Memória, Verdade e Autobiografias

Se John Locke está certo, nossa identidade pessoal é inseparavelmente ligada às nossas memórias. Se temos amnésia completa, deixamos de ser quem éramos. Se (por algum milagre, divino ou científico) viermos a possuir um conjunto de memórias diferentes, passamos a ser uma outra pessoa.

Se é assim que a coisa se passa, é preciso levantar uma questão importante: somos, não o que realmente fomos, mas, sim, o que nos lembramos ter sido.

O problema está no fato de que, como todos bem sabemos, nossa memória está longe de ser perfeita. Na realidade, é grandemente falha. Não nos lembramos, freqüentemente, de coisas que acabaram de acontecer. Olhamos um número na lista telefônica e, ao começar discá-lo, já não nos lembramos mais dele inteiro. Não nos lembramos de onde colocamos coisas importantes. Esquecêmo-nos do aniversário e de datas importantes de pessoas que nos são caras. Esquecêmo-nos de compromissos importantes.

Além de falha, no sentido de que não nos lembramos de coisas que de fato aconteceram, nossa memória também é pouco confiável, no sentido de que freqüentemente nos lembramos de coisas que não aconteceram, ou que não foram bem assim como nos lembramos dela. Tanto é que, freqüentemente, juramos que algo aconteceu assim – até sermos convencidos de que estamos errados por evidência contrária. A psicanálise nos relata casos impressionantes de pessoas que, tendo reprimido a memória de um acontecimento traumático, criaram, por assim dizer, uma “memória substituta”, inverídicamas menos desagradável. Voltaire, numa frase célebre, dizia que nunca tinha contado nenhuma mentira, mas que havia inventado muitas verdades… E Mark Twain se orgulhava, na velhice, de ainda ter uma memória tão boa que se lembrava até de coisas que nunca haviam acontecido…

Isso quer dizer que tanto há coisas que de fato aconteceram, das quais não nos lembramos, como há coisas de que imaginamos nos lembrar que realmente não aconteceram, ou não aconteceram do jeito que acreditamos.

Esses fatos nos colocam diante de questões interessantes, em relação a autobiografias.

Primeiro, como é que eu sei que não estou me esquecendo de experiências importantes do meu passado, que, se lembradas, poderiam, de alguma forma redefinir minha identidade?

Doris Lessing, em sua autobiografia, discute o problema:

“Assim que você começa a escrever, a pergunta se interpõe, insistente: Por que motivo você se lembra disso e não daquilo? Por que se lembra mais dos detalhes de uma determinada semana, de um mês transcorrido há muitos anos, e, depois, negrume total, vazio? Como sabe que aquilo de que se lembra é mais importante do que aquilo de que não se lembra?” (Debaixo da Minha Pele: Primeiro Volume da Minha Autobiografia, até 1949, Companhia das Letras, São Paulo, 1997; original: Under My Skin: Volume One of my Autobiography, to 1949, 1994; tradução de Beth Vieira, pp. 21-22.)

Segundo, como é que eu sei que as coisas de que acredito me lembrar realmente ocorreram, ou ocorreram do jeito que eu me lembro? A possibilidade de que haja memórias inverídicas – ou porque honestamente nos lembramos mal ou errado do que aconteceu, ou porque intencionalmente falsificamos a memória, convencendo-nos a nós mesmos de que alguma coisa realmente aconteceu, ou aconteceu de um jeito, quando ela não aconteceu, ou não aconteceu daquele jeito – coloca em xeque nossas lembranças. Assim, a tentativa formal e deliberada de reconstruir o passado, usando as memórias de outras pessoas ou evidências externas, é uma forma de testar a veracidade daquilo de que nos lembramos, de examinar os fundamentos de nossa identidade pessoal. É verdade que, em casos de repressão, nos convencemos de que algo não aconteceu, ou não aconteceu de um determinado jeito, quando realmente aconteceu, ou aconteceu de modo diverso. Se os psicólogos estão certos, a repressão não fica totalmente impune: aquilo que foi reprimido reaparece de outras formas, causando problemas psicológicos de vários tipos.

Doris Lessing, como mencionado, discute o problema em sua autobiografia, e se diz comprometida a dizer a verdade, a apresentar um relato verdadeiro do que foi sua vida –pelo menos tão verdadeiro quanto ela possa aquilatar.

A questão da verdade na reconstrução de nosso passado é essencial, em especial no caso de autobiografias. Mas essa questão se desdobra em duas:

Primeiro, a questão da falsificação intencional do passado (por omissão, distorção, acréscimo). Doris Lessing critica especialmente Simone de Beauvoir, que, ao escrever suas memórias, declara explicitamente não ter a mínima intenção de dizer a verdade sobre alguns episódios. Se não ia nem tentar dizer a verdade, pergunta Lessing, qual o valor do exercício? Sua autobiografia seria ficção – e, portanto, não autobiografia, apenas um romance com alguns elos de ligação com a realidade não fictiva.

Mais frequentemente, porém, autobiografias misturam fato e ficção. Em sua Introdução à edição das Confissões de Roussau na série “Wordsworth Classics of World Literature”, Derek Matravers coloca o dedo no essencial de uma autobiografia:

“The Confessions is autobiography, not fiction, and as such, it purports to describe what actually happened. In the main, Rousseau’s claim to veracity is supported by modern scholarly opinion. Ocasionally he has lapses of memory, and gets his dates wrong or misjudges the time he spent at some place or another. On other occasions . . . the suspicion is that the facts are deliberately bent in his favour. Overall, however, his reliability as a witness and the range of experiences on which he was able to draw give their own value to the memoirs, as Rousseau himself realised” (Rousseau, The Confessions, with an Introduction by Derek Matravers, Wordsworth Classics of World Literature, London, 1994, pp. vii-viii).

Vale a pena também citar as Confissões de Darcy Ribeiro. Ele, em parte por saber que estava no fim da vida, não se preocupou em fazer scholarship em sua autobiografia — isso é tarefa de biógrafo, disse ele, acrescentando:

”Este livro meu, ao contrário dos outros todos, cheios de datas e precisões, é um relato espontâneo. Recapitulo aqui, como me vem à cabeça, o que me sucedeu pela vida afora, desde o começo, sob o olhar de Fininha [a mãe], até agora, sozinho nesse mundo. Muito relato será, talvez, equivocado em alguma coisa. Acho melhor que seja assim, para que meu retrato do que fui e sou me saia tal como me lembro. Neguei-me, por isso, a castigar o texto com revisões críticas e pesquisa. Isso é tarefa de biógrafo. Se eu vier a ter algum, ele que se vire, sem me querer mal por isso” (Confissões [Companhia das Letras, São Paulo, 1997], p. 11).

Segundo, a questão mais difícil, a da falsificação inconsciente do passado. A psicologia e a experiência nos mostram que, com o passar do tempo vamos, insconscientemente, idealizando nosso passado: incidentes pequenos crescem de importância, porque nos projetam em uma luz mais favorável; outros incidentes, os mais desagradáveis, vão tendo sua importância reduzida, ou começam a ser visto sob outra luz; ainda outros, mais traumáticos, são, às vezes, eliminados inteiramente do quadro. Isso tudo acontece, o mais das vezes, sem que tenhamos a intenção de falsificar o passado, simplesmente porque mecanismos sutis operam em nossas mentes para eliminar dissonâncias (e, até certo ponto, manter nossa saúde mental e nossa sanidade). Não é à toa que existem tantos livros escritos sobre a temática do “autoengano”.

Quem está realmente preocupado com a verdade, há de querer descobrir, mesmo que tenhamos, como Lessing, a intenção de dizer a verdade, se esses mecanismos sutis não estão nos levando a nos enganar a nós mesmos.

Para terminar, e trazer essas elucubrações filosóficas para o presente…

Na entrevista do Roberto Carlos ao Fantástico no último domingo (27/10/2013) deu-me pena ver a inabilidade dele ao lidar com as perguntas (muito bem feitas, por sinal, mas com respeito). Disse que está escrevendo (na verdade, gravando material para) uma autobiografia, em que trata, até mesmo, do acidente que o obrigou a amputar parte da perna quando era criança. Ele disse algo mais ou menos assim (as palavras são minhas): Ninguém sabe o que eu passei e o que eu senti tão bem quanto eu, e eu vou falar sobre o assunto!”… Que ingenuidade. O artigo de Hélio Schwartsman na Folha de S. Paulo de hoje (29/10/2013) toca, a propósito da entrevista de Roberto Carlos, exatamente na questão da inconfiabilidade das autobiografias — nem sempre por maldade, mas porque as pessoas literalmente acabam por acreditar que coisas que não aconteceram de fato aconteceram, que coisas que aconteceram não aconteceram, ou não aconteceram como os outros se lembram delas, etc. Transcrevo abaixo o artigo do Hélio.

Como já mencionei, Simone de Beauvoir, disse, em seus relatos autobiográficos, que não tinha nenhum compromisso com a verdade. Poucos são tão francos e transparentes como ela (transparentes no sentido de admitirem ao público leitor que o que estão tentando passar por autobiografia não passa de ficção).

O Roberto certamente acredita que vai revelar a verdade sobre sua vida “como ela de fato ocorreu, sem interpretações, sem distorções, sem omissões, sem acréscimos”. “Wie es eigentlich gewesen ist“.

Em São Paulo, 29 de Outubro de 2013

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Hélio Schwartsman, “Memórias” – http://www1.folha.uol.com.br/fsp/opiniao/136226-memorias.shtml

“Roberto Carlos, o rei, que bloqueou na Justiça a circulação de um livro sobre a sua vida, agora diz que é a favor de biografias não autorizadas e informa que está escrevendo suas memórias. Qual das duas obras é mais confiável?

Obviamente, essa não é uma questão que possa ser respondida “a priori”, mas temos boas razões para desconfiar das autobiografias. E não porque candidatos a ídolo sejam todos mentirosos compulsivos. O problema é que nossas memórias, embora nos pareçam vívidas a ponto de as julgarmos uma espécie de fotografia do passado, são mais bem descritas como uma fantasia de nossas psiques.

O que o cérebro guarda são registros hipertaquigráficos a partir dos quais nossa mente reconstrói o episódio cada vez que nos lembramos dele. Esse processo é distorcido pelo que estamos sentindo ou pensando quando acionamos a memória. Algumas lembranças ficam estáveis por décadas, outras são sutilmente modificadas e há as que sofrem transformações profundas. Elas são indistinguíveis em nossas cabeças.

Essas mudanças não ocorrem ao sabor do acaso. A memória não evoluiu para promover a verdade, mas para nos fazer viver vidas melhores. Ela não deve ser uma alucinação tão tresloucada que nos leve a cometer erros fatais, mas, se as distorções forem no sentido de nos tornar mais seguros e confiantes, são mais do que bem-vindas. Nós nos lembramos muito mais daquilo com o que podemos viver do que daquilo que efetivamente vivemos.

A notável exceção são as pessoas clinicamente deprimidas, que fazem uma avaliação surpreendentemente realistas de si mesmas. Não se sabe se é a depressão que leva à percepção mais acurada ou se é a visão mais realista que provoca os pensamentos deprimentes. De todo modo, o excesso de realismo não é muito saudável.

Se você é um leitor em busca de verdades, só compre autobiografias de depressivos notórios.”

Setentinha, como disse a minha irmã…

No Sábado, 7 de Setembro de 2013, completei setenta anos.

Nesse dia estávamos em Poços de Caldas, MG, a Paloma e eu, e celebramos o meu aniversário sozinhos, passeando, almoçando e jantando juntos. Vou me lembrar bem desse dia. Passeio de charrete pela manhã, depois do almoço passeio de carro pelos principais pontos turísticos da cidade.

Nunca fui de fazer celebrações nos meus aniversários. Mas lembro-me bem de alguns.

A maior delas foi a celebração de meus 66 anos, em 2009, com amigos no nosso sítio “O Canto da Coruja”, em Salto, SP. A Paloma organizou o evento. Celebrávamos, naquele ano, Cem Anos, somadas as idades dos dois: eu, 66, ela, 34. O evento foi bem documentado e temos várias fotos e um vídeo de um pequeno discurso, muito lindo, da Paloma. Havíamos comemorado também, um dia antes, um ano de vida em comum.

Os meus 65 anos foram celebrados, de forma não planejada, em 2008, em um grupo muito pequeno, em Campos do Jordão, no Arraial dos Mellos, com a Paloma, a Fernanda Ralston-Semler e o Ricardo Semler. Só nós quatro. A Fernanda arrumou um bolinho com uma velinha… Era o dia seguinte àquele em que, em decorrência, em parte, de decisões nossas, e fruto, em parte, da predestinação divina, ou da mera força do destino, começamos a viver juntos, a Paloma e eu.

Em contraste, meus 60 anos celebrei, em 2003, em Salzburg, na Áustria, no Schloss Leopoldskron (verifiquem o vídeo http://www.youtube.com/watch?v=M6UcpUjA7YI#t=18), onde estava participando, a convite da Microsoft, de um evento organizado pelo Salzburg Global Seminars acerca de Inclusão Digital. Não imaginei que alguém soubesse da data de meu aniversário. Mas, à noite, numa das salas mais lindas do palácio, trouxeram um bolo e champagne e cantaram Happy Birthday para mim. Daquele grupo de mais de cem pessoas mantenho, dez anos depois, a amizade de Michael Furdyk e Tim Magner.

Dos demais aniversários, sinceramente, não tenho a menor lembrança.

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Nasci em Lucélia, Estado de São Paulo, no dia 7 de Setembro de 1943, o primeiro filho de Oscar Chaves e Edith de Campos Chaves. No momento de meu nascimento, meu pai tinha 30 anos e 10 meses e minha mãe 19 anos e 1 mês. Fazia 14 meses que estavam casados, tendo morado em Paracatu, Minas Gerais, antes de vir para Lucélia.

Um cartãozinho, de praxe, foi impresso, com o desenho de um nenezinho segurando o dedão do pé, e os dizeres: “Eu, Eduardo Oscar, nasci hoje no lar de EDITH e OSCAR CHAVES. Lucélia, 7-9-1943″.

Nascimento EOEMCC-x

Cartão de Notificação do meu nascimento

Ainda possuo alguns cartões que recebi. De Da. Mary Lane, esposa do Rev. Eduardo Lane, há um cartãozinho com os dizeres: “For dear Boyzinho, with muito love. Your friend, Mary Lane”. O cartãozinho parece ser desses que acompanham um presente. Dr. Lane mandou um cartão, em que escreveu um bilhete. “Parabéns pelo novo missionário. Ahi vae o início de um fundo para a sua educação. Desejo para elle, como para os paes, as maiores bênçams de Deus. O amigo, Eduardo Lane. Jaboticabal, 24 de Set. 1943″. Miss Frances mandou um cartão com algumas florzinhas, e os dizeres: “To Eduardo Oscar, with love and all good wishes, as well as congratulations to your father and mother. Miss Frances”.  Minha mãe escreveu do lado: “Set. 1943”. Kate e Alva Hardie enviaram um cartão branco, com uma mensagem: “Presado irmãos [sic]: Saudações. Faça o favor de dizer ao Eduardo Oscar que recebemos seu cartão e ficamos muito contentes com a notícia da chegada dele, e esperamos que ele cresça para ser um grande pregador do Evangelho, imitando o pae dele. Esperamos que a mãi dele vai indo bem. Lembranças de Kate e Alva Hardie. Araxá, Minas, 14.9.43”. O Rev. Sebastião Machado e sua esposa Júnia também enviaram, de Patrocínio, um cartão: “Patrocínio, 16-10-1943. Prezados amigos Da. Edith e Rev. Oscar. Muito nos alegramos com o nascimento de seu filhinho Eduardo. Deus o abençôe grandemente para maior alegria e felicidade de vosso lar. Júnia e Sebastião.”

Uma das coisas pela qual vou ser sempre grato a meu pai é o fato de que ele escreveu a história dos meus primeiros 12 meses de vida em uma pequena agenda, e, depois, ficou 12 meses sem escrever, voltando a fazê-lo apenas no dia de meu segundo aniversário. Vou transcrever aqui (exatamente na grafia usada) o que ele registrou, sob o pomposo título de O Nascimento e a Vida do Eduardo Oscar, escrito pelo seu pai, tendo o primeiro registro a data de Outubro de 1943.

Tudo que está em itálico a seguir é relato do Rev. Oscar Chaves.

Nascimento e VIda de EOEMCC

Primeira Página da cadernetinha em que meu pai escreveu um sucinto relato de meus dois primeiros anos

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Eduardo Oscar nasceu em Lucélia, E. S. Paulo, aos 7 de setembro de 1943, às 10 hs. da noite, na casa que foi do Sr. Antonio B. Oliveira, à rua Amazonas, s/n. O médico parteiro foi o Dr. Santos Abreu. D. Angelina, avó do Oscarzinho, estava presente também.

Na terça-feira (dia 7), às 7 hs. da noite, a Edith começou a sentir as primeiras dores do parto. As 8,30 fui chamar o Dr. Santos, que logo veio e afirmou que o nascimento só se daria no outro dia cedo, pois o primeiro parto é sempre mais difícil. A Edith gemia e chorava não suportando as dores. Como sofre uma pobre mãe! Se todos os filhos soubessem como fazem sofrer as suas pobres mães!… O Dr. Santos, fazendo um exame na Edith, disse-nos, admirado, que a criancinha nasceria breve! De fato, às 10 hs. o garotinho nasceu  e logo deu o “ar da graça” chorando um pouco. Que menino grande! Nasceu muito feio e enrugadinho, mas muito grande. D. Georgina Aguiar, nossa amiga e irmã, chegou a tempo de assistir ao nascimento. Dr. Santos cortou o umbigo e depois se retirou. D. Angelina e D. Georgina cuidaram do bebê. Os primeiros banhos foram dados pela D. Georgina. Depois D. Angelina tomou esse encargo. No 1º e 2º dias o Oscarzinho não chorou muito, nas depois começou a dar trabalho, especialmente à noite!

Que tristeza! Como chorava alto o garotinho! Dormi no escritório e deixei D. Angelina dormir com a mãesinha dele. Não era fácil dar-lhe banho, pois o pequeno escorregava e chorava muito. No dia 4 de outubro D. Angelina foi para Campinas, juntamente com o vovô do Oscarzinho, que veio para levá-la. O vovô ficou muito entusiasmado com o lindo netinho! (Um mês depois o Oscarzinho já estava bonitinho, pois já havia engordado bastante). Ele ganhou muitos presentes e cartas de felicitações.

Começou a sofrer de dor de barriga e a chorar muito. A Edith e eu já estávamos cansados e abatidos, pois pouco dormíamos. Já ficávamos tristes quando vinha a noite, pois sabíamos que o menino ia dar-nos muito trabalho. E de fato, como chorava! A Edith e eu alternavamos as ocupações. Cada noite um dormia na beirada para cuidar do nenê e fazê-lo dormir.

Quantas vezes eu acordava, de madrugada, e via a Edith sentada, de mau geito, com o Bebê nos braços, acalentando-o, pondo-lhe a chupeta na boca, para ver se o fazia dormir! Afinal, resolvemos leva-lo para Campinas, pois a Vovó estava morrendo de saudades dele e nos pedia que o levassemos. A titia Alice também estava até “caducando” por causa dele. O Vovô, nem se fale!

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Minha mãe e eu, quando eu tinha mais ou menos um mês de vida, na frente de nosso bangalozinho de madeira, alugado, na Rua Amazonas, s/n, em Lucélia, onde nasci.

No dia 19 de outubro tomámos a jardineira até Tupã. O dia estava quente, mas o Oscarzinho dormiu quasi o tempo todo. Só chorava quando a jardineira parava. Às 2 hs. da tarde chegamos a Tupã e as 3,45 tomámos o trem. A viagem não foi muito bôa, pois o trem estava muito cheio! Metade da viagem foi feita no carro de 2ª classe, pois não pudemos arranjar lugar na 1ª classe, devido ao grande número de pessoas. Passámos a noite com o Nenê nos braços. Ele não deu trabalho, pois dormiu mais ou menos bem. Às 6 hs. da manhã chegamos a Campinas. A Vovó já  estava desconfiada e assim logo que ouviu alguém bater no portão, pulou da cama e foi abri-lo para nós. Logo veio a Alice, afobada, louca para ver o sobrinho! O Vovô também veio logo e que alegria! A Titia achou que o sobrinho era um “encanto”!

Depois de alguns dias a Edith o levou ao “Bento Quirino” para ser pesado e examinado. O médico não estava lá mas ele pesou 1,K e 620 gramas com 1 mez e 20 dias! (sic) Muito bem, Sr. Eduardinho, você vai indo muito bem, pois está pesando mais do que o normal! Meus parabens!… Mas você deve agradecer à sua bôa mamãe que tem muito leite para você mamar, ouviu?

No dia 29 deixei a mamãe e o filhinho com a Vovó e tive de voltar para Lucélia. Em Bastos a “Sociedade de Senhoras” deu-me 150 cruzeiros, de presente, para o Oscarzinho.

Até aqui, temos sido ricamente abençoados por Deus! Que Ele cuide sempre do garotinho, segundo a sua vontade, é a minha oração.

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Hoje, dia 7 de dezembro, recebi uma carta da Edith. Como sempre, nas outras cartas, ela fala bem do Oscarzinho! Cada carta que vem conta uma “novidade” dele! A mamãe diz que ele já tem “covinha” no cotovelo, já tem “pulseirinha” no bracinho e está com as perninhas como duas mandiocas! Então está gordinho mesmo! Já fica deitado sem chorar, e gosta muito de conversar e dar risada! Vive só falando “angú”. Gosta de passear e olhar tudo ao seu redor. Hoje ele completa 3 mezes! Tenho imensa vontade de vê-lo, abraçá-lo e carregá-lo! No princípio de janeiro, se Deus quiser, irei vê-lo. Deus o guarde sempre e o encha de bênçãos! Cuida dele, Senhor, para a Tua honra e glória!

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Uma carta que a Edith me escreveu no dia 17 (dezembro) diz que o nosso Oscarzinho está muito doentinho, com diarreia. Foi levado ao “Bento Quirino”, mas a doutora mal o examinou. Foi ao Dr. Paioli e este receitou “Elixir Paregórico”! Mas o farma- (sic) achou que não se devia dar o Elixir ao menino. No dia seguinte, diz a mamãe dele, ele já estava melhor um pouco, pois já estava mais alegre! Sei que Deus cuidará dele, e isso não me deixa ficar muito preocupado. Mesmo assim, que susto meu Pae! A diarreia aqui em Lucelia está matando crianças. O Eduardo Oscar está nas mãos de Deus, o verdadeiro Pae e medico. –

o O o

Dia 23 de junho de 1944

Faz muito tempo que nada escrevo sobre o nosso Oscarzinho! A última vez que escrevi ele ainda estava em Campinas e eu aqui. No 1º de janeiro de 1944 fui para lá. Encontrei-o forte e grande! Eu não o reconheceria se o visse em qualquer lugar! Estava lindo, de fato! Depois de 1 mez voltámos para Lucélia. Nos primeiros dias de fevereiro aqui chegámos. Todos “estranharam” o menino, pois o acharam robusto e bonito! Uns diziam que ele era o retrato da mãe! Outros diziam que era a cara do pai! Não sei quem tinha razão! A Vovó Angelina ficou em Campinas, morrendo de saudades do netinho! Todos lá só escreviam tendo o Oscarzinho como têma. A vovó de B. Horizonte ainda não o viu. Mandámos-lhe um retratinho dele, com 4 mezes. Saiu muito bom, deitado de bruços sobre uma almofada (tirado nú). Foi tirado na FOTO PAIOLI, em Campinas. A Vovó de B. Horizonte o achou lindo também e diz que a tia Dulce todos os dias olhava o retrato do netinho! (sic) Não sei quando ela poderá vê-lo!

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Aqui em Lucélia o garoto se deu muito bem, graças a Deus. Desenvolveu-se muito e não adoeceu. Só um dia ficou com diarréa (isto é, diversos dias) talvez causada por umas bolachinhas compradas no japonês… A Edith se esforçou muito para que ele aprendesse a bater palminhas. Afinal, viu seus esforços coroados de exito. O “moleque” aprendeu bem e batia palmas a todo instante. Comprámos-lhe um bercinho. Puzemos grades ao redor da nossa cama, e ali ele brincava sempre, sem perigo de cair. Mas não gostava muito de ficar no curralsinho! Quando a gente se aproximava ele agarrava-se com força no braço da gente e queria sair!

Aprendeu a sentar-se! Que “tôquinho” engraçadinho, sentadinho na cama! Gostava muito de dar risada (e ainda gosta) para todo mundo! Na igreja, então, era um caso sério! Chamava a atenção de todos! Brincava, dava gritinhos, fazia BRRR… puxava o cabelo de quem estivesse à frente e às vezes atrapalhava até o papai na pregação! Ficou muito gordo. Com 8 mezes pesou 11 quilos.

No dia 30 de maio resolvemos levá-lo para Campinas novamente, pois estava dando varisséla, pneumonia e coqueluche em Lucélia. Ademais a Vovó e Vovô e tia Alice estavam loucos de saudade dele. Fomos. Boa viagem.

Como o acharam grande! E mais bonito ainda! (Que povo sem modéstia!)

Deixei-os lá e voltei para o meu posto. Mas logo, se Deus quiser, irei vê-lo e à sua mamãe. No dia 30 pretendo partir para lá. Espere-me aí, Oscarzinho, que quero vêr como está você. Não estará muito manhoso? É perigoso… Com tanto mimo dos Vovós e Tia Alice! Bom, adeusinho!

Deus o guarde e o abençoe!

13 de agosto de 1944 – Domingo.

Aqui estamos, em Lucélia, desde o dia 3. Estive em Campinas um mês, onde encontrei o Oscarzinho forte e esperto. Ele não me “estranhou”. Progrediu muito! Ficou ativo e compreende quasi tudo que se lhe diz. Arremeda o gato, faz “micagens” e imita o que a gente faz, aponta os 2 dedinhos para cima quando ouve o roncar do avião, fala nenen e mostra o retratinho dele na parede, gosta imensamente de ver a rua e diz: BRRUA! A Vovó ficou lá toda apaixonada por termos trazido o netinho dela. Tiramos o retratinho dele (12 pôses) no Eurides, na idade de 10 mêses e 10 dias. Ficou ótimo. Mandamos uma cópia para a Vovó de B. Horizonte. O Vovô Juca veio até Lucélia, para ajudar-nos trazer o “guri” e as malas.

No dia 8 deste mês, cêdo, descobri o 1º dentinho no Oscarzinho! Que festa! A mamãe queria logo vêr e foi preciso dar-lhe água no copo para ouvirmos o tinir do dente no vidro!

Nesse mesmo dia ele deu, sozinho, e em seguida, de uma só vez, 5 passinhos! Aleluia! Mas parece ter medo pois não quis repetir a façanha.

Em Tupã, no dia 4, conseguimos pesá-lo. Pesou, com roupa, 12 Ks e 800. Mas achei pouco, pois o moleque estava com um peso formidável.

Agora ele está um pouco resfriado, pois o pó e o vento de Lucélia não deixam ninguém sem resfriado.

Deus o guarde sempre!

o O o

7 de Setembro de 1944

“Louvae ao Senhor, porque Ele é bom”

Hoje o Oscarzinho faz 1 ano!

Amanheceu alegre e engraçadinho (como sempre!)

Está cada vez mais firme para andar! (Pois no dia 24 de agosto, com apenas 11 mêses e meio, ele começou a andar, e já desde manhã! Começou e não parou mais! Já anda pela casa toda!)

Ontem a mamãe fez umas balinhas de côco e queijo, e hoje já comemos bastantes delas. Logo cêdo a D. Eunice Lopes veio do sítio e trouxe um bôlo para o Oscarzinho (mas os papais é que o comeram!). Mais tarde a D. Elvira (do Sr. Roque) trouxe-lhe um pacotinho de bolachas. O Nêgo e a Nilza mandaram-lhe uma cartinha de parabens, com uma poesia e um verso da biblia (Ecl.12:1). Agora, à noite, a nossa vizinha, D. Rosa, mandou-lhe uma fazendinha muito bonitinha, para um calção. –

Mas a primeira coisa que o guri ganhou foi abraços e beijinhos do papae e da mamãe. As Vovós ainda não escreveram.

O Oscarzinho já fala “papae”, “mamãe”, “nenen”, “dá”, e mais alguns vocábulos que só ele, porém, entende.

Agora ele ja está dormindo. São 9 hs. da noite. A mamãe está lendo na rêde. — Vamos dormir também, pois está frio. –

Antes, porém, vamos “fazer” o culto de “ação de graças” pelas bênçãos de Deus.

Deus nos guarde!

o O o

7 de Setembro de 1945!…

O Oscarzinho hoje está fazendo 2 anos! Aleluia!

Faz um ano que não escrevo nada sobre ele. Quanto progresso nesse tempo! Hoje ele é um “homenzinho”! Já fala tudo e entende tudo! Fala quasi tudo com perfeição. – Estamos no Paraná, em Irati. – O Oscarzinho estranhou o clima, no começo, e adoeceu aqui, com um forte resfriado. O ouvido ficou inflamado. Sofremos muito. Quasi perdemos o garoto. Mas Deus o salvou.

O vocabulario do Oscarzinho é todo especial. Alguns exemplos: cocôlo (pescoço) Tolôta (tezoura) Colube (Sr. Rubens) Telêta (Tereza) Lili (chichi) Cacado (macaco) Lolôlo (cachorro) Cana (cama) Tutú (bala) Telêlo (travesseiro) Púc (peido) Guêla (igreja) Vovôi (favor) Lalão (feijão) Aca (agua) Inguila (linguiça). “Cazinho Vate” (Oscarzinho Chaves) – “Cazinho Vate do Papai e da Mamãe” (é o nome que ele se dá). – Gosta muito de ouvir música! Gosta de cantar. Quando há estática no radio ele diz: “Mamãe, rado tando puc”! (o rádio está soltando etc.). Para dormir agora, é necessário ir com ele para a cama e lá cantar, até ele dormir, qualquer hino. Ele escolhe e ajuda a cantar: “Papai, canta Quito pá mim”! (Cristo p’ra mim). Ou outro: “Eh vevê-lo” (Hei de vê-lo). – Ultimamente gosta muito do corinho: “Sou amigo de Jesús”. Ele pede e canta: “Migo Zuzú”. Faz oração à hora das refeições. Põe as mãosinhas nos olhos e responde: “Amén”. Às vezes repete o que a mãe lhe ensina: “Papai do céu, tato pelo papá – Amén”. (Papai do Céu, obrigado pelo papá). Gosta de lidar com o martelo, machadinha, prego, etc. Quando estou fazendo um trabalho pesado qualquer, ele vem agarra em qualquer coisa e diz: “Nenen luda papai” (Nenen ajuda o papai).

No 2º aniversário ele ganhou: do papai e mamãe, uma capinha, um par de botinha e um urso. Do Sr. Hermes Sene (filhinho): um caminhãozinho de madeira. Do sr. Angelo (batista) um saco de balas. De D. Walmir (batista) uma calcinha de brim; — Da Tia Alice: um urso grande, de pano. Do Vovô e Vovó: 2 terninhos e uma blusinha.

Agora ele está dormindo. Está forte e ativo. Deus o guarde e o abençoe!

o O o

Pois é. Deus tem ouvido a prece do meu pai ao longo desses 68 anos, desde que meu pai escreveu seu último relato em 7 de Setembro de 1945, no meu segundo aniversário, logo depois do fim da Segunda Guerra Mundial. Suas bênçãos têm sido multiplicadas nos últimos cinco anos, de longe os mais felizes de minha vida.

Em São Paulo, 11 de Setembro de 2013

It was a very good year

O ano de 2011 está chegando ao fim. Em menos de 72 horas, terá terminado.

Para mim, foi um ano muito bom. Pessoal e profissionalmente, não tenho nada que reclamar: foi um ano dos melhores.

Por isso, quero lhes deixar um presente: Frank Sinatra cantando “It was a very good year”. Há vários clips dele cantando essa música no YouTube. Escolhi o link abaixo, que tem um clip dele gravando a música, com narração do incomparável Walter Cronkite. É meio longo, quase dez minutos. Mas, na minha avaliação, cada segundo vale a pena.

Assim, se você gosta de boa música e/ou simplesmente gosta da voz de Sinatra, não deixe de ver.

Depois do link, coloco a letra da música, e um comentário, em Inglês, retirado da Wikipedia. Se você não lê Inglês, procure no Google: há traduções disponíveis.

Aqui vai.

It Was a Very Good Year

When I was seventeen,
 
It was a very good year

It was a very good year
For small town girls 

And soft summer nights 

We’d hide from the lights 

On the village green 

When I was seventeen.

When I was twenty-one,
It was a very good year

It was a very good year
For city girls

Who lived up the stairs 

With perfumed hair 

That came undone 

When I was twenty-one.



When I was thirty-five,
It was a very good year 

It was a very good year
For blue-blooded girls 

Of independent means 

We’d ride in limousines

Their chauffeurs would drive

When I was thirty-five.



But now the days are short,
I’m in the autumn of my years 

And I think of my life
As vintage wine 

From fine old kegs

From the brim to the dregs

It poured sweet and clear 

It was a very good year.

Yes, indeed.

“‘It Was a Very Good Year’ is a song composed by Ervin Drake in 1961 for and originally recorded by Bob Shane of The Kingston Trio[1][2] and subsequently made famous by Frank Sinatra‘s version in D-minor, which won the Grammy Award for Best Vocal Performance, Male in 1966. Gordon Jenkins was awarded Grammy Award for Best Instrumental Arrangement Accompanying Vocalist(s) for the Sinatra version. This single peaked at #28 on the U.S. pop chart and became Sinatra’s first #1 single on the Easy Listening.[3] The song can be found on Sinatra’s 1965 album September of My Years. A live, stripped-down performance is featured on his Sinatra at the Sands album.” (Wikipedia)

Espero que 2012 seja,  para você (e, naturalmente, para mim também), ainda melhor do que 2011 foi para mim.

Em São Paulo, 29 de Dezembro de 2011.

Sete anos deste blog!

Hoje faz sete anos que, por sugestão de minha amiga Marcia Teixeira, da Microsoft, abri uma conta no então Spaces, também da Microsoft, com o título de Liberal Space, para fazer um blog. A data era 2/12/2004. Eu estava, na hora que ela me chamou no Messenger, em Bothel, WA, perto da Microsoft e perto de Bellevue, para onde a Marcia acaba de mudar.

Hoje o blog está hospedado aqui no WordPress, por decisão da Microsoft, e contém mais de 700 artigos. Ultimamente não tenho escrito tanto nele porque tenho escrito no Blog das Editoras Ática e Scipione (http://blog.aticascipione.com.br). Mas este é o meu blog pessoal, pelo qual tenho enorme carinho.

Sete velinhas.

Em São Paulo, 2 de Dezembro de 2011

50 Anos de Carreira

Todo mundo anda fazendo 50 anos de carreira ultimamente… O Erasmo Carlos, o Tremendão, foi o último, no fim de Junho deste ano. Mas o Roberto Carlos fez antes dele, em 2009. O Renato Aragão, por sua vez, emplacou 50 de palhaçadas em 2010. O Chico Buarque também andou fazendo, se bem me lembro. E assim vai. Eu já era gente bem crescidinha quando eles todos começaram.

É um exercício interessante tentar definir o início da carreira da gente. Será que a gente tem consciência, na hora que está fazendo algo, que aquilo que a gente está fazendo vai ser o primeiro passo de uma longa carreira? Ou será que a gente só define o início da carreira em retrospectiva, depois que descobriu o que a gente realmente fez na vida?

Ao ver tanta gente mais ou menos da minha idade comemorando 50 anos de carreira, resolvi pensar sobre a minha carreira. E de pronto me envolvi em grandes dificuldades.

O grande problema que tive de enfrentar foi: qual é (foi, tem sido) a minha carreira? É possível dizer que seja a de Professor Universitário. Mas se é isso, quando a comecei? No dia em que dei minha primeira aula de Lógica na California State University at Hayward (hoje at East Bay), em Hayward, CA, EUA, no Outono americano de Setembro de 1972? Ou será que foi quando recebi a carta me oferecendo o emprego? Além disso, não gostei da ideia porque, se fosse isso, eu só iria comemorar 50 anos de carreira, querendo Deus, em 2022, daqui a onze longos anos. E se eu chegar a 2022, será que chegarei no exercício dessa carreira, para que possa comemorar 50 anos dela?

Pensei um pouco mais e resolvi resolver o problema de vez. Determinei que a minha carreira é a de Escritor – e decretei que ela começou em 1961, quando produzi meu primeiro trabalho escrito, enquanto cursava o primeiro ano do Curso Clássico do Instituto “José Manuel da Conceição” (JMC), em Jandira, SP. O trabalho teve o título “Pobre Muda de Dono mas não Muda de Sorte: Inspirado nas Fábulas de Esopo e de Fedro”, e foi escrito para a disciplina Língua Portuguesa, ministrada por meu caro mestre, Rev. Joaquim Machado. Eu ainda tenho esse trabalho, manuscrito, passado a limpo e em rascunho (este a lápis), redigido em folhas de caderno, com data de 9 de Abril de 1961. 

Antes desse trabalho creio que só escrevi cartas para a minha avó Angelina, para a minha Tia Alice e para os meus primos Anello e Márcia. Lembro-me também de ter escrito umas bobagenzinhas adolescentes nos Livros de Recordação de minhas primas Irene e Idília. Creio que elas me pediram para escrever um pouco por condescendência, pois eu era pouca coisa mais do que um pirralho na época e não merecia a honra… Além disso era primo, e o tal livro era destinado a avaliar os méritos literários (e a caligrafia, coisa importante então) dos diversos pretendentes… Principalmente a Irene tinha uma fila deles. Esnobou a todos e quase ficou solteirona…

Assim, fica para todo sempre decidido que o meu primeiro trabalho para o curso do “Machadinho” (era assim que nos referíamos ao professor, quando a uma distância confortável) foi o início da minha carreira de escritor, em 9 de Abril de 1961. Eu tinha dezessete anos e meio.

Assim, também estou comemorando este ano 50 anos de carreira. Foi nesse abençoado ano de 1961 que eu fui estudar no JMC e comecei minha vida de adulto – e minha vida profissional, pois carreira é um negócio pelo menos em parte profissional. Foi nesse ano que também preguei meu primeiro sermão – mas essa foi uma outra carreira que abandonei há muito tempo. Meus sermões, agora, são todos por escrito, aqui neste blog… E foi nesse ano que, no auge dos meus 17 anos, e mais ou menos na mesma data, eu me apaixonei seriamente pela primeira vez, pela Reaci Camargo, de Fartura. (O Rev. Elizeu Cremm, hoje meu pastor, então apenas meu amigo e colega, também se apaixonou, ele pela Marly Medeiros, que hoje é esposa dele. No caso deles, a coisa durou. No meu caso, não passou do primeiro ano na escola).

Depois desse primeiro trabalho, escrevi vários outros, em especial para o Rev. Renato Fiuza Telles (que chamávamos de “Renatinho”), meu professor de Literatura Portuguesa e Brasileira. Um deles, “As Cartas de Amor de Soror Mariana Alcoforado para o Cavaleiro de Chamilly”, me deu muito trabalho, pois precisei ir três vezes até a Biblioteca Municipal Mário de Andrade, em São Paulo, para conseguir ler o livrinho inteiro com as cartas apaixonadas da freirinha portuguesa que se perdeu de amor por um oficial francês. O trabalho me marcou tanto que hoje tenho duas cópias do livrinho, uma antiga, igual à que havia na biblioteca, a outra editada recentemente e vendida, por incrível que pareça, numa banca de jornal da Av. Paulista, em frente ao Conjunto Nacional. Outros trabalhos: A Carta de Achamento de Pero Vaz de Caminha (em que ele pede ao Rei um emprego para o genro), e mini-ensaios sobre Damião de Góis e sobre Oliveira Martins.

No curso de Literatura Brasileira – que também era ministrado pelo Renatinho – escrevi sobre Casemiro de Abreu (“O Poeta do Exílio”) e sobre Machado de Assis, e elaborei um sofisticado trabalho (para alguém de 18 anos) sobre Dom Casmurro de Machado de Assis: “Capitu, Culpada ou Inocente?” O título parecia original naquela época. Hoje é batido.

No curso de Redação em Língua Portuguesa, ministrado, nos dois semestres, em 1963, pelo Rev. Joaquim Machado, que era pai da minha amiga Dorotéa Machado Kerr, organista e maestrina de fama internacional (já tocou até para o Papa!), escrevi um trabalho sobre “Brasília, Capital da Esperança” (hoje reconheço aí um chavão), a propósito da inauguração da (então) nova capital… Esse trabalho foi submetido a um concurso de melhor redação (que, infelizmente, não ganhei – não me lembro quem venceu). Para avaliação pela banca, assinei-o com um pseudônimo: Dias de Caxuque.

Meus dotes literários e oratórios foram, quero crer, apreciados pelos meus pares, pois fui escolhido por eles para ser o Orador da Turma, quando de nossa formatura, em Novembro de 1963 – mês da morte de John Fitzgerald Kennedy. (No dia em que ele morreu, 22 de Novembro, nós, os formandos do Clássico e do Ginásio, estávamos em nossa Viagem de Formatura, naquele dia em uma praia em Florianópolis. Fomos levados por um ônibus da Viação São João da Boa Vista – São Paulo, dirigido por um motorista que era meu xará).

Em homenagem aos meus 50 anos de carreira, resolvi compilar uma lista de tudo o que já escrevi e, de alguma forma, divulguei. Incluí na lista trabalhos de escola, como os que acabei de mencionar (e outros) e os escritos na Graduação, no Mestrado e no Doutorado. Tenho-os todos. Incluí, naturalmente, os trabalhos publicados e os de tradução, bem como os divulgados apenas pela Internet – inclusos aí os artigos do meu blog principal, Liberal Space, onde escrevo agora, que já chegam, com este aqui, a 735. Ao todo, chegaram a 973 unidades. Se eu me cuidar bem, chego à marca do Pelé: mil gols literários…

Concluí, ao analisar os números, que, apesar de minha idade quase vetusta, a Internet liberou os meus dotes de escritor e me deixou soltinho, livre para escrever e até mesmo criar um certo estilo…

Como ninguém mais, além de mim, iria se lembrar de tudo isso, resolvi me prestar essa merecida homenagem e comemorar, em 2011, o meu laborioso e produtivo ano de 1961 e os meus 50 anos de carreira como escritor.

Em São Paulo, 13 de Julho de 2011

Seis Anos do Liberal Space

Hoje, 2 de Dezembro de 2010, este blog completa seis anos de idade. Todo ano celebro o aniversário aqui. Este ano não iria ser diferente.

Foram, ao longo desses seis anos, 650 posts, que mereceram cerca de 310 comentários dos leitores. São quase 110 posts por ano – cerca de um post a cada três dias e um terço.

Os assuntos foram variados, predominando, porém, a educação e a filosofia política.

Agradeço a todos os que têm me acompanhado nessa jornada.

Em São Bernardo do Campo, 2 de Dezembro de 2010

28 de Novembro de 2010

Hoje cedo, no Culto das Primícias (na última quinta-feira foi celebrado o Dia de Ação de Graças), na Primeira Igreja Presbiteriana Independente de São Paulo, a Catedral Evangélica, na Rua Nestor Pestana, ao lado do Teatro de Cultura Artística (que deveria estar em reforma, depois de um incêndio, mas está lá, abandonado, em esqueleto), a Paloma e eu formalmente nos tornamos membros daquela comunidade, que frequentávamos com regularidade desde 2008.

A primeira igreja tem uma bela história. É a primeira igreja presbiteriana de São Paulo, fundada há 145 anos. A Primeira Igreja Presbiteriana de São Paulo (ainda não era Independente então) foi organizada no dia 5 de março de 1865, pelos missionários norte-americanos Ashbel Green Simonton (o primeiro missionário presbiteriano a vir ao Brasil, que chegou ao Rio de Janeiro no dia 12 de agosto de 1859) e Alexander L. Blackford (seu cunhado). Bkackford foi seu primeiro pastor.

Com o cisma de 1903, que criou a ala Independentemente da Igreja Presbiteriana, a igreja acompanhou os que saíam. O Rev. Eduardo Carlos Pereira, também famoso gramático, ficou com os independentes, que se opunham aos vínculos da Igreja Presbiteriana com a missão americana e ao fato de que os presbiterianos não impediam que seus crentes e pastores fossem maçons.

Antes da divisão, porém, “a Primeira Igreja foi o berço do Mackenzie College [hoje Universidade Presbiteriana Mackenzie], da Associação Cristã de Moços (ACM), do Hospital Samaritano, da Associação Evangélica Beneficente (AEB), [e] do Seminário Teológico de São Paulo”. Foi nela que se procedeu a divisão entre a Igreja Presbiteriana e a Igreja Presbiteriana Independente do Brasil, criada em 31 de julho de 1903 sob a liderança do Rev. Eduardo Carlos Pereira, então pastor da igreja.

A Primeira Igreja só teve treze pastores titulares ao longo dos seus 145 anos de vida – o último deles, o Rev. Valdinei, assumindo este ano.

Foram pastores da Primeira Igreja: 

De 1865 a 1867 – Rev. Alexander L. Blackford
De 1867 a 1887 – Rev. George W. Chamberlain
De 1887 a 1888 – Rev. Modesto Perestrello Barros de Carvalhosa
De 1888 a 1923 – Rev. Eduardo Carlos Pereira
De 1923 a 1924 – Rev. José Maurício Higgins
De 1925 a 1931 – Rev. Otoniel Mota
De 1931 a 1933 – Rev. Isaac Gonçalves do Valle
De 1933 a 1958 – Rev. Jorge Bertolaso Stella
De 1959 a 1962 – Rev. Aretino Pereira de Matos
De 1963 a 1971 – Rev. Daily Rezende França
De 1971 a 1973 – Rev. Sérgio Paulo Freddi
De 1973  a 2009 – Rev. Abival Pires da Silveira
Desde 2010 – Rev. Valdinei Aparecido Ferreira

A igreja, naturalmente, não esteve sempre ali na Rua Nestor Pestana. Se não me engano, começou na Rua 24 de Maio, no centrinho da cidade.

Há uma breve história da igreja no seu site:

http://www.catedralonline.com.br/index.php?option=com_content&view=article&id=49&Itemid=114

Eis algumas fotos da fachada e da nave da igreja, retiradas do próprio site:

Frontal-3

Frontal-1

Interna-1

O Rev. Elizeu Rodrigues Cremm é Pastor Auxiliar da igreja há muito tempo. Ele foi meu colega no Instituto José Manuel da Conceição (JMC), em Jandira, São Paulo, em 1961-1962. Foi um privilégio ser recebido na igreja hoje por ele e pelo Rev. Valdinei. O Elizeu é um dos poucos colegas do JMC que continuei a chamar amigo e irmão (num sentido que vai muito além do religioso) nestes quase 50 anos, desde que nos conhecemos no JMC.

Eis duas fotos dele, retiradas da Internet:

 

Elizeu-1

 

Elizeu-2

Nos próximos dias, quem sabe meses, irei discutir um pouco essa decisão minha de voltar para a igreja. Esclareço que a decisão, enquanto processo, foi tomada com cuidado e responsabilidade, e que a escolha da Primeira Igreja tem profundas raízes na minha história.

Quando estudei no JMC, de 1961 a 1963, convivi com algumas pessoas que tiveram um papel importante na minha decisão de optar pela Primeira Igreja agora – um deles já falecido.

O primeiro, João Wilson Faustini, que, quando o conheci, era “apenas” professor, maestro e compositor, hoje é pastor e uma das maiores autoridades em música sacra no Brasil. Ele regia os corais do JMC. Sob sua batuta, cantei na Primeira Igreja várias vezes, em audições de Páscoa e de Natal. Ainda sob sua regência, cantei no Teatro Municipal de São Paulo, duas vezes, em uma delas, bem me lembro, uma Cantata de Dietrich Buxtehude. Ainda regido por ele, cantei no Coral de Mil Vozes que, na Concha Acústica do Pacaembu, abrilhantou a impressionante campanha de Billy Graham no Brasil no início da década de sessenta. Lembro-me dessas ocasiões todas como se tivessem acontecido hoje – e o Faustini, hoje querido amigo, esteve presente em todas elas. Para mim, o Faustini está identificado com a Primeira Igreja, mais do que qualquer outra.

(Sou amigo de boa parte dos irmãos e da família estendida Faustini. Adoro a Martha e a Loyde, as mulheres da família. A Martha foi colega de meu pai no JMC nos anos 30. É minha amiga até hoje. Sua voz acalentou minha meninice e juventude, no dueto de Jesus o Bom Pastor, com Carlos René Egg, que veio a se tornar seu marido. Com a Loyde vim a conviver bastante na Associação dos Ex-Alunos do Instituto José Manuel da Conceição. Fui colega do Marcos, no JMC. Sou amigo dele até hoje. Mais recentemente fiquei conhecendo o Sérgio, que é diácono da Primeira Igreja. Mais recentemente ainda fiquei amigo do Volney, sobrinho da Faustinada… Curiosamente, o João mora hoje em Irati, PR, com sua segunda mulher, Rosi. Morei lá quando criança pequena, em 1944.).

O segundo, Jonas Christensen, era meu colega de classe no JMC. Maestro, compositor, cantor, era um gênio precoce da música – que também precocemente nos foi tirado. Moramos no mesmo quarto em 1962, quando estávamos ambos no segundo ano do Curso Clássico. Ele morava em Osasco e era o regente do Coral Johann Sebastian Bach da Quinta Igreja Presbiteriana Independente de São Paulo (a primeira de Osasco). Ele me levou para cantar nesse coral – com o qual viajei por várias cidades. Levou-me também para cantar no Coral Johann Sebastian Bach de São Paulo. Foi com ele que fiquei conhecendo o Teatro Municipal de São Paulo, em 1962, que eu nunca havia visitado. Assistimos lá audições inesquecíveis, como a d’O Cravo Bem Temperado, com João Carlos Martins, e a da Nona Sinfonia de Beethoven (na companhia do Faustini). Fiquei freguez dos Concertos Matinais Mercedes Benz. O Jonas criou um octeto, do qual eu era membro, para cantar em casamentos na Primeira Igreja. É isso que liga o Jonas à Primeira Igreja em minha memória.

O terceiro é o Elizeu. Ele veio a se tornar pastor da Primeira Igreja muito depois. Nessa condição, abrigou ali as principais reuniões da Associação dos Ex-Alunos do Instituto José Manuel da Conceição, criada em 1992, da qual eu tive o privilégio de ser presidente por um período. O Elizeu e eu éramos colegas de paixão no JMC (lá chamada, por razões que desconheço, de “butina”). Em 1961 ele começou a namorar a Marli, que veio a se tornar mulher dele, e eu a Reaci Camargo. No JMC era proibido namorar de qualquer forma que fosse além de olhares. As moças moravam de um lado do vale, os rapazes de outro. Passávamos boa parte da tarde sentados, um ao lado do outro, olhando para além do vale, na esperança de ver a namorada…  O namoro dele frutificou. O meu chegou ao fim com o final do ano.  Mas os nossos respectivos namoros cimentaram a nossa amizade.

No culto de hoje, estavam presentes as seguintes pessoas que viveram parte de suas vidas no JMC:

  • Elizeu Cremm (colega meu, já comentado)
  • Marli Cremm (colega minha, mulher do Elizeu, já comentada)
  • Martha Faustini (já comentada)
  • Loyde Faustini (já comentada)
  • Isva Xavier (era secretária da escola)
  • Reinhold Felipe Ortlieb (colega meu, colega de classe do Elizeu)
  • João Rhonaldo (colega meu)

Assim, a partir de hoje, 28 de Novembro de 2010, a Paloma e eu somos membros da Primeira Igreja Presbiteriana Independente de São Paulo. Apesar de ter ficado afastado da igreja durante cerca de 40 anos, sinto-me totalmente em casa na Primeira Igreja.

Além de nós dois, foram aceitos quinze outros membros na Primeira Igreja hoje. A Igreja Presbiteriana recebe novos membros por Batismo e Profissão de Fé, por Transferência e por Jusrisdição a Pedido.

O Batismo e a Profissão de Fé se aplicam a pessoas que querem se tornar membros da igreja mas não foram batizados antes nem fizeram sua pública profissão de fé em alguma Igreja Presbiteriana ou em alguma igreja co-irmã. O Batismo, na Igreja Presbiteriana, em geral se faz na infância para os que nasceram em um lar pertencente à igreja. A Profissão de Fé só acontece quando a pessoa já é adulta ou tem condições de decidir por si mesma. É possível, portanto, fazer a admissão de um novo membro adulto por Batismo e Profissão de Fé ou apenas por Profissão de Fé.

(Eu fui batizado na infância, na Igreja Presbiteriana de Campinas, pelo Rev. José Borges dos Santos Júnior. A Paloma foi batizada na infância (15 de Maio de 1977) na Igreja Metodista de Itaquera e, posteriormente, foi rebatizada por imersão na Igreja Evangélica (hoje Evangélica Ágape) de Ubatuba, em 1991. Eu fiz minha profissão de fé aos 17 anos, em 1960. O meu pai, Rev. Oscar Chaves, foi quem presidiu a cerimônia. O batismo adulto da Paloma corresponde a uma profissão de fé.)

A Transferência acontece quando uma pessoa que frequentava uma Igreja Presbiteriana (ou co-irmã) muda de cidade, ou de local dentro de uma mesma cidade, e passa a frequentar uma outra igreja. Nesse caso, pode pedir à igreja anterior que envie, para a nova igreja, a sua Carta de Transferência.

Por fim, a admissão por Jurisdição a Pedido se dá quando alguém, que já foi batizado e já fez sua Profissão de Fé, simplesmente solicita a uma igreja que o aceite como membro. Isso acontece quando é difícil obter cópia de uma Carta de Transferência. No meu caso, a última Igreja Presbiteriana de que fui membro no Brasil (até 1967, quando me mudei para os Estados Unidos) foi a Igreja Presbiteriana do Jardim das Oliveiras, em São Paulo. Dado que fiquei fora de lá por 43 anos, é pouco provável que a obtenção de uma Carta de Transferência, hoje, fosse viável. No caso da Paloma, não sabíamos qual seria exatamente a resposta da Igreja Batista do Povo, que foi a última igreja de que foi membro – até que deixou de frequentar em Setembro de 2008.

Conosco as seguintes pessoas foram admitidas à Primeira Igreja hoje:

Por Batismo e Profissão de Fé:

  • Anderson Luís Barreto
  • Oscar Henrique Claros Lacerda

Por Profissão de Fé apenas:

  • Andreza Soares Martins
  • Márcia Garcia Fuentes
  • Marcos Alexandre de Souza Oliveira
  • Maristela Lacerda do Nascimento
  • Marluce Aragão dos Santos
  • Roberto Bernardique Júnior

Por Transferência:

  • Edinice Francisca Santos
  • Eduardo Leonel Correa Cardoso
  • Gerson de Andrade Correa
  • Luís Augusto de Souza Correa
  • Maria Aparecida de S. Andrade Correa
  • Priscila Rocha Cunha

Por Jurisdição a Pedido

  • Delza Maria de Souza Oliveira
  • Paloma Epprecht e Machado
  • Eduardo Oscar de Campos Chaves

Em tempo: a Bianca e a Priscilla, filhas da Paloma e, portanto, minhas enteadas, estavam conosco na Primeira Igreja hoje de manhã. Ficamos muito contentes com a companhia delas.

Enfim, por ora, é só.

Em São Paulo, 28 de Novembro de 2010

Coerência vs Incoerências

Achei tão interessante o artigo de  Contardo Calligaris na Folha de hoje (25/11/2010) que o transcrevo na íntegra, na íntegra, abaixo.

Só tenho um comentário a adicionar – mas o considero importante. Contardo parece considerar a coerência prioritariamente do ponto de vista moral: coerência de nossos princípios morais uns com os outros e coerência deles com a nossa conduta, com a nossa prática.

Há uma outra coerência que me interessa muito no momento: a coerência intelectual. Não me refiro tanto ao fato de que muitos de nós mantemos convicções intelectuais, num determinado momento de nossas vidas, que conflitam, uma com a outra naquele mesmo momento. Talvez seja a essa incoerência a que mais choca. Refiro-me, isto sim, e também, ao fato de que muitos de nós mudamos de opinião, muitas vezes, ao longo do tempo, ao longo da nossa história de vida. O que pensamos hoje não é (mais) o que pensávamos há 50 anos, nem há 30, nem há 15, nem há 5 anos. Nós mudamos de opiniões. Eu, com Calligaris, tendo a dizer, felizmente. (E talvez seja coerente nisso: toda vez que mudei de convicção sobre questões importantes, fiquei feliz com a mudança, e convivi bem com ela, até que novas circunstâncias me obrigaram a, mais uma vez, rever os meus conceitos, e mudar de opinião ainda uma vez.)

(Falo em “mudar de convicção” em vez de falar simplesmente em “mudar de opinião” porque se trata, aqui, de opiniões básicas, importantes, acerca das quais adquiri convicção que me pareceu, na ocasião, bastante bem fundamentada).

Diante disso, a pergunta que levanto é: há uma coerência mais básica, mais profunda, por debaixo de nossas mudanças de convicções mais aparentes? Uma coerência, por exemplo, na convicção de que convicções são coisas que devem ser reconstruídas face às mudanças que encontramos no mundo, face às circunstâncias diversas que enfrentamos, face a novas dimensões descobertas na vida, face a novos relacionamentos humanos, no sentido mais geral, e pessoais, íntimos, emocionais, em que nos engajamos?

Admiro gente como Graham Greene, que se converteu para o Catolicismo, vindo do Anglicanismo. Ou, mais ainda, C. S. Lewis, que era ateu e virou cristão. Ou, ainda, C. S. Lewis, que manteve em grande medida suas convicções, mas deu-lhes uma nova tonalidade, mais humana, a partir de seu relacionamento (e retardado casamento) com Joy Gresham, divorciada, com filho, que bagunçou a vida a dele mas lhe trouxe uma nova dimensão na vida. Ela, ele a perdeu para o câncer, mas a vida que ela lhe trouxe ficou dele — e de todos nós que o lemos e admiramos — para o resto do tempo. Coerência? Não. Coragem de mudar — mudar convicções intelectuais, princípios morais, conduta, a vida enfim. Quem não viu ainda, veja o mais rápido possível, Shadowlands (1993), o magistral filme que conta o relacionamento de C. S. Lewis com Joy Gresham. O filme é dirigido por Richard Attenborough. O título no Brasil parece-me ser Terra de Sombras. Em Portugal parece ser Terras de Penumbra.

É esse o meu comentário à brilhante análise de Contardo Calligaris.

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http://www1.folha.uol.com.br/fsp/ilustrad/fq2511201033.htm

CONTARDO CALLIGARIS

A coerência é um valor moral?

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A coerência é o último refúgio de quem tem pouca fantasia e, talvez, de quem tem pouca coragem
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NO FIM de semana retrasado, estive em Olinda, na Fliporto (Feira Literária Internacional de Pernambuco). No sábado, Benjamin Moser, que escreveu uma linda biografia de Clarice Lispector (“Clarice,”, Cosac Naify), lembrou que, na famosa entrevista concedida à TV Cultura em 1977, a escritora afirmou que não fizera concessões, não que soubesse.

Moser acrescentou imediatamente que ele não poderia dizer o mesmo. E eis que o público se manifestou com um aplauso caloroso.

Talvez as palmas de admiração fossem pela suposta coerência adamantina de Clarice, que nunca teria feito concessões na vida.

Talvez elas se destinassem a Benjamin Moser pela admissão sincera de que ele (como todos nós) não poderia dizer o mesmo que disse Clarice.

Tanto faz. Nos dois casos, o pressuposto é o mesmo. Que as palmas fossem pela força de caráter de Clarice ou pela honestidade de Moser ao reconhecer sua própria fraqueza, de qualquer forma, não fazer concessões parecia ser, para os presentes, uma marca de excelência moral.

A pergunta surgiu em mim na hora: será que é mesmo? Posso respeitar a tenacidade corajosa de quem se mantém fiel a suas convicções, mas no que ela difere da teima de quem se esconde atrás dessa fidelidade porque não sabe negociar com quem pensa diferente e com o emaranhado das circunstâncias que mudam? Aplicar princípios e nunca se afastar deles é uma prova de coragem? Ou é a covardice de quem evita se sujar com as nuances da vida concreta?

Como muitos outros, se não como todo mundo, cresci pensando que não fazer concessões é uma coisa boa.

Fui criado na ideia de que há valores não negociáveis e mais importantes do que a própria vida (dos outros e da gente). Talvez por isso me impressionasse a intransigência dos mártires cristãos (embora eu tivesse uma certa simpatia envergonhada por Pedro renegando Jesus para evitar ser reconhecido e preso).

Durante anos admirei os bolcheviques por eles serem homens de ferro (a expressão é de Maiakóvski, nada a ver com “Iron Man”) e desprezei Karl Kautsky, que Lênin estigmatizou para sempre como “o renegado Kautsky”, por ele ter mudado de opinião sobre a Primeira Guerra, sobre a revolução proletária, sobre o bolchevismo etc.

Vingança da história: Lênin se tornou quase ilegível, mas a obra principal de Kautsky, que acaba de ser traduzida, “A Origem do Cristianismo” (Civilização Brasileira), continua crucial.

Mas voltemos ao assunto. Hoje, estou mais para Kautsky do que para bolchevique; até porque descobri, desde então, que Mussolini se vangloriava gritando: “Eu me quebro, mas não me dobro”. Ele se quebrou mesmo, enquanto eu me dobro e posso renegar ideias minhas que pareçam ser, de repente, inadequadas ao momento (dos outros, do mundo e meu).

Olhando para trás, descubro (com certo orgulho) que, ao longo da vida, fiz inúmeras concessões, inclusive na hora de escolhas fundamentais. Poucas vezes lamentei não ter sido coerente. Mas muitas vezes lamento não ter sabido fazer as concessões necessárias, por exemplo, na hora de ajustar meu desejo ao desejo de pessoas que amava e de quem, portanto, tive que me afastar.

Alguém dirá: espere aí, então a fidelidade a princípios e valores não é uma condição da moralidade?

Estou lendo (vorazmente) “O Ponto de Vista do Outro”, de Jurandir Freire Costa (Garamond). O livro é, no mínimo, uma demonstração de que a forma moderna da moral não é o princípio, mas o dilema. E, no dilema, o que importa não é a fidelidade intransigente a valores estabelecidos; no dilema, o que importa é, ao contrário, nossa capacidade de transigir com as situações concretas e com os outros concretos.

A coerência é uma virtude só para quem se orienta por princípios. Para o indivíduo moral, que se orienta (e desorienta) por dilemas, a coerência não é uma virtude, ao contrário, é uma fuga (um tanto covarde) da complexidade concreta. Oscar Wilde, que é um grande fustigador de nossas falsas certezas morais, disse que “a coerência é o último refúgio de quem tem pouca fantasia” e, eu acrescentaria, de quem tem pouca coragem.

Resta absolver Clarice. Aquela frase da entrevista era, provavelmente, apenas uma reverência retórica a um lugar-comum de nosso moralismo trivial.

ccalligari@uol.com.br

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Em Monte Alegre do Sul, 25 de Novembro de 2010

A referência bibliográfica do Calligaris sobre o aborto

No finzinho do artigo do Calligaris na Folha de S. Paulo de ontem (14/10/2010), que eu transcrevi em outro post, ele recomenda a leitura de um livro sobre o aborto.

Diz ele:

“Depois desse preâmbulo, talvez eu consiga, numa coluna futura, escrever sobre a questão do aborto. Enquanto isso, eis uma leitura que recomendo a todos os que preferem pensar a gritar: O Drama do Aborto: Em Busca de um Consenso, de dois médicos, A. Faúndes e J. Barzelatto (Komedi). Sobre o tema, talvez esse seja o escrito mais honesto, menos tendencioso e mais generoso que já li.”

Não li esse livro específico, mas conheco o Faúndes. Fui colega dele na UNICAMP por vários anos e trabalhamos juntos na Secretaria Estadual da Saúde, quando o Pinotti era secretário (1987-1990). O Faúndes é chileno e médico obstetra e ginecologista. Admiro muito a pessoa, especialmente sua coragem. Uma vez ele deu uma entrevista a um jornal e disse que ele, dependendo das circunstâncias, fazia abortos, mesmo fora das condições que a lei atual prevê. Levou um monte de bordoada, foi até ameaçado de processo e censura da UNICAMP, mas (acredito) nada acabou acontecendo. Afinal, estamos no Brasil. Mas a coragem dele de admitir publicamente e sem tergiversações as suas convicções e as suas ações, coerentes com suas convicções, sempre foi objeto de minha grande admiração.

Na década de 80, quando estávamos os três na Secretaria da Saúde, publicamos um livro em co-autoria: Uma Nova Estratégia para a Área Social (São Paulo, 1988; José Aristodemo Pinotti, Eduardo O C Chaves e Anibal Faundes).

Vou procurar o livro que o Calligaris recomenda e comprar – apesar de não acreditar que um consenso seja alcançável “na espécie”, como dizem os advogados.

Em São Paulo, 15 de Outubro de 2010