Latitudes, longitudes, e itinerários sem sentido

Estou aprontando minha mala para voltar ao Brasil, depois de, basicamente, duas semanas em viagem. Saí do Brasil no domingo, dia 26/11, em direção a Kuala Lumpur, Malásia, e estou saindo daqui no sábado, dia 9/12. Aqui mesmo fiquei onze dias: os outros quatro passei viajando.

O trajeto de vinda foi complicado. Voei de São Paulo até Munique, pela Lufthansa, depois de Munique até Bangkok, e de Bangkok a Kuala Lumpur, pela Thai Air. A volta vai ser mais simples. Vou daqui até Londres, pela Malaysia Air, e de Londres a São Paulo, pela British Airways.

De qualquer maneira, o trajeto parece irracional.

São Paulo está basicamente no Trópico de Capricórnio (que seria latitude 23 30 00 S): sua latitude é 23 33 00 S e sua longitude 046 39 00 W.

Kuala Lumpur está basicamente no Equador (que seria latitude 0), que, no Brasil, passa um pouco acima de Belém do Pará. Sua latitude é 03 10 00 N e sua longitude 101 42 00 E.

Munique está bem acima do Trópico de Capricórnio (que seria latitude 23 30 00 N): sua latitude é 48 08 00 N e sua longitude 011 35 00 E.

Quando a Londres, sua latitude é 51 30 00 N e sua longitude 000 10 00 W.  

Entre São Paulo e Munique há, portanto, 71 graus de diferença em latitude, e entre São Paulo e Londres, 74.

A diferença entre São Paulo e Kuala Lumpur, em latitude, é de apenas 20 graus, Kuala Lumpur estando mais ao Norte. No entanto, para vir de São Paulo a Kuala Lumpur eu tive de ir “subir” 71 graus até Munique, e, depois, descer 45 de lá até Kuala Lumpur. Agora na volta o problema é ainda pior. Para ir de Kuala Lumpur a São Paulo, que estão apenas 20 graus de latitude à parte, eu tenho de “subir” 48 graus até Londres e, depois, descer 74 graus até São Paulo.

Não faz sentido. Em termos de trajeto, provavelmente faria mais sentido uma dessas duas hipóteses:

a) Ir, via leste, de São Paulo (latitude: 23 33 00 S / longitude: 046 39 00 W) até Johannesburg (latitude: 26 10 00 S / longitude 028 02 00 E) e de lá para Kuala Lumpur

b) Ir, via oeste, de São Paulo (latitude: 23 33 00 S / longitude: 046 39 00 W) até Sydney (latitude: 33 55 00 S / longitude 151 10 00 E) e de la para Kuala Lumpur

O problema é encontrar companhia aérea que faça esses trajetos.

Antes de terminar, sugiro os seguintes sites:

http://www.getty.edu/research/conducting_research/vocabularies/tgn/?find

Esse site fornece a latitude e a longitude de qualquer local do mundo.

http://www.phy6.org/stargaze/Slatlong.htm

Esse site explica, de forma bastante didática, os conceitos de latitude e longitude (bem como os “universal time” (“Greenwich Meridian Time”, ou GMT), “local time”, “time zone”, “International Date Line”, etc.

Recomendo que quem se interessa por essas coisas, como eu, visite esses dois sites: vai se divertir – e aprender um bocado.

Em Kuala Lumpur, 9 de dezembro de 2006

A Malásia

País interessante a Malásia. Talvez deva me restringir a falar em Kuala Lumpur, a capital, que é a única cidade que conheço. Dizem que o interior é muito menos desenvolvido – e que a parte do país que fica em Bornéu é quase só jungle. Mas vou falar em Malásia – a Malásia que eu estou vendo.

Olhando de minha janela, aqui no Traders’ Hotel, do lado do novo e magnífico Centro de Convenções da cidade (KLCC: Kuala Lumpur’s Convention Center), vejo as Petronas Towers – duas torres arredondadas, lindas, de 88 andares, e que formam, vistas do céu, um 88, visto que cada uma das torres tem uma torrinha menor, que forma a parte de cima de um oito… É uma das vistas urbanas mais lindas que já vi – estou colocando no space algumas fotos das torres, vistas de minha janela, para comprovar. O escritório da Microsoft aqui na Malásia é localizado lá, nos andares 29 e 30.

A parte central da cidade é linda – com uma parte moderna, magnífica, e uma parte tradicional, herdada do período em que a Inglaterra mandava aqui, que é uma mistura de arquitetura britânica com a arquitetura oriental.

Há gente que diz que a Malásia é um país desenvolvido, no que diz respeito ao hardware – mas subdesenvovlvido, no que concerne o software: a mentalidade, o “mindset”… Talvez seja verdade… O hardware é produto da influência ocidental. O software, porém, reflete uma mistura de influências, além da ocidental… O país é uma mistura de etnias (ou raças, como eles chamam aqui). Cerca de dois terços da população é, etnicamente, malaia. O restante se divide entre chineses, indianos, e o resto… A religião segue, de certo modo, as etnias. A maioria malaia é predominantemente muçulmana; os chineses são budistas, confucionistas, cristãos; os indianos são predominantes hindus. Salada mista total. Mas o islamismo é religião oficial do país – embora, dada a diversidade religiosa, o país não seja considerado uma nação islâmica. A diferença, reconheço, é sutil.

O islamismo daqui, porém, não parece ser o radical, fundamentalista. As mulheres muçulmunas, embora cubram a cabeça, não cobrem o rosto, nem se vestem, necessariamente, de preto, como acontece nas nações islâmicas conservadoras. Aqui elas em geral cumprimentam a gente com aperto de mão e parecem não ter traumas em tocar no braço dos homens. Para tirar fotografia com a gente, elas até ficam assim encostadas na gente, como a gente fica no Brasil.

Estive, no dia depois ao da minha chegada, no shopping tecnológica da cidade – uma estrutura de cerca de oito andares, onde só se vende tecnologia: Low Yat Plaza. Ali fiquei surpreso – era meu segundo dia no país – de ver mulheres muçulmanas (inclusive uma, com o rosto totalmente coberto) comprando computadores, discutindo características técnicas, configuração, preço, sozinhas, desacompanhadas. No dia seguinte, durante o congresso, a surpresa continuou – se bem que, a essas alturas, não deveria ser mais surpresa. Um mundaréu de professoras e diretoras de escolas, vestidas em roupas lindas, estampadas e coloridas (como diz um amigo meu, coloridas com todas as cores do zodíaco), carregando pastinhas de executivos, usando notebooks, falando em celulares… O moderno, numa roupagem tradicional.

Quando dei minha palestra, na abertura do congresso, olhei a audiência, de cima do “palco”, e vi cerca de 750 pessoas, a grande maioria mulheres, e a grande maioria delas muçulmanas, e fiquei maravilhado com o festival de vestimentas e cores. Um espetáculo visual de primeira.

Gosto de andar pelas cidades que visito. Aqui, porém, em cima do Equador, o calor torna virtualmente impossível um projeto desses. Ando de transporte público, portanto: metrô (subterrâneo, de superfície e elevado), monorails, trens de subúrbios… O sistema é excelente e funciona impecavelmente. Taxis aqui não são caros. Uma corrida de cerca de 20 minutos não chega a dois dólares. Os táxis, porém, não são muito novos, não… E, como em todo país subdesenvolvido, há taxista safado. Ao voltar do Low Yat Plaza, peguei um taxi e vi que ele ia saindo sem iniciar o taxímetro. Perguntei a ele (em Inglês – todo mundo aqui fala Inglês, herança do período colonial) se não iria ligar o taxímetro. Disse que não: a corrida seria 15 ringgits, fixos, porque era hora do rush. Eu disse a ele para parar, que iria descer… (A minha ida tinha ficado em cerca de 5 ringgits…). Ele parou, desci, acenei para outro taxi, antes de entrar perguntei se dali até o hotel em que estou seria pelo taxímetro, ele disse que sim, entrei e vim: a corrida ficou por 5 ringgits… Hoje fui até um “megashopping”, meio fora daqui. Peguei o transporte público até a estação central (chamada de “Sentral” aqui) lá peguei um taxi. Fiquei meio surpreso quando vi, ao chegar, que o taxímetro marcava 8,80 ringgits (mais ou menos 2,50 dólares): a corrida não parecia ter sido mais longa do que a corrida do hotel ao Low Yat Plaza. Paguei. Na volta, peguei outro taxi, o mesmo trajeto: o preço foi 4,40 ringgits. Conclusão: na ida, o motorista aprontou. Era de etnia indiana, muito falante e simpático… E ladrão. É o problema do software, a que fiz referência antes.

Enfim: estou gostando de minha estada aqui.

As livrarias, são magníficas – e 80%+ dos livros são em Inglês. Uma maravilha. Comprei, no domingo, numa livraria Border’s, que é anunciada como a maior do mundo, uma biografia de Sartre e de Beauvoior, chamada Tête-à-Tête. É uma biografia dos dois juntos, do relacionamento entre eles – que é um relacionamento que, de certa forma, me fascina. Já quase terminei de ler o livro, de mais de 300 páginas. Hoje comprei uma biografia de C. S. Lewis – que é biografado no lindo filme Shadowlands, em que Anthony Hopkins é um C. S. Lewis perfeito (segundo a minha imagem de C. S. Lewis) e Debra Winger é uma encantadora Joy Gresham – a divorciada com a qual ele acabou se casando, depois de já velho, e que ironicamente veio a morrer, logo depois de eles se casarem.

Comprei, também, no domingo, um livro de John Naisbitt, chamado Mindset… Excelente. Comprei porque abri o livro, aleatoriamente, exatamente num capítulo em que ele discutia a União Européia, e fiquei surpreso ao verificar que ele diz, acerca da União Européia, basicamente o que eu disse no meu artigo “A União Européia tem jeito?” (publicado aqui). Segundo ele, o sistema que os europeus montaram parece ter sido planejado para produzir o “declínio reciprocamente garantido” (“mutually assured decline”) de todos os participantes… Diz ele, no sumário do capítulo sobre a Europa: “A ‘Estátua da Europa’ tem dois corações e 25 cabeças. As 25 cabeças preparam uma mistura que contém ingredientes que não se misturam: tradição, ambição, liderança econômica, conflito. Os dois corações batem em ritmos diferentes, um buscando alcançar supremacia econômica, o outro tentando promover bem-estar social. Orgulhoso e ambicioso, cada coração quer estar certo. Mas para alcançar o seu objetivo, os dois corações têm de alcançar um compromisso – e nenhum deles está disposto a fazer isso. Minha experiência me leva a crer que a Europa provavelmente vai se tornar um parque temático histórico para americanos e asiáticos ricos, e não a região mais economicamente dinâmica do mundo, que é o que ela quer ser. Por causa do outro coração, não vai conseguir supremacia econômica, estando no caminho de um declínio que países membros reciprocamente se garantem” (p.213). É basicamente isso.

Ouço agora Billie Holiday, que canta “My Man”…

Em Kuala Lumpur, 5 de dezembro de 2006

De caras, línguas, e estereótipos

Vivendo num país como o Brasil, e viajando como eu viajo, essas coisas não deveriam me chamar a atenção. Mas chamam.

Ontem à noite (era de manhã aí no Brasil) estava esperando, em Bangkok,  na Tailândia, o avião da Thai Air que me levaria (como de fato me trouxe) para Kuala Lumpur, na Malásia, quando ouvi, atrás de mim, dois senhores conversando animadamente em (presumo) tailandês ou malásio (digo presumo, porque apesar de viajar muito aqui para a Ásia, não consigo diferenciar o som de uma língua oriental da outra). Pareciam estar apreciando a conversa, riam, pareciam brincar um com o outro. Olhei e eis que vi dois homens bastante altos (1,85 m pra cima), coisa incomum aqui, um loiro e o outro moreno, de cerca de 45-50 anos, ambos de camiseta, bermuda e tênis (algo incomum para homens nessa faixa etária). Fiquei surpreso. Pela cara (e pelo jeito) dos dois, deveriam estar falando inglês. Ver dois homens, com essa cara e esse jeito, falando uma língua oriental fluente e animadamente, pareceu incongruente.

Mas daí pensei… Se um estrangeiro visse, aí no Brasil, duas pessoas, com cara de japonês, como Shigeaki Ueki ou o Yoshiaki Nakano falando português fluente e animadamente, também acharia estranho – mas eu não deveria, pois se trata de um ex-ministro do governo federal e um ex-secretário do Estado de São Paulo…

Nem sempre a cara combina com a língua.

Na minha recente viagem pela Europa, em que fiquei 52 dias vagando por diversos países europeus, os últimos dezesseis em Portugal, surpreendia-me ouvindo o português em países como a República Tcheca, a Áustria, a Alemanha. Já na Suiça é comum ouvir o português nas ruas, porque há muito português migrante lá. Só o conhecimento disse já fazia não parecer tão surpreendente ouvir o português ali. Quando cheguei a Portugal, no início houve uma certa surpresa. Como na piada, a reação foi: “Que diabo de língua estão esses estrangeiros todos a falar que consigo entender tudo?” Mas logo a surpresa passou e me senti como se estivesse no Brasil.

Já num país como a Malásia, em que me encontro agora, será realmente uma surpresa – dessas de parar as pessoas, ainda que totalmente desconhecidas, para falar “oi” – se encontrar gente falando português: é incomum ouvir o português aqui, e estamos tão longe do Brasil…

O interessante – e impressionante –  é que e como o cérebro humano rapidamente se adapta em suas “expectativas” – e coisas que, num contexto não surpreendem, noutro passam a surpreender, e vice-versa. É essa característica, porém, que nos faz desenvolver estereótipos.

Quando estava na estação ferroviária Heidelberg, na Alemanha, esperando para pegar o trem que nos levaria a Zurique e, depois, para Genebra, deixei a minha mulher sozinha para ir ao banheiro (lateral: preço de acesso ao banheiro da estação, 1 Euro). Quando voltei, ela estava toda surpresa. Mostrou-me um senhor assim de uns 65-70 anos, alto, simpático, de bigode, usando terno… Disse-me: “Está vendo aquele senhor ali? Há dois minutos estava beijando na boca um outro senhor,  da mesma idade, tão distinto como ele, que partiu… Ficou aqui jogando acenando e jogando beijinhos para o outro…” Ela achou incrível. É a quebra dos estereótipos que o cérebro constrói. Ver velhinhos apaixonados já é incomum – do mesmo sexo, então, é raro…

Na Suiça ou na França também vi um “casal de duas moças”, bonitas, distintas, bem vestidas, se beijando na boca. Nada escandaloso: tudo muito discreto, assim como faz um casal hétero em público. Também chamou a minha atenção. O mesmo estereótipo, agora não com homens idosos, mas com mulheres jovens.

Em Kuala Lumpur, 29 de novembro de 2006 (ainda 28/11 no Brasil)

Volto nesta semana

A última vez que escrevi aqui foi há cerca de 45 dias. Durante esse tempo todo estive viajando e escrevi no meu space http://edwardkeys.spaces.live.com. Nos últimos dias escrevi, lá, até mesmo sobre assuntos que teriam ficado melhor aqui. Mas como estou viajando, resolvi alimentar o outro space.
 
A viagem está chegando ao fim. No dia 17/11, sexta-feira, volto para o Brasil. A partir do fim de semana de 18/11 voltarei a alimentar este space.
 
Aproveito para informar que criei um terceiro space, sobre a cidade de Chaves, em Portugal, da qual provavelmente vieram meus antepassados. Vocês podem visitá-lo em http://chavespt.spaces.live.com. Para homenagear a cidade, criei também um site para ela, que pode ser encontrado, ainda em formato primitivo, em http://chaves.com.pt.
 
Até daqui uns dias.
 
No Porto, 12 de novembro de 2006.

Os próximos cinqüenta e poucos dias

Não estranhem a ausência de artigos aqui nos próximos cinqüenta e poucos dias… Eu estarei escrevendo em outro lugar, temporariamente. Nesta semana, no dia 27, quarta-feira, minha mulher, Sueli, e eu saímos de viagem de férias para a Europa. Embora já tenhamos estado juntos na Europa, foi por pouco tempo, enquanto eu prestava serviços à Organização Mundial da Saúde, em Genebra. E além de ter sido por pouco tempo, foi há muito tempo, no final da década de 80. Esta será, portanto, a primeira vez que estaremos viajando juntos, verdadeiramente em férias, pela Europa. Ficaremos lá 50 dias. A viagem celebra especialmente a nossa aposentadoria da UNICAMP.
 

Sairemos de São Paulo, no dia 27, direto para Lisboa, onde chegaremos no dia seguinte de manhã, partindo, poucas horas depois, para Praga, ponto de partida da viagem. De Praga iremos voltando na direção Oeste, até acabar novamente em Lisboa. Passaremos, no caminho, por Viena, Salzburg (terra de Mozart), Innsbrück, Vaduz (no principado de Liechtenstein), Augsburg, Heidelberg, Genebra, Estrasburgo, Paris. Ao chegar em Lisboa, visitaremos Sintra, Cascais, Estoril, o Algarve, e, depois, indo para o Norte, Coimbra, Porto e, naturalmente, Chaves – cidade pequena que parece ser origem das várias clans de Chaves existentes no Brasil. Ficaremos dezesseis dias em Portugal.

Os preparativos estão quase todos prontos – falta agora fazer as malas.

Originalmente, não iríamos passar por Genebra — cidade que já conhecemos. Eu já passei um bom tempo em Genebra, em consultoria para a Organização Mundial da Saúde (de 1987 a 1992 passei mais de seis meses lá, em diferentes momentos: estava lá quando foi baixado o Plano Collor…). Numa das vezes que fui, a OMS me daria uma passagem para voltar e passar o Natal no Brasil, mas preferi usar a passagem para a Sueli ir lá passar o Natal comigo. Nós o passamos nas montanhas cobertas de neve, em Mürren. Mas voltando ao presente, resolvemos passar em Genebra para rever nossos amigos Aharon e Zabel Sapsezian. O Aharon é como se fosse meu irmão mais velho… Gosto de poucas pessoas como gosto dele. Recentemente teve um enfarte (eu tive o meu em 2002, mas parece ter sido menos grave). Queremos poder vê-lo novamente, abraçá-lo, jogar conversa fora juntos, nesse tempo de prorrogação que o destino — ele diria Deus — nos deu aqui na Terra.
Em Campinas, 24 de Setembro de 2006 (já em plena Primavera — aqui; Outono, na Europa)

(Pequenas correções feitos no itinerário em 21 de outubro de 2006, enquanto estamos no TGV indo de Genebra a Paris).

Lucélia… Terra natal

[Os materiais transcritos neste artigo foram retirados do site "Nossa Lucélia": http://www.geocities.com/nossalucelia/]

[Nota: Este material foi colocado aqui no blog no dia 25/7/2006. Não estava muito clara a autoria dos diversos textos que transcrevi. Por isso interpretei o melhor que pude — mas cometi erros. Hoje, 1/8/2006, fui contatado por José Carlos Daltozo, a quem havia atribuído a autoria do artigo de 1942. Isso teria sido possível, porque José Carlos Daltozo nasceu apenas em 1950… Vou corrigir as referências, mantendo a data original da inserção do artigo no blog.]


[Abaixo, texto de Eduardo Chaves]

Nasci em Lucélia, Estado de São Paulo. No dia 7 de setembro de 1943. Só que naquele tempo Lucélia não era uma cidade (município). Não era nem mesmo um Distrito de Paz. Como diz o autor desconhecido do artigo publicado em 1942 no Correio Paulistano, transcrito adiante, Lucélia, quando nasci, "do ponto de vista administrativo não [era] nada": era apenas uma "vila rural", um povoado, um agrupamento de gente, um "patrimônio", como se dizia então. Pertencia, em sua maior parte, a Balisa. Mas Balisa, também, não era quase nada: era apenas um bairro — mas já era Distrito de Paz. Pelo jeito pertencia a Martinópolis (antiga José Theodoro), esta sim, já uma real cidade ("do ponto de vista administrativo") naquela época. 

Minha Certidão de Nascimento original, emitida logo depois de meu nascimento em 1943, esclarece: "Nascido em Lucélia, Distrito de Balisa, Município de Martinópolis, Comarca de Presidente Prudente". Faltou mencionar, como esclarece o artigo transcrito adiante, Valparaíso e Guararapes.

Há pouco tempo (creio que em 2003), quando visitei Lucélia (pela primeira vez, desde que saí de lá em 1944), fui ao Cartório do Registro Civil da cidade (agora sem dúvida uma cidade, e, portanto, alguma coisa, "do ponto de vista adminsitrativo" — mas ainda hoje, mais de sessenta anos depois, apenas com cerca de 20 mil habitantes!) e lá pedi — e, maravilha, obtive — uma segunda via de minha Certidão de Nascimento. Nenhuma referência agora a Balisa, a Martinópolis, a Presidente Prudente. Só se faz referência a Lucélia. E não há, no livro de registros, que fiz questão de ver e fotografiar, nenhuma referência, nas margens, aos meus dois casamentos (e ao meu divórcio, no primeiro casamento), que deveriam estar devidamente averbados lá!!! Segundo o Cartório de Registro Civil de minha terra natal sou solteríssimo da silva. Só o bom senso me impede de fugir para um outro estado e me casar de novo, pela terceira vez… Se o cartório do novo casamento fizesse o que os outros não fizeram, e mandasse averbar o casamento no Cartório de Lucélia, este o faria, sem problemas. Mas não será preciso. O segundo casamento, dizem os entendidos, é a vitória da esperança sobre a experiência. Já o terceiro!!! Esse não seria vitória de nada, a não ser, talvez, do sentimento, ou da tesão, sobre a razão…

Essa bagunça administrativa, o fato de que nasci em uma "terra de ninguém", como diz o artigo publicado em 1942 no Correio Paulistano, talvez explique o meu liberalismo radical, quase anárquico. Se nasci em uma "terra de ninguém", que, "do ponto de vista administrativo", não era nada, e consegui sobreviver, por que precisamos de governo? Ou, pelo menos, de muito governo? Melhor é o governo que menos governa, já dizia Thomas Jefferson (nascido, se bem me lembro, em 1743, duzentos anos antes de mim). 

Transcrevo, abaixo, três matérias, retiradas da Internet. A primeira de autoria de Marcos Antonio Vazniac, jornalista de Lucélia; a segunda é um artigo de José Carlos Daltozo, jornalista de Martinópolis, com o título "Um Distrito Chamado Balisa"; e a terceira é um artigo, de autor desconhecido, com o título "Povoado de Lucélia – Terra de Ninguém", publicado no Correio Paulistano de 11 de março de 1942 (18 meses antes do meu nascimento), e que foi encaminhado para o site "Nossa Lucélia" por Ralph Mennucci Giesbrecht. As três matérias estão todas na página http://www.geocities.com/nossalucelia/1942.html. O texto de Marcos Antonio Vazniac serve de introdução aos outros dois. Dou, portanto, o devido crédito aos responsáveis pelo site "Nossa Lucélia" pelo material transcrito.

Balisa, como afirma José Carlos Daltozo, pelo jeito sumiu não só de minha nova Certidão de Nascimento, mas até mesmo do mapa: simplesmente desapareceu da face da Terra. Quem sabe tenha deixado saudade em alguém. Ouvi, quando estive em Lucélia, que o nome "Balisa" vinha do fato de que naquele lugar houve uma tentativa de demarcar as terras, e os habitantes do local, todos "posseiros" (grileiros?) simplesmente jogaram as "balisas" de demarcação no rio… Donde o nome. No caso de Lucélia, porém, não sei de onde vem o nome da cidade. Só sei que as perspectivas de crescimento da "vila rural" que o autor do artigo no Correio Paulistano descortinou não deram em nada. Mas, pelo menos, Lucélia não teve o destino de Balisa: não sumiu do mapa. Continua lá, à beira da estrada que vai de Marília para Dracena. E tem até Igreja Universal do Reino de Deus na entrada. A população, porém, não chega a 20 mil "almas": 18.316 habitantes, sendo 9.472 homens e 8.844 mulheres, segundo o Censo de 2000.

Apesar de o artigo de José Carlos Daltozo afirmar que Lucélia foi colonizada a partir de 1927 e a cidade ter sido fundada em 1939, pelo que sei Lucélia só se tornou município depois de eu ter nascido (fato de certo modo confirmado pelo artigo do Correio Paulistano, que afirma que em 1942 (ano em que o artigo foi publicado) Lucélia não era uma cidade (município) ainda, só tendo condições de vir a ser "em fins de 1943". Pelo jeito a burocracia complicou a vida do patrimônio que administrativamente não era nada por mais um tempo, ainda, porque pelo que sei não foi nem "em fins de 1943" que Lucélia se tornou um município. Em e-mail José Carlos Daltozo me informa que Lucélia só se "emancipou" (tornando-se distrito de paz, município e comarca ao mesmo tempo) em 1944. Eis o que informa José Carlos Daltozo: "Através do Decreto 14.334, de 30.11.1944, Lucélia se tornou Distrito de Paz, Município e Comarca simultâneamente (um caso raríssimo, senão único, no Brasil). Seu território englobou parte do município de Martinópolis, desde o Rio do Peixe (Balisa deixou de ser distrito de Martinópolis e se tornou um simples bairro rural de Lucélia) e também englobou parte dos territórios de Valparaíso, Guararapes, Presidente Prudente, Presidente Venceslau e outros". Agradeço ao José Carlos Daltozo a gentileza dessas infomações.

Deixo aqui registrados esses fatos para que, se alguém os ler, e souber mais do que eu, possa, tendo a gentileza, me informar… O meu e-mail é eduardo@chaves.com.br.

—————————————————

[Texto de Marcos Vazniac, diretor do jornal Gazeta Regional, de Lucélia, incluindo referências a um artigo de José Carlos Daltozo, publicado no jornal Folha da Cidade, de Martinópolis – cidade em que Daltozo reside]

A duas léguas do Bairro Balisa, no alto do espigão do Peixe/Aguapeí, acontecia muito rápido o nascimento de LUCÉLIA. E com isso, começava o desaparecimeto do Bairro Balisa.

Nada mais existe no local, nem vestígios de construções. Apenas um rio chamada Balisa, que separa Lucélia de Pracinha. Nas margens desse rio é que existia o povoado.

A reportagem da Folha da Cidade de Martinópolis, esteve no local em 1997 e encontrou um remanescente, um senhor de origem russa, Stepan Povliuk que apesar dos 79 anos, ainda lúcido, contou o que sabia.

"Na época que vim para José Theodoro (nome antigo de Martinópolis), em 1932, já havia uma colônia russa no local chamado Balisa. Ainda nem se pensava que existiria a cidade de Lucélia.

O motivo de se juntarem muitos russos naquele local é que havia um capataz de uma fazenda dessa origem e foi chamando os demais, espalhados em várias cidades do interior paulista. Lá nas margens do rio Balisa, chegou a ter umas quarenta residências, cinco casas comerciais, uma igreja ortodoxa, cemitério, farmácia, uma serraria e hoje nada mais existe. Todos venderam seus lotes baratos e mudaram-se para Lucélia, quando abriram o novo povoado. Só eu estou ainda aqui, neste sítio. Sou nascido em Pitronka, na Bessarábia, atual Romênia. Quando nasci (27.10.1918), minha cidade pertencia à Russia.

A vida naquele tempo era uma dificuldade. Na roça, nosso povo não estava acostumado com lavouras do tipo que se plantava aqui. Foi difícil se acostumar com mandioca, café, banana, mamão, manga. Era tudo desconhecido para nosso povo. Mas sobrevivemos e alguns descendentes hoje moram em Lucélia.

—————————————————

Um Distrito Chamado Balisa

José Carlos Daltozo
(MTb 32.709)

Hoje é uma simples pastagem, cortada por um riacho assoreado denominado Balisa, mas já foi de grande importância para as cidades de Martinópolis, Lucélia e Osvaldo Cruz. Estamos falando do antigo distrito de Balisa, que pertenceu originalmente a Martinópolis e depois da emancipação de Lucélia, em fins de 1944, passou a ser distrito daquela cidade da Alta Paulista.

Quando surgiu o povoado de Califórnia, atual cidade de Osvaldo Cruz, este também passou a pertencer juridicamente ao distrito de Balisa, como bem informa o escritor José Alvarenga em seu livro Osvaldo Cruz – Achegas Históricas: "…a 16 de novembro de 1942, pelo decreto-lei estadual nº 13.050, a então Vila de Califórnia, sob a administração de Walter Wild, foi elevada à categoria de distrito de 2ª zona com sede em Balisa, no município de Martinópolis e comarca de Presidente Prudente." Balisa era, então, um florescente povoado com várias residências, algumas casas comerciais, uma serraria, um clube esportivo, uma igreja Batista e uma Igreja Ortodoxa Russa, uma vez que ali residiam inúmeros eslavos. O motivo de ter existido, naquele povoado, vários descendentes de povos eslavos, é interessante.

Em recente visita à cidade de Lucélia, entrevistei alguns imigrantes eslavos e fiz um ligeiro apanhado histórico da chegada deles neste longínquo rincão do Brasil. Eles fugiam do comunismo e da pobreza reinante na então União Soviética e nos países satélites. Eram russos, ucranianos, romenos, búlgaros, entre outros, que ao chegar ao Brasil se espalharam por várias cidades do interior paulista. Ficaram sabendo da venda de terras em suaves prestações, por parte de Luiz Ferraz de Mesquita, que estava parcelando parte de sua fazenda de 2.735 alqueires, tendo denominado-a Fazenda Balisa. Mesquita obteve essa fazenda como pagamento pelos seus serviços de agrimensor na demarcação de terras da gigantesca Fazenda Monte Alegre. Deu esse nome ao local porque perdeu três balisas de demarcação nas proximidades do ribeirão que cortava o loteamento rural. Ficava a cerca de 50 km. de Martinópolis, sede do município, pois naquela época nosso território avançava além do rio do Peixe, nossa atual divisa municipal com Pracinha, chegando até o espigão divisor Peixe-Aguapeí.

O povoado de Balisa era pequeno, mas a zona rural ao redor era formada de terras férteis, chegando a ter 2.756 habitantes. Segundo entrevista do autor deste artigo com Stepam Povliuki, em junho de 1997, para o jornal Folha da Cidade de Martinópolis, este relatou: "desci na estação ferroviária de José Teodoro, nome antigo de Martinópolis, no ano de 1932, me dirigindo ao povoado de Balisa, onde já haviam outros russos, uma vez que um capataz de uma fazenda nas proximidades era dessa nacionalidade e foi chamando os conterrâneos. Lembro que Balisa chegou a ter umas quarenta residências, cinco casas comerciais, uma igreja ortodoxa, uma farmácia, uma serraria e um cemitério. Hoje nada mais existe no local, todo mundo foi se mudando para Lucélia quando fundaram aquele povoado e venderam terras baratas. Sou nascido em Pitronska, na Bessarábia, atual Romênia, mas na época que nasci, em 1918, pertencia à Rússia. Tivemos muita dificuldade ao chegar no Brasil e, depois, na adaptação ao clima e costumes da nova terra, pois não conhecíamos lavouras de café, nem sabíamos como cultivá-lo. Também desconhecíamos a mandioca e frutas como banana, mamão e manga. Aqui era tudo muito diferente."

No Histórico de Lucélia, fornecido pela Prefeitura daquela cidade, consta que a colonização de Lucélia foi iniciada por volta de 1927, quando o Dr. Luiz Ferraz de Mesquita iniciou a abertura e formação das fazendas Balisa e Santa Cecília. Nessa mesma época chegaram pela E.F.Sorocabana, imigrantes russos e outros povos eslavos que, negociando com o Dr. Mesquita, se estabeleceram nos bairros de Balisa e Água Grande. A gleba foi ligada por uma estrada de rodagem ao povoado de José Teodoro (atual Martinópolis), de onde o Dr. Mesquita passou a orientar e dirigir os trabalhos de desbravamento e colonização. Os estrangeiros que compravam terras tinham que parar em Balisa para iniciar a derrubada da mata, o que fez dela um patrimônio centro de colonização, com a instalação de uma serraria e uma máquina de beneficiar arroz.

A cidade de Lucélia, fundada em 1939, a seis quilômetros do distrito de Balisa, mas ainda dentro do município de Martinópolis, foi fruto de um plano urbanístico e econômico racional, numa associação de Luiz Ferraz de Mesquita com Max Wirth e a CAIC – Companhia de Agricultura, Imigração e Colonização."

Lucélia tem um histórico curioso em seus primeiros anos de vida, quando era um insipiente povoado e seu território fazia parte de Martinópolis. Os comerciantes estabelecidos no lado esquerdo da atual Avenida Internacional pagavam seus impostos à Prefeitura de Martinópolis, enquanto parte dos comerciantes estabelecidos no lado direito pagavam para a Prefeitura de Valparaíso e outra parte para a de Guararapes.

A avenida, situada exatamente no espigão divisor dos rios Peixe-Aguapei, foi implantanda exatamente na fronteira dos territórios dessas três cidades, uma da região Alta Sorocabana e duas da região Noroeste. O Decreto 9.775, de 30.11.1938, que criou o Município de Martinópolis, foi publicado no Diário Oficial de 19.12.1938 e menciona, no final, a criação de Balisa com as seguintes confrontações: "O distrito de paz de Balisa, que fica criado, terá as seguintes divisas internas, com a sede do município de Martinópolis: começam no rio do Peixe, na foz do Ribeirão da Confusão e descem por aquele até a barra do ribeirão dos Ranchos." Do outro lado, como dissemos anteriormente, ia até o espigão divisor dos rios Peixe-Aguapeí. Uma entrevista realizada há poucos meses com Jorge Cavlak, nascido em Balisa e atualmente residindo em Lucélia, esclarece que na realidade haviam dois pequenos povoados, um ao redor do ribeirão Balisa, no local onde passava a estrada de rodagem de Martinópolis para Lucélia, e outro um pouco mais adiante, no ribeirão Água Grande. Mencionou vários nomes de pequenos proprietários eslavos que residiam em sitios vizinhos ao povoado e à estrada de rodagem. O sítio mais próximo à estrada era de Stefan Paley, no sítio ao lado moravam os Trukshen, em seguida vinham os sítios de Inácio Brichiuk, Simão Popik e por último Demétrio Bastinvadji. Do outro lado do ribeirão, fazendo fronteira com esses proprietários, havia os sítios de Nicolau Uzum, Jorge Delive, Basílio Greck, Hartion, Afanásio, Jeremias Posledniak, Profor, Jacob e por fim Demétrio Cavlak.

Terminando os sítios havia a fazenda do Dr. Mesquita. Nos fundos dos sítios dos primeiros citados, havia os sitios de Jorge Mueulik, Jorge Puskof, Basílio Kirkoff e João Berholf. Do outro lado da estrada só havia dois pequenos proprietários, Stepan Pavioliuk e Pedro Peikof, em seguida vinham as terras pertencentes à fazenda do Dr. Zeferino Veloso. Jorge Cavlak informou também que a igreja próxima à estrada, dentro do sítio dos Paley, era protestante (Batista) e que a Igreja Ortodoxa Russa ficava um pouco mais distante, na propriedade de Jeremias Posledniak. Um padre russo visitava essa igreja poucas vezes por ano, devido à distância da ferrovia e a precariedade das estradas. As recordações que ele tem do pequeno povoado de Água Grande são poucas, ficava distante dois quilômetros de Balisa, em direção de Lucélia. Recorda-se da existência de apenas uma casa comercial, uma serraria e um clube social e esportivo com o nome de ABC. Ambos, Balisa e Água Grande, desapareceram com o crescimento de Lucélia, principalmente depois da chegada da Companhia Paulista de Estradas de Ferro e os atrativos e oportunidades de uma cidade em franco desenvolvimento. Todos os eslavos foram vendendo, aos poucos, suas propriedades rurais e mudando para Lucélia, até extinguir os dois povoados.

A mãe do Jorge, Dona Helena, bastante idosa mas ainda muito lúcida, informou que nasceu na Bulgária, acompanhou seu marido no desbravamento da região de Balisa, onde morou muitos anos. O que mais se recorda são as festas rurais, onde as mulheres podiam se alegrar um pouco. Isso porque os homens, mesmo trabalhando de sol a sol nas lavouras, iam aos jogos de futebol nos finais de semana, ou jogavam baralho, bebiam, viajavam para Martinópolis buscar mantimentos, vender porcos, galinhas etc. As mulheres, no entanto, passavam a maior parte de suas vidas trancadas em casa, costurando, bordando, fazendo comida, cuidando dos filhos. Os bailes e as cerimônias religiosas eram as únicas oportunidades que tinham de se divertir um pouco.

O jornalista Marcos Antonio Vazniac, do jornal Gazeta Regional, editado em Lucélia, também é descendente de eslavos e sempre que consegue algumas fotos antigas, publica-as no jornal onde trabalha, na seção Recordando.

Outro morador de Lucélia, o professor Jeová Severo da Silva, escreveu uma monografia de conclusão de curso de Geografia na Unesp de Presidente Prudente sob o tema "Lucélia-SP, do início ao meio: uma análise da evolução do município", onde também faz breve apanhado histórico sobre Balisa, considerando-a o berço de sua cidade.

Quem passar pela estrada vicinal que liga Lucélia ao novo município de Pracinha, em direção ao Rio do Peixe, verá um pequeno riacho assoreado, barrancos de dois metros de altura nas laterais, algumas árvores nas margens, terreno todo plantado com capim, alguns bois pastando, esse era o local onde existiam os sítios dos russos e demais eslavos, onde um povoado chamado Balisa foi formado, mas que desapareceu completamente a partir da década de 1950. Foi um povoado de grande valor histórico, pertenceu a Martinópolis muitos anos e tornou-se a célula mater de duas importantes cidades da Alta Paulista: Lucélia e Osvaldo Cruz.

(Escrito com a colaboração de Marcos Antonio Vazniac)

————————————————–

Povoado de Lucélia – Terra de Ninguém

[Autor desconhecido]

(Correio Paulistano, 11 de março de 1942)

Todos nós temos a impressão de que a era de criação das cidades espetaculares, das cidades que brotam do dia para a noite, como se as tocasse a varinha mágica da iniciativa particular, já passou. Os casos típicos de Marília e Presidente Prudente — originada esta de um vagão de estrada de ferro, que servia de posto telegráfico e que já possuía oitocentas casas quando lhe deram o primeiro escrivão de paz, ao mesmo tempo que o primeiro prefeito; enquanto Marília crescia, sistematicamente, de dois mil habitantes por ano, vindo a ter na sede 24 mil almas doze anos depois de nascida — esses casos, dizíamos, parece que já se não poderia reproduzir com facilidade.

É engano, porém. São Paulo continua a ser a mesma terra das surpresas de sempre. E como ainda possui duas largas faixas de zona pioneira, a primeira entre o Rio Grande e o Tietê, na qual se está processando o avançamento da Estrada de Ferro de Araraquara, e a segunda, entre o Aguapeí e o rio do Peixe, em que a Companhia Paulista está realizando seu prolongamento para além de Marília, é nesses territórios que vêm surgindo as repetições daqueles fenômenos.

O noticiário dos jornais se refere a miúdo a uma povoação de Brasilândia que está em formação no município de Tanabi, para além do ribeirão Marinheiro, cerca de cem quilômetros além de Rio Preto, localidade que já possui cerca de duzentas casas, embora não passe, a rigor, de um bairro rural.

O caso mais interessante, entretanto, é Lucélia. Logo depois de criado o distrito de paz de Balisa, no município de Martinópolis, que acaba de ser desmembrado de Regente Feijó, na Alta Sorocabana, a povoação daquela vila começou a mudar-se para um ponto situado no alto do espigão Peixe-Aguapeí e distante de Balisa cerca de duas léguas. O aglomerado cresceu rapidamente em prazo muito curto e dentro de pouco, sob a denominação de Lucélia, paralisou completamente o surto de Balisa e se impôs como o núcleo de uma grande cidade futura. Hoje Lucélia, que do ponto de vista administrativo não é nada, pois não term nem mesmo cartório de paz e registro civil, possui melhoramentos e requisitos que faltam em cidades bem mais antigas.

A dificuldade para pôr ordem na vida daquele povoado provem do fato de que a cidade — chamêmo-la assim — não pertence a ninguém. Foi construída de tal forma que seu perímetro está compreendido dentro de três municípios e de três comarcas diferentes. Já dissemos que fica sobre o espigão. O lado do sul, o território é de Martinópolis, comarca de Presidente Prudente. Do lado norte, as coisas complicam-se ainda mais: o povoado é dividido pela conhecida reta do governo, que vai ao Salto de Carlos Botelho, no rio Aguapeí, e nessas condições a zona de leste é do município de Valparaíso, comarca do mesmo nome, e a zona de oeste é do município de Guararapes, comarca de Araçatuba. E Lucélia fica a cerca de 60 quilômetros tanto de Valparaíso como de Martinópolis como de Tupã, que é hoje a ponto dos trilhos da Companhia Paulista. O remédio, pois, seria dar autonomia municipal ao novo povoado. Mas isto, de acordo com a lei federal, só poderá acontecer em fins de 1943. E até lá Lucélia terá de esperar como simples bairro.

—————————————————

Em Salto, 24 de julho de 2006 (com correções em 1 de agosto de 2006) 

Reflexões meio fúnebres

Ayrton Senna morreu fazendo aquilo de que gostava: correr de Formula 1. Ainda esta semana (semana de 15 de maio de 2006) um ex-estudante da UNICAMP morreu escalando o Himalaia. Também morreu fazendo aquilo de que gostava.
 
Tenho um pressentimento de que vou morrer em um acidente de avião, enquanto vejo um filme bonito, ou ouço músicas de que gosto, ou escrevo alguma crônica (como estou fazendo no momento) — enquanto bebo um bom vinho e como comida de primeira…
 
Estou escrevendo isso a bordo do vôo United 842, de São Paulo a Chicago. Estou sentado na poltrona 5A da Classe Executiva. O ocupante da poltrona 5B me beneficiou com sua ausência (é incrível a sorte que tenho de não ter companheiro de assento em vôos de longa duração). Ouço música de primeira no meu iPod Nano (4 GB de memória me permitem ouvir nada menos do que mil músicas diferentes, em formato MP3, todas elas de minha escolha). Há pouco, quando levantamos vôo de Guarulhos, pude ver como é linda a cidade de São Paulo, à noite e vista do alto… Assim que o sinal de apertar cintos foi desligado, peguei o meu Dell Latitude X1 e comecei a escrever um artigo sobre a esquerda, a pobreza e a desigualdade. Serviram vinho, castanhas de caju. Agora trazem presunto Parma, camarões, e outros quitutes. Mais tarde virá o filé mignon.
 
Estou no que alguns poderiam chamar de "estado de graça". Não há possibilidade de que o Boeing 767 acerte uma montanha — estamos a cerca de 35 mil pés de altura, ou seja, a quase 12 km de altitude: não há montanha tão alta. Mas é possível (embora improvável) bater contra um outro avião. E é possível (um pouco menos improvável) que o avião tenha algum problema mecânico, hidráulico, eletrônico que o faça cair. Também é possível que algum terrorista esteja a bordo e este vôo termine como os fatídicos vôos do dia 11/9… Mas esses perigos não diminuem o meu "estado de graça". São possibilidades ou probabilidades meio remotas. Mas se acontecerem, o único temor que tenho é de que sofra, de que sinta dor, de que esteja consciente até o último momento… Se morrer subitamente, sem perceber o que está acontecendo, terei morrido feliz: como morrem os que morrem enquanto dormem…
 
Por que estou pensando sobre isso? Por um lado, porque vôo demais… Ainda este mês estive em Taiwan, em Brasília, e agora vou para Redmond, Estado de Washington, Estados Unidos… Metade do mês viajando. Nos últimos quatro anos, desde 2003, quando aceitei o convite para ser membro do International Advisory Council do programa "Partners in Learning" ("Parceiros na Aprendizagem") da Microsoft, tenho voado cerca de 250.000 milhas por ano. Ir e voltar entre São Paulo a Brasília é um pouco mais de mil milhas. Ir e voltar em São Paulo e Chicago é um pouco mais de dez mil milhas. O que voei, em média, nos últimos quatro anos, representa,para cada ano, cerca de 250 viagens de ida e volta entre São Paulo e Brasília — ou cerca de 25 viagens de ida e volta entre São Paulo e Chicago (um pouquinho mais de duas por mês…). Entendido agora por que a United me trata bem???
 
Mas tudo isso quer dizer que as minhas chances de morrer num acidente de automóvel no Brasil são menores do que minhas chancces de morrer num acidente de aviação — apesar de acidentes, aqui em cima, serem bem menos freqüentes do que os lá embaixo…
 
Se levarmos em conta que meu primeiro vôo de avião foi em 1947, quando tinha três anos e meio, em um avião da Aerolíneas Natal, de Londrina a São Paulo, e que, de 1967 pra cá, creio que não houve um ano em que não tenha estado num avião, é algo próximo de um milagre que nem mesmo um "close call" eu tenha tido…
 
Providência, dirão meus amigos religiosos… Sorte, dirão meus amigos ateus… Sorte, digo eu, assistida pela competência humana que produz um pássaro desses, tão mais pesado do que o ar, mas que consegue voar, por quase 20 horas sem abastecimento, carregando toneladas e toneladas de gente e carga…
 
Antes de o vôo sair o Comandante Flores (nascido nos EUA, mas de pais espanhóis e mexicanos) veio cumprimentar os passageiros da primeira classe e da classe executiva. Já é a quarta ou quinta vez que vôo com ele. É uma simpatia — e é competente. É o único piloto que vem conversar com os passageiros antes de sair, dá a mão a todos, joga uma conversinha fora… Classe.
 
Mas os vôos aéreos estão progredindo… Minha querida amiga, Márcia Teixeira, atualmente gerente de Educação para a América Latina da Microsoft, me chamou pelo MSN Messenger, no dia 15 último, dia do aniversário dela, de dentro de um avião da Lufthansa que ia de Miami para a Europa — destino final, Atenas, Grécia… Conversamos durante vários minutos. Ela a milhares de quilômetros de distância, no nível do mar, e a cerca de 12 mil metros de altura… E nós, conversando. Fiquei lisonjeado de ela haver me chamado para compartilhar a alegria de estar podendo usar a Internet no céu — @ Sky…
 
No momento meu iPod Nano toca Amazing Grace, com Anne Murray… Dá vontade de chorar, de tão bonito…
Ontem à noite, ainda em Campinas, assisti na TV The Notebook (Diário de uma Paixão). Chorei mais uma vez. Filme que alguns qualificam de "água com açúcar" — mas que eu acho lindo de morrer. Atores lindos e competentes, história comovente — e a música, ah a música, é I’ll be seeing you"… (cantada por Billie Holiday): "I’ll be seeing you in all the old, familiar places, that this heart of mine embraces, all day through"…
 
Se morresse agora, não me importaria. (Possivelmente, nem notaria…) Mas vai ser bom chegar em Chicago, de lá ir para Seattle, de lá ir para Redmond, ficar hospedado no delicioso Bellevue Club Hotel, parte da cadeia Small Luxury Hotels, em Bellevue, perto de Redmond… Lá vou me encontrar com meu amigo de mais de 25 anos, Fernando José de Almeida, da PUC-SP, com a Mônica Guazelli Franco, também da PUC-SP, que deveria ser proibida para diabéticos, tão doce que é, com a Ana Teresa Ralston, gerente de Educação da Microsoft Brasil — e com Les Folton, americano meio típico, tentando virar brasileiro, amigo querido, namorado da Ana… E mais a Lauren Woodman, a Kristen Weatherby, a Liz Butowicz, todas elas pessoas muito legais, da equipe de educação da Microsoft Corp (worldwide)…
 
De Redmond vou até Cortland, Ohio, ver minha filha e minhas duas netas. A Andrea, minha filha que nasceu nos Estados Unidos e sempre viveu lá, e que, portanto, cresceu e virou mulher longe de mim, é a filha que mais se parece comigo em idéias, em temperamento, em gênio, em reações emocionais. Ela se casou com o Rick, talvez o mais americano dos americanos, e desse casamento me vieram me duas netas loiríssimas, de olhos azuais: Olivia e Madeline (na verdade, Olivia Grace e Madeline Kay…). Espero vê-las na quarta-feira. A Andrea e as meninas vão me pegar no aeroporto Logan de Cleveland e, juntos, iremos para a casa delas — onde ficarei por quatro dias. Sairemos, iremos fazer compras, ficaremos em casa brincando no "family room", vendo TV, batendo papo, curtindo uns aos outros.
 
Agora vou parar de escrever um pouco e ver se durmo… 
 
No espaço aéreo entre São Paulo e Chicago, em 20 de maio de 2006