Dia das Mães

Hoje é Dia das Mães (escrevo já no dia, visto que estou em Taipei, Taiwan).

Aproveito para desejar Feliz Dia das Mães a todas as mulheres que, mães no sentido literal ou não, "de alguma maneira contribuem para que a vida de outros possa ser mais feliz, mais cuidada, mais leve, mais fácil de ser vivida"… (É isso que ser mãe quer dizer. (A frase entre aspas é de Ana Rita Hermes, colega tradutora pública juramentada, enviada em uma mensagem da lista de tradutores públicos juramentados. Foi dela que tomei emprestado essa definição de mãe).

Sempre argumentei que minha vida tem passado (na verdade, vem passando) por uma série de mães (elas vão se acrescentando).

Primeiro, houve a mãe biológica. Ela ainda existe — velhinha, com enormes brancos de memória, mas ainda firme.

Depois a mulher que, principalmente no Brasil, é uma outra mãe (que outra pessoa, se não uma mãe, lhe pergunta se você dormiu direito, comeu coisas certas, fez exercícios (andou), está bem agasalhado, etc.?).

Depois da mulher vieram as filhas. Em especial depois que tive um infarto, cinco anos atrás, minhas filhas me ligam todo dia — bem, quase todo dia — para saber se andei, se tomei os remédios, se não ando comendo porcaria, etc. — esse é o tipo de preocupação tipicamente materna.

Até minha nora, que é fisioterapeuta, quer saber de meus exercícios, critica minha postura, me alerta para que cuide melhor do meu peso, olha carinhosamente feio quando acha que tirei um pedaço muito grande de sobremesa ou bebi vodka em vez de vinho tinto…

Daqui uns anos, se eu viver até lá, provavelmente será a vez das (por enquanto) três netas…

Enfim, neste Dia das Mães, felizmente, mãe é o que não me falta. Esse tipo de cuidado maternal nunca recebi de meu pai e não recebo do meu filho, nem, provavelmente, irei receber dos meus três netos homens, todos eles muito queridos, mas muito pouco maternais. E isso por uma razão simples: eles não são mulheres. (Um quarto netinho, infelizmente, morreu uma semana depois de nascer, em 2003).

ET: Estou em Taipei, em Taiwan. O fuso horário aqui está 11 horas na frente do fuso horário do leste do Brasil. Tomar os remédios da manhã, da hora do almoço, da hora do jantar e de antes de dormir, quando se muda drasticamente de fuso horário, fica complicado. Faço uma tabela em Excel para ter certeza de que os tomo todos, na hora certa. Apesar disso, ao falar, agora há pouco, com minha mulher no Windows Live Messenger, eis com que ela me brinda: "Amor meu, não se esqueceu de tomar o seu remédio nenhum dia?" Só um sentimento muito filial me impede de me irritar… 🙂 Feliz Dia das Mães para você, em especial.

Em Taipei, 13 de maio de 2007 

Natal

Nesta data recebo muitos cartões de Natal. Felizmente, hoje, a maior parte deles virtual – embora alguns cartões físicos ainda pinguem de vez em quando. Confesso que, ainda que isso possa parecer rude, quase nunca os respondo e, no fim, deleto todos – ou jogo fora os que vieram pelo correio convencional ou por portador (exceto os que contêm alguma informação adicional, além da mensagem de Natal, como é o caso dos cartões de meu amigo Greg Butler, que são uma verdadeira newsletter das andanças da família no ano anterior).
 
Não sou muito de apreciar esses festejos de fim de ano. Não me interpretem mal: gosto de festejar – quando, naturalmente, há o que festejar. Quando o São Paulo ganhar o Campeonato Mundial pela quarta fez, espero que agora em 2007, certamente festejarei – mais do que se a Seleção Brasileira tivesse ganho o seu hexa. O que não aprecio são festejos regulares, artificiais, sem razão de ser, determinados por calendários, de data marcada. Como o Natal.
 
O que celebra o Natal?
 
O foco da celebração é a data (suposta) de nascimento de um judeu nascido na Palestina há cerca de dois mil anos. A Palestina, por sinal, já tinha problemas sérios naquela época: era ocupada pelos Romanos, e, pelo que consta, governada por um preposto romano, Herodes, de sobrenome Antipas, chegado em matar criancinhas indefesas (será por isso que o termo "antipático" tem o sentido que tem? Mas antipático é pouco para descrevê-lo: assassino sanguinário é o que ele era). Registra a história cristã que o nascimento do menino foi envolto em uma série de irregularidades. Ele era, pelo jeito, filho de mãe solteira, e nasceu em lugar absolutamente inóspito, em meio a animais. Consta que, apesar disso, ganhou presentes ricos, como ouro, incenso e mirra – e, ainda por cima, dados por reis e trazidos ali ao estábulo pelos próprios. Toda a história é bastante inverossímil, convenhamos. Reis raramente saem, em pessoa, dando presentes ricos para filhos de mães solteiras nascidos em manjedouras. Nem quando os filhos irregulares são deles.
 
Acreditam os que ainda hoje se dizem seus discípulos que o menino judeu era precoce – em algumas áreas, pelo menos (na área sexual, segundo o relato oficial, nem tanto – embora o relato oficioso lhe seja mais lisonjeiro). Aos doze anos, ao ir ao Templo em Jerusalém pela primeira vez, supostamente engajou sábios judeus ("doutores na lei") em uma discussão acalorada sobre alguma filigrana jurídica e os deixou encurralados, basbaques. Xeque-mate. Depois, porém, surpreendentemente, em vez de seguir o rabinato, carreira para a qual parecia ser eminentemente bem-dotado, enveredou-se por uma atividade braçal: foi ser carpinteiro, em sociedade com o padrasto – este sim, um santo. (A meu ver, o padrasto é o maior santo dessa história. Acreditou que a gravidez da noiva fosse miraculosa e a aceitou como virgem, mesmo depois do nascimento do filhote. Cuidou do filho que não era seu, educou-o, dentro de suas possibilidades, ensinou-lhe seu ofício, e, no devido tempo, ofereceu-lhe sociedade no negócio. Poucos pais fazem isso. Ele tem minha total simpatia.). Simpatias à parte, porém, mais uma história implausível, não é? Judeus em geral dedicam o primeiro filho para o rabinato, especialmente se o menino demonstra sinais precoces de brilhantismo intelectual. E, depois, escolhem uma noiva rica e não muito burra para ele. É assim que aprimoram a raça (pelo menos segundo o livro The Bell Curve). Nada disso, porém, aconteceu neste caso.  
 
Quando o jovem chegou às portas da meia-idade, lá por volta dos 30 anos, ainda na casa materna, sem ter chamado atenção sobre si próprio, com exceção do episódio da discussão no Templo, ele foi batizado, por um primo-segundo, um tipo estranho, cujo nascimento também havia sido envolto em algum mistério. Pois vejam. O presumido pai do primo, um sacerdote, pelo que consta estava já velhinho, não dando mais no couro. Mas a mulher dele, bem mais jovem, queria porque queria um filho. Só um milagre resolveria o problema. E, miraculosamente, o milagre aconteceu. Os detalhes não são esclarecidos no Evangelho, mas o milagre envolveu a presença de um anjo na história, o resultado sendo que a mulher do sacerdote acabou grávida do filho que tanto desejava. (Casar-se com mulher muito mais jovem em geral dá na nisso, sinto dizer. Mulher velha, casar-se com homem muito mais moço, também dá: a Suzana Vieira que o diga.). Mas voltemos à nossa história. Trinta e poucos anos depois de seu nascimento, esse filho milagroso, que era uma espécie de hippie do século primeiro, que andava pregando pelo deserto com uma voz estrondosa, vestido com vestes de pelos de camelo, e comendo gafanhotos e mel silvestre, batizou o primo também milagroso – e, pelo que consta, talvez para valorizar o próprio papel, declarou que o batizado era o cordeiro de Deus que iria tirar o pecado do mundo. É muito milagre pro meu gosto. Pelo jeito o pessoal de antigamente não acreditava que gente nascida de uma transa convencional pudesse ser grande coisa. Pra ser bom o cara tinha de nascer, milagrosamente, de virgem ou, então, numa época em que inexistia Viagra, também milagrosamente de homem sexualmente aposentado.
 
O pior é que o próprio batizado acreditou na profecia do primo, convenceu-se de que era o Messias e resolveu se tornar um pregador itinerante. Ele tinha voz mansa, diferentemente do seu primo. Considerava-se o filho primogênito de Deus, e, por isso, chamava Deus de pai e o tratava por "tu". (Nisso ele foi seguido pelos protestantes que até hoje tratam Deus de "tu". Os católicos, achando isso uma falta de respeito, mudaram a linguagem dele e tratam Deus de "vós" – o que, convenhamos, de certo modo, sendo um tratamento plural, reconhece o caráter uniplural da divindade cristã. Fim de parêntese.) Mas o nosso amigo (se ele me permite essa forma intimista de tratamento) andou em companhia que, admitamos, estava longe de ser considerada acima de qualquer crítica. Prostitutas, em mais de um momento, fizeram parte de sua entourage. A lenda preservada fora dos Evangelhos canônicos é insistente em afirmar que até teve um caso prolongado com uma delas (fato que o redime da alegada imprecocidade sexual) – uma vertente diz que ele até se casou com ele. De qualquer forma, ele causou um reboliço danado no Templo, em Jerusalém, dando chicotadas a torto e a direito nos ambulantes que tentavam ganhar a vida vendendo coisinhas aos fiéis. Não conquistou muitos amigos entre os pequenos empresários locais com esse gesto. Além disso, arrebanhou um grupo de discípulos meio arrebatados: um deles, antes um pescador, chegou a tirar a espada para matar um desafeto. O pregador itinerante, apesar da voz mansa, tinha uma mensagem meio subversiva, alegando que os últimos seriam os primeiros, que os pobres herdariam a terra, que seria preciso ter "fome e sede de justiça", etc. Com tanto problema, não é de admirar que tenha oportunamente sido preso, condenado (em rito mais ou menos sumário, como se faz em Cuba ainda hoje) e crucificado – depois de devidamente traído por um de seus discípulos, negado por aquele seu discípulo valentão e abandonado pelos demais. Isso tudo apesar de ele, de vez em quando, para despistar, designar-se "Filho do Homem", e não "Filho de Deus". (Aqui entre nós, o primo que o batizou também teve triste fim: a cabeça cortada e servida em uma bandeja à filha da mulher de Herodes. Se tivessem perguntado a mim, eu teria dito, do alto de minha experiência de sexagenário, que a coisa não iria dar certo. Deu no que deu.)
 
As histórias fantásticas, porém, continuaram. Depois de morto e sepultado, o corpo do crucificado desapareceu, deu sumiço. Acharam seu túmulo vaziozinho. Mas, apesar disso, a moça (se é que o termo é aplicável: trata-se daquela com a qual a história extra-canônica diz que ele teve um caso) disse que o havia visto vivinho da silva, depois de morto… e alguns dos seus discípulos também se convenceram de que o haviam re-encontrado numa estrada. Ainda hoje, seus seguidores acreditam que ele de fato ressuscitou dentre os mortos e, depois de alguns dias assombrando os desavisados, subiu aos céus onde está até o momento presente e de onde um dia há de voltar para julgar vivos e mortos. Faz dois mil anos que seus seguidores consideram essa volta iminente. Alguns dos seus seguidores acreditam até mesmo que sua mãe também subiu aos céus onde está até hoje, ao lado do filho, tendo, na verdade, enorme influência junto a ele. Muitos até mesmo acreditam que, conversando primeiro com ela, e pedindo para ela insistir junto ao filho famoso, vão conseguir graças especiais. (A propósito, os católicos acham que a mãe dele é virgem até hoje. Certamente é um record de virgindade: dois mil anos! E, o que é pior, sem perspectiva, posto que, segundo os católicos, a virgindade dela está condenada a ser perpétua. Eu acharia cruel condenar alguém à virgindade perpétua – mas, novamente, ninguém me consultou.)
 
Aqui entre nós, e para terminar: se alguém escrevesse um romance com tal enredo fantástico (Gabriel Garcia Marquez perde longe), você acreditaria que a história era verídica? Não tenho dúvida de que haveria gente que iria comprar o livro (compram até os livros mais fraquinhos do puxador de saco do Fidel), e de que Hollywood poderia até fazer um filme (como já fez vários), mas será que isso faria com que você acreditasse que a história era verídica?
 
Não estou sozinho nesse meu ceticismo. Um dos seus discípulos, lá no século II, reconheceu que a história era totalmente absurda. Mas disse: "credo quia absurdum" — "creio porque é absurdo"… Se a história não fosse absurda, raciocinou ele, não era preciso crer – bastava aceitá-la, racionalmente, como a gente aceita tantos outros fatos da história. Um grande filósofo escocês do século XVIII (na minha opinião o maior), que, como eu, era meio desconfiado de milagres, ressaltou que essa história é tão cheia de milagres que só com outro alguém consegue acreditar nela… Quase foi pra fogueira por dizer uma coisa dessas…
 
Pois bem: é o nascimento desse menino judeu, que, depois de morto e supostamente ressurreto, veio a se tornar globalizado, que o Natal comemora. Pergunto: exatamente o que há para comemorar nessa história?

Em todo caso, crendo ou não que haja o que comemorar, desejo a todos que tenham um Feliz Natal.

[Em tempo: Desculpas antecipadas aos meus amigos que se ofenderem. Como se dizia antigamente na Internet, "flames –> null"]. 

[NOTA acrescentada em Dezembro de 2007: O glorioso SPFC não ganhou sua quarta estrela mundial em 2007 — embora tenha sido Campeão Brasileiro, humilhando os concorrentes ao ficar mais de 15 pontos na frente do segundo colocado. Ganhou o Campeonato Mundial o Milan — na realidade, o Kaká, que é são-paulino… Festejei.]
 
Em Salto, 23 de Dezembro de 2006

Anti-Americanismo

Já discuti este assunto aqui neste space, comentando um livro de Jean-François Revel. Trago-o de novo à baila a propósito de um outro livro.

Comprei, numa megalivraria de origem japonesa em Kuala Lumpur, no sábado, 9/12/2006, dia em que, à noite, saí de lá, um livro interessante, e que mereceria ser traduzido para o português: “Understanding Anti-Americanism: Its Origins and Impact, At Home and Abroad”, editado por Paul Hollander, que também faz uma grande introdução, e publicado por Ivan R. Dee, Chicago, 2004. (A propósito, nunca ouvi falar nessa editora. Uma das razões por que comprei o livro na hora, sem hesitar, foi a editora desconhecida. Editoras desconhecidas têm maior dificuldade para colocar seus livros nas livrarias e de conseguir que eles sejam traduzidos. Assim, é preciso aproveitar a chance: quando encontro um livro que parece interessante, compro-o na hora).

O editor, Paul Hollander, já havia escrito um livro sobre o assunto – mas antes de 11 de Setembro (Nine Eleven) – com o título: “Anti-Americanism: Critiques At Home and Abroad” (New York, 1992), que foi atualizado três anos depois e, curiosamente, saiu publicado, na edição revisada, com um título bastante diferente: “Anti-Americanism: Irrational and Rational” (New Brunswick, NJ, 1995).

Paul Hollander, que é um imigrante húngaro que fugiu do país quando os soviéticos invadiram a Hungria em 1956, indo, primeiro, para a Inglaterra, e, em 1959, para os Estados Unidos, onde fez pós-graduação e acabou se naturalizando americano, foi, durante muitos anos, professor de sociologia da Universidade de Masachussetts em Amherst, MA, estando agora aposentado, como Professor Emérito de Sociologia. 

Hollander faz questão de distinguir “anti-americanismo” de “crítica dos Estados Unidos”. Ele admite, sem problemas, que os Estados Unidos, como país, têm muito que pode e deve ser criticado, e que não há nada de excepcional no fato de que, tanto dentro como fora do país, essas críticas se expressem, até mesmo com certa veemência. O anti-americanismo de que trata o livro, porém, é algo diferente. Ele está muito mais próximo de um ódio generalizado dos Estados Unidos do que de uma crítica objetiva de aspectos isolados da política e da sociedade americana. Esse ódio tem raízes complexas, que o livro se propõe analisar. Algumas dessas raízes podem, no caso de um país ou uma região, envolver elementos geopolíticos, ideológicos, religiosos e até mesmo psicológicos – para mencionar apenas alguns. Os anti-americanos, no mais das vezes, querem a destruição dos Estados Unidos, não reconhecendo no país (na sociedade, na cultura, na economia) nada que o “redima”. Os anti-americanos se regozijaram, em 11 de Setembro, quando as Torres Gêmeas de Nova York foram destruídas, com a morte de mais de três mil pessoas inocentes – civis, não militares. Na verdade, a maioria deles se recusa a reconhecer que as pessoas que morreram eram inocentes: um americano é culpado, e, portanto, objeto legítimo de uma ação terrorista, simplesmente por ser americano. Os anti-americanos, alguns deles dentro dos Estados Unidos e cidadãos do país, se apressaram em afirmar, na seqüência a 11 de Setembro, que os Estados Unidos foram os principais responsáveis pelos ataques terroristas daquele dia, por causa de sua política externa, por causa da ação de seus militares, por causa do controle da economia mundial por parte de suas empresas, por parte da invasão das telas e livrarias do mundo pelos programas, filmes, revistas e livros americanos. Alguns anti-americanos não hesitaram em chamar de “contra-terrorismo” a ação dos terroristas em 11 de Setembro, chamando de “terroristas” as ações do governo e das empresas americanas no mundo. Não faltou quem dissesse, entre os anti-americanos, que Bush era uma ameaça maior para a paz do mundo do que Osama bin Laden ou Saddam Hussein, ou quem o tivesse comparado a Hitler e Stalin, ou, então, acusado os Estados Unidos de estarem no mesmo nível da Alemanha Nazista – ou até em nível pior, porque a Alemanha Nazista pelo menos tinha quem lhe pudesse resistir (a Inglaterra, os próprios Estados Unidos, a Rússia), enquanto os Estados Unidos, hoje, depois do colapso da União Soviética, são um poder político, militar, econômico e cultural sem concorrentes e, por isso, sem possibilidade de contestação e resistência.

O livro editado por Hollander é escrito a várias mãos, e cobre, na primeira parte, depois daintrodução do editor e de um capítulo sobre as raízes filosóficas do anti-americanismo, as raízes regionais do fenômeno, discutindo o anti-americanismo de extração francesa, britânica, alemã, russa (pós-comunista), árabe-islâmica, e latino-americana (com capítulos especiais sobre Cuba e a Nicarágua). Na segunda parte o livro tem como foco o “anti-americanismo doméstico”, surgido (não necessariamente sem influência estrangeira) nos próprios Estados Unidos. Aqui capítulos são dedicados aos problemas do racismo, do feminismo, do multiculturalismo, da chamada “educação para a diversidade e a tolerância”, do movimento pacifista, da esquerda política, e do conteúdo não só crítico, mas profundamente satírico, da cultura e da vida americana que se vê nos filmes e nos programas de televisão que os Estados Unidos distribuem para o mundo inteiro, e que são, na opinião do autor do capítulo, visões extremamente unilaterais e distorcidas da sociedade americana (em que aparecem, como regra, casais interraciais, casais de homossexuais, casais rotineiramente adúlteros ou insatisfeitos com seus casamentos ou relacionamentos, mães e pais solteiros ou divorciados, em que as pessoas ridicularizam os valores da classe média e da religião, etc.). A visão da sociedade e da vida americana que o cinema e a televisão dos Estados Unidos apresentam ao mundo não corresponde à realidade da sociedade e da vida americana.

Entre os múltiplos fatores que explicam o anti-americanismo há alguns que não podem ser esquecidos ou negligenciados, ainda que seu peso maior se dê em casos específicos de anti-americanismo.

Um primeiro desses fatores é ideológico. A esquerda, no mundo inteiro, ficou órfã com a queda fragorosa do comunismo na União Soviética e no Leste Europeu. Os Estados Unidos sempre foram o grande inimigo da União Soviética e do comunismo no mundo, combatendo-o uma e outro dentro e fora de suas fronteiras, sem hesitar em usar meios militares, como aconteceu nas guerras da Coréia e do Vietnam. Era de esperar, portanto, que com a vitória dos Estados Unidos na Guerra Fria, o ódio que a esquerda tinha ao país aumentasse – afinal de contas, os Estados Unidos, através de uma estratégia bem elaborada daquele que a esquerda insiste em chamar de o primeiro cowboy presidente (o segundo seria o Bush), derrotaram a pátria do socialismo comunista, na verdade, sem precisar fazer grande esforço naquele momento específico. É verdade que se pode dizer que a União Soviética se auto-destruiu, caiu de podridão interna – e isso seria, em parte, verdadeiro. Mas não resta dúvida, por mais que a esquerda tente negar, que Ronald Reagan elevou a aposta na Guerra Fria a tal ponto que a União Soviética não tinha como pagar para ver: precisou retirar seu time de campo. E, ao perceber a fraqueza da pátria do socialismo comunista, os demais países comunistas, com exceção de Cuba e da Coréia do Norte, rejeitaram o comunismo e abraçaram princípios liberais na economia e, em parte, na política (a China sendo a exceção: liberalizou-se na economia, mas nem tanto na política).

A vitória dos Estados Unidos provocou enorme frustração e sentimento de fracasso nas esquerdas – sensações que facilmemente se transformaram, no mundo inteiro, em ressentimento para com o vencedor da Guerra Fria. A estratégia de luta da esquerda, derrotada por completo, se alterou, embora pouco e de forma não muito sutil. Agora o foco principal não é mais criticar os Estados Unidos por serem um país liberal-capitalista (hoje, quem não é?), mas, sim, criticar a globalização econômica e cultura liderada pelos Estados Unidos, a posição do governo americano em relação ao ambiente (especialmente sua recusa do Protocolo de Kioto), as ações militares em que os Estados Unidos se envolveram no combate ao terrorismo, seu unilateralismo, que implica rejeição dos multilateralismos patrocinados pela ONU e pela União Européia, etc.

Uma nova pauta de reclamações – mas, no fundo, essa pauta é alimentada pela frustração e pelo ressentimento dos órfãos do comunismo pela vitória retumbante dos Estados Unidos na Guerra Fria, e por ter o país vindo a ocupar, virtualmente sem contestação significativa, posição de liderança na vida política, militar, econômica e cultural do mundo atual.

Um segundo desses fatores é – por falta de melhor termo – a inveja. Já escrevi um longo artigo sobre a inveja, no início da década de noventa, e aqui volto ao tema. Só que, anteriormente, discuti a inveja como um fator importante na busca do igualitarismo e da chamada justiça social – bem como da crítica dos que são bem sucedidos, que raramente recebem o crédito devido para esse sucesso, que, o mais das vezes, é atribuído a exploração, corrupção, quando não a roubo descarado. Aqui a questão da inveja se aplica a nações e regiões, não a indivíduos – embora o princípio seja o mesmo, porque a inveja é sempre expressa por indivíduos (nações e regiões, evidentemente, não falam, a não ser através da boca dos indivíduos que as compõem). Esse fator – a inveja – parece ser um componente importante do anti-americanismo latino-americano atual.

A América Latina é um bloco de países que abrange a maior parte da América do Sul (só se excetuando as Guianas), a América Central como um todo, boa parte do Caribe, e o México, na América do Norte. Territorial e populacionalmente esse bloco é extremamente significativo: representa bem mais território e muito mais gente do que a União Européia – com a vantagem cultural de falar basicamente duas línguas, o espanhol e o português, línguas essas que são indicativas da hegemonia que a Espanha e Portugal exerceram sobre a região. Apesar de ter um bloco tão significativo, territorial e populacionalmente, e de ter tido sua colonização por países europeus iniciada antes da colonização do restante da América do Norte, a América Latina, como um bloco regional, continua a ser um país sub-desenvolvido do Terceiro Mundo, tanto econômica quanto politicamente, enquanto os Estados Unidos são hoje uma potência hegemônica militarmente e a maior potência do mundo em termos políticos, econômicos, e culturais.

Dificilmente os latinoamericanos vão achar a causa desse desempenho inferior em si mesmos. A tendência é colocar a culpa pelos seus males nos Estados Unidos, que viraram bode expiatório para tudo que de mau e ruim acontece na região (e no mundo). Se há um golpe militar na América Latina que interrompe um governo que os latinoamericanos identificam como de esquerda, ou como nacionalista, ou como anti-americano, a culpa é sempre do governo americano e da CIA. Vejam-se as ladainhas sobre o papel da CIA no golpe militar brasileiro e na queda do governo Allende no Chile. Numa atitude que, ironicamente, parece admitir que os latinoamericanos são totalmente incapazes de, por si só, realizar até mesmo golpes de estado que encerram governos não desejados pelas lideranças ou até mesmo pela maioria da população, os latinoamericanos, especialmente os de esquerda, que já possuem propensão ideológica para o anti-americanismo, acusam o governo americano de intervenção, em geral através da CIA. A atribuição da causa de seus males, de seus problemas, e de seus fracassos ao “grande irmão do Norte” (agora visto mais como “Big Brother” do que como realmente “hermano”) leva boa parte dos latino-americanos – as esquerdas, os intelectuais, os artistas, a mídia – a promover, ativamente, um anti-americanismo de invejosos e despeitados.

Por fim, um terceiro desses fatores é a religião. Os Estados Unidos talvez sejam o último país, no Ocidente que um dia foi cristão, em que a religião cristã ainda tem um papel importante na vida social e na vida pública (razão pela qual os europeus, em regra, ridicularizam o país, chamando-o de culturalmente primitivo, fundamentalista, etc.). Fora do Ocidente e do mundo islâmico, Israel é o único outro país em que a religião desempenha um papel importante na vida social e na vida pública. Também é verdade, porém, que, sem contradição, tanto os Estados Unidos como Israel também são países seculares e não teocracias, e, do ponto de vista científico, tecnológico e econômico, extremamente bem sucedidos. Assim sendo, ambos representam uma grande ameaça para o mundo árabe-islâmico, ameaça decorrente do fato de que os Estados Unidos são, aparentemente, o último reduto do Cristianismo e Israel do Judaísmo – as duas grandes religiões que concorrem com o Islamismo. Isso explica porque o ódio dos árabes-islâmicos aos Estados Unidos vai de mãos dadas com seu ódio a Israel.

Além disso, mesmo sem entrar nos problemas geopolíticos que colocam árabes-islâmicos, de um lado, e americanos e israelenses de outro, o caráter moderno e secular dos dois países aparece como a maior ameaça para a visão predominantemente religiosa e teocrática do mundo dos países islâmicos, em especial no mundo árabe. (Não se dá o mesmo na Malásia, por exemplo, país do qual estou retornando para o Brasil, que é islâmico mas é moderno e, até certo ponto, secular – a lei islâmica cobre aspectos da conduta, mas há uma lei secular que regula os demais – e profundamente comprometido com a adoção do modelo de produção, da arquitetura, da tecnologia e de um sem número de outros aspectos da cultura ocidental, vale dizer, predominantemente americana). Assim, o anti-americanismo árabe-islâmico tem componentes geopolíticos, sem dúvida, mas também religiosos e culturais.

Enfim, vale a pena ler o livro. Gostaria de ter tempo de traduzi-lo eu mesmo para o português. Mas aos 63 anos [escrito em 2006] a gente tem de definir cuidadosamente as prioridades: há outros que podem fazer isso, quem sabe até melhor. Talvez este artiguinho os motive.

Em cima do Oceano Atlântico, viajando de Londres para São Paulo, 10 de dezembro de 2006 [em três horas mais devemos estar chegando a Guarulhos]. 

Multiculturalismo, interculturalidade e relativismo

Estou lendo um livro interessante, de Roberto Carneiro, ex-ministro da Educação de Portugal e integrante da comissão que elaborou o famoso Relatório Jacques Delors para a UNESCO, que foi publicado como “Educação: Um Tesouro a Descobrir”. Em inglês o título, curiosamente, é “Learning: A Treasure Within”. Valeria a pena fazer um artigo discutindo as sutis diferenças entre essas duas versões do título do relatório. Quem saiba eu o escreva um dia.

Apesar de conter muita coisa com que concordo sem reservas, o livro “unescamente”, contém certas teses que tenho dificuldade de aceitar.

Explico-me.

Não tenho nada contra quem combate, como o faz Roberto Carneiro, de um lado,  o fanatismo, o dogmatismo, o sectarismo, e, de outro lado, a xenofobia, o racismo, o etnismo, o nacionalismo, a intolerância (vide p.75). Muito pelo contrário. Esses dois combates são faces diferentes de uma mesma moeda. Quem é fanático, dogmático, sectário acerca de suas próprias crenças em geral é intolerante de quem é diferente de si, ou porque pertença a outra raça, etnia ou nação, ou porque tenha outra cultura (língua, religião, costumes, etc.) ou porque simplesmente pense de forma diferente sobre questões que o fanático, dogmático, sectário considera importantes.

Não só nada tenho contra quem assume esses dois combates como eu próprio tenho, ao longo de minha vida, me juntado a esse combate, em especial na esfera política e religiosa.

Isso é uma coisa.

Outra coisa é combater esse combate, como o faz Roberto Carneiro, em nome do multiculturalismo e da interculturalidade.

É inegável que existem inúmeras culturas no mundo – de macroculturas (como as chamadas “cultura ocidental”, “cultura européia”, “cultura islâmica”, “cultura asiática”, ou, voltando no tempo, “cultura clássica”, “cultura medieval”) e microculturas (como a cultura de uma pequena tribo indígena ou até mesmo o que se chamou de “a cultura pariense da margem esquerda do Sena” na época de Jean-Paul Sartre e Simone de Beauvoir). E não resta a menor dúvida de que essas diferem umas das outras em múltiplos aspectos, alguns essenciais e importantes, outros secundários.  Não há como fugir desse fato – e fato é o que isso é. Ao descrever isso não se faço nenhuma valoração, nem positiva, nem negativa.

Por outro lado, é possível atribuir uma valoração – negativa ou positiva – a esse fato. Muitos fanáticos, dogmáticos e sectários valorizam, positivamente, de tal forma a sua própria raça, etnia, nação, cultura (macro ou micro) que se sentem obrigados a valorizar, negativamente, outras raças, etnias, nações e culturas. Essa valorização negativa, quando alcança um grau extremo, leva os fanáticos, dogmáticos, sectários a ter pavor de tudo o que é diferente deles (xenofobia) e a se propor a destruir o que é diferente deles.

Roberto Carneiro é um admirador da diversidade e um defensor da diferença. Refere-se ao fenômeno que acabei de descrever de forma lírica, quase idílica. Segundo ele, a educação precisa promover uma “consciência intercultural” que, entre outras coisas, deve “realizar a vontade indómita de ‘descobrir’ o outro” e “cultivar o fascínio perante o diferente” (p.71). “Com efeito”, diz ele, “a erecção de uma cultura de direitos humanos é indivisível do respeito por toda a trama da variedade humana” (p. 66).  Ele assim defende uma “Educação para a Tolerância e a Interdependência”, que propugna “o desenvolvimento pessoal de um sentimento de estima pela humanidade, de apreço pela sua aventura coletiva e de valoração [positiva] de suas diversas culturas como expressão inestimável dos dramas de vida de cada povo” (p. 70). Ele se define como um combatente na luta contra “o monismo cultural” e contra qualquer idéia de “supremacia cultural”. Essa luta, diz ele, “apresenta-se como uma prioridade educacional incortonável”, o que o leva a propor “uma genuína e duradora Educação Intercultural para Todos” (p. 70).

Dispenso-me de fazer outras citações.

Roberto Carneiro, no entanto, não quer se deixar caracaterizar como um “relativista” (vide pp. 65, 73). Afirma ele: “Mas se o fanatismo cego é condenável, do mesmo modo e a título igualmente vigoroso, é de denunciar o reino do relativismo” (p. 65). Por quê? Porque “o progresso humano [sic] demanda âncoras axiológicas de referência sem as quais ele não tem possibilidade de se direccionar nem de adquirir sentido” (p. 65). Por isso, “o pluralismo não [pode ser] sinónimo de relativismo” (p. 73).

É louvável a tentativa de defender o multiculturalismo e, ao mesmo tempo, tentar combater o relativismo. Mas é aqui que Roberto Carneiro começa a se complicar.

Como Roberto Carneiro, sou contra o relativismo. E sou contra, basicamente, pelas mesmas razões. Concordo com ele que exista o que ele chama de “progresso humano”. Também concordo com ele que, para que não podemos acreditar na existência do “progresso humano” a menos que também acreditemos na existência de “âncoras axiológicas de referência”, pois sem elas a noção de progresso humano não faz sentido (progresso em relação a que critérios?). E concordo com ele, por fim, que a crença na existência do “progresso humano” e das tais “âncoras axiológicas de referência” é incompatível com a crença no relativismo.

Minha discordância básica das teses de Roberto Carneiro está no fato de que, no meu entender, a crença na existência do “progresso humano” e das tais “âncoras axiológicas de referência” é incompatível também com a defesa do multiculturalismo e da interculturalidade.

Aqui é preciso fazer dois “caveats”: o primeiro, para discutir a questão da diversidade, da diferença; o segundo para discutir com mais precisão o conceito de relativismo.

Não tenho a menor dúvida de que em inúmeros aspectos a diversidade e a diferença são extremamente positivas. Não tenho dúvida de que, contemplando a totalidade do ponto de vista estético, o mundo é muito mais rico (e, por conseguinte, mais belo) porque existem diversas espécies vegetais e animais, e porque, no tocante a seres humanos, existem mulheres e homens, e existem mulheres e homens de diferentes cores, tamanhos, aparências, etc. Contemplando uma área da cultura, como a música, não tenho dúvida de que o mundo é muito mais rico (e, por conseguinte, mais belo) porque existem diferentes tipos de música: a clássica, a popular “chique” (estilo Jobim, no caso brasileiro), a popular do “povão” (ainda, no caso brasileiro, caipira, sertaneja, brega, forró, etc.), a das diferentes regiões do mundo (o fado português e o yoodle tirolês, por exemplo, que tive o privilégio de observar de perto recentemente), e assim por diante.

Não há razão para combater essa diversidade e diferença – muito pelo contrário: há todas as razões possíveis e imagináveis para promovê-la. E digo isso sem cair no relativismo de dizer que todos esses tipos de beleza física ou musical se equiparam, e que não há um que seja mais belo do que o outro.

Mas mudemos de registro.

Diferentes culturas têm diferentes valores e costumes. Alguns países islâmicos praticam, nas meninas, quando se tornam púberes, a clitoridectomia e a infibulação. A clitoridectomia é a remoção do clitóris e de boa parte dos lábios vaginais. A infibulação é a costura da abertura vaginal (deixando apenas uma pequena passagem para a urina e sangue mentrual). A razão dessa prática está em evitar, pela costura da abertura vaginal, que a menina tenha relações sexuais até que seja adquirida (sic), comprovadamente virgem, pelo seu marido. A razão da clitoridectomia está em evitar que a menina-moça possa associar o sexo com o prazer, e, assim, venha a desejar ter relações sexuais. Na verdade, o procedimento, feito em condições que estão longe de se comparar com as oferecidas pelos hospitais Alberto Einstein e o Sírio Libanês, em geral associa, na mente da menina-moça, o sexo com dor e sofrimento. Quando ela casa e o seu marido a disvirgina (em geral sem qualquer carinho ou preocupação com o bem-estar ou sofrimento dela), seu órgão sexual é, via de regra, dilacerado – o que acentua a associação do sexo com dor e sofrimento e a desincentiva de procurar sexo fora do casamento.

O que diria Roberto Carneiro sobre essa manifestação da diversidade e da diferença? Diria ele que a “educação intercultural” deve “cultivar o fascínio” perante essa diferença cultural? Diria ele que a “educação intercultural” deve promover “apreço” por essa “expressão inestimável dos dramas de vida” daquelas meninas? Diria ele que “a educação para a tolerância” deve ser tolerante para com essas práticas?

Houve época – e ainda há partes do mundo em que essas épocas se mantêm – em que seres humanos rotineiramente praticavam estupro, tortura, até canibalismo. Aqueles que, como Roberto Carneiro e eu, acreditam que tem havido “progresso humano”, e que essas práticas foram abandonadas porque elas conflitam com “âncoras axiológicas de referência” que vieram a ser amplamente aceitas.

Mas se realmente houve progresso – e eu não tenho dúvida de que houve – Roberto Carneiro deve responder a algumas perguntas. O que ele sobre essa manifestação da diversidade e da diferença? Diria ele que a “educação intercultural” deve “cultivar o fascínio” perante culturas desse tipo? Diria ele que a “educação intercultural” deve promover “apreço” por essa “expressão inestimável dos dramas de vida” vividos pelas vítimas dessas práticas? Diria ele que “a educação para a tolerância” deve ser tolerante para com essas práticas?

Essas mesmas “âncoras axiológicas de referência” hoje condenam terroristas que, em nome do fanatismo, do dogmatismo e do sectarismo que Roberto Carneiro pretende combater, se fazem de bombas humanas para matar civis inocentes que são de outra raça, ou de outra etnia, ou de outra nação, ou de outra religião, ou de outra língua, ou de outra…

Se queremos que a humanidade continue a progredir, devemos perguntar a Roberto Carneira o que devemos fazer em relação, não só a essas práticas, mas às culturas que as incentivam, apóiam, aplaudem e defendem. O que dirá ele? Dirá ele que a “educação intercultural” deve “cultivar o fascínio” perante práticas culturas desse tipo e as culturas que as incentivam, apóiam, aplaudem e defendem? Dirá ele que a “educação intercultural” deve promover “apreço” por essa “expressão inestimável dos dramas de vida” vividos pelas vítimas dessas práticas? Dirá ele que “a educação para a tolerância” deve ser tolerante para com essas práticas?

Se realmente temos “âncoras axiológicas de referência” e achamos que elas são importantes e essenciais para o “progresso humano”, não podemos defender o multiculturalismo, a interculturalidade, “cultivar o fascínio” e promover “apreço” por culturas diferentes, independentemente de seu respeito às nossas “âncoras axiológicas de referência”. Se realmente temos “âncoras axiológicas de referência” não podemos ter receio de avaliar culturas, de dizer que umas são superiores a outras, do ponto de vista moral, de hierarquizá-las em relação ao respeito que demonstram pelas nossas “âncoras axiológicas de referência”. Isso quer dizer que o multiculturalismo e a interculturalidade são posturas teóricas não só erradas, mas nocivas e perniciosas, porque nos deixam incapazes de criticar e condenar as práticas culturas mencionadas e as culturas e pessoas que as promovem, apóiam, aplaudem e defendem.

Apesar de as críticas que Roberto Carneiro faz à educação tradicional, sua proposta positiva de uma “educação intercultural”, uma “educação para a tolerância e a interdependência”, é fundamentalmente errada.

Roberto Carneiro afirma (e já citei): “Com efeito”, diz ele, “a erecção de uma cultura de direitos humanos é indivsível do respeito por toda a trama da variedade humana” (p. 66).  Errado. “A erecção de uma cultura de direitos humanos é indivisível do respeito por” nossas “âncoras axiológicas de referência”.

No ar, voando em cima do Afganistão (o mesmo do Talibã, que apedrejava mulheres adúlteras e cortava a mão de quem roubava uma fruta), a caminho da Malásia (a mesma que, contraditoriamente, é condenada pelos multiculturalistas por permitir o trabalho infantil), 28 de novembro de 2006 (ainda 27, no Brasil)

Em tempo: Cerca de doze horas atrás voava por cima de Genebra, a caminho de Munique. O avião da Lufthansa dava acesso à Internet. Lá de cima escrevi a meu amigo Joaquim Brasil Fontes Júnior dizendo que estava voando por cima de Genebra, olhando Lac Léman (Lake Geneva) – ele me respondeu em menos de cinco minutos, dizendo: “Sobrevoas a civilização”. Não tenho dúvida de que o que ele disse doze horas é verdade. A frase “sobrevoas a civilização”, se dita agora, não seria verdade. Na verdade, as duas proposições, embora consistam exatamente das mesmas palavras, são distintas. Uma afirma que a Suiça é um exemplo de civilização; a outra afirma que o Afganistão é um exemplo de civilização. A primeira proposição é verdadeira; a segunda, infelizmente, não.

O trem no Brasil

Fazia tempo que vinha procurando sites sobre a história do trem no Brasil. O trem foi muito importante na minha vida. Com um mês e doze dias fiz minha primeira viagem de trem. Nasci em 7/9/1943. Meu pai escreveu um pequeno relato de meus primeiros dois anos. Eis o que ele diz sobre essa primeira viagem de trem, nos dias 19-20/10/1943:

"No dia 19 de outubro tomamos a jardineira até Tupã. O dia estava quente, mas o Oscarzinho dormiu quase o tempo todo. Só chorava quando a jardineira parava. Às 2 hs. da tarde chegamos a Tupã e às 3,45 tomamos o trem. A viagem não foi muito boa, pois o trem estava muito cheio! Metade da viagem foi feita no carro de 2ª classe, pois não pudemos arranjar lugar na 1ª classe, devido ao grande número de pessoas. Passamos a noite com o Nenê nos braços. Ele não deu trabalho, pois dormiu mais ou menos bem. Às 6 hs. da manhã chegamos a Campinas."

Esta foi a primeira de muitas viagens de trem do local de residência dos meus pais até Campinas, onde moravam minha avó materna e minha tia, irmã de minha mãe (que faleceu faz um mês, aos 85 anos — minha mãe faz 82 agora segunda-feira). Meus pais se mudaram de Lucélia para Irati, no Sul do Paraná, depois para Marialva, no Norte do Paraná, depois ainda para Maringá, também no Norte do Paraná, e, finalmente, para Santo André, em São Paulo, onde minha mãe e meus irmãos ainda residem (meu pai faleceu em 1991). Viajávamos sempre de trem.

As viagens que ficam mais gravadas em minha memória eram entre São Paulo (Estação Sorocabana) e Ourinhos, no famoso (e confiável) Expresso Ouro Verde. Saía da Sorocabana em São Paulo por volta das 22h (22h10, creio) e chegava a Ourinhos de manhã. O trem era lindo — verde, naturalmente. Íamos numa cabine leito, meus pais, meu irmão (mais novo 3 anos e 3 meses) e eu. Eu dormia no beliche de cima, como meu pai, meu irmão no beliche de baixo, com minha mãe. Isso se dava antes de eu completar sete anos. Minha mãe levava sanduíches de presunto e queijo e um sacolinha com queijo e goiabada. Viagem de trem para mim ficou para sempre associada com sanduíches de presunto e queijo e com Romeus-e-Julietas…

Quando mudamos para Santo André, o trajeto mudou. Pegávamos o trem subúrbio até São Paulo e lá pegávamos o trem da Estrada de Ferro Santos-Jundiaí para o interior. Em Jundiaí a locomotiva (vermelho meio escuro) era removida e uma locomotiva da Companhia Paulista de Estrada de Ferro assumia — linda, linda, azul… — e o trem passava a ser da Paulista. Em Jundiaí o trem parava uns 15 minutos e a plataforma da estação ficava cheia de vendedores ambulantes vendendo, entre outras coisas, "pipóóóóóóóóóóóca". Vendiam uva e figo também: Jundiaí é terra de uva e figo.

Campinas era um importante entrocamento ferroviário. Além dos trilhos da Companhia Paulista passarem pela cidade, começava ali também a linha da Companhia Mogiana, e havia um ramal, o da Companhia Ituana, que ligava Campinas diretamente à Estrada de Ferro Sorocabana, em Itu. Salto, onde estou agora, ainda tem sua estação — devidamente abandonada. Elias Fausto, aqui juntinho, também. Estive lá na semana passada e vi fotos da estação.

De Santo André também íamos a Santos de trem. A Jundiaí do trajeto para Santos era Paranapiacaba, pequena cidade, que nunca vi sem neblina, na beirada da serra, onde o trem começava a ser literalmente puxado para subir a serra. Emocionante.

Alguém cometeu um crime contra o Brasil, deixando todo o nosso enorme sistema ferroviário ser sucateado. Precisavam ser identificados e punidos os criminosos, post mortem, se necessário.

Por indicação do jornalista José Carlos Daltozo, de Martinópolis, SP, que tem escrito sobre Lucélia (vide artigo recente  "Lucélia – Terra Natal", neste space), encontrei o site http://www.estacoesferroviarias.com.br. Lá você pode encontrar fotos da estação ferroviária de sua cidade, se ela teve uma. E lá encontrei referência ao site http://www.trem.org.br, que, por sua vez, tem vários links relacionados. Uma mina de informação. Ao escrever essas referências me lembrei de que o meu caro amigo, Tonhão (Antonio Morales), de Bauru, um dia fez referências a sites sobre ferrovias. O pai dele foi ferroviário.

Vamos ajudar a preservar a memória do trem…

Em Salto, 2 de agosto de 2006

PROCON ou PAICON?

Enquanto ia do meu sítio para o "downtown, Greater Salto", ouvia a CNN, que, em programa local, de Campinas, entrevistava alguém do PROCON de Vinhedo.

Tradicionalmente o PROCON tenta proteger o consumidor. Se você é lesado ao comprar alguma coisa ou algum serviço, ou se alguma loja anuncia alguma oferta e na hora se recusa a honrá-la, você recorre ao PROCON.

Mas agora fiquei sabendo que o PROCON está ocupado em "proteger" (termo do entrevistado) as pessoas que estão endividadas. Segundo a ele, as pessoas contraem dívidas, que depois não podem pagar, porque em algum momento consumiram algo que se propuseram a pagar a prazo. Chega um ponto em que alguns têm mais dívidas do que conseguem pagar com sua renda mensal. E, segundo o entrevistado, não têm a quem recorrer. Não tinham: agora têm, o "paizão" PROCON. O órgão deveria mudar seu nome para PAICON.

Quando recorrerem ao PROCON nesse caso, estarão recorrendo contra quem??? Só pode ser contra si mesmos, porque ninguém os obrigou a contrair mais dívidas do que conseguem pagar.

Segundo o entrevistado, o PROCON agora se propõe proteger esses até aqui desprotegidos, e ajudá-los. A razão? Quem está endividado, fica com a auto-estima baixa, e nenhum ser humano deve sentir humilhado por estar devendo demais, acima de sua capacidade de pagar.

Fico imaginando o que o PROCON fará, numa situação dessas… Ajudará o indivíduo a renegociar suas dívidas e assinará com avalista? E se o indivíduo não pagar a dívida negociada, como fica a auto-estima dele? O PROCON daí paga a dívida no lugar dele para ele não ser humilhado?

O entrevistado do PROCON se mostra ciente de alguns dos riscos da nova empreitada do órgão. Entre os super-endividados pode haver gente de "má fé", que consumiu com a intenção de não pagar… O entrevistado diz saber que isso acontece. Por causa disso, o PROCON estará realizando, nos próximos meses, uma grande pesquisa para identificar "o consumidir de ‘boa fé’ que está sobre-endividado". É esse que o PROCON quer proteger.

Mais uma vez o governo está intervindo para proteger as pessoas dos resultados de suas próprias ações. Me faz lembrar de um dito que ouvi há tempo: "A humanidade começou a ir pro brejo quando, pela ação do governo, a burrice deixou de ser fatal".

Em Salto, 28 de julho de 2006

Bondes e trens em Campinas (e Genebra)

Se a gente conseguisse determinar quem são os responsáveis pela desativação / destruição do sistema de tranporte sobre trilhos no Brasil (bondes, trams, trens de passageiros, etc.), cem anos no inferno seria pouco.

Não cresci em Campinas — mas sempre passei minhas férias, quando criança, em Campinas, pois aqui moravam meus avós maternos (e minha tia — que, velhinha, está ainda viva). Havia um sistema que, inicialmente, tinha doze linhas de bonde, que passo a descrever, para preservação da memória:

Linha 01 – Vila Industrial (saindo pela Rua General Osório [onde hoje fica a Igreja Presbiteriana Central] e Av. Andrade Neves)

Linha 02 – Vila Industrial (saindo na direção oposta, pela Rua Barão de Jaguara e Av. Moraes Salles)

[As duas linhas se cruzava na Av Salles de Oliveira, na Vila Industrial]

Linha 03 – Guanabara

Linha 04 – Taquaral

Linha 05 – Estação (Ferroviária)

Linha 06 – Cambuí (saindo pela Rua General Osório)

Linha 07 – Cambuí (saindo pela Rua Dr. Quirino e Av. Orozimbo Maia)

[As duas linhas cruzavam na Av. Julio de Mesquita]

Linha 08 – Bonfim

Linha 09 – Botafogo

Linha 10 – Castelo

Linha 11 – Cemitério da Saudade

Linha 12 – Bosque

Posteriormente acrescentou-se a

Linha 13 – Alecrins (que ia pra a Chácara da Barra, o Jardim Flamboyant, o Fura-Zóio).

Além dessas doze linhas havia uma linha especial, às vezes chamada de Linha 14, o chamado “bondão verde” (os outros eram amarelos e vermelhos), que ia para Souzas e Joaquim Egídio, até o Morro das Cabras, onde fico o Observatório de Capricórnio. É bom que se diga que Souzas e Joaquim Egídio, quando eu era criança, eram lugares perto do fim do mundo. Hoje eu saio de casa para ir cortar cabelo com o Zezito em Souzas. E Joaquim Egídio virou um lugar badalado, cheio de restaurantes interessantes.

O passeio no Bosque dos Jequitibás era o melhor passeio que uma criança podia fazer naquela época. O Bosque parecia longe. Hoje está dentro do centrão da cidade, como estão o estádio de futebol da Ponte Preta (o Estádio Moysés Lucarelli, que os “guaranienses”, aqui chamados de “bugrinos”, porque o símbolo do Guarani é um indiozinho, insistem em chamar carinhosamente de “pastinho”), que a gente via ao passar no trem da Paulista, chegando de São Paulo a Campinas, se estivesse nos bancos à direita, e o estádio de futebol do Guarani (o famoso “Brinco de Ouro da Princesa” — assim chamado porque Campinas tem o apelido carinhoso de “A Princesa do Oeste”: o campo do Guarani é o brinco de ouro da Princesa…).

Por falar em trens, a viagem de trem entre São Paulo e Campinas era uma delícia. Os trens da Paulista, sempre limpos e bonitos, com suas locomotivas azuis (isto de Jundiaí para o Interior — de Jundiaí para São Paulo as locomotivas eram vermelhas, porque os trilhos pertenciam à Estrada de Ferro Santos Jundiaí). Por algum tempo, houve a litorina, um trem rápido de três vagões que ia de Campinas até Santo André, onde moravam meus pais.

Para ir de Campinas para o Interior, havia várias opções. A Paulista, que ia na direção de Bauru e chegava até Dracena. A Araraquarense, a Noroeste, a Sorocabana, a Mogiana…Tudo isso sumiu no afã estatizante que matou a iniciativa privada do setor. O Estado estatizou para acabar. Uma vergonha.

Bons tempos aqueles em Campinas. A Lagoa do Taquaral ainda não era cercada, e muito menos o centro de lazer que é hoje — por obra e mérito de Orestes Quércia, quando foi Prefeito da cidade, que até colocou na lagoa uma réplica de uma das caravelas do descobrimento (não sei qual delas), hoje em lastimável estado de desconservação, obra de algumas administrações petistas. Antes da obra de revitalização do local realizada pelo Quércia a região não era bem vista, até porque as chamadas moças de vida fácil haviam escolhido o Taquaral como sua zona — zona essa que algum bom prefeito, talvez o Quércia também, mudou para um local bem afastado da cidade, no Jardim Itatinga, já quase chegando em Viracopos. Apesar disso, quando voltei a Campinas, em 1961, para estudar no Seminário Presbiteriano, no Alto da Guanabara, na Av. Brasil, eu não tinha medo nenhum de andar por aquelas bandas (Taquaral, a lagoa ou o bairro), sozinho ou com um namorada que era preciso entregar em casa, lá pela meia-noite. Ia e voltava a pé, porque os bondes paravam de circular por volta das 23 horas…

A gente (eu e meus colegas seminaristas) estudava para ser pastor. A ideologia que dominava o seminário naquela época era esquerdista — até 1966, quando houve o expurgo que até a mim levou de roldão. Por isso, nunca arrumava namorada rica, que morasse ali por perto do Seminário, naqueles casarões que, na época, pareciam maravilhosos — hoje, olhando para eles, vejo que não passavam de casas de classe média, em terrenos com frente de não mais de 10 m, com fundos de no máximo 30 m. A gente buscava umas namoradinhas mais simples e pobres, cujos usos e costumes fossem mais próximos da classe da qual a gente originava (em geral, D e E). Seminário protestante dificilmente era lugar de estudo de gente que tinha dinheiro — esses iam pra USP, ou para a França.

Quando fui para a Europa pela primeira vez, nos idos de 1987, fiquei surpreso de ver trens rodando para toda parte e bondes circulando por todos os bairros da cidade. A primeira cidade em que fiquei tempo razoável na Europa foi Genebra, na Suiça — lá chamada Suisse, com dois s’s — terra de Calvino, de Rousseau e para onde fugiu Voltaire). Eu comprava a Carte Orange e andava de ônibus, bonde (tram) ou trem subúrbio livremente durante um mês. A Carte Orange custava 27 francos suícos. Hoje, que sou “Senior Citizen”, provavelmente pagaria menos, mesmo que o preço tenha subido. De lá era possível sair para qualquer lugar na Europa.

Saudade de meu amigo Aharon Sapsezian, de Genebra, que, há dias, sofreu um infarto e uma parada cardíaca. Não consigo falar com a Zabel, a mulher dele — e, na verdade, tenho até medo de falar.

Wilson Azevedo me enviou o URL de um belo artigo sobre os bondes de Campinas e outro URL com o mapa das linhas de bonde: http://www.tramz.com/br/cp/cp.html e http://www.tramz.com/br/cp/cpm.jpg]

Em Salto, 24 de Junho de 2006 

Reflexões não tão fúnebres: relações pessoais e a Internet

Ontei à tarde coordenei uma mesa redonda no Congresso do EducaRede, patrocinado pela Fundação Telefónica. Como sou membro do Conselho Consultivo do EducaRede (com Bernardete Gatti e Mônica Alonso), minha tarefa era garantir que os participantes na mesa dessem o melhor de si e que os participantes na audiência fizessem perguntas interessantes. Acho que saiu tudo perfeito.
 
Gostei da apresentação da Profa. María Irma Marabotto, de Buenos Aires. Mas gostei mesmo foi da apresentação do Prof. Roberto Lerner, da Pontifícia Universidade Católica do Peru, em Lima.
 
O Prof. Lerner falou sobre relações interpessoais no espaço virtual — concentrando-se no amor e no sexo. Foi uma palestra deliciosa e muito instrutiva. Depois de 25 anos envolvido com computadores e a Internet — meu primeiro e-mail foi em 1987, quase 20 anos atrás — achei que dificilmente iria ouvir algo em uma palestra que pudesse ser novidade para mim. Pois bem: estava errado. A palestra do Prof. Lerner foi "mui novidadosa".
 
No que segue, vou resumir algumas idéias dele — e algumas idéias minhas que as idéias dele provocaram… Como diz o meu amigo Rubem Alves, o que vem a seguir é Roberto Lerner digerido por Eduardo Chaves: é o Roberto Lerner que ficou no meu sistema vital…
 
Lerner começou, provocadoramente, citando dois livros: O Amor Interligado por Fios (Wired Love — meu amigo Wilson Azevedo criativamente traduziu esse título por "Amor Fiado"…) e Os Perigos do Amor Interligado por Fios (The Dangers of Wired Love). Para surpresa de todos, esses livros foram escritos no século XIX, quando construíram-se paixões "online", usando o telégrafo como tecnologia e o código Morse como linguagem… Surpreendente. (Ainda o Wilson Azevedo me recomendou o seguinte livro, que trata das implicações sociais da invenção do telégrafo: The Victorian Internet, de Tom Standage [New York: Walker Publishing Company, 1998]).
 
Falou também do amor epistolar, esse bem mais conhecido…  Cartas (incluindo as mensagens de e-mail) são a única maneira de combinar solidões… Lindo, não? Recorremos a cartas (e e-mails) quando nos sentimos sós… E as cartas, combinando solidões, nos faz sentir menos sós.
 
Há muitos tipos de solidão. Às vezes não estamos fisicamente sós — há gente conosco, ou ao nosso redor. Às vezes não estamos nem mesmo sexualmente sós — temos um(a) parceiro(a) sexual. Mas com tudo isso podemos nos sentir emocionalmente sós… Ou intelectualmente sós… Ou metafisicamente abandonados…
 
Antes da Internet éramos relativamente limitados no número de relacionamentos realmente significativos que podíamos ter fora dos relacionamentos estáveis dos quais o casamento é o exemplo mais difundido. Isso era ruim, porque é virtualmente impossível que um só ser humano supra todas as nossas necessidades físicas, sexuais, emocionais, intelectuais, espirituais — e que nós possamos suprir todas essas necessidades emocionais para um outro ser humano. Nos relacionamentos tradicionais, as pessoas, se não queriam viver vidas relativamente incompletas e, por isso, razoavelmente insatisfeitas, acabavam arrumando outros relacionamentos significativos fora do casamento que, por causa da necessidade de contato físico para a viabilização do relacionamento, freqüentmente envolviam sexo — e assim, descambavam para a traição. É notório que muita gente famosa teve mais de um desses relacionamentos significativos à margem de seu relacionamento oficial, chancelado pela burocracia governamental ou pelos preconceitos sociais.
 
Com a Internet tornou-se, em tese, possível ter vários — na verdade, inúmeros — relacionamentos significativos no plano virtual sem que a questão sexual seja necessariamente colocada — embora esses relacionamentos claramente envolvam, de forma muito significativa, as emoções, a sensibilidade, e, quiçá, verdadeiramente o amor (que, a meu ver, é uma mistura de emoção, intelecto, e, para ser completo, sexo) — para não mencionar o intelecto, a espiritualidade. De vez em quando, um desses relacionamentos "platônicos" pode evoluir (ou talvez involuir) e vir a envolver o sexo. Neste caso, o relacionamento claramente se torna traição, pelos padrões vigentes. Mas nos outros casos, em que temos afeição, carinho, admiração intelectual, respeito mútuo, sem que haja sexo, temos uma área cinzenta com a qual ainda não sabemos lidar direito…
 
Nossos parceiros de relacionamento estável (nossos "cônjuges") certamente se sentirão traídos se souberem que outras pessoas representam um relacionamento significativo para nós do ponto de vista afetivo, ainda que não haja sexo envolvido. Isso talvez se dê porque a gente se imagina (erroneamente) capaz de suprir todas as necessidades do parceiro. Por conseguinte, espera e exige do parceiro fidelidade não só no agir mas também no sentir e no pensar. Eventualmente pode ser que esse sentimento de traição seja substituído por algo mais racional. Não sei. Pode ser que o sentimento de posse e propriedade, o ciúme, a inveja do outro que pode oferecer ao parceiro algo que eu não posso — pode ser que todos esses esses sentimentos nos impeçam de ver as coisas mais racional e objetivamente. 
 
Eu, pessoalmente, acho perfeitamente possível amar (num sentido real do termo) mais de uma pessoa ao mesmo tempo — embora provavelmente de formas diferentes. A literatura e o cinema estão recheados de exemplos disso, como eu mesmo já mencionei em mensagens anteriores. Como disse, não tenho dúvida de que, no atual esquema de valores, os cônjuges que descubram que seus parceiros estão envolvidos emocional e intelectualmente com outras pessoas, vão se sentir profundamente traídos — mesmo que não tenha havido sexo, ou mesmo que os envolvidos nem se conheçam face-a-face. (Acho belíssima a contribuição do filme "Cousins" [Creio que o título em Português é "Um Toque de Infidelidade", mas não estou certo], com Isabella Rossellini e Ted Danson. Ali fica claro que, para alguns casais, o envolvimento afetivo do parceiro com outro, ainda que sem sexo, é mais ameaçador do que o sexo sem envolvimento afetivo — o sexo que não significa nada, como alegam os culpados…)
 
Roberto Lerner comparou a Internet com a televisão e explicou porque há "viúvos" e "viúvas" da Internet e não havia "viúvos" e "viúvas" da televisão… Ou porque ninguém nunca acusou o parceiro de traição por ver tv demais — e tenha havido inúmeros casos de divórcio em que a Internet é o pivot do problema. É verdade que, quando se acusa um parceiro de traição virtual, não é porque o parceiro anda navegando por sites pornográficos, que são sites anônimos, impessoais mesmo… A acusação aparece quando, do outro lado da "linha", há uma outra pessoa… É a comunicação (o relacionamento) com uma outra pessoa real, de carne e osso, através da Internet, que consubstancia a acusação de traição — não a virtualidade em si… Na realidade, pouco ou nada há de virtual no sentimento, em si, que é muito real — apesar de ter surgido não na ou pela presença física do outro, mas, sim, em sua presença virtual.
 
A televisão é uma diversão eminentemente pública: muitas pessoas podem assistir a uma mesma tv ao mesmo tempo. Antigamente, quando poucas pessoas tinham televisão, todos vinham assistir à televisão na sala do vizinho que a tinha… Depois, quando todas as casas tinham tv, mas um aparelho só, toda a família ficava na sala reunida vendo tv… Hoje, com o nível de afluência que muitos já alcançam, a tv vai ser tornando pessoal: cada um tem a sua, no seu quarto…
 
Além disso, a tv pode facilmente tornar-se "ruído de fundo" que nos permite, por exemplo, fazer outra coisa (por exemplo, namorar…) enquanto a tv continua ligada. Muitos até mesmo usam a tv como sonífero (porque a tv dificilmente pode ser vista como afrodisíaco…). Quando nossa cabeça está cheia de coisas que nos preocupam, o ruído da tv nos impede de ficar pensando nos problemas e acabamos dormindo, vencendo a insônia que se prenunciava…
 
A Internet, porém, é exclusivista e excludente: só nós podemos usar um determinado equipamento — e, quando estamos ocupados com esse equipamento, excluímos outros tipos de relacionamento pessoal… A Internet, mesmo quando ela envolve duas pessoas se comunicando, por e-mails seriados ou por Messenger, é um meio solitário — embora ela, por conter a possibilidade de um relacionamento pessoal epistolar, permita combinar solidões… O MSN Messenger inventou o "nudge": uma "sacudida" virtual que reclama nossa completa e exclusiva atenção… (Nunca deixe seu cônjuge ficar sabendo que você, ao conversar com ele(a), está também conversando, em regime de multitarefa, com uma outra pessoa… Isso ofende ao extremo.)
 
Enfim. A apresentação do Roberto Lerner foi estimulante. Ele recomendou dois livros: Patricia Wallace, The Psichology of the Internet (livro velho!!! de 1999… Cambridge: Cambridge University Press) e Aaron ben Ze’ev (Filósofo e Reitor da Universidade de Haifa, em Israel), Love Online: Emotions on the Internet (Cambridge: Cambridge University Press, 2004). Já encomendei os dois na Amazon.
 
Roberto Lerner tem excelente senso de humor. Citou Mae West, a quem se atribui o dito de que sexo é como bridge: só se sai bem quem tem um bom parceiro ou uma excelente mão… No sexo virtual pela Internet, o parceiro pode estar lá — mas a mão terá de estar aqui mesmo…
 
Em Salto, 1 de junho de 2006

United flight 881 – May 2, 2006

Se Alvin Toffler estava certo ao afirmar que riqueza é tudo aquilo que satisfaz uma necessidade ou um querer do ser humano, sou uma pessoa muito rica, no momento — apesar de pequenos dramas pessoais e de frustrações profissionais.

Escrevo esta crônica a bordo de um Boeing 747, que se dirige para o Polo Norte, numa viagem de Chicago a Tóquio (voo United 881, do dia 2 de maio de 2006). O vôo saiu de Chicago ao meio-dia, hora local, e deve chegar em Tóquio às 15 horas do dia seguinte — também hora local. A duração do vôo é de treze horas. (Se algúem duvida, estude os fusos horários). De Tóquio saio às 17h30 com destino a Taipei, Taiwan, onde chego às 20h15 de amanhã — para dar uma palestra às 10h30 de depois de amanhã, abrindo um congresso sobre Jogos na Educação, do qual a Microsoft é co-patrocinadora.

Enquanto lia e ouvia música no meu iPod Nano na sala de espera do Portão C-18, no Terminal 1 do aeroporto O’Hare de Chicago, ouvi um ruído estranho no background. Era um senhor engravatado que, ao lado de alguém vestido como piloto, dizia alguma coisa amplificada pelo sistema de som. Tirei os meus fones de ouvido e prestei atenção. O engravatado dizia que aquele vôo (o vôo em que eu iria embarcar) seria o último vôo daquele comandante — que, completando 60 anos dois dias depois, era obrigado a se aposentar, pelas regras americanas para esse tipo de trabalhador. O engravatado fez um breve discurso, dizendo que o comandante estava com a United há 32 anos — desde 1974. (Imediatamente me lembrei de que 1974 foi o ano em que comecei a trabalhar na UNICAMP, depois de ter passado sete anos nos Estados Unidos, estudando e trabalhando, sem voltar uma vez sequer para o Brasil nesse período). E que agora, em decorrência da legislação americana, era obrigado a se aposentar. (Eu também me aposento este ano da UNICAMP, depois de 32 anos de trabalho, embora não pela compulsória). E aquele era seu último vôo. “The Final Flight”. Todos aplaudimos o discurso e, naturalmente, o fiel comandante — que recebeu seu broche de ouro (um “pin“) de aposentado como prêmio por tantos anos de dedicação. (Que eu saiba, a UNICAMP — i.e., seu corpo diretivo — nem está tomando conhecimento de que eu vou me aposentar ao final do segundo semestre. Nem, muito menos, está planejando me dar um pin para comemorar a ocasião. E tem gente, pobre de espírito, que acha que empresas privadas, que visam ao lucro, são entidades opressoras, desumanizadoras, e que a solução está em entidades estatais como a UNICAMP…)

O vôo estava surpreendentemente vazio. Minha poltrona era a de número 12A, na parte de cima da classe executiva de um Boeing 747, sem ninguém no assento B, ao lado, e com pouca gente nos outros assentos (dos 30 lugares, só 13 estavam ocupados). Com duas comissárias de bordo e um estagiário, fui muito bem atendido — e o clima estava tão descontraído que tive a oportunidade de conversar um pouco com a tripulação. A comissária de bordo chefe, me chamando pelo nome (Mr. Chaves), veio perguntar o que eu queria comer. Havia escolha entre filé mignon, frango e massa. Preferi o filé mignon. Perguntei a ela por que o vôo estava tão vazio. Voos para Tóquio em geral são lotados. Ela não sabia. Falou que em mais de 20 anos voando entre Chicago e Tóquio, nunca esteve em um vôo tão vazio. Sorte minha. Sorte dela também, creio — tem menos trabalho. Quanto a mim, ganhei mais espaço, mais sossego, e uma interlocutora…

Quando a Comissária veio me trazer bebidas (pedi Vodka Absolut, “on the rocks“, acompanhada de castanhas de caju torradas e bem salgadas), solicitei-lhe que me escrevesse numa folha de papel o nome do comandante — o piloto que estava fazendo sua viagem final. Disse a ela que pretendia escrever uma crônica sobre o episódio e queria o nome dele. Disse-lhe que achei bonito a United reconhecer — e fazê-lo publicamente — seus fiéis empregados, que chegaram ao final de sua carreira na empresa. 

Vi que os olhos azuis dela brilharam quando lhe pedi o nome do piloto… “Claro”, disse ela, assentando-se meio de lado no assento vazio. “Terei enorme prazer. Sabe que ele e eu ficamos noivos há seis meses e que vamos nos casar em Dezembro?” Fui pego de surpresa. Dei-lhe os parabéns. Ousei perguntar-lhe como o conheceu. Disse-me que foi num desses mesmos vôos entre Chicago e Tóquio. Não especulei mais. Tive enorme vontade de perguntar se os dois eram solteiros, quando se conheceram, ou se eram casados e… Mas até a indiscrição, e mesmo a curiosidade, tem seus limites. Não sou repórter de coluna social.

Para resumir: escreveu o nome do comandante, o e-mail dele (no Yahoo! — sorry, Microsoft), e, naturalmente, o nome e o e-mail dela (mulher é um bicho difícil de entender). Ele é o comandante Wayne Walczak. Ela, a Comissária de Bordo Nani Lovell. Os e-mails são informação privilegiada, que não revelo, nem em juizo…

Depois veio o primeiro prato. Salada de folhas verdes da estação, com molho de queijo parmesão, seguido de um “boursin” recheado com núcleo de alcachofras, acompanhado de salmão defumado e camarões gigantes. O prato principal, filé mignon, com pimentas vermelhas “chipotie“, e molho “demiglacé” de mostarda. Tudo “comme il faut” (já que o menu usa vários termos estrangeiros, entro na corrente…). O vinho, para acompanhar, Château Haut-Brisey 2001 Médoc. Havia outras escolhas, mas preferi esse.

[Lamento informar que entre o primeiro prato e prato principal tive de ir ao banheiro fazer xixi… A natureza parece não conhecer as normas de bom-tom e não respeitar o clima romântico desta crônica. Eu, cronista fiel à realidade, não posso deixar de registrar o fato].

De sobremesa, “Eli’s Caramel Apple Cobbler“, acompanhado de Sandeman Founders’ Reserve Porto. “Apple Cobbler” é nome sofisticado para a nossa torta de maçã – que no sul do Brasil se chama “Apfel Strudel“. O vinho do Porto é coisa que só aos deuses deveria ser permitido. No entanto, cá estou eu, sorvendo-o…

Enfim… O que mais se pode desejar? Querem mais riqueza do que isso? Estou viajando lendo um livro interessantíssimo (Revolutionary Wealth, de Alvin Toffler), com comida de primeira, e tendo o privilégio de conviver com histórias pessoais tão interessantes… E, para culminar, tendo acesso ao meu computador Dell (Latitude X1) que me permite registrar tudo isso enquanto as coisas acontecem, sem precisar esperar até chegar ao meu destino, a querida Taipei.

Desejo ao comandante Wayne Walczak e à Comissária-Chefe de Bordo Nani Lovell uma vida feliz e longa. Eles certamente a merecem. Trabalharam na United num período difícil, em que a empresa passou de líder do mercado a concordatária — só se recuperando recentemente (quando saiu da concordata). Devem ganhar menos hoje do que ganhavam há 10 anos, em termos relativos.

Apesar de tudo, só lamento que a UNICAMP não seja a United — embora ambas as instituições tenham um nome que comece com “Uni” — e não reconheça aqueles que deram boa parte de sua vida a ela. Quando me aposentar da UNICAMP, terei de abrir mão do e-mail chaves@unicamp.br, e, se quiser colaborar com a Universidade, sem ganhar um tostão a mais, terei de me sujeitar a todo um ridículo processo de avaliação, extremamente burocrático, que ignora o fato de que já trabalhei ali por 32 anos e meio. Se servi durante 32 anos e meio, por que não iria servir agora, principalmente levando-se em conta que iria trabalhar de graça??? Não vou querer colaborar. Quanto ao e-mail, registrei o domínio unicamp.net nos Estados Unidos. Se quisesse, poderia usar o e-mail chaves@unicamp.net enquanto vivesse. Não faço questão. Prefiro continuar usando o meu eduardo@chaves.com.br. Só registrei o domínio unicamp.net para encher o saco (se bem que não saiba bem de quem). [Nota de 25.9.2022, em revisão: há algum tempo a UNICAMP alterou suas normas e eu recuperei o uso do meu e-mail chaves@unicamp.br. Uso-o normalmente agora, sempre que me convém, em especial para mostrar vínculo como uma instituição acadêmica. Por outro lado, aposentei o e-mail eduardo@chaves.com.br, porque ele recebe uma quantidade enorme de spam e de puro lixo. Uso agora os e-mails eduardo@chaves.pro, eduardo@chaves.im, e eduardo@chaves.one, dependendo da natureza da pessoa ou da instituição com que estou me comunicando. Fim da Nota.]

Se a gente estiver atento, há histórias, mesmo comédias, dramas e até algumas tragédias, ocorrendo ao nosso lado o tempo todo. Eu posso nem saber agora — mas este Boeing 747 pode cair antes de aterrissar em Tóquio daqui umas dez horas. Ele já tem idade para se aposentar. E, em decorrência, haverá várias tragédias pessois acontecendo. Haverá quem chore por mim — acredito que sim, mas até nessa questão crucial reconheço que posso estar errado.

Mais ou menos em cima do Polo Norte, em 2 de maio de 2006. [Revisado em Salto, SP, no dia 25 de Setembro de 2022.]

(PS: Meu neto Felipe completa hoje um dia inteiro de vida fora do Éden uterino). [Nota de 25.9.2002: por eu ter me separado da avó dele, a neticidade do Felipe, que é filho de meu (ex-)enteado Rodrigo, me foi confiscada. Ossos da vida. A gente come os filés mas de vez em quando depara com alguns ossos — sem nenhum tutano. Fim da Nota.]

As demonstrações dos imigrantes ilegais nos EUA

Os Estados Unidos não celebram o Dia do Trabalho com o resto do mundo. Aqui, Labor Day é a primeira segunda-feira de Setembro. Ontem (1/5/2006).
 
Ontem, porém, houve passeatas em quase todas as cidades grandes do país. Eu estava aqui em Chicago e testemunhei. Muita gente. Cerca de 400 mil pessoas. Imigrantes ilegais e, digamos, simpatizantes. Gente que está pressionando para que os Estados Unidos liberalizem sua política imigratória — e, acima de tudo, legalize a situação dos atuais imigrantes ilegais, estimados em cerca de 12 milhões!
 
Em Março também houve passeatas. Mas o tiro, então, saiu pela culatra. Naquela ocasião os demonstrantes eram predominantemente mexicanos, carregavam bandeiras do México, e falavam em espanhol. "Sí, se puede" era o seu refrão. A população "mainstream" reagiu. A questão controvertida, afirmaram os defensores de uma legislação mais forte ainda e de uma vigilância maior na fronteira com o México, não é de imigrantes ilegais: é, predominantemente, de imigrantes mexicanos ilegais, ou, então, de imigrantes ilegais de outros países latinoamericanos que entram nos EUA através da fronteira com o México. E os mexicanos, apontavam os defensores de medidas mais duras contra a imigração ilegal via fronteira com o México, não estão interessados em se integrar na sociedade americana. Continuam a ser leais ao México — como provam as bandeiras que carregavam e o fato de que, em um jogo de futebol recente dos EUA com o México, em Los Angeles, a torcida era 90% para o México. Essa gente, continuavam, não quer aprender Inglês: continuam a falar o Espanhol em casa, e muitos nunca aprendem o Inglês.
 
As forças a favor da legalização dos imigrantes ilegais tiveram de pensar rápido e mudar sua estratégia e seu marketing. E trabalharam bem.
 
Nas passeatas de ontem, a bandeira predominante era a americana. De longe. Havia bandeiras de virtualmente todos países latinoamericanos (Brasil inclusive), mas também havia da China, da Coréia, do Vietnam, etc. Isso significa que os mexicanos conseguiram globalizar a demonstração, convidando imigrantes (ilegais e legais) de inúmeros países, até mesmo fora da América Latina. E o Inglês era a língua predominante. Quando se começava ouvir "Sí, se puede", ele era logo abafado por um "Yes, we can" mais forte. Tentou-se não dar a impressão de que o movimento era coisa de chicano.
 
E cantaram o Hino Nacional americano — em Inglês, direitinho, sabendo a letra de cor. Esqueceram a controvérsia de que o hino deveria poder ser cantado também em Espanhol — porque isso de novo latinizaria a demonstração. Saudaram a bandeira americana com respeito — até exagerado: houve gente que se ajoelhou, com um joelho no chão, como se estivesse diante de um altar. E os depoimentos, todos eles em Inglês, ressaltaram que estavam orgulhosos de viver neste país, a verdadeira terra da liberdade e da oportunidade, que se orgulhavam do fato de que seus filhos falavam Inglês sem sotaque… Só não queriam viver sob ameaça constante de deportação para o país de origem — com a conseqüentente separação dos filhos nascidos aqui, que, segundo eles, ficariam aqui na hipótese de deportação.
 
Boa parte das empresas ontem funcionou "a meio pau", porque os imigrantes ilegais (e mesmo alguns legais) nao apareceram para trabalhar. Algumas empresas até resolveram dar apoio moral e declararam feriado por conta.
 
E os demonstrantes foram criativos nas faixas… Uma dizia: "What if the Indians had closed the borders?" — "O que teria acontecido se os Índios tivessem fechado as fronteiras?"
 
A coisa se complica.
 
Os defensores de medidas mais radicais contra a imigração ilegal ficaram quietos ontem — esperavam que os demonstrantes dessem algum passo em falso que pudesse gerar novo backlash. Mas, pelo jeito, não deram. Corrigiram os erros das demonstrações de Março e deram uma demonstração de força e união — e, o que é mais importante, de lealdade ao país que adotaram e em que escolheram viver (ainda que por meios ilegais).
 
Eu acho que os EUA, como nação e sociedade, deveriam se orgulhar do que aconteceu ontem: milhões de pessoas lutando nas ruas para conquistar o direito de morar aqui legalmente. Enquanto países como o nosso vêem milhares de pessoas se matando para sair daqui, no vizinho do norte o problema é o oposto — prova da pujança da sociedade americana, que é capaz de dar oportunidades aos que para cá vêm e que alenta os sonhos de tantos outros que gostariam de estar aqui mas não têm a coragem de tentar.
 
Em Chicago, 2 de maio de 2006