James Patrick Maher, In Memoriam

Jim Maher está morto. Eu o conheci em 1976, quando ele veio para a UNICAMP, recém doutorado em Bowling Green State University, universidade com cuja School of Education a Faculdade de Educação da UNICAMP tinha um convênio.

Era especializado em metodologia da pesquisa experimental e estatística. Conseguia ficar entusiasmado com questões que passavam longe de meus interesses e até mesmo de minha compreensão.

Como ele não falava quase nenhum Português, embora casado com uma brasileira, a Teca, ficamos amigos, ele, Raymond Paul Shepard e eu, que falava bem Inglês.

A amizade durou o tempo todo, até agora, quando de sua morte. Eu gostava dele – e ele, aparentemente de mim. Apoiou-me em todas as brigas que eu tive naquela instituição. E, aqui entre nós, não foram poucas.

Agora, ele se foi. Era mais novo do que eu, e foi-se antes. Comigo, vai deixar saudade.

A Faculdade de Educação que a gente construiu até 1988, por aí, e que era consistentemente considerada a melhor do país, está terminando, com mortes e aposentadorias.

Bye, Jim.

Em São Paulo, 24 de Outubro de 2009

Gabriel

Gabriel e eu

Hoje o Gabriel faz dez anos. A foto acima foi tirada no início de 2005, quando ele tinha acabado de fazer cinco aninhos – metade do que faz hoje.

Parece que foi ontem que ele nasceu, ali na Maternidade de Campinas, na Av. Orozimbo Maia, branquelo, magrinho, de pernas tortas. Hoje está grande, forte, inteligente, esperto, lindo, sensível, carinhoso como ele só.

Passaram-se dez anos. Uma década inteira. Quanta coisa aconteceu durante esse tempo…

Para quem não sabe, o Gabriel é meu neto – o meu neto mais velho. Quem quiser descobrir um pouco daquilo que o Gabriel representa para mim, sugiro que vejam o filminho que fiz sobre ele e mim, quando ele não tinha nem cinco anos. O filminho está disponível no site:

http://www.contaoutra.net/

No site, entre na seção exemplos e escolha o vídeo:

“Gabriel & Eu”

Ou, se quiser ir direto, o endereço é:

http://www.contaoutra.net/exemplos/gabriel.wmv

Meu relacionamento com o Gabriel sempre foi motivo de algum ciúme para os meus outros filhos, que acham que, talvez por ele ter sido o primeiro neto, eu não venha a amar os outros tanto quanto o amo. Amo a todos, naturalmente. Mas não nego que meu relacionamento com o Gabriel é especial – mais por ele do que por mim. Por alguma razão que não sei explicar direito, ele e eu desenvolvemos um relacionamento especial do qual os outros ficam enciumados.

Mesmo nos últimos treze meses, desde que me separei da avó dele, o meu relacionamento com ele continuou a ser especial, a despeito do esforço feito por alguns (e da torcida de outros) para que esse relacionamento ficasse prejudicado ou, pelo menos, esfriasse. Não ficou prejudicado nem esfriou, felizmente. Talvez a cabecinha dele tenha ficado um pouco confusa no início, mas depois, pouco a pouco, ele voltou a perceber e a entender que o meu amor para com ele não havia se alterado em nada – e, portanto, que nosso relacionamento poderia continuar como sempre foi. Ele percebeu e entendeu que o que importa não é tanto a quantidade das vezes que nos vemos (embora ambos queiramos nos ver mais), mas a qualidade do que sentimos um pelo outro, quando estamos juntos – e, mais importante ainda, mesmo quando estamos distantes um do outro. Neste mês de Setembro nos vimos duas vezes: no dia 3 e no dia 16. Eis duas fotos tiradas no dia 3/9, no Shopping Iguatemi Campinas:

03092009232 03092009234


Feliz Aniversário, Gabriel. Amo você. Um abraço e um beijo, de longe. Gostaria de estar com você hoje. Mas, em certo sentido, muito especial, estou – sempre estou.

Em São Paulo, 30 de Setembro de 2009

Setembro

Setembro é, para mim, o mês de aniversários, por excelência: o meu, o de parentes amados e o de amigos queridos. A maioria, alegre. Um, especialmente triste.

Ei-los, por dia do mês:

1: Les Foltos

2: Rodrigo (filho, casamento)

3: Josira (tia)

6: Paloma e eu (vida em comum)

7: Magda Soares, Adriana Carnevalli, eu

8: Nivaldo Marcusso, Salah Mandil

9: Guilherme (neto, nascimento), Daniel Sigulem, Maurício Prates

11: Mary Grace, José Antonio

13: Júlia (sobrinha)

15: Guilherme (neto, morte, com uma semana), Rubem Alves

17: Priscilla (filha)

27: Aline (sobrinha)

30: Gabriel (neto).

Os parentes estão indicados em parênteses. O restante, tirante naturalmente a Paloma, é amigo.

Em São Paulo, 1º de Setembro de 2009.

Virginianos

Sou virginiano.

Nasci num 7 de Setembro (aniversário chegando).

Desde pequeno ouço observações de que virginianos são detalhistas, quase maníacos por acertar as coisas de acordo com algum esquema que têm na cabeça.

Não sei se porque ouvi isso desde criança, ou realmente porque virginianos são mesmo assim, ou ambas as coisas, confesso que sou meio maníaco por detalhe. E, às vezes, admito, os detalhes mais bestas.

Alguns exemplos.

Quando coloco as notas de dinheiro no bolso (não uso carteira), elas têm de estar todas arrumadas, do valor maior para o menor, sempre na mesma posição: a cara do mesmo lado (e não de cabeça para baixo). [A propósito, detesto andar com notas de Euros no bolso: cada uma tem um tamanho. É uma desgraça: impossível de arranjá-las direito. Admiro os dólares por sua uni-tamanhicidade].

Quando arrumo chaves em um chaveiro, elas têm de estar todas com a serrinha virada para o mesmo lado e devem obedecer a uma seqüência relacionada da mais usada para a menos usada. Tanto quanto possível, desde que não viole os princípios anteriores, coloco-as também da maior para a menor.

Quando arrumo ternos ou camisas no guarda-roupa, a frente dos ternos ou das camisas tem de estar virada para o mesmo lado – e o ganho do cabide tem de estar virado para o mesmo lado também.

Quando arrumo alguma coisa em uma estante (como, por exemplo, as corujinhas da minha coleção de corujas aqui no sítio), elas têm de estar agrupadas de uma certa forma. (Deixei a Paloma ajeitá-las, recentemente, e, felizmente, ela fez um arranjo bem a gosto do mais exigente virginiano).

Quando vejo um quadro meio tortinho na parede, sinto uma vontade quase irresistível de arrumá-lo – ainda que a parede seja da casa de outra pessoa… Idem em relação a livros ou revistas dispostos na mesa de centro – mesmo que esta seja de uma sala que estou visitando,  ou da sala de espera de um médico ou dentista. Em casa, chego a medir com trena os espaços laterais de um móvel qualquer, que, na minha opinião, deveria estar centrado numa determinada posição, para verificar se são exatamente iguais… As duas pontas do cordão do sapato (as que a gente amarra) têm de ter absolutamente o mesmo tamanho, antes e depois de amarradas… Quando uso gravata (felizmente, agora, coisa rara), a parte de trás da gravata tem de ter um centímetro a menos do que a da frente, para que fique escondidinha… Para não aparecer pelos lados, passo-a por dentro da etiqueta com a marca da gravata…

No Desktop (Área de Trabalho) do Microsoft Windows, tenho sistemas bastante complexos e sofisticados para determinar onde cada ícone deve ficar, quais devem estar também no Launch Pad, e assim por diante. Se alguém mexer, ou se o Windows resolver rearranjar tudo, fico irado (e a ira não é muito santa).

Por falar em computador, lembrei-me dos tempos da máquina de escrever. (Se houver alguma criança lendo, uma máquina de escrever era algo assim parecido com um computador, só que aquilo que a gente digitava já ia sendo impresso direto, na hora – um grande barato!). Apesar de nunca ter feito curso de datilografia, minhas linhas tinham de ser todas justificadas à direita – ainda que tivesse de ficar contando os espaços restantes na linha para conseguir que o fim da palavra, ou o fim de uma sílaba, mais o hífen, ficassem certinhos no último espaço disponível em cada linha… Se errasse nesse esforço, ou se cometesse algum erro de datilografia (crianças: leia-se, digitação), ainda que fosse no finzinho da página, arrancava o papel e digitava tudo de novo… Por aí se pode ver por que sou grato aos computadores e a Microsoft Word… Sai tudo justificadinho, sem que eu precise ficar contando os espaços faltantes, um erro pode ser corrigido com facilidade, antes de imprimir, e ninguém percebe que ele existiu!

E assim vai.

Não é fácil ser virginiano. Até minha bagunça tem sua própria ordem. Meu escritório pode parecer absolutamente ilógico ao não-virginiano, mas tem sua lógica: se alguém mexer em algo, imediatamente percebo.

Mas não lamento. Se pudesse nascer de novo, e tivesse direito de escolha, escolheria ser virginiano – nascido mais uma vez no dia 7 de Setembro. Só que às 12h, exatamente no meio do dia, e não às 21h45, como nasci desta vez.

[PS. No site de Horóscopo de Rick Levine (http://www.tarot.com), diz-se isso, de forma genérica, acerca de virginianos:

“The Virgin is highly discriminating, but not necessarily as prudish at some might believe. In ancient times, a Virgin was a woman who was not the property of man, and therefore had the legal right to just say "no." Now, in modern times, you Virgos are known for your ability to be highly discriminating — especially when it comes to matters of personal desire. When you are ready, however, to say yes, the laser-like focus of your passion is anything but prudish.

You Virgos have the uncanny sense to see what’s wrong with a person, a situation or your environment. It’s why you make such natural critics. Your practical analytical abilities are second to none. Your mental process may not be the most creative, but your razor-like thinking is highly effective. Like the maiden pictured in your glyph, you separate the useful wheat from the unneeded chafe, the good from the bad. You might be a "clean freak," but most Virgos have a messy closet somewhere or a disaster under their bed.

Your motto could be "Perfect is almost good enough." On one hand, this trait makes you very employable, for you’re not likely to do shabby work. On the other hand, you can be so finicky that you put limitations on your interactions and experiences before they happen. You’ll be happier if you can learn to be selectively less critical, both of others and yourself.”

Apesar de haver uns trechos que eu preferisse que não fossem revelados, considero esse relato elogioso…]

[Agradeço às inúmeras respostas a uma versão anterior deste post republicada (por RSS) no FaceBook – todas elas muito simpáticas, se bem com algumas assim meio beirando à condescendência…]

Em Salto, 20 de Agosto de 2009 (modificado um pouco no dia seguinte).

19 de agosto de 1967

No dia em epígrafe (como se diz em burocratês) fiz minha primeira viagem para os Estados Unidos (na verdade, minha primeira viagem para o exterior). Voei num Boeing 707 da PanAm, que saiu de Viracopos, em Campinas (era o aeroporto velho, decrépito), parou no Galeão, no Rio (era o aeroporto velho ainda, também decrépito), e foi para o Aeroporto Kennedy, em Nova York. De Nova York peguei um vôo da TWA (TransWorld Airlines) para Pittsburgh. Tanto a PanAm como a TWA sobrevivem apenas In Memoriam.

Essa minha primeira viagem aos Estados Unidos foi longa – durou sete anos. Só voltei de lá no dia 7 de junho de 1974, para vir trabalhar na UNICAMP. No interim só saí dos Estados Unidos umas duas ou três vezes para ir ao Canadá. Fiquei nos Estados Unidos esse tempo todo, sem voltar para o Brasil sequer uma vez, porque os tempos eram outros: eu era um estudante sem dinheiro e o preço das passagens aéreas (e mesmo dos telefonemas internacionais) era proibitivo… E o mar aqui no Brasil de 1967 a 1974 não estava pra peixe… 😦

Faz, hoje, portanto, quarenta e dois anos que saí do Brasil para estudar, porque as portas se fechavam para mim por aqui. Muitos ainda saem do país hoje, porque portas diferentes se lhes fecham.

Antes desse dia, eu estudava (e trabalhava) aqui no Brasil.

Meu primeiro emprego na vida foi iniciado no dia 2/1/1959 – eu tinha quinze anos (ainda era “de menor”, portanto) e nesse dia comecei a trabalhar como escriturário no Banco Indústria e Comércio de Santa Catarina S/A (INCO), que tinha matriz em Itajaí, na filial de Santo André, na Rua General Glicério, no rumo da estação do trem.

No ano de 1959 eu cursava a quarta série do Ginásio (equivalente à oitava série ou nono ano do Ensino Fundamental de hoje). Quase perdi o ano, porque tinha de ficar depois do expediente no banco “procurando diferenças” entre a contabilidade e o caixa…

Trabalhei cerca de nove meses no INCO e me transferi, em Outubro de 1959, quando já tinha dezesseis anos, para a Companhia Swift do Brasil S/A, em Utinga, bairro de Santo André, onde fui contratado como Faturista e, depois, promovido para Analista de Custos.

Registre-se que em 1960 comecei a fazer o curso Científico (Ensino Médio para aqueles que pretendiam seguir carreiras na área de Ciências Exatas e Engenharias), mas desisti no meio do ano. Não era minha praia.

Só saí da Swift porque me senti chamado para estudar para o ministério – queria ser pastor. Depois de conversar com meus pais, decidi ir fazer o curso Clássico (Ensino Médio para aqueles que pretendiam seguir carreiras na área de Filosofia, Letras, Artes e Ciências Humanas) no Instituto José Manuel da Conceição (Instituto JMC), em Jandira, SP. (Vide meu site http://www.jmc.org.br/, para uma idéia dessa escola…). Fui para o JMC em Fevereiro de 1961.

Concluído o Curso Clássico (Ensino Médio), no final de 1963, fui, no início de 1964, para o Seminário Presbiteriano do Sul (SPS), em Campinas, também conhecido como Faculdade de Teologia da Igreja Presbiteriana do Brasil. Minha festa de calouro estava agendada para o fatídico dia primeiro de abril de 1964. Não é preciso dizer que foi cancelada…

O curso de Teologia, no Seminário de Campinas, durava cinco anos – dois anos do chamado “Pré-Teológico”, onde a gente estudava Filosofia, Sociologia, Grego, Hebraico, etc., e três do “Teológico” propriamente dito (História da Igreja, Teologia Sistemática, Teologia do Velho e do Novo Testamento, etc.). Eu, como bom aluno que sempre fui, puxei, para os dois primeiros anos, algumas matérias dos anos posteriores.

Estudei no Seminário de Campinas de 1964 até o meio do ano de 1966 – quando fui expulso do Seminário (com mais setenta e tantos alunos – só sobraram quinze alunos lá). As razões da expulsão explicarei a seguir.

Como explicação preliminar é preciso dizer que, com uma ou duas exceções, o corpo docente do Seminário era muito conservador, tanto teológica quanto politicamente, e entre os alunos havia alguns (admitidamente, uma minoria) que chegavam a ser extrema e ignorantemente reacionários (novamente, tanto no plano teológico quanto no político) – umas verdadeiras antas. Sendo essa a situação dentro do Seminário, é bom que registre que, pessoalmente, foi, a médio e longo prazo, uma sorte tremenda ter sido expulso de lá em junho de 1966 – embora naquele momento eu não pudesse perceber isso.

As razões de minha expulsão foram basicamente duas:

(a) defender teorias não muito ortodoxas acerca da religião e da teologia cristã (especialmente as propostas por Rudolf Bultmann, que me pareceram persuasivas, à época);

(b) por publicar, no jornal do Centro Acadêmico, do qual em 1966 eu fui fundador e era editor e redator, e que tinha o provocante nome de “O CAOS em Revista” (visto que o nome do Centro Acadêmico era “Oito de Setembro”, data da fundação do Seminário), críticas admitidamente violentas aos corpo docente do Seminário e defesas apaixonadas, baseadas no livro On Liberty, de John Stuart Mill, do direito à liberdade de pensamento e de expressão, em especial dentro de uma instituição que se pretendia de ensino superior.

Meu liberalismo data daí. Os cinco primeiros artigos que escrevi chegaram a ser publicados mas as edições foram imediatamente confiscadas (“empasteladas”) pela Reitoria do Seminário (Rev. Júlio de Andrade Ferreira, Reitor); no caso dos outros dois, a Congregação do Seminário havia instituído a censura prévia e as peças foram cortadas antes de serem publicadas. Na verdade, o jornal inteiro de Junho de 1966 foi censurado.

Assim, minha carreira de jornalista foi abruptamente interrompida sem que sequer uma das peças que escrevi tivesse sido normalmente distribuída.

[Esse episódio está descrito em mais detalhe no post “Quarenta Anos depois do CAOS: 1966-2006”, aqui neste space].

Estando fora do Seminário, o Presbitério Paulistano, ao qual eu estava vinculado, debaixo da tutoria de meu pai, prontamente cortou minha bolsa. Resultado: sem dinheiro, procurei emprego nas empresas de Campinas e imediatamente achei um, como Analista de Custos, na Robert Bosch do Brasil Ltda. [Como dito, eu já havia sido Analista de Custos na Companhia Swift do Brasil S/A, no auge de meus dezesseis anos…]

Trabalhei na Bosch por oito meses (de Julho de 1966 a Fevereiro de 1967), e nesse tempo juntei dinheiro suficiente para ir estudar na escola de meus sonhos, a Faculdade de Teologia da Igreja Evangélica de Confissão Luterana no Brasil (Evangelische Kirche Lutherischen Bekenntnisses in Brasilien), em São Leopoldo, RS, a melhor faculdade de teologia do Brasil na época (talvez até hoje). 

A faculdade luterana me aceitou, desafiando diversos tipos de pressão. Aparentemente, para eles, minha expulsão do Seminário de Campinas funcionava como excelente recomendação. Sou imensamente grato ao Rev. Leopoldo Weingärtner, então deão da faculdade, por ter se disposto a enfrentar a “ira santa” (e mesmo a não tão santa) da liderança da Igreja Presbiteriana do Brasil, em especial a do Presbitério Paulistano, ao me aceitar em São Leopoldo.

No entanto, sem o apoio financeiro do meu presbitério, eu não tinha dinheiro suficiente para custear minha permanência no Morro do Espelho (Spiegelberg) em São Leopoldo,  por mais de um semestre. As despesas envolviam “tuition and fees, room and board, and books” (como dizem os americanos) – isto é: mensalidades e taxas da escola, hospedagem e alimentação, e livros. Mesmo assim, fui para lá, com meus próprios recursos (poupança dos oito meses de trabalho na Bosch) e com alguma ajuda financeira da Igreja Presbiteriana do Jardim das Oliveiras, em São Paulo (Alameda Jaú), capitaneada então pelo Rev. José Borges dos Santos Júnior, que havia passado para a oposição dentro da Igreja Presbiteriana do Brasil. Sou grato a ele, mas ele não figura entre a minha santíssima trindade de meus pastores – santos protetores (como se verá).

Em São Leopoldo eu acrescentei, de março a junho de 1967, mais um semestre à minha formação teológica, que lá completou três anos — mas não concluí o curso teológico de graduação.

Em São Leopoldo, Bultmann (que era Luteraníssimo) era bem aceito. O tempo que passei lá ajudou bastante no desenvolvimento do meu domínio da língua alemã (que eu estudava desde o primeiro ano no Seminário de Campinas), porque todas as aulas eram ainda em alemão, naquela época.

O ambiente intelectual fornecido pelo Seminário Luterano de São Leopoldo era bastante salutar e estimulador – muitíssimo diferente do ambiente em Campinas. Lá se esperava que as pessoas diferissem em pontos de vista, em doutrina, em princípios de moralidade. A despeito disso, ou, mais provavelmente, por causa disso, meus laços pessoais com a igreja institucional começaram a terminar ali, e com a religião, minhas convicções religiosas, em geral, enfraqueceram bastante, mais ou menos durante o período em que eu estive em São Leopoldo – sem maiores traumas e, para dizer a verdade, até com um certo senso de alívio. Meu interesse na religião como fenômeno social e na teologia como disciplina intelectual continuam, entretanto, até hoje.

Enquanto em São Leopoldo tive a sorte de receber uma bolsa completa, de três anos, para fazer o Mestrado em Teologia no Pittsburgh Theological Seminary (PTS), de Pittsburgh, PA, EUA. Pode parecer estranho que eu, sem ter concluído meu curso de graduação, recebesse um convite e uma a bolsa para fazer o mestrado. Mas o Conselho Estadual de Educação, depois de analisar toda a minha vida escolar, me declarou apto para prosseguir meus estudos no estado no nível da pós-graduação nos Estados. [A primeira de várias coisas improváveis que aconteceram na minha vida a partir desse ponto… Um pequeno milagre? Houve vários outros.]

Para pode usufruir a bolsa solicitei uma bolsa de viagem ao National Council of the Churches of Christ in the United States (NCCCUS), e tive a felicidade de vê-la concedida. A bolsa no PTS foi obtida através dos esforços do Prof. Dr. Rev. Gordon Eugene Jackson, então Deão Acadêmico daquela escola, e hoje um querido amigo, e uma fonte constante de inspiração. A bolsa de viagem do NCCCUS foi obtida através dos esforços do Rev. Dr. Aharon Sapsezian, então Secretário Executivo da Associação dos Seminários Teológicos Evangélicos (ASTE), e hoje um outro amigo muito caro (vivendo em Genebra, Suíça, a terra adotada por João Calvino). O Aharon não só me sugeriu que solicitasse a bolsa ao NCCCUS, mas envidou os maiores esforços para que ela fosse concedida. Expresso publicamente aqui minha gratidão a esses dois grandes amigos. [Acredito que o Rev. Jackson, que, quando do meu retorno ao Brasil em 1974, enfrentava séria luta contra o câncer, não esteja mais vivo].

Foi com a bolsa de viagem arrumada pelo Aharon que pude viajar para os Estados Unidos naquele 19 de Agosto de 1967.

Enquanto no PTS, de meados de 1967 até meados de 1970, obtive meu Mestrado em Teologia, na área da História do Pensamento Cristão (conclusão: Maio de 1970). Lá tive o privilégio de estudar com estrelas intelectuais como Dietrich Ritschl (neto do grande teólogo liberal alemão do século XIX, Albrecht Ritschl, e ele próprio um grande especialista na história do pensamento europeu moderno), que me fez interessado para sempre na história intelectual; Ford Lewis Battles (especialista em pensamento medieval, na Renascença e na Reforma, especialmente em João Calvino, sendo o autor da melhor tradução para o Inglês das Institutas da Religião Cristã), que quase me convenceu a tornar-me um historiador medieval; Markus Barth (filho do grande teólogo suíço do século XX, Karl Barth), cujas aulas eram tão precisas que a gente o tomaria por alemão, e tão claras, que a gente o tomaria por francês; Hans Eberhard von Waldow (que havia ensinado em São Leopoldo antes de ir para Pittsburgh), que, por incrível que pareça, conseguia fazer a História do Antigo Israel parecer viva e interessante; George H. Kehm (professor de teologia sistemática), que me fez seu assistente didático e de pesquisa quando entrei no doutorado; e vários outros (Ronald Stone, Walter Wiest, John Gerstner, Robert Paul, Douglas Hare). Minha média durante o mestrado foi suficientemente boa para que eu recebesse sete prêmios e bolsas ao final dos meus três anos no PTS, uma das quais era para cursar o doutorado em área de minha escolha.

Assim, em Setembro de 1970 entrei na University of Pittsburgh (Pitt), também em Pittsburgh, PA, EUA, para começar o meu Ph.D.. O foco principal de meus estudos foi a História da Filosofia Moderna, especialmente no século XVIII, pois eu estava interessado em epistemologia e Pitt era a melhor universidade americana na área de epistemologia, lógica e filosofia da ciência naquela época. Eu, naturalmente, ainda mantinha (como mantenho até hoje) meu interesse na epistemologia da religião. Esses dois interesses, na epistemologia da ciência e da religião, fizeram-me gravitar para William W. Bartley, III, professor titular do Departamento de Filosofia, cuja obra publicada lidava com esses dois assuntos (em especial, The Retreat to Commitment, publicado em 1962).

Em relação a Bill Bartley, depois de estudar teologia por algum tempo em Harvard, Bill Bartley foi para a London School of Economics (LSE), em Londres, Inglaterra, para estudar com Karl Raymund Popper. Ele oportunamente se tornou o discípulo amado de Popper – mas depois se desentenderam seriamente (no plano pessoal, não no plano das idéias). Depois do desentendimento, eles voltaram a manter relações de amizade e colaboração bastante estreitas, tendo Bill Bartley sido ungido para a invejada tarefa de gerenciar todo o legado intelectual de Popper (e, depois, também de Friedrich von Hayek). Assim sendo, fui, no doutorado, virtualmente constrangido a ler tudo que Popper tinha publicado, e mesmo alguns trabalhos então ainda inéditos (mas aos quais Bill Bartley tinha acesso e dos quais, depois, se tornou o editor, na versão impressa). À vista disso creio que posso, por direito, considerar-me neto intelectual de Popper — com quem tive o privilégio de trocar algumas cartas em meados da década de 70. A morte prematura de Bill Bartley em 1990 (5 de Fevereiro) roubou-me um pai intelectual e um grande amigo e foi motivo de grande tristeza. A morte de Popper em 1994 também foi grandemente sentida – embora não tenha sido prematura (ele nasceu em 1902). (A relação entre Popper e Bartley é bem e corretamente descrita em um artigo interessante de Mariano Artigas The Ethical Roots of Popper’s Epistemology)

Sob a orientação firme de Bill Bartley concluí meu doutorado em tempo recorde, em Agosto de 1972. Fiz dezoito disciplinas, obtendo o conceito máximo nelas. Terminei o doutorado com GPA de 4.0 (os pontos do Grade Point Average iam de 0 a 4). Minha tese teve o título de “David Hume’s Philosophical Critique of Metaphysics and its Significance for the History of Christian Thought”. Foi um catatau de 615 páginas. Por mim eu teria continuado polindo o que eu esperava fosse tornar minha obra prima, mas Bill não me deixou, virtualmente me obrigando a entregar a tese na forma em que se encontrava.

Em Pitt também tive o privilégio de estudar com Wilfrid Sellars, que foi o membro sênior de minha Banca de Doutoramento. Na home page dedicada a ele na University of Chicago, Keith Lehrer (filósofo bem conhecido) diz que “Sellars [foi] um dos mais importantes filósofos do século, talvez de todos os séculos”. Ele era também um professor fabuloso. Meu primeiro curso com ele foi um Seminário sobre Metafísica e Epistemologia. Depois fiz seu famoso seminário sobre Kant. Os cursos eram tão bons que eu comecei a freqüentar tudo que era curso que ele dava, até mesmo, como ouvinte, alguns cursos introdutórios em nível de graduação (sobre Empirismo Britânico e sobre Filosofia Analítica, por exemplo). A maior parte do que eu sei sobre filosofia analítica aprendi com ele. Outros bons professores que tive em Pitt foram Nicholas Rescher (Lógica e Epistemologia), Richard Gale (Metafísica, Filosofia do Tempo, Filosofia Analítica), Kurt Baier (Ética), Joseph Kemp (Empiristas Britânicos), e Marilyn Frye (Kant). Olhando para trás posso ver porque o Departamento de Filosofia de Pitt era considerado o melhor do país naqueles anos.

Depois de receber meu Ph.D. fui contratado para lecionar filosofia, primeiro pela California State University at Hayward, em Hayward, CA, EUA (1972-1973), e, no ano seguinte, pelo Pomona College, um dos “colleges” do complexo chamado Claremont Colleges, em Claremont, CA, EUA (1973-1974). Felizmente, naquela época as normas do politicamente correto ainda não imperavam no cenário acadêmico americano.

Enquanto trabalhava em Pomona tive uma das experiências intelectuais mais excitantes de minha vida: ler Ayn Rand pela primeira vez. A experiência fez de mim uma pessoa diferente. Sou para sempre grato ao meu colega de Pomona, Charles J. King, depois presidente do Liberty Fund, por recomendar que eu lesse Atlas Shrugged  (Quem é John Galt?, em português). Desde aquele momento, em 1973, Ayn Rand se tornou minha mentora intelectual, ética e política, embora meu relacionamento com ela nunca tenha tido o fervor quase-religioso daqueles para quem Objetivismo, mais do que uma filosofia, é um culto – quando encontrei Ayn Rand eu já tinha tido minha experiência religiosa há muito tempo. Mas Ayn Rand permanece até hoje como a influência mais forte e mais permanente sobre o meu pensamento metafísico, epistemológico, ético, político e até mesmo estético.

Como já disse, no todo passei sete anos nos Estados Unidos (Agosto de 1967 a Junho de 1974), sem voltar ao Brasil sequer uma vez. O clima político no Brasil durante esses anos era tão inóspito que eu dificilmente teria me arrependido de ter passado todo esse tempo fora, ainda que esses anos não houvessem sido os mais frutíferos de minha vida, do ponto de vista intelectual.

Em Junho de 1974 retornei para o Brasil para lecionar na Universidade Estadual de Campinas (UNICAMP), em Campinas, SP, da qual me aposentei no final de 2006, depois de trinta e dois anos de trabalho na área de Epistemologia, Filosofia Política e Filosofia da Educação (e, de vez em quando, de Tecnologia e Educação). Por uns tempos, na década de oitenta, envolvi-me com administração universitária e até mesmo com política acadêmica.

E com minha aposentadoria, chego perto dos dias atuais (ainda que pulando uma grande quantidade de anos… )

Não creio que tenha havido um ano sequer, desde 1967, que tenha deixado de me lembrar, com imensa gratidão, no dia 19 de Agosto, que aquele dia representava, para mim, um salto qualitativo na minha carreira e na minha vida, talvez até mesmo uma libertação de um mundo para outro. Naquele dia, há quarenta e dois anos, deixei meu país, fiquei sem ver minha família por sete anos seguidos, fui morar num país estranho, falando uma língua que não era a minha, tudo em busca de um sonho que, aqui no Brasil, havia abortado. Sem a ajuda de instituições e de amigos dentro dessas instituições, e, talvez, de um bocado de sorte (ou ações da providentia divina specialissima), não teria conseguido isso. Desse fato nunca me esqueço. Quase me esqueci, por um tempo. Mas, felizmente, voltei a ver as coisas em perspectiva.

Dos amigos que me ajudaram, três eram pastores: os Revs. Leopoldo Weingärtner, Gordon Eugene Jackson e Aharon Sapsezian. Isso é significativo. O único que não era pastor era Bill Bartley – mas ele também fugiu do chamado, como eu… Creio que o Aharon, sobre o qual escrevi recentemente um post aqui neste space, é o único desses quatro que continua vivo. É o meu amigo mais querido. Hang in there, my good friend!]

Enfim, aqui estou. Mais uma vez celebrando um evento importante – e improvável – em minha vida. E me revelando agradecido a tantos… Inclusive a quem não nomeei mas que sabe que está na lista.

Em Salto, 19 de agosto de 2009

Jaci Maraschin, amigo por tabela

Jaci Maraschin se foi… No mesmo dia em que também o Pinotti morreu – ou um dia antes. Não conheci o Jaci pessoalmente: só conheci o trabalho dele e os reflexos da pessoa dele em pessoas como o Rubem Alves e o Aharon Sapsezian. Meu sobrinho, Vítor Chaves, já teólogo e futuro professor de teologia, também gostava dele.

Recebi hoje, do Takashi Shimizu, nosso amigo, uma carta que o Aharon escreveu para o Jaci, após a morte deste. Uma peça linda, como só o Aharon sabe escrever. Não pedi ao Aharon autorização para colocar a carta aqui – mas tenho certeza de que ele, quando a encontrar aqui, dará sua autorização ex post facto. Obrigado, Aharon, por uma carta tocante.

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Jaci querido. Você sabia que, pela idade e pela condição de saúde, eu estava na frente, Mas você furou a fila, me passou a perna e entrou primeiro pelos umbrais do além. Me senti só e chorei. Você era mais que um colega, mais que um amigo do peito, mais que companheiro festivo de caminhada. Você compartilhava com a Lelê um pedaço enorme do coração meu e da Zabel. Como sentimos sua ausência na festa que fizemos no Clube Armênio para comemorar nossas bodas de ouro! Só depois soubemos que você tinha sido hospitalizado naquele mesmo dia. Queria tanto prosear com você, sobre qualquer coisa, menos sobre teologia, porque ambos já estávamos fartos disso. Prosear só para prosear. Prosa gratuita, sobre tudo e sobre nada. Só pelo prazer de estar juntos, pela gostosura de existirmos, pela beleza da beleza.. Você me escreveu dizendo que tinha lido as minhas memórias, e que gostara, e que se animara a escrever as suas também. Na idade em que estávamos, eu dois passos à frente, vivíamos mais de memórias que de projetos. Olhando pelo retrovisor, acho que nós dois vivemos a vida como ela se apresentou a nós, como dom, como graça, como mistério luminoso, vida só para ser vivida ao sabor do vento que sopra onde quer. Aceitando o mal e o bem de cada dia, viessem como viessem. O curioso é que o fizemos cantando com Frank Sinatra "I did it my way". Será que o seu Tillich, ou o meu Niebuhr, entenderiam isso? Duvido. Mas deixemo-los em paz. Éramos mais que adultos e já tinhamos aprendido que a vida não era para ser interpretada com malabarismo intelectual, muito menos teológico, mas para ser vivida, na sua espontaneidade, na sua simplicidade, no seu encanto inefável, com intensidade e paixão. E passamos a saboreá-la avidamente como uma suculenta manga madura. Não éramos tolos. Sabíamos que o fim nos espreitava, de tocaia. Não nos metia medo, mas fazía-nos pensar que um dia a cortina cairia e a festa terminaria. Só que você não respeitou a ordem estabelecida. Transgressor inveterado que você era de toda e qualquer convenção, você me deixou pra tráz e partiu antes do que eu. E deixou um enorme vazio. Não há de ser nada. Não tardo, e vou alcançá-lo. Até logo, meu bom Jaci.   

Aharon Sapsezian
Commugny, Suíça

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Em Garden Grove / Anaheim, 7 de Julho de 2009

Aharon Sapsezian, amigo e irmão

Ontem tive a oportunidade de rever um grande amigo – mais do que um simples amigo, um irmão: Aharon Sapsezian.

A ocasião foi o almoço que celebrou os cinqüenta anos do casamento do Aharon com a Zabel. A reunião foi no Clube Armênio de São Paulo. A Paloma, a Bianca e a Priscilla estavam lá comigo. E lá encontramos um outro casal de amigos: o Rubem Alves e a Thaís, também amigos do Aharon e da Zabel.

Conheci o Aharon já há mais de quarenta anos, em algum momento no segundo semestre de 1966 ou no primeiro semestre de 1967. Eu era, na ocasião, um ex-seminarista: havia sido expulso do Seminário Presbiteriano de Campinas, em decorrência do tsunami que assolou a Igreja Presbiteriana do Brasil a partir de Junho de 1966, e estava tentando não parar de estudar… O Reitor do Seminário na ocasião era o médico Dr. Eduardo Lane Júnior… (Mais sobre os Lanes adiante).

No segundo semestre de 1966 eu trabalhei na Bosch, em Campinas, SP, calculando custos na WWK: Werkswirtschaftskontrol – algo assim… Trabalho insípido, mas, pelo menos, me trazia mensalmente mais dinheiro do que eu havia jamais visto (embora, nos anos de 1959 e 1960, já houvesse trabalhado em duas outras empresas privadas, o Banco Indústria e Comércio de Santa Catarina e a Companhia Swift do Brasil).

No primeiro semestre de 1967 eu juntei os dinheirinhos que tinha conseguido economizar trabalhando na Bosch e fui estudar, por conta própria, e contra a vontade da Igreja Presbiteriana do Brasil, na Faculdade de Teologia da Igreja Evangélica de Confissão Luterana no Brasil, em São Leopoldo, RS. Mas o dinheiro não dava para mais de um semestre de estudos.

Nesse momento, enquanto estava em São Leopoldo, recebo uma carta do Prof. Dr. Rev. Gordon Eugene Jackson, então Deão do Pittsburgh Theological Seminary, de Pittsburgh, PA, Estados Unidos, e de quem eu havia sido intérprete quando sua estada em Campinas em 1965, me oferecendo uma bolsa de estudos para fazer o Mestrado lá. Mas a bolsa não vinha com passagem… E o meu dinheiro não dava para a passagem… E o meu pai não podia, nem iria querer se pudesse, me ajudar (ele estava sem falar comigo por causa da expulsão do Seminário – creio que a maior vergonha pela qual ele passou na vida: chegou a me dizer que preferia que eu tivesse morrido a me ver expulso do Seminário em que ele estudou…)

Sabendo de meu problema, alguém me sugeriu que procurasse a recém-criada Associação dos Seminários Teológicos Evangélicos – ASTE e pleiteasse junto a ela uma bolsa de viagem.

O Aharon era um dos fundadores da ASTE e seu primeiro Secretário Executivo. Foi no escritório da ASTE que o conheci. O escritório era na Rua Rego Freitas, creio que número 92, perto da Praça da República. Ele me ouviu atentamente, como só ele sabe fazer, e não fez doce, não: me arrumou uma bolsa de viagem com recursos fornecidos pelo National Council of the Churches of Christ dos Estados Unidos. Naquela época o valor parecia uma fortuna para mim. Comprei a passagem pela PanAm. Ao todo, vi o Aharon apenas umas duas ou três vezes. Ele, ali, foi meu pai: fez por mim o que o meu pai não teria feito, nem se pudesse.

Fui para os Estados Unidos, fiquei lá sete anos, voltei para o Brasil em 1974, fui para a UNICAMP… Ao voltar para o Brasil, lembrei-me de novo do Aharon, porque a minha passagem de volta foi ainda paga com o dinheiro da ASTE, apesar de terem passado sete anos…

Treze anos depois de eu voltar dos Estados Unidos, lá pelo final de 1987, eu estava cedido pela UNICAMP para a Secretaria de Estado da Saúde, onde dirigia o Centro de Informações de Saúde, a convite de meu amigo e colega José Aristodemo Pinotti. O meu trabalho me levou a Genebra, Suíça, cidade sede da Organização Mundial da Saúde (OMS), que é parte da Organização das Nações Unidas (ONU).

Antes de sair para Genebra conversei com o Rubem Alves, que eu sabia que conhecia bem Genebra, para pegar algumas dicas… Ele me recomendou que procurasse o Aharon lá… Eu nem sabia que o Aharon estava morando lá. Sabia que havia ido para Inglaterra e, depois, para a Suiça. Mas pensei que estivesse em Neuchatel. Disse ao Rubem que nem conhecia o Aharon direito, que só o havia visto rapidamente umas duas ou três vezes, mas o Rubão me garantiu que eu seria bem recebido.

No meu segundo dia em Genebra liguei para o Aharon e me apresentei. Por via das dúvidas, citei a recomendação do Rubem. Apesar de ele, naturalmente, não se lembrar de mim, o Aharon me tratou excepcionalmente bem, como se eu fosse um velho amigo. Convidou-me para ir jantar em sua casa naquela mesma noite. Ele morava no Petit Saconex, perto do Conselho Mundial de Igrejas, onde ele trabalhava, e da Fundação Mundial Luterana, onde a Zabel trabalhava – e também perto da OMS. Fui a pé, seguindo instruções que ele me passou.

Aquela foi a primeira vez que me encontrei com o Aharon em um contexto não profissional. Fiquei encantado com ele: com a gentileza, o tato, a curiosidade, a inteligência, os olhos vivos, o humor fino… E ele querendo notícias e análises sobre o Brasil. Era insaciável a sua curiosidade, sua vontade de saber, sua vontade de conversar, de discutir…

Encontrâmo-nos virtualmente todos os dias durante minha estada de mais de um mês em Genebra naquele final de 1987. Ele me levou para conhecer os arredores de Genebra: Ferney-Voltaire, Évian-les-Bains, Montreux, Lausanne, o Mont Blanc… Fazia questão de cozinhar e sempre arrumava uns “rouges” deliciosos para acompanhar a comida… Tudo isso em companhia da Zabel e das duas filhas jovens deles, a Christina e a Cláudia.

(A Christina e a Cláudia estavam na festa das Bodas de Ouro, cada uma com seu marido, e a Christina com seus três filhos.)

Ficamos amigos, o Aharon e eu, de um dia para o outro. Parece contraditório dizer que nos tornamos velhos amigos à primeira vista — em um mês. Mas foi isso que aconteceu.

A amizade adquiriu uma dimensão mais profunda quando descobrimos que meu pai, Rev. Oscar Chaves, havia sido professor de caligrafia do Aharon no Instituto Bíblico Eduardo Lane, de Patrocínio, MG, no início da década de 30… O pai do Aharon era mascate e viajava pelo sul de Minas. A casa da família ficou sendo em Patrocínio, onde havia uma boa escola evangélica. Sim, os Sapsezians eram crentes. Meu pai, recém convertido do Catolicismo para o Presbiterianismo pelo próprio Rev. Eduardo Lane (Senior), em cuja homenagem em ganhei o nome de Eduardo. O pai do futuro Reitor que iria um dia me expulsar do Seminário de Campinas havia arrumado um empreguinho para o meu pai no Instituto, enquanto meu pai esperava a oportunidade de vir para Jandira, SP, para, no Instituto José Manuel da Conceição (onde também estudei quase trinta anos depois), preparar-se para fazer Teologia no Seminário de Campinas (do qual fui expulso) e entrar no ministério evangélico…

No dia seguinte liguei para o meu pai em Santo André (a essas alturas já havíamos voltado a conversar havia muito tempo) e lhe perguntei se ele se lembrava de uma família Sapsezian em Patrocínio… E o velho se lembrava: falou o nome do Aharon (que ele achava meio modernista porque chegado
a causas ecumênicas…), do irmão dele, e da irmã dele, Asniv, que morava em Campinas.

As coincidências que iriam nos unir ainda mais começavam a aparecer…

Ao voltar a Campinas, mencionei para a minha tia mais querida, Alice de Campos Sanvido, irmã de minha mãe, que havia conhecido em Genebra o Aharon (expliquei quem era), e lhe perguntei se ele, porventura, não conhecia a Asniv, irmã do Aharon, que freqüentava a mesma igreja que ela, minha tia: a Igreja Presbiteriana do Jardim Guanabara (que eu havia freqüentado enquanto no Seminário). Para minha surpresa, a tia Alice me declarou que não só conhecia, como a Asniv era sua melhor amiga… Assim, através da minha tia, fiquei conhecendo também a Asniv…

(As duas eram tão amigas que escolheram morrer com menos de seis meses de intervalo, há cerca de dois anos. Grande perda de duas mulheres excepcionais, uma da minha família, outra da família do Aharon.)

Meu serviço na Secretaria da Saúde me levou de volta a Genebra umas sete ou oito vezes até 1990. Sempre via o Aharon e a Zabel e, naturalmente, as meninas deles – cada vez maiores, já namorando… Discutíamos religião, política, futebol (ele é corinthiano), filosofia. Ele sempre foi meio que cristão-esquerdista, mas mesmo assim se interessou em ler Ayn Rand em decorrência de nossas conversas e comprou a maior parte dos livros dela… Grandes debates entabulamos acerca de Miss Rand…

Numa das idas a Genebra, conheci a Priscila, filha da Asniv, que estava passando uns tempos lá, na casa do Aharon, para estudar Francês – e que, do lado, estava ganhando umas graninhas trabalhando no Pizza Hut que fica na frente da Gare.

(A Priscilla estava na festa das Bodas de Ouro também).

Algum tempo depois fiquei sabendo que um dos filhos do Eduardo Lane Júnior (sim, o ex-Reitor do Seminário que de lá me expulsou, mas também presbítero presbiteriano, médico, professor de ginecologia, e, portanto, meu colega, na UNICAMP e filho do Rev. Eduardo Lane, pa) iria se casar com a outra filha da Asniv… Os relacionamentos do lado paterno de minha família se integravam com os relacionamentos do lado materno da família…

(Na festa das Bodas de Ouro do Aharon e da Zabel fiquei conhecendo o neto do Rev. Eduardo Lane e o filho do Prof. Dr. Eduardo Lane Junior, sua mulher e seu filho.)

Em 2002 tive um infarto. Alguns anos depois o Aharon também teve um – mas o dele foi mais sério, teve parada cardíaca e tudo. Mas ele está são e bom… – e, felizmente, eu também.

No almoço de ontem falaram vários – inclusive o Rubem Alves e eu. E, naturalmente, o Aharon, ao final. Ele fez uma linda homilia, em que atribuiu à sua “grande família”, que inclui o Rubem e a mim, e as nossas mulheres, porque não é formada apenas por consagüinidade, mas, também, por afinidade, o mérito pela longevidade de seu casamento. Bondade dele. O mérito é dele – e da Zabel, naturalmente.

Na minha falinha tive o privilégio de contar, para os presentes na festa, alguns aspectos dessa nossa história cheia de coincidências. Uma história de amizade que amarra várias outras pessoas, que se projeta para o passado, que se projeta para os lados, e, tenho certeza, que se projetará também para o futuro por um bom tempo ainda. Deo volente.

Aharon, meu amigo, meu irmão: um abraço e, como fazem os armênios, um beijo estalado em cada face. Espero ver você muitas vezes ainda.

Em São Paulo, 22 de Abril de 2009

Retorno – e a Polícia de São Paulo

Faz quase vinte e cinco dias que não escrevo aqui. A última vez foi no dia 26/12/2008. Já estamos no novo ano. A razão pela qual não escrevi aqui é que estava escrevendo em outro blog, sobre a viagem que fiz à Europa de 29/12/2008 a 17/01/2009. Esse blog, entretanto, é, no momento, de acesso restrito, por razões pessoais. Quem sabe no futuro eu libere o acesso a ele. A viagem à Europa foi para participar, em Londres, de uma série de cinco eventos patrocinados pela Microsoft. Mas aproveitei para dar uma esticada e passei por Lisboa, Paris, Zurich, Winterthur, novamente Lisboa, e Londres.

Cheguei num dia e, no dia seguinte, 18/1, Domingo, perdi vários documentos (RG, CPF, Carteira de Habilitação, Registro e Licenciamento do Carro, Cartão de Seguro do Carro, Cartão de Plano de Saúde), quatro cartões de crédito e um cartão de débito. Voltei para casa correndo, cancelei todos os cartões de crédito e débito no próprio Domingo, e, na Segunda, pedi segunda via dos documentos.

Hoje cedo minha filha Patrícia me ligou para dizer que a companhia que faz os seguros dos meus carros havia ligado para minha ex-casa em Campinas para informar que meus documentos haviam sido recuperados durante uma blitz em que havia sido preso um menor que estava de posse de meus documentos. Disseram-me para contatar o Terceiro DP, na Rua Aurora, quase esquina da Avenida Rio Branco.

Hoje à tarde fui lá – e fui surpreendido com um atendimento impecável: atencioso, cortês, indo além daquilo que manda o dever. Na recepção foram muito atenciosos, me encaminharam ao Cartório, que fica no terceiro andar, onde fui atendido por um escrivão chamado Danilo, que procurou em várias pilhas de ocorrência até achar a que fazia referência aos meus documentos. Eles foram encontrados não com um menor, mas com uma menor, de 17 anos, chamada Greice Kelly Trindade de Campos, que a Guarda Civil Metropolitana suspeitou de estar traficando drogas no Vale do Anhangabaú (foi presa na Rua Formosa, em frente do número 999). Com ela acharam cocaína, crack e maconha em quantidade que só traficante possuiria – e todos os meus documentos, sem faltar um sequer. A prisão se deu ontem à tarde. A menor foi encaminhada para a antiga FEBEM – hoje Fundação C.A.S.A.

Deixo aqui o meu reconhecimento pela eficiência e honestidade da Guarda Civil Metropolitana de São Paulo e dos policiais do Terceiro DP. Muitas vezes a gente fala mal da Polícia – mas é preciso falar bem, também, quando ela age de maneira proba.

Em São Paulo, 20 de Janeiro de 2009

Entre filósofos (comme il faut)

Estou residindo em São Paulo faz três meses. Meu bairro é a Chácara Klabin. É um bairro relativamente novo, cheio de prédios de apartamentos e serviços de primeira necessidade: farmácias, padarias, lanchonetes, barzinhos, vídeo-locadoras, cabeleireiros, postos de gasolina (e, naturalmente, motéis). Há, também, aqui do lado, um enorme Extra, um Leroy Merlin, e um Laboratório Delboni Ariemo.

Mas o bairro, hoje bonito, era uma favela algum tempo atrás. Foi o Maluf (sempre ele!) que o reclamou para os donos (a família Klabin), relocando os moradores para a COHAB do Itaquera. De novo de posse do terreno, a família fez bom uso dele. Originalmente, tudo isso era uma chácara — donde o nome do  bairro, que é parte da Vila Mariana. A linha 2 (verde) do metrô (que vai do Ipiranga até a Vila Madalena, correndo debaixo de parte da Vergueiro, da Bernardino de Campos, da Paulista e da Doutor Arnaldo) passa por aqui. Meu apartamento fica mais ou menos eqüidistante das estações Chácara Klabin e Imigrantes, numa paralela à Av. Prefeito Fábio Prado, que cruza a Vergueiro. 

O que mais atraiu no bairro, além da tranqüilidade, foi o fato de que as ruas e as praças têm o nome de filósofos (ou cientistas que contribuíram para o desenvolvimento da filosofia). A Drogaria São Paulo fica na Rua David Hume – escrevi minha tese de doutoramento sobre ele, e já o comentei neste space mais de uma vez. Meu apartamento fica quase ao lado da Praça Kant – e, mais abaixo, há a Praça Giordano Bruno. Quando venho da Vila Mariana, saio da Vergueiro na Rua Voltaire – outro de meus favoritos. Além destes, há a Rua Malabranche, a Rua Montesquieu, a Rua Diderot, a Rua Rousseau, a Rua Pico de la Mirandola, e, provavelmente, outras.

Não é interessante? Em meio a tantos filósofos, sinto-me (modéstia à parte) em casa.

ET: A Faculdade de Educação da UNICAMP, onde trabalhei por 34 anos, ministrando disciplinas de Filosofia da Educação, Filosofia Política e Teoria do Conhecimento, fica na Av. Bertrand Russell – que, por sinal, escreveu bastante sobre essas três áreas da filosofia.

Em São Paulo, 5 de Dezembro de 2008

Rev. Oscar Chaves, a Igreja Presbiteriana Maranata, e outros elos que se restabelecem em torno de Santo André

A Igreja Presbiteriana Maranata, de Santo André, SP, está comemorando nestes dias (ontem e hoje) seu vigésimo segundo aniversário.

Ela foi fundada pelo meu pai, Rev. Oscar Chaves, nos idos de 1986, em decorrência de uma cisão da Igreja Presbiteriana de Santo André (da Rua 11 de Junho, 868-878), da qual meu pai havia sido pastor por 34 anos (desde 1952).

Depois de se aposentar do ministério pastoral, em 1982, por jubilação (no caso, por ter feito 70 anos), meu pai continuou na Igreja Presbiteriana de Santo André. Nunca recebeu a honra de ser chamado Pastor Emérito da igreja à qual dedicou os melhores anos de sua vida [* o acontecido foi anda pior: vide nota abaixo]. Mas isso não o impediu de continuar ali na igreja, procurando cuidar da vida espiritual (às vezes da vida emocional e até mesmo da vida sem qualificativos) de gente que ele havia batizado, ou de quem havia feito a profissão de fé, ou cujo casamento havia celebrado.

Continuar na igreja depois de aposentado, quando já havia um novo pastor, foi um erro sério que o meu pai cometeu. Explico e justifico.

O novo pastor da igreja, Rev. Evandro Luiz da Silva, escolhido a dedo por meu pai, era uma pessoa voluntariosa, de relacionamento (aparentemente) muito fácil, afável (na superfície), bem falante, bom cantor (consta que, em Ituiutaba, MG, perto de Uberlândia, onde passou sua infância, tenha feito dupla com seu amigo — pelo menos ele assim alardeava –Moacyr Franco). Eu o conhecia bem: havíamos sido colegas no Instituto José Manuel da Conceição, em Jandira, em 1962-1963, e no Seminário Presbiteriano de Campinas, em 1966. Ele foi um dos líderes, no corpo discente do seminário, do movimento que acabou implodindo a escola naquele fatídico ano e 1966, em que acabei expulso do seminário. Descobri-o, naquela ocasião, um verdadeiro Tullius Détritus (personagem do Asterix), semeador de cizânia de primeira. Em 1982 tentei advertir meu pai sobre quem era o Evandro, mas meu pai não me deu ouvidos – eu não tinha muito crédito com ele em relação a questões de política eclesiástica, e meu pai admirava as credenciais teológicas conservadoras do meu ex-colega.

A amizade entre os dois durou pouco. Além dos problemas de rivalidade, que quase sempre aparecem quando duas pessoas de personalidade muito forte compartilham um mesmo território institucional, além da inveja do mais novo ao ver o carinho e a atenção que os membros da igreja dedicavam ao pastor mais velho, embora já aposentado, e outras coisinhas mais, começou a reinar na igreja a intriga e o diz-que-diz-que. O resultado foi outra implosão provocada pelo Evandro: a Igreja Presbiteriana de Santo André se cindiu, e meu pai saiu da igreja, com mais ou menos metade dos membros, e fundou o que então se chamava “Segunda Igreja Presbiteriana de Santo André” numa casa alugada, na Vila Assunção. (Na primeira implosão causada pelo Evandro, em 1966, eu saí do Seminário de Campinas; na segunda, vinte anos depois, o meu pai saiu da igreja em que havia estado por 34 anos).

Imagino a tristeza por que passou meu pai, quando deixou para trás tudo o que havia construído ali na Rua 11 de Junho. Chegara, em 1952, para pastorear uma igreja pequena, modesta. Nos 34 anos que ali ficou a igreja se tornou grande, pujante, animada. Ele construiu o novo templo e o edifício de educação religiosa. Era admirado por todos, tinha ali muitos amigos. Agora, resolve sair, deixar tudo para trás, olhar para frente, e começar tudo de novo, em 1986. Ele tinha 73/74 anos quando isso aconteceu. Mas não hesitou em começar de novo.

Naturalmente, magoou-o o fato de que muitos membros da velha igreja, que ele tinha na conta de amigos e aliados, decidiram permanecer lá e, assim, não o acompanharam. Mas alegrou-o o fato de que muitos outros, que ele não esperava que saissem, vieram com ele para a nova igreja. Na minha própria família houve defecções. Minha irmã mais nova, Eliane, não ficou na nova igreja, mas se transferiu para a Igreja Evangélica de Confissão Luterana de Santo André, logo depois da cisão – e está lá até hoje. Mas meu irmão, Flávio, é presbítero da nova igreja até hoje.

A segunda igreja logo comprou um terreno e, mais uma vez, meu pai começou o trabalho de construção do templo. A nova igreja, reconhecida, corrigiu uma injustiça [vide acima e vide nota]: honrou meu pai com o título de Pastor Emérito. Algum tempo depois, o Rev. Luciano Breder, mineiro como o meu pai, e de certo modo filho da Igreja Presbiteriana de Santo André, foi eleito pastor da igreja. Conviveram bem, ele e meu pai, até que o meu pai morreu, em 5 de março de 1991, aos 78 anos e meio. A igreja, mais ou menos nessa época, passou a se chamar Igreja Presbiteriana Maranata (aparentemente por decisão democrática, em que os membros votaram em uma de várias alternativas).

Estive lá ontem à noite (15/11) – pela primeira vez, desde que o corpo de meu pai foi velado ali em 5 de março de 1991, dezessete anos e meio atrás. Houve um bonito culto para comemorar os 22 anos da fundação da igreja. O Rev. Luciano Breder pregou, embora há muito tempo não esteja mais pastoreando aquela igreja. Um longo vídeo amador, passado ao final, mostrou cenas da infância da igreja que recentemente atingiu a maioridade… Nele vi meu pai conversando com as pessoas, cantando, orando, lendo a Bíblia – e o ouvi tocando o órgão elétrico da igreja, acompanhando o hino “Graças dou por esta igreja”, cuja letra era de sua autoria.

Na verdade, eu não era o único filho do Rev. Oscar presente: estávamos ali, pela primeira vez depois de muito tempo, os quatro irmãos: eu, o mais velho, o Flávio, a Priscila e a Eliane.

Não via meu irmão Flávio há mais de três anos, apesar de ele morar em Santo André e eu ter morado em Campinas, não tão longe assim, a maior parte desse tempo. Também não via minha irmã Priscila há um bom tempo – pois não pude comparecer sequer ao enterro de minha mãe, de quem ela cuidava, que morreu no dia 11 de junho deste ano (no dia que adorna o nome da rua da igreja da qual ela saiu, com meu pai, em 1986). Eu estava em viagem no exterior e só soube da morte de minha mãe quando não dava mais para chegar a tempo ao enterro. Minha irmã caçula, Eliane, eu vinha vendo com mais freqüência. Mas fazia muito tempo que os quatro não se reuniam. Na igreja, creio que a última vez foi no enterro do meu pai, em 1991.

Parece que os quatro irmãos estão no caminho de se reconstituírem como família, agora sem o patriarca. Isso se dá, agora, sem ele, mas como quando estavam sob o olhar sério e severo, mas ao mesmo tempo bondoso, do Rev. Oscar Chaves. Meu pai era a personalidade forte e decidida que mantinha a família unida, apesar das diferenças e dos problemas que sempre há em família. Nunca o consegui chamar de “você”. Depois que ele morreu a família foi meio que se esfacelando aos poucos. Minha mãe, a quem eu chamava de “você” de vez em quando, e que deveria ter ocupado o lugar dele, não conseguiu impedir esse esfacelamento – às vezes tendo até contribuído um pouco para ele, contra a sua vontade (quero crer). Entre os irmãos, cada um, preocupado com sua própria vida e com seus problemas pessoais, foi se distanciando dos demais e deixando que eles também se distanciassem. Nem conheço o neto do meu irmão Flávio, que já tem mais de um ano. Como meu querido neto mais velho (e o primeiro neto de meu amigo Antonio Morales), ele também se chama Gabriel.

(Dos netos do Rev. Oscar apenas o Flavinho, filho do meu irmão, estava no culto ontem – e no filme que foi mostrado! O César, irmão dele, pai do Gabriel, está morando em São Paulo, embora vá voltar a morar em Santo André nos próximos dias. O Vítor e o Diogo, filhos da Eliane, são membros da Igreja Luterana e não foram ao culto. Das minhas duas filhas que eram netas do Rev. Oscar, a Andrea estava nos Estados Unidos e a Patrícia estava em Campinas. Nenhum/a bisneto/a do meu pai estava lá. A Olívia e a Madeline estavam nos Estados Unidos com a Andrea. O Marcelinho estava com a Patrícia em Campinas. O Guilherme, primeiro filho da Patrícia, nascido em Setembro de 2003, infelizmente morreu logo depois. E o Gabriel Aiello Chaves estava com os pais dele lá na Zona Leste de São Paulo.)

Como dizia, agora parece haver decisão consciente e deliberada da parte de todos os irmãos de que o processo de distanciamento entre eles deva se reverter. No meu caso particular, essa decisão não é arbitrária, fruto do acaso ou de sentimento espontâneo: ela tem participação consciente e deliberada de causa humana muito concreta e específica. Sou, hoje, e espero sempre ser, agradecido por essa interferência, que fatores parcialmente fora de meu controle me impedem de declinar com clareza. Meu irmão a designou como o “elo perdido”.

Voltando ao culto de ontem, depois dele, já no salão social da igreja, encontrei-me com várias pessoas, membros antigos da igreja, e amigos queridos de minha infância, adolescência e juventude que não via há muito tempo: a Juracy e o Daniel (ele ainda o regente do coral e com uma voz cada vez mais linda), o Manuel de Oliveira e a Arminda, mulher dele, a Lílian Loureiro, a Míriam de Souza, a Ivone, a Cleide, a Zuca, o Sr. Norberto e a Da. Odete, uma filha e uma neta da Eunice de Souza, que, infelizmente, não estava lá. O Manuel e a Arminda são pais do Amauri, e a Lílian e o Carlos são pais da Lídia: os dois, que formam um casal, criaram a comunidade “Rev. Oscar Chaves” no Orkut (vide: http://www.orkut.com.br/Main#Community.aspx?cmm=72089849).

No último mês o mesmo “elo” reativou vários links meus com contados do meu passado santo-andreense: a Albernice, a Josira, a Abelair, o Machadinho, todos eles irmãos e todos ex-membros da Igreja Presbiteriana do Parque das Nações, em Santo André, que meu pai também pastoreou. Para não falar em outro time de irmãos, o Benedito, o Jonas, o Rubens, o Nicodemos e o Gideão dos Santos (este falecido, e ex-marido da Albernice), também da Igreja do Parque das Nações… Estes não encontrei ainda pessoalmente, mas espero fazê-lo em breve. (Aprendi a dirigir com o Benedito). Por fim, encontrei, durante uma palestra que dei em São Bernardo, a Neusa, filha do Francisco “Mineiro” e da Marlene, que também são amigos da minha infância, adolescência e juventude em Santo André. (O Francisco e a Marlene, embora grandes amigos do meu pai e da família, ficaram na igreja da 11 de Junho – o que prova que há muitos fatores, além de lealdade essoal, que interferem nma decisão de mudar de igreja).

É isso… Passei vários dias sem escrever, mas agora, talvez, tenha escrito demais.

Antes de terminar: o meu pai dá nome ao Coral da igreja, a uma escola municipal e a uma pracinha em Santo André. E, como disse, há uma comunidade dedicada a ele no Orkut (“Rev. Oscar Chaves”). Senti saudades dele ao vê-lo no filme, já velhinho, mas ainda bonito (como sempre foi), poucos meses antes de morrer.

[* NOTA: Meus irmãos me escreveram corrigindo a informação acima: A (primeira) Igreja Presbiteriana de Santo André (da rua Onze de Junho) concedeu ao meu pai o título de Pastor Emérito, logo depois que ele se aposentou – mas posteriormente cassou o título, “desemerenciando” meu pai, por decisão do Conselho, de iniciativa do Rev. Evandro Luiz da Silva. Igrejas às vezes dão um testemunho lastimável contra os princípios e sentimentos que deveriam inspirar.]

Em São Paulo, 16 de Novembro de 2008.