Santa Lindu, bendito o fruto de vosso ventre, Lulla (ou: Sonho e realidade, esperança e medo)

Os jornais, nos últimos tempos, vêm trazendo inúmeras considerações de petistas arrependidos falando sobre a necessidade de preservar o sonho e não perder a esperança. O artigo do cada vez mais infantilizado Cristóvam Buarque na Folha de hoje (“Recompor os Sonhos”, FSP de 28 de agosto de 2005) é apenas mais um deles. Os porquinhos mais práticos falam em “refundar o partido”, na criação de um “neo-PT” que acolha aqueles que o “velho” PT excomungou. Os mais chegados ao marketing (i.e., à enganação) se ocupam de “resgatar” na população, em especial entre os mais humildes (leia-se: pobres), os sonhos e as esperanças que o PT frustrou.

Na verdade, Cristóvam Buarque, no que parece ser um pré-manifesto à sua saída do PT, vai além: o que precisa ser refundado não é o partido, é a esquerda. Diz ele: “A realidade social brasileira não pode esperar pelo PT. É preciso refundar a esquerda. Recompor os sonhos, aglutinar os sonhadores. Se sem o PT isso será difícil, por seu intermédio será impossível. O PT precisa assumir que não é mais o irmão mais velho da esquerda. É apenas parte dela, e está debilitado.” Em outras palavras: refundar a esquerda por intermédio do PT é impossível. Logo, será que o ex-Reitor da UnB vai continuar a queimar vela pra mau defunto? Porque o PT não está simplesmente “debilitado”: está com doença terminal.

Cristóvam Buarque conclui seu artigo de forma apoteótica: “Não será um partido que retomará o sonho, mas sim um movimento pelo reencantamento do Brasil, pela recomposição do sonho, que, apesar de parecer morto, continua tão necessário quanto antes.” Interessante: o sonho, segundo ele, parece morto – mas continua necessário… A lógica da frase nos leva a esperar que ele dissesse que o sonho, apesar de parecer morto, continua vivo… Mas não é isso que ele diz. Talvez duvide de que o sonho continue realmente vivo. O sonho continua, segundo ele, necessário. Necessário para quê? Seria bom que ele esclarecesse. Mas o artigo terminou antes de que o fizesse.

Mas toda essa conversa de sonhos, e toda aquela história da esperança que venceu o medo, me faz refletir um pouco sobre a história do socialismo, a história das esquerdas.

Antes de Marx e Engels certamente havia socialistas (Saint-Simon, Fourier, etc) – mas eles foram prontamente rotulados de “utópicos” pelos criadores do chamado “socialismo científico”. Os utópicos eram meros sonhadores que não se preocupavam com os meios concretos de transformar suas utopias – seus sonhos – em realidade.

O socialismo dito científico pretendia não ser utópico – não porque abrisse mão dos sonhos, mas porque instrumentava os sonhos com uma estratégia de tomada de poder, usando ferramentas conceituais como o determinismo histórico, a primazia da base material (a infraestrutura) sobre o mundo das idéias (a super-estrutura), a redução do complexo social a duas classes, a luta de classes, a luta revolucionária, a ditadura do proletariado, passagem para a sociedade sem classes e, por isso, sem estado, sem governo.

Existe algo mais utópico do que uma sociedade sem classes, sem estado, sem governo? O que diferencia os “realistas” do socialismo científico dos sonhadores do socialismo utópico é o instrumental estratégico que os primeiros fornecem para a tomada do poder e a transformação da sociedade pela força, pela guerra revolucionária, pelo poder ditadorial.

Em nome do objetivo último – supostamente resgatar os oprimidos da pobreza, reduzir as desigualdades sociais, promover a justiça (“social”) – tudo vale. A ética do socialismo marxista é uma ética em que esses fins justificam quaisquer meios – inclusive a violência, a ditadura, e, naturalmente, a mentira. Mais do que isso: esses fins justificavam até mesmo alianças com parceiros estratégicos que não comungam dos mesmos fins – mas que não relutam em adotar os mesmos meios (como ficou claro com o pacto de Stalin com Hitler em 1939). Alianças estratégicas de socialistas com parceiros que, à primeira vista, parecem estranhos não é algo que o socialismo tupiniquim do PT inventou.

A revolução comunista de 1917 na Rússia deu aos socialistas auto-intitulados científicos uma aparência de confirmação empírica das teses supostamente científicas de seus patronos. É verdade que muita coisa não se passou como Marx e Engels haviam predito, mas quem vai se preocupar com detalhes numa hora dessas?

Os socialistas em geral exaltavam. Bem, talvez nem todos. Quem sabe os socialistas utópicos tivessem se perguntado se o preço pago em violência e mortandade não estaria alto demais para os resultados obtidos. E é verdade que o “socialismo realista” (i.e., não utópico) implantado na Rússia por meios “científicos” acabou criando rivalidades que se cristalizaram em grupos de oposição – as famosas “facções” (que não só existem como proliferam ainda hoje). Mas, no geral, havia exultação entre as esquerdas com a “prova histórica e científica” de que a revolução socialista é possível – que “é realista sonhar” (se a gente sonha “com o poder na mão”).

É verdade, também, que o realismo do socialismo comunista implantado na Rússia – que se expandiu para a União das Repúblicas Socialistas Soviéticas – de vez em quando deixava meio revoltos alguns estômagos socialistas mais delicados – pertencentes aos antecedentes históricos do Senador Eduardo Suplicy. Seria preciso tanto expurgo, tanto desterro, tanta violência, tanto assassinato??? Mas, no fim, os fins justificavam os meios.

Daí veio 1939. Stalin fez um pacto de não agressão contra Hitler. De novo, alguns estômagos mais delicados se revolveram. Mas, no fim se aquietaram – sob as brilhantes justificativas de intelectuais comunistas de que, afinal de contas, os fins justificam os meios, e que o objetivo final de fazer do mundo um paraíso comunista justificava até alianças com monstros como Hitler.

Em 1939 não sabia a extensão em que Stalin era também um monstro – e o grau em que o totalitarismo do socialismo comunista (e internacionalista) era semelhante ao totalitarismo do socialismo nacionalista de Hitler. Ninguém parece ter prestado muita atenção ao fato de que a ideologia de Hitler se denominava “Socialismo Nacionalista” (Nationalsozialismus, ou, simplesmente, Nazi, para os íntimos, como agora eram os comunistas).

Mas em 1956 ninguém mais podia pretender desconhecimento. Morto Stalin em 1953, o próprio secretário-geral do Partido Comunista Soviético, Nikita Kruschev, denunciou os crimes de Stalin. Foram os comunistas mesmos (benditas facções!) que denunciaram seu ex-ídolo.

E naquele mesmo ano, em  4 de novembro de 1956, tropas da União Soviética invadiram Budapeste e aniquilaram os sonhos de liberdade do povo húngaro.

E em seguida veio a “Primavera de Praga”, em 1968 – que termina em pleno verão, 21 de agosto.

O padrão se repete: quando há sonhos, os socialistas ditos científicos, que encaram com realismo a política e o poder, os destróem.

Mas os intelectuais comunistas não se desiludem fácil. Continuam a apoiar o comunismo – e acham jeitos de defender a destruição dos sonhos de liberdade dos húngaros, dos checos-eslovacos…

E depois vem o bobo do Lulla dizer num discurso recente: “eles podem murchar uma rosa mas não podem impedir a primavera de nascer…”  Primeiro: eles quem? As forças ocultas? Segundo, eles, os socialistas realistas podem, sim, impedir a primavera de nascer. Vide Praga, 1968.

Mas em 1989 tudo estava podre e nem os socialistas mais ferventes conseguiram impedir a queda da Cortina de Ferro.

Na hora em que o socialismo comunista fracassa é que eu mais admiro os intelectuais socialistas (intelectuais comunistas não sobraram muitos, e os que sobraram se esconderam). Seu discurso, agora, é de que o socialismo da União Soviética e do Leste Europeu não era o verdadeiro socialismo: era apenas o “socialismo real”…

Ora, ora… A crítica que os comunistas – defensores do socialismo dito científico – faziam dos socialistas utópicos era de que esses não levavam a realidade a sério… Agora os socialistas viúvos do comunismo afirmam que este não era o verdadeiro socialismo, porque era real – realista demais. Durma-se com um barulho desses.

Enquanto isso, no Brasil, o socialismo tupiniquim viceja, conduzido por um torneiro mecânico e sindicalista. Com o apoio dos intelectuais marxistas – e daqueles intelectuais socialistas que se pretendem não marxistas. Os intelectuais esquerdistas têm orgasmos múltiplos ao verem a ascensão de Lulla e do partido que ele criou: dito dos trabalhadores — embora seja principalmente de intelectuais e pretendentes a uma certa intelectualidade.

O PT era o partido de intelectuais que deveriam estar desiludidos mas se recusavam a se desiludir, é verdade. Mas também de religiosos frustrados com a religião católica, com Frei Boff e Frei Beto, que encontraram na política esquerdizante a “Ersatzreligion” que a fé lhes negara.  

Em um artigo escrito logo depois da eleição de Lulla, chamado “Lula e o Reencantamento do Brasil” Frei Boff argumenta que “vale arriscar em Lula porque ele representa a chance de um outro Brasil e de uma forma de fazer política…” Quase que vale colocar mais três pontinhos depois dos três que Frei Boff pôs.  Que coisa mais linda, não? Comovo-me. [O artigo de Frei Boff pode ser lido em http://www.imediata.com/lancededados/lula/boff_reencantamento.html].

Frei Boff comenta o medo de Regina Duarte (em nome do PSDB). E cita Jean Delumean em resposta: "Eles [os poderosos] nos ensinaram o medo; eles vieram fazer nossas flores murchar para que só sua flor vivesse”. Quem sabe Lulla bebeu aqui a idéia da rosa que murcha?

Frei Boff continua: “Os poderosos não têm medo de um operário que trabalha. Eles têm medo de um operário que pensa. É o caso de Lula e de seus companheiros. Eles ousaram pensar. Mais. Começaram a sonhar um Brasil diferente. Mais ainda. Organizaram-se para que o sonho não ficasse mero sonho mas virasse movimento, partido, projeto político e alternativa de poder com o propósito de re-inventar um Brasil de outros quinhentos”.

O Brasil diferente sonhado por “Lula e seus companheiros” deu no que deu. Frei Boff parece ter se esquecido de que o sonho dos socialistas não utópicos têm de ser instrumentado pelo realismo prático da política, pela instrumentação dos meios necessários para transformar os sonhos em realidade… Que para a realização de cada sonho socialista é necessário um Stalin, um Fidel, um Dirceu – com todos os vermes que os acompanharam e acompanham.

E Lulla? Lulla, diz Frei Boff, “Lula trouxe as razões para um novo re-encantamento”.

Menos de três anos depois, somos forçados a concluir: Lulla: ingênuo simplório ou mentiroso conivente. Tertium non datur.

Mais lírico, Frei Beto, depois das eleições, escreveu uma carta a Dona Lindu, mãe de Lulla, morta em 1980. Foi Frei Beto que “fez o seu enterro” (palavras dele – será que ele foi o coveiro?). [O artigo de Frei Beto pode ser lido em http://www.faced.ufba.br/~menandro/por_email/carta_de_frei_beto.htm.]

Afirma Frei Beto, numa das passagens mais comoventes: “Seu filho venceu, Dona Lindu. Não porque tirou diploma, ficou rico e famoso. Mas porque construiu o mais combativo e ético partido político do Brasil. . . Lula ensinou à Nação que é possível fazer política com decência, vergonha na cara, tolerância nas relações pessoais e intransigência nos princípios”.

Comovente. Lulla construiu o partido político mais ético do Brasil. Lula nos ensinou que é possível “fazer política com decência, vergonha na cara, tolerância nas relações pessoais e intransigência nos princípios”. Nenhuma dessas coisas é verdade. Não houve decência, não houve vergonha na cara, não houve tolerância com os que pensavam diferente, não houve intransigência nos princípios – a menos de que seja no princípio de que tudo vale quando o fim é chegar ao poder para redimir a nação.

Tipicamente, o site em que encontrei o artigo de Frei Beto é de uma Faculdade de Educação – a da Universidade Federal da Bahia… Bendita Bahia, cuja capital é Salvador. Será que algum esquerdista aprendeu alguma coisa com o artigo de Frei Beto?

O lirismo de Frei Beto chega a seu ponto máximo nas palavras finais do artigo:

“O Brasil merece um futuro melhor. O Brasil merece este fruto de seu ventre”.

Em outras palavras: Santa Lindu, bendito o fruto de vosso ventre, Lulla.

Anísio Silvia fez sucesso com a canção “Tudo foi Ilusão” Arcelino Tavares e Laert Santos, que afirma: "…Minha vida é uma noite sem lua e sem estrelas e os meus sonhos foram somente sonhos e nada mais…"

Oxalá fosse esse o maior problema: o de que os sonhos dos simpatizantes do socialismo petista tivessem sido somente sonhos e nada mais. O grande risco que nós, brasileiros, corremos é que esse sonho quase se tornou realidade – através do maior esquema de corrupção de que já se teve conhecimento na história do Brasil.

Arrisco-me a uma hipótese. Nossa sorte, como povo brasileiro, é que, no fundo, os socialistas utópicos e os socialistas realistas não se topam, se detestam, não conseguem conviver. Nossa sorte é que as facções que não se toleram parece ser o destino do socialismo. Vocês já imaginaram a máquina realista montada pelo estalinista Zé Dirceu  (o “aparelho) sendo colocados a serviço dos sonhos desvairados da esquerda mais radical? Bem que o Zé e seu padrinho Fidel queriam… Mas felizmente o “momento histórico” não havia chegado…

Talvez nossa grande sorte tenha sido a incomparável despreparo e incompetência de Lulla para o exercício do cargo que lhe caiu nas mãos (modo de dizer: que foi conquistado por enganação, empulhação e roubalheira, como hoje sabemos). Para se eleger, convenceu-se, teria de fazer alianças. Eleito, escolheu para ministro condutor da economia o menos incompetente em economia de seu círculo mais próximo que fosse capaz de conduzir uma política econômica que não ameaçasse a estabilidade do país (e o ajudasse a realizar seu sonho de se tornar o grande Messias do socialismo mundial). Palocci, um médico interiorano, resolveu que a melhor alternativa seria não inovar, ou seja, jogar seguro e continuar uma política econômica que estava dando certo (apesa da gritaria do Zé Dirceu e da esquerda radical). (O Zé teve de conviver, a contragosto, com o sucesso do Palocci. Até que tentou uns truques velhos contra ele, mas não deram certo).

[O mago Emir Sader, num artigo que tem o título de “O Mundo pelo Avesso” (o coitado não percebe que quem está pelo avesso é ele…) lança um manifesto pela reunificação das esquerdas no Brasil. O artigo foi publicado na revista Carta Maior – que um estudante genial do Mato Grosso renomeu Bilhetinho Chinfrim (vide http://agenciacartamaior.uol.com.br/agencia.asp?id=1438&coluna=boletim). Será que o mago um dia estudou a história da faccionalização da esquerda?]

Essa, enfim, a nossa grande sorte: o desperaro e a incompetência do filho de Dona Lindu… O fruto do ventre de Dona Lindu aparentemente não foi tão bendito quanto o desejou o coveiro dela. (Frei Beto não quis ser o último rato a saltar do Titanic do Lulla: assim que as coisas começaram a feder, pulou fora).

Mas o despreparo e a incompetência de Lulla não foram a única sorte. Nossa outra grande sorte foi a prisão de um ladrãozinho de décimo escalão que embolsou três mil reais nos Correios. Ele, na gravação, denunciou o Roberto Jefferson. O governo tentou fazer de Jefferson o bode expiatório. E deu no que deu – E deu no que deu – pra sorte nossa e pro azar do socialismo petista. (Como é que será o nome da mãe de Jefferson?).

Se tivermos um terceiro golpe de sorte, esses socialistas realistas vão todos pra cadeia e ficaremos, mais uma vez, com os socialistas utópicos, que sonham, gritam, esperneiam – mas, no fundo, não causam tanto mal. Quem sabe presididos por São Eduardo “Renda Mínima” Suplicy. Deles, não precisamos ter tanto medo.

Agora, dos socialistas realistas eu tenho medo… Deles, até o Roberto Jefferson tem. Esses nós sabemos os males que podem causar. Cerca de cem milhões de pessoas morreram por causa deles, na União Soviética, na China, no Cambódia, e outros lugares em que o povo teve a infelicidade de vê-los triunfar e impor os seus sonhos de poder. Porque os sonhos deles são só de poder. E nada mais.

Em Campinas, 28 de agosto de 2005.

Impostos e taxas (e mais: contribuições, empréstimos compulsórios, etc.)

(Para o conceito de tributos na Constituição Federal, envolvendo impostos, taxas, contribuições e empréstimos compulsórios, vide os artigos 145-149A da Constituição [https://www.planalto.gov.br/ccivil_03/Constituicao/Constitui%C3%A7ao.htm]).


A Folha de S. Paulo de hoje (22/8/2005) revela que planos e estudos para permitir a cobrança de pedágio pelo trânsito nas vias urbanas estão em fase de conclusão no governo federal e em pelo menos as duas maiores metrópoles do país, São Paulo e Rio de Janeiro.

Parece que uma das razões que vem retardando o lançamento e a implantação da medida é a atual notória falta de apoio popular aos políticos. Se é isso, temos mais essa dívida de gratidão para com Roberto Jefferson: a crise deflagrada a partir de suas denúncias pode nos salvar (pelo menos por enquanto) de mais um assalto ao nosso bolso por parte de políticos, com o devido apoio de técnicos investidos de poder na burocracia estatal – os tecnoburocratas.

Um desses tecnoburocratas chega ao extremo de afirmar que o transporte automobilístico no Brasil é altamente subsidiado. E o subsídio (tirante um pequeno subsídio aos carros populares, que nem sei se existe mais) seria a permissão para estacionar gratuitamente nas vias públicas urbanas.

Há uma série de equívocos nessa afirmação.

Primeiro, nas vias públicas urbanas do centro da cidade de nossas grandes metrópoles praticamente inexiste o estacionamento gratuito. O estacionamento nas vias públicas do centro da maioria de nossas cidades maiores já é cobrado pelos respectivos governos municipais. Será que o tecnoburocrata está cogitando de que eu tenha de pagar para estacionar na frente de minha casa, que fica longe do centro em Campinas (sede de uma região metropolitana) e num local em que não há problemas de estacionamento (exceto nos dias em que há missa na igreja católica que fica em frente, felizmente em reforma há mais de um ano)?

Segundo, a justificativa oferecida pelo tecnoburocrata é para a cobrança por estacionamento nas vias públicas do centro das grandes cidades – mas a medida que se cogita é de cobrar pelo trânsito em vias públicas nesse local. Uma coisa é estacionar, outra é transitar. O que pode justificar um pode não justificar o outro.

Terceiro, o tecnoburocrata, tentanto fazer uma reductio ad absurdum da pretensão dos cidadãos de não precisar pagar para transitar com automóvel nas vias públicas urbanas, procura ridicularizar o uso feito, por alguns cidadãos, do direito de ir e vir para justificar esse trânsito, perguntando, retoricamente: será que essas pessoas acham que o automóvel é um pedaço do corpo delas? Ora, as leis que garantem o direito de ir e vir – a nossa Constituição, por exemplo, ou a lei natural, como diria John Locke – não restringem o direito de ir e vir a ir e vir a pé… Nos termos da atual Constituição, o direito de ir e vir não passa a ser ilegítimo se se usa cavalo, carruagem, bicicleta, ou automóvel para ir e vir. A pergunta do tecnoburocrata é idiota.

Mas aqui entra uma complicação que o tecnoburocrata não contempla, talvez por ignorância, talvez porque não seja no seu interesse.

A lei natural lockeana e a Constituição brasileira atual contemplam o direito de ir e vir. Mas não afirmam, nem faria sentido fazê-lo, que compete ao governo fornecer ao cidadão – muito menos gratuitamente – os meios de ir e vir. Entre esses meios estão não só estradas e ruas (vias) como os próprios veículos. O cidadão pode ir e vir livremente. Mas se quiser fazê-lo a cavalo, tem de comprar o animal ele mesmo. Se quiser fazê-lo de automóvel, tem de comprar o veículo. E é evidente que há uma diferença significativa entre esses dois meios de transporte: o primeiro – o cavalo – dispensa estradas e ruas; o segundo – o automóvel – as requer. (Também as carruagens puxadas a cavalo as requeriam, é bom lembrar).

Vem então a pergunta: a quem cabe prover as estradas e ruas nas quais vão transitar os hoje onipresentes automóveis? Ao governo ou à iniciativa privada.

Se analisarmos a questão do ângulo histórico, a maior parte dos governos, no afã de expandir suas funções e, por conseguinte, seus poderes, chamou a si a tarefa de construir estradas fora do perímetro urbano e ruas no perímetro urbano. Esses espaços são públicos, argumentavam os governos, e, portanto, cabe ao governo viabilizar seu uso adequado. Para que os governos pudesse fazer isso, foram cobrados ou aumentados impostos.

Logo, historicamente as vias (estradas e ruas) em que transitavam os diferentes veículos que as requeriam (primeiro carruagens, depois automóveis) se tornaram públicas e sua construção e manutenção eram custeadas com dinheiro arrecadado pelos governos (federal, estadual ou municipal) na forma de impostos. As únicas vias que permaneceram privadas foram aquelas que permitiam o trânsito dentro de uma propriedade particular grande, como uma fazenda, por exemplo.

Ultimamente, porém, com o aumento considerável dos gastos dos governos, decorrentes do fato de que eles assumem cada vez mais funções e, portanto, maiores poderes, começa a faltar dinheiro para que construam e mantenham vias públicas adequadas a uma demanda cada vez maior por essas vias resultante do aumento no uso de veículos automotivos. Resultado: começaram a inventar novas formas de arrecadar dinheiro dos proprietários de aumóveis e outros veículos motorizados. Aqui no Brasil, todos nos lembramos da famosa TRU – Taxa Rodoviária Única. Que fosse chamada de única era um insulto, porque logo lhe foram acrescentadas uma Taxa de Licenciamento de Veículos e o IPVA – Imposto sobre a Propriedade de Veículos Automotores. A TRU foi eventualmente extinta – mas as rodovias públicas começaram a cobrar pedágio… sem que fossem extintos a taxa de Licenciamento de Veículos e o IPVA. Oportunamente a gestão das estradas foi, em grande parte, privatizada – mas privatizou-se apenas o direito de explorar, por tempo limitado, não a propriedade das estradas. Agora se cogita de cobrar pedágio também nas vias urbanas – ainda que seja preciso de alguma forma privatizar a sua gestão.

Em resumo: a população paga pelas estradas e ruas por meio de impostos regulares, de imposto específico (IPVA), de taxa de licenciamento e de pedágio.

Voltando agora para o foco expresso no título deste artigo, impostos e taxas, devo esclarecer o que penso, do ponto de vista liberal:

a) Como já disse, o direito de ir e vir é um direito não só natural mas (para quem não aceita o direito natural) garantido na Constituição Brasileira;

b) O direito de ir e vir não inclui ou embute um direito aos meios que facilitam o ir e vir ou ampliam o seu alcance (veículos e vias), e, portanto, ninguém deve esperar que pessoa privada ou governo lhe forneça esses meios gratuitamente;

c) Assim, da mesma forma que a aquisição de um veículo é paga, o uso de estradas e ruas (ou seja, de vias interurbanas e urbanas) que a pessoa mesma não construiu em sua propriedade deve ser pago de alguma forma;

d) Em países como o Brasil, em que o direito já reconhece as estradas interurbanas e as ruas urbanas como públicas, o pagamento deve acontecer de uma ou outra de duas formas: impostos ou taxas;

e) Impostos, em princípio, são cobrados de todos os cidadãos para custear a manutenção geral do governo, no pressuposto de que todos se beneficiam com a existência de um governo que mantém a ordem; taxas são cobradas dos usuários de serviços específicos prestados pelo governo que atendem às necessidades de apenas alguns usuários, e devem cobrir o custo básico da prestação desses serviços; 

[Para uma discussão pedante – como sói ser a discussão jurídica – do conceito de impostos e taxas vide, em especial: http://jus2.uol.com.br/doutrina/texto.asp?id=5592 e  http://jus2.uol.com.br/doutrina/texto.asp?id=7146. Eu não endosso tudo o que o texto afirma – mas é útil].

f) Dessas duas formas de cobrança, é evidente que as taxas são as mais adequadas para o caso. Se vou usar um automóvel, o certo é que pague para transitar nas vias em que de fato transitar – e a parte proporcional necessária para amortizar a sua construção e mantê-la. Esse pagamento é uma taxa – que comumente se chama de pedágio.

g) O pagamento de taxas na forma de pedágio é feito, no Brasil, em acréscimo a outroos impostos, com os quais o pensamento liberal de modo algum concorda, porque oneram a atividade produtiva e o comércio, que incidem sobre as operações de fabricação e comercialização de veículos (IPI, INSS, IOF, ICMF, etc), impostos esses que são pagos, em última instância, pelo proprietário e usuário, e à taxa de licenciamento do veículo, cobrada anualmente (uma taxa única cobrada quando o veículo é originalmente licenciado seria um abuso fiscal mais suportável do que a uma taxa anual, que incide com mais freqüência ainda quando a posse do veículo é transferida ou mesmo quando o domícilio de seu proprietário é modificado);

h) Duas outras coisas são injustificáveis para o pensamento liberal neste contexto: (a) o uso de impostos (que são tributos cobrados de todos os cidadãos e são destinados a manter a operação geral do governo) para construir e manter vias públicas, porque muitos cidadãos não possuem veículos motorizados que trafegam por essas vias (b) criar impostos que incidem exclusivamente sobre os proprietários de veículos motorizados, como o IPVA, porque esses proprietários, ou aqueles a quem eles autorizarem o uso do veículo, já estarão pagando as taxas correspondentes ao uso das vias públicas (pedágios), que é tudo o que deveriam estar pagando (embora, no Brasil, como vimos, paguem ainda os impostos sobre a fabricação e comercialização dos veículos e o seu licenciamento);

i) A argumentação contida nos parágrafos anteriores mostra que a cobrança de pedágios urbanos, num contexto como o brasileiro, em que as ruas (vias urbanas) foram construídas pelo governo municipal, é legítima – desde que, entretanto, os impostos que são cobrados pela fabricação e comercialização de veículos, o IPVA e a as taxas anuais de licenciamento sejam abolidas, por implicarem muito mais do que bitributação;

j) Se a cobrança de pedágios em vias urbanas vai ser feita mediante a privatização das ruas, é algo que não precisa ser discutido aqui: se a cobrança, em si, é justa, e se a proporção cobrada também o é, faz pouca diferença se o dinheiro fica nos cofres públicos ou vai para a iniciativa privada;

Mesmo sem propor maiores mudanças no modelo socializante que é adotado no Brasil, em que o governo se atribui uma série de funções que deveriam estar na iniciativa privada, se nosso modelo fosse liberal, a forma de custear os serviços governamentais, como educação, saúde, etc. deveria ser através de taxas cobradas dos usuários e não de impostos cobrados de toda a população. A população que não usa esses serviços (que usa a escola privada e tem planos de saúde privados) não deveria estar pagando pelos serviços usados pelos demais, pois assim paga duas vezes pelo mesmo serviço (bitributação clara).

No que diz respeito aos impostos, a sua distribuição pela população deveria obedecer o princípio da eqüidade. Um valor igual imposto a cada habitante seria a forma mais justa. Depois dessa, um imposto percentual único aplicado sobre todas as transações financeiras realizadas através do sistema bancário (no máximo 1% seria suficiente). Depois dessa, um imposto percentual fixo e único sobre a renda. O sistema tributário que temos no Brasil, progressivo quando aplicado sobre a renda, e acrescido de vários outros impostos, taxas, contribuições e até mesmo empréstimos compulsórios (nunca devolvidos, é bom que se diga) é de longe o mais injusto.

Por enquanto, é isso.

Em Campinas, 22 de agosto de 2005

O estado patriarcalista socializante

Robert Filmer, contra cujo livro Patriarcha John Locke escreveu seu Primeiro Tratado sobre Governo (1689-1690), defendia a seguinte tese:

“Se compararmos os deveres naturais de um Pai com aqueles de um Rei, veremos que esses deveres são idênticos, não tendo nenhuma diferença – a não ser em sua abrangência, na extensão que cobrem. Como um Pai para com sua família, o Rei, como pai de muitas famílias, tem o dever de preservar, alimentar, vestir, instruir e defender toda a comunidade do reino. . . . Assim, os deveres de um Rei se resumem no cuidado paterno e universal do seu povo”  (apud Tarcov, Locke’s Education for Liberty, p. 11 – ênfase acrescentada).

Em outro artigo neste blog (“John Locke, o pai do Liberalismo”) comentei a posição de Locke. Mesmo com o risco de me repetir em relação a algumas questões, vou retomar a questão colocada por Filmer, bem como a alternativa de Locke, pois me parece que ambas são extremamente relevantes no contexto atual. Mas dispenso-me de discutir em detalhe a posição lockeana, por já tê-lo feito no artigo anterior.

A posição de Filmer é de que o governo “tem o dever de preservar, alimentar, vestir, instruir e defender” todos os cidadãos. A de Locke, naturalmente, é de que o governo tem o dever apenas de garantir, defender e proteger a segurança dos cidadãos – segurança essa expressa nos três direitos individuais básicos: à vida (e, naturalmente, à integridade pessoal), à liberdade (de expressar suas idéias, associar-se, ir e vir, e buscar a realização pessoal como ache melhor) e à propriedade (entendida em sentido lato, que inclui não apenas a terra e os bens materiais).

A posição de Filmer, embora expressa em conceitos patriarcalistas que hoje caíram em certo desuso, é, no essencial, a doutrina do “estado previdenciário” ou do “estado do bem-estar social”, que tem como dever prover o cidadão com saúde, educação, seguridade social, e, quando não com moradia, transporte, alimento, vestimenta e sabe-se lá mais o que (a lista dos chamados “direitos sociais”  cresce a cada dia).

Como ressaltei no artigo anterior, a doutrina do estado previdenciário ou do estado do bem-estar social é profunda e inerentemente patriarcalista ou paternalista: considera os cidadãos como crianças incapazes que não têm condições de prover para si próprias aquilo que é indispensável para a vida. A visão liberal, por outro lado, os encara como seres adultos, capazes de cuidar de seus próprios interesses e necessidades.

A tese patriarcalista-socializante é ainda bastante atual em nossos dias: está presente, com outras roupagens, no ideário socializante do Comunismo,  dos vários Socialismos e das várias Social-Democracias. Na verdade, está mais do que apenas presente: está extremamente bem difundida. Diria que até mesmo passou a integrar o “inconsciente coletivo” das pessoas.

(Na realidade, apesar de os esquerdizantes dizerem que o Liberalismo é hoje o pensamento hegemônico, chamado de “pensamento único”, a realidade mostra que é a tese patriarcalista do estado previdenciário ou do bem-estar social, pendente para o Socialismo, que está muito mais próxima de ser hegemônica hoje do que a tese liberal lockeana.)

Disse no artigo anterior que as duas vertentes combatidas por Locke como ameaças à liberdade eram, na realidade, mais do que meras ameaças: eram incompatíveis com a liberdade. Essas duas teses eram a do poder estatal absoluto e a do poder estatal paternalista. Tanto que, para Filmer, o estado paternalista deveria ter poderes absolutos sobre os seus súditos, como o pai teria sobre os seus filhos.

É essa a questão que quero explorar um pouco mais aqui.

A tese do poder patriarcalista ou paternalista do estado gera, como vimos, reivindicações crescentes de “direitos sociais” adicionais que, se atendidos, fatalmente levam o estado a assumir poderes absolutos sobre os cidadãos, transformando-os em súditos, totalmente dependentes do estado para tudo.

Friedrich von Hayek viu isso com clareza no século XX, registrando sua tese no clássico livro O Caminho da Servidão (1944): o Socialismo pode até começar com boas intenções, mas, independentemente das intenções, seu resultado inevitável é o totalitarismo estatal, com a inevitável perda da liberdade dos cidadãos, transformados em súditos dependentes do estado para tudo. E a Social-Democracia não passa de um Socialismo (mal) disfarçado de democrático, que confisca o nosso dinheiro, através de taxação, para com ele implantar um “Socialismo sem Revolução”, que se pretende com uma face humana – face essa que, hoje estamos claramente vendo no Brasil, é realmente humana apenas para os distribuidores da riqueza alheia encastelados no governo e seus amigos e aliados.

Para convencer os cidadãos a abandonar o ideário liberal e abrir o caminho para o ideário socializante, em geral se inicia com o seguinte argumento:

a) Primeiro, afirma-se, como premissa básica, que a educação é, numa democracia, extremamente importante, pois sem ela os cidadãos não saberão como eleger os melhores governantes;

b) Segundo, argumenta-se que, dada a importância da educação para formação de uma cidadania democrática esclarecida, é preciso tomar as medidas necessárias para que todos se eduquem – raiz da exigência da obrigatoriedade da freqüência à escola;

c) Terceiro, argumenta-se que, sendo a educação escolar obrigatória, ela precisa ser gratuita, porque não seria cabível tornar obrigatória uma escolaridade paga;

d) Quarto, argumenta-se que a gratuidade da educação escolar não é viável através de instituições privadas filantrópicas, porque essas, sendo em geral confessionais e de escopo limitado, não teriam as características de universalidade e laicidade que a educação necessária para a cidadania exige; 

e) Quinto, afirma-se que, não havendo interesse da iniciativa privada voltada para o lucro em oferecer ao mercado uma escola secular gratuita, esta deve ser oferecida e administrada pelo governo, com as características de obrigatoriedade, gratuidade, universalidade e laicidade;

f) Sexto, complementa-se o círculo afirmando que uma educação escolar gratuita é um direito do cidadão e um dever do estado – pelo menos nos níveis em que ela é obrigatória.

Que não haja nenhuma dúvida na mente de ninguém de que os proponentes desse argumento gostariam que a educação escolar fosse monopólio do estado, em todos os níveis. Toda vez que, no século XX, houve uma Assembléia Constituinte no Brasil os socializantes defensores da escola pública tentaram fazer da educação escolar um monopólio do estado. Foi só com muito esforço e muita luta que os liberais – com o apoio decisivo dos defensores da educação confessional – conseguiram impedir a monopolização da educação escolar pelo estado, fazendo com que as diversas Constituições deixassem a educação escolar aberta à iniciativa escolar, embora se mantivesse a referência ao “direito do cidadão, dever do estado”. Mesmo depois de ficar acertado que a educação escolar seria aberta à iniciativa privada, os socializantes ainda tentaram, e continuam tentando, interpretar a escola privada como uma “concessão do estado”, à semelhança das concessões que existem para emissoras de rádio e televisão.

Assim, para os socializantes a escola deve ser obrigatória, gratuita, pública, laica (coisas que já é no Brasil) e, acima de tudo,  única – isto é, um monopólio do estado!

Não nos enganemos: a educação é a principal arena em que se trava a batalha, hoje, entre liberais e socializantes – e, no momento, os socializantes estão ganhando com uma vantagem enorme. Se os liberais não fizerem algo, a escola pública, no Brasil, apesar de sua reconhecidamente péssima qualidade, vai ser a única escola.

O argumento socializante em favor da escola pública (exceto no caso de sua unicidade) tem atrativos para aqueles que acham a educação importante e especialmente para aqueles que, achando-a importante, se opõem a uma educação confessional doutrinária. Mas o preço a pagar pelos seus atrativos é muito alto (sem falar na unicidade monopolista). Os pioneiros da Escola Nova se deixaram seduzir por esse argumento (e estamos pagando o preço até hoje) e mesmo um liberal da estirpe de Charles Murray se mostra, nos Estados Unidos, atraído por ele.

A principal motivação daqueles que propuseram e ainda propõem o argumento é introduzir uma cunha no ideário liberal – abrir uma brecha pela qual vão passar, posteriormente, outros argumentos.

Em geral, depois de haver argumentado que a educação deve ser pública, aparece o argumento de que a saúde também deve sê-lo. De que adianta uma população educada mas doente, que morre cedo e, assim, desperdiça os investimentos estatais feitos em sua educação?

Educação e saúde: direitos dos cidadãos e deveres do estado. A Social-Democracia inicialmente se contentava com essas duas “conquistas”, com esses dois “direitos sociais” adquiridos na luta contra o Liberalismo.

Em 1945 a Carta da ONU consagrou esses dois “direitos sociais” – e alguns mais. Na trilha deles vieram o direito à moradia, ao saneamento, ao transporte, ao alimento, à vestimenta, etc. Mais recentemente se tem acrescentado o direito ao trabalho, à seguridade social e até mesmo o direito a uma renda mínima (independente do trabalho).

Os socializantes têm insistido na tese de que todos esses “direitos sociais” são universais – isto é, devem ser garantidos para todos os cidadãos, não apenas para os que mais necessitariam dele (tese que é chamada de “focalização”). A se aceitar essa tese, até mesmo Antonio Ermírio de Moraes receberia uma renda mínima.

E a lista dos “direitos sociais”, acrescidos dos chamados direitos econômicos e dos alegados direitos de quarta geração (direito a um ambiente não poluído, por exemplo), cresce a passos rápidos. Antes de chegar ao fim já estaremos no estado totalitário em que os governantes têm poder absoluto.

Em 21 de agosto de 2005

A traição de Ferreira Gullar

O artigo de Ferreira Gullar na Folha de hoje [21/8/2005] é fabuloso. Concordo com ele inteiramente — exceto pela última frase…

O artigo mostra, de maneira lúcida e insofismável, através de fatos e argumentos, que Lulla é indiscutivelmente o grande responsável pelos crimes que o PT perpetrou nos últimos anos.

O argumento de Ferreira Gullar (em minhas palavras, e com alguns acréscimos e embelezamentos meus) é o seguinte:

Depois de ter sido derrotado em três campanhas presidenciais, Lulla tomou a decisão de só concorrer pela quarta vez para ganhar. Ao tomar essa decisão, decretou que os fins são mais importantes do que os meios (tese de resto pacificamente aceita pelos comunistas). O PT, ao aceitar essa decisão de Lulla, reconheceu e assumiu a necessidade de escolher, na campanha, quaisquer meios que levassem ao fim de eleger Lulla (ainda que imorais, como as alianças com picaretas, e criminosos, como os subornos, o Caixa 2, etc. – Ferreira Gullar lista boa parte deles).

Ferreira Gullar não diz, mas eu acrescento, que, eleito Lulla, o PT levou adiante o objetivo de, agora, consolidar o projeto de poder do presidente e de seus companheiros mais próximos. Qualquer meio, agora, é válido para o fim de consolidar o aparelhamento do Estado e manter o PT indefinidamente no poder (e, de sobra, enriquecer os companheiros).

O artigo é uma obra prima de clareza na exposição dos fatos e na argumentação.

Cito o último parágrafo, que contém um resumo dos fatos e a conclusão de Ferreira Gullar:

"Não resta dúvida, portanto, que, nas opções feitas por Lula, residem as causas dos endividamentos, dos empréstimos, do ‘mensalão’, do uso do caixa dois. Não pretendo com isto inocentar a Delúbio, Silvinho, Genoino e Zé Dirceu, obviamente responsáveis pelas trapaças que arquitetaram, praticaram ou consentiram. Mas o fizeram para viabilizar a eleição e o governo de seu chefe. Por isso mesmo, no ambíguo discurso em que pediu desculpas à nação, Lula, ao dizer-se traído, evitou citar-lhes os nomes. Sabe muito bem que não pode fazê-lo. Sua responsabilidade em tudo o que ocorreu é indiscutível. Nem por isso defenderia a tese do seu impedimento."

Note-se o resumo que Ferreira Gullar, esquerdista comunista assumido, faz de suas impecáveis considerações:

"A responsabilidade [de Lulla] em TUDO o que ocorreu [endividamentos, empréstimos, mensalão, uso do caixa dois] é INDISCUTÍVEL."

Conclusão: logo, Lulla deve ser impedido, não é?

NÃO!!! A conclusão de Ferreira Gullar é: logo, Lulla NÃO deve ser impedido!

Por quê essa conclusão falaciosa? Well, well: a única explicação só pode ser que Lulla é um companheiro (e) camarada.

A incoerência lógica da esquerda é inacreditável — só se compara à sua disposição de proteger um companheiro (e) camarada não importa o que ele tenha feito ou autorizado, vale dizer, mesmo quando ela não tem dúvida de que ele é indiscutivelmente responsável pelo maior golpe que já se perpetrou sobre este país – golpe em mais de um sentido, de enganação e tomada ilegítima do poder – porque, dada a enganação e os crimes cometidos no processo de viabilizá-la, a eleição de 2002 foi uma empulhação. Este sim, um verdadeiro golpe: negro e sujo. Perto dele o alegado golpe branco e limpo dos que querem remover Lulla por impedimento é um exemplo de probidade e responsabilidade.

Como Lulla, Ferreira Gullar trai o país quando conclui que Lulla não deve ser impedido. Mas dele, Ferreira Gullar, eu não esperava outra coisa.

Em Campinas, 21 de agosto de 2005

As falácias da campanha pelo desarmamento

Estamos em plena campanha para votar “Sim” ou “Não” no plebiscito do desarmamento. Eu vou votar “Não” por uma série de razões, que vou explicitar aqui.

A razão básica para o meu voto negativo está no fato de que sou um liberal e, como tal, só aprovaria uma interferência do governo em minha vida no caso de ela ser muitíssimo bem justificada. No caso da proibição da posse e do porte de armas de fogo, os que pretendem que o governo os proíba não me parecem ter nem mesmo uma justificativa fraca.

Ou vejamos.

Como liberal defendo a tese de que a única justificativa defensável da existência de um governo é a garantia, defesa e proteção dos direitos individuais à vida, à liberdade e à propriedade dos cidadãos. Para o liberal, a única função que o governo deve ter é prover a segurança de seus cidadãos – contra quem não respeita os seus direitos individuais. Mas não é preciso ser liberal como eu para concordar que, ainda que não seja a única, essa função do governo é essencial.

Assim, quando o crime aumenta significativamente, em especial o crime contra a pessoa e a sua propriedade, o governo está falhando em sua função essencial – ou em uma de suas funções essenciais: a de prover a segurança de seus cidadãos.

Essa falha pode ter uma série de causas, das quais as três principais são:

·         A legislação contra o crime é fraca ou omissa

·         O aparato policial não consegue dissuadir ou reprimir o crime

·         O sistema judicial não pune de forma certa, adequada e exemplar o crime cometido

Em suma, a causa da falha ou é legislativa, ou é policial ou é judicial – ou abrange uma combinação dessas causas.

Em vez, porém, de pressionar o governo para que se equipe melhor para o exercício da sua função essencial de combater o crime e prover segurança para os cidadãos, grupos de esquerda tentam hoje, aqui no Brasil, criar uma cortina de fumaça alegando que a verdadeira causa da criminalidade não está na incompetência do governo, está na conduta das vítimas… Segundo essa absurda tese, a criminalidade tem aumentado  descontroladamente no Brasil, não porque o governo (incidentalmente, de esquerda) é incompetente, inapto e inepto, mas porque parte da população insiste em manter armas de fogo em casa e em carregá-las consigo quando sai. Logo, a posse e o porte de armas de fogo deve ser proibido.

Que essa tese é absurda se revela com facilidade.

Em primeiro lugar, a principal razão por que parte da população insiste em possuir e portar armas de fogo é, exatamente, para se defender do crime, porque o governo não cumpre a contento a função de protegê-la adequadamente. Se aqueles que se opõem à posse e ao porte de armas de fogo não gostam de saber que alguns cidadãos possuem armas de fogo em casa ou as portam na rua, que façam uma campanha para que o governo melhore a segurança pública. Essa medida sozinha faria mais para reduzir a posse e o porte de armas de fogo do que a campanha que a esquerda vem conduzindo.

Em segundo lugar, admito, sem problemas, que há um percentual pequeno de crimes contra a pessoa que se cometem no calor do momento e que, se não houvesse uma arma de fogo à mão, provavelmente não seriam cometidos com outro tipo de arma. Mas o número desses crimes é, relativamente falando, estatisticamente insignificante. A maior parte dos crimes contra a pessoa e contra a propriedade é cometido por pessoas que os planejam e, nesse processo, buscam os meios necessários para perpetrá-los – entre os quais estão as armas de fogo. A maior parte dos que perpetram crimes nessas condições são criminosos profissionais, pessoas frias que não hesitam em matar, com qualquer arma que tenham à mão. Sabem que, ao fazer o que tencionam, estarão quebrando leis importantes que já proíbem atacar, assaltar, ferir, roubar, estuprar, seqüestrar, matar – sem que essa proibição os detenha ou iniba. As armas de fogo que usam no momento não foram compradas com Nota Fiscal numa casa de armas nem muito menos registradas na polícia. É crível imaginar que o número desses criminosos seria reduzido pela existência de uma lei adicional que proíba a posse e o porte de armas de fogo???

A ingenuidade da proposta da esquerda é evidente. O criminoso profissional, que fez uma opção pela vida de crime, ou a pessoa fria que planeja cometer um crime, se não tiver a arma à mão vai procurá-la: vai roubá-la (ou até mesmo comprá-la!) de um policial, comprá-la no mercado negro, contrabandeá-la do Paraguai ou da Bolívia… O que certamente NÃO vai fazer é comprar uma arma numa casa autorizada a vendê-la. As armas de fogo hoje usadas não são adquiridas legalmente no mercado e registradas na Polícia. Por que imaginar que uma lei idiota como a que se propõe vai alterar esse quadro?

Em terceiro lugar, a experiência de outros países mostra que a proibição da posse e do porte de armas de fogo pela população produz um aumento da criminalidade. Os livros de Thomas Sowell estão cheios de estatísticas a esse respeito. Mas um mero exercício de reflexão comprova isso. Ponha-se no lugar de quem contempla realizar, digamos, um roubo. Se eu sei que a pessoa que pretendo roubar pode estar armada, vou pensar duas vezes. O fato de que a vítima pode estar armada claramente funciona como um dissuasor. Agora, se eu sou um criminoso contemplando um determinado crime, e eu estou seguro de que minha vítima prospectiva vai estar desarmada (porque a punição por andar armado é pior do que a perspectiva de um assalto!), fico muito mais tranqüilo.

Isso tudo parece tão evidente que até me sinto constrangido em afirmá-lo.

A legislação hoje em vigência não obriga ou incentiva nenhum cidadão cumpridor da lei a comprar e portar uma arma. Ela preserva a liberdade de quem não quer comprar e portar e de quem pensa diferente. Os esquerdistas, que têm ojeriza à liberdade, querem, como sempre, remover essa liberdade, tornando a nossa sociedade menos livre.

Em Campinas, 20 de Agosto de 2005

John Locke, o Pai do Liberalismo

1. Preâmbulo: John Locke e Adam Smith

Muito se fala em Adam Smith como o Pai do Liberalismo – com base no fato de que, em 1776, ano da Revolução Americana, ele publicou seu clássico A Riqueza das Nações. Mas quase cem anos antes da publicação desse livro, sem dúvida alguma um clássico, John Locke, em 1689, publicou seu não menos clássico Dois Tratados sobre Governo, que havia escrito, ou vinha escrevendo, há vários anos – provavelmente desde que passou a ser Secretário do Duque de Shaftesbury. (Na verdade, ele foi bem mais do que Secretário: foi também consultor, confidente, amigo, tutor e mentor dos netos do Duque – inclusive do famoso Terceiro Duque de Shaftesbury, que veio a influenciar Adam Smith – e David Hume — com sua teoria dos sentimentos morais).

Adam Smith, é verdade, deu mais atenção ao Liberalismo Econômico – a Economia de Livre Mercado. Mas foi John Locke que fixou as bases do Liberalismo Político que, inquestionavelmente, inclui o Liberalismo Econômico — e, por conseguinte, é mais abrangente.

Há uma outra questão histórica importante e interessante. Enquanto Adam Smith publicava seu livro no ano da Revolução Americana, fato que demonstra que sua obra não pode ter tido impacto na deflagração da revolta das Colônias Americanas contra a Inglaterra, John Locke era muito bem conhecido dos que fundaram a primeira República das Américas — que, na mente deles, americanos, ficou conhecida simplesmente como America. Thomas Jefferson, o autor da Declaração da Independência das Colônias, que oficialmente passaram a se denominar Estados Unidos da América, era um leitor atento de Locke – e traços da influência de Locke estão presentes na própria Declaração de Independência.

2. Principais Teses do Liberalismo de Locke

Vejamos no que consiste o Liberalismo de Locke descrevendo algumas de suas teses mais importantes:

a. A “Liberdade Natural” do Ser Humano

Locke defendia a tese de que o ser humano é naturalmente livre. Na ausência do estado (vale dizer, na prática, do governo), reina a liberdade. O que caracteriza, portanto, o chamado “estado da natureza” (a condição natural do homem vivendo sem estado)  é a liberdade – não (como pretendia Thomas Hobbes) a guerra de todos contra todos.

A tese da “liberdade natural” do ser humano se sustenta no argumento de que a liberdade não é um bem outorgado por um estado, por um governo, por uma autoridade civil, mas é inerente à própria natureza humana – e, portanto, inseparável da condição humana. O homem é naturalmente livre – não naturalmente escravo, nem, muito menos, dividido em duas classes, a dos livres e a dos escravos. É isso que se quer dizer quando se afirma que o ser humano nasce livre – ou que foi criado livre por Deus.

É bom que se esclareça aqui que o “estado da natureza” não é, para Locke, necessariamente um estado histórico, que tenha de fato existido e que possa ser localizado e datado. É um estado imaginado em contraposição ao estado em que existe o estado (e, portanto, um governo e uma sociedade civil). Na realidade, o estado da natureza nada mais é do que uma imaginada sociedade anárquica, sem estado e sem governo, que existiria, não houvessem os homens pactuado para criar um estado, um governo, uma sociedade civil.

b. Liberdade Natural e Direitos Individuais Básicos e Inalienáveis

A liberdade natural se expressa na forma de alguns direitos individuais básicos e inalienáveis: o direito à vida (que inclui os direitos à integridade, à inviolabilidade e à segurança da pessoa), o direito à liberdade (que inclui os direitos de pensar livremente, de expressar livremente o que se pensa, de ir e vir livremente, de se associar livremente, de livremente estabelecer contratos, e de agir livremente em busca da própria realização profissional e felicidade pessoal), e o direito à propriedade (que inclui os direitos de guardar para si, ou de livremente trocar ou permutar com terceiros, os frutos de seu trabalho — que, no século 17, era básica e quase universalmente concebido como a interação do indivíduo com a natureza).

Na verdade, esses três direitos, no fundo, são um só: o direito à vida. O direito à vida é o reconhecimento de que cada pessoa humana é proprietária única e inquestionável de seu próprio corpo e de sua própria mente (ou espírito) – isto é, de si mesma. A propriedade básica que o ser humano possui é a propriedade de si mesmo. É isso que significa o direito à vida.

O direito à liberdade é uma explicitação desse direito à vida – é o esclarecimento de que o indivíduo tem direito não só à sua integridade, inviolabilidade e segurança física mas à sua liberdade, que inclui o direito de pensar o que quiser, de expressar o seu pensamento, ou de se expressar, como queira, de se associar com quem queira, de ir e vir como queira, de buscar a sua realização profissional e pessoal (a sua felicidade, ou, como preferiam os gregos, a sua eudaimonia) como queira.

O direito à propriedade é também uma explicitação desse direito à vida: como é que posso ter direito à minha vida e direito à liberdade, se não tenho direito à propriedade daquilo que é fruto de meu trabalho – daquilo que (no contexto do século 17), não sendo de ninguém, é “apropriado” por mim na justa medida em que eu misturo o meu trabalho com algum elemento natural (em especial a terra). Aqui está a gênese da famosa teoria lockeana que vincula a propriedade ao trabalho exigido para transformar a natureza.

É preciso que se esclareça aqui, especialmente contra análises marxistas, que o fundamental, em Locke, é a liberdade, que é fundamentada na propriedade que todo indivíduo tem da própria vida. A propriedade dos frutos do trabalho é meio necessário indispensável de preservar a liberdade, sustentando a vida.

Locke não escreveu seus Dois Tratados exclusiva ou primariamente para defender a propriedade privada: escreveu-os para defender a liberdade – mas a defesa desta implica a defesa daquela.

c. A Justificativa para a Criação do Estado

Locke reconhecia, porém, que, na ausência de um estado (que implica a existência de um governo e de uma sociedade civil), ou seja, no “estado da natureza”, a liberdade de alguns – exatamente os mais fracos, os menos poderosos — não fica adequadamente protegida. Ele defende, portanto, a existência de um estado — desde que este tenha, como finalidade precípua, a garantia da liberdade de todos – ou seja, a defesa dos direitos naturais básicos que todo indivíduo possui.

A existência de um estado (um governo, uma autoridade civil) depende, portanto, do consentimento daqueles que pactuam ou contratam para cria-lo. Estes, os agora cidadãos da sociedade civil, outorgam certos poderes – poucos e limitados – ao estadoem troca da garantia e da defesa da liberdade e dos direitos naturais básicos – de todos os indivíduos.

d. O Liberalismo de Locke e o Anarquismo

Locke, ao defender a tese de que o estado da natureza, embora seja um estado onde reina a liberdade, é uma condição em que a liberdade de todos não é garantida e protegida, está, na verdade, defendendo a tese da inviabilidade da opção anarquista.

A teoria política liberal proposta por Locke tem, portanto, umprimeiro contraponto: o anarquismo, representado pela alternativa, sempre possível, de uma sociedade sem estado e sem governo (o chamado estado da natureza) — mas no anarquismo não há garantia de que a liberdade será preservada e de que os direitos individuais serão respeitados. Contra essa alternativa, Locke defende a tese da necessidade de uma sociedade civil, ou seja, de uma sociedade com estado e governo formal – ou, em outras palavras, de uma sociedade política.

 e. O Contrato Social e o Direito à Rebelião

Locke, embora fale em contrato ou pacto social, não imagina que esse contrato ou pacto seja um evento histórico que tenha acontecido num determinado lugar e momento. O pacto ou contrato social é tácito. Sua existência é tacitamente reconhecida quando se reconhece mais um direito — este um direito civil do cidadão, não um direito natural do homem: o direito à rebelião, ou seja, à destituição de um governo que está abusando dos poderes que lhe foram outorgados, indo além da garantia da liberdade e da defesa dos direitos naturais individuais básicos.

Assim, a teoria política liberal de Locke tem um segundo contraponto – talvez até mais importante do que o primeiro. Há um outro perigo para a liberdade e para os direitos individuais, além do estado livre mas anárquico da natureza – tão grande quanto este ou, talvez, ainda maior. Esse é perigo representado pela possibilidade, contra a qual o cidadão deve estar sempre vigilante, de que o estado e o governo criados para garantir, defender a liberdade e proteger os direitos individuais, extrapolem essas funções assumindo outros poderes que acabem por representar um risco maior para a liberdade e os direitos individuais do que o anarquismo do estado da natureza (em que alguma liberdade sempre existe – pelo menos para alguns, os capazes de defendê-la na inexistência de um estado ou governo).

Essa terrível ameaça de que a própria instituição criada para garantir, defender e assim proteger a liberdade e os direitos individuais possa se tornar inimiga da liberdade se expressa, para Locke, em duas vertentes (claramente relacionadas entre si).

f. O Perigo do Estado Absoluto

De um lado, está a vertente do poder absoluto, e, portanto, ilimitado do estado e do governo. A luta de Locke contra o absolutismo do poder estatal é bem conhecida e dispensa maior explicitação. Basta dizer que tão conhecida quanto seus Dois Tratados é sua Carta sobre a Tolerância, em que ele defende a liberdade religiosa contra a pretensão do estado de determinar a religião que os cidadãos podem e devem praticar.

Na realidade, a tese é claramente defensável de que o Liberalismo de Locke tem raízes mais profundas na defesa da liberdade religiosa, que implica a liberdade de consciência, ou seja, do pensamento e de sua expressão, do que na defesa da propriedade privada – embora, como vimos, para ele as duas estejam intrinsecamente associadas.

No estado absolutista, o indivíduo não é cidadão: é súdito. Nele o indivíduo perde sua liberdade por inteiro. Só o detentor do poder estatal é livre e soberano. O indivíduo, para todos os fins, é súdito, o que equivale a escravo. O indivíduo, enquanto súdito, deixa de ter direitos: passa a ter apenas deveres. Na verdade, tem apenas um dever: obedecer às determinações do detentor do poder estatal.

É evidente, portanto, por que Locke se opunha ao absolutismo do poder estatal.

g. O Perigo do Estado Patriarcal

Mas qual é a outra vertente que, no entender de Locke, faz com que o estado e o governo venham a representar uma ameaça para a liberdade? É o perigo do “estado patriarcal”. Na verdade, o primeiro dos Dois Tratados (em geral menos prestigiado que o segundo) é todo ele um ataque à teoria patriarcal do estado defendida por, entre outros, Robert Filmer.

Embora alguns autores, como Nathan Tarcov (Locke´s Education for Liberty) afirmem que a tese de Robert Filmer pareça hoje “irrelevante e absurda” (p.9), ela, a meu ver, está longe de ser irrelevante e absurda hoje.

Vou mostrar por quê.

A tese de Filmer se chama de “patriarcalismo” por uma razão simples e facilmente inteligível. Segundo ele, há uma clara analogia entre o poder do estado sobre seus súditos e o poder do pai sobre seus filhos – daí o rótulo de patriarcalismo.

Eis um resumo exemplar da tese de Filmer, em suas próprias palavras:

“Se compararmos os deveres naturais de um Pai com aqueles de um Rei, veremos que esses deveres são idênticos, não tendo nenhuma diferença – a não ser em sua abrangência, na extensão que cobrem. Como um Pai para com sua família, o Rei, como pai de muitas famílias, tem o dever de preservar, alimentar, vestir, instruir e defender toda a comunidade do reino. . . . Assim, os deveres de um Rei se resumem no cuidado paterno e universal do seu povo”  (apud Tarcov, op.cit., p. 11 – ênfase acrescentada).

Ora, essa tese só é “irrelevante e absurda” por usar uma analogia – e, portanto, uma terminologia – que caiu em desuso: a comparação dos poderes do governante com os poderes do pai de família. Mas, em sua essência, o que é a tese de que o governo “tem o dever de preservar, alimentar, vestir, instruir e defender” todos os cidadãos senão aquilo que é expresso pelos defensores da doutrina do “estado previdenciário” ou do “estado do bem-estar social”, que tem como dever prover o cidadão com saúde, educação, seguridade social, e, quando não, com alimento, vestimenta, moradia, transporte e sabe-se lá mais o que (a lista dos chamados “direitos sociais”  cresce a cada dia). Embora o termo não seja usado com frequência, a doutrina do estado previdenciário ou do estado do bem-estar social é profunda e inerentemente patriarcalista: considera os cidadãos como crianças incapazes que não têm condições de prover para si próprias aquilo que é indispensável para a vida.

Assim, longe de ser “irrelevante e absurda”, a tese do patriarcalismo, que Locke sagazmente combateu, está presente, com outras roupagens, hoje em dia – e mais do que presente: está extremamente bem difundida. Na realidade, apesar de os esquerdizantes dizerem que o Liberalismo é hoje o pensamento hegemônico (chamado de “pensamento único”), a realidade mostra que é a tese patriarcalista do estado previdenciário ou do bem-estar social que está muito mais próxima de ser hegemônica hoje do que a tese liberal lockeana.

h. A Interconexão dos Dois Perigos

As duas vertentes combatidas por Locke como ameaças à liberdade (na realidade, mais do que meras ameaças, condições incompatíveis com a liberdade), a do poder estatal absoluto e a do poder estatal paternalista, estão claramente relacionadas entre si, embora Locke não tivesse como ver isso com clareza.

A tese do poder paternalista do estado gera reivindicações crescentes de “direitos sociais” adicionais que, se atendidos, fatalmente levam o estado a assumir poderes absolutos sobre os cidadãos, transformando-os em súditos, totalmente dependentes do estado para tudo. Friedrich von Hayek viu isso com clareza no século 20, registrando sua tese no também clássico O Caminho da Servidão (1944): o Socialismo pode até começar com boas intenções, mas, independentemente das intenções, seu resultado inevitável é o totalitarismo estatal, com a inevitável perda da liberdade e dos direitos individuais dos cidadãos, transformados em súditos dependentes do estado para tudo.

i. Breve Conclusão: A Relevância Político-Filosófica de Locke Hoje

Para terminar este artigo já longo, devo concluir que Locke não só foi o pai do Liberalismo dito Clássico mas seu pensamento, até hoje, é extremamente relevante – porque as teses que combateu ainda fazem parte do ideário do século 21, mais de 300 anos depois de ele ter escrito sua obra prima em defesa do Liberalismo.

3. A Relevância de Locke para a Educação

Qual a contribuição desse ideário lockeano para a educação?

Uma primeira contribuição é bastante evidente: por mais benéfica que possa ser a educação, não é dever do estado ministra-la, financia-la ou mesmo regulamenta-la. A educação é algo que diz respeito à esfera privada: cabe a iniciativa privada decidir como ministra-la e financia-la, sem regulamentação do governo.

Também é evidente uma segunda contribuição: dadas as diferenças individuais, e havendo respeito à liberdade humana, não há como defender a tese de que todo mundo deve ter o mesmo tipo de educação – uma “educação tamanho único”, um  tamanho serve para todos.

Em terceiro lugar, e para realçar as contribuições seguintes, é preciso deixar claro, aqui, que há, no ideário lockeano, uma diferença fundamental entre educação e escolaridade.

O ser humano, diferentemente de outros animais, nasce totalmente incapaz de fazer qualquer coisa por si só — por isso, nasce totalmente dependente e permanece dependente do cuidado alheio por bom tempo. Mas nasce com uma enorme capacidade de aprender (infinitamente superior à dos outros animais). O que chamamos educação é essa capacidade inata de o ser humano, através da aprendizagem, que envolve, necessariamente, interação com o ambiente (que compreende a natureza e outros seres humanos, em especial seus pais, sua  família, sua comunidade), se desenvolver, isto é, traduzir sua ausência de capacidades em um conjunto de competências, transformando, assim, sua dependência original em independência e, na sequência, em interdependência e autonomia.

Qualquer bebê humano criado em sociedade (e, se não for criado em sociedade, não sobrevive, malgrado as lendas dos meninos-lobo), se educa. (Talvez a maior contribuição de Paulo Freire à teoria educacional seja sua tese dupla de que “ninguém educa ninguém” e “ninguém se educa sozinho”: os seres humanos se educam, como ele diz, “em comunhão”, em interação, em diálogo, em colaboração, no contexto de viver suas vidas). Não é preciso que o ser humano frequente escolas para se educar. Ele pode muito bem educar-se em casa – e, na época de Locke, era assim que se educava. (O movimento em defesa do direito de “home education” é profundamente lockeano, pois ele era, no fundo, um “home educator” para os netos do Lord Shafestbury). Alguém pode muito bem educar-se simplesmente vivendo, ou trabalhando, ou se divertindo com aqueles que lhe são próximos (e, hoje em dia, a proximidade não precisa ser proximidade física) .

Disso decorrem duas outras contribuições do Liberalismo lockeano para a educação.

Em quarto lugar, não não faz sentido criar um sistema de educação único, que deve educar a todos.

Em quinto lugar, não faz sentido nenhum declarar a educação obrigatória.

A educação é indispensável: sem ela o ser humano não sobrevive. Mas a escola é perfeitamente dispensável (vide Ivan Illitch), e, portanto, a escolaridade não pode ser declarada obrigatória, nem mesmo numa faixa etária restrita – se levarmos o liberalismo de Locke a sério.

A educação, portanto, na visão de Locke, não deve ser pública (estatal), nem única, nem escolar, nem obrigatória…

E, naturalmente, em sexto lugar, não precisa ser obrigatoriamente laica. Se uma família é religiosa, não há porque não possa favorecer um ambiente religioso para a educação de seus filhos. A ideia de que educação e religião se contrapõem é, para Locke,  um mito. A educação pode muito bem se dar num ambiente religioso – como pode muito bem se dar num ambiente secular. O ambiente adequado para a educação dos filhos é escolhido pelos pais – até que os filhos tenham condições de decidir por si mesmos, autonomamente, o que querem, ocasião em que podem criticar e repudiar a decisão paterna e buscar para si próprios uma educação alternativa.

A preocupação, no século 19, com a laicidade da educação fazia sentido porque a educação que se contemplava, nos Estados Unidos, era uma educação escolar pública, isto é, estatal. Sendo estatal, era, segundo a Constituição Americana, que separa Estado e Igreja, fatalmente laica.

Mas não sendo a educação nem escolar nem estatal, como preconiza Locke, não é preciso que seja laica – porque as pessoas, em sua maioria, são religiosas.

Por fim, em sétimo, a educação, como tudo na vida, tem um custo – e, portanto, se delegada a terceiros, tem um preço… Logo, a menos que proporcionada no seio da família, em que tem um custo mas não tem um preço, nunca pode ser descrita como “gratuita”.

Em resumo:

  • A educação proposta e defendida por Locke é inerentemente privada (isto é, não é estatal, ou pública, no sentido que se dá ao termo hoje em dia);
  • A educação proposta e defendida por Locke não é única (devendo ser tão diferenciada quanto diferentes são os seres humanos);
  • A educação proposta e defendida por Locke não deve ser obrigatoriamente realizada em instituições especificamente criadas para esse fim, a saber, escolas (devendo ser integrada à vida, e ter lugar enquanto as pessoas vivem, se divertem, trabalham);
  • A educação proposta e defendida por Locke não precisa ser necessariamente laica (podendo ter lugar em contextos religiosos, se os pais, ou, eventualmente, as próprias pessoas assim houverem por bem);
  • A educação proposta e defendida por Locke tem, necessariamente um custo, que, quando envolvendo terceiros, pode claramente se traduzir em um preço (não sendo, portanto, necessariamente, gratuita).

Ora, a educação proposta por Locke é, portanto, em seus pontos fundamentais, oposta à educação defendida pelos proponentes da “Escola Nova”, geralmente tidos como liberais pela esquerda

Há um aspecto, porém, em que a educação proposta por Locke tem um ponto de contato com o ideário da escola nova: ela deve ser centrada no desenvolvimento de competências, que devem ser construídas com base nos interesses de cada criança, e a melhor forma de construir competências é deixar que a criança trabalhe em projetos de seu interesse. O facilitador da aprendizagem de uma criança  deve aproveitar os interesses das crianças para que elas aprendam, através deles, algo não só de interessante, mas, também, de útil.

Escrito em Campinas, 19 de agosto de 2005 (data do 38º aniversário de minha primeira ida aos Estados Unidos), revisado em São Paulo, em 20 de Março de 2018.

Não falei?

Não falei que era para o Franklin Martins esperar sentado?
 
Eis o relato da Folha Online sobre o discurso presidencial.
 
Folha Online
12/08/2005 – 12h46
Lula diz se sentir traído e pede desculpas à nação

Da Redação
Em São Paulo

O presidente Luiz Inácio Lula da Silva, em pronunciamento à nação com mais de três horas de atraso em relação ao inicialmente programado, se disse traído e indignado pela grave crise política. "Eu me sinto traído por práticas inanceitáveis. Indignados pelas revelações que chocam o país, e sobre as quais eu não tinha qualquer conhecimento." O presidente também pediu desculpas "ao povo brasileiro". O discurso ocorreu durante reunião ministerial na Granja do Torto, em Brasília.

Lula disse que, se pudesse, já teria punido os culpados, mas que esse poder não está em suas mãos. Destacou o papel da Polícia Federal nas investigações e garantiu que afastará imediatamente os apontados por envolvimento. "Estamos investigando todas as denúncias. Ninguém será poupado", disse.

No discurso, o presidente admitiu erros do partido e do governo. "Não tenho nenhuma vergonha de dizer que nós temos de pedir desculpas. O PT tem de pedir desculpas. O governo, onde errou, precisa pedir desculpas", afirmou Lula.

Foi a primeira vez que Lula referiu-se à crise política em um pronunciamento na TV. Ele ainda declarou-se "indignado com as revelações", sentimento que seria compartilhado "pela grande maioria de todos aqueles que nos acompanharam nessa tragetória". Ele também defendeu as bandeiras da ética e da honestidade na política. "O PT foi criado para fortalecer a ética na política". E sentenciou: "eu não mudei, e tenho certeza disso."

Conquistas econômicas

Lula iniciou seu pronunciamento listando os resultados econômicos, ressaltando o crescimento da oferta de trabalho e o que chamou de "revolução do consumo em massa". Em seu governo, disse, foram criadas 104 mil novas vagas formais por mês. Três milhões e meio no total do governo. Ele destacou ainda os recordes da balança comercial e o controle da inflação. "Tenho certeza de que o povo sente a diferença. O país está mudando para melhor".

Ao final de seu pronunciamento, Lula pediu aos empresários que não deixem de investir no país por conta da crise política. "Este país não pode parar", afirmou. E mais uma vez reforçou seu sentimento em relação aos supostos casos de corrupção. "Sei que vocês estão indignados, e eu estou tão ou mais indignado que qualquer brasileiro". Para encerrar, lançou um apelo: "sei que posso contar com o povo brasileiro".

Em Campinas, 12 de agosto de 2005

O circo petista

A crise avança inexoravelmente.

Ontem (11/8/2005) Duda Mendonça trouxe novos elementos importantes. O Caixa 2 do PT é (era?) globalizado. Duda recebeu, por serviços prestados, não é claro se durante a campanha ou depois de eleito o Lulla, através de uma empresa que criou em um paraíso fiscal, por recomendação do próprio PT – e, pelo que consta, com o apoio do Bank Boston International, no passado presidido pelo atual presidente do Banco Central, indicado pelo PT (embora pertença ao PSDB – "politics makes strange bedfellows", já se disse).

A revelação causou consternação e cenas de ridículo explícito.

O senador Aloízio Mercadante revelou-se "perplexo e indignado". Afinal de contas, Duda havia cuidado de sua própria campanha para o Senado – se bem que ele, Mercadante, afirme que não tratou de dinheiro com Duda nem sabe como Duda foi pago ("Eu jamais negociei qualquer contrato", diz ele, segundo a Folha de hoje). Os petistas são uma raça especial: acreditam que as pessoas lhes prestam favores assim sem mais nem menos, sem esperar nada em troca – só porque os petistas são (eram) puros e politicamente corretos.

Quem vai pagar o Duda? Não importa. Alguém o fará. Afinal, sou amigo do Rei (ou de Deus). São Delúbio, quem sabe, auxiliado pelo Arcanjo Carequinha, fará o pagamento.

No plenário da Câmara houve choro e ranger de dentes. Os petistas que ainda se consideram puros, e que agora acusam e condenam a "banda podre" do partido, com a qual ontem festejavam e jantavam, choraram, repelindo (palavra da hora) e acusando seus antigos companheiros. Duas dezenas de deputados e quatro senadores abriram mão dos cargos de vice-líderes no Congresso – e abandonaram o partido.

É bom que se diga que abandonar um barco que afunda não é nenhum gesto heróico. Quem viu Titanic sabe que gestos bem pouco heróicos acontecem nessa hora.

Já que a analogia com o Titanic me ocorreu, é oportuno ressaltar que Lulla continua como o quarteto do navio: tentando tocar "Closer my God to Thee" e fazendo de conta que nada de extraordinário está acontecendo. Como os músicos do Titanic, que pagaram com a vida (chegando rapidinho mais pertos de Deus, como dizia a música que tocavam) o seu faz-de-conta, Lulla pode pagar com o mandato sua cegueira política – se não com o atual mandato, certamente com o futuro. (A pesquisa DataFolha revelada hoje já mostra que, num eventual segundo turno com o José Serra ele perderia com mais de dez pontos percentuais. Estamos mal: substituir o Lulla com o Zé Serra não é avanço algum – believe me).

Consta que Lulla hoje vai falar à nação. Pelo jeito vai bater na tecla de que foi traído. A propósito, é esse o tema do PT no momento: a traição.

Segundo a Folha de hoje, "Lula fará um discurso em que dirá que foi ‘traído’ [aspas no original] e que alguns companheiros ‘cederam a práticas tradicionais’ que antes eram condenadas pelo próprio PT". As práticas eram antes condenadas pelo PT – o que não quer dizer que não eram praticadas pelo partido ao mesmo tempo em que ele as condenava… A coisa vem de longe. Remember Celso Daniel.

Os petistas pelo jeito são tutti cornuti confessos – a começar, pelo visto, pelo petista mór, Lulla de Castro Chavez (que ontem recebeu o apoio do Hugo Chavez no Palácio do Planalto: quando vai chegar o Fidel Castro?).

Os deputados chorões disseram-se traídos. Segundo a Folha de hoje, "as lágrimas vieram no plenário da Câmara. Orlando Desconsi (RS), Maninha (DF), Chico Alencar (RJ), Iara Bernardi (SP), Nazareno Fonteles (PI), Walter Pinheiro (BA) foram alguns dos que choraram. Alguns dos assessores fizeram o mesmo. ‘Entramos em parafuso’, disse o deputado Ivan Valente (SP)".

O atual secretário-geral do PT e ex-ministro do Trabalho de Lulla, Ricardo Berzoini, para não ficar atrás do Mercadante, se disse nada menos do que "estupefato".

O atual presidente do PT e ex-ministro da Educação, Tarso Genro, também está envolvido com dinheiro valeriano. Ainda segundo a Folha, "depois de várias negativas [NB], o PT gaúcho reconheceu ontem ter recebido R$ 1,05 milhão da empresa SMPB, da qual o empresário Marcos Valério de Souza é sócio". O atual presidente do PT não é melhor do que os três anteriores: Genoíno (o menos genuíno de todos os homens), Dirceu e o próprio Lulla).

Quando se pensa que o PT chegou no fundo do poço, aparece mais fundo de poço para eles se afundarem ainda mais.

Primeiro, a ópera bufa do empréstimo de 30 mil reais que Lulla fez junto ao partido (dez vezes mais do que os 3 mil pelos quais o Marinho se vendeu nos Correios). Por mais de um mês o empréstimo não foi questionado – a única coisa que estava obscura era quem o teria pago. O Palácio do Planalto inicialmente emitiu uma nota dizendo que informações sobre o empréstimo deveriam ser buscadas junto ao PT, não junto à presidência. Depois, ao mesmo tempo em que apareciam documentos mostrando depósitos na conta do PT feitos pelo presidente Lulla, apareceu o ex-tesoureiro do PT, Paulo Okamoto, hoje presidente do SEBRAE (nada é sagrado para o PT), que reconheceu que o empréstimo havia sido feito e que ele próprio o havia pago, com dinheiro do próprio bolso, como presente a Lulla, nunca dizendo ao Lulla o que havia feito (para não "encher o saco" [sic] do presidente com essas bobagens. 30 mil reais para um petista de escol é trocado – dinheiro que a gente dá como gorjeta da mesma forma que os pobres mortais dão de 2 reais para manobrista.

Por fim, o atual ministro da Coordenação Política, Jacques Wagner, veio a público, ao mesmo tempo, para negar que o empréstimo houvesse sido feito um dia, dizendo que Lulla não o reconhece e não vai pagá-lo… Lulla? Quieto. Parece que o problema não é com ele.

O vice-presidente da CPI dos Correios, deputado Paulo Pimenta do PT do Rio Grande do Sul, foi forçado a se demitir do cargo depois de ter sido flagrado mentindo e forjando documentos… Pode ser cassado. Único erro que ele admitiu? O "equívoco" de ter pedido uma carona a Marcos Valério quando este saía do Congresso… "Diga-me com quem andas…"

Pelo jeito, se morrerem todos os petistas só vamos poder dizer, plagiando Nero: "que grandes artistas perde o mundo".

Enquanto isso, Hugo Chaves afirma que os "ataques" a Lulla "deve(m) vir de algum centro de planejamento — na melhor das hipóteses aqui de dentro do Brasil, ou cuidado se não é de fora do Brasil." O MST assina embaixo, e inclui a cumplicidade da imprensa.

Franklin Martins, comentarista político da Globo, chamou ontem o presidente à responsabilidade em termos duros:

"Está na hora de o presidente falar à nação", diz ele. "Não em palanque, em comício, de improviso, porque o momento é grave e exige serenidade, não radicalização. É preciso que Lula diga claramente ao país o que aconteceu no governo e no PT. Se se sente traído, que diga por quem e com todas as letras. Se errou na escolha de colaboradores, que peça desculpas. Que fale olho no olho de cada brasileiro."

É isso. O Franklin Martins é bom que espere sentado.

Em Campinas, 12 de agosto de 2005

Lulla, com dois eles

Há exatamente dois meses, no dia 7 de junho, usei, aqui neste blog (no artigo: "Delubio, o PC de Lulla"), a grafia do nome do presidente com dois eles, assim: Lulla — e disse: "de agora em diante vou escrever Lulla, com dois eles, para sublinhar as semelhanças (e
lembrem-se: vocês viram aqui primeiro!

A VEJA que sai hoje, com a data do dia 10, faz o mesmo… Agradeço o cumprimento indireto. Não sou pretensioso de modo a imaginar que VEJA tenha me copiado — afina, a idéia é natural, para quem conhece os fatos. Só reivindico dois meses de furo em relação à revista…

 
Em Salto, 6 de agosto de 2005

O depoimento de José Dirceu

A estratégia do ex-ministro José Dirceu ontem (2 de agosto de 2005) na Comissão de Ética foi clara:

a) Alegar que nada tem que ver com os atos realizados pela direção do PT (por não ser mais nem presidente nem secretário executivo do partido);

b) Alegar que só fazia, no governo, estritamente o que era da competência do Ministro Chefe da Casa Civil;

c) Negar tudo que foi afirmado por Roberto Jefferson sobre conversas particulares com ele (conversas reservadas: só o interlocutor e ele) e mesmo algumas coisas ditas em conversas que tiveram outras testemunhas, além de Jefferson e ele.

Como parte da primeira alegação, tentou fazer crer que não sabia nada de pagamentos a parlamentares, que só soube dos empréstimos feitos pelo PT, e de seu endividamento, através de relatórios gerais apresentados nas reuniões da Executiva do partido, que não sabia dos rolos do Delúbio com o Marcos Valério nem de seus contatos generalizados com políticos de outros partidos, em nome do PT, que não sabia das atividades do Silvio, que agia como se fosse coordenador político do governo, etc. etc.

Como parte da segunda alegação, tentou fazer crer que não é verdade que ele era, na realidade, o Super Ministro do Presidente Lulla, que não é verdade que ele coordenava todo o governo, inclusive as ações dos outros ministros e dos diretores de autarquias e empresas estatais, que, na verdae, ele não tinha nenhuma ingerência sobre a Polícia Federal e a ABIN e nem sequer recebia seus relatórios, que ele não participava de negociações políticas com os partidos, porque as nomeações eram feitas pelos ministérios ou pelas autarquias e empresas estatais, que ele não participava de processos licitatórios, porque o governo tem mecanismos de fiscalização desses processos, etc. etc.

Como parte da terceira estratégia, negou tudo o que foi possível. Num momento, negou que houvesse participado de uma reunião com Jefferson, vários outros e o Presidente Lulla — sendo informado, pelo relator, de que um dos deputados presentes havia confirmado que ele estava lá, sim…

Agora é esperar.

Mas uma coisa ficou evidente: aquilo que Jefferson relata se encaixa perfeitamente com o que a gente conhece do comportamento de parlamentares, políticos e partidos políticos, e, por isso, é perfeitamente crível; aquilo que o Zé Dirceu afirma, ou nega, não é nada crível, dado o que sabemos sobre o seu papel no PT e no governo.

A Heloísa Helena, que conhece bem o partido e o governo, afirmou que no PT tudo é feito coletivamente — ninguém sai por aí tomando decisões e fazendo ações por iniciativa própria, sem tê-las discutidas e aprovadas pelo coletivo, em suas mais altas instâncias (centralismo democrático parece ser o nome disso). Quem conhece a história e a tradição do partido sabe que isso é verdade.

Lulla foi presidente do PT (de honra, num segundo momento), Zé Dirceu foi primeiro secretário executivo e depois presidente do PT, só deixando, os dois, de ser presidente de honra e presidente de jure do partido quando assumiram as funções, respectivamente, de Presidente da República e de Ministro Chefe da Casa Civil da Presidência, com atribuições plenipotenciárias de Primeiro Ministro. Especialmente depois de uma campanha política dura e excepcionalmente milionária (no caso do PT), em que o partido se endividou, é crível que os dois maiores líderes do PT, o carismático e organizativo, tenham de repente abandonado o partido aos cuidados da besta do Genoíno e seus cúmplices (todos eles escolhidos por Dirceu)??? A afirmação do Jefferson é totalmente crível: o Genoíno funcionava como vice-presidente do partido: o presidente de facto continuava sendo o Zé Dirceu. Lulla e Zé Dirceu ainda precisavam da máquina partidária para reeleger Lulla e consolidar o aparelhamento do Estado para que esse funcionasse, como nos países soviéticos, como um braço do partido.

É isso.

Em Campinas, 3 de agosto de 2005