Tolerância

Tolerar é não reprimir. Da forma que eu entendo a coisa, quem tem o dever praticar tolerância é o governo, não pessoas físicas ou jurídicas. E mesmo o governo só tem o dever de praticá-la em relação a algumas questões bem definidas.

No tocante a opiniões, pontos de vista, doutrinas, teorias, etc., o governo tem o dever de tolerar basicamente tudo – e ter mecanismos para que pessoas que se julguem insultadas e caluniadas (i.e., indevidamente acusadas) possam judicialmente responsabilizar quem emitiu a opinião.

No tocante a ações, nem mesmo o governo tem o dever de ser tolerante com tudo. Pelo contrário. Em relação ao cidadão comum, o governo deve tolerar qualquer ação sua que não seja proibida por nenhuma lei. Em relação ao funcionário público, o governo tem o dever de apenas tolerar as ações que a lei considera como de competência daquela categoria de funcionário.

Quando um cidadão faz o que a lei proíbe, o governo tem o dever se não ser tolerante. Quando um funcionário público faz algo que a lei não o autorizou, abusa do poder que lhe foi atribuído, e o governo tem o dever de não ser tolerante.

Eu, como indivíduo, ou eu, como pessoa jurídica, não tenho poder nenhum para reprimir ninguém e nada. Não tenho, portanto, como ser tolerante, no sentido básico do termo que acabei de explicitar.

Tolerar, no entanto, para alguns, é simplesmente não julgar, não criticar, não condenar moralmente — tanto opiniões, pontos de vista, doutrinas, teorias, etc., como ações.

Mas, nesse sentido do termo, temos o dever de ser totalmente intolerantes. Contrário ao que dizem os Evangelhos, temos não só o direito de fazer julgar, criticar, condenar moralmente as idéias e as ações que consideramos erradas, mas também o dever de fazê-lo.

Tolerar as idéias ou ações de uma outra pessoa é uma coisa: é não reprimi-las (tendo o poder de fazê-las – algo que apenas o governo tem). Quando um conjunto de idéias ou ações é corretamente tolerado pelo governo, os cidadãos do país não têm o dever de considerar essas idéias e ações boas, corretas, dignas de disseminação e aceitação. Qualquer cidadão de um país tem não só o direito como o dever de combater idéias e ações que considera perniciosas e incorretas, e de fazer o que está em seu poder, sem violar o direito de terceiros, para que não sejam aceitas por outras pessoas.

Por fim, uma outra observação. Algumas pessoas têm dito que devemos ser tolerantes com o erro mas amar a quem erra… Aqui o equívoco ainda é maior. Não concordo com a tese de que devemos amar os outros, indiscriminadamente. Da mesma forma que temos (no meu entender) o dever de criticar os pontos de vista e as ações dos outros, quando estão erradas, estou convicto de que só devemos amar quem tem valor para nós.

Amar quem não nos vale nada é, na minha opinião, um ato irresponsável.

Em Cortland, 28 de Julho de 2005

Evidência e "o golpe branco das elites"

Acabo de ler a VEJA que tem data de 27/7/05 — bem como os jornais dos últimos dias.

É, pelo jeito Roberto Jefferson sabia do que falava. Tudo indica que as provas exigidas pelos petistas existem — e os incriminam, também a eles, petistas — além de deputados dos partidos que Jefferson havia mencionado.

E as provas incriminam também o arrogante Lula — que persiste em repetir que não há ninguém tão moral quanto ele neste país…

Está chegando a hora do "pega pra capar", como se dizia. E Jefferson, pelo jeito, não vai poder ser acusado nem de falta de decoro com o parlamento, porque aparentemente falou a verdade.

É a isso que se reduz a "tentativa de golpe branco das elites"…

Em Caracas, 23 de julho de 2005

 

O grande perigo

Falta ainda defenestrar pelo menos o Gushiken.

Mas suspeito que agora que estão devidamente afastados, da Casa Civil, o José Dirceu, e, do PT, o Genoíno et caterva, vai haver, no Congresso, um movimento forte, mas, em parte, por debaixo da mesa, para cassar o José Dirceu e mais um do PP e outro do PL (e, quem sabe, o próprio Jefferson) e se declarar que punidos estão os corruptos – portanto, passemos a outro programa.

Todos sabemos, e eles sabem que nós sabemos, que o número de corruptos no Congresso é muito maior. Deve passar dos 300 picaretas a que o Lulla fez referência um dia (esquecendo-se de incluir a si próprio no rol). Logo, é pouco realista que o Congresso vá tomar medidas drásticas contra a corrupção. Isso vai ter de caber a nós, eleitores, que vamos ter de varrer esses ladrões para debaixo do tapete da deseleição.

Em Seattle, 11 de Julho de 2005

Os esquemas de corrupção

Em mensagem anterior (“O Por Dentro” e ‘O Por Fora’”) descrevi, didaticamente, como se ainda fosse preciso, a partir do depoimento do deputado Roberto Jefferson na CPI, um dos esquemas pelo qual o PT (e, pelo jeito, todos os demais partidos políticos) angariam recursos, claramente ilegais (“por fora”), para o partido (e, pelo que parece, para os próprios parlamentares).

Segundo Jefferson, os parlamentares se ocupam tanto em conseguir colocar "afilhados" seus nos diversos cargos dos vários escalões do serviço público e das empresas de economia mista porque esses afilhados vão estabelecer contato com representantes do mundo empresarial privado, nos vários processos de licitação para compras públicas, e, ao negociar esses fornecimentos, pleiteam uma contribuição para o partido (do afilhado, provavelmente o mesmo partido de seu "padrinho").

Disse também na mensagem anterior, ainda seguindo Roberto Jefferson, que há um segundo esquena de corrupção, a saber, aquele em que uma obra, um bem ou um serviço é superdimensionado na licitação, porque já está acertado, com a empresa que ganhar a licitação, que ela vai, em decorrência do seu superfaturamento, devolver ao responsável pela licitação a parcela superfaturada (o famoso "kickback"). Os reajustes que a lei permite aos processos de licitação já em curso também são freqüentemente usados para esse fim. O dinheiro devolvido vai para o partido (ou fica, no todo ou em parte, com o parlamentar).

Em sua última entrevista à Folha, e no seu depoimento à CPI, Roberto Jefferson começou a revelar um terceiro esquema de corrupção, agora envolvendo empresas estatais. Nos dois esquemas anteriores, tratava-se de arrecadar dinheiro de empresas privadas, ou dos empresários que as controlam. É verdade que, no caso de superfaturamento, quem acaba pagando é o erário, isto é, todos nós. Mas no caso de uma empresa como Furnas, estatal, a empresa, ela própria, com seus lucros, financia, “por fora”, o partido e alguns de seus próceres, sem necessidade de intermediários privados.

A denúncia da revista VEJA, hoje nas bancas, revela um quarto esquema de corrupção. As empresas de Marcos Valério pelo, jeito, funcionam como um “Caixa Dois” do PT, lavando dinheiro público de modo a que ele passe a ser dinheiro privado, do partido. Elas receberão, só neste ano, cerca de 140 milhões de reais de contratos de publicidade de vários órgaos do governo e de várias empresas estatais (só do Banco do Brasil, cerca 105 milhões). O dinheiro público assim recebido volta para o PT (pelo menos em parte), tanto na forma de pagamento de parlamentares que o PT comprou para a base aliada (o mensalão) como na forma de pagamento de dívidas do PT para as quais Marcos Valério ou suas empresas serviram de avalista.

Há um quinto esquema de corrupção, sobre o qual ninguém vem falando muito. Trata-se do dízimo que afiliados ao partido pagam ao PT quando ocupam cargo público. Embora possa parecer que, neste caso, se trata de uma contribuição voluntária, que sai do bolso de cada funcionário público, e não do erário público, na prática, com a pressão existente para todos os funcionários públicos petistas paguem o dízimo, essa é uma outra forma de lavar dinheiro público, transformando-o em dinheiro privado, do partido.

Esse quinto esquema de corrupção era, até aqui, a única forma que a maioria de nós, ingênuos, imaginava que pudesse explicar o enriquecimento do PT, a partir da eleição de Lulla – em especial sua campanha biliardária o ano passado.

Vemos agora que esse não passa de um esquema num leque variadíssimo de opções.

Em Campinas, 3 de julho de 2005  

"O por dentro" e "o por fora"

Ontem (30/6/2005), na CPI dos Correios, Roberto Jefferson repetiu, de forma mais explícita e com detalhes, uma acusação que já havia feito no programa "Roda Viva" da TV Cultura: a de que, no que diz respeito ao financiamento de campanhas, não há um congressista, pelo menos dos que fazem parte da CPI, que literalmente cumpra a lei.

Ontem ele foi mais longe do que havia ido antes: disse aos membros da CPI que tinha as prestações de contas da última campanha de todos eles e que ninguém, ali, era melhor do que ele. Esclareceu que uma campanha para Deputado Federal hoje, no Brasil, não sai por menos de 1 milhão ou 1,5 milhões de reais, e que uma campanha para Senador, por menos de 2 ou 3 milhões de reais – e que, no entanto, as prestações de contas que tinha em mãos ficavam por volta de 100 mil para Deputados Federais e por volta de 250 para Senadores.

"Este processo", esclareceu ele, "começa na mentira e deságua no PC Farias, nos outros tesoureiros, e agora no senhor Delúbio e no senhor Valério."

Jefferson sugeriu que as campanhas do PT, nas últimas eleições, em especial a fracassada campanha de José Genoíno para o governo de São Paulo, eram milionárias, fato que não está representado nas prestações de contas. Admitiu que a prestação de contas dele era fajuta. Eis o que disse:

"É de deixar a gente perplexo. Ou alguém tem dúvida que a campanha mais rica de 2002 foi a campanha do PT? A mais milionária, a mais poderosa de todo o Brasil, do Oiapoque ao Chuí? E as declarações da Justiça Eleitoral não traduzem a realidade. Nem a minha, porque é igual a dos senhores."

Enfim, Jefferson acusou todos os membros da CPI de manter Caixa 2 com o dinheiro de financiamento de campanha.

Ninguém – absolutamente ninguém – o contestou.

Todos os membros da CPI tiveram a oportunidade de falar, mas ninguém ousou dizer que Jefferson estava mentindo. Nem mesmo os "puros" petistas.

Em outras palavras: o que os nossos políticos recebem "por dentro" (na forma da lei, devidamente registrado e relatado) é apenas um percentual pequeno daquilo que recebem "por fora"…

Alguém pode questionar que isso seja corrupção. Pode ser que não seja. Mas que envolve falsidade ideológica, o parlamentar mentir quando se exige dele que diga a verdade, disso ninguém tem dúvida.

Aos comuns mortais é motivo de certa perplexidade que um cidadão gaste centenas de milhares, mesmo milhões de reais para ocupar um cargo que tem um salário que, somados todos os meses em que o dito cujo ficará no cargo, não chega a uma fração do que ele gastou para conquistá-lo.

Jefferson também esclareceu essa questão ao deixar claro o processo mediante o qual "o por fora" é negociado. Ao esclarecer, deixou também claro por que é que os parlamentares se ocupam tanto em conseguir colocar "afilhados" seus nos diversos cargos dos vários escalões do serviço público e das empresas de economia mista. Esses afilhados vão precisar ter contato com representantes do mundo empresarial privado, nos vários processos de licitação para compras públicas. Ao negociar esses fornecimentos, poderão pleitear uma contribuição para o partido do afilhado (provavelmente o mesmo de seu "padrinho").

Aqui está a gênese, segundo esclareceu Jefferson, do "por dentro" e do "por fora". Na negociação com vistas à obtenção de uma contribuição para o partido, pode-se chegar a uma contribuição "por dentro" – nos termos da lei, devidamente registrada e relatada na prestação de contas, no valor correto – ou "por fora" – no Caixa Dois.

Mas há ainda uma modalidade de contribuição mais corrompida. Até aqui se trata, digamos, do princípio do "uma mão lava a outra", mente-se mas literalmente não se rouba (pelo menos, não necessariamente). O dinheiro vai do empresário para a conta do partido (embora, no que diz respeito ao "por fora", ninguém pode ter certeza de que uma parte não vai parar no bolso do parlamentar). A forma mais corrompida de contribuição é aquela em que uma obra, um bem ou um serviço é superdimensionado na licitação, porque já está acertado, com a empresa que ganhar a licitação, que ela vai, em decorrência do seu superfaturamento, devolver ao responsável pela licitação a parcela superfaturada (o famoso "kickback"). Os reajustes que a lei permite aos processos de licitação já em curso também são freqüentemente usados para esse fim.

Jefferson não acusou todos os políticos de angariarem fundos para seus partidos e para suas campanhas políticas dessa segunda forma, mais corrompida. Dessa forma de corrupção ele se isentou a si próprio e ao seu partido.

Mas admitiu que a primeira modalidade de angariar contribuições, ainda que não ilegal, envolve um certo "afrouxamento moral".

Jefferson pareceu achar que esse afrouxamento moral é parte integrante do fazer política – vide aqui o meu artigo sobre realismo político neste blog.

Alguns petistas – seriam eles idealistas ou ingênuos, ou as duas coisas? – parecem crer que têm uma solução para o problema do custeio de campanhas: fazer com que nós, os pagadores de impostos, assumamos esse custo, através do que chamam do "financiamento público" das campanhas políticas.

O Editorial da Folha de hoje toca no assunto. Diz a Folha:

"Se pretendem tomar medidas que possam de fato coibir a corrupção, o presidente da República e a classe política precisam enfrentar temas mais espinhosos e relevantes, a começar pela moralização das doações para campanhas políticas. O que as denúncias, os depoimentos e as novas descobertas feitas pela imprensa sugerem é algo que o país já conhece: há todo um universo paralelo de movimentação clandestina de elevadas somas de dinheiro, com base em caixa dois e comissões, que está estreitamente relacionado ao financiamento eleitoral. Muitos têm defendido o uso de dinheiro público como a solução para esses desvios. Trata-se de uma proposta bem-intencionada, mas que não constitui – como esta Folha tem insistido – a melhor alternativa para enfrentar a questão. Não faz sentido usar mais verbas públicas para sustentar partidos que já são beneficiados pelo horário gratuito de rádio e TV e, na prática, continuariam tendo acesso a recursos privados."

Está certo o que diz a Folha, mas ela não vai suficientemente fundo em sua crítica.

Se, hoje, que o financiamento é privado, todos os parlamentares da CPI dos Correios tacitamente admitem, pelo seu silêncio, que mentem em suas prestações de contas de campanha, o que é que muda, em relação à sua disposição de mentir, se o financiamento das campanhas for com dinheiro público? O dinheiro público vai ser "o por dentro", naturalmente – mas o dinheiro privado inevitavelmente continuará a entrar "por fora"… Isso é tão evidente que causa perplexidade que ninguém o diga. Os petistas e outros que defendem o financiamento público de campanhas políticas querem apenas aumentar, com o dinheiro de nossos impostos, as contribuições enormes que já recebem da iniciativa privada, voluntariamente ("por dentro" ou "por fora") ou mediante diferentes graus de extorsão ("por fora"). O financiamento público só fará com que o financiamento privado passe a ser totalmente "por fora". E as prestações de conta mentirosas continuarão.

A Folha, que é contra o financiamento público de campanhas políticas, faz uma sugestão, ao final do seu Editorial de hoje:

"O caminho para conter os abusos é assegurar que as doações privadas sejam realizadas ‘por cima da mesa’, num regime de total transparência, municiando a Justiça Eleitoral para identificar e punir com rigor as doações fraudulentas"…

Quantos são os candidatos a cargo eletivo no Brasil hoje? Alguém acredita que isso vai funcionar, dada a fábrica moral da maioria de nossos candidatos (e de parte de nossa Justiça)?

Enquanto estava na oposição, sem maiores compromissos com "governabilidade", o PT conseguiu passar à opinião pública a ilusão de que era um partido puro, ético, incorrupto. Acusava todos os demais mais se isentava, como exceção honrosa, da corrupção.

Não dá mais para passar essa imagem.

Ao mencionar PC Farias, Delúbio e Valério, Jefferson estabeleceu uma comparação entre a situação na época de Collor e a situação atual.

"PC Farias perto do Delúbio é pinto", disse ele (cito aqui de memória – não achei transcrição dessa parte nos jornais).

Como não sou petista, gosto de ver a arrogância petista transformar-se em pó – vide meu artigo sobre arrogância neste blog. Mas acho que a opinião pública, ao se convencer de que os políticos são todos corruptos, acaba reforçando o clima de corrupção. O critério para diferenciar políticos deixa de ser a idoneidade – afinal de contas, todo político é ladrão, acredita ela – e passa a ser a realização de obras públicas. "Fulano" – já se dizia isso de Adhemar de Barros – "rouba, mas faz".

Isso é mau. Mas parece difícil imaginar qual seria a solução do problema.

Acho, porém, que todos os brasileiros somos devedores ao Roberto Jefferson por ter trazido essas questões à discussão na luz do dia.

Por fim, uma palavrinha sobre Lulla. Com sua indiscutível classe e criatividade lingüística ele disse ontem:

"Se alguns dos nossos amigos fizeram algo errado, vão sambar. (…) Quem mijou fora do penico, tchau e bênção".

Será?

[Meu Microsoft Word 2003 não reconheceu "mijou" como uma palavra grafada corretamente: preciso sugerir à Microsoft que se coloque mais em linha com o discurso presidencial.]

Em Campinas, 1º de julho de 2005

O dilema de Lulla

Luís Nassif propõe, na Folha de hoje (28/6/2005), como uma das saídas da crise, algo radical, como uma emenda parlamentarista…

Ora, o governo atual era parlamentarista, mesmo que o regime continuasse presidencialista. E deu no que deu.

Lulla delegou amplos, gerais e irrestritos poderes ao Zé Dirceu. Todas as nomeações e todos os acordos políticos passavam por ele. Lulla o colocou como coordenador de todos os outros ministérios. Na prática, só a Fazenda ficou fora, e ficou fora porque o Palocci estava fazendo um bom trabalho: se desse um tropeço, o Dirceu o derrubaria — e olha que tentou. Só faltou ao Lulla chamar ao Zé Dirceu de Primeiro Ministro.

A crise, portanto, chegou ao cerne do governo. O Chefe do Governo, para todos os fins práticos, era o Zë Dirceu — e esse governo já foi derrubado: bastou o Roberto Jefferson dizer "Sai daí, Zé", para que o governo de Zé Dirceu fosse derrubado.

Pode ser que não atinja o Presidente (que desempenha funções meramente protocolares, como se fosse a Rainha da Inglaterra). Pode ser que não o atinja, mas duvido. Diferentemente do caso de um real parlamentarismo, em que o Primeiro Ministro é eleito, aqui no Brasil ele foi escolhido pelo Presidente, que era seu amigo de longa data. Além disso, como bem assinalou a Heloísa Helena, no PT tudo é feito de forma colegiada, ninguém toma decisões sozinho, isolado do "coletivo"…

Assim, como já disse em mensagens anteriores, ou Lulla sabia de tudo, em cujo caso é corrupto como os demais, ou não sabia, em cujo caso é o Presidente mais incompetente que esta nação já teve — e olhem que a concorrência é forte.

Jânio de Freitas, em sua coluna de hoje, também na Folha, afirma que, apesar de haver gente tentando esparramar a notícia de que não "há de grave nas relações entre Lula e José Dirceu", simples e taxativamente: "Há."

Nelson de Sá, em sua coluna de hoje, ainda na Folha, afirma que o Blog do Noblat esclarece que a Polícia Federal informou a Lula e "a quem de direito que começam a surgir indícios capazes de comprometer Dirceu".

Ao mesmo tempo, esparramou-se pelo Brasil inteiro a notícia de que Lulla teria desabafado a alguns íntimos que dois ou três dos seus assessores que "não mereceram a confiança". Claramente Dirceu parece ser um deles. Mas quem escolheu assessores (mais do que isso: Chefe de Governo) imerecedores de confiança?

O dilema que eu coloquei atrás na verdade merece um acréscimo. É o seguinte:

Se Lulla sabia, além de corrupto é cínico. Se não sabia, é de uma incompetência a toda prova.

Em Campinas, 28 de Junho de 2005

"Há algo de podre no reino da Dinamarca"

Parodiando Sheakespeare, há algo de podre na República Petista. Disso ninguém mais duvida. E ninguém mais duvida que o chefe operacional do esquema de podridão é o Zé Dirceu.

Pode até ser que nada venha a ser provado – no sentido estrito de prova que os tribunais aceitem. Mas que ninguém mais duvida, ninguém duvida.

A questão que ainda permanece em algumas mentes ingênuas é: "Lulla sabia?"

Lulla se encontra diante de um aparente dilema – que, pelo que consta, causou a carranca e a ausência de discurso presidencial no dia da saída do kamarada Daneil do governo:

* admite que sabia, e é incluído entre os corruptos;

* ou continua negando, e é considerado ou um cínico – ou, então, um incompetente que não vê o que se passa debaixo do seu nariz.

Na realidade, o dilema é meio falso.

É inegável que Lula sabia. Foi informado do fato pelo menos pelo próprio Jefferson. Fontes ligadas a Lulla (como o Aldo Rebelo – é assim que é grafado o seu nome no site da Câmara) já admitiram que ele sabia… Negar, agora, vai soar falso.

Mas, no entanto, Lulla, pelo jeito ajudado pelo Duda Mendonça, resolveu optar pelo que soa falso…

Ou vejamos:

Nada soa tão falso (e simplório), no momento atual, quanto o arrogante desabafo do presidente, no discurso de Luziânia, de que ninguém neste país tem tanta autoridade moral quanto ele…

Nada soa tão falso (e ofensivo), no momento atual, quanto a idiota campanha publicitária colocada nas ruas, lançada com o discurso presidencial da última quinta-feira (dia 23/6), que alardeia o que todo mundo sabe não ser verdade: que o governo é maior combatente da corrupção que o país já teve…  (Um era caçador de marajás; o outro vai pretender ser caçador de corruptos…)

Mais falso e triste ainda é ver o Post Scriptum da publicidade governamental, que procura ligar o PT a essa mentira, imaginando que os que não mais acreditam no PT vão voltar a acreditar porque um mentiroso anúncio de um presidente desacreditado diz que o PT esteve com ele no combate à corrupção.

Josias de Souza diz o seguinte hoje na Folha, sobre a hipótese de que Lulla não sabia e é, portanto, honrado:

"Um presidente honrado que preside uma ‘ilicitocracia’ e continua empunhando a bandeira da moralidade confunde a platéia. Uma parte acha que ele é um cínico. A outra acha que é um banana."

É isso.

Em Campinas, 26 de junho de 2005

Direita e esquerda – de novo

Transcrevo a seguir uma mensagem que enviei hoje para minha lista de discussão "LivreMente" (Axel é Axel de Ferran, participante da lista).

—–

Foi bom o Axel trazer de novo essa questão à baila, porque tenho voltado a pensar bastante sobre ela. Na, verdade, não só sobre o binômio Direita vs Esquerda, mas também sobre as dicotomias Conservador vs Progressista, Liberal (no sentido clássico do termo, não no sentido em que o termo é usado nos EUA) vs Socialista, etc.

Além do sentido, propriamente dito, de cada um desses termos, é importante também registrar o fato de que eles, hoje, em especial aqui no Brasil, carregam uma conotação emocional que é preciso levar em conta. No Brasil de hoje, se alguém é rotulado como de direita, conservador e liberal, não se está meramente descrevendo o que ele pensa, como sente, e de que forma age: em geral também se está quase que xingando a pessoa. Como se diz atualmente, quem se opõe às tendências representadas por esses termos conseguiu, no Brasil de hoje, "demonizá-los". Como ninguém quer ser acusado de fazer parte do time do demônio, quase ninguém hoje no Brasil aplica esses termos a si próprio: eles só são usados, por terceiros, como xingamentos.

O problema principal com a ascensão da conotação emocional desses termos é que eles passam a ser usados por quem não tem concepção clara de seu sentido. Como eles se tornaram termos de opróbrio, passaram a ser simples xingamentos. Eu tinha um amigo que xingava desafetos de morféticos — mas não sabia qual era o sentido do termo: só sabia que era uma coisa ruim…

Mas deixando de lado à conotação emocional dos termos, vamos ao seu sentido — problema que, em si, já é extremamente complexo.

Já escrevi várias vezes nesta lista que considero as expressões direita-esquerda e liberal-socialista como basicamente equivalentes.

O liberal é, por definição, um defensor radical da liberdade. Prefere a liberdade mesmo que essa possa — como necessariamente vai — aumentar a desigualdade. O socialista é, por outro lado, o defensor radical da igualdade. Prefere a igualdade mesmo que essa possa — como necessariamente vai — reduzir a liberdade.

Notem que o liberal não é contra todo tipo de igualdade: é favorável à chamada igualdade formal, diante da lei. Ele é contra à tentativa de, através do governo, tentar igualizar oportunidades ou resultados. Por outro lado, muitos socialistas não são contra à liberdade — tentam até mesmo implantar um socialismo democrático. Mas se a liberdade de uns (em geral os mais ricos) estiver impedindo que se alcance a igualdade, ele em geral está disposto a sacrificar essa liberdade.

Por defender a liberdade do indivíduo, o liberal, virtualmente sem exceção, quer um governo com poucas e bem definidas funções, voltadas para garantir a liberdade e os direitos individuais, e claramente limitadas por uma Constituição que deixe explícito que o governo não pode limitar, restringir, suspender e muito menos violar ou revogar os direitos individuais básicos à vida e à integridade física, à liberdade, e à propriedade. Esses direitos são, para o liberal, inalienáveis e imprescritíveis. O socialista, por seu lado, por achar que é função do governo buscar a igualdade e melhorar o bem-estar das pessoas, acaba tendo de optar por um governo com inúmeras funções — com poderes não tão limitados, que, não raro, infringem os direitos individuais.

Acho que, no fundo, se ficarmos nesse nível alto de generalidade, o sentido dos dois termos é bem fácil de entender e faz sentido, ainda hoje.

Se considerarmos o binômio direita – esquerda como equivalente ao binômio liberal – socialista, vamos ter de reajustar um pouco alguns outros conceitos geralmente aceitos.

A esquerda em geral procura descrever a direita como se esta fosse defensora de autoritarismo político, de moralismo piegas e de fundamentalismo religioso. Se a equivalência que pleiteio faz sentido, precisamos rejeitar essas identificações.

Primeiro, o liberalismo/a direita não é, de modo algum, autoritário. Ele enfatiza a liberdade, os direitos individuais. Não há como ser liberal e autoritário. Por outro lado, o socialismo/a esquerda tem mostrado sua face autoritária até com razoável freqüência. O socialismo democrático, não autoritário, parece ser, a bem da verdade, uma utopia.

Segundo, o liberalismo/a direita não é moralista. Ele é libertário, individualista, e prega o direito de cada indivíduo buscar a felicidade como lhe aprouver — desde que, nessa busca, respeite os direitos de outros indivíduos. Por outro lado, o socialismo/a esquerda não tem sido avesso a defender um moralismo ultra-piegas. [Estou lendo no momento um livro sobre a guerrilha no Araguia (tem fotos do Genoíno guerrilheiro), e é incrível quão moralistas os revolucionários que participaram da luta armada eram — proibindo, em nome da "causa", sexo e até mesmo namoro entre os camaradas e entre estes e a população circunvizinha.]

Terceiro, o liberalismo/a direita não é fundamentalista em relação à religião. Na verdade, não é nem mesmo religioso (embora, ao defender a liberdade, respeite em quem queira o direito de ser religioso como ache melhor). O liberalismo surgiu, historicamente, com a bandeira da liberdade religiosa, da tolerância em questões relativas à religião. Muitos dos liberais clássicos, como David Hume e Adam Smith, eram virtualmente ateus — no mínimo agnósticos. Sendo defensores da liberdade e do individualismo, não se davam bem em organizações, como igrejas e partidos políticos, que tentam "comprar a sua alma". Isso nem sempre acontece com a esquerda, que é uma tendência muito chegada a "coletivos", a "partidos", a "disciplina", etc.

Resta falar um pouco do outro binômio: conservador/progressista.

O termo "conservador" tem um sentido razoavelmente preciso: conservador é aquele que tenta defender e preservar as tradições, os costumes, os valores, as hierarquias, as distinções sociais. Ele se opõe ao progresso — razão pela qual seus opositores em geral se chamam progressistas.

O liberalismo/a direita não é, de forma alguma, conservadora. Pelo contrário: quando surgiu, foi um movimento altamente revolucionário, que mudou a face da sociedade através da Revolução Americana de 1776 e da Revolução Francesa de 1789. O liberalismo/a direita, longe de combatê-lo, sempre buscaram o progresso. Ainda hoje, o liberalismo/a direita querem mudanças em um mundo que caminhou demais na direção na direção do socialismo/da esquerda.

Alguns autores hoje chamam o movimento em geral associado com o Partido Republicano, em especial com o ex-Presidente Reagan e o atual Presidente Bush, de "direita americana" ou "conservadorismo americano". Em relação a isso, recomendo o livro The Right Nation: Conservative Power in America, de John Micklethwait & Adrian Wooldridge. Os autores (que são ingleses) mostram que o gênio desse movimento está em ter sabido reunir, debaixo de um mesmo guarda-chuva, grupos bastante diferenciados, que às vezes mal se toleram, mas que têm clara percepção de seus interesses e sabem que o socialismo/a esquerda
NÃO vai promovê-los. Entre eles estão:

a) Liberais que querem limitar as funções do governo e reduzir impostos, acabando com, ou reduzindo drasticamente, os "programas sociais", as "políticas públicas", etc.;

b) Gente que, mesmo sem ser liberal, se opõe ao welfare state, à medicina socializada, à educação pública;

c) Homens de negócio que querem que o governo largue de seu pé e os deixe operar com maior liberdade;

d) Gente que é contra aborto, comportamento sexual meio desregrado, inclusive o homossexualismo e filhos fora de uniões estáveis, drogas, integração forçada (pelo Governo) com gente muito diferente (em raça/etnia, costumes, valores), etc. — coisas que, segundo eles, foram permitidas ou mesmo tornadas obrigatórias pela esquerda;

e) Gente religiosa que não quer saber de que o Governo dite como eles devem se conduzir na vida pessoal, em especial nos aspectos éticos e religiosos;

f) Gente simples, moradora em pequenas cidades e na zona rural, que está cheia da esquerda socializante, bem educada, snob, freqüenta as universidades da Ivy League e se concentra na região costeira do Leste e, em menor grau, do Oeste (vide o mapa vermelho e azul das últimas eleições: com uma ou duas exceções, em todos os estados fora da zona costeira Leste e Oeste ganharam os republicanos (eram vermelhos);

g) Gente que se orgulha de ser americano, que é patriota, e que procura incorporar os valores tradicionais em que se sustentou a nação americana: liberdade, individualismo, responsabilidade pelo próprio destino, trabalho duro, economia, provisão para o futuro.

Todos esses grupos gradativamente perceberam, ao longo dos anos sessenta – oitenta, que os socialistas / a esquerda estavam contra valores que eles prezavam. E, aos poucos, perceberam que teriam muito a ganhar fazendo uma aliança, em que todos ganhavam o que queriam — e não se preocupavam se os aliados que mal toleravam ganhavam também.

O resultado foi Reagan e, agora Bush. Clinton foi um interregno nefasto, porque o velho Bush não conseguiu sustentar a boa situação econômica que herdou de Reagan.

É isso — por enquanto.

Em Campinas, 25 de Junho de 2005.

Moralidade e legalidade

Não consigo entender porque, quando alguém no governo é pego roubando, imediatamente todo mundo começa a falar na necessidade de que, no governo, se observem valores morais, se leve a sério a ética, etc.

Corrupção é crime. Para combatê-la basta cumprir e fazer cumprir a lei, não é preciso ser um modelo de virtude moral – quanto mais ser a maior autoridade moral do planeta, como pretende nosso triste Presidente.  

Minha admiração pela teoria liberal clássica, como expressa, por exemplo, em A Riqueza das Nações, de Adam Smith, é que ela foi criada para funcionar entre pessoas que estão longe de ser modelos de virtude moral. Para que o Liberalismo funcione, as pessoas não precisam ser exemplos de virtude moral: basta que busquem seus interesses sem descumprir a lei – vale dizer, sem violar os direitos individuais de outras pessoas.

Nesse sentido, o Liberalismo é uma teoria política realista – não idealista ou utópica. Foi criada para funcionar com gente que, do ponto de vista moral, pode deixar muito a desejar.

Se ficarmos a buscar, na política, um homem novo, que seja uma autoridade moral acima de qualquer suspeita questionamento, em vez de buscar simplesmente gente que cumpra e faça cumprir a lei, acabaremos deixando o campo aberto para aqueles que, reconhecendo ser a perfeição moral um ideal inatingível, defendem a tese de que qualquer coisa vale – até violar a lei.

Em Campinas, 23 de junho de 2005

Arrogância

Parece que quanto mais acuados ficam os próceres do PT e o Presidente da República (que também é um prócer do PT), mais arrogantes ficam.

O cúmulo foi o Lulla, ontem (21/06/2005), em Luziânia, GO, bradar, alto e claro, que ninguém neste país tem maior autoridade moral do que ele para combater a corrupção… E que nenhum governo fez tanto para combater a corrupção no país quanto o dele…
Que piada…

A audiência, educadamente, aplaudiu – embora fraca e hesitantemente. Pelo andar da carruagem, da próxima vez que ele disser uma besteira dessas em público pode ser vaiado.

Lulla quis fazer crer à audiência (o Brasil inteiro, na verdade, posto que a fala foi transmitida por todas as redes nacionais de TV) que tudo não passa de rumores não-substanciados de que um funcionário de terceiro escalão dos Correios recebeu três mil reais de propina…

Se a gente não conhecesse a cara-de-pau de políticos, poderia até crer que é ingenuidade do Presidente… Mas conhecendo…

Justo ele, Lulla, que contou a um interlocutor (aparentemente o ex-Presidente do BNDES, Carlos Lessa) que encontrou, ao assumir o governo, uma série de falcatruas do governo que o antecedeu, e determinou que tudo fosse abafado…

Justo ele, Lulla, que sendo informado do Mensalão por mais de um interlocutor (Roberto Jefferson, Marcondes Pirillo), não tomou nenhuma providência para apurar a denúncia.

Nem mesmo seus ex-companheiros de partido acreditam nele. Santa Heloísa Helena afirmou que acredita que ele sabia de tudo acerca do mensalão, porque no PT nada se faz individualmente, tudo é feito de forma coletiva. Ontem Luciana Genro, filha do Ministro da Educação, admitiu que acredita nas acusações feitas por Roberto Jefferson.
O próprio Procurador Geral da República, pelo que consta, acredita em Roberto Jefferson – tanto acredita que, com base na palavra de Jefferson, deixou Lulla fora das investigações que determinou fossem feitas acerca das denúncias. Daria vontade de rir, se não fosse tão sério – e tão triste.

A arrogância do Presidente só se compara com a do ex-chefe de sua Casa Civil, José Dirceu. Nem a velhinha de Taubaté acredita nele neste país. No entanto, ele arrotou arrogância em seu discurso de despedida como ministro. Diz que nem acusado foi – porque, segundo acredita, para que as suspeitas que pairam sobre sua cabeça sejam consideradas acusações é preciso haver provas… Em uma bravata o ex-ministro eliminou a distinção entre acusação e comprovação da acusação…

Ninguém neste país acredita, menos ainda os petistas, que algo pudesse ser feito pelo PT sem que Dirceu soubesse e autorizasse. E ninguém duvida que o PT vem fazendo algo de muito podre desde que assumiu o governo. Mas José Dirceu faz de conta que os Waldomiros e Delúbios do PT não agiam sob suas ordens (embora ambos tivessem gabinetes perto do seu no Planalto, um deles sem ter nenhum cargo no governo).

Quanto ao José Genoíno, nem vou comentar… A cara dele, a tensão que ele exibe, a alteração emocional, a linguagem corporal, tudo é uma admissão de culpa. Um detector de mentiras ali acusaria que ele está mentindo até mesmo ao recitar a tabuada do dez.

Dois guerrilheiros do período da ditadura militar estão em maus lençóis. Vamos ver se a guerrilheira (“companheira de armas”, a chamou José Dirceu) que agora assume a Casa Civil (será que o cargo vai se tornar privativo de ex-guerrilheiros?) consegue manter por muito tempo a reputação de pura e competente. Vai ser difícil.

Caldo de galinha e um pouco de humildade não fazem mal a ninguém. Especialmente a quem está acuado.

Lembro-me de uma recomendação feita por um professor de Homilética que tive no seminário. Dizia ele que, num sermão, deveríamos levantar a voz e bater no púlpito quando não estivéssemos muito convictos daquilo que estávamos dizendo… Acho que Lulla também foi aluno dele…

Em Campinas, 22 de junho de 2005