Verdades absolutas e conhecimento relativo: uma réplica

Wanderley Navarro, que, como eu, é fascinado por esse assunto, escreveu o seguinte comentário ao meu post “Verdades absolutas e conhecimento relativo”.

“Se a verdade para Popper é a consonância entre o enunciado e a realidade e, ao mesmo tempo, afirma que nunca podemos estar certos desta consonância então como concluir que a verdade absoluta existe? Entendo que Popper ’acredita’ na verdade absoluta, apenas acredita. Existe alguma verdade que não é absoluta? Existe, por oposição, a verdade provisória? Parece-me que o enunciado e a realidade que ele pretende expressar são de naturezas diferentes. Por mais que sejam gêmeos continuarão sendo duas realidades. Mas, acima disso tudo, será que isso que chamamos de realidade existe independente de mim, ou seja, do sujeito que intermedia essa relação. Popper, parece, acredita que sim. Acredita.”

Vou tecer algumas considerações sobre essa réplica do Navarro.

1) Sem dúvida Popper é um realista filosófico. Para ele a tese de que a realidade existe independente de mim, ou de minha apreensão dela através da percepção, é uma conjetura filosófica que, embora submetida a uma bateria incomparável de críticas (tentativas de refutação) por parte dos empiristas ingleses, do próprio Kant, e, mais recentemente, dos chamados fenomenalistas e de muitos outros, tem sobrevivido galhardamente a essas críticas.

2) Para Popper, os méritos epistêmicos dessa tese são algo objetivo que independe do fato de ele, Popper, ou de qualquer outra pessoa, acreditar na tese (que é algo subjetivo). Os méritos epistêmicos de uma tese são avaliados mediante uma análise e avaliação objetiva e rigorosa de possíveis contra-exemplos a ela, análise e avaliação essas que independem de haver alguém que acredite nessa tese.

3) Sem dúvida Popper também entende a verdade, apud Alfred Tarski, como a correspondência (ou consonância, como prefere o Navarro) entre um determinado enunciado, ou conjunto de enunciados, e a realidade. Assim, ele considera que a tese de que nossos enunciados podem descrever ou explicar verdadeiramente a realidade também é uma conjetura filosófica que, embora submetida a uma bateria incomparável de críticas (de idealistas e pragmatistas, entre outros), tem sobrevivido a essas críticas.

4) O mesmo que se disse em “2” sobre “1” pode-se dizer aqui, agora, sobre “3”.

5) Dado o seu entendimento de verdade, e sua avaliação da tese descrita em “3”, Popper considera verdadeiro, no meu entendimento, o enunciado condicional “Se p (onde p é um enunciado) é verdadeiro, então p é verdadeiro de forma absoluta”. (Esse enunciado se aplica inclusive a si próprio). Isso quer dizer que, para Popper, não há verdades que não sejam absolutas.

6) Evidentemente, um enunciado e a realidade que ele pretende descrever ou explicar são de naturezas diferentes. Popper exprime isso dizendo que a realidade é parte do Mundo 1 e o enunciado é parte do Mundo 3 – mundos esses que são relacionados ou intermediados pelos objetos constantes do Mundo 2: a nossa mente.

Acho que é isso que me ocorre no momento, Navarro… Volte à carga.

Em São Paulo, 30 de Março de 2009

Pensar muitas vezes dói…

Meu último post aqui neste Space, no dia 20/3, teve o título de “Verdades absolutas e conhecimento relativo”. Terminei-o me referindo a Popper e afirmando:

“A busca da verdade se dá, segundo Popper, no exame sério, rigoroso e imparcial de pontos de vista que conflitam com os nossos. É neles que vamos eventualmente ser capazes de identificar pontos fracos em nossas formulações, em nossos argumentos, em nossas evidências – e, assim, conseguir avançar um pouco mais na direção da verdade. Quando a gente rejeita o que antes considerava verdadeiro, faz um progresso significativo na direção da verdade.”

Hoje, domingo, 29/3, encontro na Folha de S. Paulo, o interessante artigo, transcrito abaixo, de Nicholas D. Kristof, sobre a leitura de notícias e opiniões (que caracterizam os jornais) pela Internet. O artigo foi originalmente publicado em The New York Times.

Vale a pena ler – embora não concorde com o principal ponto dele, a saber, a tese de que a leitura de notícias e artigos de opinião pela Internet está restringindo a pluralidade de pontos de vista que era representada pelos jornais – porque na Internet, supostamente, cada um vai e seleciona apenas as notícias que lhe interessam e os pontos de vista com os quais concorda.

Discordo de Kristof por uma solitária razão que passo a resumir. 

Mesmo antes da Internet, quando as pessoas buscavam notícias e opiniões em jornais, e não na Internet, cada um (com exceção de alguns leitores profissionais) tinha o seu jornal favorito. Em São Paulo, por exemplo, os mais conservadores liam o Estadão, os mais – como direi? – metidos a progressistas liam a Folha. No Rio, o Globo e o JB desempenhavam função semelhante. 

A tendência de buscar alimento intelectual ou munição para discussões em pessoas que pensam mais ou menos como a gente é uma tendência natural – independentemente da Internet. É por isso que precisa ser combatida – e Popper é o antídoto por excelência a ela.

A Internet, na verdade, nos oferece mais diversidade do que um jornal como o Estadão ou a Folha jamais o fez. Basta estarmos interessados em buscá-la. O problema não é a Internet: é a falta de interesse da maioria das pessoas em analisar com cuidado possíveis falhas em suas idéias favoritas – quanto mais em procurar opiniões de pessoas  que discordem delas.

É essa mesma atitude que explica a relutância da maior parte das pessoas que têm religião de assistir a serviços religiosos em igrejas (sinagogas, mesquitas) diferentes da sua. Em seus próprios locais de culto elas se sentem confortáveis sabendo que o que vão ouvir tenderá a reforçar aquilo em que já acreditam. Num serviço religioso diferente seriam provavelmente obrigadas a pensar (e numa roda de ateus, então, nem se diga) – e pensar muitas vezes dói…

Foi por isso que Bertrand Russell uma vez disse que a maioria das pessoas prefere morrer a pensar (e muitas dessas de fato morrem sem ter jamais realmente pensado um pensamento divergente daqueles que lhes foram incutidos na infância pelos aparelhos de formação de opinião que existem na sociedade).

Em São Paulo, 29 de Março de 2009

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Do New York Times
Transcrito na Folha de S. Paulo
29 de Março de 2009

ARTIGO

O meu jornal diário

Ao contrário do jornal, internet nos leva a buscar ideias afins às nossas e vai nos isolar ainda mais em nossas câmaras políticas hermeticamente fechadas

NICHOLAS D. KRISTOF
DO "NEW YORK TIMES"

Alguns dos obituários mais recentes não estão saindo nos jornais, mas são dos jornais. O "Seattle Post-Intelligencer" é o mais recente a desaparecer, excetuando um resquício de que vai existir só no ciberespaço, e o público está cada vez mais buscando as notícias que consome não nas grandes redes de televisão ou em fontes impressas em tinta sobre árvores mortas, mas em suas incursões on-line.

Quando navegamos on-line, cada um de nós é seu próprio editor, o guardião de sua própria entrada. Selecionamos o tipo de notícias e opiniões de que mais gostamos.

Nicholas Negroponte, do MIT (Instituto de Tecnologia de Massachusetts), chamou a esse produto noticioso emergente "O Meu Jornal Diário". E, se isso for uma tendência, que Deus nos salve de nós mesmos.

Isso porque existem provas bastante convincentes de que, em geral, não desejamos realmente informações confiáveis, e sim as que confirmem nossas ideias preconcebidas. Podemos acreditar intelectualmente no valor do choque de opiniões, mas na prática gostamos de nos encerrar no útero tranquilizador de uma câmara de ecos. Um estudo clássico enviou despachos a republicanos e democratas, oferecendo-lhes vários tipos de pesquisas políticas, ostensivamente de uma fonte neutra. Os dois grupos mostraram mais interesse em receber argumentos inteligentes que corroborassem suas ideias preexistentes.

Também houve interesse mediano em receber argumentos tolos em favor das posições do outro partido (nós nos sentimos bem quando podemos caricaturar os outros). Mas houve pouco interesse em estudar argumentos sólidos que pudessem enfraquecer as posições anteriores de cada um. Essa constatação geral foi repetida muitas vezes, como observou o autor e ensaísta Farhad Manjoo em 2008 em seu ótimo livro "True Enough: Learning to Live in a Post-Fact Society" [Verdade Suficiente: aprendendo a viver numa sociedade pós-fatos].

Permita que deixe uma coisa clara: eu mesmo às vezes sou culpado de buscar verdades na web de maneira seletiva. O blog no qual busco análises sobre notícias do Oriente Médio frequentemente é o do professor Juan Cole, porque ele é inteligente, bem informado e sensato -em outras palavras, frequentemente concordo com ele. É menos provável que leia o blog de Daniel Pipes, especialista em Oriente Médio que é inteligente e bem informado -mas que me parece menos sensato, em parte porque frequentemente discordo dele.

Segregação

O efeito do "Meu Jornal" seria nos isolar ainda mais em nossas câmaras políticas hermeticamente fechadas. Um dos livros mais fascinantes de 2008 foi "The Big Sort: Why the Clustering of Like-Minded America is Tearing Us Apart" [A grande classificação: porque a divisão da América em agrupamentos de ideias iguais nos está dividindo], de Bill Bishop.

Ele argumenta que os americanos vêm se segregando em comunidades, clubes e igrejas onde são cercados por pessoas que pensam como eles.

Hoje, diz Bishop, quase metade dos americanos vive em condados que votam por maioria avassaladora em candidatos democratas ou republicanos.

Nos anos 60 e 70, em eleições nacionais igualmente d
isputadas, só cerca de um terço dos eleitores vivia em condados que apresentavam maiorias avassaladoras nas eleições.

"O país está ficando mais politicamente segregado -e o benefício que deveria advir da presença de uma diversidade de opiniões se perde para o sentimento de estar com a razão que é próprio dos grupos homogêneos", escreve Bishop.

Um estudo que abrangeu 12 países concluiu que os americanos são os que demonstram menos tendência a discutir política com pessoas de visões diferentes, e isso se aplica especialmente aos mais bem instruídos. Pessoas que não concluíram o ensino médio tinham o grupo mais diversificado de pessoas com quem discutiam ideias. Já as que tinham concluído a faculdade conseguiam colocar-se ao abrigo de ideias que lhes eram incômodas.

O resultado disso é a polarização e a intolerância. Cass Sunstein, professor de direito em Harvard que agora trabalha para o presidente Obama, fez uma pesquisa que mostrou que, quando progressistas ou conservadores discutem questões como ação afirmativa ou mudanças climáticas com pessoas que pensam como eles, suas ideias rapidamente se tornam mais homogêneas e mais extremas que antes da discussão.

Em um estudo, alguns progressistas inicialmente temiam que as ações para enfrentar as mudanças climáticas pudessem prejudicar os pobres, enquanto alguns conservadores inicialmente se mostravam a favor da ação afirmativa. Mas, depois de discutir a questão durante 15 minutos com pessoas que pensavam como eles, os progressistas se tornavam mais progressistas, e os conservadores, mais conservadores. O declínio da mídia noticiosa tradicional vai acelerar a ascensão do "Meu Jornal"; vamos nos irritar menos com o que lemos e veremos nossas ideias preconcebidas confirmadas com mais frequência. O perigo é que esse "noticiário" autosselecionado aja como entorpecente, mergulhando-nos num estupor autoconfiante por meio do qual enxergaremos as coisas em preto e branco, sendo que os fatos normalmente se desenrolam em tons de cinza.

Qual seria a solução? Incentivos fiscais para progressistas que assistam a Bill O’Reilly [comentarista do canal conservador Fox News] ou conservadores que vejam Keith Olbermann [âncora do canal progressista MSNBC]? Não -enquanto o presidente Obama não nos dá o atendimento médico universal, não podemos correr o risco de um aumento grande no número de infartos.

Então talvez a única maneira de avançar seja que cada um se esforce por conta própria para fazer uma malhação intelectual, enfrentando parceiros de discussão cujas opiniões deploramos. Pense nisso como uma sessão diária de exercícios mentais análoga a uma ida à academia: se você não se exercitou até transpirar, não valeu. Agora, com licença. Vou ler a página de editoriais do "Wall Street Journal".

Tradução de CLARA ALLAIN

Verdades Absolutas e Conhecimento Relativo

Já comentei várias vezes aqui que Karl Popper acredita na existência de verdades absolutas.

Segundo o meu entendimento de Popper, isso significa que, se um enunciado é verdadeiro, então é verdadeiro independentemente de considerações de tempo e espaço: sempre foi verdadeiro, é verdadeiro agora e será verdadeiro para sempre – aqui ou em qualquer outro lugar. Ou seja, a verdade, no caso, será absoluta, não relativa.

Para que essa posição seja plausível é necessário que os enunciados sejam totalmente determinados, sem pronomes ou termos contextuais. Ou seja: o que poderia eventualmente relativizar o enunciado precisa se tornar parte do próprio enunciado.

Por exemplo.

O enunciado “Chove agora” sofre de mais de um problema de indeterminação. Quando é agora? Não se diz. E onde chove agora? Não se diz. Ainda se pode questionar se o sentido de “chove” é claro: chover é apenas chover forte ou uma garoinha conta como chuva? Conseqüentemente, esse enunciado nunca vai poder ser uma verdade absoluta.

Por outro lado, o enunciado “Chove fortemente no dia 20 de março de 2009, às 14h, hora local, em frente ao edifício situado na Av. Paulista 2000, em São Paulo, Brasil” é completamente determinado. Se esse enunciado é verdadeiro, ele é verdadeiro agora e será verdadeiro para sempre – em qualquer lugar do planeta. E, se alguém o tivesse formulado dois mil anos atrás na Grécia, ele teria sido verdadeiro então, também. (Algo improvável, porque São Paulo nem existia então – fazendo com que fosse difícil fazer afirmações acerca da cidade).

O que chamamos de verdade, para Popper, é uma relação de correspondência entre um enunciado e um fato da realidade. O enunciado x é verdadeiro se, e somente se, aquilo que x descreve for o caso. Em outras palavras, e particularizando, o enunciado “a neve é branca” é verdadeiro se, e somente se, a neve for branca.

Elementar, mas de profundo significado.

Para Popper, dado esse entendimento de verdade, é inquestionável que nós, cedo ou tarde, formularemos enunciados verdadeiros acerca da realidade – e esses enunciados, desde que devidamente determinados, serão verdades absolutas, não relativas a tempo e espaço.

Paralelamente à sua confiança na existência de verdades aboslutas, porém, há, em Popper, uma profunda desconfiança de nossa capacidade de saber se um determinado enunciado é de fato verdadeiro. A verdade existe, para ele, no plano da ontologia – o conhecimento, no plano da epistemologia. E aqui somos profundamente falíveis.

Assim sendo, Popper acredita na existência de verdades absolutas mas desconfia da pretensão de qualquer enunciado que aspire a essa condição – até mesmo, em princípio, daqueles formulados por ele próprio.

Aí está a base do liberalismo de Popper: ele questiona qualquer ideário (ideologia, doutrina religiosa ou política ou mesmo teoria científica) que se pretenda verdadeiro. Nossos enunciados acerca do mundo ou de qualquer outra coisa são, para ele, nada mais do que conjeturas, que podem ser refutadas a qualquer momento por fatos ou argumentos (a maoria deles é, cedo ou tarde).

Quem tem um ponto de vista assim não pode, em princípio, ser absolutista no plano do conhecimento – ou dogmático. O dogmático é aquele que se acredita de posse da verdade. E o dogmático é inevitavelmente intolerante. Se o que (por exemplo) a Bíblia diz é verdadeiro, por que tolerar a evidente falsidade de quem questiona ou contesta o que a Bíblia diz, ou diverge do que ali está escrito? Fogueira para ele. Popper, por outro lado, se vê como alguém que está constantemente em busca da verdade – sem, contudo, jamais poder ter certeza de que a encontrou… Assim ele, ou alguém que siga seu ponto de vista, nunca pode ser dogmática e intolerante.

O não-dogmatismo e a tolerância vêm juntos: eles decorrem de um mesmo fator: o fato de que eu posso estar errado e de que aquele de quem eu discordo ou a quem critico pode estar certo…

Quando me sinto tentado a atribuir o caráter de verdades absolutas às minhas próprias convicções e a ser intolerante das convicções dos outros, eu devo sempre me lembrar: e se os outros estiverem certos, e eu errado? Eu gostaria que eles fossem dogmáticos e intolerantes com meus pontos de vista?

A busca da verdade se dá, segundo Popper, no exame sério, rigoroso e imparcial de pontos de vista que conflitam com os nossos. É neles que vamos eventualmente ser capazes de identificar pontos fracos em nossas formulações, em nossos argumentos, em nossas evidências – e, assim, conseguir avançar um pouco mais na direção da verdade. Quando a gente rejeita o que antes considerava verdadeiro, faz um progresso significativo na direção da verdade.

Em São Paulo, 20 de março de 2009

Dois fatos importantes sobre o ser humano

Os antigos já sabiam duas coisas importantes sobre o ser humano. A primeira é que somos mortais (Eis o silogismo clássico: “Todo homem é mortal; Sócrates é homem; logo, Sócrates é mortal”; a segunda, que somos falíveis (“errare humanum est”).

Esses dois fatos estão correlacionados…

Já escrevi aqui defendendo a tese de que é a morte – isto é, o fato de que somos mortais, e, portanto, teremos um fim – que dá sentido à vida. Se fôssemos imortais, nossas escolhas não seriam tão importantes. Por quê? Porque, quando errássemos, o que fatalmente aconteceria se somos também falíveis, teríamos toda a eternidade para voltar atrás, nos corrigir, e até errar de novo… Ou seja: nossa falibilidade não seria tão importante, se não fôssemos mortais…

Talvez porque sejamos mortais, e possamos, por conseguinte, até morrer em decorrência de um erro nosso (no volante, por exemplo), a nossa falibilidade se tornou um problema sério. Como não temos jeito de nos tornar infalíveis, procuramos encontrar infalibilidades em outros lugares: em Deus, nas Escrituras, nos pronunciamentos papais…

Mas há um problema sério aí. Quem decide que o Papa é infalível quando faz pronunciamentos ex cathedra sobre fé e prática? Somos nós, seres humanos, falíveis… Quem decide que a Bíblia é a palavra inerrante de Deus? Somos nós, seres humanos, falíveis… Quem decide que Deus existe e é infalível? Somos nós, seres humanos, falíveis. Ou seja: as decisões sobre quem ou o que é infalível não são infalíveis… Os protestantes acham que aqueles que decidiram que os pronunciamentos papais são infalíveis estavam simplesmente errados… Os católicos, por sua vez, acham que os protestantes, que acreditam que a Bíblia deve ser entendida literalmente como a Palavra de Deus, negligenciando o “sensus plenior” e a necessidade de interpretação do texto, e que a Bíblia, na interpretação literal, é inerrante, estão simplesmente errados… E assim vai…

Como é que seres humanos, reconhecidamente falíveis, podem ter tanta certeza de que encontraram a infalibilidade ou a inerrância em algum lugar? Como é que não admitem que, por serem admitidamente falíveis, podem estar errados na crença de que encontraram a infalibidade ou a inerrância em alguma pessoa ou em algum texto?

Por sermos mortais, desejamos a imortalidade; por sermos falíveis, desejamos a infalibilidade… Mas sendo falíveis, como é que podemos ter certeza de que somos imortais e identificamos corretamente fontes infalíveis de verdades?

Em São Paulo, 17 de Fevereiro de 2009

Idéias, pássaros e gaiolas

[No que segue, tomarei por empréstimo de Rubem Alves uma importante metáfora – que ele apresentou, inicialmente, no livrinho A Menina e o Pássaro Encantado e que, mais recentemente, reiterou na Apresentação de seu livro (esse um “livrão”) Religião e Repressão (que é uma re-edição do livro Protestantismo e Repressão). Aqui fica o crédito, Rubem – e o agradecimento… Transcrevo, no final deste post, a Apresentação que o próprio Rubem faz de Protestantismo e Repressão.]

Pássaros têm asas para que possam voar livremente – não para que fiquem presos em gaiolas.

Seres humanos têm mentes para que possam pensar livremente – não para que fiquem presos em gaiolas de idéias.

O dogmatismo, sobre o qual já escrevi quatro posts aqui neste space recentemente (vide referências adiante), é uma tentativa de engaiolar o pensamento humano, de prender-lhe entre grades que ele não deve transpor, e, assim, de limitar-lhe ou mesmo de totalmente cercear-lhe o vôo.

Pássaros em gaiolas voam – mas seu vôo é limitado pelas grades das gaiolas em que vivem. Pássaros que nascem em gaiolas (vale dizer, em cativeiro) podem até imaginar (se é que pássaros imaginam) que são realmente livres para voar. Mas não são. A pior prisão é aquela em que nascemos e em que sempre vivemos, porque não nos damos conta de que estamos aprisionados.

Os dogmáticos pensam – mas seu pensamento é limitado pelas premissas que definem as grades das gaiolas de idéias que os mantêm cativos.

Pássaros em cativeiros têm pouca chance de escapar das gaiolas em que se encontram. Às vezes se acostumam tanto às suas gaiolas que, se forem libertos, voam um pouco e, depois, retornam para serem engaiolados de novo…

Seres humanos têm capacidade de abrir as portas de suas gaiolas mentais e delas sair. Mas não é fácil exercer essa capacidade. Muitos, se abrem as portas de suas gaiolas mentais e decidem sair, muitas vezes dão apenas vôos rasteiros pelas cercanias das gaiolas, e para elas retornam, não ousando realmente alçar vôo para mais longe, para terras desconhecidas… São como os pássaros que se desacostumaram de voar livremente.

E isso é triste. Porque é um desperdício da maior capacidade que o ser humano possui: a capacidade de pensar.

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Eis o que disse Rubem Alves na Apresentação do seu livro Religião e Repressão:

“Deus — não importa quem ele ou ela seja — nos criou pássaros. Perdidas as nossas asas, o desejo do vôo permanece na alma como sentimento puro, nostalgia, sobre a qual somente os poetas podem falar — porque eles têm a graça de falar sem aprisionar.

A essa nostalgia do vôo, a esse espanto perante o mistério da vida, a essa capacidade de se comover diante da beleza dou o nome de sentimento religioso. O poeta William Blake, um místico sem religião, o descreveu como Ver um Mundo num Grão de Areia e um Céu numa Flor Silvestre, Ter o Infinito na palma da sua mão e a Eternidade numa hora…. E esse sentimento pode acontecer mesmo naqueles que não acreditam em Deus. Pois o que é acreditar em Deus? É ter idéias sobre Deus em nossa cabeça.

Mas os textos sagrados desprezam o acreditar em Deus. O apóstolo Tiago observa: Tu crês que há um só Deus. Fazes bem. Também os demônios acreditam e estremecem ao ouvir o seu nome…. O sentimento religioso é a cigarra que arrebenta a sua casca dura e voa para o amor.

É como o vento — nós o sentimos quando ele vem, mas não é possível possuí-lo. Quem o tem vive a dolorosa experiência de não possuir o vôo. Eu me sinto profundamente religioso e tenho os místicos e os poetas como meus mestres. As religiões, ao contrário, nascem do desejo humano de possuir o vôo dos pássaros.

Para isso constroem gaiolas. Gaiolas feitas com palavras. E é dessa pretensão que surge a intolerância, a arrogância, o dogmatismo, as perseguições e os mais sinistros tipos de fanatismo. As religiões são as cascas vazias que as cigarras deixam sobre as árvores.

Este livro não é sobre o sentimento religioso, os pássaros em vôo. Sobre o sentimento religioso já escrevi muito, em outros livros. É sobre as gaiolas. Na sua versão original o seu nome era Protestantismo e Repressão — não a repressão policial, mas a repressão sutil das grades de idéias que aprisionam o pássaro. Agora, ao prepará-lo para uma nova edição, resolvi mudar o título para Religião e Repressão porque aquilo que disse sobre o protestantismo, creio, vale para todas as religiões que constroem gaiolas para aprisionar o vôo dos pássaros.“

Transcrito de http://www.erdos.com.br/detalhe_pro2.php?id=3615

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Vide, sobre esse assunto, os seguintes posts meus aqui neste space:

“A verdade: contra o ceticismo, o relativismo, e o dogmatismo – 2”, de 20/10/2008

“A verdade: contra o ceticismo, o relativismo, e o dogmatismo – 1, de 11/10/2008

“O livre pensar”, de 25/08/2008

“A posse e a busca da verdade”, de 24/08/2008.

Em São Paulo, 21 de Outubro de 2008

A Verdade: Contra o Ceticismo, o Relativismo, e o Dogmatismo – 2

Wanderley Navarro (http://wynavarro.spaces.live.com/) mais uma vez me deixou um comentário – desafio em que me pede que dê continuidade ao artigo que escrevi recentemente sobre a verdade. O comentário – desafio requer uma resposta.

Disse ele: 

“A verdade (realidade), no plano ôntico, é portanto, um processo antes que um produto, um dado que cabe nas palavras?  Em que você não concorda com Popper? Gostaria muito que este artigo continuasse. Você, eu, Pilatos e mais alguns continuamos, aqui, de plantão, nos perguntando o que é a verdade.”

Fiz uma distinção, no artigo original, entre o “plano ôntico” e o “plano epistêmico” (que havia chamado de “plano epistemológico”, mas agora corrijo para “plano epistêmico”, por isonomia – não havia falado em “plano ontológico”…).

O “plano ôntico” se refere à realidade, às coisas em si, às coisas como elas são, independentemente de nosso conhecimento delas.

O “plano epistêmico” se refere ao nosso conhecimento da realidade, às coisas como conhecidas por nós.

Essa distinção é essencial para entender Popper.  Vou procurar mostrar por quê.

A filosofia pré-moderna – o período anterior, digamos, a Descartes e que abrange a filosofia antiga e a medieval –compartilhava, em linhas gerais, uma visão do mundo, no plano ôntico e no plano epistêmico (apesar das evidentes e consideráveis diferenças não só entre a filosofia antiga e a medieval, como também entre as diversas correntes que constituíram uma e outra).

No plano ôntico, eram estas as principais características da visão pré-moderna:

1) Existe aquilo que na filosofia moderna se convencionou chamar de “mundo exterior”, ou seja, uma realidade externa à nossa mente. A existência desse mundo é tida como evidente e, portanto, não é problemática para a filosofia pré-moderna. Ela, assim, não gasta tempo e energia tentando provar que existe algo que, para ela, é pacífico: uma realidade fora de nossa mente. Para ela, parte dessa realidade existe independentemente de nós – o chamado “mundo natural” – e parte dessa realidade é criada pelo ser humano – o chamado “mundo social” ou “mundo cultural”. (Evidentemente, a filosofia pré-moderna também pressupunha, e não considerava problemática, a existência de umä realidade dentro de nossa mente, o “mundo interior” de cada um).

2) No “mundo exterior natural”, ou seja, na realidade externa cuja existência independe do ser humano, há, simplificando, objetos e fatos. Ainda simplificando, objetos são coisas e fatos são estados de coisas. Objetos e fatos existem na realidade externa natural: eles não são, por assim dizer, constituídos pelo ser humano, que pode apenas os descobrir. É verdade que o ser humano pode agir sobre esses objetos e fatos, alterando-os ou até mesmo, com eles, criando novos objetos e fatos. Mas os objetos e fatos alterados e/ou criados pelo ser humano passam a partencer ao “mundo exterior social”, ao mundo da cultura. (Por exemplo: no mundo exterior natural pode haver uma pedra com uma extremidade cortante, um galho de árvore roliço e algumas fibras maleáveis, que existem independentemente da ação do ser humano. Mas o ser humano, um dia, amarrou a pedra no galho de árvore usando as fibras, e criou um machado, com funções específicas, que passou a ser um objeto do mundo social ou cultural).

No plano epistêmico, eram estas as principais características da visão pré-moderna:

1) O ser humano é capaz de conhecer o mundo exterior – tanto o natural (que sempre existiu, na visão clássica, ou que é criação de Deus, na visão medieval) como o social (que é sua própria criação). (Na verdade, o ser humano é também capaz de conhecer o seu próprio mundo interior – cada um, em princípio, conhece o seu próprio mundo interior, mas, se outras pessoas nô-los revelarem, podemos até mesmo conhecer os mundos interiores dos outros).

2) Dizer que o ser humano é capaz de conhecer o mundo equivale a dizer que o ser humano é capaz de, usando símbolos lingüísticos de sua própria criação, e, portanto, pertencentes ao mundo social ou cultural, fazer enunciados verdadeiros sobre a realidade.

3) Um enunciado (ou juízo) é verdadeiro quando ele corretamente descreve a realidade, ou seja, quando ele “corresponde” à realidade. Assim, o enunciado “A neve é branca” é verdadeiro se, e somente se, a neve for branca; ou, o enunciado “Deus existe” é verdadeiro se, e somente se, Deus existir (isto é, se houver na realidade uma entidade que corresponde a um conceito de Deus devidamente explicitado). A verdade, portanto, é uma relação de correspondência ou adequação entre os enunciados (ou os juízos) de um ser humano e os fatos e estados de coisas que são objeto desses enunciados (ou juízos). A realidade, em si, não é nem verdadeira nem falsa: ela simplesmente é. São nossos enunciados (ou juízos) acerca da realidade que podem ser verdadeiros ou falsos.

4) Para a filosofia pré-moderna, temos evidência da verdade ou não de nossos juízos acerca da realidade externa através principalmente dos nossos sentidos, ou seja, através da percepção sensorial. E aquilo que nos é dado na percepção é nada mais nada menos do que a realidade, propriamente dita, os objetos e os fatos que compõem o mundo externo a nós. Embora seja notório que às vezes nos enganemos em nossa percepção, a essa constatação não se dá importância muito grande na filosofia pré-moderna, porque somos capazes de descobrir nossos enganos.

5) Para a filosofia pré-moderna, por fim, o conhecimento é o conjunto de juízos verdadeiros e evidenciados que compõem a realidade. Para que haja conhecimento é necessário que haja um sujeito, que conhece, um objeto, que é conhecido, e um enunciado verdadeiro e evidenciado que o primeiro faz sobre o segundo.

A filosofia moderna veio a questionar toda essa visão de mundo. Descartes é adequadamente descrito como o pai da filosofia moderna porque ele levantou dúvidas acerca de nossa capacidade de conhecer o mundo exterior a nós. Ele se propôs duvidar, sistematicamente, de que conhecesse qualquer coisa. Como duvidar envolve pensar, porém, ele concluiu que não poderia duvidar de que pensava – e, como imaginou que para que pensasse ele tinha de existir, ele concluiu que, ele, Descartes, existia. Cogito, ergo sum. Mas o Descartes que ele assim imaginou provar que existia era apenas a mente de Descartes, o mundo interior de Descartes. O mundo exterior que ele parecia perceber – e incluía até mesmo o seu corpo – continuavam a ter uma existência ou realidade questionável, e, portanto, não poderia ser, sem mais argumentos, objeto do conhecimento. É esse o problema do conhecimento do mundo exterior que preocupou virtualmente todos os filósofos posteriores a Descartes.

Partindo do pressuposto (que ele acreditava ter provado) de que ele só era capaz de conhecer o mundo interior de sua própria mente, Descartes criou a base do ceticismo moderno – e, na realidade, do solipsismo (a tese de que só tenho condições de conhecer o que eu próprio penso). O objeto de suas percepções (ele acreditava) não era algo no mundo exterior, mas, sim, sensações puramente mentais que, assim, tinham existência apenas dentro de sua mente. E lhe parecia impossível (sem recorrer a Deus) estabelecer uma ponte entre o que havia em sua mente e seja lá o que for que pudesse existir fora dela.

Com essa “virada”, a filosofia moderna acabou se tornando mentalista (não racionalista, como pretendem alguns): nela, a verdade passa a ser apenas coerência entre as sensações e idéias existentes dentro da mente – e o conhecimento algo puramente subjetivo, que carece de um “objeto” no mundo exterior.

É esse o contexto em que Popper filosofou. Em certo sentido, Popper é um filósofo pré-moderno: no essencial, ele nunca duvidou das teses pré-modernas, seja no plano ôntico, seja no plano epistêmico. Ele sempre acreditou que é evidente e pacífico que a realidade externa à nossa mente existe, que ela é cognoscível através dos sentidos e da reflexão, que a verdade, como correspondência entre o pensamento e a realidade extramental, em princípio existe e é alcançável… Em tudo isso Popper é mais pré-moderno do que moderno. Sua única concessão à modernidade foi sua admissão de que, mesmo que tenhamos alcançado a verdade, ou que (mais provável) tenhamos tropeçado nela, nunca poderemos ter a certeza de que a encontramos, e, por isso, precisamos continuar sempre a buscá-la…

Wanderley Navarro me pergunta no que eu discordo de Popper. Minha resposta é: em quase nada… Minha única discordância é pequena (e, talvez, se confrontado com ela Popper nem a consideraria uma discordância) e me foi sugerida por Hume (que é um dos filósofos favoritos de Popper). Na prática, no dia-a-dia, temos de agir como se tivéssemos várias certezas. Quando entramos no mundo da reflexão, porém, é sempre possível encontrar boas razões para duvidar de nossas certezas e, portanto, para questionar aquilo que, em outro contexto, nos parecia evidente e pacífico. É por isso que o dogmatismo é tão nocivo: ele fecha uma discussão que deveria ser aberta e permanente, ele encerra uma busca que deveria ser contínua e incessante.

Em São Paulo, 20 de outubro de 2008

“Você acredita em Deus?”

Transcrevo, a seguir , uma matéria de autoria de Paulo Ghiraldelli Jr, com o título acima, que recebi pela lista de discussão 4pilares. A transcrição é feita com autorização do autor.

Você acredita em Deus?

Paulo Ghiraldelli Jr.

Nenhum dos mandamentos bíblicos diz que você deve "acreditar em Deus". E isso não é pelo fato de que eles já pressupõem do leitor ou ouvinte que este já seja um crente na existência de Deus. O que há é a pressuposição da concorrência. O Deus da "tábua de leis" de Moisés diz logo de início que não se deve ter outra divindade em desafio a ele. Assim, a idéia que está ali é a popularmente conhecida como a idéia do "Deus ciumento". A partir disto, todos os outros mandamentos são, de fato, *mandamentos*: regras de conduta.

A partir do quarto mandamento, inclusive este, essas regras de conduta passam a ser regras exclusivamente ético-políticas. Ou seja, elas dizem o que se deve fazer em comunidade, na vida social, uma vida que é necessariamente uma vida urbana ou tendente a isso. Assim, entre dez regras, seis delas são dirigidas ao que os homens e mulheres devem fazer no âmbito da vida na comunidade, ou mesmo na vida na cidade.

É claro que o peso maior é antes ético-moral que político. Pois as regras não relacionam diretamente o homem e a mulher com o poder – e isto caracterizaria o campo político. No entanto, é difícil admitir que os mandamentos sobre roubo, morte, falso testemunho e cobiça não tenham seu componente político, uma vez que são facilmente regras que vingariam em qualquer cidade, como atos de legislação do poder em relação aos habitantes.

Quando olhamos a religião judaico-cristã por esse prisma, percebemos que ela nasce segundo o mesmo clima das religiões orientais. Ou seja, trata-se de um conjunto de preceitos para que a vida social possa se realizar. Não há aí nenhuma teologia envolvida. Não há aí nenhum requerimento que peça para que se investiguem questões atinentes à divindade. Não há aí nenhum "estudo de Deus".

A teologia é algo posterior. Ela é uma forma de trabalho intelectual dos cristãos, já dispostos como Igreja, no sentido de dar conta de um passado intelectual poderoso, ou seja, as filosofias pagãs. É nesse contexto que nasce a idéia de "provas da existência de Deus" e, então, a legitimidade da pergunta "você acredita em Deus?" Fora desse específico contexto, essa pergunta não ajuda ninguém, ao contrário, ela afasta as pessoas, distancia as pessoas umas das outras. E não afasta as pessoas por revelar conceitos, mas por fomentar preconceitos. A resposta a uma pergunta desse tipo, fora do campo teológico-filosófico, impessoal, apenas gera falsas conclusões.

No âmbito teológico filosófico, "Deus existe?" e "eu acredito em Deus ou não?" são questões que, impessoalmente, pertencem ao campo de investigação do raciocínio puro. Os letrados da Igreja se envolveram com isso. Mas, quando alguém usa de uma pergunta dessas no âmbito da doutrina, da prática religiosa e do convívio com os outros, essa pergunta serve apenas para, a partir da resposta "sim" ou "não", termos a geração de inúmeros preconceitos a respeito de quem respondeu. Nada sabemos de uma pessoa que responde a tal pergunta com um "sim" ou com um "não". Mas achamos que sabemos tudo. E começamos a achar que até sabemos o que tal pessoa irá fazer!

Há uma idéia errada de que ao se dizer "sim" ou "não", todo o comportamento de quem respondeu pode ser mapeado e antecipado por quem escuta a resposta.

E mesmo os que sabem que essa conclusão é um erro, ainda assim, se guiam por ela. Ou seja, estão já seguindo preconceitos. E assim fazem porque o preconceito é mais forte que o conceito.

Caso sejam religiosos e crentes, a resposta "sim" lhes daria a condição de imputar o caráter "bom" para quem respondeu. Caso sejam não crentes os ouvintes, a resposta "não" é que daria a quem respondeu o adjetivo de "bom".

É então, baseado nisso, que é o preconceito, que passamos a olhar para a tal pessoa que deu a resposta. Eis aí que nada sabemos dela de concreto, e nada sabemos do que poderá ou não fazer, mas achamos que sabemos tudo. Daí para diante podemos começar a imaginar coisas a respeito de tal pessoa que são falsas – certamente serão falsas. Daí por diante estamos com um guia errado na mão para lidarmos com aquela pessoa, embora estejamos convencidos que temos o guia certo. Isso é tudo que precisamos para criar um mundo ruim à nossa volta.

Se a filosofia pode ajudar o religioso, talvez esteja nisso sua tarefa principal: fazer distinções e criar um discernimento inteligente é o que a filosofia pede para que se realize sobre o assunto. Então, que se tenha claro: temos de distinguir a que serve a pergunta "você acredita em Deus?" e ao que ela não serve. Para mapear condutas ela não serve. Para a melhora do convívio social ela não serve. Ela serve para que nos tornemos "polícias religiosas", iguais às polícias políticas do mundo todo, como foi a KGB ou a SS.

Paulo Ghiraldelli Jr.
Filósofo
www.ghiraldelli.pro.br

Veja o vídeo sobre o assunto em:

http://www.dailymotion.com/pgjr23/video/x748nv_voce-acredita-em-deus_creation 

Transcrito em Ubatuba, em 19 de outubro de 2008

A Verdade: Contra o Ceticismo, o Relativismo, e o Dogmatismo – 1

Talvez a maior contribuição que Sir Karl Raymund Popper tenha feito ao debate filosófico do século XX tenha sido sua discussão da questão da verdade no âmbito da filosofia, da ciência, e do senso comum.

De um lado, Popper defendeu a verdade contra o ceticismo – que afirma que nada é verdade, que a verdade não existe, que existem apenas opiniões, pontos de vista, etc. – e o relativismo – que afirma que tudo é verdade, que cada um tem a sua verdade, que a opinião ou o ponto de vista de cada um é a (sua) verdade…

Contra essas duas tendências, Popper argumentou que a verdade existe e que é absoluta – e que não há verdades pessoais e relativas. Se um enunciado, devidamente determinado em suas referências espaço-temporais, é verdadeiro, ele é verdadeiro hoje, foi verdadeiro ontem e será verdadeiro para sempre. A verdade de um enunciado devidamente determinado não varia com o espaço e o tempo, com o contexto e a época – é isso que ele quer dizer com a tese de que a verdade é absoluta.

Essa tese de Popper é uma tese no plano da realidade – naquilo que poderíamos chamar de “plano ôntico”, o plano do ser. Para ele, é assim que as coisas são.

Tendo a concordar com ele nessa tese.

De outro lado, Popper defendeu a verdade contra o dogmatismo – que é a arrogante pretensão de que encontramos a verdade e que todos os outros que a buscam, ou que pretendem ter encontrado uma verdade diferente da nossa, estão simplesmente errados – ou, pior, se recusam a ver a verdade manifesta daquilo em que acreditamos.

Contra o dogmatismo, Popper defendeu a tese do falibilismo: no “plano epistêmico”, o plano do conhecer, somos sempre falíveis. Mesmo que estejamos convencidos (como ele estava) de que a verdade existe e é absoluta, nunca poderemos ter certeza de que a alcançamos e, portanto, de que estamos de posse dela. Sabemos que a verdade existe, devemos buscá-la, podemos até mesmo aspirar a encontrá-la, mas nunca poderemos estar certos de que a encontramos e, por conseguinte, de que estamos de posse dela.

Há uma diferença muito grande e essencial, diz Popper, entre aquele que humildemente busca ou persegue a verdade e aquele que orgulhosa e arrogantemente se julga possuidor dela – aquele que, na fala comum, se crê o “dono da verdade”. E aquele provavelmente está mais próximo da verdade do que este…

Também aqui tendo a concordar com Popper.

Essa tese dupla de Popper é importante, porque se torna um poderoso libelo contra o ceticismo, o relativismo e o dogmatismo. Não creio que nenhum outro filósofo tenha tido tanta clareza sobre a questão.

Ao refletir sobre essa questão ontem à noite, lembrei-me da parábola do fariseu e do publicano relatada pelo evangelista Lucas no Novo Testamento… e senti algo que não sentia há tempo: simpatia por alguns elementos importantes dos ensinamentos de Jesus – elementos que eu utilizei em um artiguete de jornal acadêmico em 1966 – mais de quarenta e dois anos atrás.

“Propôs Jesus também esta parábola a alguns que confiavam em si mesmos por se considerarem justos, e desprezavam os outros” (Lucas 18:9).

A história diz respeito a dois homens que foram ao templo orar: um fariseu e um publicano. O fariseu era um líder religioso na sociedade judaica. Julgava-se próximo da perfeição teológica e moral. O publicano era um réprobo: era tido como exemplo de heresia e imoralidade.

O fariseu orou: “Graças te dou, ó Deus, porque não sou como os demais homens, roubadores, injustos e adúlteros – nem ainda como este publicano”.

O publicano orou: “Ó Deus, tem misericórdia de mim, pecador”.

Jesus concluiu que o publicano, não o fariseu, retornou para sua casa justificado.

Em suma: aquela criatura de tão excelentes qualidades, o fariseu da parábola de Jesus, não foi o que desceu para casa justificado, mas sim aquele que era visto como roubador, injusto e adúltero, aquele que era um verdadeiro pária moral na sociedade de sua época.

Ensinamento profundo.

O fariseu orgulhosamente se acreditava possuidor da verdade religiosa e moral. O publicano a buscava – e se a buscava era porque sabia que não a possuía. Este, não aquele, teve sua atitude recomendada por Jesus. O fariseu, não o publicano, teve a sua atitude condenada por Jesus.

Se não tivesse morrido em 5 de março de 1991 meu pai estaria completando hoje 96 anos. Ele foi pastor presbiteriano durante quase 50 anos de sua vida (tivesse vivido mais um ano e teria completado o Jubileu de Ouro de seu ministério). Ele era um crente convicto de que a verdade existia – e de que ele a havia encontrado de uma vez por todas. Por isso, embora humilde e tolerante no plano pessoal, ele era, no plano doutrinário e moral, um tanto quanto orgulhoso, arrogante, dogmático  e intolerante. Quem dele ousasse discordar, como eu, estava não só simplesmente errado, mas tinha o “coração empedernido” por se recusar a ver uma verdade que para ele era manifesta, inquestionável, indiscutível. Quando, em 1966, fui expulso do Seminário Presbiteriano de Campinas, me disse que preferia que eu tivesse nascido morto a me ver esposando heresias e imoralidades. Eu havia, dias antes, escrito, no jornalzinho do Centro Acadêmico do Seminário, uma paráfrase da parábola do fariseu e do publicano que especialmente o ofendeu…

Talvez mais do que qualquer outra coisa, essa atitude do meu pai me colocou no caminho que, alguns anos mais tarde, me afastou da religião e da crença em Deus, e, mais tarde, da moralidade altruística e sacrificial do Cristianismo. Foi, provavelmente, essa atitude que me fez ver nas teses de Popper sobre a verdade um “hálito de vento fresco” (“breadth of fresh air”, como se diz em Inglês).

Presto a meu pai, aqui, e de forma admitidamente um pouco atravessada, o meu reconhecimento pelo papel importante que ele teve em minha formação – ainda que de modo, muitas vezes, negativo.

Em São Paulo, 11 de outubro de 2008

Filosofia

Há gente que pensa que filosofia é uma disciplina acadêmica e que filósofos são os especialistas que se dedicam a ela. Muitas vezes essa visão da filosofia e dos filósofos vem acompanhada da suposição de que o objeto próprio da filosofia é algo profundo, complicado, de difícil entendimento, talvez até mesmo um pouco esotérico, que apenas pessoas muito inteligentes, próximas de gênios, conseguem decifrar, discutir e, no extremo, produzir. (Em muitas livrarias menos sofisticadas já encontrei livros de filosofia misturados com outros tipos de livro, numa seção em geral intitulada assim: “Filosofia, Religião e Ocultismo”…

Não resta a menor dúvida de que há até mesmo filósofos que pensam nessa linha: que a filosofia tem um objeto específico e que seu conteúdo é tão complexo que só mesmos gênios como eles próprios conseguem navegar por ele — e se acham o máximo por (como crêem) conseguir fazê-lo. Muitos filósofos (especialmente os alemães) escrevem num estilo tão convoluto que ninguém consegue ter certeza de que os entendeu. E isso é confundido com profundidade até mesmo pelos próprios.

Tradicionalmente, quando ainda eram cartesianos, os filósofos (e teólogos) franceses tinham fama de serem extremamente claros e distintos (seguindo a máxima de mestre Cartesius de que devemos buscar idéias claras e distintas). Quando eu estava no seminário, contava-se a piada de que Karl Barth, talvez o mais famóso teólogo do século XX, suíco, que escrevia em alemão, e que produziu uma monumental e incomparável obra, chamada Dogmática da Igreja (Kirchliche Dogmatik), em dez grossos volumes, com estilo extremamente — como direi? — denso, recebeu, um dia, uma cópia da tradução para o francês dessa gigantesca obra. Ao lê-la, sentiu-se forçado a escrever para o tradutor para agradecer-lhe o trabalho cuidadoso, acrescentando que, ao ler a tradução, havia conseguido entender um monte de coisas que não tinha entendido quando escreveu o original… Bom… hoje em dia os filósofos franceses, com uma honrosa exceção aqui e ali, não são mais cartesianos, e sua prosa se afastou totalmente dos ditames de Descartes.

Lembro-me de que, assim que cheguei à UNICAMP, em 1974, fui convidado para ser membro (felizmente suplente) da  banca de Doutorado de um professor do Instituto de Filosofia e Ciências Humanas. Como recém-chegado na Universidade, e um dos poucos membros do corpo docente de então com Ph.D. em Filosofia, não tive como recusar — mas me arrependi profundamente ao pegar a tese. A começar pelo título: “A Voz do Intervalo”. Que diabo é a voz do intervalo, perguntei-me… (A tese, vim descobrir depois, versava sobre o silêncio, que é o que existe nos intervalos da comunicação). O principal autor discutido no trabalho era Merleau Ponty, famoso filósofo francês, da estirpe acadêmica. Quando passei do título para o corpo da tese, a coisa ficou pior. Não entendi quase nada. Apelei para o Rubem Alves, que era membro (titular) da banca. Perguntei a ele se ele havia entendido a tese. Também não havia. Ganhei algum consolo do fato, porque pelo menos o problema não estava apenas comigo. Mas pensei que, talvez, a dificuldade no entendimento da tese se devesse ao fato de que tanto eu como o Rubem havíamos estudado nos Estados Unidos, não na Europa… Ou que nós dois fôssemos de origem presbiteriana… Ou, então, que nós dois havíamos vindo para a filosofia a partir da teologia… Algo assim. À defesa compareceram todos os membros titulares da banca, de modo que fui poupado do constrangimento de argüir alguém sobre um trabalho que eu não havia entendido. Mas o que realmente me consolou, na defesa, foi algo que disse o Michel Debrun, estrela filosófica do departamento, não só de formação francesa, mas francês ele próprio, com um terrível (no sentido de forte, não de feio) sotaque que nunca perdeu (talvez porque o achasse charmoso). O Michel observou que a gente normalmente lê trabalhos acadêmicos (como teses) sobre grandes filósofos para conseguir entendê-los melhor, mas que, no caso, ele tinha tido de voltar a ler Merleau Ponty para fazer se conseguia entender a tese…

Os filósofos que eu realmente admiro — Sócrates, Hume, Russell, Popper, Ayn Rand, todos  mortos, infelizmente — não foram desse tipo. Com exceção de Russel e Popper, os outros três não foram acadêmicos: nunca trabalharam numa universidade (ou equivalente). E todos eles compartilharam algumas características importantes.

Primeiro, para esses filósofos, a filosofia não tem um objeto específico próprio: o filósofo reflete sobre qualquer coisa que lhe pareça interessante, complicada, digna de esclarecimento. Reflete, enfim, sobre o mundo, a vida, a cultura, em qualquer uma de suas múltiplas manifestações, altas ou baixas, nobres ou comezinhas. Filósofos são tipicamente generalistas. Em geral interessam-se por tudo: o universo, a vida, o humano, e, dentro do humano, pela ciência, pela religião, pelo mito, pela arte, pela política, pelo senso comum, pela superstição, pelas crendices populares… Os Ensaios Morais, Políticos, e Literários de Hume tratam de tudo… Popper chegou dizer que a especialização talvez seja um pecado apenas venial no cientista, mas, no filósofo, é um pecado claramente mortal…

Segundo, eles sempre tinham, como interlocutores, pessoas comuns, não outros filósofos. Sócrates nem escrever escreveu: ele conversava — na praça — com qualquer um que viesse a ele com alguma pergunta, dúvida, problema, ou perplexidade… Às vezes era um jovem, ainda molecote, outras vezes um escravo… Hume, muito cedo em sua vida, tentou escrever para outros filósofos: foi um fracasso. Desistiu e passou a escrever para as pessoas comuns. Tornou-se o maior filósofo da língua inglesa, ever. Russell seguiu trajetória semelhante. Sendo, porém, acadêmico, escreveu mais para outros filósofos do que Hume o fez. Mas seus grandes escritos são populares — ou, então, “impopulares”, como ele próprio os descreveu em um livro chamado Unpopular Essays, porque tratava de temas considerados tabus e de um jeito que parecia meio irreverente. Por causa de sua ironia e irreverência, Russell é chamado de Hume do Século XX. Ayn Rand escreveu filosofia principalmente em romances destinados ao mais amplo público: livros que já venderam literalmente milhões de cópias.

Terceiro, sua linguagem era simples, clara, precisa — sem ambigüidades, obscuridades, vaguezas… Quasem nunca usavam termos técnicos ou jargões. Qualquer um conseguia entendê-los — algo importante quando o seu interlocutor é a pessoa comum…

Quarto, para eles, a filosofia consiste, não em conteúdo específico, que seria o seu objeto próprio, mas em fazer perguntas de um certo tipo sobre qualquer coisa ou assunto. O povo de atenas provavelmente achava que Sócrates, sendo um filósofo, era uma pessoa a quem deviam se dirigir quando tinham perguntas, dúvidas, problemas, perplexidades que queriam ver respondidas, sanadas, resolvidos, esclarecidas. Provavelmente tinham um choque ao conversar com ele: ele não só não respondia a nenhuma pergunta, não sanava nenhuma dúvida, não resolvia nenhum problema, não esclarecia nenhuma perplexidade, como, em geral, fazia perguntas ao interlocutor, tornava as suas perplexidades ainda mais profundas, ampliava a dimensão dos problemas que tinham…

[Se você tem dúvida acerca do que é uma perplexidade, considere a seguinte. Se eu chegar para você e lhe disser: “Preste atenção: o que eu estou lhe dizendo agora é mentira”, o que eu disse é verdadeiro ou falso? Se for verdadeiro, é falso, porque o que eu disse foi que o que eu estava dizendo era falso; se for falso, é verdadeiro, porque eu disse, falsamente, que o que estava dizendo era falso — logo, é verdadeiro. E daí? Como saímos dessa???]

Quinto, que tipo de pergunta faziam esses filósofos? Essas perguntas eram todas epistêmicas (se vocês me permitem usar esse jargãozinho filosófico aqui). Episteme é conhecimento, em grego. Perguntas epistêmicas são perguntas deste tipo:

  • Por que você acha isso?
  • Em que evidências ou argumentos você se baseia para afirmar isso?
  • Será que o que você está dizendo é verdade?
  • Existem verdades absolutas ou toda verdade é relativa?
  • Mas o que significa chamar uma afirmação de verdadeira?
  • Há diferença entre conhecimento e opinião? Se há, no que consiste?
  • O que você entende por x? (onde x é um conceito qualquer usado pelo interlocutor).
  • Mas, nesse caso, como se explica isso?

E por aí ia a conversa… Interminável.

Muitas pessoas criticam a filosofia porque, segundo acham, nela não há progresso, como aparentemente existe na ciência. Na ciência o progresso se mede pelos problemas resolvidos, pelas previsões acertadas, pelas conquistas alcançadas sobre o mundo natural. A ciência evolui rapidamente. Na área científica, procura-se sempre ler os trabalhos mais recentes. Um livro escrito há 50 anos ninguém mais lê, porque certamente está ultrapassado. Mas na filosofia, lemos hoje Platão e Aristóteles, que escreveram há mais de dois mil anos, Agostinho e Aquino, que escreveram na Idade Média, Descartes e Locke, que escreveram no início da era moderna, Hume e Kant, que escreveram durante o Iluminismo — e lemos todos eles como se fossem nossos contemporâneos. Aprendemos muito ainda com eles, sentimos o mesmo prazer ao lê-los — ou, talvez, prazer ainda maior — que sentiam os seus contemporâneos. A razão possivelmente está neste fato: sua maior contribuição não está nas respostas que deram, mas nas perguntas que levantaram; não nos problemas que resolveram, mas naqueles que propuseram; não nas perplexidades que elucidaram, mas naquelas que nos legaram e que nos desafiam até hoje…

A maior parte das questões que a gente encontra na obra desses grandes filósofos talvez seja, num sentido duro do termo, insolucionável, porque são multifacetados, nuanceadas, cheias de consideração de valor…

Todos filosofamos — e o fazemos o tempo todo. Não só os chamados filósofos acadêmicos, profissionais.

Filosofamos quando ficamos agoniados tentando escolher um curso de conduta dentre dois ou mais possíveis — e nenhum deles é claramente certo ou errado… Ficamos pesando considerações de um lado e de outro. Às vezes queremos fazer algo — mas o que queremos fazer traz conseqüências que não gostaríamos de gerar. Queremos o antecedente, mas não o conseqüente… Mas isso muitas vezes é como tentar fazer um omelete sem quebrar os ovos..

Filosofamos quando somos assaltados por dúvidas acerca de crenças que consideramos importantes… Será que Deus existe mesmo? Se existe, porque também há tanto sofrimento causado por desastres naturais? Será que somos realmente livres, ou será que somos determinados pela nossa carga genética e pelos condicionantes do ambiente?

Filosofamos quando nos perguntamos qual a base de nossos julgamentos morais… Quando dizemos que uma ação é imoral, ou exigiu coragem moral, o que exatamente estamos dizendo? E com base em quê? Considerações de fato, valores, sentimentos???

Filosofamos quando nos perguntamos se a beleza existe nas coisas ou “no olho de quem vê”… Quando especulamos sobre o que é a arte, quando concluímos que muita coisa que passa por obra de arte não passa de lixo.

E aí vai…

Mas estudar filosofia ou aprender filosofia não é aprender o que pensaram esses e outros filósofos: é aprender a pensar como eles, a fazer perguntas, a propor problemas, a levantar perplexidades. E, como tudo, a gente aprende a filosofar, filosofando… lidando com problemas, desafios, dilemas… Aprender filosofia é, acima de tudo, aprender a filosofar.

Estudar filosofia como um conjunto de idéias mortas, de interesse apenas histórico, sem aprender a filosofar, sem aprender a dialogar com os filósofos da história como se eles estivessem vivos ao nosso lado, quem sabe na “agora” de Atenas, é uma grande chatice.

Em Bellevue, 2 de Setembro de 2008

O Sentido da Vida

Fazia muito tempo que eu estava procurando duas passagens de Karl Raymund Popper que tratam da questão que dá título a este post: “The Meaning of Life”. Custei a achar. Mas hoje, finalmente, eu as achei.

A primeira é uma passagem contida em um ensaio chamado “Emancipation through Knowledge”, publicado no livro In Search of a Better World. (Routledge, London, 1992). O ensaio trata, entre outras coisas, das expressões “O Sentido da Vida” e “O Sentido da História”.

Diz Popper (tradução minha do Inglês):

“O termo ‘sentido’ sofre de uma importante ambiguidade, em ambas as expressões [‘sentido da vida’ e ‘sentido da história’].

A expressão ‘sentido da vida’ é algumas vezes usada para sugerir que a vida humana tem um sentido, frequentemente obscuro, ou mesmo oculto, certamente profundo, que nos caberia descobrir.

Mas a expressão pode também ser entendida de forma diferente. Neste entendimento, o sentido da vida não é algo profundo, abaixo da superfície, obscuro ou oculto, e que nos cabe descobrir, mas, isto sim, um sentido com que nós mesmos dotamos a nossa vida.

Podemos dotar a nossa vida com sentido através de nosso trabalho, de nossa conduta, do nosso jeito de encarar e viver o dia-a-dia, das atitudes que adotamos em relação aos nossos parentes, amigos, aos que nos estão próximos, ao mundo inteiro. . . .

Assim, a busca pelo sentido da vida não é uma busca por algo que está lá, independente de nós, mas, sim, uma busca por uma forma de vida que seja capaz de dotar a nossa vida de sentido e significado.” (pp. 138-139). 

A segunda, e mais importante, é uma passagem do ensaio “How I See Philosophy”, publicado no mesmo livro In Search of a Better World. O ensaio tem o curioso subtítulo de “Stolen from Fritz Waismann and from one of the first men to land on the Moon” – “Roubado de Fritz Waismann e de um dos primeiros homens a pousar na Lua”.

Eis a parte final do ensaio de Popper, traduzida do Inglês por mim:

“Talvez os leitores permitam que eu termine este ensaio com algumas considerações filosóficas de teor claramente não-acadêmico.

Atribui-se a um dos astronautas envolvidos na primeira visita à Lua a afirmação, simples e sábia, que eu cito de memória: ‘Vi alguns planetas durante a minha vida, mas fico com a Terra, qualquer que seja a alternativa’.

Acredito que essa afirmação reflita não só profunda sabedoria, mas sabedoria profundamente filosófica.

Não sabemos como é que viemos parar e viver neste lindo pequeno planeta. Nem por que é que existe aqui algo como a vida, que permite que esse planeja seja considerado tão lindo. Mas aqui estamos. E temos motivo de sobra para nos perguntar por quê – mas também para sermos gratos pelo fato de que, qualquer que seja a razão, é aqui que nós estamos.

O fato de estarmos aqui e de sermos capazes de fazer essas perguntas talvez seja a coisa mais próxima de um milagre a que jamais cheguemos.

Pois tudo o que a ciência nos pode dizer é que o universo é quase vazio de matéria. E que, onde há matéria, ela está, em sua maior parte, em um estado caótico, turbulento, inabitável, invivível. Pode ser que haja outros planetas em que a vida floresça. Contudo, se pegarmos aleatoriamente um lugar qualquer no universo, a probabilidade (calculada com base na nosso dúbio conhecimento atual da cosmologia) é zero, ou muito próxima de zero, de que encontremos ali alguma forma de vida.

A vida, portanto, tem valor por ser algo extremamente raro.

Esse valor se torna incrivelmente precioso quando nos damos conta de que a vida não só é rara no universo, mas também é altamente precária: podemos perder essa coisa rara e preciosa a qualquer momento, às vezes em uma fração de segundo.

Em geral nos esquecemos disso, e tratamos a vida, até mesmo a nossa, como algo extremamente comum e barato – talvez porque nunca pensemos sobre o assunto. Ou, talvez, porque nesta linda Terra em que nos foi dado morar exista vida em demasia…

Todos os seres humanos são filósofos, porque, de uma forma ou de outra, cada um de nós assume uma atitude particular para com a vida e a morte. Há aqueles que pensam que a vida não tem valor porque, afinal, ela tem fim… Não percebem que um argumento semelhante pode ser construído com o sinal oposto: se fôssemos imortais, se a vida não tivesse fim, ela não teria valor… É, em grande medida, o fato de que nós, a qualquer momento, podemos perdê-la, e de que certamente a perderemos, definitivamente, um dia, que nos faz perceber quão valiosa a vida é.” [Ênfases acrescentadas em todos os casos.]

Seria terrível presunção acrescentar qualquer coisa a essa segunda passagem. Talvez seja uma das passagens filosóficas mais belas que ja li. 

Mas juntando as duas passagens, concluo o seguinte. Cabe a cada um de nós dotar a sua vida de sentido e significado. Ninguém fará isso por nós. É importante fazer isso porque nossa vida é preciosa, posto que rara, no universo – e extremamente precária, pois podemos perdê-la com facilidade, a qualquer momento, mediante uma variedade incrível de causas. Cada um dia que passa é um dia menos que temos para viver. Ou damos sentido à nossa vida – ou ela é um grande desperdício de um recurso precioso, raro, e, por isso, tão valioso.

ET:  Os interessados neste assunto podem ler também O Sentido da Vida  –  Uma Atualização, no meu blog  Chaves Space, no URL  https://chaves.space/2019/09/06/o-sentido-da-vida-uma-atualizacao/, escrito e publicado em  6 de Setembro de 2019. Esse contextualiza algumas das mudanças mencionadas no último parágrafo, abaixo.

Em Campinas, 30 de Agosto de 2008, 15h45. [Olhando em retrospectiva, este foi o último artigo que escrevi enquanto morei em Campinas, SP. No dia seguinte, 31.8.2008, fui para São Paulo, à noite naquele dia viajei para os Estados Unidos (Bellevue, Redmond), lá chegando no dia seguinte, 1.9.2008, em tempo para celebrar o aniversário de meu grande amigo Les Foltos. Só saí de Seattle no dia 5.9, chegando em São Paulo no dia seguinte, 6.9, véspera do meu aniversário de 65 anos. Não voltei a residir em Campinas. Fiquei morando em São Paulo, agora com a Paloma Epprecht Machado Campos Chaves, a partir de 6.9.2008. Quase matamos os parentes e amigos de susto, mas é a vida… Embora tivéssemos residência secundária no sítio de Salto, residência essa que, a partir de 11.12.2015, passou a ser nossa residência primária e permanente (embora tenhamos continuado a manter, agora como secundária, uma residência de São Paulo). Fiz pequenas correções neste artigo em Salto, em 14 de Junho de 2021 e agora em 30 de Agosto de 2021.]