O mercado (II)

Terminei o artigo anterior discutindo a tese fundamental dos críticos da economia de mercado de que o mercado, em si, não é capaz de resolver adequadamente todos problemas de distribuição (como, por exemplo, o fornecimento de alimentação [habitação, saúde, educação, etc.] adequados à população que vive na miséria e, assim, não tem dinheiro para pagar os preços de mercado) e, portanto, precisa ser corrigido e aperfeiçoado pela ação governamental – o que implicaria um controle ainda que parcial do mercado por parte do governo.

Há várias maneiras em que um governo que pressupõe que essa tese seja verdadeira pode controlar (parcialmente) o mercado. Listarei apenas alguns:

a) Apesar de deixar livre quem as empresas ou mesmo as pessoas físicas podem contratar, determinar salário mínimo de qualquer trabalhador, ou o piso salarial de cada categoria, ou o teto salarial de cada categoria, ou então a forma obrigatória de reajustar os salários, ou então os benefícios que devem ser pagos aos trabalhadores, seja em dinheiro, como salários adicionais, seja na forma de descanso remunerado (fins de semanas, feriados, férias, etc.) e até mesmo abonado (como é o caso das férias do trabalhador brasileiro), ou então determinando percentuais adicionais para horas extras, trabalho noturno, trabalho perigoso, trabalho insalubre, ou então determinando idades para aposentadoria compulsória, etc.;

b) Controlar, em termos de categoria, até mesmo quem as empresas devem contratar, ao determinar que contratem, obrigatoriamente, um determinado percentual (cota) de deficientes, ou de minorias raciais ou étnicas (negros, indígenas, etc.), ou até mesmo de mulheres;

c) Controlar, através de tabelamento ou do estabelecimento de tetos (preços máximos) e, por vezes, pisos (preços mínimos), o preço que as empresas podem cobrar pelos bens e serviços que oferecem no mercado;

d) Impedir determinados tipos de empresas de atuar em determinados segmentos do mercado, através de reserva de mercado (por exemplo, para empresas 100% — ou outro percentual – nacionais), ou através de monopólios (por exemplo, para empresas estatais ou até mesmo para empresas privadas);

e) Proibir empresas de comercializar bens e serviços que teriam interesse em comercializar; 

f) Obrigar empresas, em determinadas circunstâncias (por exemplo, de escassez de produtos no mercado), a colocar no mercado bens que, naquele momento, não é de seu interesse comercializar;

g) Impedir empresas de realizar fusão ou de adquirir outras empresas, quando as partes diretamente envolvidas estão interessadas em fazer negócio;

h) Obrigar empresas a retirar de circulação determinadas marcas ou, então, vendê-las a concorrentes;

i) Oferecer incentivos e crédito subsidiado para a produção de determinados bens ou serviços ou para sua exportação, e, por vezes, até mesmo pagar produtores agrícolas para não produzir;

j) Oferecer incentivos e crédito subsidiado para determinados tipos de empresas ou para determinados tipos de pessoas, incentivando-as a empreender;

k) Impedir a importação de determinados bens e serviços ou dificultar sua importação através de alíquotas elevadas de taxação;

l) Manipular a taxa de câmbio para alcançar objetivos econômicos, como o aumento da exportação ou a redução da importação;

m) Favorecer, por razões ideológicas, determinados tipos de empresas e/ou produtos, em detrimento de outros, em processos licitatórios ou outros tipos de compras por parte do governo, sem levar em conta uma análise imparcial, do ponto de vista técnico e econômico;

n) Atuar diretamente no mercado através de empresas estatais ou semi-estatais em condições evidentes de favorecimento (como, por exemplo, dispensa de licitação);

Virtualmente tudo isso que foi listado – e a listagem não é exaustiva – tem acontecido no Brasil nos últimos trinta anos (1975 para cá).

O Brasil, apesar da criatividade de nossos políticos em inventar formas de interferir no mercado, não tem conseguido inventar a roda nessa área: todos esses procedimentos já foram testados lá fora, e, em alguns casos, aqui dentro, e falharam – “falhar” querendo dizer que causaram resultados desastrosos, muito diferentes das intenções supostamente nobres que os motivaram. Tabelamentos e controles de salários e preços, controle de importações, reservas de mercado, atuação direta no mercado por parte do governo, monopólios, favorecimento de determinadas empresas e/ou produtos por razões ideológicos, manipulação da taxa de câmbio, etc., tudo isso já foi tentado e abandonado no Brasil por não dar certo. Uma legislação trabalhista extremamente paternalista vem sendo revista aos poucos, mas ainda muito devagar. Mas caminhamos bastante nos últimos quinze anos, desde o início do governo Collor, no sentido de remover boa parte do entulho da intervenção estatal na economia – embora muito ainda esteja por fazer.

Porque virtualmente todas essas tentativas de o estado interferir na economia têm se mostrado desastrosas, aqui e lá fora, porque a economia de um país é algo extremamente complexo, em que qualquer interferência afeta todo o sistema, produzindo resultados imprevistos e, o mais das vezes, indesejáveis, os governos têm mudado de estratégia. Embora ainda critiquem a economia de mercado em seus discursos, os governos hoje, na prática, admitem que ela é a única que funciona – tanto no âmbito da produção (algo já admitido há tempo) como no âmbito da distribuição (algo nem sempre admitido em teoria, embora o seja tacitamente, na prática. Com isso, têm procurado reduzir, com tendência a eliminar, a interferência do estado na economia.

A alternativa que encontraram para lidar com o problema de que alguns segmentos da população não possuem recursos para sair da miséria ou da pobreza, problema esse, segundo os críticos da economia de mercado, causado pelo Capitalismo, foi redistribuir riquezas, isso é, taxar as empresas, e, no plano dos indivíduos, aqueles de maior renda, e, com esses recursos, criar programas sociais, que chegam até mesmo ao nível de pagamento de uma complementação de renda àqueles cuja renda fica abaixo do mínimo, criando assim uma “renda mínima nacional”.  

Embora essa estratégia possa parecer menos danosa ao mercado, se este for visto apenas do ângulo de sua eficácia como estratégia de produção e distribuição de bens e serviços, ela é igualmente danosa ao mercado visto do ângulo de sua justificação moral, como nada mais do que a extensão da liberdade e dos direitos humanos ao reino econômico.

No próximo artigo sobre esse assunto tratarei dessa questão.

Em Campinas, 4 de agosto de 2005  

O mercado (I)

Retomo aqui uma questão já discutida, em parte, no meu artigo "Mercado, mercadorias e a distribuição de riquezas", disponibilizado aqui neste blog há cerca de 80 dias (data: 15/5/2005).

Consta que uma vez, em conversa com a ex-Primeira Ministra da Inglaterra Margareth Thatcher, o ex-Premier soviético Mikhail Gorbachev, preocupado com a escassez de alimentos que existia na União Soviética, lhe teria perguntado: “Que medidas a senhora toma para que o povo inglês sempre tenha o que comer?” A pergunta a pegou desprevenida – porque, na verdade, não fazia nada… O mercado se encarregava disso.

Os críticos da economia de mercado parecem imaginar (pelo menos é o que suas falas sugerem) que o mercado é algum misterioso e sinistro ser que age nos bastidores para garantir que os ricos tenham o que querem e os pobres não tenham o de que precisam. Talvez a metáfora da “mão invisível” usada (apropriadamente, diga-se de passagem) por Adam Smith alimente essa hipostatização (*) do mercado na mente dos seus críticos.

Mas o mercado não é nenhum agente misterioso e sinistro. O termo se refere apenas à totalidade das iniciativas de troca, compra e venda que nós todos fazemos, com base em algo simples: o preço, acertado entre os envolvidos, dos bens e serviços que trocam, compram ou vendem.

Imaginemos a cidade de São Paulo. No mínimo dez milhões de pessoas ali vivem. Entre outras coisas, essas pessoas precisam se alimentar todos os dias. Um indivíduo à la Gorbachev se indagaria: “Que providências são tomadas para que esse povo todo tenha o que comer todos os dias?” – imaginando, naturalmente, que alguém tomaria essas providências: uma pessoa ou um comitê de pessoas. Mas a realidade é que ninguém toma essas providências de forma centralizada. A tarefa de garantir que o povo que mora em São Paulo tenha o que comer é realizada sem que ninguém esteja, centralizadamente, planejando, controlando e coordenando a produção e, portanto, a disponibilidade de alimentos e a sua distribuição para a população. A tarefa é realizada porque milhões de produtores e distribuidores de alimentos, cada um cuidando de seus interesses, sabe que as pessoas nessa enorme cidade precisam se alimentar e se encarregam de disponibilizar os alimentos para a população – por um preço, naturalmente. Como diria Adam Smith, e Mikhail Gorbachev, pela sua pergunta, concordava com ele, tudo parece acontecer “como se” uma “mão invisível” efetuasse o planejamento, controle e coordenação da produção e distribuição de alimentos para a população. Como na União Soviética ele era o responsável último pelo planejamento, controle e coordenação da produção e distribuição de alimentos para a população, e não estava conseguindo cumprir a contento sua tarefa, ele imaginou que, na Inglaterra, a “mão” que fizesse isso fosse a de Thatcher…

Já seria notável que toda uma população de no mínimo dez milhões de pessoas tivesse algo básico com que se alimentar todos os dias: pão e leite, digamos. Mas não: as pessoas têm uma incrível escolha de bens e serviços que atendem não só às suas necessidades básicas mas aos seus desejos mais diferenciados e sofisticados. Há alimentos frescos, congelados, desidratados, em latas, orgânicos, tipicamente brasileiros, dos diversos estados brasileiros, e, também, americanos, chineses, japoneses, italianos, mexicanos, franceses, libaneses, indianos, etc. As pessoas podem comprar os ingredientes e fazer sua própria comida ou podem comprar a comida já pronta – em restaurantes, lanchonetes ou mesmo de ambulantes, ou para consumo em sua própria casa, mediante “delivery”.

Tudo isso é feito sem planejamento, controle e coordenação centralizados. Na economia de mercado, há planejamento, controle e coordenação da produção e distribuição de alimentos (e de outros bens e serviços). Mas cada produtor e distribuidor realiza o seu planejamento, o seu controle, a sua coordenação – de forma totalmente descentralizada, sem que ninguém centralize os processos de planejamento, controle e coordenação.

Nenhum indivíduo, dentro ou fora do governo, sequer sabe que quantidades de quais alimentos está sendo trazida para dentro da cidade em algum momento – digamos, num determinado dia – antes ou durante o processo. Estimativas em geral são feitas, mas sempre depois dos fatos.

O que permite que tudo isso se dê sem a ingerência de um poder central que planeje, controle e coordene as ações dos agentes individuais é o mecanismo de preços livremente estabelecidos entre os agentes econômicos: produtores, distribuidores e consumidores – cada um agindo no seu próprio interesse.

Como disse Adam Smith, em frase famosa, ele tinha todos os dias, à sua disposição, carne, pão e cerveja – não porque o açougueiro, o padeiro e o cervejeiro estivessem preocupados, altruisticamente, com a sua necessidade de alimentos, mas porque cada um deles estava cuidando de seu interesse. Ele, Adam Smith, por sua vez, estava ajudando o açougueiro, o padeiro e o cervejeiro a ganhar sua vida e, talvez, até enriquecer – não porque ele estivesse preocupado com o bem estar deles, mas porque estava cuidando do seu interesse de se alimentar com o que lhe apetecia.

Hoje, depois do fracasso retumbante de todas as tentativas feitas de prover bens e serviços à população de um país através de planejamento centralizado, até os críticos mais radicais da economia de mercado concedem que ela é incomparável na produção de bens e serviços – mas argumentam que o mercado, em si, não é capaz de resolver todos problemas de distribuição, como, por exemplo, o fornecimento de alimentos (habitação, saúde, educação, etc.) adequados à população que vive na miséria e, assim, não tem dinheiro para pagar os preços de mercado. O mercado, afirmam, precisa ser controlado, ainda que não totalmente, pela ação governamental.

Na próxima mensagem sobre o assunto discutirei essa questão.

[* O Dicionário Houaiss dá, entre as várias definições do termo “hipostatização”, a seguinte: “segundo a reflexão moderna e contemporânea, equívoco cognitivo que se caracteriza pela atribuição de existência concreta e objetiva  (existência substancial) a uma realidade fictícia, abstrata ou meramente restrita à incorporalidade do pensamento humano”. (Por incrível que pareça, há um erro de digitação em minha edição do Houaiss: está escrito “incorporaliadde” em vez de “incorporalidade”…]

[Fui levado a retomar o tema por inspiração do livro Applied Economics de Thomas Sowell, que estou lendo, e do qual retirei a referência ao episódio envolvendo Thatcher e Gorbachev e alguns outros exemplos. Thomas Sowell também tem um livro chamado Basic Economics]

Em Campinas, 4 de agosto de 2005

 

Ainda a educação como mercadoria

É um fato de que nós aprendemos ou não o que nos ensinam, independentemente de nós estarmos pagando o ensinante ou de terceiros o estarem.

Mas das duas uma: ou o ensinante está nos ensinando de graça (i.e., gastando seu próprio tempo sem remuneração), como o fazem os pais em relação aos filhos, ou o ensinante está sendo pago — por nós, os aprendentes, por entidades privadas, ou pelo estado (o que quer dizer, em última instância por nós de novo, já que somos nós que pagamos o estado).

Isso quer dizer que, mesmo quando ministrada ou custeada pelo estado, a educação é paga, é, portanto, uma "mercadoria" que se compra.

A idéia de que a educação pública não "mercantiliza" a educação, enquanto a educação privada o faz, é uma bobageira que a esquerda vive repetindo mecanicamente. Em ambos os casos a educação é uma mercadoria que se vende e se compra.

O único jeito de desmercantilizar, até certo ponto, a educação, seria "desoficializá-la" e "informalizá-la", deixar que a gente aprenda o que precisa ou deseja aprender apenas nos contatos não-formais do dia-a-dia, como nesta lista. Aqui a educação não é mercadoria: ninguém a está vendendo nem comprando.

Disse "até certo ponto", porém, porque mesmo aqui não estamos fora do mercado: embora não estejamos nem vendendo nem comprando, estamos trocando informações, conhecimentos, pontos de vista, argumentos, etc. A noção de mercadoria, na verdade, independente de estar envolvido dinheiro em sua transação: podemos simplesmente trocar uma mercadoria por outra.

Em Campinas, 15 de maio de 2005

Mercado, mercadorias e a distribuição de riquezas

1) O Mercado

O que chamamos de mercado é uma abstração. O termo "mercado" é simplesmente uma forma conveniente de se referir ao conjunto de nossas relações de venda-e-compra e de troca de bens e serviços. Ninguém que viva em sociedade está fora do mercado: sempre pode vender, querendo, pelo menos o seu serviço.

Assim, o mercado (como disse na mensagem "O valor do trabalho – 2) somos todos nós que vendemos, compramos, ou trocamos bens e serviços. O mercado é você, quando você contrata uma empregada doméstica, ou uma diarista, ou alguém para cortar a grama do seu jardim ou limpar a fossa de sua casa. O mercado é você quando você compra comida e roupa (em vez de fabricá-las, a partir do zero). O mercado é você quando compra gêneros alimentícios ou tecidos para fabricar sua comida e roupa. O mercado é você, quando compra jornal, revista, livro, disco. O mercado é você, quando você assiste a um filme, a uma peça de teatro, a um concerto (ainda que gratuitamente, sem pagar nada). O mercado é você, quando você coloca os seus filhos na escola, mesmo que a escola seja pública (as pessoas, no Brasil, ainda podem optar por colocar os filhos na escola particular ou na pública — é uma opção). O mercado é você, quando você vende o seu trabalho em troca de dinheiro que lhe permite comprar outros bens e serviços de que você precisa ou que você quer e não tem condições de produzir — ou porque não saiba ou não possa, ou porque não queira, pois tem outras coisas mais prioritárias para fazer.

Quando falamos em "salário de mercado" não estamos nos referindo a uma entidade abstrata e misteriosa que, de forma totalmente desconhecida da nós, fixa o nosso salário. O "salário de mercado" é o salário médio que as pessoas e organizações estão dispostas a pagar por algum tipo de trabalho. A nossa relação com nosso empregador é tal que podemos recusar o salário que ele oferece e buscar outro empregador que nos pague o que achamos que valemos (no sentido subjetivo do termo "valer"). Sempre podemos trabalhar como autônomos. Ou, então, podemos abrir um negócio que vá até mesmo envolver a contratação, por nós, de empregados, em cujo caso nosso papel no mercado se inverte, de vendedor de trabalho para contratador de trabalho alheio. O clamor (totalmente justificado) que hoje há contra o trabalho dito escravo é um reconhecimento de que, em 99% dos casos, num país como o nosso, o trabalho não é escravo e decorre de um relacionamento livre (muitas vezes regido por contrato) entre as partes — dos quais sempre podemos sair com relativa facilidade.

2) Mercadorias

A pessoas que acham que determinadas atividades humanas, como a educação, "têm significado que transcende o mercado" [expressão de Axel de Ferran], e, portanto, não deveria estar submetida às leis do mercado, ou, como se diz hoje em dia, ser tratada como mercadoria ("commodity").

Discordo dessa tese.

Contra-argumento dizendo que também a arte, em suas diversas manifestações, "tem significado que transcende o mercado" — mas nem por isso se vê gente argumentando que a arte não seja também mercadoria, não se venda e compre como mercadoria, como "commodity". Muito menos há gente defendendo uma "arte pública" — e ninguém, que eu saiba, defende o monopólio da arte pelo Estado, dado o fato de que seu significado transcende o mercado…

O mesmo, a meu ver, vale para a educação. O significado e a importância da educação de certo transcendem o mercado. Mas isso não quer dizer que serviços educacionais não podem ser vendidos e comprados, ou que a educação não seja uma mercadoria ou "commodity" como qualquer outra, vendida e comprada em escolas, em livros, em fitas ou discos, ou na Internet.

A falácia, em ambos os casos, está em concluir, da premissa de que "x tem significado que transcende o mercado", a conclusão de que "logo, x não pode ser tratado como mercadoria". Isso é uma falácia porque comete um non
sequitur: uma coisa não segue da outra.

3) A distribuição de riquezas

Há quem diga que o mercado não distribui riquezas — que, para isso, precisaríamos de uma entidade que fica acima do mercado, como o Governo.

O mercado, quando livre, não só permite a geração de riquezas — isso é reconhecido hoje até por socialistas e comunistas, que ainda existem por aí, disfarçados — mas efetua a sua distribuição, fazendo-o pelo critério mais justo possível disponível, o mérito. O mercado não distribui a riqueza igualitariamente nem pelo critério da necessidade, como o quer a esquerda.

Quem adota o critério do mérito como o único critério justo de distribuição de riquezas adota um princípio como este: "De cada um, segundo a sua habilidade e na justa medida de seu desejo e interesse, e a cada um, segundo o que ele merece e faz jus, por sua participação no processo produtivo".

Quem adota esse princípio certamente rejeita o princípio "de cada um segundo a sua habilidade, e a cada um uma quota igual das riquezas produzidas", ou, alternativamente, "de cada um segundo a sua habilidade, e a cada um segundo a sua necessidade".

Esses dois princípios envolvem, não uma distribuição de riquezas, mas, sim, uma tentativa de REdistribuição das riquezas produzidas por alguns para que elas venham a beneficiar aqueles que não participaram de sua produção, ou em quotas superiores à proporção de sua participação.

Na verdade, esses dois princípios, ao reconhecerem que cada um deve contribuir para a riqueza total "segundo a sua habilidade", pressupõe que há diferenças de habilidades nos vários participantes, que uns vão gerar mais riquezas do que outros. É por isso que, hoje, o socialismo e o comunismo reconhecem que o livre mercado é a única forma eficaz e eficiente de gerar ou produzir riquezas. O que o socialismo e o comunismo pretendem — e, nesse aspecto, até mesmo a social-democracia — é que as riquezas geradas não sejam distribuídas pelo mérito, mas, sim, ou em quotas iguais, ou com base na necessidade das pessoas, não em sua participação no processo produtivo de riquezas — e que eles, socialistas, comunistas, ou social-democratas, sejam os distribuidores, agindo como procuradores da população em geral, ou dos necessitados…

Ludwig von Mises uma vez destacou que na distribuição da riqueza feita pelo mercado, nós todos votamos, trocando o nosso dinheiro por bens e serviços (mercadorias) e, assim, fazendo a riqueza dos que os fornecem. Essa forma de distribuição tem o grande mérito adicional de envolver um grande número de participantes, sendo, portanto, bem mais democrática do que a redistribuição de riquezas que a esquerda pretende, em que só votam uns poucos legisladores, ou, muitas vezes, apenas os autores de Medidas Provisórias.

Em Campinas, 15 de maio de 2005

O valor do trabalho (II)

Observa a Cristina Almeida (em discussão na minha lista "LivreMente"): 

"Eu continuo a pensar no valor do trabalho… no valor do trabalho dos professores. É o mercado quem dever ‘taxar’ o valor do trabalho do professor?"

Vou procurar tornar a discussão um pouco mais complexa.

Como procurei deixar claro na minha mensagem "O Valor do Trabalho", há um certo sentido do termo "valor", que chamo de subjetivo, que independe do valor (objetivo) econômico ou financeiro desse trabalho (isto é, do que se paga por ele, caso ele esteja sendo feito num contexto salarial).

Posso escolher a profissão de professor, digamos, por causa desse valor, que não é econômico e muito menos financeiro: posso gostar de ensinar, posso gostar de estar perto de crianças, posso achar que ensinar é a profissão mais importante na Terra, posso achar que fui chamado por Deus (vocacionado) para fazer isso, independentemente do retorno financeiro, etc.

No caso do professor universitário, e falando pessoalmente, minha principal razão para escolher a profissão, já lá se vão 35 anos, foi um valor subjetivo, não econômico: o grande controle sobre o meu tempo que ela me proporciona e a conseqüente liberdade de (entre outras coisas) ficar discutindo essas coisas aqui no meu tempo de trabalho (que não é o caso desta mensagem específica: são 7h da manhã de domingo e estou aqui desde às 5h30m — "aqui" sendo o meu computador e a Internet…).

Se formos falar no "valor do trabalho" nesse sentido de "valor subjetivo", nossa discussão vai se enveredar por caminhos totalmente diversos. Vamos estar falando de sentido de missão ou vocação, de realização pessoal, etc. Vamos estar discutindo o fato de que há muita gente que trabalha, voluntariamente, virtualmente de graça. Religiosos, em geral, pelo menos os mais tradicionais, trabalham em troca de muito pouco. Venho de uma família de pastor, e sei bem o que é isso. O religioso trabalha porque acredita no que faz, e não trabalha para ganhar dinheiro — embora precise de algum para se manter (e, no caso dos não celibatários, aos seus). Na verdade, a gente que literalmente paga para trabalhar.

O sentido de valor que discuti na seqüência do artigo sobre o Wal-Mart, tem que ver com outro tipo de valor, o chamado "valor econômico" — ou até mesmo financeiro. Tem que ver, em última instância, com remuneração, com salário.
E foi em relação a esse tipo de valor que disse que não há um critério absoluto que permita determinar quando vale, em dinheiro, o seu ou o meu trabalho para terceiros. Nosso trabalho vale o que alguém está disposto a pagar por ele.

O mercado não "taxa" o nosso salário. Na verdade, como já disse, o mercado é uma abstração. O mercado somos nós todos que compramos, vendemos, trocamos bens e serviços. O mercado é você, quando você contrata uma empregada doméstica ou uma diarista ou alguém para cortar a grama do seu jardim ou limpar a fossa de sua casa. O mercado é você quando você compra comida, roupa, livro, disco, etc. O mercado é você quando você assiste a um filme, a uma peça de teatro, a um concerto. O mercado é você quando coloca os seus filhos na escola, mesmo que a escola seja pública (as pessoas, no Brasil, ainda podem optar por colocar os filhos na escola particular ou na pública — é uma opção). O mercado é você, quando você vende o seu trabalho em troca de dinheiro que lhe permite comprar outros bens e serviços de que você precisa ou que você quer e não tem condições de produzir.

Assim sendo, o mercado não "taxa" o nosso salário: caso sejamos assalariados, ele, o mercado (i.e., alguém) nos paga o nosso salário. A nossa relação com nosso empregador é tal que podemos recusar o salário que ele oferece e buscar alguém mais que nos pague o que achamos que valemos. Ou podemos trabalhar como autônomos. Ou abrir um negócio que vá até mesmo envolver a contratação de funcionários, invertendo o nosso papel. O clamor que hoje há contra o trabalho dito escravo é um reconhecimento de que, em 99% dos casos, num país como o nosso, o trabalho não é escravo e decorre de um relacionamento livre (muitas vezes regido por contrato) entre as partes — dos quais sempre podemos sair com relativa facilidade.

A tese do Thomas Sowell, que eu totalmente endosso, é de que não basta que alguém tenha dinheiro para nos pagar mais para que concluamos que, logo, esse alguém deve nos pagar mais.

Essa tese, que causa revolta em alguns, é, tenho certeza, endossada por todos nós na prática. Duvido que qualquer um de nós paguemos às nossas empregadas domésticas tudo aquilo que podemos pagar — aquilo que elas, no sentido subjetivo do termo, valem para si mesmas (ou até mesmo para nós). Nós pagamos, em geral, o preço médio que o mercado (isto é, as outras pessoas) estão dispostas a pagar. Se pagarmos muito menos, correremos o risco de perder a empregada. Se pagarmos muito mais, estaremos perdendo dinheiro, porque poderíamos arrumar outra empregada, que faria a mesma coisa, por um salário menor.

Espero que a questão tenha ficado mais clara agora.

Há um artigo curioso do Diogo Mainardi na VEJA do dia 18 explicando porque ele não faz palestras… Tem relação com o que está sendo discutido aqui.

Em Campinas, 15 de maio de 2005

O valor do trabalho (I)

O artigo de Thomas Sowell que eu transcrevi na mensagem anterior levanta uma questão interessante, que é relevante especialmente para professores, que talvez formem a categoria que mais se considera injustamente mal remunerada neste país.

a) Quanto vale, na média, o trabalho de uma determinada categoria profissional, em reais ou dólares (digamos, o trabalho de professores de educação básica)?

b) E quanto vale, na média, o trabalho de diferentes categorias profissionais, relativamente umas às outras (o trabalho de professores de educação básica, por exemplo, vis-à-vis o trabalho de, novamente por exemplo, empregadas domésticas e jogadores de futebol)?

Em relação à primeira questão, a resposta de um liberal, que defende a economia de mercado, como eu, seria forçosamente a de que não há forma de aferir, para um determinado contexto, quando vale, intrinsecamente, o trabalho de uma categoria profissional ou de um profissional específico. O trabalho de uma categoria profissional ou de um profissional específico vale aquilo que o mercado está disposto a pagar por ele. Ponto final.

Eu posso estar subjetivamente convencido de que uma palestra que eu ministro vale 50 mil dólares (como a de Alvin Toffler ou de Daniel Goleman), dado o seu conteúdo original e importante, dada a forma atraente com que eu a apresento, etc. Mas se eu, diferentemente de Toffler e de Goleman, não consigo encontrar ninguém que esteja disposto a pagar esse montante pela minha palestra, e o máximo que eu consigo receber por uma palestra é cerca de 5% dessa valor, não há como eu possa argumentar, para os que se dispõem a pagar-me 2.500 dólares, que eles estão tentando me explorar, ou que eu estarei sendo mal pago se aceitar esse valor, que representa apenas 5% do que eu acho que a minha palestra realmente vale. Minha palestra vale aquilo que o mercado está disposto a pagar por ela.

No caso de professores de educação básica, que se consideram, em regra, extremamente mal pagos, injustiçados, explorados, a única resposta que se pode dar a eles, como Sowell claramente indica, é: pois bem, encontrem alguma escola disposta a lhes pagar mais, e vocês não vão se sentir mais tão mal assim… Se encontrarem, terão mostrado que seu emprego anterior lhes pagava menos do que valiam. Se não encontrarem, terão de aceitar o fato de que seu trabalho não vale mais do que a sociedade (o mercado) está disposta a lhes pagar aqui neste país. Assunto encerrado.

Mas, em relação agora à segunda pergunta, é possível comparar o valor do trabalho de uma categoria profissional em relação ao valor do trabalho de outra?

Apesar de professores, em regra, acharem que seu trabalho é muito mais importante do que o trabalho de empregadas domésticas ou jogadores de futebol, e, portanto, deve valer mais no mercado, o mercado nem sempre está de acordo — especialmente no caso de jogadores de futebol. Embora possa parecer incrível aos professores, o mercado está disposto a pagar dezenas de milhares de dólares por mês para um bom jogador de futebol, e não está disposto a pagar mil dólares mensais para um bom professor de primeira a quarta-série da Educação Fundamental.

Por que se dá isso? Em geral porque quem está disposto a pagar, digamos, 50 mil dólares por mês para um jogador (ou um técnico) de futebol, espera ganhar mais do que isso com a presença do jogador (ou do técnico) no time. Se o jogador é realmente bom, vai atrair público aos estádios, vai atrair patrocínio da televisão ou outras formas de endosso, vai ajudar a melhorar a reputação do time e isso vai, a médio e longo prazo, representar ainda melhores retornos. É verdade que tudo isso é expectativa, e os fatos podem desmenti-las. Mas a expectativa existe, e é ela que justifica o pagamento do alto salário.

No caso de professores, é raro que uma escola tenha expectativa de maiores ganhos com a contratação de um professor. Além disso, há, entre os professores, sacramentada por sindicatos da categoria, uma certa presunção de que um professor de uma determinada série ou ciclo não deve ganhar mais do que os outros — e isso tende a nivelar por baixo o salário dos professores. (Essa presunção vale até mesmo no Ensino Superior).

Há outras razões subsidiárias: a carreira de um jogador de futebol é curta — e a de um técnico, precária e arriscada… A de um professor, pelo contrário, pode ser longa, e espera-se até mesmo que ele melhore quanto mais velho fique…

Um professor pode até entender isso: afinal de contas, um bom jogador de futebol tem cerca de 10-15 anos de carreira e consegue levar milhares de pessoas aos estádios… O que ele vai ter dificuldade de entender é porque empregadas domésticas, que exercem uma função razoavelmente não qualificada, chegam a ganhar, em algumas regiões do país, bem mais do que professores ganham em outras. E babás especializadas não raram ganham mais na mesma região.

As considerações feitas por Thomas Sowell no caso dos empregados da Wal-Mart valem aqui. Ninguém está preso pela vida inteira a um determinado emprego. Se não está contente com o salário, e acha que pode ganhar mais em algum outro lugar, está livre para buscar melhores condições de trabalho. Se acha que não vai conseguir ganhar mais fazendo o mesmo trabalho, que melhore as suas qualificações e procure um tipo diferente de trabalho.

O importante é reconhecer que não há uma forma de medir o valor de um determinado trabalho de forma absoluta. O valor de um trabalho é sempre relativo à necessidade que o mercado tem daquele trabalho. Quanto existem poucos médicos, o trabalho de um médico vale mais… Se o mercado está com oferta excessiva de advogados, o trabalho de um advogado vai valer menos…

Há estados nos Estados Unidos em que professores de educação básica ganham menos do que lixeiros. Neles, não há muita gente disposta a trabalhar como lixeiro. Logo, ou se paga melhor os lixeiros, ou não haverá ninguém para coletar o lixo (com conseqüências desastrosas para a saúde e o bem-estar da populacão e para o meio ambiente). Por outro lado, a função do professor tem ainda um atrativo que independe do salário e que é difícil de explicar. Mas é esse atrativo que faz com que grandes quantidades de pessoas se disponham a ir para o magistério, mesmo com o valor relativamente baixo que esse trabalho tem no mercado. E, quando professor faz greve, a sociedade em geral não se molesta.

Em Campinas, 14 de maio de 2005

Deve a Wal-Mart pagar mais aos seus empregados?

Traduzi e transcrevo a seguir (em tradução e no original) um artigo de Thomas Sowell divulgado no site www.CapMag.com no dia de hoje.

Em São Paulo, 9 de Maio de 2005

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A Cruzada contra a cadeia de lojas Wal-Mart

Thomas Sowell (9 de Maio de 2005 – [www.CapMag.com])

A mais recente cruzada da esquerda é contra a cadeia de lojas Wal-Mart.

Uma grande manchete num longo artigo no New York Times pergunta: "Será que um gigante do varejo não pode pagar mais?"

É claro que a Wal-Mart pode pagar mais. Também o New York Time pode pagar mais aos seus empregados. Todos nós podemos pagar mais pelo que compramos ou alugamos. Não me diga que você não pode pagar dez centavos a mais por este jornal. A questão é: por que deveria qualquer um de nós pagar mais do que temos de pagar?

Segundo o New York Times, há um livro escrito "por um grupo de investigadores", que deve ser publicado no Outono, em que se argumenta que a Wal-Mart tem "obrigação" de "tratar seus empregados melhor".

Uma informação dessas dificilmente pode ser chamada de notícia. Nada é mais fácil do que achar um grupo de acadêmicos – "investigadores", se você concorda com eles – disposto a defender virtualmente qualquer tese sobre qualquer assunto. Nem é essa noção de "obrigação" algo novo.

Durante décadas, tem havido essa conversa elevada, mas fiada, sobre a "responsabilidade social" das empresas, ou acerca de um "pacto social" entre as gerações que garanta a manutenção da Seguridade Social. Você se lembra de ter firmado esse pacto? Nem eu.

O que toda essa conversa piedosa significa é que, quando um grupo de pessoas quer que terceiros paguem por algo que desejam, afirmam que aquilo que desejam é uma "responsabilidade social" ou uma "obrigação" desses terceiros.

Enquanto a gente comprar essa conversa fiada, eles continuam a oferecê-la.

Para tentar fazer com que suas demandas pareçam algo mais do que noções arbitrárias de gente metida no que não conhece, que é o que eles são, alguns desses metidos se referem ao nível oficial de pobreza – como se isso fosse algo objetivo, e não o que realmente é, a saber, uma linha arbitrária definida por noções inventadas por algum burocrata governamental.

Segundo o New York Times, o empregado médio da Wal-Mart recebe um salário que fica acima da linha da pobreza para uma família de três, mas que cai abaixo da linha da pobreza para uma família de quatro. O que é que devemos concluir disso?

A noção comumente alardeada de "um salário que permita viver" é calculada com base em uma família de quatro. E, previsivelmente, o New York Times descobre um empregado da Wal-Mart que reclama de que não está ganhando "um salário que permita viver".

Como ele está vivendo, se não está ganhando um salário que permita viver?

Devem as pessoas ser pagas segundo aquilo que elas "precisam" em vez de segundo aquilo que vale o seu trabalho? Devem elas decidir que querem ter uma família grande e, depois, jogar o custo de sustentar essa família sobre terceiros?

Se seu trabalho não vale o suficiente para pagar por tudo o que elas querem, seria obrigação dos outros cobrir a diferença – em vez de responsabilidade sua melhorar suas habilidades para que possam vir a ganhar aquilo de que precisam?

Esperam os empregados da Wal-Mart ser subsidiados pelos clientes das lojas, pagando maiores preços, ou pelos acionistas, recebendo menores dividendos por suas ações? Boa parte das ações de uma companhia rica é propriedade de fundos de pensão que pertencem a pequenos investidores, como professores, policiais e outros que estão longe de serem ricos.

Por que é que alguns devem se aposentar com menos dinheiro, decorrente de um menor retorno aos seus investimentos em ações, para que os empregados da Wal-Mart sejam pagos aquilo que o New York Times deseja que lhes seja pago, em vez de receberem aquilo que vale o seu trabalho no mercado? Afinal de contas, eles certamente não estariam trabalhando para a Wal-Mart se alguém achasse que seu trabalho valia mais…

Nem estão eles obrigados a continuar a trabalhar para a Wal-Mart pelo resto de suas vidas. Para muitos deles, o emprego inicial na Wal-Mart é um trampolim para empregos melhores dentro da própria cadeia de lojas ou, à medida que obtêm mais experiência, para empregos melhores em outras companhias.

Pensem sobre isto: o que os metidos estão dizendo é que terceiros como eles próprios – que não estão pagando nada para ninguém – devem poder determinar quanto alguma outra pessoa, ou alguma empresa, deveria estar pagando para aqueles que trabalham para ela.

Seria devastador para os egos dos intelectuais descobrir, quanto mais admitir, que o mundo dos negócios tem feito muito mais para reduzir a pobreza no mundo do que todos os intelectuais juntos. Em última instância, é somente a riqueza que pode reduzir a pobreza, e a maioria dos intelectuais não tem a menor idéia de quais ações e políticas aumentam a riqueza nacional — nem nenhum interesse em descobrir…

Os intelectuais certamente não sentem nenhuma "obrigação" de aprender economia por um sentido de "responsabilidade social", muito menos por causa de qualquer "pacto social" que requeira que eles saibam do que estão falando antes de vomitar sua retórica auto-justificatória.

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The Crusade Against Wal-Mart

by Thomas Sowell (May 9, 2005 – [www.CapMag.com])

The latest liberal crusade is against the Wal-Mart stores.

A big headline on a long article in the New York Times asks "Can’t A Retail Behemoth Pay More?"

Of course they can pay more. The New York Times could pay its own employees more. We could all pay more for whatever we buy or rent. Don’t tell me you couldn’t have paid a dime more for this newspaper. But why should any of us pay more than we have to?

According to the New York Times, there is a book "by a group of scholars" due to be published this fall, arguing that Wal-Mart has an "obligation" to "treat its employees better."

This can hardly be called news. Nothing is easier than to find a group of academics — "scholars" if you agree with them — to advocate virtually anything on any subject. Nor is this notion of an "obligation" new.

For decades, there has been lofty talk abou
t the "social responsibility" of businesses or about a "social contract" between the generations when it comes to Social Security. Do you remember signing any such contract? I don’t.

What all this pious talk amounts to is that when third parties want somebody else to pay for something, they simply call it a "social responsibility," an "obligation" or a "social contract."

So long as we keep buying this kind of stuff, they will keep selling it.

In order to make such demands look like more than just the arbitrary notions of busybodies — which they are — some of these busybodies refer to the official poverty level, as if it were something objective, rather than what it is in fact, simply an arbitrary line based on the notions of government bureaucrats.

According to the New York Times, Wal-Mart’s average employee earns an income that is above the poverty line for a family of three but below the poverty line for a family of four. What are we supposed to conclude from this?

The fashionable notion of "a living wage" is a wage that will support a family of four. And, sure enough, the New York Times finds a Wal-Mart employee who complains that he is not making "a living wage."

How is he living, if he is not making a living wage?

Should people be paid according to what they "need" instead of according to what their work is worth? Should they decide how big a family they want and then put the cost of paying to support that family on somebody else?

If their work is not worth enough to pay for what they want, is it up to others to make up the difference, rather than up to them to upgrade their skills in order to earn what they want?

Are they supposed to be subsidized by Wal-Mart’s customers through higher prices or subsidized by Wal-Mart’s stockholders through lower earnings? After all, much of the stock in even a rich company is often owned by pension funds belonging to teachers, policemen and others who are far from rich.

Why should other people have to retire on less money, in order that Wal-Mart employees can be paid what the New York Times wants them paid, instead of what their labor is worth in the marketplace? After all, they wouldn’t be working for Wal-Mart if someone else valued their labor more.

Nor are they confined to Wal-Mart for life. For many, entry-level jobs are a stepping-stone, whether within a given company or as experience that gets them a better job with another company.

Think about it: What the busybodies are saying is that third parties like themselves — who are paying nothing to anybody — should be determining how much somebody else should be paying those who work for them.

It would be devastating to the egos of the intelligentsia to realize, much less admit, that businesses have done more to reduce poverty than all the intellectuals put together. Ultimately it is only wealth that can reduce poverty and most of the intelligentsia have no interest whatever in finding out what actions and policies increase the national wealth.

They certainly don’t feel any "obligation" to learn economics, out of a sense of "social responsibility," much less because of any "social contract" requiring them to know what they are talking about before spouting off with self-righteous rhetoric.

Preços monitorados e administrados

Prestem atenção ao Editorial da Folha de S. Paulo de hoje, 10/1/2005:

"Mais uma vez, os preços monitorados e administrados desempenharam o papel de vilão no aumento do custo de vida na cidade de São Paulo. Os 16 itens enquadrados nessa categoria, que representam apenas 3% dos 525 pesquisados, foram responsáveis por 44,5% da taxa [de inflação] acumulada em 2004, que foi de 6,56%, segundo o Índice de Preços ao Consumidor da Fipe (Fundação Instituto de Pesquisas Econômicas). Seis produtos -luz, água e esgoto, telefone, gasolina, planos de assistência médica e educação- responderam por 35% do IPC. . . . Para 2005, a alta de preços deve ser novamente puxada pelos preços administrados…"

Admitidamente, a razão que o governo invoca para "monitorar" ou "administrar" preços, não deixando que o mercado os regule, é… não deixar que os preços de bens e serviços críticos, como luz, água e esgoto, telefone, gasolina, saúde e educação, AUMENTEM DEMAIS, colocando esses bens e serviços fora do alcance da população.

No entanto, consistentemente, o preço desses bens e serviços monitorados e administrador pelo governo É O QUE MAIS AUMENTA. Eles aumentaram mais em 2004 e a previsão é de que vão aumentar mais em 2004.

Em todo lugar que o governo bota as suas mãos acontece o oposto das intenções do governo — supondo que as intenções declaradas sejam as intenções reais.

Cortland, OH, 10 de janeiro de 2005