“Criança, não verás nenhum país como este!”

Consta que De Gaulle teria dito que o Brasil não é um país sério. Estava certo ele. Vejam só o que descobri hoje (19/3/2012).

Para ligar para um telefone celular a partir de um telefone fixo Net Fone brasileiro (da Net, via Embratel), no Plano “Fale do Seu Jeito” (sem assinatura e franquia, pagando apenas pelo tempo que se fala em cada tipo de ligação), custa, POR MINUTO:

* Se o celular chamado estiver nos Estados Unidos, R$ 0,69220 (menos de 70 centavos de real por minuto).

* Se o celular chamado estiver em qualquer outro país do mundo, R$ 1,15608 (um pouco mais de um real e 15 centavos por minuto).

* Se o celular chamado estiver no Brasil, em DDD diferente daquele de onde a chamada se origina, R$ 1,76831 (quase dois reais por minuto).

Ou seja, nessas circunstâncias, falar de um Net Fone em São Paulo com um celular em São José dos Campos, Santos, Sorocaba ou Campinas custa 2,55 vezes o preço que custa falar com um celular nos Estados Unidos e 1,53 vezes o preço que custa falar com um celular em qualquer outro país do mundo.

“Criança, não verás nenhum país como este!” (Olavo Bilac).

Em São Paulo, 19 de Março de 2012

Escola e Ensino não são Sinônimos de Educação

Post que publiquei no Blog das Editoras Ática e Scipione em 26 de Setembro de 2011 no URL http://blog.aticascipione.com.br/eu-amo-educar/escola-e-ensino-nao-sao-sinonimos-de-educacao.

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Por que a escolarização é obrigatória, e não a educação? A maior parte das pessoas considera escola e educação como conceitos basicamente equivalentes, e, portanto, nem sequer lhes ocorre que poderiam educar seus filhos em casa, sem precisar enviá-los à escola.

1. Paradigmas

Paradigmas são construídos à medida que um determinado conjunto de ideias passa a ser aceito de forma tácita pela maior parte de um grupo – o grupo para o qual essas ideias são especialmente relevantes e importantes (ou o foram, em uma determinada fase de sua história).

Na realidade, para que se construa um paradigma é necessário que as ideias que compõem esse conjunto sejam consideradas não só verdadeiras, mas evidentes – para dizer a verdade, tão evidentes que se acredite ser desnecessário explicitá-las e demonstrar que há evidência e bons argumentos que as sustentam (se é que há).

Para quebrar um paradigma é necessário desconstruí-lo. Para desconstruir um paradigma bem firmado na mente de um grupo de pessoas, é necessário frequentemente mostrar suas falhas – até que alguém se disponha a prestar atenção. Quando alguém mais é convencido, serão dois a repetir as falhas do paradigma. Assim, o movimento prosseguirá até que o grupo dos que se opõem cresça e ameace seriamente a estabilidade dele. Neste momento, os que lhe eram favoráveis começam a considerar o grupo de críticos como visionários, românticos ou simplesmente loucos.

Thomas Kuhn descreveu esse processo de forma bastante interessante no âmbito da ciência. Seu livro The Structure of Scientific Revolutions (A Estrutura das Revoluções Científicas), de 1962, argumenta que verdadeiras revoluções científicas são raras, mas acontecem. Durante a maior parte do tempo os cientistas simplesmente dão por pressuposto que o paradigma sob o qual trabalham está acima de qualquer suspeita e, por isso, não o questionam e simplesmente ignoram críticas feitas a ele. Em geral, os pesquisadores mais velhos investiram muito nas concepções vigentes (quem sabe escreveram vários livros e artigos defendendo-as), o que os leva a raramente admitirem falhas.

No entanto, há um ponto em que as críticas são tantas, e tão fortes, que aqueles que ainda não estão tão “apegados” ao velho paradigma passam a observá-lo com certo ceticismo e a contemplar a possibilidade de adotar, ou mesmo criar, um novo modelo. É assim que as coisas acontecem na ciência. Paradigmas se sucedem vagarosamente e não sem muitas dificuldades, já que algumas pessoas preferem morrer a mudar de ponto de vista.

Se isso acontece na ciência, que seria a prática mais racional existente entre os humanos, é de esperar que os paradigmas tenham vida relativamente segura entre os componentes dos grupos que os aceitam na política, na religião e, como procurarei mostrar, na educação.

Na política, se alguém é de direita, ou socialista, ou de esquerda ou, alternativamente, liberal, em geral considera esse paradigma como dado e simplesmente ignora comentários adversos. Na religião, se alguém é judeu, ou cristão, ou muçulmano, faz a mesma coisa. Por isso a maioria das pessoas morre na mesma religião em que nasceu. Mudança de religião ou abandono total de qualquer religião são fenômenos relativamente raros – embora nos últimos tempos pareçam mais comuns.

A situação na educação é parecida. Embora para quem estude a área com mais cuidado esteja claro que educação é uma coisa, ensino outra, e escola ainda uma outra, na cabeça da maior parte das pessoas esses termos são basicamente sinônimos, ou, pelo menos, equivalentes.

Nossa lei maior da educação, a Lei de Diretrizes e Bases da Educação Nacional, deixa claro no primeiro parágrafo de seu primeiro artigo que disciplina “a educação escolar, que se desenvolve, predominantemente, por meio do ensino, em instituições próprias” – ou seja, em escolas.

No entanto, nem mesmo adotando como foco a educação que tem lugar através do ensino em escolas, a lei deixa de mencionar, em seu segundo artigo, que “a educação é dever da família e do Estado”. Tal especificação é curiosa, vindo, como vem, no artigo seguinte ao que esclarece que a norma disciplinará apenas a educação escolar, pois a educação provida no lar não parece se exaurir naquela fornecida nas salas de aula… Mas deixemos isso para lá.

Em parte porque a lei foca a educação que tem lugar através do ensino escolar, ela parece considerar os termos educação, ensino e escola de forma quase intercambiável em alguns lugares. Isso contribui para reforçar a ideia, que é parte do paradigma, que esses conceitos se referem, todos, à mesma coisa. Para alterar este senso comum, precisamos descontruir essa equivalência. É isso que venho tentando fazer neste blog.

2. A educação em casa (Home Education)

No momento, estou relendo um livro instigante, que conheci há alguns anos. Trata-se de Teach Your Own: The John Holt Book of Homeschooling (Ensine os seus: O livro de Educação em Casa de John Holt), autorado por John Holt e Pat Farenga (Perseus Publishing, 2003).

A obra é uma revisão, por Pat Farenga, de dois livros anteriores:Teach Your Own: A Hopeful Path for Education (Ensine os seus: Um caminho que traz esperança para a Educação), de John Holt, publicado em 1981, e The Beginner’s Guide to Homeschooling (Guia de Educação em Casa para o iniciante), do próprio Pat Farenga, publicado em 2000.

Nos Estados Unidos e em alguns outros países mais desenvolvidos a opção da Educação em Casa, ou Home Education, com a consequente desescolarização das crianças, já virou um movimento digno de nota há algum tempo.

Hoje, acho difícil que a proposta de que os pais eduquem os filhos em casa, em vez de enviá-los à escola, encontre eco no Brasil – até porque a lei proíbe que isso se dê no caso da Educação (ou seria Ensino?) para as crianças e adolescentes na faixa de 6 a 14 anos.

Aqui no Brasil, alguns pais já realizaram tentativas nesse sentido. Pediram permissão ao MEC e se comprometeram a levar os filhos para fazerem as provas oficiais etc., mas a permissão não apenas foi negada como alguns foram processados pelas autoridades educacionais (embora fossem professores competentes que certamente fariam um bom trabalho – talvez até melhor do que aquele que se realizaria na escola). No fim, tiveram de desistir, porque no Brasil não é a educação que é obrigatória: é a escolarização – na verdade, o Ensino Fundamental para crianças e adolescentes. O que eu acho um absurdo.

Por que a escolarização é obrigatória, e não a educação? Acredito que isso se dê em grande parte porque a maior parte das pessoas considera escola e educação como conceitos basicamente equivalentes, e, portanto, nem sequer lhes ocorre que poderiam educar seus filhos em casa, sem precisar enviá-los à escola – e que os resultados, em muitos casos, seriam até mesmo melhores. O livro de John Holt elabora essa tese que deveria ser ou se tornar evidente: um novo paradigma.

Por muito tempo as pessoas se educaram fora da escola porque simplesmente não havia escolas, ou não havia escolas para todos. Mesmo quando passou a haver escolas para quase todos, elas só cobriam uma fase limitada da vida, em geral a infância – a faixa etária de 7 a 10 anos, especificamente. Antes dessa idade, as crianças eram educadas em casa. Depois dessa idade – e pelo resto de suas vidas – continuavam a se educar fora da escola, através do trabalho, do lazer e ao simplesmente viverem suas vidas.

O processo de se preparar para uma profissão era um estágio de educação não-formal, para o qual não havia escolas. O sujeito se tornava um aprendiz, que trabalhava junto de um mestre e oportunamente se graduava e assumia, de forma desassistida, o exercício da profissão.

A escola que hoje temos é uma instituição criada na era industrial, que persiste em adotar várias das características dos processos industriais de produção (manufatura) em massa. A escola pega crianças que são diferentes uma das outras em termos de talentos naturais, interesses, estilos de aprendizagem, níveis de curiosidade, motivações etc. e coloca todas numa mesma forma para que, ao final do processo, se tornem basicamente intercambiáveis. Todo mundo tem de aprender a mesma coisa, na mesma hora, do mesmo jeito. Isso, além de não fazer bem a ninguém, faz mal a muitas crianças que são obrigadas a se dedicar, por horas a fio, a atividades pelas quais não têm o menor interesse e, em muitos casos, o menor talento, com grande prejuízo para seu desenvolvimento.

Diante deste cenário, por que proibir que os pais que conhecem bem os seus filhos e têm condições e interesse em educá-los fora da escola possam fazê-lo? Numa sociedade como a nossa, em que a informação existe em grande quantidade e o acesso a ela é simples, e a comunicação, inclusive com especialistas, é relativamente fácil, as pessoas (jovens e adultas) já obtêm a maior parte de sua educação – pelo menos aquela que importa – fora da escola, através dos meios de comunicação, entre os quais se destacam a televisão, o rádio, as revistas e especialmente a internet (web, e-mail, mensagens instantâneas, fóruns, grupos de discussão, redes sociais).

Não há a menor dúvida de que um adolescente tem seus interesses próprios, não escolares, e se educa para cultivá-los e desenvolvê-los fora da escola. Nenhuma escola ensina crianças, adolescentes e jovens a jogar videogames, estejam eles em arcadas, em computadores, em telefones ou em consoles grandes ou pequenos.

Mas os meios de comunicação educam em outras áreas também: a área dos costumes, das atitudes e dos valores. Meu neto de seis anos esta semana me perguntou se eu achava que ele um dia teria filhos. Disse que achava que sim, caso ele encontrasse uma namorada de quem gostasse muito e com quem resolvesse se casar. Ele não se lembrou de dizer que há muita gente que tem filhos e não é casada, mas me retrucou que há muita gente casada que não tem nenhum filho, e eu tive de admitir que é verdade – mas acrescentei que a maioria tem um ou mais filhos, meninas ou meninos.

A isso ele observou: mas tem gente que também tem filho que é gay. Fui pego meio de surpresa, e tentei descobrir se ele realmente sabia o que estava dizendo. Sabia, sim. Conversei com o pai dele, depois, para entender porque ele havia dito aquilo. A resposta foi: “As novelas, Eduardo, as novelas. Ali aparecem, agora, todo dia, casos de pais que descobrem que os filhos são gays”. Independentemente do teor daquilo a que as crianças estão expostas na televisão, elas se educam no processo e passam a considerar o homossexualismo algo natural; passam a imaginar que, ao nascer, as crianças são meninos, meninas ou gays.

O mesmo neto me disse que, na escola nova que está frequentando, ele tem duas namoradas. Perguntei se isso era certo, ou “legal”, e a resposta foi que nas novelas um monte de gente tem mais de uma namorada… (Logo, deve ser certo, não é verdade?).

Apesar de ser realidade o fato de crianças como o meu neto estarem se educando pela televisão (que está fora da escola), caso os seus pais resolvam educá-las em casa (também fora da escola), eles poderão ser processados. Bem, como já comentei, acho isso um absurdo.

3. A Educação sem ensino

Já citei neste blog uma passagem de um outro livro de John Holt em que ele discute como as crianças – e as pessoas em geral – aprendem. Vale a pena retomá-la, agora neste contexto, para mostrar que a maior parte das coisas realmente importantes são aprendidas por processos diferentes do ensino formal:

Bill Hull uma vez disse a John Holt que “se a gente ensinasse as crianças a falar, elas nunca aprenderiam”. Vou transcrever a seguir a maior parte do artigo “Teaching Children How to Speak”, de Holt, no qual ele discorre sobre as implicações do que o outro lhe dissera. Mas antes devo dizer que Hull, Holt, Everett Reimer, A. S. Neill, Paulo Freire, e, por que não dizer, Ricardo Semler, são todos pássaros da mesma plumagem.

Eis o que diz John Holt no artigo:

“Vamos supor que tomemos a decisão de ‘ensinar’ as crianças a falar. Como é que a gente faria? Primeiro, um comitê de especialistas analisaria a fala e a quebraria em um certo número de ‘habilidades requeridas para a fala’. Provavelmente os especialistas diriam que, visto que a fala é composta de sons, seria necessário, primeiro, ensinar a criança a emitir todos os sons requeridos por sua língua materna. Sem isso não seria possível ensiná-la a falar… Sem dúvida eles classificariam os diversos sons dos mais fáceis e frequentes para os mais difíceis e raros. E o professor então começaria a ensinar à criança, primeiro os sons mais fáceis e frequentes, depois os mais difíceis e raros, até passar por toda a lista. Talvez, para não ‘confundir’ a criança, a gente a colocasse em um ambiente segregado, isolado da vida normal, para que ela não ouvisse a fala regular dos já falantes, mas apenas repetidamente ouvisse, em cada estágio, os sons que o professor está tentando ensinar a ela. Ao lado de uma lista de sons, os especialistas comporiam uma lista de sílabas que combinassem os sons, e uma lista de palavras selecionadas que combinassem as sílabas pertencentes à lista de sílabas. Num segundo estágio, o professor ensinaria a criança a combinar sons em sílabas, num terceiro, a combinar sílabas em palavras. Em estágio subsequente, o professor ensinaria a criança a combinar palavras em frases e sentenças. Mas, antes disso, teria de ensinar à criança as regras gramaticais que regem a formação de frases e sentenças. Tudo seria completa e meticulosamente planejado, nada sendo deixado ao acaso. Em cada estágio haveria uma grande quantidade de exercícios práticos, revisões, testes, para garantir que nenhuma criança esquecesse o que já lhe havia sido ensinado. Suponhamos que fizéssemos isso. O que aconteceria? O que aconteceria seria que a maior parte das crianças, antes de ir muito longe, ficaria confusa, frustrada, desencorajada, humilhada, temerosa – e provavelmente desistiria de aprender a falar. Se, fora da sala de aula, elas vivessem vidas normais de crianças, poderiam, sem prejuízo, simplesmente ignorar o ‘ensino’ e aprender a falar do jeito normal. Se, entretanto, a escola tivesse controle integral e completo de sua vida desde os primeiros meses de vida (o sonho de demasiados educadores), elas buscariam refúgio no silêncio e no fracasso deliberado, como tantas fazem, quando tentamos ensiná-las, não a falar, mas a ler e escrever…”.

4. Conclusão

É isso. Educação é uma coisa, ensino outra, e escola ainda uma outra. Quanto mais cedo a gente desimbricar esses conceitos e deixar de confundi-los e considerá-los equivalentes, ou quase sinônimos, melhor.

Em São Paulo, 26 de Setembro de 2011, transcrito aqui em 11 de Outubro de 2011.

As Classes Econômicas Brasileiras

No artigo abaixo, publicado hoje na Folha de S. Paulo, Fernando Canzian faz várias afirmações. Queria pinçar apenas algumas delas.

1) Apenas cerca de 3 milhões de brasileiros (1,5% do total) vivem em famílias com renda familiar mensal superior a R$ 10.201. Note-se que estamos falando de famílias, não de indivíduos. O objeto de discurso é um coletivo, a família. Esta é a chamada Classe A.

2)Cerca de 30 milhões de brasileiros (15% do total) vivem em famílias com renda familiar entre R$ 2.551 e R$ 10.200. Esta é a chamada Classe B.

3) Cerca de 79 milhões de brasileiros (41,5 % do total) vivem em famílias com renda familiar entre 1.020 e R$ 2.550. Essa é a chamada Classe C.

4) Cerca de 79 milhões de brasileiros (41,5 % do total) vivem em famílias com renda familiar até R$ 1.020. Essa é a chamada Classe D.

5) Embora o autor do artigo não chame a atenção sobre o fato sobraria uma fração (cerca de 0,5% do total, ou 1 milhão de pessoas) cujas famílias, aparentemente, não têm renda nenhuma, ou que não têm família. Essa seria a chamada Classe E.

Vale a pena discutir esses dados – arredondados e aproximados ainda que sejam.

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Folha de S. Paulo
5 de Dezembro deo 2010

Luta de classes 2.0

FERNANDO CANZIAN

SÃO PAULO – O Brasil é um dos únicos países do mundo onde quartos de empregada ainda constam da planta de apartamentos novos.

Basta examinar a Folha de hoje. Apesar de proporcionalmente exíguos na comparação com a metragem total dos imóveis, esses espaços estão e ficarão cada vez mais difíceis de ser preenchidos.

Péssima notícia para a chamada classe B, ótima para os antigos “serviçais” e um desafio de proporções consideráveis à produção, à infraestrutura urbana e à qualidade dos serviços no Brasil pós-Lula.

Para os realmente ricos, isso custará só um naco a mais. Mas, para os hoje espremidos entre eles e as emergentes classes D/E e C, o preço (ainda incalculável) será salgado.

A expressão “esse aeroporto parece uma rodoviária” talvez explicite como nenhuma outra o mau humor do segmento que mais tem a “perder” com a transformação social em curso no país.

Pelo critério do Datafolha, cerca de 3 milhões de brasileiros (1,5% do total) vivem em famílias com renda mensal superior a R$ 10.201. Já os menos favorecidos (renda familiar até R$ 2.550) são 158 milhões (83%). Sendo que mais da metade deles vive ainda pior, com renda familiar abaixo de R$ 1.020.

Espremidos entre os mais pobres embaixo e os ricos por cima, sobram cerca de 30 milhões de brasileiros (15% do total) em famílias que atravessam o mês com renda entre R$ 2.551 e R$ 10.200. (Alguém aí se identifica com isso?)

Esse segmento, considerado aqui classe B, depende do andar de baixo em diversos aspectos, muitos voltados exatamente para a expansão de sua renda presente e futura: via babás, domésticas e outros serviços pessoais que os liberam para trabalhar e/ou se aperfeiçoar.

Em um país ainda muito pobre, mas cada vez mais emergente, esses serviços existirão por muito tempo ainda. Assim como o desconforto e os preços cada vez maiores para quem quiser comprá-los.

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Em São Paulo, 5 de Dezembro de 2010

Empresa: natureza, objetivo, função, objeto e responsabilidade social

Uma empresa é uma instituição tipicamente social. Na verdade, a maioria absoluta das empresas é uma sociedade de algum tipo (envolvendo mais de um proprietário – em geral, pelo menos dois sócios; numa sociedade anônima, até milhares de acionistas). Uma empresa é forçosamente criada em uma sociedade específica e tem sede em um território politicamente organizado (ou seja, uma nação). Sua atividade é regulada pelas leis da nação em que foi criada. Se ela precisa ou deseja agir também a partir de outras nações, a empresa precisa ter presença nelas através de filial ou subsidiária, que passa a ser regida também pelas leis da nação em que foi estabelecida.

Mas há vários tipos de instituição ou sociedade que preenchem os requisitos descritos no parágrafo anterior. Para entender como a empresa se diferencia de outras instituições ou sociedades congêneres (que pertencem ao mesmo genus), é preciso explicitar a sua espécie (species). Isso se faz declinando o objetivo, ou a finalidade, da instituição ou sociedade que se caracteriza como empresa.

O objetivo de uma empresa (qualquer que seja seu objeto), é gerar lucro para seus proprietários ou acionistas. É isso que a diferencia de outras organizações existentes na sociedade, como as governamentais e as não-governamentais mas também não-empresariais (hoje chamadas inadequadamente de Organizações Não-Governamentais, pois empresas também são, stricto sensu, organizações não-governamentais).

A função da empresa também é tipicamente social (qualquer que seja o seu objeto). A forma pela qual a empresa gera lucro para seus proprietários e acionistas é atendendo, através dos bens que manufatura ou dos serviços que presta, às necessidades e aos desejos das pessoas e instituições que fazem parte de um determinado mercado (hoje os mercados nacionais estando a convergir para um só mercado, global). O fato de a finalidade de uma empresa ser a geração de lucro para seus proprietários e acionistas não impede, portanto, que a empresa, além de ser, pela sua natureza, uma instituição social, exerça uma função social, atendendo a necessidades e desejos existentes no mercado.

Além de diretamente atender a necessidades e desejos das pessoas e demais instituições de uma nação, uma empresa gera empregos e paga impostos, assim contribuindo, de forma indireta, para o desenvolvimento econômico da nação.

Tão ou mais importante, a empresa pode ter, como instituição social que é, valores, posturas e condutas que definem o seu posicionamento na sociedade e a visão que tem de sua parcela de responsabilidade pelo desenvolvimento econômico, político e social (principalmente este) daquela sociedade.

O objeto de uma empresa pode ser produzir bens ou prestar serviços. Hoje em dia se costuma falar em produtos de uma empresa de modo a englobar tanto os bens que ela produz como os serviços que presta. A comercialização dos bens que uma empresa produz é uma forma de prestação de serviços.

Se uma empresa extrai minerais do subsolo, ou cultiva a terra, ou cria animais, ou se ela constroi prédios ou fabrica roupas, alimentos ou armamentos, ou se ela, ainda, presta serviços de coleta de lixo, ou na área de finanças, educação ou saúde, é irrelevante para a função social que ela exerce na sociedade. A função social primária da empresa é, como vimos, gerar lucro para seus proprietários e acionistas, remunerando o capital que investiram. Isso ela consegue atendendo às necessidades e aos desejos das pessoas e das outras instituições que constituem o mercado. Esse atendimento faz parte de sua função social primária, pois é assim que ela obtem a receita necessária para a geração de lucros. Pode-se dizer que cada um que compra um produto (bem ou serviço) de uma empresa dá a ela um voto que vai representar o seu sucesso empresarial.

O sub-produto imediato da atividade de uma empresa é, como vimos, gerar empregos (e, assim, contribuir com a população através do pagamento de salários) e contribuir com o governo através do pagamento de encargos e impostos.

Isso tudo ela faz independentemente de seu objeto. Uma empresa de armamentos é, nesses aspectos, indiferenciável de uma empresa que atua como hospital ou como escola. Empresas que fabricam cigarros e bebidas alcoólicas também produzem lucro, geram empregos e pagam impostos.

Também independe de seu objeto o fato de uma empresa ter ou não uma visão social, um posicionamento que caracteriza uma responsabilidade social corporativa significativa, ou acima da média. Empresas que fabricam cigarros, bebidas alcoólicas e armamentos podem muito bem ter responsabilidade social corporativa mais significativa e impactante do que empresas que atuam diretamente na área da educação e da saúde – e isso a despeito do fato de que seus produtos podem, se usados de forma irresponsável, prejudicar a saúde ou mesmo matar.

Quando se fala em responsabilidade social corporativa não se está falando de filantropia. Empresas, tanto quanto os indivíduos, podem e, tendo possibilidade, devem fazer filantropia – dar dinheiro ou outros recursos para pessoas necessitadas, de forma direta ou indireta. Quando se fala em responsabilidade social corporativa, porém, está se falando em investimento na melhoria do nível de desenvolvimento humano (especialmente social) da população. Esse investimento, como qualquer outro, precisa fazer sentido do ponto de vista do negócio.

Cito, para encerrar, um exemplo.

Uma empresa como a Microsoft faz filantropia (não confundir a filantropia da empresa com a que seu fundador faz, com sua mulher, através da Fundação Bill e Melinda Gates – aqui se trata de filantropia feita com o dinheiro pessoal dos dois, não da empresa). Mas ela também investe na área social, em especial na educação. Sua iniciativa global “Partners in Learning”, lançada em 2003, e voltada para a melhoria da qualidade da educação pública, especialmente em países em desenvolvimento, já recebeu cerca de 500 milhões de dólares da empresa desde seu lançamento.

Isso não é filantropia: é investimento “that makes very good business sense”. Por quê? Por várias razões.

Em primeiro lugar, uma empresa como a Microsoft, embora fabrique vários bens e preste serviços diversos ao mercado, tem, como core business, o desenvolvimento e a comercialização de software. Software é um produto intelectualmente sofisticado. Analfabetos raramente são usuários desse tipo de produto. Pessoas com falhas sérias em sua educação dificilmente serão usuários avançados e sofisticados do tipo de software que a Microsoft produz. Uma nação severamente subdesenvolvida não oferece um mercado para a Microsoft. Em casos assim, o investimento voltado para a melhoria da qualidade da educação pública de um país desse tipo é um investimento voltado para a criação de um mercado futuro para a empresa. Esse investimento, se bem feito, tende a produzir resultados a longo prazo. Produzir resultados, no caso, é gerar lucros.

Em segundo lugar, uma empresa como a Microsoft precisa de funcionários com boa formação intelectual nos países em que vai atuar. Se o sistema educacional desses países é ruim, ela precisará contratar fornecedores que melhorem a formação de seus empregados. No curto prazo, essa pode ser a única solução. Mas no longo prazo essa é uma solução ineficaz e ineficiente. O investimento voltado para a melhoria da qualidade da educação pública de um país desse tipo é, portanto, um investimento voltado para a preparação e capacitação de futuros empregados da empresa. Faz sentido, do ponto de vista do negócio.

Em terceiro lugar, o modelo de negócio de uma empresa como a Microsoft envolve terceirizações através de parcerias. A Microsoft não vende seu software diretamente no varejo (exceto, mais recentemente, em raros casos, através do seu site), não oferece treinamento e suporte diretamente aos clientes (e nem mesmo aos seus empregados), não presta assessoria a governos, empresas e outras instituições diretamente. Em todos esses casos, ela recorre a parceiros, que agem como seus fornecedores. Se a qualidade das empresas ou dos indivíduos que funcionam como parceiros e prepostos deixa a desejar, o serviço prestado ao mercado pela Microsoft deixará a desejar também. Assim sendo, vale a pena investir na melhoria da qualidade da educação pública de um país com essas características. Esse investimento redunda na melhoria da qualidade dos serviços que (indiretamente) a Microsoft presta aos seus clientes.

É isso, por enquanto.

Em São Paulo, 15 de Novembro de 2010

Ignorância

Li nos comentários a um blog no UOL o seguinte:

“Que pena que a maioria das pessoas não tem a mínima noção do que está acontecendo no país. . . . Os ricos não querem que os pobres tenham acesso a pequenas coisas que eles [ricos] sempre tiveram, um pacote de biscoito ou um copo de requeijão, imaginem então uma faculdade particular, isso já é demais, né?”

Quem diz uma besteira dessas não para para se perguntar por que os ricos não iriam querer que os pobres tivessem acesso a essas pequenas coisas como biscoitos e requeijão, para não falar em faculdades particulares… Os ricos, afinal, são donos de fábricas de biscoitos e requeijão e de faculdades particulares. Por que não iriam querer que os pobres não tivessem acesso aos bens que fabricam ou aos serviços que prestam??? Muitos ricos se especializam em fornecer bens e serviços para os mais pobres.

Será que quem diz um contra-senso assim não pensa no fato de que não são os pobres que produzem esses bens e serviços, e que os pobres só têm acesso a essas coisas porque os ricos as disponibilizam para eles (mediante pagamento, naturalmente)? 

Em São Paulo, 13 de Outubro de 2010


Market Economies – a short lesson in Economics

The paragraph below, defining the concept of the free market, is taken from the book The War on Success, de Tom Newberry, p. 27. I picked it up because it is an excellent definition of the free market. Here is what he says:

“The concept of the free market is quite simple. It does not involve compulsion or coercion. Each individual has the right to enter  the market and sell his goods or services for whatever amount other people are willing to pay. No one is forced to buy, and no one is forced to sell. To get the things we want in life, we create something that others want and then sell it to them at a price that makes them want to buy it.”

When I quoted this passage on FaceBook, someone (Howard Gold) replied:

“Eduardo, do you know of anywhere in the world where free market economics govern? Surely there must be somewhere???”

Below, my answer…

A totally free market economy? I don’t think there is, Howard.

But with the exception of North Korea, Cuba, etc., all other economies of the world are market economies today (after the sad communist interlude ended in 1989). They are not "perfect cases" ("totally free"), because governments will not easily relinquish the hold they’ve got on the economy (once they get it).

Do we not, as individuals, go to the market and sell our goods or services, and do this in a relatively unrestrained way?

We sell our goods or services for whatever money other people are willing to pay for them, because the price of our goods or services is determined by the market.

If we are not happy with the price we are getting, we can improve our goods or services or change business altogether, because nobody is forced to buy our goods or services at any price — and certainly not at the price we’d like to receive for them.

With the money we receive for our goods or services, we buy other goods and services which we need or want more than the money we have.

The market economy is not mysterious. As Newberry says, it is quite simple (as most important things in life). But it is not easy to achieve a market economy, or, once we achieve it to some extent, to maintain it, because governments are always there to try and limit it or even extirpate it altogether.

Why do governments do that? Because governments are made of people – people who live out of what other people produce (that is the definition of a parasite, isn’t it?). And people who are in government seem to think that riches are there for them to dispose of them as they see fit. They seem to think that some people have more riches than they need (which is true), and that therefore they have the right to redistribute these riches to those who need it, but haven’t produced it (which is absolutely wrong). John Locke said that an action that is morally wrong for an individual to perform does not become right if performed by a government. If you see that one neighbor of yours has much more than the other, it don’t conclude (unless you are Robin Hood) that you have a moral right (much less the duty) to expropriate the riches of one to give to the other, making their riches more equal. This kind of action is not made right when performed by governments. It is morally wrong and it is evil.

Something important to realize is that markets and governments are made of people. The market is us — as the government is us (or them, as the case may be). All, us and them, are people. The market and the government are made by our choices.

In sum: sure, there are lots of market economies around. Market economies existed even before capitalism. The novelty of capitalism (classical liberalism) was to say that that the market is good, needs no improvement, and that therefore the most that governments ought to do is stay out of the market – the more they stay out, the best.

That is the thesis of the minimum state.

In São Paulo, May 10, 2010

Wal-Mart vs Amazon

Abaixo, matéria retirada de The New York Times de hoje. 

É incrível.

Há no momento uma guerra de preços entre o todo-poderoso Wal-Mart, o maior varejista do mundo, e… a Amazon – que, de uma livraria on-line passou a ser um shopping center online.

Fantástico. Quem diria?

A guerra de um modelo tradicional de negócios com um modelo de negócios inovador, baseado na tecnologia, orientado para o futuro.

O Wal-Mart tem vendas anuais de 405 bilhões de dólares. A Amazon, de 20 bilhões. Mas o Wal-Mart sabe que está lutando pela sua sobrevivência… Não hoje – mas no futuro… A Amazon está lutando para ganhar mercado… O Wal-Mart, para não perder mercado…

É fabuloso poder observar essa guerra. O consumidor será o maior beneficiado.

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The New York Times
November 24, 2009

Price War Brews Between Amazon and Wal-Mart

By BRAD STONE and STEPHANIE ROSENBLOOM

Ali had Frazier. Coke has Pepsi. The Yankees have the Red Sox.

Now Wal-Mart, the mightiest retail giant in history, may have met its own worthy adversary: Amazon.com.

In what is emerging as one of the main story lines of the 2009 post-recession shopping season, the two heavyweight retailers are waging an online price war that is spreading through product areas like books, movies, toys and electronics.

The tussle began last month as a relatively trivial but highly public back-and-forth over which company had the lowest prices on the most anticipated new books and DVDs this fall. By last week, it had spread to select video game consoles, mobile phones, even to the humble Easy-Bake Oven, a 45-year-old toy from Hasbro that usually heats up small cakes, not tensions between billion-dollar corporations.

Last Wednesday, Wal-Mart dropped the price of the oven to $17, from $28, as part of its “Black Friday” deals. Later the same day, Amazon cut its price, which had also been $28, to $18.

“It’s not about the prices of books and movies anymore. There is a bigger battle being fought,” said Fiona Dias, executive vice president at GSI Commerce, which manages the Web sites of large retailers. “The price-sniping by Wal-Mart is part of a greater strategic plan. They are just not going to cede their business to Amazon.”

Retailers are already fighting for every dollar consumers spend this holiday season. Sales are not expected to drop as much as they did last season, but the National Retail Federation, an industry group, predicts that they will decline 1 percent, to $437.6 billion.

Of course, Wal-Mart and Amazon are fundamentally different companies, and for now, at least, Amazon poses little immediate threat to the behemoth from Bentonville, Ark.

Wal-Mart, with $405 billion in sales last year, dominates by offering affordable prices to Middle America in its 4,000 stores. Amazon is a relative schooner to Wal-Mart’s ocean liner, with $20 billion in sales, mostly from affluent urbanites who would rather click with their mouse than push around a cart.

This fight, then, is all about the future. Rapid expansion by each company, as well as profound shifts in the high-tech landscape, now make direct confrontation inevitable.

Though online shopping accounts for only around 4 percent of retail sales, that percentage is growing quickly. E-commerce did not suffer as deeply as regular retailing during the economic malaise, and it is recovering faster than in-store shopping. People are also shopping on smartphones and from their HDTVs.

Amazon, based in Seattle, has harnessed all of these trends, and is also behaving more like a traditional retailer. This fall it expanded its white-labeling program, slapping the Amazon brand onto audio and video cables and other products, and introduced same-day shipping in seven cities, trying to replicate the instant gratification of offline shopping.

For rivals both real and putative, Amazon is expanding its slice of the retail pie at what must be an alarming rate. In the third quarter of this year, regular retail sales dipped by about 4 percent and e-commerce over all was flat. But Amazon sales shot up 24 percent, sending its shares soaring.

More important for Wal-Mart, sales in Amazon’s electronics and general merchandise business — which competes directly with much of the selection in Wal-Mart stores — were up 44 percent. Wal-Mart does not break out Web sales, but it has been reported that its online business produces revenue of several billion dollars.

“If you are Wal-Mart, you want to have your proportional piece of this change in consumer behavior,” said Scot Wingo, chief executive of ChannelAdvisor, which helps retailers sell online. “You can even paint a scenario where e-commerce one day is 15 percent of all shopping, and that could really start to erode Wal-Mart’s offline business.”

That is why many analysts are unsurprised that Wal-Mart executives have placed Amazon squarely in their sights, with public throw-downs in interviews and pointed discounting.

It began last month with what appeared to be a public-relations-oriented competition on book prices, with both companies (along with Target, based in Minneapolis) dropping prices on books like “Under the Dome,” by Stephen King, to below $9.

The companies then began jousting over the prices of DVDs. Less visibly, there were isolated skirmishes, some of which also lowered prices in Wal-Mart’s stores. Wal-Mart offered a $15 gift card with a purchase of the new video game Call of Duty: Modern Warfare 2 — and Amazon matched soon after.

Wal-Mart and Amazon then both offered the Xbox 360 gaming console for $199 — with a $100 gift card thrown in. Last week, they both began offering the new Palm Pixi phone for around $30 — nearly $175 off the suggested retail price.

Of course, online retailers have always competed on price, monitoring rivals’ sites for changes and adjusting accordingly.

“We’ve grown up in a supercompetitive environment where customers can check prices with one click, and we like it that way,” said Craig Berman, an Amazon spokesman.

But rhetoric from Wal-Mart itself has stoked the flames of rivalry. In an interview last week, Raul Vazquez, the president and chief executive of Walmart.com, asserted that the site was growing faster than Amazon’s; suggested that Amazon Prime, a two-day-shipping service that costs $80 a year, was too expensive; and said that it was “only a matter of time” before Wal-Mart dominated Web shopping.

“Our company is based on low prices,” Mr. Vazquez said, laying down a challenge. “Even in books, we kept going until we were the low-price leader. And we will do that in every category if we need to.”

Friction between the two companies is not entirely new. In the late 1990s, Amazon assembled at least some of its knowledge of retail supply chains by hiring away Wal-Mart employees. Wal-Mart sued, and the two companies settled privately.

In a battle over prices, Wal-Mart is on more familiar turf. With its unmatched size, Wal-Mart has more leverage than anyone to negotiate better terms with suppliers. Offering the lowest price “is in our DNA,” Mr. Vazquez said.

Among Amazon’s advantages are a sophisticated distribution network built specifically for Web shopping, the thousands of outside sellers who offer products on Amazon.com, and a recognizable online brand. Amazon’s customers also do not pay sales tax in most states, a crucial advantage that companies like Wal-Mart, and their lobbyists, are trying to eliminate.

Jeffrey P. Bezos, Amazon’s chief executive, is fond of saying that retailing is a big market with room for many winners. But for Ms. Dias, from GSI Commerce, Wal-Mart’s campaign against Amazon is overdue. As an executive at the now-defunct Circuit City chain, and as an adviser to traditional retailers today, she says she has watched many companies overlook the long-term threat posed by Amazon.

“We have to put our foot down and refuse to let them grow more powerful,” she said. “I applaud Wal-Mart. It’s about time multichannel retailers stood up and refused to let their business go away.”

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Em 28/11/2009 a Folha de S. Paulo publicou essa matéria, que é uma tradução da matéria transcrita atrás.

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Folha de S. Paulo
28 de Novembro de 2009

Wal-Mart e Amazon declaram guerra

Gigante do varejo e rede virtual disputam preços em batalha que sinalizará melhor modelo de negócio

Compras on-line respondem hoje por apenas 4% do total de vendas nos EUA, mas índice cresce rapidamente e preocupa lojas tradicionais

DO "NEW YORK TIMES"

O Wal-Mart, o mais poderoso gigante da história do varejo, pode enfim ter encontrado um adversário à sua altura: a Amazon.com.

No que vem emergindo como uma das principais histórias na temporada natalina pós-recessão de 2009, os dois pesos pesados do varejo estão travando uma guerra de preços on-line que está se espalhando a todas as áreas de produtos, tais como livros, filmes, brinquedos e bens eletrônicos.

A disputa começou no mês passado como uma troca relativamente trivial de alegações sobre qual das duas empresas oferecia os menores preços para os lançamentos de livros e DVDs mais aguardados da temporada. Mas na semana passada a disputa havia se expandido a consoles de videogames, celulares e até mesmo ao modesto Easy-Bake Oven, um brinquedo criado há 45 anos pela Hasbro e que serve em geral para aquecer bolinhos, e não tensões entre empresas bilionárias.

Na quarta, a Wal-Mart reduziu o preço do forno de US$ 28 para US$ 17, como parte de suas ofertas especiais para a "Sexta-Feira Negra", o dia de alto movimento no comércio que se segue ao feriado de Ação de Graças. No mesmo dia, a Amazon.com também anunciou um corte de preços, dos mesmos US$ 28 para US$ 18.

"Não se trata mais de uma questão de preços de livros e filmes. Existe uma batalha maior em curso", disse Fiona Dias, vice-presidente-executiva da GSI Commerce, que administra sites para grandes redes de varejo. "O ataque iniciado pela Wal-Mart quanto aos preços é parte de um plano estratégico muito mais amplo. Eles não pretendem entregar seu negócio à Amazon.com."

O varejo está lutando dólar a dólar pelo dinheiro que os consumidores gastarão nesta temporada de festas. As vendas não devem cair tanto quanto no ano passado, mas a Federação Nacional do Varejo prevê que elas ainda assim registrarão declínio, da ordem de 1%, para US$ 437,6 bilhões.

Evidentemente, Wal-Mart e Amazon.com são empresas fundamentalmente diferentes e, pelo menos por enquanto, a Amazon não é ameaça imediata à gigante do varejo físico, sediada em Bentonville, Arkansas.

A Wal-Mart, com vendas de US$ 405 bilhões no ano passado, domina o mercado ao oferecer preços acessíveis aos consumidores médios norte-americanos, nas 4.000 lojas de sua rede. A Amazon.com não passa de um barco de turismo diante do transatlântico da Wal-Mart, com vendas de US$ 20 bilhões, em geral para cidadãos urbanos afluentes que preferem fazer compras com um mouse a fazê-las num supermercado.

A disputa, portanto, gira em torno do futuro. A rápida expansão de ambas as empresas, bem como as profundas mudanças na paisagem do setor de tecnologia, agora tornam inevitável um confronto direto.

Ainda que as compras on-line respondam por apenas 4% do total de vendas do varejo norte-america
no, essa porcentagem vem crescendo rapidamente. O comércio eletrônico não sofreu tanto quanto o comércio convencional durante o período de crise econômica e está se recuperando mais rápido do que o varejo físico. As pessoas agora também fazem compras de seus televisores de alta definição e de seus celulares inteligentes.

A Amazon.com, sediada em Seattle, conseguiu aproveitar todas essas tendências, e também começou a se comportar mais como uma companhia tradicional de varejo.

Neste final de ano, ela expandiu seu programa de marcas e ampliou o número de cabos de som, vídeo e outros itens que estão sendo vendidos sob a sua marca. Além disso, a companhia introduziu um serviço de entregas no mesmo dia em sete cidades dos Estados Unidos, em um esforço para reproduzir a sensação de gratificação instantânea oferecida pelas compras físicas.

Tradução de Paulo Migliacci

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Em São Paulo, 24 de Novembro de 2009

A "externalização" do trabalho: o trabalho "invisível"

No mais recente livro de Alvin Toffler (Revolutionary Wealth, publicado no mês passado), ele tem uma seção interessante sobre a “externalização do trabalho”. As empresas já faziam a terceirização do trabalho (que em Inglês se chama “outsourcing”). Externalização (que em Inglês é “externalization” mesmo) é algo diferente. Uma empresa terceiriza parte de seu trabalho para outra empresa. As duas empresas continuam na economia do dinheiro (vamos chamá-la assim: em Inglês é “money economy”). No caso da externalização, o trabalho não é feito por outra empresa: é feito pelos clientes — sem que, normalmente, eles sejam pagos por isso. Quando são pagos, são pagos na forma de menores preços. Isso faz com que uma quantidade enorme de trabalho simplesmente desapareça dos índices econômicos, porque ele não é pago, e, conseqüentemente, não é monetarizado.
A coisa começou lá atrás, mas só agora adquire proporções gigantescas.
Em 1916 foi inventado o supermercado. Antes de ele existir, nos armazéns e empórios as pessoas chegavam, falavam com o dono ou um seu funcionário, pediam o que queriam, o dono ou o funcionário pegava, pesava (se necessário), embrulhava e entregava ao freguês, que pagava e levava a mercadoria embora. Às vezes um menino do estabelecimento até mesmo levava a mercadoria até à casa do freguês. Com o supermercado, os fregueses (agora chamados de clientes) fazem a maior parte do trabalho. Eles procuram o que desejam, eles mesmos pegam da prateleira e colocam no carrinho de compra o que vão levar, quando os produtos precisam ser pesados (como frutas, verduras, vegetais), eles mesmos, clientes, os pegam, colocam em saquinhos plásticos, pesam e etiquetam, etc.
Na maior parte dos supermercados ainda há uma pessoa operando como caixa, que escaneia os produtos e recebe o pagamento. Os clientes em geral empacotam os produtos eles mesmos. Mas a pessoa operando como caixa já não existe em muitos locais nos EUA. Lá já há vários supermercados que têm alguns caixas sem gente… O cliente, ele próprio, escaneia o produto, passa o cartão de crédito no local indicado, autoriza o pagamento, recebe a Nota Fiscal, empacota, e vai embora, ele mesmo empurrando o carrinho, sem interagir com um ser humano. (Isso exige, naturalmente, um certo nível de confiança – alimentada por sistemas de fiscalização, em geral remotos, via câmeras). Em outras palavras: o cliente faz o serviço que, anteriormente, era feito por vários empregados. E não é pago por isso. É verdade que, com a economia em mão de obra, o supermercado pode oferecer preços menores — e é por isso que os clientes se prestam a fazer parte do seu serviço, sem outra remuneração além do preço menor, “externalizando” o trabalho do supermercado. Mas o preço menor indica menor faturamento (embora o supermercado possa aumentar o faturamento vendendo para mais pessoas ou vendendo mais para as mesmas pessoas). A economia de recursos financeiros some da economia formal, monetarizada.
Postos de abastecimento de combustível nos EUA eram como no Brasil: tinham antendentes, que colocavam combustível, limpavam o parabrisa, checavam a pressão dos pneus, etc. Depois começaram a oferecer algumas bombas de self-service — com preço mais barato… Ali o cliente para, abre o reservatório de combustível, aperta os botões indicados, libera combustível, enche o tanque, fecha o reservatório, passa o cartão de crédito no local indicado, pega o recibo e vai embora — sem interagir com um ser humano. O incentivo: preço mais barato do combustível naquelas bombas self-service. Hoje tudo é self-service: isso quer dizer que o trabalho foi totalmente “externalizado” para o cliente, que na realidade trabalha (sem remuneração) para o posto de abastecimento. Se você precisar de ajuda de um atendente, está mal: na maior parte dos postos americanos, não vai encontrar. E ninguém sabe se a economia feita na eliminação dos atendentes continua a se traduzir em menores preços, porque não há como comparar o preço das bombas self-service com o preço das bombas “full service”, que não existem mais…
E os bancos? Antes a gente era atendido por caixas-gente. Depois passamos a transacionar com o banco com caixas-gente através do telefone (Itau Bankline, por exemplo). Hoje interagimos com caixas eletrônicos, sem que haja gente do outro lado. Ou interagimos com o banco pela Internet — também sem que haja gente do outro lado. Os caixas-gente foram demitidos. O lucro do banco aumentou — mas o preço de nossas interações com o banco continua, para nós, o mesmo — ou maior. Os bancos hoje prestam muito mais serviços, com muito menos gente… Porque grande parte do trabalho foi “externalizado” para os clientes, que não são pagos para trabalhar para o banco…
Antes, quando a gente enviava um pacote pelo Federal Express, tinha de ligar pra eles, dar o número do protocolo para uma atendente, esta verificava no computador deles e nos dava uma previsão de entrega. Hoje não há mais a atendente: a gente mesmo entra na Internet, digita o número do protocolo, e verifica exatamente onde está o pacote… Mais “externalização” do trabalho para os clientes, trabalho que é feito sem remuneração.
Estive num restaurante estilo “fast food” em Chicago — especializado em sanduíches — em que a gente chega, interage com um terminal, escolhe o que quer, define os ingredientes do sanduíche, o tipo de pão, os molhos, se quer bebida, qual, de que tamanho, etc. — e recebe um protocolo. Cinco ou dez minutos depois é chamado: o sanduíche está pronto. Não há mais garçon. Há quem faz o sanduíche e quem recebe o pagamento — este podendo facilmente ser eliminado se o sistema exigir que você pré-pague o que comprou com um cartão de crédito. “Externalização”.
E assim vai.
Alvin Toffler estima que o PNB mundial seria dobrado se fossem contabilizados esses trabalhos externalizados, mais aqueles trabalhos que fazemos em casa, ao educar nossos filhos, ao cuidar da casa, ao cuidar dos doentes da família, ao ajudar os vizinhos, ao cuidar de nosso jardim, ao lavar e até mesmo consertar nosso carro, etc.
Voltarei ao tema.
Em Chicago, 7 de maio de 2006

A Coréia do Sul e o Brasil

Estou no momento em Seul, na Coréia do Sul. 

Não tenho nenhuma dúvida de que o único jeito de o Brasil crescer economicamente e se desenvolver, não apenas econômica mas também social e politicamente – assim vindo a reduzir permanentemente a pobreza — é estando aberto a, e se abrindo para, relações comerciais com o resto do mundo. 

Sou um liberal impenitente. Mas a questão aqui não é apenas de compromisso com o liberalismo econômico. É uma questão empírica que pode ser facilmente verificada.

Tenho visitado recentemente Cingapura, Taiwan (Formosa), Hong Kong, e, agora, Coréia do Sul — países que havia visitado há 21 anos, em 1984 (Cingapura em 1992). É inacreditável a mudança que aconteceu desde minha última visita a esses lugares. Especialmente aqui na Coréia. 

É inacreditável o que vem acontecendo nesses países. Nenhum deles (considerando Hong Kong um país) deve ser denominado “em desenvolvimento”. Eles são países que se desenvolveram nas últimas décadas. 

A Coréia do Sul, em especial, é um país desenvolvido hoje. A mudança é visível nos prédios, nas ruas, nos carros, na cara e na casa das pessoas. A Coréia do Sul passou para o Primeiro Mundo — e o fez abrindo-se para o comércio mundial e investindo em educação. 

Peguemos a indústria automobilística. Aqui não é proibido importar um automóvel (embora haja um imposto de importação — pequeníssimo, comparado com o brasileiro). Mas você olha nas ruas e há quase só Hyundai (que agora é dona da Kia), Daewoo, Ssangyong… Por quê? 

Ouso citar três razões. 

Primeiro, porque, sendo feitos aqui, são um pouco mais baratos (em razão do fato de que não pagam imposto de importação, não tem grande custo de frete, etc.). 

Segundo, porque sabem que o crescimento da indústria nacional (i.e., coreana) ajuda a manter os empregos e o nível de vida deles. 

Mas não é só isso. 

Mas há um terceiro fator importante: orgulho do país. Aqui as pessoas preferem comprar um produto feito aqui a comprar um produto importado. E o fazem, em grande medida, porque têm orgulho do fato de que o país conseguiu se desenvolver e produzir carros (e outros produtos) de qualidade comparável à de outros países já estabelecidos no Primeiro Mundo há tempos.

As companhias coreanas que fabricam automóveis hoje têm sócios estrangeiros, mas têm grande participação coreana. Mas as marcas são coreanas — e o mundo inteiro sabe disso. Essas empresas foram capazes de conquistar o mercado interno e competir no mercado mundial, porque, apesar de haver uma preferência pelo produto nacional, por orgulho e porque o crescimento da indústria nacional ajuda a manter os empregos deles, não há xenofobismo do tipo expresso na última Cúpula das Américas. Aqui na Coréia não há aquele sentimento de inferioridade de que o resto do mundo conspira para perseguir o país.

Peguemos a indústria de eletrônica de consumo… Hoje passei umas seis horas num shopping de eletrônica, chamado Techno-Mart. Tem dez enormes andares, cada andar dedicado a um tipo de produto. Dos dez, dois são dedicados a produtos estrangeiros — mais caros um pouco, por causa de frete e porque impostos de importação não foram (ainda) totalmente eliminados. Dos dez andares, seis são dedicados a produtos coreanos (dois são de restaurantes, loterias, etc.). Têm de tudo, desde produtos da Samsung (líder mundial em chips, notebooks, monitores, inclusive LCD, câmeras, etc.) até televisores, aparelhos de som, geladeiras, freezers, máquinas de lavar e secar — tudo com marcas coreanas.

Por que a Coréia do Sul foi tão bem sucedida em algo que nós, brasileiros, não  conseguimos fazer — apesar de termos um país muito maior, muito mais cheio de recursos? 

Em termos de território, a Coréia é um paisico. Economicamente, está pertinho do gigante Japão, a segunda economia do mundo. Politicamente, está grudada na China, um monstro de país, e é um país dividido, com metade do país ainda sob regime comunista. Culturalmente, fala uma língua que o resto do mundo dificilmente consegue aprender: os coreanos não têm nenhuma dúvida de que são eles que têm de aprender outras línguas, em especial o Inglês.

 (No Techno-Mart fiquei bobo de ver a quantidade de dicionários eletrônicos: os dicionários são um produto que vende adoidado aqui. E não só os eletrônicos: numa livraria que visitei, a seção de livros destinados ao aprendizado de línguas [dicionários, gramáticas, etc.]).

E há as diferenças culturais: a idéia de que cada um é responsável pela sua sorte, que ninguém deve ficar esperando o governo resolver seu problema, que o que cabe a cada um depende do mérito da pessoa e não na sua capacidade de subornar, que as dificuldades que o país ainda tem de enfrentar não são causadas por conspirações do resto do mundo contra a Coréia do Sul e os coreanos… Isso tudo faz uma diferença enorme!

Poderia resumir dizendo que a Coréia do Sul é um país sério. O Brasil, como de Gaulle claramente viu, "n’est pas un pays sérieux". Aí está a diferença.

Há desigualdade social aqui? Claro que há — como há em qualquer país que se desenvolve e enriquece. (A desigualdade acontece porque alguns se tornam ricos, não porque alguns se tornam pobres). Há gente que prefere sair e tentar a sorte em outros países, inclusive no Brasil? Claro que há — isso acontece em qualquer país. Mas, em geral, há confiança no país — e mais do que isso: orgulho do que o país foi capaz de realizar em tão pouco tempo.

A divisa entre a Coréia do Sul e a do Norte impede os do norte de vir para o sul: os do sul não querem ir para o norte… A Coréia do Norte é a Cuba da Ásia. O símbolo do atraso e da pobreza. Mas têm armas nucleares — que os cubanos também teriam se o Kennedy não tivesse sido macho (uma única vez, a despeito da fama construída) em 1960.

A esquerda que domina a política e a cultura de boa parte da América Latina é a grande  que responsável por manter esse continente no atraso. Espero que o presidente Vicente Fox do México e os demais países (fora os do Mercosul e a Venezuela) façam acordos independentemente ou em grupo, com os Estados Unidos e a Nafta. Chávez, e os bobocas do Mercusul precisam de uma lição. O Chile, para mim, é o exemplo de um país com a cabeça no lugar na América do Sul.

Quanto ao Lulla?

Tendo a achar — ou pelo menos a esperar — que a sua eleição terá, no médio e longo prazo, sido boa pro Brasil. Se nos vacinar contra a demagogia do PT e da esquerda, terá sido ótimo. Teremos avançado um pouco, ainda que por linhas tortas.

Em Seul, 6 de novembro de 2005

"Distribuição de renda"

É freqüente ouvir-se falar, hoje em dia, especialmente no Brasil, que o país tem uma “distribuição de renda injusta”. Às vezes se chega a dizer que a distribuição de renda no Brasil é a mais injusta do planeta. Mesmo quem não faz afirmações como essas parece concordar, nesse respeito, com o que dizem os outros.
 
Essa expressão – “distribuição de renda injusta” (iníqua, má) – requer análise.
 
Quando se fala em "distribuição de renda injusta" em um determinado país dá-se a impressão de que:
 
a) o que se denomina “renda do país” é algo que pertence à entidade abstrata chamada país – quando não ao governo desse país – e não aos indivíduos e pessoas jurídicas que constituem o país;
 
b) que essa renda é gerada e, portanto, existe independentemente das ações dos diversos agentes econômicos que atuam no país (indivíduos e pessoas jurídicas);
 
c) que algum agente misterioso distribui essa renda entre a população de forma desigual, dando a uns mais, a outros menos;
 
d) que essa distribuição é injusta (iníqua, má);
 
e) que é possível corrigir essa distribuição injusta (iníqua, má), redistribuindo a renda de forma mais justa;
 
f) que é tarefa do governo promover essa redistribuição através de uma série de mecanismos, entre os quais se incluem a taxação dita progressiva (quem ganha mais paga mais impostos) e um sem número de políticas sociais.
 
Todos esses enunciados são demonstravelmente falsos, como passo a seguir demonstrar.
 

a) Primeiro, a renda de um país não pertence ao país nem muito menos ao governo. Essa expressão se refere a nada mais do que a somatória da renda gerada pelos diversos agentes econômicos que atuam no país – indivíduos e pessoas jurídicas – e pertence a eles.
 

b) Segundo, só há uma forma de gerar renda ou criar riquezas: através do trabalho (considero redundância falar em “trabalho produtivo”) de indivíduos ou de pessoas jurídicas na extração ou produção de “commodities”, na manufatura de bens e na prestação de serviços. O governo, em si, não gera nenhuma renda nem cria nenhuma riqueza: ele apenas tem uma receita que é auferida através dos impostos, taxas e contribuições que ele cobra das pessoas físicas e jurídicas que geram ou possuem renda. Em nossa sociedade, “commodities”, bens manufaturados e serviços são trocados em espécie ou comercializados em troca de dinheiro, que se tornou o meio de troca preferido.
 

c) Não resta dúvida de que, desde que o mundo é mundo, existem desigualdades entre os seres humanos. Algumas dessas desigualdades são físicas: uns são mais altos, fortes, bonitos, etc. do que outros. Outras desigualdades são de natureza mais psicológica: uns são mais inteligentes, hábeis, motivados, esforçados, espertos, etc. do que os outros. Por mais que alguns se esforcem por negar esse fato, afirmando que não só as características psicológicas, mas até mesmo as físicas, são “socialmente construídas”, é um fato estabelecido e incontestável que os seres humanos são desiguais. E também é um fato incontestável que essas desigualdades vão fatalmente se traduzir em desigualdades econômicas: uns vão ter renda maior do que outros, uns vão ser mais ricos do que outros.
 
É esse fato que explica a distribuição desigual de renda e de riquezas. Não existe nenhum agente misterioso que distribui a renda ou a riqueza, de forma desigual, entre a população de um país, dando a uns mais, a outros menos.
 
A renda ou a riqueza de um país é "distribuída" aos diversos participantes na vida econômica do país em função de suas atividades econômicas de produção, consumo e, conseqüentemente, troca. As atividades econômicas que cada um de nós exerce possuem valorações diversificadas em cada país, ou em cada região, ou em diferentes momentos históricos de um mesmo país ou uma mesma região.
 
Exemplifico (com exemplos retirados de atividades de todos conhecidas).
 
Ser professor universitário em uma universidade pública no estado de São Paulo (digamos, a UNICAMP) é uma atividade mais valorizada do que ser professor universitário na universidade federal do Piauí ou do que ser professor universitário na universidade do senhor Digênio (UNIP).
 
Ser professor universitário em qualquer dessas três universidades é (imagino) uma atividade mais valorizada do que ser professor primário em Sinop, Mato Grosso.
 
Daí decorrem os salários diferenciados dessas categorias e, conseqüentemente a desigual distribuição de renda que de fato existe.
 
Mais exemplos.
 
Um jogador de futebol do nível de seleção brasileira (digamos, Ronaldo, Ronaldinho ou Kaká) e um cantor sertanejo de primeiro time exercem atividades que são mais valorizadas, no Brasil, do que a função de professor universitário na UNICAMP – da mesma forma que o professor da UNICAMP exerce uma atividade que é mais valorizada, no Brasil, do que a função de professor primário em Sinop.
 
Dentro de uma mesma atividade, como o futebol, alguns jogadores (os três citados, por exemplo) conseguem ficar multimilionários e outros não conseguem nem sobreviver como profissionais – sendo obrigados a exercer alguma outra função para alcançar o seu sustento. Não resta dúvida de que a “distribuição de renda” (a expressão é admitidamente inadequada) entre os jogadores de futebol brasileiros é enorme – mas ela reflete tão somente talento e desempenho diferenciado, e, portanto, valorizado de forma diferenciada. Ninguém, exceto os igualitaristas mais deslavados, diriam que essa “distribuição” é injusta e iníqua, e que todos os jogadores de futebol, de Ronaldo, o fenômeno, até o pior picareta do Paissandu, devem ter rendas iguais. Pouca gente paga para assistir um jogo apenas de picaretas – e muita gente paga para assistir o “quadrado mágico” da seleção brasileira jogar.
 
É assim que se “distribui” a renda.
 
Não há um poder econômico que distribua a renda de um país: esta é distribuída pela ação de uma multidão de agentes econômicos que dão vazão aos seus valores. Se ninguém fosse aos estádios ver os jogos do Corinthians, este não poderia manter em seu plantel um jogador caro como o Tevez. Se ninguém comprasse discos do Zezé de Camargo e do Luciano, estes não estariam milionários. Se nenhum aluno procurasse a UNICAMP, esta não poderia manter os seus professores, quanto mais pagar a eles os salários que paga. E assim vai.
 

d) Esses são fatos sociais — e fatos não são passíveis de avaliação como moralmente "injustos" ou "iníquos". Fatos simplesmente são.
 
Fatos sociais, diferentemente de fatos naturais, são contingentes: fatos sociais podem ser mudados e freqüentemente o são — desde que se mudem os valores dos que vivem na sociedade ou no país em que eles são fatos. Eu, por exemplo, posso achar (por critérios próprios) que meu trabalho como professor da UNICAMP vale mais do que o trabalho do Ronaldo como jogador do Real Madrid. Ou posso achar que uma palestra minha, de noventa minutos, vale tanto quanto uma do Alvin Toffler ou do Daniel Goldman (cerca de 50 mil dólares). Mas enquanto ninguém estiver disposto a me pagar aquilo que eu acho que meu trabalho vale, o meu trabalho vale, do ponto de vista social, aquilo que alguém estiver disposto a pagar por ele.
 
Não faz sentido, portanto, falar em "distribuição de renda injusta" ou “iníqua. A distribuição de renda que de fato existe em um determinado país reflete os valores desse país. Qualificar esses valores de "injustos" ou “iníquos” requer algum tipo de análise moral que raramente é feita nesse contexto.
 
Para tentar mostrar que a distribuição de renda do Brasil é injusta ou iníqua não basta simplesmente pressupor que a distribuição de renda "ideal" é a igualitária, em que todo mundo tem uma cota idêntica da somatória da renda nacional. O que justifica esse pressuposto? Absolutamente nada. Além disso, ele é irrealista. Alguém imagina que Ronaldo continuaria se esforçando para ser o melhor jogador de futebol do mundo se ele ganhasse, digamos, dois dólares por dia?
 

e) Não é possível alterar substantivamente essa distribuição dita injusta ou iníqua a não ser através da força – e de muita força. E o resultado da aplicação da força será, na melhor das hipóteses, uma “igualdade por baixo” – a “igualdade do inferno”, como dizia Mme. de Staël. Medidas redistributivas de força só conseguem tornar todos igualmente miseráveis – e o exemplo de Cuba está aí para quem quiser ver.
 
O que os socialistas persistem em ignorar é que os mecanismos de geração de riqueza não são independentes da forma em que ela é “distribuída”. Se ela é distribuída em função de talento e esforço (mérito), as pessoas produzirão mais. Se as pessoas sabem que todos receberão uma cota igual, e que a receberão independentemente da quantidade e da qualidade do que produzirem, não se esforçarão para produzir o máximo e o melhor que for possível produzir.
 
E mesmo usando muita força, e chegando a uma igualdade na miséria, ainda assim haverá desigualdade: os que efetuam a distribuição nunca serão iguais àqueles a quem se distribui a miséria, ainda que esta seja distribuída igualitariamente…
 

f) A taxação dita progressiva e as políticas sociais não promovem real distribuição de renda.
 
Sugestões como incluir novas alíquotas no Imposto de Renda, criar imposto sobre fortunas, etc. não funcionam. Elas partem do pressuposto de que a distribuição de renda que de fato existe é injusta e iníqua e propõem uma fórmula para a sua redistribuição. Mas essas fórmulas todas alteram os princípios que regem a criação de renda e a geração de riquezas. As pessoas realmente interessadas em produzir mudam de país quando a pressão redistributiva é muito forte – e essa pressão só consegue algum sucesso (igualizando a miséria) através da força: proibindo as pessoas de sair do país, por exemplo, e tentando obrigá-las a produzir tudo que a sua “habilidade” lhes permite produzir – para atender às supostas necessidades dos improdutivos.
 
Em Campinas, 18 de outubro de 2005