maneira de Bobby Sands, deixou de se alimentar para pressionar o governo a melhorar as condições dos mais de 200 presos políticos cubanos. De seu lado, o jornalista e psicólogo Fariñas, de 48 anos, que vive em Santa Clara, a 280 quilômetros de Havana, iniciou a sua greve pela causa de Tamayo e para pedir a libertação dos 26 daqueles detentos em pior estado de saúde.

Como se sabe, Lula recorreu à ferramenta política da fome quando, líder sindical, foi preso pela ditadura militar. Teoricamente, portanto, estaria à vontade para considerar o ato uma "insanidade", como disse anteontem numa entrevista à agência noticiosa americana Associated Press. Mas, salvo engano, nunca antes ele se pôs a verberar o autossacrifício ? praticado, entre tantos outros, por Nelson Mandela. Inspirado pelo exemplo de Sands, o líder sul-africano, então confinado na ilha onde o regime de supremacia branca mantinha os seus opositores, liderou uma greve de fome pelo direito dos presos de serem visitados por seus filhos menores. Depois de seis dias, a reivindicação foi atendida. Ainda que se tentasse fazer de conta que as atuais objeções de Lula a tal modalidade de protesto não têm relação com os casos cubanos, ele próprio tomou a iniciativa de desmanchar essa interpretação ingênua.

Na citada entrevista, reiterou que "a greve de fome não pode ser utilizada como pretexto de direitos humanos (sic) para libertar as pessoas". E, com palavras das quais jamais se libertará, sugeriu: "Imagine se todos os bandidos presos em São Paulo entrarem em greve de fome e pedirem liberdade." Para ele, "temos de respeitar a determinação da Justiça e do governo cubanos de deter as pessoas em função da legislação de Cuba" ? que autoriza a prisão de pessoas tidas como suspeitas de vir a cometer o que o regime considera crimes. Disse mais Lula: "Gostaria que não ocorressem (as detenções), mas não posso questionar as razões pelas quais Cuba os deteve, como tampouco quero que Cuba questione as razões pelas quais há pessoas presas no Brasil" ? nenhuma delas, como bem sabe, por motivos políticos. Ou seja, leis repressivas não devem ser contestadas, nem quando baixadas por governos ditatoriais ou autoritários.

Na filosofia lulista do direito, a Lei de Segurança Nacional brasileira que condenou a militante Dilma Rousseff a 6 anos de prisão (das quais cumpriu três) ou a legislação do apartheid que aprisionou Nelson Mandela por 27 anos, por exemplo, não são menos legítimas do que as provisões das democracias. Se violam os direitos humanos, não há nada que líderes de outros países possam fazer, salvo afirmar que gostariam que isso não ocorresse. Eis por que o Brasil de Lula se distingue no Conselho de Direitos Humanos das Nações Unidas pela leniência com as denúncias das práticas brutais de governos como os de Cuba e do Irã, enquanto reluta em reconhecer o novo governo hondurenho escolhido em eleições livres. Outros países também adotam esse duplo padrão, mas os seus dirigentes ao menos se guardam de escarnecer das vítimas das ditaduras.

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Em São Paulo, 11 de Março de 2010

Luís Inácio Lulla da Silva vs Orlando Zapata Tamayo

Transcrevo abaixo três matérias sobre a pusilanimidade de Lulla em Cuba, quando falou sobre a morte de Orlando Zapata Tamayo. O primeiro é um Editorial do Estadão, datado de 26/2/2010. O segundo, um Editorial da Folha, de 27/2/2010. E o terceiro, um post de 26/2/2010 de Reinaldo Azevedo em seu blog (que também transcreve o Editorial do Estadão).

Lulla culpa a vítima pela violência que lhe foi perpetrada. Mostrou-se incapaz do mais elementar sentimento de humanidade por alguém que se batia pela liberdade, ao pedir democracia para Cuba.

Será que esse indivíduo arrogante e ao mesmo tempo simplório, que não tem pejo de dizer “ah, como seria bom o mundo se todos fossem iguais a mim…” Antes de cantava uma música chamada “Se todos fossem iguais a você”. Algum compositor puxa-saco deve compor “Se todos fossem iguais a mim”…

Que coisa ridícula. Que vergonha. Espero que Le Monde, que lhe outorgou o título de Homem do Ano, publique o que ele disse – e a forma arrogante e insensível em que o disse.

Outros comentários são dispensáveis.

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http://www.estadao.com.br/estadaodehoje/20100226/not_imp516523,0.php 

http://veja.abril.com.br/blog/reinaldo/geral/lula-em-cuba-cinismo-deslavado/ 

Editorial de O Estado de S. Paulo de sexta-feira, 26 de fevereiro de 2010

Lula em Cuba: cinismo deslavado

Do lado dos perpetradores

São de um cinismo deslavado os comentários do presidente Lula sobre a morte do ativista cubano Orlando Zapata Tamayo, ocorrida horas antes de sua quarta visita à ilha desde que assumiu o governo. Tamayo, um pedreiro de 42 anos, foi um dos 75 dissidentes condenados em 2003 a até 28 anos de prisão. Inicialmente, a sua pena foi fixada em 3 anos. Depois, elevada a 25 anos e 6 meses por delitos como “desacato”, “desordem pública” e “resistência”. Embora não fosse um membro destacado do movimento de direitos humanos em Cuba, a Anistia Internacional o incluiu na sua lista de “prisioneiros de consciência” ? vítimas adotadas pela organização por terem sido detidas apenas por suas ideias. Em dezembro, Tamayo iniciou a greve de fome por melhores condições para os 200 presos políticos do regime, da qual morreria 85 dias depois.

Lula conseguiu superar o ditador Raúl Castro em matéria de cinismo e escárnio. Este disse que Tamayo “foi levado aos nossos melhores hospitais”. Na realidade, só na semana passada, já semi-inconsciente, transferiram-no do presídio de segurança máxima de Camaguey para Havana. E só na segunda-feira foi hospitalizado. O desfecho foi tudo menos uma surpresa para os seus algozes. Dias antes, autoridades espanholas haviam manifestado a sua preocupação com a situação de Tamayo, numa reunião sobre direitos humanos com enviados de Cuba. Ele morreu porque o deixaram morrer. Poderiam, mas não quiseram, alimentá-lo por via endovenosa. “Foi um assassínio com roupagem judicial”, resumiu Elizardo Sánchez, líder da ilegal, mas tolerada, Comissão Cubana de Direitos Humanos.

Já Lula como que culpou Tamayo por sua morte. Quando finalmente concordou em falar do assunto, sem disfarçar a irritação, o autointitulado condutor da “hiperdemocracia” brasileira e promulgador recente do Programa Nacional de Direitos Humanos, disse lamentar profundamente “que uma pessoa se deixe morrer por uma greve de fome”, lembrando que se opunha a esse tipo de protesto a que já tinha recorrido (quando, ainda sindicalista, foi preso pelo regime militar). Nenhuma palavra, portanto, sobre o que levou o dissidente a essa atitude temerária: nada sobre o seu encarceramento por delito de opinião, nada sobre as condições a que são submetidos os opositores do regime, nada sobre o fato de ser Cuba o único país das Américas com presos políticos. Nenhum gesto de desaprovação à violência de uma tirania.

Pensando bem, por que haveria ele de turvar a sua fraternal amizade com os compañeros Fidel e Raúl, aborrecendo-os com esses detalhes? Ao seu lado, Raúl acabara de pedir aos jornalistas que “os deixassem tranquilos, desenvolvendo normalmente nossas atividades”. Lula atendia ao pedido. Afinal, como observara o seu assessor internacional Marco Aurélio Garcia, “há problemas de direitos humanos no mundo inteiro”. Mas Lula ainda chamou de mentirosos os 50 presos políticos que lhe escreveram no domingo para alertá-lo da gravidade do estado de saúde de Tamayo e para pedir que intercedesse pela libertação deles todos. Quem sabe imaginaram, ingenuamente ou em desespero de causa, que o brasileiro pudesse ser “a voz em defesa da proteção da vida aos cubanos”, como diria o religioso Dagoberto Valdés, um dos poucos opositores da ditadura ainda em liberdade na ilha.

Lula negou ter recebido a correspondência. “As pessoas precisam parar com o hábito de fazer cartas, guardarem para si e depois dizerem que mandaram para os outros”, reclamou. E, com um toque de requinte no próprio cinismo, concluiu: “Se essas pessoas tivessem falado comigo antes, eu teria pedido para ele parar a greve e quem sabe teria evitado que ele morresse.” À parte a falta de solidariedade humana elementar que as suas palavras escancararam ele disse que pode ser acusado de tudo, menos disso, a coincidência da visita de Lula com a tragédia de Tamayo o deixou exposto aos olhos do mundo e não exatamente da forma que tanto o envaidece.

A morte de um “prisioneiro de consciência”, a afirmação de sua mãe de que ele foi torturado e o surto repressivo que se seguiu com a detenção de dezenas de cubanos para impedir que comparecessem ao enterro do dissidente no seu vilarejo natal transformam um episódio já de si sórdido em um escândalo internacional. Dele, Lula participa pela confraternização com os perpetradores de um crime continuado que já dura 51 anos.

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http://www1.folha.uol.com.br/fsp/opiniao/fz2702201001.htm

Folha de S. Paulo
27 de Fevereiro de 2010

Editorial

Lamentável

Diante da decrépita ditadura cubana, governo Lula continua, conforme o lema de Che Guevara, "sin perder la ternura jamás"

PELA QUARTA vez em seu mandato, o presidente Luiz Inácio Lula da Silva se dispôs a endossar, entre sessões de fotos, tapinhas nas costas e desconversas macunaímicas, o mais ditatorial regime
do hemisfério americano.

Sua visita a Cuba, nesta semana, ocorreu num momento especialmente sombrio. O dissidente Orlando Zapata, depois de uma greve de fome de 85 dias, acabava de morrer. Ativista em prol dos direitos humanos, Zapata fora preso em 2003, numa investida repressiva que levou outros 75 opositores à prisão.

"Foi condenado a três anos", disse o dirigente Raúl Castro, adiantando-se às perguntas dos jornalistas que acompanhavam a visita de Lula. "Foi levado aos nossos melhores hospitais, morreu. Lamentamos muito."

O assessor internacional de Lula, Marco Aurélio Garcia, ecoou solenemente as palavras do ditador: "É lamentável, como disse o presidente Raúl".

Há muita coisa lamentável, com efeito, nesse episódio. Lamentáveis, por exemplo, parecem ser os conhecimentos de aritmética de Raúl Castro, que não explicou de que modo alguém condenado a três anos de prisão em 2003 continuava entre as grades em 2010. Segundo a Anistia Internacional, a pena do dissidente se elevara a mais de 25 anos de detenção, com base nas prolíficas estipulações da legislação cubana para casos desse tipo.

O código criminal cubano prevê, por exemplo, o "estado de periculosidade", definido como "propensão de uma pessoa para cometer crimes, demonstrada por conduta manifestamente em contradição com as normas da moralidade socialista".

Manifestações consideradas ofensivas às autoridades constituem crime de "desacato", levando a um ano de prisão. Se voltado contra os principais dirigentes do regime, o "desacato" acarreta a triplicação da pena. A culpa pela morte de Zapata, prosseguiu Raúl Castro, deve ser atribuída "à confrontação que temos com os Estados Unidos".

A base de Guantánamo, onde o governo George W. Bush confinou suspeitos de terrorismo, seria o único lugar da ilha onde se pratica tortura. "Há problemas de direitos humanos no mundo inteiro", acrescentou placidamente Marco Aurélio Garcia.

É o clássico expediente de voltar contra outro país as acusações que se referem, especificamente, à tirania que se quer apoiar. É inegável que Bush maculou as tradições democráticas de seu país a pretexto da "guerra contra o terror". É também evidente que nunca faltou, nos EUA, liberdade para protestos contra o governo -coisa impensável sob o sistema castrista.

Fortalecer as relações comerciais com Cuba e apoiar a suspensão do contraproducente embargo norte-americano ao país são atitudes corretas da diplomacia brasileira.

Nada disso se confunde com a revoltante "ternura", para lembrar o célebre dito de Che Guevara, que o governo Lula "não perde jamais" quando se trata de emprestar apoio a um regime decrépito, ditatorial e homicida.

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Blog de Reinaldo Azevedo

http://veja.abril.com.br/blog/reinaldo/geral/lula-tenta-dar-alcance-etico-a-pusilanime-cumplicidade-com-a-tirania-cubana/?utm_source=feedburner&utm_medium=feed&utm_campaign=Feed%3A+ReinaldoAzevedo+%28Reinaldo+Azevedo%29

LULA TENTA DAR ALCANCE ÉTICO À PUSILÂNIME CUMPLICIDADE COM A TIRANIA CUBANA

sexta-feira, 26 de fevereiro de 2010 | 22:07

Vi há pouco Lula no Jornal Nacional, durante entrevista concedida em El Salvador. Com o cenho fechado, certa gravidade no tom de voz, medindo as palavras — UM DIA DEPOIS DE TER CULPADO ORLANDO ZAPATA POR SUA PRÓPRIA MORTE —, disse como seria bom o mundo se todos fossem iguais a ele. Lula é a musa e o Vinicius de Moraes de si mesmo… Bem, nenhuma dúvida sobre isso. Depois do teocentrismo e do antropocentrismo, temos uma nova medida de todas as coisas: o “lulocentrismo”. Ninguém, deu pra depreender de sua fala, tem mais apreço pela democracia do que ele próprio.

É… Assim não é, ainda que lhe parecesse. Porque, de fato, nem ele deve acreditar no que diz. Tentando justificar sua pusilanimidade sobre a violência em Cuba, disse ter aprendido “a não dar palpite no governo dos outros”. Alguém lhe cobrou “palpite”? Não! Bastava uma palavrinha genérica em defesa da democracia, em vez de se comportar como mero espectador do espetáculo grotesco protagonizado por Raúl Castro, o homicida compulsivo, que culpou os EUA pela morte de Zapata.

E quem disse que ele não dá palpite no governo e na política alheias? Honduras que o diga. Lula liderou o esforço — mais do que Hugo Chávez — para impor sanções internacionais àquele pequeno país, que havia posto fora do poder, segundo a sua Constituição democrática, um golpista. Contentou-se com isso? Não! Ajudou a  plantar Manuel Zelaya na embaixada brasileira, levando ao país o risco de uma guerra civil.  Depois, tentou sabotar as eleições, que transcorreram num clima de absoluta legalidade. Ainda era pouco: na formação da tal comunidade de países da América Latina e do Caribe, impôs condições ao governo hondurenho: o país só será aceito se Zelaya, o golpista, for reintegrado à política. Lula não exige nada é da tirania cubana.

A fala de hoje não passou de uma tentativa de engrolar uma desculpa para a estupidez que dissera ontem. A exemplo daquela charge que publiquei aqui, Lula fez questão de partilhar com os irmãos Castro a banheira de sangue em que se deleitam.

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Em São Paulo, 27 de Fevereiro de 2010

José de Alencar

O Vice-Presidente José Alencar parece que finalmente está chegando ao fim.

Admiro a forma em que o homem, tranqüila e serenamente, vem brigando com a morte nos últimos anos. Sem demonstrar ressentimento, sorrindo, mas sempre olhando a morte nos olhos, como inimiga que é de todos nós que queremos viver, e nunca deixando de fazer o possível e o impossível para ganhar uns dias a mais neste nosso mundinho, que às vezes parece tão indigno de gente tão fina.

Alencar parece ser um homem religioso, que acredita no que ele chama de vontade de Deus. Mas nem por isso a aceita passivamente. Faz alguns anos – e, creio, dezoito operações – que sua morte parece ser a vontade de Deus. Mas ele não nunca acredita que sua hora tenha chegado.

Felizmente, ele tem dinheiro (ganho merecidamente) para empreender a luta pela vida. Outros pobres mortais já teriam, a essas alturas, sido honrados com missas de sete, trinta e 365 dias.

Que a morte, Alencar, quando chegar, não lhe seja doída. E que você possa sucumbir a ela com o mesmo sorriso confiante que exibiu nos embates de que saiu vencedor. Sendo industrial e político, você tem lidado com a morte de forma estóica e socrática.

Em São Paulo, 11 de Agosto de 2009 – 13:30h.

O blog da Petrobrás – uma grande inovação

Confesso, aqui no início, que nunca gostei  e continuo a não gostar da Petrobrás. Tenho ogeriza por empresas estatais, especialmente por monopólios estatais. E não tenho dúvida de que a Petrobrás tem sido usada politicamente pelo governo que a controla – este e os anteriores.

Mas no aspecto que foi descrever, a Petrobrás está de parabéns.

Está causando furor nos meios de comunicação e entre associações de jornalistas uma grande inovação da Petrobrás. Curiosamente, a inovação nada tem que ver com petróleo ou gás natural.

A inovação é a seguinte.

Toda vez que um jornalista contata a empresa para pedir informações ou para ouvir a sua reação a fatos, reais ou alegados, acerca da empresa, esta, antes que a matéria saia no jornal ou revista do jornalista, inevitavelmente editada e, às vezes, editorializada, publica em um blog especial o texto, verbatim, daquilo que o jornalista perguntou e a resposta da empresa. Como empresa mais do que acostumada ao trato com jornalistas, tenho certeza que a Petrobrás, quando contatada por telefone, grava a conversa.

Os meios de comunicação e as associações de jornalistas estão indignados – acusando a Petrobrás de tentar intimidá-los  e de não observar o princípio da confidencialidade das fontes.

Eis a nota da Associação Nacional de Jornais (ANJ), publicada na Folha de hoje (9 de junho de 2009):

Empresa tenta intimidar jornais, diz nota da ANJ

‘A Associação Nacional de Jornais (ANJ) manifesta seu repúdio pela atitude antiética e esquiva com que a Petrobras vem tratando os questionamentos que lhe são dirigidos pelos jornais brasileiros, em particular por O Globo, Folha de S.Paulo e O Estado de S. Paulo, que nas últimas semanas publicaram reportagens sobre evidências de irregularidades e de favorecimento político em contratos assinados pela estatal e suas controladas.

Numa canhestra tentativa de intimidar jornais e jornalistas, a empresa criou um blog no qual divulga as perguntas enviadas à sua assessoria de imprensa pelos jornalistas antes mesmo de publicadas as matérias às quais se referem, numa inaceitável quebra da confidencialidade que deve orientar a relação entre jornalistas e suas fontes. Como se não bastasse essa prática contrária aos princípios universais de liberdade de imprensa, os e-mails de resposta da assessoria incluem ameaças de processo no caso de suas informações não receberem um ‘tratamento adequado’. Tal advertência intimidatória, mais que um desrespeito aos profissionais de imprensa, configura uma violação do direito da sociedade a ser livremente informada, pois evidencia uma política de comunicação que visa a tutelar a opinião pública, negando-se ao democrático escrutínio de seus atos.’

Júlio César Mesquita, vice-presidente da ANJ”

A nota da ANJ é uma graça. Além de exibir um Português sofrível (vide “uma violação do direito da sociedade a ser livremente informada”) demonstra como os meios de comunicação, em especial a imprensa,, se consideram prima donnas intocáveis.

Os argumentos da ANJ são risíveis.

É risível a alegação de que o procedimento da Petrobrás é uma tentativa de intimidar a imprensa – ela, sim, não raro adepta do uso de táticas intimidatórias. A Petrobrás está apenas se protegendo contra o mau uso das informações que presta. O poder da mídia hoje em dia é tal que ela pode construir e destruir reputações em um dia. É preciso que encontremos formas de nos proteger desse (assim chamado quarto) poder.

Mas é especialmente risível a alegação de que a Petrobrás está promovendo uma “inaceitável quebra da confidencialidade que deve orientar a relação entre jornalistas e suas fontes”. Ora, o princípio da confidencialidade das fontes visa a proteger as fontes, não o jornalista que faz uso delas. É o jornalista que tem o dever de proteger a identidade de suas fontes. Estas, na ausência de contra-indicações, podem e devem ser reveladas.

Todos os que já lidaram com os meios de comunicação, e já viram suas cartas à redação serem simplesmente ignoradas, ou suas entrevistas e declarações serem recortadas de modo a se tornaram irreconhecíveis, ou, pior ainda, suas entrevistas e declarações serem interpretadas fora de contexto de modo a dizer quase o oposto do que se quis dizer, isso feito por incompetência ou má fé, todos esses, repito, se sentem vindicados pela decisão da Petrobrás de dizer ao público, através de seu blog na Internet: “Fomos contatados por fulano de tal, do jornal tal, que nos perguntou isso – a que respondemos dizendo isso e apresentando os seguintes fatos e evidências que corroboram nossa resposta”. Ponto final.

Registre-se, do lado positivo, que o presidente da ABI (Associação Brasileira de Imprensa), Maurício Azedo, defendeu o blog da Petrobras.

A Petrobrás emitiu uma nota, em resposta às críticas da ANJ, em que diz (segundo a Folha de hoje):

“A propósito da nota da Associação Nacional dos Jornais sobre o blog Fatos e Dados, emitida pela entidade em 8/ 6/2009, a Petrobras declara:

O blog foi lançado com o objetivo de apresentar fatos e dados recentes da Petrobras, o posicionamento da empresa sobre as questões relativas à Comissão Parlamentar de Inquérito (CPI) e garantir a total divulgação dos esclarecimentos solicitados pela imprensa e as respectivas respostas enviadas aos jornalistas. A Petrobras respeita os princípios universais de liberdade de imprensa, tanto que, em nenhum momento, se esquivou de responder às perguntas enviadas, de forma direta e clara. Tampouco, usou de qualquer meio para evitar a publicação de reportagens e notas, mesmo quando a empresa está sendo atacada.

A noção de confidencialidade e sigilo, como a própria nota da ANJ registra, é um princípio que norteia a relação dos jornalistas com suas fontes (pessoas ou empresas, consultorias). O objetivo principal é preservar aqueles que passam informações aos jornalistas e que, por qualquer motivo, precisam ou querem se manter no anonimato. Mas não há compromisso semelhante de confidencialidade e sigilo da fonte para o jornalista, pois isso limitaria o próprio caráter público e aberto da informação.

Quanto à suposta ameaça citada na nota da ANJ, em seus parágrafos três e quatro, esclarecemos que a Petrobras respeita a imprensa e jamais faria ou fez qualquer ameaça a jornalistas ou jornais. A nota se refere, na verdade, a uma mensagem de segurança padrão e automática, sem qualquer vínculo com o relacionamento com a imprensa e veiculada há anos na correspondência eletrônica emitida a partir do correio eletrônico da Petrobras, por todos os funcionários da empresa. Essa é uma proteção amplamente adotada por provedores confiáveis, e mensagens semelhantes acompanham e-mails enviados por jornalistas de diferentes veículos. No caso da Petrobras, a mensagem é destinada,
principalmente, aos empregados da empresa. Isso pode ser facilmente constatado pela própria leitura da íntegra da mensagem (O emitente desta mensagem é responsável por seu conteúdo e endereçamento. Cabe ao destinatário cuidar quanto o tratamento adequado. Sem a devida autorização, a divulgação, a reprodução, a distribuição ou qualquer outra ação em desconformidade com as normas internas do Sistema Petrobras são proibidas e passíveis de sanção disciplinar, cível e criminal). O foco interno fica bem claro na citação às normas internas do Sistema Petrobras e na menção a sanções disciplinares, o que só é possível adotar em relação a funcionários.

A Petrobras reafirma que, assim como os veículos de comunicação, defende a livre e ampla circulação de ideias, informações e conhecimento. Como companhia de capital aberto e maior empresa do Brasil, com negócios em diversos países, consideramos que é nosso dever garantir que clientes, acionistas, parceiros e toda a sociedade tenham pleno acesso aos esclarecimentos prestados por nós. Este é o nosso único objetivo."

Difícil fazer qualquer reparo que seja a essa resposta.

O único aspecto em que os meios de comunicação e as associações de jornalistas têm certa razão é que o blog da Petrobrás pode “furar” eventuais furos de reportagem, chamando a atenção de outros meios para o que um deles está investigando. Mas não creio que exista um direito ao ineditismo.

[Acrescentado quase um mês depois, em 7 de Julho de 2009:

No dia 9/6 meu amigo Wilson Azevedo comentou essa matéria em minha lista de discussão LivreMente. O comentário dele é pertinente e acrescenta elementos à discussão. Ei-lo:

“Eu ia comentar este caso. E encontrei um excelente artigo seu a respeito. Parabens!

Pois e’: a Internet esta’ acabando com os atravessadores…

Nos anos 80 culpavam os atravessadores pela inflacao, lembra? Eram a parte da cadeia de distribuicao que ficava entre o produtor e o grande varejo ou o ponto de atacado mais proximo do varejo. Culpavam estes por se aproveitarem e praticarem margens exageradas de lucro.

Pois a Internet, no campo da cultura, da educacao e da informacao, esta’ detonando os atravessadores.

Na industria fonografica e do entretenimento isto esta’ ficando cada vez mais claro. Nunca na historia deste planeta vimos tantos medalhoes da musica saindo em turnes mundiais ou nacionais como agora. E’ que a fonte foi secando e agora dinheiro mesmo so’ levantando as nadegas da poltrona e trabalhando. A venda de CDs nao para de despencar, enquanto o download, legal ou nao, de musica nao para de aumentar. A ridicula reacao da industria a principio foi de correr atras de adolescentes e mamaes. Mas sao milhoes e milhoes baixando musica de graca sem dar mais nem um centavo para a industria fonografica. Acabou o atravessador. Agora e’ o artista e seu publico. No meio, a Internet, nao mais a gravadora…

Na educacao cresce o fenomeno dos professores independentes. Eu sou um deles. Faz uns 10 anos que nao dependo de instituicao de ensino para dar meus cursos. Quando me convem e me interessa, quando vejo possibilidades de obter maior divulgacao ou maior apoio em termos de certificacao, me associo a uma instituicao de ensino. Mas nao dependo de uma para lecionar. Tudo o que uma instituicao de ensino oferece num curso online eu como professor posso oferecer. Estamos na Internet nivelados, em pe’ de igualdade. Acabou o atravessador na educacao: agora e’ o professor e seus alunos, no meio a Internet, nao mais a instituicao de ensino.

Agora no campo do oligopolio da informacao a coisa esta’ ficando cada vez mais aberta. O atravessador da informacao era o jornal, o telejornal, a revista. Ficava no meio, entre o leitor/espectador e a informacao, claramente filtrando e publicando apenas o que lhe interessava. Pois agora acabou o atravessador: entre a fonte e o leitor tem agora a Internet, nao mais a imprensa. Mais ainda: entre o jornalista e o leitor cada vez mais agora tem a Internet e cada vez menos tem jornal. E’ outro fenomeno destes tempos recentes: blogs de jornalistas independentes, que nao mais escrevem em jornais ou revistas, e que sao tao ou mesmo mais lidos que os proprios veiculos na Internet.

Atravessadores, tremei: e’ chegada a sua hora… 🙂

Wilson

Em São Paulo, 9 de Junho de 2009

A face ainda feia do Comunismo

A despeito de todas as tentativas de mostrar uma face humana e competente para o mundo, o novo Comunismo chinês, que deu uma guinada capitalista na economia, continua com sua face feia no plano político. A questão do Tibet é a maior prova disso — mas está longe de ser a única. Um dissidente acaba de ser punido com pena de três anos e meio na prisão porque escreveu ensaios que foram considerados subversivos.

Liberdade econômica não consegue sobreviver por muito tempo sem liberdade política. Em algum momento, ou aparece a liberdade política, ou a liberdade econômica acaba desaparecendo.

Vamos ver o que acontece com a China.

A despeito disso, Raúl Castro parece acreditar que o caminho para o Comunismo cubano é imitar a China. Está permitindo que os cubanos usem o que resta ao final do mês de seu pobre salário (menos de 20 dólares por mês — isto é, cerca de 60 centavos de dólar por dia — por quanto é que se alardeia que os miseráveis da África vivem? Um dólar por dia!!!) por panelas elétricas, telefones celulares, etc…

Os três artigos abaixo, todos eles retirados do site do International Herald Tribune, todos eles comentam esses tópicos. Recomendo a leitura. E recomendo o site.

Em Hanoi, 5 de Abril de 2008

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International Herald Tribune, 3 April 2008
http://www.iht.com/articles/2008/04/03/asia/letter.php

LETTER FROM CHINA

China again cues up its propaganda machine

Letter from China

By Howard W. French

Published: April 3, 2008

SHANGHAI: Mao Zedong announced the tune himself, in 1927, when he wrote: "A revolution is not a dinner party, or writing an essay or painting a picture or doing embroidery; it cannot be so refined, so leisurely and gentle, so temperate, kind, courteous, restrained and magnanimous. A revolution is an insurrection, an act of violence by which one class overthrows another."

For the next half-century, China was one of the most violent places on earth, and not just because of the vicious foreign invasion and civil war that swept the country, or the ceaseless purges of supposed traitors and class enemies. There was also the matter of language, which in China has been both an underrated means of violence and a vehicle for it.

Mao’s state created a propaganda system built on a crude triage: a world of heroes who were unalterably and impossibly good, and an even larger one of villains who were irredeemably, cartoonishly bad. Over-the-top became the routine in official rhetoric. Enemies were called "monsters" and "cow ghosts," "snake spirits" and "running dogs." And in one campaign after another the public was called upon to "resolutely crush" or "relentlessly denounce" them.

This was a universe of variable geometry, where people were not to reason things out on their own, but to fall in line. Today’s hero could be tomorrow’s villain, with no clear evidence or explanation. The sole moral compass point was the immoral leader himself, Mao, who to this day remains a sacred cow whose likeness peers out from every bank note.

In recent years, it had seemed as if this movie had been retired, but last month the production was cued up once again. The bad guy this time has been the Dalai Lama, the exiled Tibetan spiritual leader, and the fact that outside China this villain is one of the world’s most admired people has only caused the propagandists to ramp up the volume.

For the purpose of the cause he has been turned into a canine and called a "wolf in monk’s robes," "a wolf with a human face and heart of a beast" and the "scum of Buddhism." In case anyone missed the message, the government has also called the struggle against the Dalai Lama "a life-and-death battle."

The Chinese public should by now recognize all the signs of an old-fashioned political campaign and, given the state’s history of manipulation, immediately mark a long, skeptical pause.

It’s not clear, though, if that’s how it worked this time. The propaganda means of the Chinese state remain overwhelming, as is its inclination not just to shape opinion, but to corral it, playing on what the documentary filmmaker Tang Danhong called the "great Han chauvinism," referring to the dominant ethnic group, a chauvinism that has been evident throughout the Tibetan crisis.

After watching the first week of heavily propagandized television coverage here over dinner recently – reporting that focused almost exclusively on images of lawless Tibetan rioters smashing shops in Lhasa, along with the images of ethnic Han victims of the violence, typically recovering in the hospital – a senior Chinese newspaper editor eagerly questioned me about what was "really happening in Tibet."

The question was scarcely out of his mouth when he added: "When people see the kind of one-sided propaganda that’s been in the media here, nobody trusts it anymore."

This might be reassuring, were it true, but the next few days provided many causes for doubt. A young Chinese acquaintance who is a journalist sounded a troubled note in an e-mail message to me: "I read some news reports recently and am confused why the Western media reports on Tibet are inconsistent with the facts? Like they only report on the Chinese police but not the thugs attack the innocent people and the police? And even worse, why are they reporting lot of false and prejudiced news?"

The irony here, of course, is that Western coverage, whatever its faults, generally detailed the street violence in Lhasa, despite being barred access to Tibet by a country that made a big to-do last year over having supposedly lifted restrictions on the movements of international journalists in China.

Unlike the heavily controlled domestic press, the Western media also reported on the largely peaceful sympathy protests that unfolded over a broad stretch of the Tibetan plateau. They generally sought to give at least two sides to the story and questioned Beijing’s assertions about Tibetan protesters and about their spiritual leader, the Dalai Lama, in the textbook way an independent press should.

Beyond the headlines, though, this crisis tells us a lot about China, and although the government may still have the means to control opinion, the more strenuously it has pressed its case, the less the picture of the country concurs with the image that China so eagerly wishes to promote of itself to the world.

China has invested hugely in its hosting of the Olympic Games in August with the idea of introducing itself as an overwhelming success story: increasingly prosperous, harmonious and forward-looking. The first statement is certainly true, but one needn’t be an enemy of Chin
a, as the propagandists would have it, to question the other two.

This may yet turn out to be China’s century, but it seems clearer than ever there’s a lot of work to do, reforming an awfully rickety system, rethinking policies built on bald fictions, such as the "autonomous regions" in China’s west, and learning to deal with criticism without turning it into a matter of ethnic pride or betrayal.

The official slogan of the Games may be "one world, one dream," but that’s not the feeling one gets listening to the state’s organs. It is an ugly, wound-nursing nationalism one hears. "So strong," said the filmmaker Tang, "that there’s almost no introspection, not even among Han intellectuals."

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International Herald Tribune
http://www.iht.com/articles/2008/04/03/asia/china.php

Chinese dissident gets 3½ years for essays

By Jim Yardley

Published: April 3, 2008

BEIJING: A Chinese court Thursday sentenced an outspoken human rights advocate to three and a half years in prison after ruling that his critical essays and comments about Communist Party rule amounted to inciting subversion, his lawyer said.

The conviction of Hu Jia, 34, quickly brought outside criticism of China at a time when the government is already facing international concern over its handling of the Tibetan crisis. Hu’s case has been followed closely, especially in Europe, and critics say his conviction is part of a government crackdown to silence dissidents before Beijing plays host to the Olympics in August.

Diane Sovereign, a spokeswoman for the U.S. Embassy in Beijing, described the U.S. government’s reaction to the verdict as "dismayed."

"Mr. Hu has consistently worked within China’s legal system to protect the rights of his fellow citizens," Sovereign said. "These types of activities support China’s efforts to institute the rule of law and should be applauded, not suppressed or punished."

Hu’s wife, Zeng Jinyan, herself a well-known blogger and rights advocate, was distraught in a telephone interview Thursday.

"I feel hopeless and helpless," said Zeng, who is under house arrest with the couple’s infant daughter in their suburban Beijing apartment, though she was allowed to visit her husband Thursday.

Asked why Hu was arrested and convicted, Zeng said: "The fundamental reason is to silence him. He had been speaking up and all he said was plain truth. It makes them unhappy. But they can do this to him because they’re unhappy?"

Li Fangping, the defense lawyer, said the court had showed leniency by sentencing him to less than the maximum five-year term. Li said the sentence also forbade Hu from making any public political statements for one year following his release from prison.

"Three and a half years is still unacceptable to us," Li said outside the courthouse. "There is a major disagreement between prosecutors and the defense over punishing someone for making peaceful speech. We still believe the charge does not stand."

Prosecutors in China rarely discuss cases after a verdict. But Xinhua, the government press agency, reported that Hu had confessed to the charges.

"Hu spread malicious rumors and committed libel in an attempt to subvert the state’s political power and socialist system," the court verdict stated, according to Xinhua.

Hu is one of the most prominent human rights advocates in China and has volunteered to help AIDS patients and plant trees to fight desertification. In recent years, he has maintained regular contacts with dissidents and other advocates on issues including environmental protection and legal reform.

He was detained Dec. 27 and later charged with "incitement to subvert state power," a charge based on six essays and interviews in which he criticized the Communist Party. Hu wrote a long, blistering essay detailing how the police had tortured two people who had protested about having their homes illegally seized in Beijing.

Last year, Hu also co-wrote an article that criticized the Communist Party for failing to fulfill its promises to improve human rights before the Beijing Games, though that article apparently was not included as evidence.

Li said that Hu continued to maintain his innocence, though he has acknowledged outside the courtroom that some of his comments were "excessive" in the context of existing law. All of the articles used as evidence have been censored on China’s Internet.

Hu has 10 days to decide whether to appeal the verdict. His health is also an issue; he has Hepatitis B and also takes medication for a deteriorating liver condition. Li said Hu has the option of applying for medical parole if he chooses not to appeal.

Howard W. French contributed reporting from Shanghai. Zhang Jing contributed research from Beijing.

Torch relay disrupted

The police detained at least six Uighur Muslims on Thursday at an anti-China protest during the Olympic torch relay near one of Turkey’s most famous tourist sites, The Associated Press reported from Istanbul.

The demonstrators were detained after they broke away from a larger group of protesters and shouted slogans just feet away from Tugba Karademir, a Turkish figure skater who had just started to run with the torch.

About 200 Uighur Muslims had converged ahead of the ceremony near the Blue Mosque and the Hagia Sofia church. Some members of the Uighur expatriate community in Turkey have called for independence for Xinjiang in China, or what they refer to as East Turkestan.

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International Herald Tribune, 3 April 2008
http://www.iht.com/articles/2008/04/03/america/cuba.php

Raúl Castro employing a bit of capitalism to freshen up Cuban Communism

The Associated Press

Published: April 3, 2008

HAVANA: It’s not the stuff of Marx or Lenin, or even of Fidel Castro, but it’s hardly free-market capitalism, either. In fact, a series of new steps to encourage a Cuban spending spree may help the Communist system and its new president survive.

In rapid-fire decrees over the past week, President Raúl Castro’s government has done away with some long-despised restrictions, lifting bans on electric appliances, microwaves and computers, inviting average citizens to enter long-forbidden resorts and declarin
g they can even legally have their own cellphones.

More changes could be on the way. Rumors are widespread that the government could ease travel restrictions and tolerate free enterprise, letting more people start their own small businesses. And hopes that it also might tweak the dual-currency system – which puts foreign products out of reach for most Cubans – have sparked a run on the peso.

"We’re going to get out and buy more and more," said Roberto Avila, a retiree. "That’s the future in Cuba, and it is a strong future."

Cuba is still far from a shopper’s paradise. Nearly everyone holds government jobs, earning an average of $19.50 a month, although many get U.S. dollars from tourism jobs or relatives abroad. It would take the average Cuban five months to earn enough to buy a low-end DVD player that an American could buy with about two days’ work at the federal minimum wage.

By doing away with rules that ordinary Cubans hate, Raúl Castro may defuse a clamor for deeper economic and political change in the single-party Communist system.

On the other hand, even these small changes could just whet Cubans’ appetites for more.

"These measures to allow Cubans to buy DVDs and everything else are just to entertain the people," said Maite Moll, a 45-year-old state engineer. "It’s not really important because it resolves nothing."

Some Cubans worry that even the small measures already taken will create class tensions and increase resentment between those earning state salaries and those with access to dollars, given the new opportunities for conspicuous consumption. Raúl Castro is clearly hoping that greater buying power will distract from any friction.

Certainly, the 76-year-old president has bolstered his popularity, addressing for now the doubts that Cuba’s government can survive without his charismatic brother, Fidel, who stepped aside and appointed Raúl in February.

"If low-income groups have access to essential goods like food, clothing and construction materials, and can sell and buy homes and use them as collateral, it doesn’t matter if you have a significant income gap. People are better," said Carmelo Mesa-Lago, a Cuba economics expert at the University of Pittsburgh. "That’s what happened in China and Vietnam."

Raúl Castro is said to be an admirer of free-market reforms that allowed those countries to revolutionize their economies while maintaining Communist Party control, although top officials have said Cuba is not about to follow a Chinese or Vietnamese path.

The food part of the equation could be profoundly affected by another initiative promoted this week. The government is lending uncultivated, state-controlled land to private farmers and cooperatives to plant cash crops like coffee and tobacco. It also will pay producers more for basics including milk, meat and potatoes.

Over time, this could reduce chronic food shortages and change the face of Cuban farming.

It is not new for the government to let private farmers take a crack at putting state land to good use. But this time the government is letting farmers more easily buy equipment and supplies at government stores, removing a key impediment to their success.

The changes, implemented barely a month into Raúl Castro’s presidency, are measures that Fidel had opposed for decades, declaring that even small initiatives to increase economic and social freedoms could create a "new rich" and destroy the island’s hard-fought social and economic equality.

And while people are excited to walk around stores and hotel lobbies, they will soon become frustrated that they cannot afford to do more than look, said Juan Antonio Blanco, a Cuban scholar based in Canada.

"This government is totally myopic and shortsighted if it doesn’t understand that it’s sitting on dynamite," he said. "They have to do more than the things that will play in the international media."

Finlândia: A tragédia e o controle de armas

A Finlândia sucumbe à solução fácil para as causas da tragédia da escola: controlar a venda de armas de fogo. Como se isso resolvesse o problema.

Vemos pela matéria abaixo, da Folha de hoje (10/11/2007), que a venda de armas era liberada para maiores de 15 anos na Finlândia. A moral a se tirar dessa história é esta: durante toda a sua história livre, jovens finlandeses de 15 anos podiam legalmente comprar armas de fogo, fato que fez da Finlândia o terceiro país do mundo em número de armas de fogo por habitante (atrás dos Estados Unidos e do Iêmen), e, no entanto, NUNCA ANTES NAQUELE PAÍS ocorreu uma tragédia como a que acontece agora. Ou seja, o fato de a venda de armas de fogo ser livre para maiores de 15 anos não aumentou os assassinatos nas escolas da Finlândia nem um ponto percentual, porque nunca havia acontecido um antes.

Propõe-se agora que 18 anos seja a idade mínima para a compra de armas de fogo. Mas o rapaz que assassinou seus colegas e a diretora da escola tinha mais de 18 anos!

Até que ponto vai a insensatez dos políticos? Procuram a chave debaixo do poste, não porque a tenham perdido ali, mas porque ali há mais luz…

Em Salto, 10 de Novembro de 2007

Folha de S. Paulo
10 de Novembro de 2007

TRAGÉDIA
Finlândia veta a venda de armas para menores

DA REDAÇÃO

A Finlândia anunciou ontem que aumentará de 15 para 18 anos a idade mínima para que alguém possa comprar arma de fogo. A decisão foi provocada pela tragédia da última quarta-feira, quando Pekka-Eric Auvinen matou seis colegas e dois funcionários de sua escola, antes de se suicidar.

Embora ele já estivesse com 18 anos, o episódio gerou uma discussão sobre limitações. Segundo entidade suíça, só os Estados Unidos e o Iêmen têm mais armas por habitante que os finlandeses.

Em Kirkkonummi, sul do país, uma escola entrou em pânico depois de ameaças por e-mail de que nova matança de estudantes estava para ocorrer.


Com agências internacionais