Desigualdade educacional

Venho, há muito tempo, batendo na tecla de que é preciso melhorar a qualidade da educação ministrada em nossas escolas — públicas E privadas. Embora a educação básica oferecida pelas nossas melhores escolas privadas seja, em regra, bem melhor do que a educação oferecida pelas nossas escolas públicas, ela ainda carece de melhoria, porque tende a ser boa dentro de um modelo ou paradigma educacional já há muito ultrapassado (que também é usado pelas nossas escolas públicas). Em outras palavras: todas as nossas escolas, públicas E privadas, usam o mesmo modelo ou paradigma educacional — e, dentro desse modelo ou paradigma, as escolas privadas são, em geral, muito melhores.

Há, portanto, desigualdade educacional entre escolas públicas e privadas, dentro de um mesmo modelo ou paradigma educacional. Mas esse modelo ou paradigma está totalmente desacreditado. Logo, há um sentido em que há igualdade entre os dois tipos de escolas: ambas adotam um modelo ou paradigma educacional há muito ultrapassado.

Muitos educadores (como Dermeval Saviani) pleiteiam a melhoria da escola pública, para que diminua a desigualdade entre elas e as escolas privadas, mas dentro do modelo ou paradigma educacional. Esforço vão. Enquanto as escolas públicas andam um passo, as escolas privadas andam dez — mesmo mantido o modelo ou paradigma.

No hotel em que estou achei um exemplar da revista Viva São Paulo — destinado aos habitantes de Alphaville, Tamboré, Aldeia da Serra e Granja Viana (Ano 5, Edição 52, Outubro de 2005). A revista está recheada de anúncios de escolas básicas particulares. Outubro é o mês em que se tomam decisões acerca de matrícula para o ano seguinte. Uma propaganda, de 4 páginas, é da Escola Internacional de Alphaville. Ela oferece Hotelzinho / Maternal, Educação Infantil, Ensino Fundamental e Ensino Médio. Eis algumas características que ela oferece:

* A educação é bilíngüe, em Português e Inglês, a partir da Educação Infantil;

* Inglês é ensinado para alunos desde os 10 meses de idade;

* O ensino médio prepara para ingresso em universidades tanto brasileiras como estrangeiras;

* No ensino médio os alunos ficam na escola, opcionalmente, das 7h10 até às 16h.

As escolas particulares elevam a aposta quando as escolas públicas tentam eliminar a distância que as separa das escolas particulares.

A alternativa para a escola pública é mudar o seu modelo ou paradigma primeiro…

Em Armação de Búzios, 5 de janeiro de 2006

Informações, conhecimentos e competências

Hoje em dia é comum se dizer – eu mesmo o digo com freqüência – que a educação não tem que ver com a transmissão de informações ou com a "entrega de conteúdos" ("content delivery") aos alunos por parte dos professores, mas, sim, com o desenvolvimento de competências.

Mas o que fazer em relação com a transmissão de informações? E com a chamada "construção" de conhecimentos? Como isso se relaciona com o desenvolvimento de competências? É isso que vou tentar esclarecer um pouco neste curto artigo.

Informação é o tipo de coisa que pode ser deliberadamente transmitida ou transferida de um para outro.

Isso pode acontecer, por exemplo, quando alguém responde a uma pergunta nossa. "Como faço para chegar daqui até o estádio do Morumbi?", pergunto eu a alguém na saída da Marginal do Pinheiros em São Paulo. A resposata do meu interlocutor será um conjunto de informações.

A transmissão ou transferência de informações também pode se dar quando alguém dá uma aula, uma palestra, uma conferência a um grupo de alunos ou a uma audiência. Aulas, palestras e conferências são processos de transmissão ou transferência de informações. Como no caso anterior, o processo aqui é "face-a-face", presencial, como hoje se convencionou chamar. Quem transmite e quem recebe a informação precisa, aqui, estar no mesmo lugar e na mesma hora para que a transmissão se efetive.

Mas informações também podem ser transmitidas ou transferidas, e, do outro lado, adquiridas, sem contato pessoal, em contextos não-presenciais. Quando compro um jornal, uma revista ou um livro, ou quando estou navegando pela Internet, estou adquirindo informações.

Também posso adquirir informações sem que alguém deliberada e intencionalmente as transmita ou transfira, simplesmente observando as coisas e os outros.

Em grande parte em decorrência das tecnologias de informação e comunicação, a quantidade de informações hoje existente no mundo aumentou tanto a ponto de se tornar incalculável — e o acesso às informações se tornou extremamente fácil.

Mas e conhecimentos? A quantidade de conhecimentos, infelizmente, não aumenta na mesma proporção que a quantidade de informações, por uma razão muito simples. Informação é algo que tem existência objetiva, na forma de livros, jornais, revistas, fitas, discos, Internet, etc.. Conhecimento, por outro lado, é algo que se constrói dentro da mente das pessoas. Nunca seríamos capazes de lidar com a quantidade incalculável de informações a que temos acesso a cada minuto se não fôssemos capazes de construir esquemas ou modelos mentais de como é a realidade, de como ela funciona, etc., que nos permitem organizar e resumir as informações pertinentes.  

Há uma diferença muito importante entre "ter a cabeça cheia" (ter muitas informações) e "ter a cabeça bem-feita" (ser capazes de construir esquemas e modelos que permitam que as coisas façam sentido pra nós). As duas expressões vêm de Edgar Morin. Ele tem um livrinho, traduzido para o português, chamado "A Cabeça Bem-Feita". Vale a pena ler.

Rubem Alves, em muitas de suas crônicas, critica a escola porque esta parece acreditar que educar é encher a cabeça das crianças com informações. Segundo ele, estamos produzindo crianças mentalmente obesas, cheias de informação, e não crianças ágeis, que sabem saltar daqui para ali na busca do que lhes interessa… Paulo Freire também criticou a visão bancária da educação: aquela visão que parece pressupor que educar é transferir informações de uma cabeça pra outra (da mesma forma que se transfere dinheiro de uma conta pra outra)… A escola, nesse caso, seria a agência bancária, em que se dão as transferências!

E as competências?

Há uma diferença entre receber informações (em geral indesejadas, porque não atendem a um interesse e nem se sabe para que servem) e buscar as informações necessárias para algo que se deseja fazer…

Uma competência é mais do que uma mera posse de informação.  Uma competência também é algo que vai além de conhecimentos ou "saberes". Competências, na realidade, são "saber-fazeres".

Saber buscar as informações necessárias para algo que se deseja fazer é uma competência. É um saber-fazer. Saber construir esquemas e modelos (e, assim, construir conhecimentos) também é uma competência. É outro saber-fazer. Desenvolver competências, portanto, é algo mais básico do que construir conhecimentos. Sem o primeiro, não teríamos o segundo.

Não precisamos transmitir informações aos nossos alunos – hoje eles têm acesso fácil e eficiente a muito mais informação do que existia no mundo quando eu nasci, em 1943. Precisamos, isto sim, ajudá-los a se desenvolver. Eles se desenvolvem aprendendo. E aprender é tornar-se capaz de fazer aquilo que antes não se conseguia fazer. Aprender, portanto, é desenvolver competências, é se tornar competente: é passar a saber como fazer isso ou aquilo.

Ninguém consegue aprender tudo o que é possível aprender – ou desenvolver todas as competências que é possível ao ser humano desenvolver. O que nos permite selecionar as competências que vamos desenvolver são nossos interesses — em uma palavra, nosso projeto de vida. Quem quer se tornar um músico, um compositor, um autor de ficção, um dançarino, um filósofo, precisa desenvolver competências muito diferentes daquelas que precisa desenvolver quem pretende ser um engenheiro civil, um astronauta, um geneticista, um programador de computadores, um matemático…

Se isso é verdade, faz sentido exigir de todos que "consumam" as mesmas informações que a escola lhes tenta passar? Não deveria a nossa educação escolar ser centrada nas necessidades dos demandantes em vez de na especialização dos ofertantes?

Em Campinas, 25 de outubro de 2005

Transdisciplinaridade

Não tenho bem uma definição de transdisciplinaridade. Tenho, isto sim, uma tentativa de demarcação do conceito.

Procuro comparar disciplinaridade com multidisciplinaridade, interdisciplinaridade e transdisciplinaridade. Não é fácil, porque o sentido dos três últimos termos se sobrepõe.

Disciplinaridade, naturalmente, é se ater, no tratamento de uma questão ou de um problema, dentro dos limites de uma disciplina (digamos, a física).

Multidisciplinaridade, no meu entender, é recorrer a mais de uma disciplinar para abordar uma questão ou um problema. Embora a questão ou o problema seja encarado do ponto de vista de mais de uma disciplina, os diferentes pontos de vista ficam, por assim dizer, justapostos, não são integrados.

Interdisciplinaridade, na minha maneira de ver, é tentar integrar, em uma abordagem mais complexa, os pontos de vista de múltiplas disciplinas em relação a uma questão ou a um problema. A interdisciplinaridade, portanto, é um passo além da multidisciplinaridade.

Transdisciplinaridade, por sua vez, é a tentativa de lidar com questões de um ponto de vista que totalmente transcende matizes disciplinares. Em vez de lidar com, digamos, a sexualidade a partir do ponto de vista da biologia, da psicologia, da literatura, da ética, etc., tentar lidar com a questão de uma forma que deliberadamente desconhece limites ou demarcações disciplinares.

Campinas, em 25 de outubro de 2005

A salvação da universidade pública (e da privada!)

Talvez o melhor conjunto de medidas que poderia ser adotado pelo desgoverno petista para melhorar a qualidade do ensino superior privado, tão criticado pela esquerda estatista, seria definir, de forma clara e irrecorrível (de preferência através de uma Emenda Constitucional que acrescente essas medidas como cláusulas pétreas em nossa lei maior) que o acesso ao ensino superior público no Brasil será condicionado a estas prioridades (pela ordem):

a) Quanto mais pobre o candidato, maior o número de pontos atribuído a ele na categoria “pobreza” (até o maximo de 100). Essa categoria permitiria, naturalmente, que a universidade pública se engajasse no combate à pobreza (contribuindo também para modificar a imagem elitista que a universidade pública possui aos olhos do público externo a ela).  

b) Quanto mais escura a pele do candidato, maior o número de pontos atribuído a ele na categoria “cor” (até o maximo de 100).  Essa categoria permitiria, naturalmente, que a universidade contribuisse com a sociedade no combate ao racismo ou ao “colorismo” (preconceito contra as pessoas de cor). (Preservo a grafia “colorismo”, em ver de usar o termo “corismo” que alguns preferem, em primeiro lugar porque existe, em Português, o verbo “colorir”, com um só ele, que significa dar cor, pintar, e, em segundo lugar, porque o termo “corismo” poderia ser entendido como tendo relação com “coro” e não com “cor”).

NOTA: deixo em aberto se o critério "a" deve ter precedência sobre o critério "b", ou se “b” deve prevalecer sobre “a”. Esclareço que se o critério "a" prevalecer, alguém muito pobre, mas bastante branco (como aqueles branquelos descendentes de alemães, polacos e italianos do sul do Brasil), ficaria classificado na frente de alguém meio escuro, mas não muito pobre, como, por exemplo, o filho do Ronaldo Nazário, o Fenômeno (que, apesar de ter dito que é branco, e, portanto, não colorido, teve sua negação violentadamente criticada pelo establishment cultural brasileiro, que determinou que, independentemente de sua aparência, o filho de Ronaldo é de cor, vale dizer, negro); se o critério "b" prevalecer, um escurinho rico, como o Edinho, filho do Pelé, fica classificado na frente de branco pobre – se, naturalmente, for libertado da prisão em tempo para concorrer a uma vaga no ensino superior público. [A UNICAMP já demonstrou interesse em pleitear para si a vaga que será ocupada por Edinho na eventualidade de que ele possa e deseje concorrer a ela].

c) Quanto mais distante da Europa for o local de nascimento dos ascendentes mais próximos do candidato, até a quinta geração, maior o número de pontos atribuído a ele na categoria “etnismo” (até o máximo de 100). Essa categoria permitiria, naturalmente, que a universidade pública contribuisse com a sociedade no combate ao nefasto preconceito do eurocentrismo – preconceito que afirma que as culturas antigamente chamadas de primitivas não são inferiores à cultura que teve sua origem na Europa. Por culturas primitivas entenda-se, por exemplo, algumas culturas africanas em que os maridos têm reconhecido o seu direito de espancar suas mulheres (sic) porque (inter alia) a comida ficou salgada demais, e em que o clitóris das adolescentes é removido e sua vagina costurada, para que não fiquem tentadas a arriscar sua virgindade antes de serem compradas por um marido, que, na noite de núpcias, para comprovar sua virilidade, arrebenta com a vagina ainda costurada da noiva, para que esta não sofra tentação de usá-la com nenhum outro que não ele).

d) Quanto mais orientado para o mesmo sexo for o candidato em sua preferência sexual, maior o número de pontos atribuído a ele na categoria “sexismo” (até o máximo de 100). Essa categoria permitiria, naturalmente, que a universidade pública contribuisse no combate a diversos preconceitos relacionados ao que antigamente se chamava de sexo mas hoje se chama de gênero: sexismo, chauvinismo heterossexual, homofobismo, etc.. Registre-se aqui que, embora hoje seja de bom alvitre referir-se ao gênero e não ao sexo da pessoa, porque este não seria biologamente determinado, mas, sim, socialmente construído, na referência ao preconceito conhecido como “sexismo” o termo “sexo” é ainda admitido. Esclareço ainda que, para fins de classificação, o exclusivamente homossexual é mais orientado para o mesmo sexo do que o bissexual e este é mais orientado para o mesmo sexo do que o exclusivamente heterossexual. Dispenso-me de apresentar a justificativa. Para aplicar o critério com mais rigor pode-se ainda preferir, no acesso à universidade pública, quem é exclusivamente homossexual hoje e nunca – jamais — manteve relações sexuais com o sexo oposto a quem é exclusivamente homossexual hoje, mas, no passado, já teve momentos de fraqueza e lapso em que manteve relações sexuais com alguém que pertence ao outro sexo. Sou forçado a admitir que o uso do termo “gênero” aqui parece não cair muito bem, e confesso omitir intencionamente as categorias “transsexual”, “metrossexual”, “überssexual”, etc. por, sinto dizê-lo, não entendê-las suficientemente bem. Sugiro, no caso específico da UNICAMP, universidade na qual milito, que a Marta Suplicy seja consultada sobre essas categorias antes da implantação da proposta na universidade.

e) Quanto mais "necessidades especiais" (antigas deficiências, termo hoje politicamente incorreto) tiver o candidato, maior o número de pontos que ele recebe na categoria “capacitismo” [tradução de “ableism”] (até o máximo de 100). Essa categoria permitiria, naturalmente, que a universidade pública contribuisse com o combate aos portadores de habilidades diferenciadas, posto que hoje “ser diferente é normal”. Para as instituições demasiadamente preocupadas com uma possível injustiça, nesta categoria, contra candidatos não-desafiados por necessidades especiais (os antigamente chamados, inapropriadamente, de normais, visto que todo mundo é diferente), caso seja atribuído o máximo de 100 pontos para cada necessidade especial, o número de pontos atribuídos no caso de múltiplas necessidades pode ser o resultado da divisão de 100 pelo número de necessidades especiais do candidato.

f) Quanto mais velho for o candidato, maior o número de pontos atribuído a ele (até o maximo de 100) na categoria “idadismo” ou “jovismo” [neologismos que traduzem os termos em Inglês "ageism" e "youngism"]. Essa categoria permitiria, naturalmente, que a universidade pública contribuisse no combate ao preconceito contra aqueles de experiência mais longa.  

g) Quanto mais feio for o candidato, maior o número de pontos atribuído a ele (até o máximo de 100) na categoria “aparencismo” ou “belezismo” (neologismos que procuram traduzir os termos em Inglês "lookism" e "prettyism/handsomism". Essa categoria permitiria, naturalmente, que a universidade pública contribuisse no combate ao preconceito contra aqueles que são inapropriadamente chamados de feios, visto que a beleza é relativa e, de qualquer forma, está no olho de quem olha, não na pessoa olhada em si.  

O fato de não ter previsto um criterio específico para os gordinhos (vitimas do preconceito de "fofismo") e para os HIV-positivos (vitimas do preconceito conhecido na America Latina, fora do Brasil, como "sidismo", e, no Brasil, como "soropositivismo" – variedade pós-comtiana de positivismo), não quer, de forma alguma, indicar que eu, pessoalmente, seja culpado dos preconceitos acima indicados. O problema é que não sei direito onde inserir esses dois critérios.

O fato de não ter previsto outros critérios, que impeçam outras formas de discriminação, decorre, não de preconceito de minha parte, mas, e exclusivamente, de minha ilimitada ignorância das múltiplas, variegadas e sutis formas que o preconceito assume em nosso meio.

Sugiro ainda que os mesmos criterios se apliquem à escolha de professores para o ensino superior público.

Quotas nao resolvem os problemas por cuja solucao se bateram os representantes brasileiros em reunião recente na África do Sul. Esta minha solução os resolve definitivamente.

Garanto que com as prioridades acima indicadas nenhuma pessoa rica, branca, de ascendência européia, heterossexual ("straight"), sem necessidades especiais ("deficiências"), jovem e bonita jamais conseguiria se valer do dinheiro publico para conseguir manter seu status de classe dominante. E a universidade pública estaria salva dos que hoje a manipulam para suas finalidades inconfessáveis.

De quebra, tenho certeza de que a qualidade do ensino superior privado melhoraria rapidamente, solucionando (num sub-produto bastante positivo) um dos grandes problemas do cenário educacional brasileiro e colocando o ensino superior privado em linha com o ensino básico privado, já reconhecido como de qualidade superior.

Espero que as mulheres apreciem o fato de que não atribuí pontos diferenciados às mulheres, recusando-me a consider o "hominismo" (condição de ser simplesmente o homem da espécie) um preconceito muito sério. Certamente não o tipo de preconceito a ser considerado crime inafiançável – nem o tipo de preconceito do qual se possa livrar sem delicada cirurgia.

Em Campinas, 24 de agosto de 2005

"Inclusão Universitária"

Em evento promovido pela Folha de S. Paulo, que reuniu especialistas com propostas para facilitar acesso de aluno da rede pública à universidade, relata-se o seguinte (Vide Folha de S. Paulo, 15 de maio de 2005, sob o título "Ministério e USP propõem reforço a excluído". (Curioso que sejam "Ministério e USP" – e, como se vai ver, vários dos participantes, como o novo Reitor da UNICAMP, José Tadeu Jorge, que será a seguir citado, nada têm que ver com um ou com a outra).

Eis o que relata a Folha:

"Um dado apresentado pelo reitor da Unicamp é, nas palavras dele próprio, ‘sintomático da necessidade de se produzir medidas visando a inclusão social’: segundo o Censo 2003 (levantamento realizado pelo MEC), 1,6% dos jovens de 18 a 24 anos que estão em cursos de nível superior pertencem aos 57,3% da população que tem renda per capita familiar abaixo do salário mínimo. ‘Esse dado mostra uma inversão completa’, afirmou o reitor."

Concedo o fato mencionado: que "1,6% dos jovens de 18 a 24 anos que estão em cursos de nível superior pertencem aos 57,3% da população que tem renda per capita familiar abaixo do salário mínimo."

A conclusão evidente a tirar desse dado é que a população que tem renda per capita familiar abaixo do salário mínimo está tremendamente sub- representada nos cursos superiores.

Essa conclusão, entretanto, não surpreende ninguém. Quem trabalha na UNICAMP, como eu, conhece, sem necessidade das estatísticas (atrasadas) do MEC, uma verdade que o reitor da UNICAMP omitiu, a saber, que percentual da população que tem renda per capita familiar abaixo do salário mínimo que freqüenta a UNICAMP é perto de zero, se não for um zero redondinho.

O que surpreende, além da omissão do reitor da UNICAMP, é a sua conclusão, de que o dado levantado pelo MEC "mostra uma inversão completa".

O atual reitor da UNICAMP não é um lingüista e um poeta, como era um reitor anterior, Carlos Vogt. É engenheiro de alimentos. Mas confesso que seu uso da linguagem me deixa perplexo. O que seria "uma inversão" completa do dado de que "1,6% dos jovens de 18 a 24 anos que estão em cursos de nível superior pertencem aos 57,3% da população que tem renda per capita familiar abaixo do salário mínimo"??? O que deve ser completamente invertido? O percentual? A faixa etária? A permanência nos cursos de nível superior? O percentual da população que tem renda familiar abaixo do salário mínimo?

Estaria o reitor da UNICAMP porventura sugerindo que o mais justo seria que os jovens de 18 a 24 anos oriundos de famílias que têm renda per capita abaixo do salário mínimo deveriam ser a maioria na universidade, só em decorrência desse dado econômico, sem levar em conta o mérito (capacidade + esforço) ou o desempenho nos processos seletivos???

Estaria o reitor da UNICAMP porventura sugerindo que às universidades tivessem acesso "os que dele precisam" (em sua modesta opinião), em vez de "os que têm mérito e desempenho" para estar lá??? (Seria esta uma versão acadêmica do "a cada um segundo a sua necessidade?)

Estaria o reitor da UNICAMP porventura sugerindo a existência de um critério econômico invertido para acesso à universidade, a saber, quem ganha menos, entra, quem ganha mais, fica de fora, independentemente de seu mérito e desempenho, seja no processo seletivo, seja na escolaridade precedente??? (Note-se que o reitor não estava falando que a inversão existe na universidade pública, mas, sim, nos "cursos de nível superior" como tais.)

O reitor da USP parece sugerir um caminho diferente. Eis o que diz a matéria da Folha:

"Para esta última, o reitor da USP afirmou que a universidade pensa em dar reforço escolar a estudantes que ele classificou como ‘talentos’. A escolha seria feita por meio de ‘critério objetivos’, como o desempenho no Saresp (exame aplicado pela Secretaria Estadual de Educação). ‘É uma idéia. Com o reforço, [podemos] possibilitar a entrada desse aluno na universidade’, disse Melfi."

É – é uma idéia.

A USP, pelo jeito, vai começar a ministrar ensino básico – pelo menos um reforço — para alunos que ela considera "talentos". O reitor não esclarece se o reforço seria dado antes do processo seletivo ou depois. Se antes, a Universidade estaria realmente se enveredando pelo ensino básico.

Se depois, a Universidade estaria comprometendo consideráveis recursos de seu já comprometido orçamento para "recuperar" alunos supostamente talentosos, mas mal-preparados pela escola pública…

O MEC também tem "sua idéia":

"Idéia parecida vem sendo aplicada pelo MEC, em um dos programas do Diversidade na Universidade. Henriques contou que, desde o começo do ano, 700 alunos das três séries do ensino médio público de todo o país vêm recebendo uma tutoria [acompanhamento de um professor]. A escolha dos estudantes foi aleatória. No mesmo programa, 29 cursos pré-vestibulares estão recebendo financiamento."

Aí vai: a tutoria é dada por professor das universidades federais? O mesmo argumento usado no caso da USP se aplica, só que num quadro piorado, pois a escolha dos estudantes aqui é "aleatória"… Pelo jeito o MEC não quer nem de longe ser acusado de favorecer talentos: prefere favorecer mediocridades aleatoriamente escolhidas…

Além disso, o MEC pelo jeito está agora financiando cursos pré- vestibulares (dos quais, que eu saiba, não há nenhum estatal).

Já o Secretário Estadual de Ciência e Tecnologia de São Paulo tem "outra idéia":

"Já o secretário estadual de ciência e tecnologia enfatizou a necessidade de diversificação do sistema superior, hoje baseado em universidades. ‘Há alunos que não têm vocação para formação acadêmica, mas precisam trabalhar’, disse Meirelles."

Tudo bem, secretário: a questão, caso o senhor não tenha percebido, não é quem precisa trabalhar: é quem deve entrar na Universidade. Nada proíbe alguém de trabalhar sem curso superior. Para fazer curso superior exige-se um mínimo de talento e competência.

Mais uma observação interessante, agora de João Carlos Meirelles (Secretaria Estadual de Ciência, Tecnologia, Desenvolvimento Econômico e Turismo)

"No Brasil, deveríamos pensar que a universidade não é o único caminho para o jovem. Os países desenvolvidos têm metade de seus jovens nas universidades e metade em escolas técnicas e faculdades de tecnologia.

Criamos um viés cultural que o diploma superior é a salvação. Em 2003, enquanto tínhamos 1,037 milhão [de alunos] na faculdade convencional [em São Paulo], havia 23 mil nas nossas faculdades de tecnologia, as Fatecs. E o ensino tecnológico é aquele que tem a agilidade de acompanhar as demandas do mercado, com grau de excelência. Nas escolas técnicas de 2º grau foram 80 mil. Veja o absurdo: 1,037 milhão de jovens na academia [ensino superior] e 100 mil nas escolas e faculdades técnicas. É um contraditório inaceitável no país. Em São Paulo, um estudante na escola técnica custa R$ 2.000; nas faculdades de tecnologia, R$ 3.000; nas universidades [USP, Unicamp e Unesp], sem o custo da pesquisa, R$ 8.000.

Precisamos pensar com mais humildade o futuro da nossa juventude."

Para o secretário, o problema é meramente econômico. Mérito, ou merecimento, não entra na equação.

Agora, a grande obviedade do dia foi dita pelo Secretário para Inclusão Social do Ministério da Ciência e Tecnologia:

"O secretário para Inclusão Social do Ministério da Ciência e Tecnologia, por sua vez, defendeu a extensão universitária. ‘A grande virtude da extensão é que ela pode promover a inclusão social para aqueles que estão fora do ensino superior’, disse Rollemberg."

Nossa, como é que eu pude, em 35 anos de magistério universitário, nunca ter descoberto isso???

[Os debatedores no encontro, segundo a Folha, foram: "o reitor da USP, Adolpho José Melfi; o reitor da Unicamp, José Tadeu Jorge; o secretário para Inclusão Social do Ministério da Ciência e Tecnologia, Rodrigo Rollemberg; o secretário de Educação Continuada, Alfabetização e Diversidade do Ministério da Educação (MEC), Ricardo Henriques; e o secretário estadual de Ciência, Tecnologia, Desenvolvimento Econômico e Turismo, João Carlos de Souza Meirelles. A mediação ficou a cargo do jornalista Gilberto Dimenstein, integrante do Conselho Editorial da Folha."]

Em Campinas, 15 de maio de 2005

[Abaixo, a matéria completa da Folha]

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Folha de S. Paulo
15 de maio de 2005

EDUCAÇÃO

Evento promovido pela Folha reuniu especialistas com propostas para facilitar acesso de aluno da rede pública à universidade

Ministério e USP propõem reforço a excluído DA REPORTAGEM LOCAL

Reforço escolar para alunos da rede pública como forma de inclusão social.

Essa foi uma das propostas do Ministério da Educação e da USP apresentadas em debate promovido pela Folha.

O evento, chamado de "Ensino superior e inclusão social", ocorreu na última quarta-feira.

Os debatedores foram o reitor da USP, Adolpho José Melfi; o reitor da Unicamp, José Tadeu Jorge; o secretário para Inclusão Social do Ministério da Ciência e Tecnologia, Rodrigo Rollemberg; o secretário de Educação Continuada, Alfabetização e Diversidade do Ministério da Educação (MEC), Ricardo Henriques; e o secretário estadual de Ciência, Tecnologia, Desenvolvimento Econômico e Turismo, João Carlos de Souza Meirelles. A mediação ficou a cargo do jornalista Gilberto Dimenstein, integrante do Conselho Editorial da Folha.

Um dado apresentado pelo reitor da Unicamp é, nas palavras dele próprio, "sintomático da necessidade de se produzir medidas visando a inclusão social": segundo o Censo 2003 (levantamento realizado pelo MEC), 1,6% dos jovens de 18 a 24 anos que estão em cursos de nível superior pertencem aos 57,3% da população que tem renda per capita familiar abaixo do salário mínimo. "Esse dado mostra uma inversão completa", afirmou o reitor.

Para solucionar o problema, algumas propostas tiveram apoio de todos os integrantes da mesa. Algumas delas estão relacionadas à melhoria do ensino básico público, com qualificação de professores e de alunos. Para esta última, o reitor da USP afirmou que a universidade pensa em dar reforço escolar a estudantes que ele classificou como "talentos".

A escolha seria feita por meio de "critério objetivos", como o desempenho no Saresp (exame aplicado pela Secretaria Estadual de Educação). "É uma idéia. Com o reforço, [podemos] possibilitar a entrada desse aluno na universidade", disse Melfi.

Idéia parecida vem sendo aplicada pelo MEC, em um dos programas do Diversidade na Universidade. Henriques contou que, desde o começo do ano, 700 alunos das três séries do ensino médio público de todo o país vêm recebendo uma tutoria [acompanhamento de um professor]. A escolha dos estudantes foi aleatória.

No mesmo programa, 29 cursos pré-vestibulares estão recebendo financiamento. Os resultados dos dois projetos servirão como base para criação de políticas "de massa", que buscarão aumentar o número de estudantes da rede pública no ensino superior.

Enquanto alguns temas receberam apoio de todos os debatedores, a proposta de reserva de vagas dividiu os especialistas. Os integrantes do governo federal defenderam a proposta que consta no anteprojeto de reforma universitária, que reserva 50% das vagas nas universidades federais a alunos do ensino médio público. Os reitores da USP e da Unicamp se mostraram contrários à idéia.

Já o secretário estadual de ciência e tecnologia enfatizou a necessidade de diversificação do sistema superior, hoje baseado em universidades. "Há alunos que não têm vocação para formação acadêmica, mas precisam trabalhar", disse Meirelles.

O secretário para Inclusão Social do Ministério da Ciência e Tecnologia, por sua vez, defendeu a extensão universitária. "A grande virtude da extensão é que ela pode promover a inclusão social para aqueles que estão fora do ensino superior", disse Rollemberg. (FÁBIO TAKAHASHI)

Leia abaixo as opiniões a respeito dos principais temas abordados no debate.

COTAS

Adolpho José Melfi (USP)

"Em vez das cotas, o governo poderia definir uma meta. Por exemplo, termos 50% dos alunos na universidade vindos da escola pública. Isso foi feito no sistema universitário paulista, em que deveríamos ter 33% dos alunos matriculados em cursos noturnos. Foi deixado que as universidades criassem seus mecanismos, seja com a criação de novos cursos, seja com a criação de vagas em cursos já existentes. Nós atingimos e ultrapassamos a meta."

José Tadeu Jorge (Unicamp)

"A questão das cotas incomodou a Unicamp. A universidade não poderia aceitar essa forma sem discussão. Buscamos alternativas. Com base em estudos dos últimos sete anos, notamos que [comparando] dois alunos, aprovados com a mesma nota no vestibular, no mesmo curso, o da escola [média] pública chegava ao final do curso com um desempenho consideravelmente melhor. Portanto, se fizéssemos o caminho inverso, ou seja, partindo do final do curso para o vestibular, vimos que muitos alunos da escola pública que não foram aprovados teriam condições de chegar ao final do curso no mesmo nível [que o do ensino médio privado].

Por isso, decidimos dar um bônus no vestibular para os alunos da rede pública. Os resultados: 28% dos ingressantes provinham de escola pública em 2004. Neste ano, com essa metodologia, subiu para 34,1%. No curso de medicina, o número de alunos provenientes de escola pública aumentou 240%."

Rodrigo Rollemberg (Ministério da Ciência e Tecnologia) "Consideramos que é um avanço a proposta do anteprojeto de reforma universitária, embora tenhamos muito claro que o sistema de cotas vai promover uma inclusão que tem um limite bem delineado, porque ainda temos uma parcela muito grande da população que não concluiu o ensino médio e, portanto, não está apto a entrar na universidade."

Ricardo Henriques (MEC)

"A proposta assegura uma vinculação republicana entre ensino médio e universidade."

DIVERSIFICAÇÃO

Adolpho José Melfi

"Temos no Brasil um modelo de universidade de pesquisa, que é caro e não pode suportar um número muito grande de alunos. O maior problema no que diz respeito à inclusão é o modelo adotado. A saída é a criação de outros tipos de ensino superior, que poderiam atender a um número muito maior de alunos."

João Carlos Meirelles (Secretaria Estadual de Ciência, Tecnologia, Desenvolvimento Econômico e Turismo)

"No Brasil, deveríamos pensar que a universidade não é o único caminho para o jovem. Os países desenvolvidos têm metade de seus jovens nas universidades e metade em escolas técnicas e faculdades de tecnologia.

Criamos um viés cultural que o diploma superior é a salvação. Em 2003, enquanto tínhamos 1,037 milhão [de alunos] na faculdade convencional [em São Paulo], havia 23 mil nas nossas faculdades de tecnologia, as Fatecs. E o ensino tecnológico é aquele que tem a agilidade de acompanhar as demandas do mercado, com grau de excelência. Nas escolas técnicas de 2º grau foram 80 mil. Veja o absurdo: 1,037 milhão de jovens na academia [ensino superior] e 100 mil nas escolas e faculdades técnicas. É um contraditório inaceitável no país. Em São Paulo, um estudante na escola técnica custa R$ 2.000; nas faculdades de tecnologia, R$ 3.000; nas universidades [USP, Unicamp e Unesp], sem o custo da pesquisa, R$ 8.000.

Precisamos pensar com mais humildade o futuro da nossa juventude."

REGIONALIZAÇÃO

Adolpho José Melfi

"Enquanto na USP temos 28% de alunos de escola pública, na USP Leste [novo campus, na zona leste] temos 47%. O número de inscritos da zona leste não chegava a 4% no nosso vestibular. A questão "distância" é importante."

Rodrigo Rollemberg

"É importante o processo de regionalização e de interiorização da universidade. Os cursos devem estar focados nas necessidades regionais.

Com isso, passa-se a prestar serviços antes inexistentes nessas comunidades, o que contribui para a qualidade de vida."

Ricardo Henriques

"A expansão tem de estar derivada de programas que contemplem a relevância social e territorial, com conteúdos temáticos, que tenham a ver com aquela realidade."

AMPLIAÇÃO DE VAGAS

Adolpho José Melfi

"Para 9.000 vagas neste ano [no vestibular da USP], apareceram 140 mil candidatos. A expansão é fundamental. E o curso noturno é extremamente importante para inclusão social."

José Tadeu Jorge

"Fazemos inclusão quando criamos vagas na graduação, tornando mais fácil o acesso à universidade. Nos últimos cinco anos, houve um aumento de 900 vagas. Fazemos inclusão especialmente nos cursos noturnos."

João Carlos Meirelles

"A prioridade é o ensino técnico e tecnológico. Estamos hoje com 18 faculdades de tecnologia. Há quatro anos, eram nove. E vamos criar mais 30 escolas técnicas."

Transcrito em Campinas, 15 de maio de 2005

Educação e Tecnologia

Quando se fala em educação e tecnologia a maioria das pessoas imediatamente pensa no uso da tecnologia para melhorar o ensino do professor em sala de aula, para transmitir informações de forma mais eficiente e atraente. Pressupõem, assim, ingenuamente, que educação e ensino são termos sinônimos e que usar a tecnologia na educação é usar a tecnologia para ensinar melhor matemática, física, química, biologia, história, geografia, etc.

Bill Gates, por incrível que possa parecer aos que não o conhecem muito bem, tem uma visão muito mais correta da questão do que a maioria dos educadores. Em um vídeo chamado "The Connected Learning Community", Gates diz que a tecnologia vai mudar a educação (sic; não o ensino) por colocar pessoas em contato com pessoas e com a informação de que precisam para fazer o que desejam.

Há muitas coisas importantes — e absolutamente corretas — na posição de Gates.

Primeiro, a ênfase que ele coloca no fato de que a educação se faz através da interação entre pessoas, não da interação de uma pessoa com uma máquina (mesmo que uma máquina seja usada para colocar uma pessoa em contato com outra).

Segundo, o conseqüente reconhecimento de que o computador vai afetar a educação muito mais por ter se tornado um meio de comunicação interativa do que por ser um equipamento de processamento de informações.

Terceiro, a ênfase que ele coloca na aprendizagem, e não no ensino. A aprendizagem pode ocorrer em decorrência do ensino. Mas a aprendizagem que permanece e tem significado para o aprendente é aquela que acontece quando ele, assumindo uma postura ativa, interage com outras pessoas busca de resposta às suas perguntas ou de soluções para os seus problemas.

Cortland, OH, 14 de Janeiro de 2005 (Transcrição de algo que escrevi em 24 de Junho de 2002, em outro blog meu)

Modalidades de escolas

Modalidades de Escolas, Segundo a Relação com o Poder Público

Modalidades "Puras":

a) Escola estatal (totalmente financiada pelo poder público)

b) Escola privada sem fins lucrativos (sem nenhum recurso público)

c) Escola privada com fins lucrativos (sem nenhum recurso público)

Modalidades "Mistas":

a) Escola estatal com parcerias privadas (com entidades lucrativas ou não-lucrativas)

b) Privada sem fins lucrativos subsidiada pelo poder público

c) Privada com fins lucrativos subsidiada pelo poder público

Modalidade "Especial"

a) Escola privada que recebe alunos subsidiados pelo poder público (através de "vouchers", por exemplo)

(Neste caso o subsídio não é dado à escola: é dado ao aluno ou à sua família.)

Cortland, OH, 14 de Janeiro de 2005 (Transcrição de algo que escrevi em 23 de Junho de 2002 em outro blog meu)

Educação e direito de escolha

Educação e Direito de Escolha (Liberdade)

No Brasil, atualmente, um casal cujos filhos chegam à idade escolar tem alguma liberdade (direito a algumas escolhas) — mas não muita(s).

O casal não tem, por exemplo, a liberdade (o direito) de educar seus filhos em casa: é obrigado pelo governo a colocá-los na escola. Recentemente um casal lutou por esse direito, mas não o teve reconhecido, o governo argumentando que toda criança com idade entre 7 e 14 anos tem que estar na escola. Esse direito foi negado apesar da inegável competência da mãe das crianças de educá-las (era professor) e apesar de o casal se dispor a submeter as crianças educadas em casa aos exames requeridos pelo governo ou mesmo aos exames de uma escola pública indicada pelo governo.

A única escolha (liberdade) básica que um casal cujos filhos chegam à idade escolar tem é de optar por colocá-los na escola pública ou na escola privada. Se o governo devolvesse aos casais que optam por colocar seus filhos na escola privada, e, portanto, optam por não usar a escola pública, o dinheiro correspondente ao custo dessas crianças na escola pública, essa escolha (liberdade) seria mais significativa. Do jeito que são as coisas, o casal que opta por colocar seus filhos na escola privada "paga duas vezes" pela educação de seus filhos: paga pela educação que recebem na escola privada e paga, através de seus impostos, para custear a escola pública que seus filhos não estão usando.

Se um casal escolhe colocar seus filhos na escola pública, não tem escolha direta sobre a escola que eles vão freqüentar, pois, em geral, as crianças são obrigadas a freqüentar a escola pública mais próxima de sua residência (mesmo que os pais prefiram uma outra). Para conseguir que os filhos freqüentem uma outra escola pública os pais são obrigados a mudar de residência, o que pode envolver ônus financeiro (ou, então, a mentir sobre sua residência).

As escolas públicas, assim, têm uma clientela cativa, independentemente de sua qualidade.

Uma forma de melhorar a qualidade da escola pública seria dar aos pais um "voucher" por filho em idade de escolarização obrigatória que fosse equivalente ao custo médio de um aluno na escola pública e deixar que eles escolhessem a escola que gostariam que seus filhos freqüentassem (ainda que privada — ficando os pais responsáveis por complementar o valor do "voucher" caso a escola fosse mais cara do que o custo médio de um aluno da escola pública. Essa medida não acarretaria aumento de gastos para o poder público e obrigaria as escolas públicas a entrar num regime de competição, até mesmo com as escolas privadas, melhorando, assim, sua qualidade — ou, então, ficando sem alunos e sendo obrigadas a dispensar os seus professores e a fechar suas portas, porque sua manutenção viria dos "vouchers", e não de repasse direto de recursos por parte do poder público.

Essa medida, se acoplada à eliminação da obrigatoriedade da escolarização, poderia também eliminar o absurdo que existe hoje no Brasil, de o governo oferecer uma escola gratuita à população (paga com impostos gerais) e, por cima, ainda pagar a população para colocar seus filhos nela (através da "bolsa-escolas"). Os pais que não desejassem colocar seus filhos na escola não receberiam nenhum "voucher", pois este seria destinado apenas aos pais que tivessem seus filhos comprovadamente matriculados em uma escola — pública ou privada, sendo ambas pagas pelos usuários, com o recurso fornecido pelos "vouchers".

Cortland, OH, 14 de Janeiro de 2005 (Transcrição de algo escrito em 23 de Junho de 2002 em outro blog meu)

É Preciso Aproximar Mais: Saviani e a Pedagogia Histórico-Crítica

Dermeval Saviani, em seu livro, Pedagogia Histórico-Crítica: Primeiras Aproximações [1], procura apresentar, de maneira sistemática, a teoria pedagógica que dá nome ao livro, que é, de certa maneira, uma criação sua. Trata-se de quatro ensaios publicados anteriormente, em vários periódicos, de um Apêndice, também não inédito (contém o Prefácio à 20ª edição de um outro livro seu, Escola e Democracia) e de uma Introdução, esta sim escrita para integrar os outros trabalhos. Apesar de conter pouca coisa de novo para os que acompanham a sua trajetória, o livro é útil por dar fácil acesso a uma série de textos que servem para explicitar uma teoria que está na boca de virtualmente todos os alunos de pós-graduação no país — e até de graduação.

Grande parte do livro se ocupa de nomenclatura e classificação, pois o interesse de Saviani é demarcar a Pedagogia Histórico-Crítica (doravante chamada de PHC) de outras teorias pedagógicas que lhe fazem concorrência, principalmente a teoria da educação dita tradicional, a teoria da educação que Saviani chama de nova, ou “escolanovista” [2], e a teoria que ele rotula de “crítico-reprodutivista” (Althusser, Bourdieu / Passeron, Baudelot / Establet). Saviani menciona ainda uma “teoria tecnicista” e uma “teoria analítica”, mas, como nesse livro elas não merecem muita atenção, também vou deixá-las de lado.

Dada a grande popularidade da PHC no meio educacional brasileiro, resolvi fazer uma resenha não muito sistemática do livro.

Na tentativa de classificar as teorias pedagógicas, Saviani faz, inicialmente, uma grande divisão: de um lado, as teorias pedagógicas “críticas”, de outro lado, as teorias pedagógicas “não-críticas”.

Uma teoria pedagógica é crítica se “leva em conta os determinantes sociais da educação”; é não-crítica se “acredita (…) ter a educação o poder de determinar as relações sociais, gozando de uma autonomia plena em relação … à estrutura social” (p.93).

Na interpretação de Saviani, esse critério nos leva a concluir que as teorias pedagógicas tradicional e escolanovista são não-críticas e que a teoria pedagógica crítico-reprodutivista e a histórico-crítica são, como pretendem, até no nome, críticas (p.93).

Feita essa grande divisão, Saviani faz agora uma outra, dentro do domínio das teorias críticas, que vai demarcar a teoria pedagógica histórico-crítica da crítico-reprodutivista.

A teoria pedagógica crítico-reprodutivista erra, segundo Saviani, porque acredita que a educação não tem poder de determinar as relações sociais, ao mesmo tempo em que é por elas determinada. Ela pressupõe, erroneamente (ainda segundo Saviani) que, dada uma sociedade capitalista, a educação apenas e tão somente reproduz os interesses do capital. Por isso, ela “não apresenta proposta pedagógica, além de combater qualquer uma que se apresente” (p.93), deixando os educadores de esquerda que atuam em sociedades capitalistas sem perspectivas: sua única alternativa honesta seria abandonar a ação educacional, que seria sempre “necessariamente reprodutora das condições vigentes e das relações de dominação — características próprias da sociedade capitalista” (p.94) [3].

A teoria pedagógica histórico-crítica foi criada (admitidamente não ex nihilo) por Saviani para dar aos educadores de esquerda, que atuam em países capitalistas, como seria o caso de dele e de outros educadores brasileiros, alguma perspectiva, para lhes oferecer uma alternativa, para lhes propor um curso de ação. Ela parte do pressuposto de que é viável, mesmo numa sociedade capitalista, “uma educação que não seja, necessariamente, reprodutora da situação vigente, e sim adequada aos interesses da maioria, aos interesses daquele grande contingente da sociedade brasileira, explorado pela classe dominante” (p.94). (Deixo de lado o fato de que Saviani parece pressupor — certamente não o prova — que a grande maioria dos brasileiros teria interesses não capitalistas, alinhados com as teses do comunismo marxista).

Segundo Saviani, a PHC, embora “consciente da determinação exercida pela sociedade sobre a educação”, fato que a torna crítica, acredita que “a educação também interfere sobre a sociedade, podendo contribuir para a sua própria transformação” (p.94), fato que a torna histórica.

Preciso admitir, aqui, que a terminologia savianiana me deixa um pouco perdido. O que Saviani chama de crítico me parece ser mais adequadamente descrito como histórico, e o que ele chama de histórico me parece ser mais adequadamente descrito como crítico. Vejamos porquê. Uma teoria pedagógica é crítica (segundo ele) se admite que a educação é determinada pela sociedade. Ora, a tese da determinação social das idéias tem, tradicionalmente, sido descrita como uma tese histórica, até mesmo historicista, não crítica. Ela postula que as idéias são produto de seu tempo e lugar — algo que (pelo menos prima facie) nada tem de crítico. Por outro lado, uma teoria pedagógica é histórica (segundo Saviani) se admite que a educação também interfere sobre a sociedade, podendo até contribuir para a sua transformação. Ora, a tese de que as idéias podem contribuir para a mudança das condições sociais nega o determinismo histórico e pode, adequadamente, ser caracterizada como crítica. Porque Saviani escolheu chamar de crítico o que parece ser histórico, e de histórico o que parece ser crítico, é algo que ultrapassa o meu entendimento. Mas não pretendo ficar discutindo semântica, e vou admitir a terminologia savianiana, só me referindo a esse problema quando estritamente necessário.

Saviani, escrevendo (pelo menos nesse livro) apenas para educadores de esquerda [4], os únicos com os quais ele dialoga, ou os únicos que ele tenta doutrinar, acaba dirigindo suas mais pesadas críticas à teoria pedagógica crítico-reprodutivista, e não, como poderia ser de esperar, às teorias pedagógicas  que ele rotula de não-críticas (a teoria tradicional e a teoria escolanovista) — ele de certa forma pressupõe que entre seus leitores ninguém mais se deixará seduzir por algo tão démodé. Mas a teoria crítico-reprodutivista oferece, para seus leitores, atrações inegáveis: foi proposta (em suas várias vertentes) por teóricos franceses de esquerda, identificados com o marxismo, críticos da sociedade capitalista, defensores do ideário de Maio de 1968. É contra a concorrência mais próxima, portanto, que Saviani investe, acusando a teoria crítico-reprodutivista de “mecanicista”, “não-dialética”, “a-histórica”, etc., todos termos de abuso para a esquerda (pp.94-95).

Essa estratégia é, de certa forma, compreensível. Provavelmente é dentre os adeptos da teoria crítico-reprodutivista que Saviani espera fazer prosélitos, mostrando que sua teoria, além de crítica e histórica (ou talvez por causa disso), também é dialética, etc. Na verdade, Saviani chega a dizer que PHC e dialética são conceitos sinônimos e que só não usa o termo “dialético” porque, de um lado, há muito simplório que não sabe o que “dialético” quer dizer, pensando que dialético é a mesma coisa que dialógico (confundindo, assim, digamos, Marx com Buber), e, de outro, há muito iluminado que pensa que já sabe o que dialético quer dizer, e, portanto, não pergunta, assim impedindo que se explique.

É preciso registrar, porém, que apesar da grande aceitação da PHC pela esquerda, a teoria, como até aqui descrita, não só pouco tem de inovador, como menos ainda tem de revolucionário. O que Saviani definiu como PHC, até aqui, nada mais é do que uma platitude: uma teoria pedagógica, para ser histórico-crítica, precisa reconhecer que a educação é determinada pelas relações sociais vigentes mas também admitir que ela pode transformar essas condições sociais [5].

Mas pode parecer que estou sendo injusto com Saviani. A PHC não se limita ao que até aqui foi descrito. Se se limitasse, seria até difícil entender porque ela é também chamada de “pedagogia crítico-social dos conteúdos“. Pode-se, na verdade, argumentar que até aqui foram definidas apenas as condições formais da teoria, o esqueleto que agora precisa receber corpo. Admitamos isso, e investiguemos qual a matéria que se acrescenta a essa forma.

Saviani dá  substância à sua teoria através de um componente filosófico e de um componente político. Vejamos, primeiro, o componente filosófico.

A educação, para Saviani, é transmissão do saber. Em nenhum lugar ele usa essa expressão, na sua chocante simplicidade, mas é isso que é a educação para ele. O conteúdo da educação é o saber que os educadores (formais ou não-formais) precisam transmitir aos que estão sendo educados (aos educandos, como se diz).

Quem não conhece bem o pensamento de Saviani, e sabendo-o líder do pensamento pedagógico de esquerda no Brasil, poderia ingenuamente supor que o saber que Saviani afirma ser o conteúdo da educação é o chamado “saber popular”, aquilo que às vezes se denomina também de “cultura popular”. Quem assim pensasse estaria redondamente enganado. O saber que Saviani considera como o conteúdo da educação é o chamado “saber da elite”, aquilo que a esquerda geralmente chama de “cultura da classe dominante”. O chamado saber popular é, na melhor das hipóteses, apenas um “ponto de partida” para a educação, que pode ser usado para estabelecer uma ponte com as classes populares. O “ponto de chegada”, ao qual a educação deve levar essas classes, é o saber da classe culta. Daí a importância do papel do “professor tecnicamente competente” na pedagogia savianiana. Não basta que o professor seja “PC” (“politicamente correto”, qualquer semelhança sendo coincidental), afirma Saviani: é preciso que ele realmente domine o saber da classe dominante, para poder transmiti-lo às classes dominadas. Daí também a importância do papel da escola, em sua especificidade de instituição destinada ao ensino (que, em última instância, consiste na transmissão do saber).

Como estamos lidando com uma teoria pedagógica que se pretende histórico-crítica, é bom ressaltar que o confronto entre a pedagogia tradicional e a pedagogia nova, ou escolanovista, tem se centrado nessas questões. A abordagem tradicional privilegia o conteúdo, e, consequentemente, o ensino e o papel do professor. A abordagem nova privilegia o processo, ou seja o método, e, consequentemente, a aprendizagem e a iniciativa do aluno. Neste confronto, Saviani está claramente mais do lado dos tradicionais do que dos escolanovistas.

Na verdade, o próprio Saviani admite que sua posição tem sido atacada como tradicional por pedagogos escolanovistas (que defendem a primazia do método, da aprendizagem e dos interesses do aluno) e como reacionária pela esquerda mais radical (que defende a primazia da cultura popular). Saviani só não tem sido muito atacado pelos pedagogos tradicionais — o que, longe de surpreender, torna-se, neste quadro aqui apresentado, compreensível.

Contra os escolanovistas, Saviani afirma que não despreza o método. Da mesma forma que é impossível ensinar método sem conteúdo, o ensino do conteúdo envolve o método, argumenta ele. Mas o método, para Saviani, como para os defensores da teoria tradicional, só é importante porque é um método de ensinar / transmitir conteúdo unidirecionalmente, dos professores para os alunos. Tanto Saviani como os adeptos da teoria pedagógica tradicional vêem a educação exclusivamente da ótica do professor / educador. A ótica do aluno / educando é totalmente desconsiderada, tanto na pedagogia tradicional como na pedagogia proposta por Saviani. E a ótica do aluno é desconsiderada por ambos, tanto no que diz respeito ao conteúdo da educação (que, para o aluno, e para a teoria escolanovista, deveria estar alicerçados nos interesses do aluno, não nos do professor, nem nos da sociedade estabelecida), quanto no que diz respeito ao método da educação (que, para o aluno, e para teoria escolanovista, longe de ser focado no ensino do professor, deveria estar focado na aprendizagem do aluno, sendo mais um conjunto de formas e maneiras de investigar / descobrir o que se deseja aprender). A teoria escolanovista, bem como os alunos, ao lado dos quais ela se posiciona, não tem problema algum com a chamada autoaprendizagem, a aprendizagem decorrente da curiosidade, da observação, da emulação, investigação, da tentativa e do erro, da preocupação em entender por que a coisa deu errado, etc.. Para o aluno, bem como para a teoria escolanovista, o que se deseja aprender, o conteúdo, é definido pelos interesses do aluno, e o como aprender, o método, é definido pelos limites da curiosidade e da engenhosidade do aluno. Mas essa segunda perspectiva, a do aluno, que é exatamente a perspectiva da teoria escolanovista, é negligenciada por Saviani. Para que método, indaga ele, se o objetivo maior da educação não fosse o conteúdo, os saberes previamente constituídos pela sociedade.

Contra a esquerda mais radical, a resposta de Saviani desvela o componente político de sua teoria. O saber, afirma ele, é um dos meios de produção. Logo, se as classes populares (os “trabalhadores”) vão adquirir controle dos meios de produção, é preciso que elas se apropriem do saber que, até aqui, tem sido controlado pelas classes dominantes que só o dispensam aos trabalhadores “em doses homeopáticas”, como disse Adam Smith, isto é, na medida exata em que os trabalhadores necessitam desse saber para bem desempenhar suas funções [6].

Na verdade, Saviani às vezes exagera um pouco o componente político de sua teoria, aparentemente com o objetivo de vinculá-la mais estreitamente ao que ele pretende serem suas bases marxistas, e, consequentemente, dar-lhe um caráter “de esquerda”. Ele afirma (no Prefácio à 20ª edição de Escola e Democracia) que “uma nova teoria crítica (não-reprodutivista) da educação … só pode ser formulada do ponto de vista dos interesses dominados” (p.108, ênfase acrescentada).

Essa afirmação me parece totalmente gratuita. Visto que Saviani entende por crítica apenas o reconhecimento da determinação social da educação, por que é que uma teoria crítica da educação só pode ser formulada do ponto de vista dos interesses dominados?

A teoria crítico-reprodutivista é crítica, segundo o próprio Saviani admite. Mas aparentemente, e malgrado toda sua retórica denunciatória, foi desenvolvida do ponto de vista dos interesses dominantes, visto que leva os educadores, enquanto educadores, mesmo aqueles identificados com a esquerda, ao imobilismo, e, consequentemente, contribui para a manutenção do status quo social e educacional.

Por outro lado, a teoria pedagógica de Durkheim, por exemplo, é crítica, se levarmos a sério a terminologia savianiana. Durkheim certamente reconhece que a educação é determinada pela sociedade, e não vice-versa. Logo, sua teoria é crítica — afinal de contas, não é isso que Saviani quer dizer por crítica? No entanto, não me parece que Durkheim tenha elaborado sua teoria do ponto de vista dos interesses dominados.

A quantas ficamos?

A resposta está no fato de que Saviani procura ligar a educação com os “interesses dominados” através da argumentação já mencionada. Reconstruo o argumento (preenchendo algumas lacunas com o que imagino Saviani diria). Educação é transmissão do saber. O saber é um meio de produção. Para que aconteça a revolução socialista, é necessário que os trabalhadores assumam controle dos meios de produção. Como o saber é um desses meios, é preciso que os trabalhadores controlem a educação, isto é, o processo de transmissão do saber. Mas para controlar o processo de transmissão do saber é preciso saber, visto que o processo de transmissão do saber não é algo que possa ser expropriado ou tomado pela força (como terras, prédios, máquinas e equipamentos, etc.). Se tudo isso é verdade, aqueles que querem transformar a sociedade na direção do socialismo, em sua vertente marxista, só podem propor que a teoria pedagógica seja formulada do ponto de vista dos interesses dominados.

Mas há alguns problemas com essa linha de argumentação.

Em primeiro lugar, ela não prova que “uma nova teoria crítica (não-reprodutivista) da educação … só pode ser formulada do ponto de vista dos interesses dominados” (p.108). Na melhor das hipóteses, ela apenas sugere que uma teoria da educação que tenha por objetivo transformar a sociedade capitalista em sociedade socialista deve ser formulada do ponto de vista dos interesses dos dominados — mas isso dificilmente pode ser considerado novidade.

Em segundo lugar, paira no ar um “cheiro de paradoxo” quando se observa que uma teoria histórico-crítica da educação, que, segundo seu proponente, só pode ser formulada do ponto de vista dos interesses dos dominados, defende um conceito de educação como transmissão, às classes dominadas, do saber da classe dominante. A esquerda mais radical parece ter razão em detectar aí um certo reacionarismo [7].

Em terceiro lugar, Saviani acaba sendo pego nas malhas de sua própria terminologia. Uma teoria crítica, para ele, é uma teoria que admite a determinação social da educação; uma teoria histórica, por outro lado, é uma teoria que admite que a sociedade pode ser transformada (pelo menos em parte) pela educação. Ora, uma teoria que vê a educação como o processo de transmissão do saber, que vê o saber como meio de produção, e que vê o controle desse meio do produção como uma maneira de transformar a sociedade, é, segundo essa terminologia, uma teoria histórica, não crítica. O que Saviani deveria ter dito, portanto, para ser terminologicamente coerente, é que “uma teoria histórica da educação só pode ser formulada do ponto de vista dos interesses dominados”. Tivesse dito isso e, no contexto, a afirmação até faria mais sentido (embora nem por isso fosse mais verdadeira).

Em quarto lugar, e como ilustração de como Saviani se emaranha em sua argumentação, analisemos esta afirmação: “É esta análise [PHC] que em nosso país começa a adquirir forma mais sistemática a partir de 1979, quando se empreende a crítica da visão crítico-reprodutivista e se busca compreender a questão educacional a partir dos condicionantes sociais” (p.95). Ora, dentro do quadro conceitual savianiano, a vantagem que a PHC leva em relação à teoria crítico-reprodutivista não está em ser crítica (isto é, em “compreender a questão educacional a partir dos condicionantes sociais”) — a teoria crítico-reprodutivista também é crítica, nesse sentido — mas, sim, em ser histórica (isto é, em postular que “a educação também interefere sobre a sociedade, podendo contribuir para a sua própria transformação”) — a teoria crítico-reprodutivista sendo, segundo Saviani, a-histórica, ou, melhor dizendo (melhor, isto é, no conteúdo, não na forma), “crítico-a-histórica” (p.95). A crítica da teoria crítico-reprodutivista que Saviani faz “a partir de 1979”, portanto, não tem por base o reconhecimento dos condicionantes sociais da educação, mas, sim, o reconhecimento de que a educação também condiciona e transforma a sociedade. É essa a sua inovação em relação à teoria crítico-reprodutivista.

Por fim, em quinto lugar, é preciso assinalar o seguinte. A tese de Saviani, de que a escola pode agir sobre a sociedade, no sentido de transformá-la, é incompatível com o determinismo histórico. Se a escola pode fazer uma diferença acerca de como uma sociedade pode ser, ela afeta o futuro e o futuro, portanto, não pode estar determinado. A PHC, portanto, se levada a sério, nega um postulado essencial do marxismo. Contrário ao que afirma Saviani, os pressupostos da PHC não são “os da concepção dialética da história” (p.96): a PHC tem muito mais em comum com a pedagogia tradicional (com sua ênfase nos conteúdos, no ensino, no professor) e com a pedagogia nova (com sua ênfase na possibilidade de a educação transformar a sociedade), do que Saviani quer fazer crer.

Se Saviani leva a sério sua tese de que a educação também condiciona e transforma a sociedade, como pode ele falar, com tanta confiança e até mesmo algum lirismo, na vitória do socialismo, na sociedade sem classes, na eliminação do Estado? Apesar de criticar a “repetição de slogans esvaziados de conteúdo” (p.108), Saviani fala, sem a menor hesitação, no “momento da constituição da sociedade sem classes”, da “passagem do socialismo ao comunismo”, designando-o como, na verdade, “o momento da passagem do reino da necessidade para o reino da liberdade” [8], e caracterizando-o como o “momento catártico por excelência em que toda a sociedade humana se reencontra consigo mesma”, em que o Estado “desaparece por não ser mais necessário” (pp.108-109). Como ousa ele criticar “slogans esvaziados de conteúdo”?

Continua Saviani:

“Ora, a revolução socialista (proletária) não destrói o Estado em si mesmo. Ao conquistar o poder, o proletariado, através do mesmo ato revolucionário, destitui (destrói) o Estado burguês e constitui o Estado proletário. Como falar, nessa nova situação, de destruição do Estado? Quem destruirá o Estado proletário? Não será uma outra classe, pois com a conquista do poder pelo proletariado, que é a classe cujo domínio consiste na superação das classes, já não há outra classe que a ele se possa contrapor como historicamente progressista. Seria, então, o próprio proletariado? Na verdade, não se trata já da destruição do Estado. Uma vez cumprido o papel de instrumento coercitivo para inviabilizar as tentativas de restauração do poder burguês, o Estado (sociedade política), não sendo mais necessário, desaparecerá” (p.109).

Se isso não é slogan vazio, então nada é — mas não importa. O que importa é que, se está determinado que tudo se passará assim, não há porque se preocupar com o papel da escola — tudo haverá de passar como está determinado, podendo a escola ser (enquanto o socialismo não vem) apenas um aparelho de estado destinado a reproduzir a ideologia dominante.

A tese crítico-reprodutivista é compatível com o determinismo histórico, a PHC não. Se a escola pode afetar o desenvolvimento social, e, conseqüentemente, o futuro, então o futuro está aberto e nada garante que o cenário que Saviani tão apaixonadamente descreve virá a se concretizar. Na verdade, não se trata nem mesmo de garantir: os fatos nem sequer indicam, hoje em dia, que o futuro será como Saviani, com tanta certeza, prevê. Pelo contrário, os fatos apontam em outras direções. Mas os fatos, os fatos “são um detalhe”, diria Célia Caridosa de Mello. A despeito deles, os cristãos esperam há quase dois mil anos pela volta de Cristo, os judeus há mais tempo ainda pela vinda do Messias. Por que criticar os marxistas por esperarem pela sua “parousia“, pelo “momento catártico por excelência”? Não faz nem 150 anos que ele foi vaticinado!

A grande contribuição de Saviani ao debate pedagógico contemporâneo no Brasil está no fato de que ele mostrou que a teoria pedagógica só pode ser progressista na medida em que é tradicional, só pode ser nova na medida em que é velha — algo original, se bem que um tanto paradoxal. O mérito de Saviani está em ter juntado partes da teoria tradicional com partes da teoria nova e ter feito a esquerda adotar a teoria resultante, denominando-a progressista. Ninguém pode negar-lhe esse excepcional feito semântico.

Por fim, duas observações.

Primeiro, é preciso registrar que a maior parte das críticas que a esquerda faz à escola capitalista são críticas à escola da sociedade industrial, seja ela capitalista, seja socialista.

Segundo, a solução do problema pedagógico não está em transmitir o saber sistematizado, que é uma atividade voltada para o passado, mas em preparar os jovens de hoje para um futuro aberto no qual haverá muito mais novidade do que jamais sonhou a vã ideologia marxista.

NOTAS

[1] Cortez Editora e Editora Autores Associados, São Paulo, 1991.

[2] Na verdade, a teoria que Saviani chama de nova, ou de “escolanovista”, é geralmente conhecida pelo nome de “teoria progressista”. Mas como a esquerda brasileira gosta de reservar o nome progressista exclusivamente para si (cf. p.9, onde se fala da necessidade de “unidade das forças progressistas no campo educacional”), Saviani se recusa a honrar a teoria escolanovista com a designação de progressista.

[3] Devo admitir que Saviani me perdeu nessa última frase. Que as “relações de dominação” sejam uma das características próprias da sociedade capitalista até‚ entendo (embora não acredite que o capitalismo aí seja monopolista, se me permitem o trocadilho). Mas que as “condições vigentes” sejam uma outra característica própria da sociedade capitalista é algo que não consigo sequer entender.

[4] Entre os pecados de Saviani, “s’il y en a“, não está o da dissimulação. Ele escreve como quem está  entre os seus, como quem se sente em família, onde se pode admitir sentimentos que em outros contextos poderiam não ser muito bem vistos. Essa sensação se deve, em grande parte, acredito eu, ao fato de que quase todos os artigos foram originalmente palestras ministradas em círculos predominantemente de esquerda.

[5] Pode ser ignorância minha, mas não conheço sequer um pensador que negue isso, exceção feita aos representantes da teoria crítico-reprodutivista, pelo menos como os caracteriza Saviani. Certamente os pensadores tradicionais não negam a influência mútua que entre si exercem a sociedade e a educação. A alegação, que faz Saviani, de que os escolanovistas “acreditam ter a educação o poder de determinar as relações sociais, gozando de uma autonomia plena [sic] em relação . . . estrutura social” (p.93, ênfase acrescentada), estaria a exigir pelo menos alguma referência bibliográfica. Eu, pessoalmente, estaria interessado em saber qual o pensador escolanovista que defendeu a tese de que a educação não sofre nenhuma determinação por parte das condições sociais, sendo total e plenamente autônoma da sociedade.

[6] Saviani derrapa às vezes, quando fala que as classes dominantes se apropriaram do saber das classes dominadas. Mas reconheço que é difícil não derrapar discutindo esse tema da perspectiva marxista.

[7] A teoria tradicional, que compartilha com a PHC a tese de que educação é transmissão do saber dominante aos que dele carecem, tem certo pejo em afirmar, com todas as letras, que isso é feito no interesse também dos carentes (embora acredite nisso).

[8] Essa frase deixa no ar um inequívoco perfume Kantiano.

© Copyright by Eduardo Chaves, 1992, 2005, 2024

[Artigo escrito em 1992, logo depois da publicação do livro de Saviani. Publicado aqui neste blog em 10 de Janeiro de 2005, quando eu estava em Cortland, OH. Revisado novamente em Janeiro de 2024, dezenove anos depois, quando eu estava mais uma vez em Cortland, OH.]

Modelos pedagógicos

A quantidade de besteira que se publica na área da educação neste país é inacreditável.

Abaixo um artigo de Antonia Leila Rocha Neves, no jornal O Povo, de Fortaleza (8/1/05). Não sei quem é ela — nem pretendo descobrir. Não me move aqui, portanto, nenhuma animosidade pessoal. Estou interessado, isto sim, nas idéias que se divulgam por aí acerca da educação. Por isso aqui faço um resumo organizador e uma crítica do que ela afirma.

Primeiro, ela faz uma afirmação leviana, sem fundamentação alguma: a “sociedade vigente” é “autoritária”. Notem o uso do “portanto” da frase dela: “A avaliação educacional escolar, atualmente no Brasil, é baseada na sociedade vigente, portanto autoritária.” É isso: ela falou, está falado. Mas onde há pelo menos um esboço das razões que a levam a afirmar isso??? Ela não nos esclarece: imagina que todos vamos aceitar o que ela diz simplesmente porque foi ela quem disse. (Isso sim é pensamento autoritário…)

A sociedade atual brasileira pode ser um monte de coisa ruim — mas autoritária??? De onde saiu isso?

Continua a moça: “Para chegar à superação do autoritarismo, pretendemos fazer um apanhado dos modelos pedagógicos…” No que um apanhado de modelos pedagógicos nos ajuda a “superar o autoritarismo” da sociedade (ainda que se admita, “ad argumentandum”, que nossa sociedade seja autoritária)?

Em seguida, continua a autora, ela pretende “desocultar as tendências autoritárias” desses modelos pedagógicos. Vamos ver como ela faz isso.

Por fim, ela pretende mostrar que “a avaliação [NB: não a educação] deve ser um instrumento de transformação social”.

Os modelos pedagógicos que ela tenta “apanhar” em sua análise foram todos retirados de Luckesi — nome citado assim, sem prenome, como se todo mundo o conhecesse tão bem como Sócrates. São três — e — surprise!!! — todos eles têm vigência apenas em um “modelo liberal conservador da sociedade”.

Deixemos os chavões de lado e vamos aos três modelos, um a um:

PRIMEIRO: “A pedagogia tradicional, centrada no professor, o detentor do conhecimento, na transmissão de conteúdos e no intelecto.”

Não resta dúvida de que esse modelo pedagógico existe e é tradicional (isto é, tem uma longa tradição). Mas liberal??? Esse modelo existe desde que o mundo é mundo! Quando começou a surgir o Liberalismo?

Além do mais, para se chamar o modelo de conservador é preciso haver uma referência. Os jesuítas fizeram desse modelo uma verdadeira arte de converter gentios (os índios, por exemplo), revolucionando a sociedade indígena que havia aqui no Brasil. A Ratio Studiorum da Sociedade de Jesus é corretamente colocada na base da sociedade colonial brasileira — mas esse sociedade não era conservadora em relação à sociedade que existia antes dela aqui no Brasil na época e que ela pretendia substituir (como de fato conseguiu).

SEGUNDO: “A pedagogia renovada ou escolanovista centrada nos sentimentos, na espontaneidade da produção do conhecimento e no educando com suas diferenças individuais.”

Não resta dúvida de que este modelo pedagógico também existe há algum tempo — tendo raizes nos séculos XVIII e XIX. Em certo sentido, pode-se dizer que é tradicional (pois tem uma razoável tradição). Mas conservador???

Cabe aqui indagar da autora (e de seus mentores intelectuais) como é que a “pedagogia renovada ou escolanovista”, que teve, como principal objetivo, criticar e, oportunamente substituir, a pedagogia tradicional (centrada no processor, e voltada para a transmissão de conteúdos pelo ensino) por uma pedagogia centrada no aluno, e voltada para a aprendizagem ativa por projetos, e que, por cima, via a tarefa da educação como sendo a transformação renovadora (reconstrução) sociedade — como é que essa pedagogia pode ser vista como modelo pedagógico conservador da sociedade.

Parece-me evidente que, se a pedagogia da Escola Nova é liberal, a pedagogia tradicional não o é, pois as duas sempre se viram como inimigas mortais — até hoje (com exceção de lugares em que a influência das idéias de Dermeval Saviani se fez sentir).

Cabem outros questionamentos em relação a esse modelo.

A autora o caracteriza como “centrado nos sentimentos”. Embora os autores escolanovistas tenham sempre defendido a “educação [ou ‘formação’] integral”, entendendo por isso que não basta apenas desenvolver o intelecto das crianças, sendo necessário também desenvolver seus sentimentos, as suas habilidades artísticas, a sua capacidade de se relacionar com seus semelhantes, as suas competências ativas e práticas, como agentes “fazedores de coisas”, etc., é uma representação absolutamente falsa dizer que o modelo pedagógico da escola nova é “centrado nos sentimentos”.

Além disso, embora tenha havido alguns precursores da escola nova, como Rousseau, que defenderam a chamada “educação negativa”, a Escola Nova, em si, nunca defendeu a tese de que o conhecimento se desenvolve “espontaneamente” na criança — sem que ela se envolva em ambientes e atividades que facilitem e propiciem a construção desse conhecimento. A Escola Nova foi um modelo de renovação pedagógica da escola — algo que não faria sentido se ela acreditasse que as crianças se desenvolvem adequadamente de forma espontânea. Mesmo os construtivistas atuais, como Piaget, propõem a criação de ambientes de aprendizagem que desafiem, instiguem, provoquem, incitem, propiciem, e, em última instância, facilitem, o desenvolvimento cognitivo da criança.

Por fim, os escolanovistas estavam muito mais interessados no desenvolvimento de competências e de modelos mentais pelas crianças — processo que é eminentemente cognitivo — do que na “produção espontânea conhecimentos” — expressão que sugere que, se deixarmos uma criança sozinha ela pode, eventualmente, produzir, de forma “espontânea” (seja lá o sentido que se dê a essa expressão), a teoria da relatividade de Einstein, ou algo assim.

TERCEIRO: “E, por último, a pedagogia tecnicista centrada nos meios técnicos de transmissão e apreensão dos conteúdos e o princípio do rendimento tentando em vão uma transformação social, fundamentada no princípio de que todos são iguais.”

Confesso que tenho grande dificuldade para entender o que está escrito nesse parágrafo que acabei de citar. Vejo que a autora se refere a um terceiro modelo que seria “tecnicista”. Ao mesmo tempo, ela afirma que esse modelo tecnicista “tenta[…] em vão uma transformação social, fundamentada no princípio de que todos são iguais”.

Ora: a autora havia afirmado que os três modelos que ela iria discutir eram modelos de uma sociedade conservadora (na verdade, até mesmo autoritária). Agora ela diz que o modelo tecnicista tenta (embora em vão) promover uma “transformação social” — algo que parece indicar que ele não é tão conservador assim. E, pior, promover uma transformação social “no princípio de que todos são iguais”. Ora: o liberalismo é acusado, em geral, de ser uma filosofia e um sistema político-social que se construiu em cima da desigualdade e que tende não só a preservá-la, mas a aumentá-la! (Note-se que, ao descrever o modelo da Escola Nova, a própria autora observa que ele parte do reconhecimento das “diferenças individuais” das crianças…). E agora ela vem dizer que o modelo tecnicista é conservador e liberal e, no entanto, tem como objetivo transformar a sociedade com base no princípio de que todos são iguais — que é exatamente o princípio defendido pelos arqui-inimigos dos liberais, os socialistas???

OS MODELOS DEFENDIDOS PELA AUTORA:

“Diante disso, vem se aspirando um outro modelo social, onde a igualdade e a liberdade dos seres humanos ultrapassem a lei e se realizasse de fato. Assim, foi nascendo uma nova pedagogia fundada, representada e inspirada na prática pedagógica de Paulo Freire, chamada de Pedagogia Libertadora, cujo objetivo é a ascensão das camadas populares, que se define como uma conscientização social, cultural e política fora dos muros da escola. E, por último, está nascendo a Pedagogia dos Conteúdos-Sócio-Culturais, centrada na idéia de igualdade de oportunidade, representada pelo Professor Dermeval Saviane (sic)”.

Se consigo entender corretamente o texto da autora nesse parágrafo, ela defende, aqui, dois modelos pedagógicos, ambos, segundo ela, construídos em cima de “um outro modelo social, onde a igualdade e a liberdade dos seres humanos ultrapassem a lei e se realizasse (sic, sic) de fato”. Segundo ela, esses dois modelos não seriam nem liberais nem conservadores. Seu objetivo é a “ascensão das camadas populares”. (Ascensão para onde? Para o local em que os “burgueses” sempre estiveram?)

O primeiro desses modelos pedagógicos aprovados é a Pedagogia Libertadora, “representada e inspirada na prática pedagógica de Paulo Freire”.

O segundo é “a Pedagogia dos Conteúdos-Sócio-Culturais, centrada na idéia de igualdade de oportunidade, representada pelo Professor Dermeval Saviane (sic)”.

Dispenso-me de comentar aqui a Pedagogia Libertadora. Mas tenho algo a comentar sobre a pedagogia de Dermeval Saviani — que tem sido apresentada em vários livros seus com vários títulos diferentes (como, por exemplo, “Pedagogia Histórico-Crítica”).

A pedagogia savianina, como os seus vários títulos sempre indicam, é uma pedagogia “de conteúdos”. Ela tem como objetivo a transmissão de conteúdos aos alunos. Nesse sentido, ela é bastante tradicional. Na verdade, os conteúdos que Dermeval Saviani acha que os pobres devem dominar são, em parte, os mesmos conteúdos que a elite tem dominado — e que têm sido criticados pela escola nova… Obviamente esses conteúdos precisam ser transmitidos no contexto de um bom programa de doutrinação marxista — com um leve toque “renovado”, gramsciano… Saviani parece acreditar que, de posse dos conteúdos que a classe dominante possui, e imbuídos de fervor revolucionário, os pobres vão finalmente conseguir “libertar” a sociedade (razão pela qual a autora agrupa da pedagogia savianina com a freireana). [Para uma crítica mais completa à pedagogia de Dermeval Saviani ver meu artiguete “Pedagogia Histórico-Crítica: É Preciso Aproximar Mais” (http://chaves.com.br/TEXTSELF/PHILOS/dermeval.htm), escrito para ajudar meus alunos de pedagogia a entender melhor o pensamento savianino.]

É isso, por enquanto. Dispenso-me de comentar a apenas semi-inteligível bobageira final sobre avaliação.

Cortland, OH, 10 de janeiro de 2005

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O Povo, 08/01/2005 – Fortaleza CE

Avaliação da aprendizagem escolar

Para chegar à superação do autoritarismo, pretendemos fazer um apanhado dos modelos pedagógicos, em seguida tentaremos desocultar as tendências autoritárias

Antonia Leila Rocha Neves

A avaliação educacional escolar, atualmente no Brasil, é baseada na sociedade vigente, portanto autoritária. Tentaremos aqui, baseado em teóricos, sugerir maneiras de superar o autoritarismo. Para chegar à superação do autoritarismo, pretendemos fazer um apanhado dos modelos pedagógicos, em seguida tentaremos desocultar as tendências autoritárias, entendendo que a avaliação deve ser um instrumento de transformação social.

O modelo liberal conservador da sociedade, segundo Luckesi, produziu três pedagogias, com um mesmo objetivo, conservar a sociedade na sua configuração, a saber:

(a) a pedagogia tradicional, centrada no professor, o detentor do conhecimento, na transmissão de conteúdos e no intelecto.

(b) A pedagogia renovada ou escolanovista centrada nos sentimentos, na espontaneidade da produção do conhecimento e no educando com suas diferenças individuais.

(c) E, por último, a pedagogia tecnicista centrada nos meios técnicos de transmissão e apreensão dos conteúdos e o princípio do rendimento tentando em vão uma transformação social, fundamentada no princípio de que todos são iguais.

Diante disso, vem se aspirando um outro modelo social, onde a igualdade e a liberdade dos seres humanos ultrapassem a lei e se realizasse de fato. Assim, foi nascendo uma nova pedagogia fundada, representada e inspirada na prática pedagógica de Paulo Freire, chamada de Pedagogia Libertadora, cujo objetivo é a ascensão das camadas populares, que se define como uma conscientização social, cultural e política fora dos muros da escola. E, por último, está nascendo a Pedagogia dos Conteúdos-Sócio-Culturais, centrada na idéia de igualdade de oportunidade, representada pelo Professor Dermeval Saviane.

Luckesi, no entanto, propõe uma avaliação diagnóstica como um instrumento para auxiliar cada educando no seu processo de competência e crescimento para a autonomia, mas não quer dizer que seja menos rigorosa na prática da avaliação. A avaliação no sentido diagnóstico deverá verificar os

conhecimentos nos mínimos necessários e não nos mínimos possíveis.

Portanto, avaliação educacional escolar deve favorecer a elevação do cidadão, no sentido mais amplo de ser cidadão, cultural, social e politicamente, para que este possa atuar conscientemente na realidade na qual está inserido, para que possa haver uma transformação no cotidiano das práticas pedagógicas docentes no contexto da escola. Precisamos fazer da avaliação, como nos ensina Luckesi, um ato amoroso, pois ”o acolhimento integra, o julgamento afasta” (Luckesi, s.d.).