O liberalismo e o mercado

1. Introdução


Os oponentes do liberalismo (quando falo em liberalismo é ao liberalismo clássico, "laissez faire", que me refiro) atacam o capitalismo (que é a expressão econômica do liberalismo) em geral fazendo críticas ao mercado.

O mercado, segundo eles, não é capaz de resolver alguns problemas econômicos crônicos (como o alegado ciclo de crescimento e recessão da economia — crescimento e recessão parecem se alternar) e alguns problemas sociais crônicos (como a pobreza e a desigualdade). Por isso, alegam, a ação firme do estado, através do governo, é necessária para "corrigir as distorções do mercado" ou "para suprir a incapacidade de ação do mercado". Com o passar do tempo, os oponentes do liberalismo pretendem encontrar sempre mais "falhas" e "incapacidades" no mercado. Assim, justificam uma expansão cada vez maior das funções do estado, vale dizer, do governo.

Vou procurar mostrar, neste artigo, que as críticas ao mercado por parte dos oponentes do liberalismo são, na verdade, ataques à liberdade dos indivíduos, isto é, tentativas de cercear e restringir a liberdade dos indivíduos através do aumento das atribuições do estado, vale dizer, do governo. Como atacar diretamente a liberdade dos indivíduos é arriscado, porque há muitos que prezam sua liberdade (mesmo que não saibam direito como defendê-la), os oponentes do liberalismo preferem atacar o mercado — confiantes de que a noção é suficientemente obscura para que poucos venham a perceber que o objeto de suas críticas é, em última instância, e na realidade, a liberdade dos indivíduos. 

Preliminarmente, alguém pode perguntar por que alguém iria querer cercear e restringir a liberdade dos indivíduos se, no fundo, até mesmo os críticos do mercado são indivíduos, e, portanto, teriam sua liberdade cerceada e restringida se suas propostas de correção e melhoria do mercado fossem implementadas.

Há duas possíveis respostas a essa pergunta — e elas não são mutuamente exclusivas:

a) Alguns indivíduos querem cercear e restringir o espaço do mercado porque receiam (ou até mesmo estão disso convictos) que  num clima de total liberdade econômica não vão se sair muito bem;

b) Alguns indivíduos querem expandir as atribuições do estado porque esperam que, num estado inchado com atribuições, eles terão mais oportunidades de exercer alguma função, passando, assim, a ser um dos que cerceiam e restringem a liberdade (e que, portanto, tem amplas possibilidades de escapar, casuisticamente, dos cerceamentos e das restrições que eles mesmos implementam).

Como disse, as duas respostas não são mutuamente exclusivas. Boa parte dos indivíduos mencionados em "b" — que esperam ser funcionários do governo — também fazem parte de "a" — são inaptos para a liberdade do mercado: têm medo dela, querem dela escapar (como dizia Erich Fromm em seu livro Medo à Liberdade, que tem, no original, o título de Escape from Freedom). 


2. O Estado e o Mercado
 

Isso posto, começo a discutir o meu tema.

Quatro coisas me parecem inegáveis (as três últimas sendo corolários da primeira):

Primeiro, há incompatibilidade entre a ação do estado, através do governo, e a ação do mercado. Se o governo fixa, por exemplo, preços máximos ou salários mínimos, o mercado perde a liberdade de determinar preços ou de negociar salários abaixo do mínimo — pelo menos oficialmente: preços maiores do que o máximo e salários menores do que o mínimo continuam a ser praticados, mas "por baixo do pano", sujeitando os envolvidos à ação punitiva do governo (e, naturalmente, às tentativas de extorsão por parte dos agentes do governo — um pagamento módico para que façam "vistas grossas"). Isso significa que o mercado só tem liberdade de ação nos vácuos das atribuições estatais e das ações governamentais.

Segundo, quanto mais funções são atribuídas ao estado (quanto maior for o espaço de ação do governo), menos liberdade resta para o mercado, e quanto menos funções são atribuídas ao estado (quanto menor for o espaço de ação do governo), mais livre é o mercado.

Terceiro, um estado totalitário, em que a ação governamental preencha todos os espaços, elimina a possibilidade de ação do mercado. Por outro lado, um estado liberal tem atribuições mínimas, ficando o espaço de ação do mercado, vale dizer, da iniciativa privada, maximizado. Em outras palavras: o inchaço do estado e do governo se faz às custas da liberdade dos indivíduos.

Quarto, e inevitavelmente, os oponentes do liberalismo favorecem o estatismo e, no extremo, o estado totalitário, e os estados totalitários são, sem exceção, avessos ao mercado (e, portanto, ao capitalismo, ao liberalismo, à liberdade dos indivíduos). 

Tudo isso me parece tão evidente que me sinto até um pouco embaraçado de precisar sublinhar esses fatos e conclusões.

Isso posto, na minha discussão das críticas ao mercado por parte dos estatizantes não vou me concentrar nas questões puramente econômicas relacionadas à expansão e à retração da economia: vou me preocupar, primeiro, com a questão conceitual do mercado e, segundo, com as questões sociais que o mercado seria incapaz de solucionar adequadamente, a saber, a pobreza e a desigualdade.


3. O Conceito de Mercado

Os oponentes do liberalismo, e, por conseguinte, do mercado, infelizmente conseguiram convencer muita gente de que o mercado deve ser tratado como se fosse um ente misterioso que age sorrateiramente, ou à socapa, tentando (sem conseguir) resolver problemas, ou tomando decisões (em geral erradas). 

O comportamento do mercado é, segundo os que se opõem a ele, enganoso: o mercado ilude as pessoas, as induzem ao erro. Por isso, as pessoas comuns não conseguem entender a ação do mercado e precisam ser esclarecidas por iluminados economistas socialistas (como Marx) ou socializantes (como Keynes). Os críticos do mercado promoveram o que os platonistas chamariam de "hipóstase do mercado": eles tratam o mercado como se o mercado fosse uma pessoa — pessoa capaz (ou, em alguns casos, incapaz) de agir, de resolver problemas, de fazer previsões, de decidir preço de mercadorias e serviços, de fixar salários dos trabalhadores, etc.

Assim, a gente lê, por exemplo, que "o mercado ‘prevê’ queda de .75% na taxa de juros" brasileira — como anunciam hoje (16 de janeiro de 2006) os nossos jornais. Parece que o mercado telefonou para o jornalista e lhe confidenciou o furo. Se o COPOM se reunir na próxima quarta-feira e anunciar (digamos) uma redução de apenas .25% na taxa de juros, ele irá "frustrar" o mercado. Nessa hipótese, vai parecer que os membros do COPOM só de pirraça resolveram desconfirmar as previsões do mercado, deixando o pobre mercado frustrado. Além de agir, o mercado, nesse modelo, tem emoções… [Em tempo: relendo esse material subseqüentemente ao dia 16 de janeiro, posso informar que o mercado não ficou frustrado: o COPOM de fato reduziu a taxa de juros em .75% naquela data].

Admito que a frase famosa de Adam Smith sobre a "mão invisível" do mercado facilitou um pouco as coisas para os oponentes do liberalismo. O raciocínio vai mais ou menos assim: se o mercado tem mão, ainda que invisível, como até mesmo Adam Smith admitiu, deve ter tudo o mais que uma pessoa tem (embora também invisível).

Mas, interpretada corretamente, a frase de Adam Smith é absolutamente correta. O que ele disse foi que, no liberalismo, ou no mercado, não há um agente (ou um conjunto restrito de agentes) a quem caiba planejar a economia com um todo. Nele cada um, isto é, cada indivíduo age conforme seus interesses. Eu não compro carne do açougueiro, pão do padeiro, cerveja do cervejeiro, por altruísmo e magnanimidade, isto é, por me preocupar (altruística e magnanimamente) com os interesses ou as necessidades deles — ou para cumprir alguma meta dos que se arvoram em planejadores da economia. Por outro lado, eles também não me vendem carne, pão e cerveja por altruísmo e magnanimidade, isto é, por se preocuparem com os meus interesses ou necessidades — ou para cumprir metas de planejamento dos planejadores da economia. No mercado, cada um se preocupa com os seus interesses ou necessidades. Só. Se houver planejamento, cada um planeja para si próprio (levando em conta, se possível, o que imagina que os outros estão planejando). E, no entanto, os vários interesses se harmonizam, as várias necessidades são atendidas, "como se" uma mão invisível se preocupasse em harmonizar interesses e compatibilizar necessidades. "Como se". Adam Smith não fez uma hipóstase do mercado. Ele apenas explicou o mercado em analogia com a ação de um ser racional e inteligente. Não há necessidade (e, hoje sabemos, nem possibilidade) de planejar as relações produtivas e comerciais. O mercado se encarrega disso.

Ao falar que "o mercado se encarrega disso" corremos mais uma vez o risco de "hipostatizar" o mercado: de dar a impressão de que o mercado é uma pessoa misteriosa, que se encarrega disso ou daquilo… O mercado, no entanto, não é uma pessoa: ele é uma forma de se referir a todos aqueles (você, eu, ele, ela, eles) que atuam na economia, produzindo e consumindo bens e serviços, ou, então, fazendo trocas, compras e vendas desses bens e serviços.

Tomemos uma região populosa, diversificada e complexa como a Grande São Paulo. Ali temos paulistas quatrocentões, brasileiros de todos os quadrantes, uma enorme quantidade de nordestinos, descendentes de imigrantes italianos, japoneses, árabes… Gente que tem necessidades, gostos, desejos diferenciados… Na área alimentar, um gosta de macarronada, o outro de sushi, o outro de feijoada, o outro de churrasco, o outro de carne-de-sol e "baião-de-dois", o outro de "paella", o outro "rôti de mouton"… Além disso, ninguém sabe quantos, a despeito de suas preferências, vão, num dado dia, por alguma razão, optar por comer uma pizza, ou uma esfiha, ou um hamburger… No entanto, qualquer que seja a sua necessidade, o seu gosto, o seu desejo, na área alimentar, o mercado (i.e., alguém) em São Paulo o atende adequadamente… 

Mas que fique claro: falar em mercado é falar em uma abstração: o termo "mercado" é simplesmente uma forma conveniente de se referir ao conjunto de nossas relações de troca, venda e compra de bens e serviços. Ninguém que viva em sociedade está fora do mercado: sempre pode vender, querendo, pelo menos o seu serviço (embora nem sempre pelo preço que acha que vale — mais sobre isso adiante.)

O mercado que nos atende tão bem na área alimentar em São Paulo nada mais é, portanto, do que gente que tem nome, sobrenome e endereço. Toda essa gente faz planejamento todo dia: cada um para si (mas levando em conta sua conjetura sobre o planejamento dos demais). Às vezes o planejado atende perfeitamente à realidade; às vezes vai sobrar comida ou insumos; às vezes vai faltar. Mesmo assim, o planejamento desse conjunto indefinido e desconhecido de pessoas é sempre infinitamente superior ao que seria o planejamento de um grupo de planejadores encastelados no governo… Quanto a isso, não há a menor dúvida. (Na antiga União das Repúblicas Socialistas Soviéticas, sujeita ao planejamento estatal da economia, freqüentemente faltavam vodka e cigarros para uma população literalmente viciada em ambos).

Numa economia de mercado acontece como nos hipermercados Carrefour: quando a gente sai, a caixa pergunta: "Houve algum produto que você procurou e não encontrou?" É o mercado agindo, para continuar usando a forma de falar geralmente adotada. Na verdade, é a caixa do estabelecimento agindo por determinação de seus chefes.

Assim, quando se afirma que o mercado "prevê" uma redução de .75% na taxa de juros, o jornalista está simplesmente dizendo que algumas pessoas que ele contatou, e que assumem posições importantes no mercado (empresários, economistas, etc.) previram essa redução. Apenas isso. (Dada a qualidade de nossos jornalistas, muitas vezes o jornalista ouviu apenas uma "fonte" em que ele confia…).

Eu, você, todos nós, planejamos o que podemos ou desejamos produzir e o que precisamos ou desejamos consumir. Se existe algo (bem ou serviço) de que nós precisamos ou que desejamos, mas não podemos ou desejamos produzir, temos de adquiri-lo de terceiros que o produzam, através de troca ou compra. Se temos condições de produzir mais do que aquilo de que precisamos ou que queremos, oferecemos o excesso de produção no mercado, para que seja comprado por terceiros mediante pagamento em dinheiro ou para que seja trocado por algum bem ou serviço que atenda melhor aos nossos interesses. 

Repito: o mercado somos todos nós que vendemos, compramos, ou trocamos bens e serviços. O mercado é você, quando você contrata uma empregada doméstica, ou uma diarista, ou alguém para cortar a grama do seu jardim ou limpar a fossa de sua casa. O mercado é você quando você compra comida e roupa (em vez de fabricá-las, a partir do zero). O mercado é você quando compra gêneros alimentícios ou tecidos para fabricar sua comida e roupa — ou quando compra comida ou roupa pronta de um restaurante ou de uma loja. O mercado é você, quando compra jornal, revista, livro, disco. O mercado é você, quando você assiste a um filme, a uma peça de teatro, a um concerto (ainda que gratuitamente, sem pagar nada). O mercado é você, quando você coloca os seus filhos na escola, mesmo que a escola seja pública (as pessoas, no Brasil, ainda podem optar por colocar os filhos na escola particular ou na pública — é uma opção). O mercado é você, quando vende ou troca os bens e serviços que é capaz de produzir. O mercado é você quando você vende o seu trabalho em troca de dinheiro que lhe permite comprar outros bens e serviços de que você precisa ou que você quer e não tem condições de produzir — ou porque não saiba ou não possa, ou porque não queira, pois tem outras coisas mais prioritárias para fazer.

Quando falamos em "salário de mercado" não estamos nos referindo a uma entidade abstrata e misteriosa que, de forma totalmente desconhecida de nós, "fixa o nosso salário". O "salário de mercado" é o salário médio que as pessoas estão dispostas a pagar por algum tipo de trabalho. A nossa relação com nosso empregador é tal que podemos recusar o salário que ele oferece e buscar outro empregador que nos pague o que achamos que valemos (no sentido subjetivo do termo "valer"). Sempre podemos trabalhar como autônomos. Ou, então, podemos abrir um negócio que vá até mesmo envolver a contratação, por nós, de empregados, em cujo caso nosso papel no mercado se inverte, de vendedor do trabalho próprio para contratador de trabalho alheio. O clamor (totalmente justificado) que hoje existe contra o trabalho dito escravo é um reconhecimento de que, em 99% dos casos, num país como o nosso, o trabalho não é escravo e decorre de um relacionamento livre (muitas vezes regido por contrato) entre as partes — dos quais sempre podemos sair com relativa facilidade.

Quando se trata de fixar salários, não é preciso dizer que eles são fixados por pessoas "ou organizações", porque, nas organizações, são pessoas que tomam decisões — individual ou coletivamente.

Há quem pergunte: devemos deixar que o mercado fixe o valor do trabalho do professor (ou do médico)? Quem faz uma pergunta desse tipo em geral imagina que seria mais justo se o governo se encarregasse de fixar salários para as diversas categorias, segundo a sua importância objetiva ou seu valor subjetivo. Ou, talvez, que seria mais justo se o governo determinasse que todo mundo ganhasse a mesma quantia (igualitarismo). Mas, ao falar em governo, não há como negar o fato de que, no governo, como nas demais organizações, são pessoas que tomam as decisões — individual ou coletivamente…

Há um certo sentido da expressão "valor do trabalho", que chamo de subjetivo, que não tem relação com o valor (objetivo) econômico ou financeiro desse trabalho (isto é, com aquilo que se paga por ele no mercado, seja na forma de salário, de honorários ou através de outras formas de remuneração).

Posso escolher a profissão de professor, digamos, por causa desse valor subjetivo, que não é econômico e muito menos financeiro: posso gostar de ensinar, posso gostar de estar perto de crianças ou jovens, posso achar que ensinar é a profissão mais importante na Terra, posso achar que fui chamado por Deus (vocacionado) para fazer isso, independentemente do retorno financeiro. Religiosos fazem seu trabalho porque se sentem chamados por Deus para fazê-lo — e muitas vezes o fazem sem receber salário em dinheiro (embora recebam remuneração indireta na forma de casa, comida, etc.).

No caso do professor universitário, e falando pessoalmente, minha principal razão para escolher a profissão, já lá se vão 35 anos, foi um valor subjetivo, não econômico: o grande controle sobre o meu tempo que ela me proporciona e a conseqüente liberdade de (entre outras coisas) estudar o que quero e até mesmo ficar discutindo essas coisas aqui no meu tempo de trabalho.

Se formos falar no "valor do trabalho" nesse sentido de "valor subjetivo", nossa discussão vai se enveredar por caminhos totalmente diversos. Vamos estar falando de sentido de missão ou vocação, de realização pessoal, etc. Vamos estar discutindo o fato de que há muita gente que trabalha, voluntariamente, virtualmente de graça. Religiosos, em geral, como acabei de mencionar, pelo menos os mais tradicionais, trabalham em troca de muito pouco. Venho de uma família de pastor, e sei bem o que é isso. O religioso trabalha porque acredita no que faz, e não trabalha para ganhar dinheiro — embora precise de algum para se manter (e, no caso dos não celibatários, aos seus). Na verdade, há gente (algumas mulheres com criança pequena, por exemplo) que literalmente paga para trabalhar.

O sentido de valor que se traduz em salário, honorário e outros tipos de remuneração pelo trabalho é um outro tipo de valor, o chamado "valor econômico", ou até mesmo financeiro. Em relação a esse tipo de valor, é preciso que fique claro que não há um critério absoluto que permita determinar quanto vale, em dinheiro, o seu ou o meu trabalho para terceiros. Nosso trabalho vale aquilo que alguém está disposto a pagar por ele.

Literalmente falando, o mercado não fixa o nosso salário, honorário ou outros tipos de remuneração. Caso sejamos assalariados, "ele", o mercado (i.e., alguém), nos paga um salário. A nossa relação com nosso empregador é tal que podemos negociar esse salário ou até mesmo recusar o salário que esse empregador nos oferece e buscar outro que nos pague algo mais próximo daquilo que achamos que vale o nosso trabalho. Em outras palavras: queremos que o valor objetivo de nosso trabalho (aquilo que alguém está disposto a nos pagar, como salário, pelo nosso trabalho) corresponda ao valor subjetivo (aquilo que achamos que o nosso trabalho vale). Mas esse desejo nosso nem sempre é satisfeito — na verdade, raramente é…

Não basta que alguém tenha dinheiro para nos pagar mais para que concluamos que, logo, esse alguém deve nos pagar mais. Essa tese, que causa revolta em alguns, é, tenho certeza, endossada por todos nós na prática. Duvido que qualquer um de nós paguemos às nossas empregadas domésticas tudo aquilo que podemos pagar — aquilo que elas, no sentido subjetivo do termo, acham que vale o seu trabalho. Nós pagamos, em geral, o preço médio que o mercado (isto é, as outras pessoas) está disposto a pagar. Se pagarmos muito menos, correremos o risco de perder a empregada. Se pagarmos muito mais, estaremos perdendo dinheiro, porque poderíamos arrumar outra empregada, que faria basicamente a mesma coisa, por um salário menor.


4. Um "Caveat" sobre o Mercado e Salários de Professores

Professores talvez formem a categoria que mais se considera injustamente mal remunerada neste país. É preciso, ao analisar suas reivindicações, considerar:

a) Quanto vale, na média, o trabalho de uma determinada categoria profissional, em reais ou dólares (digamos, o trabalho de professores de educação básica)?

b) E quanto vale, na média, o trabalho de diferentes categorias profissionais, relativamente umas às outras (o trabalho de professores de educação básica, por exemplo, vis-à-vis o trabalho de, novamente por exemplo, empregadas domésticas e jogadores de futebol)?

Em relação à primeira questão, a resposta de um liberal, que defende a economia de mercado, como eu, seria forçosamente a de que não há forma de aferir, para um determinado contexto, quando vale, intrinsecamente, o trabalho de uma categoria profissional ou de um profissional específico. O trabalho de uma categoria profissional ou de um profissional específico vale aquilo que o mercado está disposto a pagar por ele. Ponto final.

Eu posso estar subjetivamente convencido de que uma palestra que eu ministro vale 50 mil dólares (como a de Alvin Toffler ou de Daniel Goleman), dado o seu conteúdo original e importante, dada a forma atraente com que eu a apresento, etc. Mas se eu, diferentemente de Toffler e de Goleman, não consigo encontrar ninguém que esteja disposto a pagar esse montante pela minha palestra, e o máximo que eu consigo receber por uma palestra é cerca de 20% dessa valor, não há como eu possa argumentar, para os que se dispõem a pagar-me dez mil dólares, que eles estão tentando me explorar, ou que eu estarei sendo mal pago se aceitar esse valor, que representa apenas 20% do que eu acho que a minha palestra realmente vale. Minha palestra vale aquilo que o mercado está disposto a pagar por ela.

No caso de professores de educação básica, que se consideram, em regra, extremamente mal pagos, injustiçados, explorados, a única resposta que se pode dar a eles é: pois bem, encontrem alguma escola disposta a lhes pagar mais, e vocês não vão se sentir mais tão mal assim… Se encontrarem, terão mostrado que seu emprego anterior lhes pagava menos do que valiam. Se não encontrarem, terão de aceitar o fato de que seu trabalho não vale mais do que a sociedade (o mercado) está disposta a lhes pagar aqui neste país. Assunto encerrado.

Mas, em relação agora à segunda pergunta, é possível comparar o valor do trabalho de uma categoria profissional em relação ao valor do trabalho de outra?

Apesar de professores, em regra, acharem que seu trabalho é muito mais importante do que o trabalho de empregadas domésticas ou jogadores de futebol, e, portanto, deveria valer mais no mercado, o mercado nem sempre está de acordo — especialmente no caso de jogadores de futebol. Embora possa parecer incrível aos professores, o mercado está disposto a pagar dezenas de milhares de dólares por mês para um bom jogador de futebol, e não está disposto a pagar mil dólares mensais para um bom professor de primeira a quarta-série da Educação Fundamental.

Por que se dá isso? Em geral porque quem está disposto a pagar, digamos, 50 mil dólares por mês para um jogador (ou um técnico) de futebol, espera ganhar mais do que isso com a presença do jogador (ou do técnico) no time. Se o jogador é realmente bom, vai atrair público aos estádios, vai atrair patrocínio da televisão ou outras formas de endosso, vai ajudar a melhorar a reputação do time e isso vai, a médio e longo prazo, representar ainda melhores retornos. É verdade que tudo isso é expectativa, e os fatos podem desmenti-las. Mas a expectativa existe, e é ela que justifica o pagamento do alto salário.

No caso de professores, é raro que uma escola tenha expectativa de maiores ganhos com a contratação de um professor. Além disso, há, entre os professores, sacramentada por sindicatos da categoria, uma certa presunção de que um professor de uma determinada série ou ciclo não deve ganhar mais do que os outros — e isso tende a nivelar por baixo o salário dos professores. (Essa presunção vale até mesmo no Ensino Superior).

Há outras razões subsidiárias: a carreira de um jogador de futebol é curta — e a de um técnico, precária e arriscada… A de um professor, pelo contrário, pode ser longa, e espera-se até mesmo que ele melhore quanto mais velho fique…

Um professor pode até entender isso: afinal de contas, um bom jogador de futebol tem cerca de 10-15 anos de carreira e consegue levar milhares de pessoas aos estádios… O que ele vai ter dificuldade de entender é porque empregadas domésticas, que exercem uma função razoavelmente não qualificada, chegam a ganhar, em algumas regiões do país, bem mais do que professores ganham em outras. E babás especializadas não raro ganham mais na mesma região.

As considerações feitas por Thomas Sowell num recente artigo sobre as reivindicações salariais dos empregados da Wal-Mart valem aqui. Ninguém está preso pela vida inteira a um determinado emprego. Se não está contente com o salário, e acha que pode ganhar mais em algum outro lugar, está livre para buscar melhores condições de trabalho. Se acha que não vai conseguir ganhar mais fazendo o mesmo trabalho, que melhore as suas qualificações e procure um tipo diferente de trabalho.

O importante é reconhecer que não há uma forma de medir o valor de um determinado trabalho de forma absoluta. O valor de um trabalho é sempre relativo à necessidade que o mercado tem daquele trabalho. Quanto existem poucos médicos, o trabalho de um médico vale mais… Se o mercado está com oferta excessiva de advogados, o trabalho de um advogado vai valer menos…

Há regiões nos Estados Unidos em que professores de educação básica ganham menos do que lixeiros. Neles, não há muita gente disposta a trabalhar como lixeiro. Logo, ou se paga melhor os lixeiros, ou não haverá ninguém para coletar o lixo (com conseqüências desastrosas para a saúde e o bem-estar da população e para o meio ambiente). Por outro lado, a função do professor tem ainda um atrativo que independe do salário e que é difícil de explicar. Mas é esse atrativo que faz com que grandes quantidades de pessoas se disponham a ir para o magistério, mesmo com o valor relativamente baixo que esse trabalho tem no mercado. E, quando professor faz greve, a sociedade em geral não se molesta.

Se nós, que formamos a sociedade brasileira, não valorizamos a educação, o mercado não vai valorizar, porque nós somos o mercado. Se nós a valorizarmos, o mercado (que somos nós) a valorizará. A coisa é simples.

Se a sociedade brasileira não valorizar a educação, não adianta colocar toda a educação nas mãos de um "estado máximo" — porque nem assim ela vai ser valorizada.

O fato de a educação ser ou não valorizada pela sociedade não tem uma relação direta e unívoca com a ideologia favorecida pelo governo daquela sociedade. Uma sociedade liberal que valoriza a educação investe na educação, pagando o preço necessário para obter uma educação de boa qualidade. Uma sociedade estatizante que realmente valoriza a educação investe na educação pagando altos impostos e exigindo do governo que ofereça uma educação de qualidade.

5. A Pobreza e a Desigualdade

A primeira coisa que deve ser dita em relação a essas duas questões é que elas não são idênticas e não devem de modo algum ser confundidas. Mesmo países ou regiões em que não existe pobreza podem exibir enormes desigualdades sócio-econômicas — como, por exemplo, os subúrbios de Seattle onde a Microsoft está localizada e Bill Gates reside (Redmond, Bellevue, Kirkland, etc.). Vou, portanto, discutir as duas questões separadamente.


A. A Pobreza

Em relação à pobreza é preciso começar dizendo que, para os liberais, não é difícil explicar pobreza: afinal de contas a pobreza é a condição natural do ser humano. Enquanto o ser humano não descobriu a maneira de gerar ou criar riqueza, permaneceu inevitavelmente pobre. O que precisa ser explicado é a riqueza. É ela que não existia um dia e passou a existir a partir de um determinado momento na história — e em uma região determinada do globo.

Alguns poderão procurar contra-argumentar afirmando que a pobreza não é a condição natural do ser humano, visto que, embora alguns seres humanos nasçam pobres, outros, por sua vez, "nascem ricos".

Em relação a esse argumento, é preciso esclarecer o seguinte.

Até o surgimento do Liberalismo (vale dizer, do Capitalismo), sempre houve alguns ricos (poucos), mas não havia uma fórmula ou um método legítimo de gerar ou criar riquezas. As riquezas que foram acumuladas eram resultado de roubo, pilhagem, ou, então, confisco (em geral pelos governantes e por seus protegidos). A grande contribuição do Liberalismo Econômico à civilização foi que ele mostrou como é que indivíduos — e nações (o livro de Adam Smith se chama A Riqueza das Nações) — podem, de forma não só legítima, do ponto de vista legal, mas inteiramente moral, sair de sua pobreza natural e enriquecer. E, a partir de então, um grande número de indivíduos foi capaz de sair da pobreza e acumular grandes riquezas — sem precisar recorrer ao roubo, à pilhagem e ao confisco. Quando isso aconteceu de forma mais ou menos generalizada dentro de uma nação, esta eventualmente se enriqueceu.

Vivemos hoje uma era de enorme prosperidade. Nunca houve tantos milionários no mundo como há hoje — e eles se concentram em países que adotam o Liberalismo Econômico (ainda que parcialmente descaracterizado). Os Estados Unidos são o país que concentra a maior parte de milionários do mundo — e isso apesar de o Liberalismo Econômico lá ser cerceado e restringido de múltiplas maneiras. Países que não adotam o Liberalismo Econômico, como os países produtores de petróleo no Oriente Médio, certamente produziram alguns bilionários. Mas eles são exceção. A maioria absoluta dos milionários do mundo está em países que adotam o Liberalismo Econômico (ainda que parcialmente descaracterizado).

Como é que, a partir de um mundo em que todos eram pobres, algumas pessoas se tornaram ricos. O segredo está nos princípios básicos do Liberalismo: os direitos individuais.

O segredo da geração de riquezas depende:

a) de os indivíduos terem liberdade para agir, isto é, para produzir bens e serviços, inclusive para inventar equipamentos e metodologias, para trocar ou vender no mercado aquilo que produziram, ou para fazer com o que produziram o que bem entenderem;

b) de os indivíduos terem garantia de que serão capazes de manter a propriedade daquilo que produziram e daquilo que obtiveram por troca ou compra, garantia essa que opera como incentivo para que aumentem a produção e a qualidade dos bens e serviços que produzem;

c) de os indivíduos encontrarem condições de tranqüilidade para produzir e comerciar, condições de tranqüilidade envolvendo lei, ordem, e paz que garantam que sua segurança, seu bem estar e suas propriedades estão protegidos contra ataques de terceiros e que eles poderão fazer valer os contratos que celebrarem com terceiros.

O resto fica por conta da criatividade, da engenhosidade, da ambição do ser humano — do seu desejo (totalmente egoísta — e totalmente válido do ponto de vista moral) de melhorar a sua condição e a daqueles por quem tem afeto.

Se a coisa é assim tão simples, por que é que tantos não enriquecem, a riqueza parecendo ser uma prerrogativa de uns poucos privilegiados?

A resposta do Liberalismo mais uma vez é simples e se vincula a duas constatações adicionais que me parecem inegáveis (que se aplicam dentro de condições políticas e econômicas favoráveis).

Primeiro, seres humanos são diferentes uns dos outros. A diversidade entre os seres humanos existe não só em suas características físicas, mas também nas mentais. Da mesma forma que alguns seres humanos são mais altos, mais fortes, mais ágeis, mais claros (etc.) do que outros, alguns seres humanos são mais inteligentes, ambiciosos, esforçados, espertos (etc.) do que outros.

Segundo, existe indubitavelmente um certo elemento de imponderável (chamemos esse imponderável de sorte) acerca de quem alcança sucesso material e financeiro e quem não alcança — mesmo entre aqueles que são mais capazes. Para enriquecer, às vezes não basta ser mais capaz, se, por exemplo, você nasce ou está no lugar ou no momento errado. Inteligência e ambição precisam de um ambiente adequado para se desenvolver. E as pessoas também precisam de um ambiente adequado para desenvolver seus talentos naturais específicos (quaisquer que sejam). Se um menino com o talento natural para o futebol que o Ronaldinho Gaúcho inegavelmente possui houvesse nascido nos Estados Unidos na década de cinqüenta ou sessenta, onde ninguém se interessava por futebol ("soccer"), provavelmente ele não teria se tornado o maior jogador de futebol do mundo. Talvez não tivesse se tornado nem mesmo um grande esportista, porque seu físico relativamente franzino não é igualmente adequado para os esportes que eram populares nos Estados Unidos naquela época: o basquetebol, o futebol americano, o hóquei no gelo, ou mesmo o beisebol.

Juntando tudo isso, não é de surpreender que alguns enriquecem e outros não. Como também não é de surpreender que, na escola, alguns alcancem sucesso acadêmico e outros não. A natureza não é igualitária. A igualdade não é natural. E tentativas de impô-la, além do aspecto puramente formal e jurídico (igualdade de direitos, igualdade perante a lei), estão fadadas a fracassar.

Os oponentes do Liberalismo em geral o acusam de "culpar as vítimas" pelo seu fracasso. Se os que fracassam, seja na esfera econômica, seja no âmbito acadêmico, são vítimas, cabe perguntar de quem, ou, talvez, de que, são vítimas. O Liberalismo está disposto a admitir que, em um sentido figurado, os que fracassam são vítimas da natureza ou do destino. Mas os oponentes do Liberalismo pretendem que os que fracassam são vítimas "da sociedade" — mais especificamente, do tipo de estrutura política e econômica vigente na sociedade, vale dizer, são vítimas do Liberalismo. Afirmam que, fosse a sociedade diferente, em sua estrutura política e econômica, esse fracasso não existiria. "Um outro mundo é possível", gostam de alardear.

Não há a menor dúvida de que a estrutura política e econômica de uma sociedade é uma construção humana e que, portanto, "um outro mundo é possível". Na verdade, esse outro mundo é muito mais do que simplesmente possível: esse outro mundo era a realidade de todas as sociedades até pouco tempo — como ainda é de boa parte do mundo que se recusa a adotar os princípios do Liberalismo. O problema é que a experiência e a razão mostram que o outro mundo possível, em que não há distinção entre os que são bem sucedidos e os que fracassam (um mundo igualitário), só acaba existindo porque se elimina a possibilidade de sucesso e, por conseguinte, de riqueza. Nele, todos são igualmente pobres.

A experiência e a razão mostram que numa sociedade liberal todos melhoram a sua situação econômica — embora uns a melhorem muito mais do que os outros.

Mas com isso chegamos à questão da desigualdade.


B. A Desigualdade
 

Os socialistas em geral acreditam de forma tão arraigada no igualitarismo que parecem preferir um mundo em que todo mundo está pior do que poderia estar (num mundo diferente, o liberal) a um mundo em que todo mundo está melhor mas uns estão muito melhor do que outros. Como lapidarmente disse Mme. de Staël no século XVIII, os socialistas preferem a igualdade do inferno às desigualdades do céu.

Como disse no final da seção anterior, a experiência e a razão mostram que numa sociedade liberal todos melhoram a sua situação econômica — embora uns a melhorem muito mais do que os outros. Negar isso é essencial para o argumento socialista. É por isso que os socialistas continuam repetindo, sem o menor fundamento de fato, que nas sociedades capitalistas os ricos ficam cada vez mais ricos (em geral, verdade, embora haja exceções) e os pobres ficam cada vez mais pobres (falso, se a pobreza for concebida em termos absolutos e não relativos). 

A única forma que os socialistas encontram de tornar seu argumento minimamente plausível é conceituar a pobreza como uma condição relativa e não absoluta. A pobreza, para eles, é concebida de forma estatística ou percentual. Se, numa determinada sociedade, 20% da população detém 80% da riqueza, 80% da população é definida como pobre — e a população na parte mais baixa dessa escala é definida como miserável.

Ser considerado pobre ou miserável numa situação como essa nada diz acerca das condições de vida das pessoas envolvidas. Se o país em questão é a Suíça, os 80% que só detêm 20% da riqueza gerada no país estão longes de ser pobres, quanto mais miseráveis. Na verdade, todo ano, durante o Inverno, um milhão de imigrantes portugueses entra a Suíça para trabalhar em funções na indústria turística e de serviços (que, para eles, têm excelente remuneração) que os suíços não querem exercer e preferem pagar para os estrangeiros executar. Com o dinheiro que ganham na Suíça durante o Inverno esses portugueses, trabalhadores temporários, vivem o resto do ano em Portugal. Não são pobres — embora ocupem, na escala de renda, os 10% mais baixos da sociedade suíça.

No Brasil, existem pobres? Certamente existem, e em bom número — embora muito menor do que se alardeia (com base em critérios meramente relativos). Mas relativamente falando, nossos pobres são mais ricos do que os mais ricos cubanos (que, fora do alto escalão do governo, inexistem). Existem miseráveis no Brasil? Também sim, embora em número ainda menor do que os pobres.

Por se concentraram na questão da desigualdade, a esquerda brasileira acaba ignorando o real problema, que é o dos miseráveis. Professor universitário brasileiro, que, relativamente falando, faz parte da minoria que se situa entre os 10% mais ricos do país, e que, objetiva e absolutamente, tem um padrão de vida bastante bom, fica acusando a elite e os ricos brasileiros de não se preocuparem com a desigualdade — embora eles próprios não estejam dispostos a abrir mão de um centavo de sua renda para resolver o problema dos miseráveis e, se professores de universidades federais, usam toda a força de seu corporativismo para melhorar ainda mais o sua condição já privilegiada.

O Brasil precisa de um choque real de Liberalismo. Países que enriqueceram em pouco tempo, como os Tigres Asiáticos, a Irlanda, a Islândia, só enriqueceram porque adotaram uma boa dose de Liberalismo. Aqui a esquerda que nefastamente domina a política, a academia e a mídia impedem isso.


Em Hong Kong, 10 de fevereiro de 2006 
 

Chamando as coisas pelo nome certo: "Ação Afirmativa" é discriminação racial contra os brancos

Os defensores do sistema chamado de “Ação Afirmativa” (que inclui as famigeradas cotas) para ingresso nas universidades brasileiras – especialmente nas públicas – procuram apresentar sua proposta como sendo voltada para combater os efeitos da discriminação – com base em raça e cor – que, alega-se, continua sendo praticada no país contra negros e pardos.

Essa caracterização do sistema de cotas não sobrevive a uma análise histórica dessa prática.  

Tanto o sistema como o nome “Ação Afirmativa” são importados dos Estados Unidos (como tantas outras coisas ruins – as boas coisas dos Estados Unidos em geral são criticadas aqui). A maior parte dos brasileiros que tem escrito sobre o assunto, desconhecendo a história do ensino superior nos Estados Unidos, imagina que esse sistema foi introduzido naquele país a partir da segunda metade dos anos 60 (na época da luta dos “direitos civis”) para combater os efeitos da discriminação racial contra os negros (que lá, sem dúvida existiu: hoje o que existe lá é discriminação racial contra os brancos de origem não hispânica).

O que aconteceu nos Estados Unidos a partir dos anos sessenta, entretanto, foi uma reintrodução do sistema de “Ação Afirmativa” no ensino superior americano. A introdução originalmente havia sido feita dos anos 20 aos anos 50 num contexto que para muitos será surpreendente.

O final do século XIX e o início do século XX foram um período em que houve uma enorme imigração para os Estados Unidos. Entre os imigrantes estavam judeus ortodoxos (Ashkenazim) da Europa Central (e, em parte, do Sul da Europa) que se concentraram em grande parte (cerca de 90%) na cidade de Nova York. Esses judeus pouco assimilaram da cultura americana. Em sua aparência (cabelos semi-longos, com trancinhas, chapéus, roupas pretas), em seus hábitos culturais (continuavam a falar o Ídiche em casa, seguiam a tradição religiosa judaica à risca, guardando o Sabbath, e, portanto, não trabalhando a partir do pôr-do-sol de Sexta-Feira, guardando os feriados judaicos, mantendo hábitos alimentares que pareciam estranhos aos americanos, etc.), e em suas relações sociais (relacionavam-se predominantemente entre si, evitando contatos mais profundos e significativos com a população gentia – o casamento com gentios era tabu), esses imigrantes judeus formavam um grupo à parte dentro da sociedade americana, em plena época do “melting pot”.

As condições de vida desses judeus era extremamente baixa. Eles eram muito pobres, tinham famílias enormes, e praticamente viviam em cortiços nos guetos judaicos. Os que estavam nos Estados Unidos há mais tempo empregavam os recém-chegados e assim a comunidade se mantinha coesa, sem necessidade de grande integração com o restante da sociedade americana.

Dadas as condições econômicas desses judeus, seus filhos estudavam em escola pública. Mas nem esse fato promovia integração com o restante da sociedade americana, pois as escolas públicas dos bairros em que moravam eram freqüentadas predominantemente (em alguns casos, num percentual até de 90%) por eles próprios, pois a população de outras etnias fugia para outros bairros quando esses judeus começavam a “invadir” a vizinhança.

Até aí, tudo bem: se os judeus oriundos da Europa Central não queriam se integrar ao restante da sociedade americana, esta, por sua vez, não fazia questão nenhuma de assimilá-los, ignorando-os, na melhor das hipóteses, desde que ficassem quietos “em seu lugar”, ou, então, praticando uma discriminação mais agressiva contra eles.

Mas logo surgiu o que foi percebido como um problema sério…

A Costa Nordeste americana possui oito tradicionais e famosas instituições de ensino superior de elite (sete universidades e um “college”), conhecidas como “a Liga da Hera” (“the Ivy League”). São elas: Harvard (Cambridge, MA, fundada em 1636), Yale (New Haven, CO, fundada em 1701), Princeton (Princeton, NJ, fundada em 1746), Pennsylvania (Philadelphia, PA, fundada em 1749), Columbia (New York, NY, fundada em 1754), Brown (Providence, RI, fundada em 1764), Dartmouth (Hanover, NH, fundada em 1769), e Cornell (Ithaca, NY, fundada em 1865). Note-se que as sete primeiras foram fundadas ainda no período colonial, antes, portanto, da Independência do país. Dessas, as três primeiras, Harvard, Yale e Princeton, são geralmente chamadas de “as Três Grandes” (“the Big Three”). O problema que mencionei foi sentido primeiro nelas.

Até o início do século XX essas instituições atendiam quase que exclusivamente à mais fina elite sócio-política dos Estados Unidos (especialmente da Costa Leste, e, dentro desta, com destaque para a Nova Inglaterra). Nenhuma delas tinha um número fixo de vagas: elas aceitavam todos os candidatos que passassem os seus testes (que incluíam Latim, Grego, Inglês, Matemática, Ciências e, às vezes, até mesmo Francês e Alemão. Por volta de 1900 elas se uniram numa associação, chamada de o “College Entrance Examination Board” (CEEB), que teria a finalidade precípua de elaborar um conjunto de exames, de dificuldade uniforme, e de definir procedimentos para que as provas fossem avaliadas por critérios objetivos que obedecessem a diretrizes claramente formuladas. O ingresso era, entretanto, mesmo antes desses exames, exclusivamente por mérito acadêmico. O que mudou, a partir de 1900, foi o fato de os instrumentos de avaliação dos candidatos a ingresso foram uniformizados e padronizados. Isso permitiu que as universidades elaborassem e comparassem estatísticas. 

Em 1877 apenas 266 mil judeus viviam nos Estados Unidos. Esse número rapidamente se elevou para 400 mil em 1888, 938 mil em 1897, 1.778 mil em 1907 e 3.389 em 1917.

Por volta de 1920 as universidades da Ivy League começaram notar que o número de filhos dos imigrantes judeus do Leste Europeu – e até mesmo alguns imigrantes – que estavam matriculados em seus cursos, como diziam, preocupantes, pois extrapolavam de muito o percentual que essa etnia representava na população… Em 1919, por exemplo, eram judeus 20% dos alunos de Harvard e de Brown, 25% da Pennsylvania, e 40% da Columbia (que ficava em Nova York) – e a curva era ascendente. Além disso, se os judeus estavam super-representados na população estudantil como um todo, eles estão mais do que super-representados entre os melhores alunos (que ganhavam a maior parte das bolsas). Houve anos, em algumas universidades, como, por exemplo, Yale, que os judeus receberam todas as bolsas disponíveis. Se algo não fosse feito, em pouco tempo as universidades de elite dos Estados Unidos estariam sendo freqüentadas exclusivamente por judeus – algo que os ex-alunos, que contribuíam, como ainda contribuem, para a manutenção dessas universidades consideravam totalmente inadmissível.

Dado o clima cultural dos Estados Unidos naquela época, que dava grande valor ao mérito, no caso ao desempenho acadêmico medido pelo resultado de testes rigorosos, e, ao mesmo tempo, acreditava que o país deveria manter igualdade de oportunidades, era virtualmente impossível implantar um sistema transparente de cotas, que colocasse um teto no número de judeus que seriam admitidos.

A saída encontrada foi mais sutil – e mais hipócrita – e envolveu dois aspectos. Primeiro, as universidades resolveram fixar um número de alunos ingressantes para cada ano – digamos, mil alunos. Esse número deveria ser inferior ao número dos alunos que se estimava seriam aprovados nos exames do CEEB. Como seriam aprovados, por critérios estritamente acadêmicos, mais alunos do que a universidade havia decidido admitir, algum outro critério teria de ser invocado para decidir quais, dentre os aprovados, seriam admitidos. É aqui que entra o segundo elemento. A solução óbvia, de admitir aqueles que haviam tirado melhores notas, não era aceitável – porque isso continuaria a beneficiar os judeus. Logo, era preciso ser mais criativo… Talvez uma bateria de critérios permitisse maior flexibilidade.

Um critério que imediatamente se impôs foi o dar pontos adicionais aos alunos egressos de escolas particulares (sic). Como os judeus, pobres que eram, não podiam pagar escolas particulares, freqüentando exclusivamente as públicas, eles não ganhariam esses pontos.

Um outro critério, que acabava tendo resultado semelhante, era valorizar diversidade regional. Como os judeus estavam concentrados em Nova York, e as universidades da Ivy League ficam de certo modo ao redor da cidade, a valorização de locais de origem diferentes dessa região fatalmente reduziria o número de judeus – embora, nesse caso, não significasse um aumento no número de alunos não-judeus pertencentes à elite socio-política da Costa Nordeste americana…

Um terceiro critério era mais complicado: envolvia valorizar, nos candidatos, características não relacionadas ao desempenho acadêmico propriamente dito, como, por exemplo, capacidade de liderança, tendência à iniciativa, força de caráter, conduta moral ilibada, refinamento de maneiras, etc. Que essas características fossem notoriamente difíceis de medir ou até mesmo de detectar não preocupava as universidades.

Em decorrência dessas inovações, as universidades acabaram tendo que criar uma unidade de admissões – que antes não tinham, por serem totalmente desnecessárias. Essas unidades desenvolveram formulários de inscrição para os candidatos – em que se perguntava o nome do pai e o nome da mãe, se indagava se havia havido mudança de nomes na família (muitos judeus americanizavam um pouco seus nomes), se pedia que declarassem sua religião, etc. Todas essas informações ajudavam os oficiais de admissão a detectar judeus.

Uma outra mudança foi de enfoque. Ao divulgar os novos procedimentos, as universidades naturalmente esconderam seu real objetivo. Foi aí que surgiu a ênfase na importância da “diversidade”. Até que o ingresso maciço de judeus extremamente inteligentes e bem preparados ameaçasse as elites, ninguém havia se preocupado com diversidade. Quando os judeus trouxeram alguma diversidade aos campus, aí se resolveu buscar uma suposta diversidade que reduzisse o número de judeus (sob a alegação de que, se fossem mantidos critérios de ingresso puramente acadêmicos, em pouco tempo as universidades de elite dos Estados Unidos só teriam alunos judeus).

Para disfarçar melhor o seu objetivo, as universidades também alegaram que iriam sair de sua postura passiva e reativa de esperar que os interessados em ingressar nelas se manifestassem e assumir uma postura mais positiva de “ação afirmativa”  na busca e no recrutamento de alunos com o perfil desejado (aqueles com capacidade de se tornarem os futuros líderes do país e que demonstrassem firmeza de caráter, conduta moral e refinamento de maneiras…).

Esse breve resumo é suficiente para mostrar como nasceu a “Ação Afirmativa” nos Estados Unidos: no seio de universidades privadas, e sem a interferência do governo,  para dificultar ou mesmo impedir o ingresso na universidade de uma categoria de alunos mais bem preparados em favor de uma categoria de alunos que não conseguia, com base em critérios exclusivamente acadêmicos e meritocráticos, competir com a categoria anterior.

No caso americano, no período que destaquei, praticou-se inegavelmente discriminação contra os judeus – e essa discriminação tinha base racial, embora se tenha feito um esforço enorme não só para disfarçar a sua base racial como para apresentá-la sob uma luz positiva, como se, além de não ser racial, nem discriminação fosse.

Muda-se a época, muda-se o país. No Brasil, neste início de século XXI, a tentativa de implantar programas de “Ação Afirmativa” no ensino superior acontecem para favorecer a raça negra e aqueles de cor escura – em detrimento dos brancos. Aqueles contra quem se discrimina com essas medidas têm desempenho melhor nos mecanismos de seleção. Por isso, se tenta limitar o seu número na universidade, dando preferência àqueles que, quando se usam critérios puramente acadêmicos e meritocráticos, não conseguem entrar.

Aqui no Brasil nem se tenta justificar a medida de modo a ocultar seu caráter discriminatório contra os brancos. O caráter discriminatório dos programas de “Ação Afirmativa” no Brasil é tão evidente que nem se busca justificá-lo apelando para os supostos aspectos positivos da diversidade, ou invocando a capacidade de liderança e o caráter moral daqueles a quem se dá a preferência, preterindo aqueles que são mais bem qualificados.

Em Hong Kong, 5 de fevereiro de 2006

Três conceitos de igualdade

Existem, a meu ver, pelo menos três tipos de igualdade a que se pode aspirar – e que parece possível alcançar. 

Com a ressalva “e que parece possível alcançar” excluo, aqui, a igualdade absoluta em todos os aspectos: a igualdade de gêmeos monozigóticos (univitelinos) ou de clones nascidos e criados em condições ambientais, inclusive culturais, absolutamente idênticas. Nessa hipótese todos seríamos absolutamente iguais, tanto geneticamente como nas características desenvolvidas.

Mesmo assim, só se pode imaginar que todos seríamos absolutamente iguais nessa hipótese, até mesmo em termos de resultados (daquilo que cada um fizer com sua vida), se for excluída a possibilidade do livre arbítrio. Se o livre arbítrio for inserido na equação, é possível imaginar até mesmo que indivíduos geneticamente idênticos nascidos e criados em condições idênticas tomem decisões diferentes, e, portanto, alcancem resultados diferentes em suas vidas…

Mas essa hipótese considero inalcançável, pelo menos em condições sócio-políticas que fiquem aquém de absoluto totalitarismo, em que um super-ditador alcançasse poderes de promover engenharia genética. Digo isso a despeito das hipóteses levantadas nas chamadas utopias negativas (ou distopias) Brave New World, de Aldous Huxley (vide http://www.huxley.net/) e Walden Two, de Burrhus Fredric Skinner (vide http://en.wikipedia.org/wiki/Walden_Two).  

Vamos, portanto, aos três tipos de igualdade que me parecem alcançáveis em condições não exatamente totalitárias – mas que podem chegar perto.

1) Um tipo de igualdade é a chamada igualdade formal, diante da lei. Esse tipo de igualdade pressupõe que a lei (e, conseqüentemente, o governo) deve tratar todos de forma igual, sem qualquer discriminação, simplesmente em função de fato de serem humanos – mesmo que sejam totalmente desiguais em quase todos os aspectos particulares de sua vida, sejam eles naturais (biológicos e psicológicos) ou desenvolvidos na vida em sociedade (devidos ao ambiente).

Para um liberal radical como eu, esta é a única igualdade que é possível alcançar sem nenhuma violência à liberdade dos indivíduos que compõem a raça humana.  Esse tipo de igualdade é perfeitamente compatível com a liberdade.

2) Outro tipo de igualdade é a chamada igualdade de resultados. Aqui não se espera simplesmente que a lei (e, conseqüentemente o governo) trate todos de forma igual, mas que todos, a despeito de suas diferenças (genéticas ou desenvolvidas na vida em sociedade), alcancem resultados iguais, do ponto de vista social e econômico, com o que resolverem fazer com sua vida.

Segundo esse ponto de vista, desigualdade sociais e econômicas são inaceitáveis – representam “injustiças sociais” e “iniqüidades” – e devem, portanto, ser removidas pelo governo. Assim, se uma pessoa resolve dedicar sua vida aos estudos, ficando na escola durante mais de vinte anos, para se tornar um professor universitário, e sendo obrigada a continuar estudando para alcançar o seu objetivo de vida, e outra pessoa resolve não estudar nada e viver sem trabalhar, as duas pessoas deveriam não só ter uma renda idêntica, paga pelo governo, como receber, da sociedade, o mesmo reconhecimento (status, prestígio, etc.). Da mesma forma, se alguém é extremamente talentoso na prática do futebol, e se dedica a treinar com afinco, e outro é um perneta, que não faz esforço nenhum para melhorar nesse aspecto, mas os dois querem jogar, digamos, no Milan da Itália, o governo deveria obrigar o Milan a aceitar os dois e a pagar-lhes o mesmo salário, não discriminando contra o perneta. Na verdade, não poderia haver nem mesmo desigualdades entre os times. O Luceliense Futebol Clube de minha terra natal teria de receber da sociedade o mesmo reconhecimento (status, prestígio, etc.) que o Milan e, por causa disso, ser capaz de pagar aos seus jogadores os mesmos salários (através, digamos, de subsídios governamentais).

Para que o governo pudesse tornar possível rendas idênticas para pessoas com qualificações tão diferentes, ou subsidiar times tão diferentes em qualidade, teria de ter recursos inesgotáveis. E para ter recursos inesgotáveis, teria de extrair esses recursos de quem conseguisse obtê-los, por seus próprios meios, através de seu diferencial no mercado. Uns, os mais capazes (por características naturais ou desenvolvidas), estariam, assim, financiando a igualdade dos menos capazes e dos incapazes.

Isso não se consegue sem violar drasticamente a liberdade e os direitos individuais dos mais capazes. E, com raras exceções, as pessoas, ao perceberem que estavam trabalhando em grande medida para sustentar os outros, que pouco ou nada fazem para melhorar sua situação, parariam de trabalhar tanto – levando a economia da sociedade a um colapso (como, de resto, aconteceu em sociedades comunistas).

Por isso, nem mesmo a esquerda mais radical tem defendido, hoje em dia, total igualdade social econômica como um objetivo a ser buscado. Fala apenas em reduzir desigualdades, promover “justiça social”, etc. – sem deixar muito claro o que se pretende com isso.

3) Nesse contexto, há vários que defendem a chamada “igualdade de oportunidades”. A igualdade de oportunidades seria um meio termo: iria além da igualdade formal, diante da lei, mas não chegaria ao extremo de uma igualdade total de resultados. O que se espera é que as pessoas tenham todas oportunidades iguais na vida – o que fazem dessas oportunidades, através de suas escolhas e decisões, seria problema delas. O que é preciso, afirma-se, é que “as condições iniciais” da “corrida pela vida” sejam idênticas. O que cada um faz na corrida é problema seu. Que ganhe o melhor. (Acabo de ver e ouvir na CNN Ásia um empregado da Unilever que viveu durante 35 anos na África do Sul dizer que é preciso “level the field”, nivelar o campo de jogo, ou igualizar as condições iniciais, para que haja “verdadeira competição”.

Parece bonito, quando dito assim.

Mas como é que se consegue igualizar as condições iniciais de quem nasce no Morumbi, em São Paulo, e quem nasce no sertão do Piauí? Ou de quem nasce em uma família de milionários na Suíça e quem nasce de uma mãe solteira e aidética numa tribo do deserto do Sahara? De quem tem um QI de 200 e quem tem um QI de 70? Ou de quem nasce com o talento para o futebol que tem o Ronaldinho Gaúcho e quem não consegue chutar uma bola? Ou de quem tem consegue representar como o Anthony Hopkins ou a Fernanda Montenegro e alguém que não consegue declamar uma poesia numa festinha de aniversário? Ou de quem consegue estudar competentemente os grandes mistérios da vida, da mente, ou do universo, como Darwin, Freud e Einstein, e, digamos, alguém que não consegue sequer aprender a ler, escrever e contar na escola, depois de anos de tentativa?

A meu ver, não se consegue – e é vão tentar. Isso não quer dizer que não se deve tentar melhorar a situação de quem enfrenta piores condições iniciais. Mas deve se fazer isso através da iniciativa privada e com realismo. Confiscar recursos, através de taxação, dos que nasceram em condições iniciais melhores para aplicá-los na tentativa de igualizar as condições iniciais, envolve não só interferir indevidamente com a liberdade e os direitos individuais dessas pessoas, mas, pior, fazer isso em nome de um objetivo (igualdade de oportunidades) inalcançável – totalmente utópico.

E não adianta ficar falando que é preciso não abandonar as utopias. Há utopias que são alcançáveis – e temos todo direito de tentar promove-las, com nossos próprios recursos. Mas tentar promover utopias irrealizáveis e, pior, com o dinheiro dos outros, é totalmente injustificável.

É parte da condição humana que não escolhemos o local e a data em que vamos nascer nem as condições sociais, culturais e econômicas do casal que nos gerou. E também não vamos escolher a combinação de genes que vamos herdar de nossos pais.

Só podemos escolher o que vamos fazer com a carga genética que herdamos e com as condições sociais, culturais e econômicas em que nascemos.

A natureza é imparcial no sentido de que não atribui uma carga genética excepcionalmente favorável apenas a pessoas que nascem em condições sociais, culturais e econômicas favoráveis. Nascem gênios entre os pobres e ignorantes e verdadeiras toupeiras entre os ricos e cultos.

É possível, portanto, e totalmente justificável, ajudar cada um a desenvolver ao máximo os seus talentos naturais, dentro das circunstâncias em que nasceu, com o objetivo de possa transcender essas circunstâncias e, assim, permitir que os seus filhos nasçam em condições sociais, culturais e econômicas melhores.

O que não é admissível é tentar manipular a carga genética das pessoas, para igualizá-las, nem violar as liberdades e os direitos individuais de alguns para dar aos demais condições iniciais iguais – a chamada igualdade de oportunidades.

Em Seul, 7 de novembro de 2005

Três conceitos de liberdade

Isaiah Berlin escreveu um artigo que marcou época sobre dois conceitos de liberdade: o de liberdade negativa e o de liberdade positiva. Ele defendia o primeiro.

Hoje comprei um livrinho sobre Isaiah Berlin, escrito por John Gray, e uma coisas que ele disse ajudou a cair a minha ficha…

Com a caída da ficha, parece-me razoável argumentar que, além da chamada liberdade positiva (que, a meu ver, não é liberdade, razão pela qual não vou discuti-la aqui: quem estiver interessado procure o artigo de Isaiah Berlin), há três tipos de liberdade (negativa).

Antes de mais nada, vou brevemente esboçar duas características que esses três conceitos de liberdade (negativa) têm em comum:

Primeiro, todos os três entendem liberdade como não-coação: eu sou livre, se não sou coagido.

Segundo, há dois tipos de coação: aquela que me impede de agir e aquela que me obriga a agir.

Terceiro, a coação é sempre uma ação humana: não faz sentido falar em coação por parte da natureza.

Isso posto, quais são os três tipos de liberdade?


a) Liberdade como a ação segundo o desejo

Em geral se entende liberdade como a possibilidade de agir, sem coação, para realizar o que se deseja – ainda que o desejo seja irrefletido ou mesmo imoral. Ajo livremente, nesta concepção, se, por exemplo, desejando matar alguém, e não sendo nem obrigado a fazê-lo nem impedido de fazê-lo, eu vou e mato a pessoa.


b) Liberdade como a ação segundo o dever

Muitas pessoas acham o conceito anterior repugnante – e argumentam que ele dá uma má reputação à liberdade. Lembro-me de um livrinho que li, parece que faz séculos, de um teólogo alemão chamado Helmut Thielicke, e que tinha o título de “Die Freiheit des christlichen Menschen”(A liberdade do homem cristão). Nesse livrinho ele argumentava que liberdade, para o cristão, não é poder fazer o que se quer, mas, sim, poder fazer o que se deve. A liberdade, aqui, é circunscrita pela moral. Não é livre, neste conceito, quem faz o que deseja – se o que se deseja é imoral. A liberdade (para o cristão) consiste em poder fazer o que se deve – isto é, em fazer o que se deve sem coação de qualquer espécie. (O indivíduo que é obrigado a fazer o que deve não é livre, nessa concepção, porque é coagido, e o indivíduo que faz o que deve porque é impedido, por coação, de fazer qualquer outra coisa também não livre, porque também é coagido). 


c) Liberdade como a ação mediante a escolha

Acho que a concepção anterior vai longe demais – mas chama a nossa atenção para um elemento importante.

Vai longe demais porque não faz muito sentido dizer que é livre apenas a pessoa que age moralmente, que faz o que deve, que faz o que é certo. A liberdade parece implicar a possibilidade de fazer também o que é moralmente errado, o que não é certo, enfim, o que não se deve.

Por outro lado, a possibilidade de escolha parece essencial para a liberdade. Se todas as opções de agir diferentemente me são impedidas por terceiros, eu estou coagido e não há como falar em liberdade. Mas também se eu ajo de forma irrefletida e impensada, sem submeter a minha ação a um processo racional de tomada de decisão, que leva em conta cursos alternativos de ação, as conseqüências de todas as alternativas, etc., parece que a liberdade se confunde com o mero impulso ou com o desejo cego.


Assim colocadas as três alternativas, parece-me evidente que a terceira é superior. John Gray argumenta que Isaiah Berlin tinha essa visão da liberdade. Mas confesso que, em minhas leituras dele, antes de ler o livro de John Gray, não havia me dado conta de que o conceito de liberdade (negativa) poderia ser diferenciado nessas três facetas. Delas, John Gray discute apenas a primeira e a terceira. A segunda é contribuição minha – fruto de meu passado na teologia… (A propósito, li o livreto de Thielicke quando estudava na Faculdade de Teologia da Igreja Evangélica de Confissão Luterana no Brasil, em São Leopoldo, RS, nos idos de 1966. Parece séculos atrás.)

Em Campinas, 25 de outubro de 2005

Os cismas do PT

A esquerda se parece com o Protestantismo em alguns aspectos. É curioso. Pessoas que concordam em relação a grandes questões, mas pensam diferente em alguns pontos que, de fora, parecem secundários, não conseguem se manter unidas em função de uma causa comum, que parece claramente maior. Com extrema facilidade os esquerdistas racham, dividem-se, separam-se, formam dissidências — que nada mais são do que igrejinhas protestantes.

Na história da igreja isso tem o nome de cisma. Protestantes são, por sua própria natureza, cismáticos. Não estou contente aqui: vou para uma outra igreja — ou, freqüentemente, formo uma outra igreja pra mim. É por isso que há milhares de denominações protestantes — mas a Igreja de Roma continua (em termos) una, ou seja, católica. Católico, segundo Houaiss, é aquilo que tem vocação de universalidade. (Quem não assistiu ao filme Lutero, que o faça. Lutero não só rachou com Roma — rachou em várias maneiras com seus prévios apoiadores. Em outras palavras: conseguiu rachar dentro do racha maior).

A pergunta que o Jânio de Freitas faz na Folha de hoje (27 de setembro) é a pergunta de todos os que acompanham a crise política: por que os cismáticos do PT não continuaram um pouco mais no partido para tentar derrotar o intragável Berzoini? Juntas, as facções da esquerda do PT poderiam derrotar o sedizente campo majoritário na luta pela presidência do partido. É verdade que o diretório está decidido, mas a presidência não é de jogar fora. Por que rachar justo agora? A resposta parece ser: porque se chegou ao limite. Tal qual Lutero, a esquerda do PT diz "Hier steh’ ich: ich kann nichts anders" — "Aqui eu fico [ou, no caso do PT, ‘aqui me vou’]: não consigo fazer outra coisa". Em outras palavras: não dá mais pra continuar. Como nos relacionamentos conjugais, parece que chega o momento em que não dá mais: tudo irrita no parceiro em vias de se tornar ex. Até o jeito de espremer a pasta de dentes.

A esquerda do PT, hoje cismática, sabia o que estava acontecendo – desde sempre. Mas não saiu antes porque esperava ganhar, contava se beneficiar da "máquina eleitoral" em que havia se tornado o partido (para usar a idéia de Plínio de Arruda Sampaio). Esperava conseguir que os outros fizessem o trabalho sujo e eles conseguissem alcançar o controle a máquina "de mãos limpas", sem precisar se enlamear. São, acima de tudo, ingênuos que pretendiam ser espertos. Vão começar tudo de novo com o partido da Heloísa Helena, protestante e esquerdista. (Pra quem achava que as coisas eram incompatíveis, está aí a prova de que não são).

Há uma outra coisa interessante, e que me deixa curioso: os cismas da esquerda são cheios de estardalhaço. Os cismáticos querem marcar posição: chamam a imprensa, fazem declarações escritas e bombásticas, exageram as divergências, acusam os adversários (até ontem aliados) — e estes se vêem obrigados a responder num tom mais alto. Há verdadeiras declarações de guerra — que, em alguns casos, vão além da simples declaração. Na verdade, parece que os cismáticos passam a detestar mais os ex-aliados de agora do que os tradicionais inimigos de sempre.

A direita, que tem fama de inflexível, tem conseguido se manter razoavelmente unida em relação a algumas questões essenciais, mesmo que as diferenças sejam sérias em outros aspectos. Nisso se parece mais com a Igreja Católica: consegue conviver com diferenças e lidar com suas crises internas fora do spotlight das câmeras, sem criar feridas que, depois, não têm condições de ser curadas.

Observemos, a título de exemplo, o que se passa nos Estados Unidos. A despeito do desprezo que sofisticados capitães de indústria do Norte têm pelos fundamentalistas religiosos do Sul, ambos se unem quando se trata de reduzir o tamanho do governo, baixar impostos, tirar o governo de cima da gente. Conquistada a vitória mais importante, depois se entendem, acham um jeito de conviver. Ou, então, podem até rachar — mas só depois de conquistada a vitória naquilo que realmente importa. Não antes. E o racha só dura enquanto não houver uma outra causa mais importante para a união. A esquerda americana foi pega de surpresa com essa união dos liberais do Norte (que estão longe de ser socialmente conservadores) com os conservadores do Sul. (Vide o livro The Right Nation, escrito por dois ingleses, John Micklethwait & Adrian Wooldridge, recomendado aqui neste espaço).

Não estou, naturalmente, dando conselhos para a esquerda. Por um lado, sei que não adiantaria nada. Por outro, quero mais é que a esquerda exploda de vez — ou até mesmo "expluda", como dizia o hoje ausente Chico Anísio. Mas, acima de tudo, compreendo o que sente o Plínio de Arruda Camargo: agüentar Zé Dirceu, Genoíno, Berzoíni e seu baixo clero deve ser prá lá de insuportável. Eu, no lugar dele, teria dado no pé há muito tempo.

É por isso que, apesar de meu ateísmo impenitente, no fundo sigo sendo, à minha moda, protestante. Não consigo participar de nenhum partido que tenha mais de um associado…

Em Campinas, 27 de setembro de 2005

O suposto neoliberalismo petista

Dou meus parabéns a Tales Alvarenga pelo artigo “O Bode da Esquerda” que publicou na VEJA, Edição 1924, data de capa 28 de setembro de 2005. A chamada do artigo esclarece: “Chamar o governo brasileiro de neoliberal é como apresentar Adam Smith como o fundador do marxismo".

A colocação é perfeita.

A esquerda tenta desesquerdizar qualquer governo que se aparta um pouco de sua vulgata. FHC num determinado momento foi saudado como o primeiro governo de esquerda do Brasil. Depois, com as privatizações e a política econômica, foi rotulado de neo-liberal. O próprio FHC negou. Numa entrevista disse que era neo-social, nunca neo-liberal. Faz muito sentido — mas ninguém, na esquerda ou na impresa, ligou para o que ele disse.

Desesquerdizado FHC, Lulla foi saudado como o primeiro real governo de esquerda do Brasil. Não durou muito. Em pouco tempo, também também foi desesquerdizado – em especial pela política econômica. Acusações de que o governo Lulla é neo-liberal abundam – em especial na ala mais à esquerda do PT, nos partidinhos que esperavam que o PT um dia implantasse o comunismo no Brasil – e, of course, na ala mais esquerda da Igreja Católica, aquela que ainda prega a teologia da libertação.

Tales Alvarenga inicia seu artigo dizendo: “Não sei o que você pensa sobre a esquerda, mas sei o que a esquerda pensa sobre você. A esquerda pensa que você acredita em qualquer lorota.” Na verdade, os intelectuais de esquerda, porque vêm os disciplinados esquerdistas aceitarem qualquer lorota que dizem, perderam o senso do ridículo e hoje dizem em público coisas que há algum tempo só teriam coragem de dizer na célula do partido. Passaram a acreditar que todo mundo é idiota – apenas porque se vêem cercados de idiotas.

Tales Alvarenga ilustra sua tese com uma passagem do ex-petista Francisco de Oliveira. Diz ele: "O ‘escândalo’ maior não reside na revelação das ‘mutretas’ – escandalosa não é a desconstrução do PT, é a construção da vitória de Lula e de seu governo em bases neoliberais". Em outras palavras: o problema não é a roubalheira do governo Lulla – o problema é que o governo Lulla virou neo-liberal.

A revista Carta Maior (a que um amigo meu se refere sempre como Bilhetinho Chinfrin) publicou recentemente um artigo de outra sumidade uspiana, Emir Sader. Mesmo em meio à maior onda de corrupção jamais havida no Brasil, criada, gerida e patrocinada pela esquerda, e raiz da atual crise da esquerda no Brasil, Emir Sader tem a cara-de-pau de atribuir a crise a… um real pra quem advinhar: É verdade, ao neo-liberalismo. Segundo ele, o neoliberalismo mercantilizou a política, que tornou possível a corrupção que gerou e explica a crise. Parece não ocorrer a Sader as seguintes e simples questões: antes do liberalismo não havia corrupção? Fora do liberalismo, na União Soviética e nos países comunistas do Leste Europeu, não havia corrupção? Se havia, o que a explica nessas outras condições?

Para a esquerda, dinheiro ou poder são monopólios do neo-liberalismo. Se houve corrupção, e o motivo foi ganho financeiro, então o neo-liberalismo estava em atuação. Se houve corrupção, e o motivo foi ganho de poder, então a direita estava em atuação. A esquerda socialista é pura: não trafica nem com dinheiro nem com poder. A quem a esquerda pretende enganar? Aos não-esquerdistas essa baboseira nunca enganou. O objetivo dessa conversa mole só pode ser reforçar o engano dos que já se deixaram enganar dentro da própria esquerda.

O modelo capitalista, diz Emir Sader, mostra sinais de se esgotar. Está se esgotando desde que Marx e Engels escreveram o Manifesto Comunista. Hoje é quase hegemônico. É um paradoxo: quanto mais se esgota, mais forte fica.

Admito que muitas das conquisas do capitalismo se deveram não a conquistas genuínas (com perdão da má palavra) suas mas, sim, à notória incompetência da esquerda. Mas – para usar uma metáfora futebolística tão do gosto do nosso ex-presidente – um time se torna campeão não só porque ganha todos os jogos, mas também porque os adversários perdem mais do que ele…

Emir Sader quer ainda que o país seja legislado por plebiscitos… Perdeu a esperança nos políticos de esquerda, que estão se devorando uns aos outros. Prega a unidade das esquerdas, quando nem o Campo Majoritário, que é uma tendência dentro de um dos partidos de esquerda, consegue se manter unida, dando evidências de sacanagens políticas explícitar diante das câmeras.

O artigo de Emir Sader se chama "O Mundo pelo Avesso". O infeliz não percebeu que é ele quem está pelo avesso.

Diz Tales de Alverenga no artigo mencionado:

“Na semana passada, apareceu um novo culpado pelo achincalhamento petista. O problema, segundo essa nova interpretação, não é roubalheira do PT. O pecado original foi a cúpula do PT ter aderido à direita.

A academia fugiu da escola. Os professores não sabem mais do que estão falando. O neoliberalismo prega a redução do Estado na economia e na sociedade e uma ampla abertura ao exterior. O Estado, para ser neoliberal, deveria cuidar só da Justiça, polícia, Exército, diplomacia, arrecadação de impostos e mais uma ou duas tarefas típicas do ente governamental. Isso não é o que se vê no Brasil. O oposto do neoliberalismo é o Estado forte que nada concede ao mercado. Alguns dos mais extremados expoentes dessa categoria são os modelos cubano e norte-coreano, além dos sistemas implantados no século passado por Stalin, Mao, Pol Pot e Hitler. Pode-se ter certeza de que o professor Francisco de Oliveira, sumidade em seu campo de estudo, não está sugerindo que o Brasil siga esses exemplos. Frei Betto, o guia espiritual de Lula, acha que o Brasil deveria mirar-se no exemplo de Fidel Castro, mas Frei Betto não é nenhum Francisco de Oliveira. Então, o que estaria pregando o eminente sociólogo da USP? Um Brasil, por assim dizer, capitalista mas nem tanto?”

Tales de Alvarenga conclui o seu brilhante artigo com dados que não é possível contestar:

“Informo aos detratores da utopia neoliberal, como Francisco de Oliveira, que o Brasil é um dos países menos neoliberais do mundo. Há formas objetivas de medir isso. O governo brasileiro, fechado e centralizado, se apossa de 36% do PIB em impostos. Toma para si 68% da poupança destinada ao crédito no país. Tem a mais alta carga de juros do planeta. É um dos países mais burocratizados do mundo. Cobra 100% de encargos sobre os salários dos trabalhadores, contra 9,5% no Chile. "Em 2003, o Brasil foi o sétimo país com menor fluxo de comércio e o terceiro com menores importações, como proporção do PIB, de um conjunto de 145 países", escreve Armando Castelar Pinheiro, economista do Ipea. Num levantamento deste ano sobre o grau de liberdade econômica feito pelo Instituto Fraser, do Canadá, o Brasil aparece como um dos menos livres do mundo, em 88º lugar, numa lista encabeçada por Hong Kong, o mais aberto, Cingapura, Nova Zelândia, Suíça e Estados Unidos. O Brasil, no fim do ranking, é mais fechado do que a China comunista e a Índia, de tradição socialista. Chamar o governo brasileiro de neoliberal é como apresentar Adam Smith como o fundador do marxismo. E, para não perder o fio da meada, o mal do PT não foi o neoliberalismo. Foi roubalheira mesmo.”

É isso.

Em Campinas, 24 de setembro de 2005

Mau gosto, obscenidade e crime

O prefeito José Serra deu uma grande escorregada hoje, 20 de Setembro de 2005. Seus prepostos removeram cerca de 30 outdoors da cidade e fecharam dois dos clubes que os patrocinavam – neste caso, por motivos totalmente inventados na hora.

O secretário de Coordenação das Subprefeituras da cidade de São Paulo, Walter Feldman, em entrevista dada à Rede Globo, transmitida agora à noite no Jornal da Globo, disse que os outdoors foram removidos porque eram "de profundo mau gosto". Se mau gosto fosse crime, dona Marisa Letícia, com suas festas caipiras e seus trajes típicos, deveria estar condenada à prisão perpétua. O gosto ao mesmo tempo fresco e puritano do secretário Feldman não pode ser transformado em lei por ele mesmo – só porque alguns espíritos frágeis supostamente se escandalizaram pelo convite ao sexo contido nos outdoors.

O secretário, numa pobre tentativa de encontrar embasamento legal para seu comportamento arbitrário, alegou que os outdoors eram, além de mau gosto, totalmente obscenos – e sua assessoria alegou que, como tais, os outdoors poderiam ser removidos, por supostamente violarem o artigo 234 do Código Penal, que proíbe a produção e aquisição de material obsceno, para fins de comércio, distribuição ou exposição pública.

Que um determinado material seja obsceno é algo que deve ser provado – e prová-lo não é fácil, dada a natureza subjetiva do que se pretende obsceno. Nem tudo que alguém acha obsceno é de fato obsceno. Há pessoas para quem um vestido decotado ou uma saia acima do joelho é obsceno. Grandes romances já foram um dia proibidos por serem supostamente obscenos. Eu, por exemplo, acho a cara do prefeito obscena. E daí??? Ainda que o secretário, pessoalmente, possa achar os outdoors obscenos (o que eu sinceramente duvido), quem foi que o erigiu em árbitro de obscenidade dos paulistanos??? Ele é, afinal de contas, secretário Coordenação das Subprefeituras de São Paulo – nem Secretário Municipal de Justiça ele é.

A imprensa, na cola do secretário, vem se referindo aos outdoors como não só obscenos, mas pornográficos. A justificativa dessa afirmação é ridícula. Num aparece a bunda (o texto jornalístico diz "as nádegas" – quem é que diz "nádegas" neste país???) de uma mulher. Grande novidade. Noutro há uma mulher sentada no chão e um homem em pé – segundo a imprensa, esse outdoor estaria sugerindo ou até mesmo simulando sexo oral. Um terceiro, promete "Emoção em cada curva" — e mostra o corpo curvilíneo de uma mulher. Ora, até onde vai o ridículo??? A Globo falou em "comércio do pecado". Pecado??? Podia bem ir dormir sem essa.

Quando ao fechamento dos clubes, os motivos alegados – de última hora, só depois da controvérsia causada pelos outdoors – foram mais ridículos ainda: falta de alvará, falta de indicação e iluminação nas saídas de emergência, falta de alarme e extintor de incêndio… Até que os outdoors produzissem controvérsia, nada disso havia sido percebido pela prefeitura. Com a controvérsia, a prefeitura decidiu que teria de achar um motivo para fechar os clubes e mostrar serviço aos puritanos de plantão. Um milhar de outros clubes em São Paulo se encontram em situação semelhante – se não pior.

Registre-se que nem a purataníssima Igreja Católica chegou aos extremos a que o governo Serra se levou. Os atos de Walter Feldman não foram em resposta a uma passeata em protestos aos outdoors pelas senhoras católicas. Em geral elas são as primeiras a ver uma coisa dessas…

Esclareça-se que a legislação brasileira que se refere à prostituição condena apenas a exploração sexual, isto é, a venda de serviços sexuais de terceiros feita por cafetões e cafetinas, não à prostituição em si. Embora a profissão de prostituta não seja ainda regulamentada por lei no Brasil (como o é em alguns países escandinavos), até sindicatos elas possuem. Ser prostituta, portanto, não é crime. Alegar, para justificar a blitz contra os clubes, que eles facilitavam o encontro (o famoso "rendez-vous") de prostitutas light (eufemisticamente chamadas de "garotas de programa") com seus clientes prospectivos e, portanto, agiam como exploradores do comércio sexual, é ridículo. A cidade inteira está forrada desses clubes, e a prefeitura está doente de saber disso, sem nada fazer. Em qualquer hotel ou apart-hotel de São Paulo se encontra ampla propaganda desses clubes.

Justo no Brasil acontece uma coisa dessas??? Recentemente, uma notória cafetina brasiliense foi convocada para depor na CPI e o fez, com transmissão pela TV, no período da tarde e da noite. O assunto? A organização de festas com garotas de programas para os parlamentares brasileiros. Por que não foi presa a cafetina, se vamos agora ficar procurando criminhos em vez de punir os crimões cometidos pelos nossos deputados? A atividade dela é criminosa segundo a lei brasileira. Ela vende serviços sexuais de terceiros — para deputados e seus prepostos. Por que não fecharam ainda o "business" de Dona Jeane Mary Corner? Provavelmente porque, se o fizessem, os nossos parlamentares, obrigados a passar três longos dias em Brasília, iriam ter sérios problemas para encontrar prestadoras de serviços sexuais?

Em Campinas, 20 de setembro de 2005

A catástrofe de New Orleans

Até agora não havia comentado a catástrofe de New Orleans aqui neste blog. Havia algumas coisas que não conseguia entender ali. Aos poucos as fichas vão caindo. Daqui para a frente vou tecer alguns comentários e distribuir alguns textos que vão na direção oposta daquela que os anti-americanistas de plantão gostariam de crer.

O primeiro desses textos é de Contardo Calligaris, na Folha de hoje (20050908 – transcrevo-o a seguir com a autorização do autor). Lido com atenção, mostra uma linha diferente de análise para a catástrofe.

O segundo é o artigo de Rocco DiPippo, também transcrito abaixo, infelizmente em Inglês, sobre dois furacoes. Ele chama a atenção para o que considero importante na catástrofe de New Orleans.

O terceiro texto, também transcrito abaixo em Inglês, é de Robert Tracinski. Ele vai na mesma linha. 

O quarto texto, também transcrito abaixo em Inglês, é de Ben Johnson. Ele começa a colocar os pingos nos is sobre a questão de quem era a responsabilidade pela evacuação da população de New Orleans e pelas providências que, dias antes, já se mostravam necessárias face ao desastre que se aproximava. A responsabilidade, em primeiro lugar, era de cada um. No plano governamental, entretanto, a responsabilidade era do prefeito de New Orleans — democrata de esquerda e negro. A lei até mesmo proíbe o governo federal de interferir na jurisdição de estados e cidades — sem que seja oficialmente chamado a fazê-lo.

Resumo aqui o que penso.

Os EUA têm sido cena de inúmeros desastres naturais. Entre estes estão os furacões que, todos os anos, assolam a Florida e outros estados do Sul do país (além do Caribe em geral). Em decorrência da passagem desses furacões há, sempre, danos materiais e algumas perdas de vida.

O que impressiona no caso de New Orleans não é só a magnitude dos danos materiais causados pelo furacão Katrina e o número elevado de mortos. O que impressiona é a reação de parte das pessoas que ficaram lá. O que houve ou havia naquela cidade — que nunca houve nas cidades da Florida parcialmente destruídas por furacões no passado — que rapidamente levou parte da população a abraçar a selvageria, pergunta Rocco DiPippo. O que houve ou havia naquela cidade que levou parte de seus habitantes a assassinar e estuprar seus concidadãos já fragilizados pela catástrofe natural? A assaltar e roubar de quem havia ficado para trás? A invadir as casas dos que haviam fugido para saquear mesmo coisas que não eram necessárias para sobreviver ao desastre? Continua Rocco DiPippo: O que levou grupos organizados de habitantes de New Orleans a atirar em que vinha socorrê-los, criando uma cena que mais parecia Bagdad do que uma cidade americana? O que impediu o restante dos habitantes que havia ficado para trás de resistir contra aqueles que tomaram de assalto a cidade?

Rocco DiPippo dá a resposta. E eu acredito que ela esteja, no essencial, correta.

O povo que ficou para trás – e o próprio ato de ficar para trás é sintomático, quando se soube, com bastante antecedência, que o furacão iria passar por ali – nunca aprendeu, e, por isso, provavelmente nunca soube tomar responsabilidade pela própria vida e pela qualidade de vida em sua comunidade. Se um dia soube, desaprendeu ou se desacostumou de fazê-lo. O povo que ficou para trás é a grande vítima do estado paternalista a que damos o nome de "Welfare State" (Estado do Bem-Estar Social) implantado nos Estados Unidos desde a presidência de Franklin D. Roosevelt, mas que cresceu terrivelmente depois de o presidente Lyndon Johnson haver implantado a sua "War on Poverty" (Guerra à Pobreza) na década de 60.

[Como a maioria das iniciativas da esquerda, esses programas se mostram empulhações até mesmo no plano lingüístico: o chamado "Estado do Bem-Estar Social" não produziu bem-estar; a "Guerra à Pobreza" não reduziu a pobreza. Os programas deveriam ser renomeados para "Estado do Mal-Estar Social" e "Guerra à Riqueza"].

O estado paternalista que é o "Welfare State" trata as pessoas como se fossem crianças — e elas se aprendem a se comportar como crianças, como se não fosse responsabilidade sua, quando já adultas, cuidar de si próprio e do que é seu. Os que têm um pouco de iniciativa, nessa comunidade de infantilizados que vivem sob a proteção do governo, se voltam para o tráfico de drogas, a prostituição e o crime: é a única coisa que sabem fazer para adquirir um pouco de auto-estima. Os que não têm nenhuma iniciativa ficam sempre esperando que o governo faça alguma coisa. Reivindicar eles aprendem — como também aprendem rapidamente criticar o governo quando este não atende às suas reivindicações.

É essa a verdadeira tragédia de New Orleans. Os americanos estão acostumados a lidar com tragédias naturais e geralmente se saem bem: as pessoas em regra cumprem as ordens, colocam tábuas em suas janelas e portas, e vão para algum lugar mais seguro. O que surpreende em New Orleans, além da magnitude da tragédia natural, é o nível da tragédia social que o Welfare State vem produzindo, no longo prazo. A tragédia natural vem por iniciativa das forças da natureza — ou de Deus, para quem acredita nele. A tragédia social da inação face ao perigo é uma tragédia social que poderia ter sido evitada — se se soubesse, no passado, aonde iria dar. [É bom que se registre que alguns sabiam, e advertiram a população disso — mas ninguém prestou atenção.]

Agora uma palavra sobre a cobertura da mídia.

Há claras diferenças na cobertura que a mídia faz dessa tragédia americana e a cobertura que tem feito de outras tragédias naturais — como o Tsunami.

No caso do Tsunami, houve reconhecimento geral da mídia de que a mortandade foi causada por um evento natural pelo qual ninguém pode ser culpado — a não ser o todopoderoso ("s’il y en a"). Não houve, na mídia, tentativa de culpar o governo central dos países envolvidos por ter demorado em agir / reagir ou por, quando reagiu, não ter conseguido evitar as conseqüências continuadas da tragédia. A mídia deu cobertura ao esforço dos respectivos países, e da comunidade internacional, para controlar, o máximo possível, os efeitos do desastre.

Apesar de o Tsunami ter acontecido na Ásia, é bom que se registre que houve, na mídia, que tentasse culpar … quem??? o governo americano pela tragédia, por, segundo se alegou, não ter informado a tempo os governos dos países envolvidos da possibilidade de ocorrer um tsunami.

Desta vez, quando a tragédia ocorre em território americano, o caráter de tragédia natural parece ter sido totalmente esquecido. A culpa pelos danos materiais e humanos é do Bush.

Está mais do que provado, primeiro, que o governo federal americano informou o governo dos estados que estavam na rota do furacão que eles seriam atingidos, e recomendou que evacuassem toda a população. A responsabilidade, no plano governamental, é, nesse caso, dos governadores e dos prefeitos das localidades atingidas.

O governo federal americano, diferentemente do brasileiro, tem severas limitações para agir, sem solicitação formal destes, no âmbito dos estados e dos municípios. Os estados americanos possuem MUITO mais autonomia do que os estados brasileiros. Isso tudo é sabido.

No entanto, a culpa é do Bush…

O prefeitinho democrata de New Orleans, negro, por sinal, a hora que viu o tamanho do desastre, usou uma expressão de gosto duvidoso: disse "I am pissed off"… [mais ou menos traduzível como "Estou puto da vida…". Lindo, não? O prefeito está puto da vida com ele mesmo, por não ter percebido a dimensão do desastre que se aproximava (apesar de informado pelo governo federal) e não ter agido? Não, puto da vida com o Bush… E a mídia "repercutindo" tudo isso. Uns mais irados, à lá Michael Moore, dizendo que o governo federal não fez nada porque se tratava de gente em sua maioria negra e pobre. Chegou-se a falar em genocídio. Deu-se a impressão nítida de que o Bush estava afim de aniquilar os negros e pobres de New Orleans.

Tudo isso é ridículo. Como é ridículo ver socialistas e esquerdizantes, em todas as partes do mundo, ficarem procurando qualquer coisa errada que acontece nos EUA (ou até mesmo fora, como no caso do Tsunami), para tentar provar que os EUA, longe de ser uma potência econômica, política, cultural e militar, fosse um paiseco do terceiro mundo.

Em Campinas, 8 de setembro de 2005 (revisto e modificado em 11 de setembro de 2005)

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http://www1.folha.uol.com.br/fsp/ilustrad/fq0809200532.htm
Folha de S. Paulo
8 de setembro de 2005

Nova Orleans e a confiança básica no mundo

Contardo Calligaris

Duas ou três vezes por ano, o prédio onde moro fica sem energia por um tempo. Apesar desses cortes, previstos ou imprevistos, não vivo num suspense energético: sigo esticando o dedo para chamar o elevador, convencido de que, lá em cima, alguém me ama. Sem isso, como aceitaria viver no décimo primeiro andar?

Karl Jaspers, o filósofo alemão, dizia que a ciência pede ao usuário uma espécie de fé. De fato, podemos não saber como funcionam o telefone, a televisão, o cabo, mas acreditamos no seu funcionamento.

Para os psicanalistas, essa fé na ciência e na técnica é parte de uma disposição mais geral: a "confiança básica no mundo". Ela acompanha cada sujeito que viu a luz num ambiente que o acolheu com carinho e simpatia. Suponhamos: ninguém nos chutou quando estávamos no desamparo da primeira infância; quando chorávamos, alguém comparecia (mesmo que fosse para nos enfiar uma chupeta na boca quando, na verdade, precisávamos que trocassem a fralda). Em regra, os que tivemos essa sorte (a grande maioria dos humanos) continuamos pensando durante a vida toda que os outros e o mundo nos querem bem.

Conseqüência: podemos viver na Califórnia, embora esteja certo que a região será devastada por um terremoto; podemos viver numa cidade como Nova Orleans, abaixo do nível do mar, protegida apenas por diques antiquados; podemos viver em andares altos, fora do alcance de qualquer escada de bombeiros.

A confiança básica no mundo é também um alicerce da ordem social, pois ela vale como um lembrete permanente que diz: há alguém que cuida, alguém que se importa. Nos termos de nossa infância: os adultos voltarão para nos dar comida e ainda para verificar se a gente se comporta direito.

Não há pesquisas que meçam o número de interrupções da energia elétrica que é necessário para que eu pare de confiar na Eletropaulo. Em compensação, existe a teoria das janelas quebradas, que, nos anos 90, revolucionou nossas idéias em matéria de manutenção da ordem social (George Kelling e Catherine Coles, "Fixing Broken Windows", arrumando janelas quebradas). Experiência básica em psicologia social: se abandono um carro num bairro de classe media, ele será depenado só depois de oito semanas. Se, antes de abandoná-lo, aplico algumas boas marteladas nos faróis e na lataria, ele será depenado em três dias. Outra: num metrô coberto de grafite a criminalidade é muito mais alta do que no mesmo metrô se ele for lavado e limpado a cada noite.

Por quê? Os faróis quebrados e os grafites assinalam que ninguém se importa. E, se ninguém se importa, tudo é permitido. Será que isso basta para entender as rondas armadas de malfeitores e vigilantes em Nova Orleans?

O prefeito da cidade tentou explicar a onda de saques por indivíduos e gangues lembrando que, além dos serviços básicos, também parou de funcionar o comércio de droga, o que teria deixado alguns sujeitos bem "nervosos". É verdade: faz parte da confiança básica acreditar que o traficante da esquina estará lá de novo amanhã. Mas, para explicar o acontecido, não é preciso recorrer à falta de droga (ou de nicotina).

Em Nova Orleans, a ruína da confiança básica foi brutal: o telefone emudeceu, a força acabou, o celular perdeu o sinal, e ninguém respondia aos gritos de ajuda.

Ora, para alguns, abriu-se assim um tempo de desespero. Para outros, a constatação de que "ninguém se importa" foi sedutora e esperada. Nada de estranho nisso: afinal, saquear lojas de armas e circular pelas ruas à procura de comida, de água, de gasolina e de outros humanos que possam ser aterrorizados é o roteiro de numerosas narrativas populares.

Pense nos filmes da tríade de Mad Max, em "O Mensageiro" e "O Segredo das Águas", em "Fuga de Los Angeles" ou "Fuga de Nova York", ou no romance "The Stand" ("A Dança da Morte"), de Stephen King. Pense em videogames como "Duke Nukem" ou "Doom".

Não conheço um adolescente que, em alguma vez, não tenha sonhado com a destruição do mundo (o mundo em que confiamos) e com a aventura de um recomeço radical.

A primeira tarefa é sempre a de armar-se, porque, num universo zerado, não vale o prestígio dos anos ou da experiência, do saber ou do dinheiro: a autoridade é justamente reduzida à sua expressão mais simples e mais facilmente contestável, que é a força.

Qual é o charme desse momento do lobo?

Acontece que o amor que nos acolhe no mundo, instituindo nossa confiança em "alguém que cuida", torna-nos devedores ou, no mínimo, reféns de um passado que é a história dos outros que já estavam lá e nos receberam. Por isso a catástrofe que acaba com nossa confiança no mundo é a última fronteira da autonomia: se não há mais alguém que cuida, ninguém nos antecede, ninguém está acima da gente: somos livres como só pode ser livre quem não tem história.

É a versão extrema do mito, moderno e banal, do "self-made man", o homem que não precisa de ninguém.

Aposto que, nas ruas de Nova Orleans, há alguns desapontados com a volta gradual a um mundo "confiável".

@ – ccalligari@uol.com.br

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http://www.frontpagemag.com/Articles/ReadArticle.asp?ID=19383
FrontPage Magazine | FrontPageMagazine.com | September 6, 2005

A Tale of Two Hurricanes

By Rocco DiPippo

In 1857 the steamship S.S. Central America was plying a route between Panama and New York City. On board the ship were 578 men, women and children from every strata of American society who were returning from the California Gold Rush.

Some of them had made fortunes panning for gold. Most of them hadn’t. The ship’s passengers were truly a collection of "haves" and "have nots."

One hundred fifty miles off the coast of the Carolinas, the Central America, with three tons of gold in her hold, got caught in a hurricane and within three days was slowly pounded to pieces.

In light of what we saw recently happen in New Orleans, it would be easy to assume that the people on board the Central America lost all sense of civility once their situation became hopeless. It would be easy to assume that they lost all self-control and tore each other to pieces.

They didn’t.

The loss of life and property caused by Hurricane Katrina is unprecedented in American history. But it is what happened to the social fabric of New Orleans after Katrina passed that is the real story, the real tragedy of the thing.

After major disasters strike, wreckage can be cleared, homes and businesses rebuilt and infrastructure brought back on line – that is the easy part of recovering from such disasters. What is not so easy is to restore the sense of community and civility that existed before a place was ravaged by nature or man.

The ease of such social restoration is directly proportional to the sense of community and the level of civility that existed in a place before it was physically damaged or destroyed. New Orleans’ pre-disaster crime rate was ten times the national average. Given this and the fact that, during the recent crisis there, many of its citizens chose the law of the jungle over the rule of law, it is easy to conclude that the restoration of New Orleans’ social fabric will be an impossible task.

I have never lived in nor have I ever visited New Orleans. I don’t first-hand know its sights, sounds or people. I must ask: What was it in that city that, after the storm had passed, quickly made men embrace savagery? What caused people there to rape and to murder, to steal from the desperate, to loot things unconnected to survival? What caused organized groups of people to attempt murder on those coming to save them? Why didn’t their neighbors – the good people- band together to stop them from doing those things? The answer is simple: For the last forty years they had been taught by the creators of the Welfare State that they were permanently absolved from the responsibility of tending to their lives.

There have always been mishaps and disasters, natural and otherwise, that have tested humans to the breaking point and beyond. Many, many times, people facing extreme hardship or near-certain deaths have put the welfare of others ahead of their own. What happened on board the S.S. Central America in 1857 provides a shining example of what happens when disaster brings out the best in men.

As the ship slowly sank, the men on board worked to exhaustion pumping her out. They did this knowing full-well that they were only postponing the inevitable since the ship was taking on water faster than they could empty her. They were buying time. They were protecting the women and children on board. They were refusing to die without a fight to live.

The women on board, like the men, were worn out by sea-sickness, lack of sleep, the ship’s careening and its wet sweltering interior. Nevertheless, they tended to the men, feeding their spirits with kind words of encouragement. There was not a single instance of uncivil behavior among the ship’s passengers as each and every one of them looked death in the eye. Not a single instance of predation. Not a single act of cowardice among anyone on that ship as death loomed large over it.

Another ship, itself crippled by the storm, was still somehow able to send its lifeboats to the Central America. In a final act of heroism William Herndon, the Central America’s captain, and his crew loaded the women and children onto those boats and transferred them to the other ship. The lifeboats couldn’t get back to pick up the men – Herndon knew in advance that this would likely be the case. Four hundred twenty six men, including Captain Herndon, drowned.

As the Central America slowly foundered, all the passengers aboard her thought they would die. They were sick, hot, thirsty, hungry and at the limits of endurance. Yet the social order on board remained intact. Civility triumphed and the good in man shined through his dark core up to the moment that the wrecked ship slipped beneath the waves.

There are, no doubt, many brave and righteous individuals in the City of New Orleans. But there is also a widespread sickening savagery afoot there, as there is in every major urban center in America. A dysfunctional helpless class of people has been created by having been taught to despise the things that bring true satisfaction in life, the things that made the doomed passengers on the S.S. Central America care for each other; the things that propelled this country to prominence and its people to greatness.

Katrina’s winds laid it bare for all to see.

[Rocco DiPippo, a free lance political writer, publishes The Autonomist blog and contributes to David Horowitz’s Moonbat Central group blog.]

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http://realclearpolitics.com/Commentary/com-9_4_05_RT.html

The welfare state

Robert Tracinski

It has taken four long days for state and federal officials to figure out how to deal with the disaster in New Orleans. I can’t blame them, because it has also taken me four long days to figure out what is going on there. The reason is that the events there make no sense if you think that we are confronting a natural disaster.

If this is just a natural disaster, the response for public officials is obvious: you bring in food, water, and doctors; you send transportation to evacuate refugees to temporary shelters; you send engineers to stop the flooding and rebuild the city’s infrastructure. For journalists, natural disasters also have a familiar pattern: the heroism of ordinary people pulling together to survive; the hard work and dedication of doctors, nurses, and rescue workers; the steps being taken to clean up and rebuild.

Public officials did not expect that the first thing they would have to do is to send thousands of armed troops in armored vehicle, as if they are suppressing an enemy insurgency. And journalists–myself included–did not expect that the story would not be about rain, wind, and flooding, but about rape, murder, and looting.

But this is not a natural disaster. It is a man-made disaster.

The man-made disaster is not an inadequate or incompetent response by federal relief agencies, and it was not directly caused by Hurricane Katrina. This is where just about every newspaper and television channel has gotten the story wrong.

The man-made disaster we are now witnessing in New Orleans did not happen over the past four days. It happened over the past four decades. Hurricane Katrina merely exposed it to public view.

The man-made disaster is the welfare state.

For the past few days, I have found the news from New Orleans to be confusing. People were not behaving as you would expect them to behave in an emergency–indeed, they were not behaving as they have behaved in other emergencies. That is what has shocked so many people: they have been saying that this is not what we expect from America. In fact, it is not even what we expect from a Third World country.

When confronted with a disaster, people usually rise to the occasion. They work together to rescue people in danger, and they spontaneously organize to keep order and solve problems. This is especially true in America. We are an enterprising people, used to relying on our own initiative rather than waiting around for the government to take care of us. I have seen this a hundred times, in small examples (a small town whose main traffic light had gone out, causing ordinary citizens to get out of their cars and serve as impromptu traffic cops, directing cars through the intersection) and large ones (the spontaneous response of New Yorkers to September 11).

So what explains the chaos in New Orleans?

To give you an idea of the magnitude of what is going on, here is a description from a Washington Times story:

"Storm victims are raped and beaten; fights erupt with flying fists, knives and guns; fires are breaking out; corpses litter the streets; and police and rescue helicopters are repeatedly fired on.

"The plea from Mayor C. Ray Nagin came even as National Guardsmen poured in to restore order and stop the looting, carjackings and gunfire….

"Last night, Gov. Kathleen Babineaux Blanco said 300 Iraq-hardened Arkansas National Guard members were inside New Orleans with shoot-to-kill orders.

" ‘These troops are…under my orders to restore order in the streets,’ she said. ‘They have M-16s, and they are locked and loaded. These troops know how to shoot and kill and they are more than willing to do so if necessary and I expect they will.’ "

The reference to Iraq is eerie. The photo that accompanies this article shows National Guard troops, with rifles and armored vests, riding on an armored vehicle through trash-strewn streets lined by a rabble of squalid, listless people, one of whom appears to be yelling at them. It looks exactly like a scene from Sadr City in Baghdad.

What explains bands of thugs using a natural disaster as an excuse for an orgy of looting, armed robbery, and rape? What causes unruly mobs to storm the very buses that have arrived to evacuate them, causing the drivers to drive away, frightened for their lives? What causes people to attack the doctors trying to treat patients at the Super Dome?

Why are people responding to natural destruction by causing further destruction? Why are they attacking the people who are trying to help them?

My wife, Sherri, figured it out first, and she figured it out on a sense-of-life level. While watching the coverage last night on Fox News Channel, she told me that she was getting a familiar feeling. She studied architecture at the Illinois Institute of Chicago, which is located in the South Side of Chicago just blocks away from the Robert Taylor Homes, one of the largest high-rise public housing projects in America. "The projects," as they were known, were infamous for uncontrollable crime and irremediable squalor. (They have since, mercifully, been demolished.)

What Sherri was getting from last night’s television coverage was a whiff of the sense of life of "the projects." Then the "crawl"–the informational phrases flashed at the bottom of the screen on most news channels–gave some vital statistics to confirm this sense: 75% of the residents of New Orleans had already evacuated before the hurricane, and of the 300,000 or so who remained, a large number were from the city’s public housing projects. Jack Wakeland then gave me an additional, crucial fact: early reports from CNN and Fox indicated that the city had no plan for evacuating all of the prisoners in the city’s jails–so they just let many of them loose. There is no doubt a significant overlap between these two populations–that is, a large number of people in the jails used to live in the housing projects, and vice versa.

There were many decent, innocent people trapped in New Orleans when the deluge hit–but they were trapped alongside large numbers of people from two groups: criminals–and wards of the welfare state, people selected, over decades, for their lack of initiative and self-induced helplessness. The welfare wards were a mass of sheep–on whom the incompetent administration of New Orleans unleashed a pack of wolves.

All of this is related, incidentally, to the apparent incompetence of the city government, which failed to plan for a total evacuation of the city, despite the knowledge that this might be necessary. But in a city corrupted by the welfare state, the job of city officials is to ensure the flow of handouts to welfare recipients and patronage to political supporters–not to ensure a lawful, orderly evacuation in case of emergency.

No one has really reported this story, as far as I can tell. In fact, some are already actively distorting it, blaming President Bush, for example, for failing to personally ensure that the Mayor of New Orleans had drafted an adequate evacuation plan. The worst example is an execrable piece from the Toronto Globe and Mail, by a supercilious Canadian who blames the chaos on American "individualism." But the truth is precisely the opposite: the chaos was caused by a system that was the exact opposite of individualism.

What Hurricane Katrina exposed was the psychological consequences of the welfare state. What we consider "normal" behavior in an emergency is behavior that is normal for people who have values and take the responsibility to pursue and protect them. People with values respond to a disaster by fighting against it and doing whatever it takes to overcome the difficulties they face. They don’t sit around and complain that the government hasn’t taken care of them. They don’t use the chaos of a disaster as an opportunity to prey on their fellow men.

But what about criminals and welfare parasites? Do they worry about saving their houses and property? They don’t, because they don’t own anything. Do they worry about what is going to happen to their businesses or how they are going to make a living? They never worried about those things before. Do they worry about crime and looting? But living off of stolen wealth is a way of life for them.

The welfare state–and the brutish, uncivilized mentality it sustains and encourages–is the man-made disaster that explains the moral ugliness that has swamped New Orleans. And that is the story that no one is reporting.

[Robert Tracinski is Editor and Publisher of The Intellectual Activist.]

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http://www.discoverthenetwork.org/guideDesc.asp?catid=155&type=issue
Discover the Network

The Mayor Who Failed His City

By Ben Johnson

It’s official: the American Left now believes George W. Bush is God.

Bellowing leftists such as Robert F. Kennedy Jr. and Cindy Sheehan have blamed Hurricane Katrina – something insurance companies classify as an act of God – on President Bush’s "killing policies" (and, in RFK Jr.’s case, those of Mississippi’s Republican governor, Haley Barbour). Former Clinton aide Sidney Blumenthal also penned an article in The Guardian chalking up the flood to the Bush administration’s having cut one item in the Army Corps of Engineers’ annual budget. (Desperate to build a presidential legacy, even ex post facto, ex-President Bill Clinton has intimated his administration did more to keep New Orleans safe than Bush’s.) Meanwhile, DNC Chair Howard Dean weighed in by demeaning Bush’s trip to the disaster area, calling it "just another callous political move crafted by Karl Rove."

In addition to claiming Bush somehow fed the phantom of "global warming" to rain death upon his own citizens, the Left has alleged "racism" in his handling of this disaster. Jesse Jackson quipped post-Hurricane New Orleans looks like "the hull of a slave ship." Director Michael Moore played the race card in an open letter to Bush on his website. They found an echo in the "Reverend" Al Sharpton, who told MSNBC’s abysmal Keith Olbermann, "I feel that, if it was in another area, with another economic strata and racial makeup, that President Bush would have run out of Crawford a lot quicker and FEMA would have found its way in a lot sooner." Rep. Elijah Cummings, D-MD, a member in good standing of the Congressional Black Caucus, played both the race and the God card, thundering:

"We cannot allow it to be said that the difference between those who lived and those who died in this great storm and flood of 2005 was nothing more than poverty, age or skin color.To the president of the United States, I simply say that God cannot be pleased with our response."

And they say all the religious nutjobs are on the Right.

The Democrats’ avenging angel has come in the form of Senate Minority Leader Harry Reid, D-NV, who has proposed a 9/11-style commission to probe the feds’ response to Hurricane Katrina. (After all, the original 9/11 Commission proved so exemplary.) Despite these transparent attempts to claw political advantage from the suffering of the downtrodden – after the National Guard forgeries, Plamegate, and conspiratorial ravings about the Federalist Society won them no traction – a Washington Post poll revealed 55 percent of Americans do not blame President Bush for the debacle in the Big Easy.

Perhaps that is because the American people intuit it is not the federal response that should be monitored but that of New Orleans Mayor Ray Nagin, a Democrat and, coincidentally, a black man.

In accordance with the "City of New Orleans Comprehensive Emergency Management Plan" – a blueprint drawn up to deal with emergencies like this one – all "Authority to issue evacuations of elements of the population is vested in the Mayor." The document specifically states, "The person responsible for recognition of hurricane related preparation needs and for the issuance of an evacuation order is the Mayor of the City of New Orleans." This outline does not mention any specific federal government’s role in disaster relief, instead carving out roles for state and municipal governments. In fact, as Defense Secretary Donald Rumsfeld noted this holiday weekend, posse commitatus statutes bar federal officers from working as law enforcement officials.

Charged with so heavy a responsibility, Mayor Nagin punted, then passed the buck. The National Hurricane Center called Nagin Saturday night asking him to evacuate New Orleans, and President Bush also begged him to get his people to safety. As mayor, the final decision was Nagin’s. He was expected to issue such an order 48 hours before the storm made landfall; however, the storm touched down and the levees gave way less than 48 hours after his proclamation.

Moreover, he is to see that "Special arrangements will be made to evacuate persons unable to transport themselves or who require specific life saving assistance." Yet some 205 buses, and perhaps a greater number of large transit vehicles, were left stranded in a flooded parking lot. University of New Orleans professor Shirley Laksa had calculated some 125,000 residents do not have private transportation. As a result of Nagin’s inaction, Katrina’s victims are twice as likely to be poor than the average American. These are the people who had no recourse but to wait for the local government to rescue them; these are the people municipal malfeasance and nonfeasance abandoned to an ill-equipped Superdome.

Despite these critical lapses in judgment, Sen. Mary Landrieu, D-LA, pressured her commander-in-chief to withhold all criticism of the local response (President Bush had not made any, justified though it might be), threatening that, if he didn’t, "I might likely have to punch him.

Literally." Although Washington was abuzz when Rep. Dan Burton called Bill Clinton a "scumbag," no censure has been forthcoming for Landrieu.

The Left has not idled down its criticisms of Bush, blaming him for global warming and poor planning. The facts tell another tale. The infrastructure the Left criticizes Bush of withholding, planned by the Army Corps of Engineers, would have only defended the city from a level three storm; Katrina’s level five winds would have overwhelmed the project, even if it had been completed. Former Louisiana Democratic Senator John Breaux said the funds leftists blame Bush for cutting have been diverted by presidents since the 1970s. With the Left sniping at him over high deficits incurred by fighting a war in two nations, President Bush has had to trim non-essential spending, and no one considered it a vital priority to fund a system designed to guard against what Sen. Breaux called a "once every hundred years" storm. The experts several steps removed from the president – and on both sides of the aisle – simply bet a storm of this magnitude would not occur. The Army Corps of Engineers commander Lt. Gen. Carl Strock spelled out these sentiments: "We had an assurance that 99.5 percent this would be OK. We, unfortunately, have had that .5 percent activity here." Strock also denied needed monies were diverted to Iraq.

However, this storm didn’t catch everyone by surprise. Scientists have known since the 1980s that the city’s levees would fail in a storm of Katrina’s magnitude.

The federal government’s response has been laudable. FEMA Director Mike Brown began moving federal resources into New Orleans two days before the storm hit. Currently, some 8,500 active duty troops are serving in New Orleans. The chaotic situation created by Mayor Nagin’s herding people into the Superdome, without adequate provisions for the long haul, with the resultant murder, rape, and looting a byproduct of poor, or non-existent, planning. Governor Blanco also deserves blame for not calling in the National Guard to get the situation in hand earlier. Now, 38,000 National Guardsmen are aiding the wider disaster area, including undertaking the police functions within New Orleans that Mayor Nagin could not or would not furnish.

With all these efforts going on, Jesse Jackson threw himself before the cameras yet again last week, claiming, "The president has not put together a federal program or a coordinated effort to address this massive crisis."

Just prior to Jackson’s statement, Mayor Ray Nagin coped with the high pressure of the situation he created by launching into a profanity-laden radio interview with WWL-AM. He ranted that federal relief workers needed to "get off your asses." (This at a time when helicopters bearing federal relief were being shot at by New Orleanians Nagin could not control.)

These are the same murderous looters the Democratic Party’s blog referred to as "the victims." The only New Orleans residents not intimidated by the rampaging gangs of hoodlums have relied upon the only freedom that keeps law-abiding men safe: the right to privately own firearms.

The New Orleans debacle has demonstrated a few discomforting truths: there is apparently no national suffering so moving that the Left will not exploit it for crass political advantage. The nation should have learned this when Bill Clinton blamed the Oklahoma City Bombing on Rush Limbaugh and Republican "anti-government rhetoric." More importantly, significant holes remain in our national infrastructure, which an enterprising terrorist cell could exploit. We can no longer turn a blind eye to the national security implications of mayoral elections in this nation’s vital cities. Their governance, so long dominated by corrupt and ineffectual leftists, has led to disaster on a massive scale. In the case of New Orleans, a plan had even been drawn up to fend off the worst.the mayor simply demurred from filling in its blanks. The tragedy filling our television screens for the last week is its result. Next time, the mourning could be caused by an act of war. At least one Bush critic, Rep. Bobby Jindahl, R-LA, is right: "After 9/11, this never should have happened."

Ética marxista

Há uma revista, que tem o título de Crítica Marxista (www.unicamp.br/cemarx/criticamarxista/), publicada pelo Centro de Estudos Marxistas (www.unicamp.br/cemarx), que tem por objetivo a "difusão e discussão da produção intelectual marxista em sua diversidade, bem como de intervenção no debate e na luta teórica em curso".

Eis o endereço da revista, conforme fornecido no site dela (que é dentro do site da UNICAMP):

REVISTA CRÍTICA MARXISTA
Centro de Estudos Marxistas (cemarx)
Cidade Universitária Zeferino Vaz
Distrito de Barão Geraldo
Caixa Postal 6110
13083-970 – Campinas – SP
Brasil
Tel. (0xx19) 3788-1639
Email: cemarx@unicamp.br

Pelo jeito o centro e a revista usam espaço físico, eletricidade, água, telefone e e-mail da UNICAMP. Isto é: os impostos dos paulistas pagam pela operação do Centro que publica a revista. A sede do Centro de Estudos Marxistas é num edifício que pertence ao governo do Estado de São Paulo. O espaço vem com luz, água e esgoto. Provavelmente é pessoal de limpeza pago pela UNICAMP que cuida da limpeza do espaço do centro. Seu email é um email oficial da UNICAMP. Seu site está dentro do site da UNICAMP. O telefone do centro é um ramal do PABX da UNICAMP (acabei de confirmar, ligando para lá).

E depois há marxista que critica o uso de bens ou recursos públicos para fins privados, quanto este é feito por não-marxistas.

Mas isso é compreensível. Os marxistas têm um conjunto de princípios para julgar e criticar os outros, os não-marxistas. E um só princípio para si próprios: o princípio de que o fim de promover a revolução comunista justifica qualquer meio.

Sérgio Lessa, professor de Filosofia da Universidade Federal do Alagoes, e um dos membros do Comitê Editorial da revista "Crítica Marxista" do "Centro de Estudos Marxistas", tem um artigo, com o título "Marxismo, Ética e Política Revolucionária", também no site da UNICAMP (http://www.unicamp.br/cemarx/criticamarxista/D_SLessa.pdf), em que afirma:

"… No mundo burguês [i.e., no mundo em que vivemos no Brasil], a política revolucionária … não passa do exercício do poder do homem sobre o homem. … Neste sentido, pode ser tudo menos o exercício da ética. [Até chegar à "emancipação humana", objeto da "práxis revolucionária"] "a efetivação da ética como uma dimensão da vida cotidiana é uma impossibilidade … completa".

Está tudo explicado. Os marxistas defendem a tese de que a ética na política revolucionária, feita para derrubar "a sociedade burguesa", é uma "impossibilidade completa". A ética só voltaria a ter vigência depois de a práxis revolucionária ter transformado a sociedade burguesa na sociedade sem classes.

Os marxistas se justificam afirmando que a burguesia faz política sem ética — só para defender a propriedade privada. Logo, eles, marxistas, estão justificados em suspender a ética em sua luta revolucionário. Simples e fácil. Nessa luta deixam de respeitar não só a propriedade privada de pessoas físicas e jurídicas: desrespeitam, em seu próprio benefício, os bens públicos — como são aqueles da Universidade Estadual de Campinas — sustentados com os impostos de uma maioria que não é marxista e rejeita explicitamente o marxismo, como já ficou sobejamente demonstrado.

A revista Crítica Marxista tem o seguinte Comitê Editorial:

Andréia Galvão – Universidade Estadual de Campinas (agalvao@unicamp.br)
Armando Boito Jr. – Universidade Estadual de Campinas (boito@uol.com.br)
Caio Navarro de Toledo – Universidade Estadual de Campinas (cntoledo@terra.com.br)
Décio Saes – Universidade Metodista de São Paulo (mdsaes@uol.com.br)
Hector Benoit – Universidade Estadual de Campinas hbenoit@uol.com.br
Isabel Maria Loureiro – Univerisdade Estadual Paulista (mbdolive@usp.br)
Jorge Grespan – Universidade de São Paulo
João Quartim de Moraes – Universidade Estadual de Campinas (quatis@uol.com.br)
João Roberto Martins Filho – Universidade Federal de São Carlos (djrm@power.ufscar.br)
Luciano Cavini Martorano – Instituto Universitário de Pesquisa do Rio de Janeiro
Patrícia Vieira Trópia – Pontifícia Universidade Católica de Campinas (tropia@uol.com.br)
Sérgio Lessa – Universidade Federal de Alagoas (sl@fapeal.br)

O último listado é o autor do artigo citado acima.

O Conselho Editorial tem até vários mortos (Edgard Carone, Florestan Fernandes, Maurício Tragtenberg, Nelson Werneck Sodré) que continuam a participar do Conselho "in memoriam". Emir Sader, o morto vivo, que acha que vive num país que está do avesso, sem perceber que quem está do avesso é ele, faz parte do conselho também. Eis a lista completa do conselho:

Adalberto Paranhos – Universidade Federal de Uberlândia
Adriana Doyle Portugal – socióloga
Altamiro Borges – jornalista
Andréia Galvão – socióloga
Aldo Durán Gil – cientista político
Amarilio Ferreira Junior – UFScar
Arlete Moisés Rodrigues – Universidade Estadual de Campinas
Augusto Buonicore – historiador
Carlos César Almendra – Fundação Santo André
Carlos Zacarias Júnior – Universidade Estadual da Bahia
Ciro Flamarion Cardoso – Universidade Federal Fluminense
Claudinei Coletti – sociólogo
Clovis Moura – in memoriam
Duarte Pereira – jornalista
Edgard Carone – in memoriam
Edilson José Graciolli – Universidade Federal de Uberlândia
Emir Sader – Universidade de São Paulo
Elisiário Andrade – Universidade Católica de Salvador
Eurelino Coelho – Universidade Estadual de Feira de Santana
Ester Vaisman – Universidade Federal de Minas Gerais
Fernando Novais – Universidade Estadual de Campinas
Fernando Ponte de Sousa – Universidade Federal de Santa Catarina
Flávio de Castro – sociólogo
Florestan Fernandes – in memoriam
Francisco Foot Hardman – Universidade Estadual de Campinas
Francisco Farias – Universidade Federal do Piauí
Francisco José Teixeira – Universidade Estadual do Ceará
Franklin Oliveria – historiador
Genildo Ferreira da Silva – Universidade Federal da Bahia
Gildásio Santana Jr. – Universidade Estadual da Bahia, Vitória da Conquista
Guilherme Cavalheiro Dias Filho – Universidade Federal do Rio Grande do Norte
Hector Saint-Pierre – Universidade Estadual Paulista
Hermenegildo Bastos – Universidade Nacional de Brasília (DF)
Iná Camargo – Universidade de São Paulo
Isaac Akcelrud – in memoriam
Ivo Tonet – Universidade Federal de Alagoas
Jacob Gorender – historiador
Jesus José Ranieri – Universidade Estadual de Campinas
João Francisco Tidei de Lima – Universidade Estadual Paulista
Jorge Grespan – Universidade de São Paulo
Jorge Miglioli – Universidade Estadual Paulista
Jorge Novoa – Universidade Federal da Bahia
José Carlos Ruy – jornalista
José Corrêa Leite – jornalista
José Francisco Xarão – professor de filosofia
José Luís Soares – sociólogo
José Roberto Zan – Universidade Estadual de Campinas
Leda Maria de Oliveira Rodrigues – Pontifícia Universidade Católica de São Paulo
Lelita Oliveira Benoit – Universidade Metodista de São Paulo
Lígia Maria Osório – Universidade Estadual de Campinas
Luciano Martorano – sociólogo
Marcelo Ridenti – Universidade Estadual de Campinas
Marcos Del Roio – Universidade Estadual Paulista
Maria Elisa Cevasco – Universidade de São Paulo
Maria Orlanda Pinassi – Universidade Estadual Paulista
Mario José de Lima – Pontifícia Universidade Católica de São Paulo
Marisa Lajolo – Universidade Estadual de Campinas
Marly Vianna – Universidade Federal de São Carlos
Maurício Chalfin Coutinho – Universidade Estadual de Campinas
Maurício Tragtenberg – in memoriam
Mauro C. B. de Moura – Universidade Federal da Bahia
Muniz Ferreira – Universidade Federal da Bahia
Nelson Prado Alves Pinto – Universidade Estadual de Campinas
Nelson Werneck Sodré – in memoriam
Noela Invernizzi – socióloga
Osvaldo Coggiola – Universidade de São Paulo
Paulo Denisar Vasconcelos Fraga – Universidade Regional do Nordeste do RS (Unijui)
Paulo Martinez – Universidade Estadual Paulista
Pedro Paulo Funari – Universidade Estadual de Campinas
Pedro Vicente da Costa Sobrinho – Universidade Federal do Rio Grande do Norte
Raimundo Jorge Nascimento de Jesus – Universidade Federal do Pará
Regina Maneschy – socióloga
Renato Monseff Perissinotto – Universidade Federal do Paraná
Rosa Maria Marques – Pontifícia Universidade Católica de São Paulo
Rosa Maria Vieira – Pontifícia Universidade Católica de São Paulo
Sérgio Braga – Universidade Federal do Paraná
Sérgio Prieb – Universidade Federal de Santa Maria, RS
Sílvio Costa – Universidade Católica de Goiás
Sílvio Frank Alem – in memoriam
Tania Pellegrini – Universidade Federal de São Carlos
Valério Arcary – historiador
Virgínia Fontes – Universidade Federal Fluminense
Wolfgang Leo Maar – Universidade Federal de São Carlos
Zilda Márcia Gricoli Iokoi – Universidade de São Paulo

É isso, por enquanto.

Em Campinas, 31 de agosto de 2005

Pobreza e desigualdade

No dia 25/8/2005 foi divulgado o Relatório de 2005 das Nações Unidas sobre a Situação Social do Mundo (The United Nations Report on the World Social Situation 2005), com o título de A Condição de Desigualdade (The Inequality Predicament). Sua elaboração foi é de responsabilidade do Departamento de Questões Econômicas e Sociais (Department of Economic and Social Affairs), que é coordenado por José Antonio Ocampo, que porta a ilustre denominação funcional de Sub-Secretário Geral (Under-Secretary-General) da organização (assim com todos os hífens no original em Inglês). O relatório em Inglês pode ser baixado, em formato pdf, no site http://www.un.org/esa/socdev/rwss/media%2005/cd-docs/media.htm.

O lançamento do relatório mereceu cobertura dos jornais. A matéria da Folha, assinada por Luciana Coelho, tem como título “Reduzir pobreza é ilusão, diz pesquisador”, e como sub-título “Desigualdade é mais grave”. Segundo a Folha, o responsável pelo relatório é um brasileiro: Roberto Guimarães. Ele tem dois trabalhos citados na bibliografia – mas não recebe crédito como responsável pelo trabalho no relatório.

Em entrevista dada à Folha por telefone Roberto Guimarães afirma que “a desigualdade é um problema mais grave do que a pobreza". Segundo ele, a desigualdade deixou de ser privilégio de países pobres, estando presente em países ricos, como os Estados Unidos, o Canadá e os países nórdicos. [Ele não menciona o fato de que os Estados Unidos e o Canadá sempre foram países em que houve desigualdade. Dá a impressão de que passaram a ter desigualdade agora].

Ainda na entrevista Guimarães admite que “o índice de pobreza no mundo caiu” – mas afirma que essa queda, na realidade, é uma miragem, porque ela se explicaria por um único fator: a redução da pobreza na China.

Nesse contexto Roberto Guimarães solta uma pérola de raciocínio lógico:

“Porque um país reduziu a pobreza, o planeta reduziu o número de pobres que vivem com menos de US$ 1 por dia. Só que aumentou a pobreza entre os que têm menos de US$ 2 por dia. Ou seja, que pobreza é essa que diminuiu? Nenhuma”.

Apesar da aparência ao contrário, esse argumento é digno de consideração. O argumento é o seguinte:

a) A redução da pobreza na China fez com que o número de pobres que vive com menos de US$ 1 por dia fosse reduzido;

b) Os que viviam com menos de US$ 1 por dia agora vivem com menos de US$ 2 por dia;

c) Assim, ao ser reduzida a categoria dos pobres que viviam com menos de US$ 1 por dia foi aumentada em igual número a categoria dos pobres que vivem com menos de US$ 2 por dia;

d) Logo, não houve nenhuma redução da pobreza no mundo.

Fantástico o argumento, não? É inegável que a pobreza do mundo, considerada sem nenhum qualificativo, não desapareceu. Mas isso não quer dizer que, falando-se em médias (que é o de que se trata), o mundo não se tenha tornado menos pobre – a confiar nos números do relatório, pelo esforço de um só país, a China (se bem que um país que tem uma população correspondente a cerca de um quinto da população do mundo). Na média, a renda da população mais pobre sem dúvida aumentou. O referencial usado para determinar quem vive na miséria passou de pessoas que vivem com menos de US$ 1 por dia para pessoas que vivem com menos de US$ 2 por dia.

Aqui entre nós: se esse “menos de US$ 2 por dia” fosse mais perto de um dólar do que de dois, o autor teria ressaltado (dada sua tendência ideológica). Se não o mencionou, é porque o referencial usado para medir a miséria no mundo virtualmente dobrou – e dobrar quer dizer aumentar em 100%.

Para o entrevistado, contudo, não houve nenhuma redução da pobreza.

Na verdade, a China, apesar de sozinha ser responsável (segundo alega o Roberto Guimarães) pela redução da pobreza que as estatísticas mostram, recebe as críticas do entrevistado. Diz ele:

"O problema é que todo mundo acha que sem crescimento não se resolve pobreza. Só que a China, o campeão de crescimento na década de 90, já é um dos países mais desiguais do mundo".

Ora, vamos colocar os pingos nos is.

a) Pobreza é uma coisa, desigualdade outra;

b) Houve significativa redução da pobreza na China em decorrência do seu crescimento econômico, tão significativa que o entrevistado afirma que a redução da pobreza que aconteceu lá foi capaz de elevar o referencial da miséria global de menos US$ 1 para menos US$ 2;

b) O fato de que, enquanto havia drástica redução da pobreza na China, também houve crescimento da desigualdade é de esperar: o país tinha um nível de renda baixíssimo para todos (exceto os burocratas do governo comunista); ao adotar, em parte, uma economia de mercado, cresceu significativamente a renda do país, reduziu-se significativamente a pobreza, e alguns foram capazes de ficar bastante ricos, aumentando, assim, a desigualdade social — fenômeno que sempre ocorre toda vez que se abre o mercado e se expande a liberdade de ação dos agentes econômicos.

Como venho dizendo há décadas, o fato que deve nos preocupar, em escala mundial e nacional, não é a existência de desigualdade, mas o fato de que ainda existe pobreza – ou, pior do que a pobreza, a miséria. Ao concentrar suas baterias na redução da desigualdade, e não no combate à pobreza, o relatório e o entrevistado da Folha admitem que o que desejam reduzir não é a pobreza dos pobres, mas, sim, a riqueza dos ricos. Não estão satisfeitos de que o crescimento econômico tenha tornado os pobres menos pobres. Gostariam de encontrar uma forma de fazer os pobres ficarem menos pobres enquanto os ricos ficam menos ricos. [Vide meu artigo "Justiça Social, Igualitarismo e Inveja", no meu site pessoal (Seção "Escritos", em http://chaves.com.br/TEXTSELF/PHILOS/Inveja-new.htm)]. 

Mas isso não existe – pelo menos num clima de respeito à liberdade.

Em próximos artigos vou comentar em mais detalhe o relatório da ONU.

Em Campinas, 29 de agosto de 2005.