O Leitor / The Reader: Uma Resenha

[NOTA: Este post é um estraga-prazeres para aqueles que gostam de assistir filmes sem saber o que vai acontecer. Se você é um desses, não leia.]

Assisti na tarde de ontem (24/02/2009) ao filme O Leitor / The Reader – filme dirigido por Stephen Daldry e baseado em livro, com o mesmo título, de Bernhard Schlink. O filme concorreu ao Oscar (referente a 2008, ano em que foi lançado) nas categorias Melhor Filme, Melhor Diretor, Melhor Roteiro Adaptado, e “Cinematografia”, sem ganhar, e, na categoria Melhor Atriz em Papel Principal, merecidamente trouxe para Kate Winslet, o seu primeiro Oscar. Kate Winslet ganhou ainda inúmeros outros prêmios por este filme (vide http://www.imdb.com/title/tt0976051/awards/). 

Minha primeira sensação, ao sair do cinema, foi de que esperava mais do filme do que ele trouxe… Mas, depois, com conversa, leitura de resenhas e fóruns (no site http://imdb.com), e, naturalmente, com minha própria reflexão, minha opinião sobre o filme foi melhorando… Pode ser que melhore ainda mais.

Apesar de ser descrito como um filme sobre o Holocausto, O Leitor se desenrola por inteiro na Alemanha do pós-guerra. A primeira data referência, em que a história começa a se desenvolver, é 1995. O local, Berlin. Michael Berg, um advogado que aparenta ter uns 45 anos (muito bem conservados – vamos ver depois que nasceu em 1943), representado por Ralph Fiennes, com um olhar distante, triste, melancólico mesmo, reflete sobre sua vida. (Poucos atores conseguem ser tão convincentemente melancólicos como Ralph Fiennes: vide Fim de Caso, O Paciente Inglês, Jardineiro Fiel…). O objeto de sua reflexão é seu relacionamento com Hanna Schmitz, uma mulher que, à época, tinha mais do dobro da idade dele (representada magnificamente por Kate Winslet, no papel que lhe valeu o primeiro Oscar em seis indicações)… Mas já se revela que Michael foi casado (não com Hanna) e que tem uma filha jovem.

O cenário se altera. O tempo volta para 1958, mas o local ainda é Berlin. Michael Berg tem 15 anos (e é agora representado por David Kross, num magnífico desempenho) – o que significa que nasceu durante a guerra, em 1943 (o mesmo ano em que eu nasci…). Hanna Schmitz nasceu em 1922 – o que significa que, em 1958, tinha 36 anos – mais do dobro da idade de Michael. Ele começa a passar mal numa rua, entra no pré-vestíbulo de um prédio, vomita – e é socorrido por Hanna, que age de forma aparentemente grosseira, lavando a calçada, ordenando que ele levante os pés para que ela possa jogar água… Ele volta para casa e é diagnosticado com escarlatina. Fica isolado por três meses, mas, quando liberado, compra flores e vai agradecer Hanna. Na sequência, ele a visita mais vezes. Numa dessas, ela lhe pede que traga, do porão, dois baldes de carvão. Ele volta imundo. Ela lhe ordena que tire a roupa (que ela lava) e tome um banho. Depois do banho, ela, já nua, o abraça – e, na sequência, transa com ele. A frase é correta: foi ela que tomou a iniciativa. Não se pode nem dizer que ela o tenha seduzido. Ela virtualmente o atacou (embora com delicadeza e com a sensibilidade de uma mulher experiente que sabe estar lidando com um iniciante). O caso não fica só nessa transa. Eles têm um affair intenso e bonito – embora ela nada revele a ele sobre si própria, além do nome.

O relacionamento entre os dois não é apenas físico. Ela pergunta a ele sobre a escola, e ele lhe fala sobre os textos que tem de ler: A Odisséia, As Aventuras de Huckleberry Finn, A Mulher e o Cachorrinho, peças de Tchekov… Ela lhe pede que leia para ela – e ele o faz. Ela elogia a leitura dele – que não imaginava que fosse bom naquilo… O fato de estar tendo um caso com uma mulher mais velha e bonita, e o elogio que ela lhe faz, fazem com que Michael ganhe a auto-confiança necessária para melhorar sensivelmente até o seu desempenho nos jogos de basquetebol… Tudo influência dela…

Na sequência, Mchael descobre que Hanna é cobradora de bonde… A história mostra que ela está para ser promovida. Mas, um dia, ela desaparece misteriosamente, deixando Michael perto do desespero.

Nova mudança no cenário… Oito anos se passam. O ano agora é 1966, a cidade, ainda Berlin. Michael, agora com 23 anos, é estudante de Direito e, como tal, vai com seus colegas e um de seus professores (Professor Rohl, interpretado por Bruno Ganz), assistir a um julgamento de seis mulheres que trabalharam no Serviço Secreto nazista durante a Segunda Guerra, como guardas de campos de concentração – e são acusadas da morte de centenas de mulheres judias. Uma acusação é a de que regularmente cada guarda tinha de selecionar dez mulheres para morrer. Mas a principal acusação é que essas guardas deixaram, uma vez, 300 prisioneiras morrer em uma capela que pegava fogo, sem abrir a porta para que escapassem…

Entre as guardas, para a surpresa de Michael, estava Hanna – agora com 44 anos. Cinco das acusadas estão unidas, negando a acusação, e afirmando que a responsável é Hanna. Interrogada, Hanna responde com simplicidade e uma sinceridade quase irrespondível… Ela não nega que indicava, regularmente, dez prisioneiras para morrer…

Por que fazia isso? Ora, o campo de concentração tinha lotação limitada e constantemente novas prisioneiras chegavam… A solução encontrada era enviar um certo número das prisioneiras mais antigas para a morte para que houvesse lugar para as novas… “O que o senhor faria, em meu lugar?”, pergunta Hanna ao juiz… Nos testemunhos ficou evidente que Hanna protegia algumas prisioneiras, as mais fracas e doentes, em troca de um favor: que elas lessem para ela… Quanto à capela, Hanna, arguida pelo juiz sobre por que não abriu a porta da capela quando o incêndio começou, redarguiu com lógica impecável: “Como eu poderia solta-las, se o meu emprego era mantê-las presas???” Apenas uma mulher se salvou (não se explica como) – e a filha dessa mulher (de nome, no filme, Ilana Mather) subsequentemente escreveu um livro sobre o episódio. Mãe e filha depõem no julgamento. (A mãe, no julgamento, e a filha, depois, são representadas pela grande Lena Olin, infelizmente em dois papéis pequenos).

Ao final, as demais acusadas afirmam que um relatório altamente incriminador havia sido redigido por Hanna apenas. O juiz quer confrontar a letra do relatório com a letra de Hanna Spitz, e ordena que ela escreva algo em um bloco de papel… Tensão na acusada, que finalmente se recusa a escrever e admite ter sido ela a autora do relatório.

Nesse ponto, Michael, na audiência, tem certeza de que ela é analfabeta! Um dia havia pedido que ela lesse um dos livros, e ela se recusou, dizendo que preferia ouvir a leitura dele… Ele se lembra de que, um dia, quando fez uma excursão de bicicleta pelo campo com ela, e pararam para comer algo, ela olhou o menu e o colocou de lado, dizendo a ele que iria comer a mesma coisa que ele escolhesse… Pelo testemunho ouvido no julgamento, Hanna, no seu serviço como guarda, protegia prisioneiras que liam para ela…

Conclusão: agora, para não sofrer o vexame de se ver revelada analfabeta, Hanna prefere mentir e admitir que foi ela a autora do relatório…

Dilema para Michael, que tem informação que pode, em princípio, inocentar Hanna. Ele conversa com seu professor – que não o ajuda muito. Tenta racionalizar, para si próprio, a decisão de ficar quieto, alegando que ela mesma havia optado por não revelar a verdade – por que iria ele, agora, agir diferentemente? Ela havia tomado uma decisão para não passar pelo vexame de se revelar analfabeta – que direito tinha ele de fazê-la passar por esse vexame, ainda que fosse para salvá-la de uma sentença mais dura?

O final é previsível. As outras cinco acusadas são condenadas, mas recebem penas leves. Hanna é condenada à prisão perpétua.

O tempo entre o cenário de 1958 e o cenário de 1966 não é preenchido no filme. Mas o tempo entre o cenário de 1966 e o de 1995 é preenchido como pequenos “flashes”. Michael, depois de casado e separado, redescobre o caderninho em que ele anotava os livros que tinha de ler na escola, e resolve começar a gravar em cassete os livros que um dia havia lido para ela, enviando as fitas para ela na prisão: dezenas e dezenas de fitas. Ela, na prisão, começa a retirar da biblioteca os livros que ele gravou, e, pouco a pouco, vai aprendendo a ler, comparando o que está escrito no livro com aquilo que ela ouve na fita… Manda pequenos bilhetes para ele, pedindo que grave este ou aquele livro…

Um dia, por volta de 1986, a responsável pelo presídio entra em contato com Michael, para dizer-lhe que Hanna vai ser libertada por ter cumprido vinte anos da pena – e que ele é o único contato que ela tem fora do presídio. Outro dilema, embora agora menor. Ele arruma um emprego e um apartamento, ambos simples, para ela, e comunica a ela o fato em um único contato face-a-face – em que ela tenta segurar a mão dele e ele, visivelmente embaraçado, a remove, depois de poucos segundos.

No dia em que ela deveria ser libertada, ele vai buscá-la – mas ela havia se suicidado no dia anterior. Aparentemente usou uma pilha de livros em cima da mesa para conseguir se enforcar. Não havia arrumado suas coisas para sair da cela, fato que indicava que não pretendia sair de lá viva…

Numa carta testamento, Hanna deixa para Ilana Mather, a filha da sobrevivente do incêndio na capela, uma latinha de chá com o dinheiro vivo que possuía, mais uma soma de cerca de sete mil marcos que tinha no banco, com instruções para que Michael entregasse o dinheiro à destinatária. Ele, durante uma viagem a New York, tenta entregar o dinheiro, mas Ilana se recusa a recebê-lo, ficando apenas com a latinha, que parecia uma que ela tinha tido durante o tempo em que ficara no campo de concentração, mas perdera. Ele pede sugestões sobre organizações filantrópicas judias às quais ele pudesse doar o dinheiro. Ela diz que organizações judias não precisariam desse dinheiro. Por fim ele sugere que o dinheiro seja doado a instituições voltadas para a alfabetização de adultos, e ela não vê por que não, mas deixa que ele decida e escolha…

O filme termina com Michael, já de volta em 1995, levando sua filha, da qual havia se afastado, depois do divórcio, para conhecer o túmulo de Hanna – local em que ele começa a lhe revelar a sua história.

o O o

Como disse, eu, depois de ver o filme, fiquei com a sensação frustrante de que esperava mais dele. Mas essa sensação vem, gradualmente, diminuindo, por razões que passo a expor.

O filme trata – dentro das limitações do “medium” (filme, cinema) – de alguns dilemas morais importantes.

O principal deles diz respeito às consequências de erros morais que cometemos, muitas vezes no que, no momento, parece ser o exercício do dever, e o sentimento de culpa, de revolta, de necessidade de fazer justiça que esses erros suscitam nas pessoas (tanto nas vítimas como, por vezes, nos perpetradores dos erros e, também, nos bystanders) bem como na sociedade em que aconteceram.

O filme levanta uma outra questão interessante. Tenho eu o direito, ou mesmo o dever, de revelar algo sobre uma outra pessoa, que pode reduzir sua pena ou até mesmo salvar sua vida, quando essa pessoa se recusa a fazê-lo ela mesma, por considerar o objeto da revelação vexatório? Tenho eu o direito ou o dever de agir no que presumo ser o melhor interesse da pessoa, quando ela própria acha que seu melhor interesse é preservar o segredo e a privacidade de uma condição que considera vergonhosa?

Outra questão importante: crimes, como os descritos, podem vir a ser expiados ou perdoados e produzir redenção ou reconciliação? Ou é tarefa das vítimas, e seus herdeiros, garantir que até o último culpado receba sua justa punição?

Ainda mais uma questão interessante. Numa aula, o professor de direito de Michael, um sobrevivente do Holocausto, afirma que “as sociedades gostam de imaginar que operam com base em princípios morais, mas isso não é verdade: elas operam com base na lei”… Agora, se a lei prescreve comportamentos que são considerados imorais, o que faz a pessoa simples, que quer apenas desempenhar bem o seu trabalho, que não é intelectual, que não filósofa??? Hanna Schmitz, mesmo em seu julgamento, em 1966, ainda está perfeitamente convencida de que seu trabalho era guardar as prisioneiras, evitar que fugissem… – como poderia ela abrir a porta da capela para deixa-las escapar do fogo, sim, mas também da custódia em que se encontravam??? Ela participou dos crimes nazistas porque “that was my job”, e ela acreditava ser seu dever fazer o seu trabalho bem feito, porque seus chefes estavam no poder legalmente, tinham a autoridade de lhe dizer o que deveria fazer e tinham o direito de esperar que ela fizesse o que lhe era ordenado…

A lei, a despeito da necessidade de interpretação, e do relativo subjetivismo do processo hermenêutico, tem por base um texto, que é algo razoavelmente objetivo. Mas a moralidade, ancora-se em quê? Se vamos julgar a lei por critérios morais, que moralidade vamos usar? Vamos usar a moralidade católica para impedir que o divórcio, ou o aborto, se tornem legais? Vamos usar a moralidade protestante puritana para impedir que a lei faculte que as pessoas andem seminuas nas praias, que as mulheres façam topless onde quiserem, que os assim chamados naturistas pratiquem o seu nudismo em praias reservadas para essa prática (praticando ali  tanto o topless como o bottomless)? Vamos usar essa mesma moralidade para proibir, com a força da lei, a edição e circulação de revistas que exibem pessoas nuas, filmes de sexo explícito, livros considerados pornográficos? Por outro lado, parece que, ao separarmos a lei da moralidade, e afirmarmos que, no mundo sócio-político, vale a lei, não a moralidade, nos curvamos ao cinismo daqueles que afirmam, ao ser flagrados em falcatruas de todo tipo, que seu comportamento ficou dentro dos limites da lei. E não é só de falcatruas financeiras que se trata: afinal de contas, Hanna Schmitz agiu dentro dos ditames da lei – e, por causa disso, trezentas mulheres inocentes morreram.

Hanna, apesar de ser descrita por suas vítimas, ou por aqueles que as representam, como um monstro, não é uma pessoa má… Ela é uma pessoa simples, que acha que tem de cumprir com o seu dever e fazer, da melhor forma possível, o que os seus chefes lhe ordenam e esperam dela… Quanta gente não pensa do mesmo jeito, e só não comete crimes, pequenos ou horrendos, porque seu chefe nunca lhe pediu que fizesse algo moralmente errado?

Enfim: a pessoa comum tem a obrigação de entender as questões mais intricadas da ética filosófica e da filosofia política? É razoável esperar isso, quando mesmo filósofos profissionais discordam frontalmente em relação a essas questões? 

O que fazer daqueles que, dentro de igrejas e partidos políticos, aceitam uma ética de segunda mão, sobre a qual nunca refletem? Os católicos que se opõem ao aborto, ou ao controle da natalidade, ou ao divórcio, porque é isso que a Igreja Católica Romana ensina que é certo, e eles não têm ou a vontade ou a capacidade de destrinchar essas questões morais complicadas, essas pessoas não estão, porventura, sem perceber, correndo o risco de agir erroneamente, ou até mesmo de cometer crimes contra determinadas pessoas, porque agem segundo uma moralidade recebida por autoridade, sobre a qual não refletem, ou porque não querem, ou porque não podem, ou porque não acham que é preciso?

A questão do analfabetismo de uma pessoa adulta, mesmo numa sociedade desenvolvida como a Alemanha da época da Segunda Guerra, embora central para a trama, parece ocupar um lugar claramente secundário diante dessas outras grandes questões.

Kate Winslet representa na tela uma personagem que muitas pessoas considerariam um monstro. Mas ela consegue fazer com que o mostro, sem deixar de ser monstro, tenha cara humana, sofra, goste de ouvir a melhor literatura, ria, faça amor, traga prazer e confiança para um menino (que ela chamava de “kid”)… Um grande feito. Poucas atrizes conseguiriam fazer isso. Sem dúvida o melhor papel de Kate Winslet até hoje. Com seus 33 anos, ela promete muito mais. Consegue ser convincente até quando, com a ajuda da maquiagem, evidentemente, representa uma mulher de quase sessenta e cinco anos.

Quando, em seu último encontro, Michael pergunta a Hanna se ela tem pensado muito sobre o passado, ela lhe pergunta: sobre o nosso passado? Ele diz que não: sobre o passado em geral. Ela lhe responde: “Não importa o que eu penso. Não importa o que eu sinto. Os mortos continuam mortos”.

Isso é verdade: os mortos continuam mortos. Mas o resto não é verdade: o que pensamos e o que sentimos importam. E vendo filmes como esse, somos forçados a pensar e a sentir. E se pensarmos e sentirmos, provavelmente corremos menor risco de cometer erros morais e mesmo crimes por estarmos vivendo e agindo em piloto automático.

Em São Paulo, 25 de Fevereiro de 2009; revisado em Salto, 20 de Maio de 2017.

O multiculturalismo do Oscar

Por incrível que pareça estou encontrando uma série de matérias que sou capaz de endossar na Folha Ilustrada de hoje (24/2/2009)… Aqui está uma terceira, de Sérgio Rizzo.

Não é meu feitio transcrever tanta matéria assim num dia só, mas esta também vale a pena. Assim vou pautando minhas próprias matérias para o futuro…

A notinha sobre High School Musical no finalzinho é pertinente. Que os brasileiros, que tanto tentam ganhar um Oscarzinho, atentem a ela.

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Folha de S. Paulo
24 de Fevereiro de 2009

Análise
Lógica comercial está por trás de Oscar multicultural

Afagos a outros países, que duram minutos na festa, têm alto valor de mercado

SÉRGIO RIZZO
CRÍTICO DA FOLHA

Multiculturalismo, para a Academia, é distribuir prêmios para profissionais de diferentes etnias, saudar a possibilidade de rodar filmes de apelo comercial em lugares ermos e com orçamentos menores do que a média, e reconhecer que pode haver vida inteligente no cinema fora de Hollywood.

De acordo com essa ideia prosaica que empresta ao termo um significado oportunista, o Oscar viveu no domingo outra noite multicultural, na linha da que consagrou, em 1988, "O Último Imperador", de Bernardo Bertolucci, com nove Oscar -quase nas mesmas categorias em que triunfou "Quem Quer Ser um Milionário?".

Esse aceno generoso a outras culturas tem um sentido de inclusão, como os novos tempos nos EUA sugerem, mas segundo a lógica comercial. Um afago a um país (ou a uma comunidade irmanada pelo mesmo idioma) na noite de premiação dura poucos minutos e, simbolicamente, realimenta simpatias de valor de mercado incalculável.

Um Oscar para Penélope Cruz, por exemplo, pautará por muito tempo toda a mídia da Espanha e associará para sempre o prêmio ao nome da atriz. Seu discurso de agradecimento em espanhol, no entanto, alcança todos os países hispânicos, despertando o sentimento de que "um de nós chegou lá".

Vários de "nós" chegaram lá na cerimônia de domingo, a começar pelos australianos (o apresentador Hugh Jackman, a família de Heath Ledger), pelos indianos de "Quem Quer Ser Um Milionário?" e pelos japoneses que, vencedores nas categorias de filme estrangeiro e de curta-metragem, alegremente disseram "zankiu". Sem falar em italianos (Sophia Loren ao vivo, mais imagens de Roberto Benigni) e até poloneses (com o diretor de fotografia Janusz Kaminski pagando mico em um quadro). A transmissão da própria cerimônia é fonte de receita e, com a audiência global em queda, a escolha de apresentadores se tornou ainda mais estratégica.

Não por acaso, também deram as caras ídolos do público jovem, como os atores de "High School Musical" e de "Crepúsculo". Se a Academia quis simbolicamente dizer a alguém que aquele enorme brinquedo um dia será seu, foi para essa nova geração de astros nada multiculturais, e não para os alegres indianos de "Quem Quer Ser um Milionário?".

Escrito e transcrito em São Paulo, 24 de Fevereiro de 2009

Kate Winslet

Depois de escrever o post anterior, achei esta preciosidade sobre Kate Winslet na Folha de hoje, 24/2/2009. Genial. A menina de 33 anos cresceu no meu conceito… (Ela nasceu em 5 de Outubro de 1975, em Reading, na Inglaterra).

A tirada sobre Susan Sarandon é impagável… Valeria o preço de muitas entradas ver Susan Sarandon, a musa da esquerda cor-de-rosa americana, fazendo as cenas de nudez que Mme. Winslet faz em O Leitor… 

No site IMBD (http://www.imdb.com/name/nm0000701/bio – vide "Personal Quotes") há referência ao fato de que Kate Winslet teria dito, depois de sua quinta indicação para o Oscar, sem ganhá-lo, que, para ganhar, seria necessário fazer um filme sobre o Holocausto… Well: fez e levou. Realismo e determinação. Admirável. Visão, Motivação, Competência (vide meu site http://vmc.vc).

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Folha de S. Paulo
24 de Fevereirod e 2009

Winslet foge do padrão de Hollywood

DO ENVIADO A LOS ANGELES

Quando fez uma participação no hilariante seriado "Extras", interpretando ela mesmo, Kate Winslet dizia ironicamente que "se você faz um filme sobre o Holocausto, seu Oscar é garantido". Ela fez um filme sobre o Holocausto -como uma segurança da SS- e levou a estatueta, após cinco derrotas.

Anteontem, à imprensa, avisou ao jornal de sua cidade-natal que outra Winslet estamparia a primeira página: é que em dezembro sua mãe ganhou o concurso local de confecção de picles de cebola. Irônica, franca e sem travas: assim é a detentora do prêmio de melhor atriz.

É uma saudável exceção no mundo pasteurizado de Hollywood. Indagada sobre a crítica da imprensa britânica ao excesso de emoção demonstrado por ela em premiações anteriores, disse: "É triste que meu país não consiga ter prazer no sucesso de uma das suas". Sobre declaração de que não faria mais cenas de nudez e instada por um jornalista a passar "o bastão das cenas tórridas", escolheu "Susan Sarandon". (SD)

Escrito e transcrito em São Paulo, 24 de Fevereiro de 2009

Ainda o Oscar 2009

Transcrevo abaixo uma matéria de João Pereira Coutinho, publicada na folha de hoje, 24/2/2009. Dos filmes que concorreram na categoria de melhor filme, só vi O Curioso Caso de Benjamin Button e Quem Quer Ser um Milionário. Em relação a eles, concordo, em grande parte, com a análise do autor.

Devo acrescentar que, na minha opinião, Benjamin Button mereceu ganhar alguns Oscars técnicos e o tema da história, como ressalta Coutinho, lida com uma questão que fascina o ser humano. Mas a execução do filme, o desenrolar da história, deixa muito a desejar. Falta enredo, falta trama — o filme se arrasta. Talvez seja um pouco exagerado chamá-lo de não-filme, mas tiro o chapéu para esta frase de Coutinho: "Benjamin não é apenas desprovido de propósito; todo o filme, em sua autocomplacência visual, parece acompanhar o vazio da personagem. Não se trata de um mau filme. Trata-se de um não-filme."

Quanto a Quem Quer Ser um Milionário? vi-o aqui em casa, ontem à tardinha/noitinha, na tela do computador, em formato .avi. Coutinho mais uma vez chega perto da perfeição ao dizer que o filme escolhido como o melhor é (dentre os cinco indicados) "provavelmente o pior de todos: uma história ridiculamente sentimental sobre um indiano das favelas que, em gesto de amor, vai a concurso televisivo para ganhar fortuna redentora". Vai além: Afirma que a "histeria visual de Danny Boyle", o diretor, "é indistinguível de um videoclipe".

Não vi os outros três filmes ainda.

Creio que nem vá ver Milk. Suspeitava que o filme "não consegu[isse] se distanciar do panfleto gay e de seus clichês ideológicos", como afirma Coutinho. E decididamente não gosto de Sean Penn como ator. Não o conheço como pessoa, mas suspeito que não gostaria dele em pessoa também. A adoração que a esquerda cor-de-rosa lhe devota o torna ainda mais indeglutível. E o cor-de-rosa aqui nada tem que ver com os gays: tem que ver com o espectro político. "Esquerda cor-de-rosa", para mim, é a esquerda tipo Martha Suplicy, feita de intelectuais e ricos com dor de consciência…

Provavelmente vá ver O Leitor. A história é interessante e Kate Winslet está linda… Perdeu aquele ar de menina gordinha que tinha em Titanic. Isso compensa outras falhas.

A propósito, Cate Blanchett também está linda em Benjamin. Ela redime algumas falhas do filme (que oculta a melhor coisa que Brad Pitt tem como ator: um visual incomparável)…

Duas mulheres lindas com nome que soa do mesmo jeito — mas é grafado de forma diferente, com K e com C. Kate e Cate.

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Folha de S. Paulo
24 de Fevereiro de 2009

JOÃO PEREIRA COUTINHO

Hollywood: uma autópsia

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Os indicados ao Oscar são prova da estagnação que Hollywood vem denunciando há anos

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OSCAR: VOCÊS conhecem o jogo. Um filme vence, quatro filmes perdem. Aconteceu neste ano: "Quem Quer Ser um Milionário?" levou a estatueta dourada. Mas houve uma derrota suplementar: a derrota do cinema como arte revolucionária e vital, e não falo apenas do filme de Danny Boyle.

Segundo dizem, os cinco indicados ao Oscar de melhor filme representam a excelência que a indústria produziu em 2008. Eu assisti aos cinco, em cinco dias seguidos, para escrever texto crítico a respeito. Puro desperdício. Se o melhor do cinema anglo-americano está em "O Curioso Caso de Benjamin Button", "Milk – A Voz da Igualdade", "Frost/ Nixon", "Quem Quer Ser um Milionário?" e "O Leitor", por favor, preparem a tumba.

Exagero? Antes fosse. Primeiro que tudo, digo em minha defesa: nunca embarquei no desprezo tipicamente terceiro-mundista de olhar para Hollywood com escárnio. Longe disso: o cinema nasceu na Europa mas foi nos Estados Unidos que ele se ergueu como arte distinta, muitas vezes servida por diretores europeus.

E quando me falam nas "teorias de autor", que alegadamente se opõem ao reles comercialismo americano, lembro sempre que o conceito de "autor" é indissociável de Hollywood: de nomes como John Ford ou Howard Hawks, que os intelectuais de Paris teorizaram e, ironia das ironias, importaram de volta para os Estados Unidos.

Scorsese não existiria sem a influência da nouvelle vague. Mas a nouvelle vague não existiria sem o patrimônio fílmico que Hollywood produziu na primeira metade do século 20 e que se ofereceu à geração dos "Cahiers du Cinéma" como laboratório de estudo e subversão.

Tudo isso me parece agora distante e até deslocado. Os cinco filmes indicados ao Oscar são prova do cansaço e da estagnação que Hollywood vem denunciando há vários anos.

Claro que nem todos os filmes são comparáveis. "Quem Quer Ser um Milionário?", apesar da vitória, é provavelmente o pior de todos: uma história ridiculamente sentimental sobre um indiano das favelas que, em gesto de amor, vai a concurso televisivo para ganhar fortuna redentora. O problema não está na natureza fantasiosa da história: se assim fosse, seria preciso desqualificar uma parte importante do patrimônio cinematográfico, de Georges Méliès a Tim Burton. O problema está na histeria visual de Danny Boyle, que constrói uma narrativa sem uma única ideia de cinema a servi-la. O caso não é novo: "Trainspotting – Sem Limites" já anunciava ao mundo que, para Danny Boyle, o cinema é indistinguível de um videoclipe.

Exatamente o contrário do que sucede com "O Curioso Caso de Benjamin Button".

O filme, inspirado vagamente em conto prodigioso de Scott Fitzgerald, pretende oferecer-se como meditação sobre a irreversibilidade do tempo. Mas o que existia de excesso em Danny Boyle é agora ruminação sem sentido em Fincher: o seu Benjamin não é apenas desprovido de propósito; todo o filme, em sua autocomplacência visual, parece acompanhar o vazio da personagem. Não se trata de um mau filme. Trata-se de um não-filme.

Mas a verdadeira desgraça de Hollywood talvez não esteja em "Quem Quer Ser um Milionário?" ou "O Curioso Caso de Benjamin Button": obras falhadas fazem parte de qualquer atividade artística, certo? A desgraça maior talvez esteja em "Milk – A Voz da Igualdade", "Frost/ Nixon" e "O Leitor", três filmes medianos, e medianos por seu academismo vulgar.

"Milk" começa por surpreender exatamente por isso: Gus van Sant tem obras estimáveis no início da carreira, como "Drugstore Cowboy". Em "Milk", biopic sobre o primeiro político assumidamente homossexual a ser eleito para cargo público, Gus van Sant não consegue se distanciar do panfleto gay e de seus clichês ideológicos. Essa preguiça programática é ainda amplificada pelo convencionalismo formal que Gus van Sant imprime a "Milk".

Restam "Frost/Nixon" e "O Leitor", que talvez se salvassem do dilúvio se Ron Howard ou Stephen Daldry fossem, no verdadeiro sentido da palavra, "autores". Não são.

"Frost/Nixon" denuncia as suas origens teatrais, e denuncia da pior forma possível: ao tornar desnecessariamente caricatural o que apenas os palcos eram capazes de suportar. A composição de Frank Langella como Nixon prova-o de forma clara e, para mim, dolorosa.

"O Leitor" apenas prolonga a trivialidade de "Frost/Nixon": o poderoso livro de Bernhard Schlink sobre a relação amorosa entre uma antiga guarda nazista e um jovem estudante na Alemanha do pós-guerra não passa de uma composição desinspirada e televisiva. Disse "televisiva"? Corrijo. O Oscar deste ano confirma, pelo contrário, que a moderna ficção televisiva substituiu há muito, em inventividade e desafio, o papel visual e narrativo que o cinema teve durante um século.

Escrito e transcrito em São Paulo, 24 de Fevereiro de 2009

O Oscar 2009

Como faço todo ano, segue, abaixo, a lista dos vinte e quatro indicados para o Oscar de hoje à noite, com as categorias e os nomes dos filmes em Português e em Inglês. Os vencedores estão indicados por um asterisco.

Ando tão desligado da televisão ultimamente que só agora há pouco, durante o Fantástico (curto por causa do Carnaval), fiquei sabendo que a entrega do Oscar era hoje…

Felizmente a entrega do prêmio é no Domingo de Carnaval. Assim dá para dormir mais amanhã cedo (que é um daqueles feriados que não são feriados)…

É esta a lista completa dos indicados, em Português:

1. Melhor filme

O Curioso Caso de Benjamin Button
Frost/Nixon
Milk
O Leitor
* Quem Quer Ser um Milionário? (Slumdog Millionaire )

2. Melhor diretor

* Danny Boyle (Quem Quer Ser um Milionário? – Slumdog Millionaire)
Stephen Daldry (O Leitor)
David Fincher (O Curioso Caso de Benjamin Button)
Ron Howard (Frost/Nixon)
Gus Van Sant (Milk)

3. Melhor ator

Richard Jenkis (The Visitor)
Frank Langella (Frost/Nixon)
* Sean Penn (Milk)
Brad Pitt (O Curioso Caso de Benjamin Button)
Mickey Rourke (The Wrestler)

4. Melhor atriz

Anne Hathaway (O Casamento de Rachel)
Angelina Jolie (A Troca)
Melissa Leo (Frozen River)
Meryl Streep (Dúvida)
* Kate Winslet (O Leitor)

5. Melhor ator coadjuvante

Robert Downey Jr. (Trovão Tropical)
Philip Seymour Hoffman (Dúvida)
* Heath Ledger (Batman – O Cavaleiro das Trevas)
Josh Brolin (Milk)
Michael Shannon (Foi Apenas um Sonho)

6. Melhor atriz coadjuvante

Amy Adams (Dúvida)
* Penelope Cruz (Vicky Cristina Barcelona)
Viola Davis (Dúvida)
Taraji P. Henson (O Curioso Caso de Benjamin Button)
Marisa Tomei (The Wrestler)

7. Melhor roteiro original

Frozen River
Simplesmente Feliz
Na Mira do Chefe
* Milk
Wall-E

8. Melhor roteiro adaptado

O Curioso Caso de Benjamin Button
Dúvida
Frost/Nixon
O Leitor
* Quem Quer Ser um Milionário? (Slumdog Millionaire )

9. Melhor trilha sonora original

Alexandre Desplat (O Curioso Caso de Benjamin Button)
James Newton Howard (Defiance)
* A. R. Rahman (Quem Quer Ser um Milionário? (Slumdog Millionaire)
Danny Elfman (Milk)
Thomas Newman (Wall-E)

10. Melhor canção original

Down to Earth (Wall-E)
* Jai Ho (Quem Quer Ser um Milionário? – Slumdog Millionaire)
O Saya (Quem Quer Ser um Milionário? – Slumdog Millionaire)

11. Melhor filme estrangeiro

Der Baader Meinhof Komplex, de Uli Edel (Alemanha)
Waltz With Bashir, de Ari Folman (Israel)
The Class, Laurent Cantet (França)
* Departures, Yojiro Takita (Japão)
Revanche, de Gotz Spielmann (Áustria)

12. Melhor animação

Bolt – Supercão
Kung Fu Panda
* Wall-E

13. Melhor curta de animação

* La Maison en Petits Cubes, de Kunio Kato
Lavatory – Lovestory, de Konstantin Bronzit
Oktapodi, de Emud Mokhberi e Thierry Marchand
Presto, de Doug Sweetland
This Way Up, de Alan Smith e Adam Foulkes

14. Melhor documentário

The Betrayal (Nerakhoon), de Ellen Kuras e Thavisouk Phrasavath
Encounters at the End of the World, de Werner Herzog e Henry Kaiser
The Garden, de Scott Hamilton Kennedy
* Man on Wire, de James Marsh e Simon Chinn
Trouble the Water de Tia Lessin e Carl Deal

15. Melhor documentário em curta-metragem

The Conscience of Nhem En
The Final Inch
* Smile Pinki
The Witness – From the Balcony of Room 306

16. Melhor curta-metragem

Auf der Strecke (On the Line)
Manon on the Asphalt
New Boy
The Pig
* Spielzeugland (Toyland)

17. Melhor direção de arte

A Troca
* O Curioso Caso de Benjamin Button
Batman – O Cavaleiro das Trevas
A Duquesa
Foi Apenas um Sonho

18. Melhor fotografia

A Troca (Tom Stern)
O Curioso Caso de Benjamin Button (Claudio Miranda)
Batman – O Cavaleiro das Trevas (Wally Pfister)
O Leitor (Chris Menges and Roger Deakins)
* Quem Quer Ser um Milionário? (Slumdog Millionaire) (Anthony Dod Mantle)

19. Melhor edição

O Curioso Caso de Benjamin Button (Kirk Baxter e Angus Wall)
Batman – O Cavaleiro das Trevas (Lee Smith)
Frost/Nixon (Mike Hill and e Hanley)
Milk (Elliot Graham)
* Quem Quer Ser um Milionário? (Slumdog Millionaire) (Chris Dickens)

20. Melhor mixagem de som

O Curioso Caso de Benjamin Button (David Parker, Michael Semanick, Ren Klyce e Mark Weingarten)
Batman – O Cavaleiro das Trevas (Lora Hirschberg, Gary Rizzo e Ed Novick)
* Quem Quer Ser um Milionário? (Slumdog Millionaire) (Ian Tapp, Richard Pryke e Resul Pookutty)
Wall-E (Tom Myers, Michael Semanick e Ben Burtt)
O Procurado (Chris Jenkins, Frank A. Montaño e Petr Forejt)

21. Melhor edição de som

* Batman – O Cavaleiro das Trevas (Richard King)
Homem de Ferro (Frank Eulner e Christopher Boyes)
Quem Quer Ser um Milionário? (Slumdog Millionaire) (Tom Sayers)
Wall-E (Ben Burtt e Matthew Wood)
O Procurado (Wylie Stateman)

22. Melhores efeitos especiais

* O Curioso Caso de Benjamin Button (Eric Barba, Steve Preeg, Burt Dalton e Craig Barron)
Batman – O Cavaleiro das Trevas (Nick Davis, Chris Corbould, Tim Webber e Paul Franklin)
Homem de Ferro (John Nelson, Ben Snow, Dan Sudick e Shane Mahan)

23. Melhor maquiagem

* O Curioso Caso de Benjamin Button (Greg Cannom)
Batman – O Cavaleiro das Trevas (John Caglione, Jr. e Conor O’Sullivan)
Hellboy II (Mike Elizalde e Thom Floutz)

24. Melhor figurino

Austrália (Catherine Martin)
O Curioso Caso de Benjamin Button (Jacqueline West)
* A Duquesa (Michael O’Connor)
Milk (Danny Glicker)
Foi Apenas um Sonho (Albert Wolsky)


Indicados em Inglês:

1. Best motion picture of the year

“The Cu
rious Case of Benjamin Button” (Paramount and Warner Bros.), A Kennedy/Marshall Production, Kathleen Kennedy, Frank Marshall and Ceán Chaffin, Producers
“Frost/Nixon” (Universal), A Universal Pictures, Imagine Entertainment and Working Title Production, Brian Grazer, Ron Howard and Eric Fellner, Producers
“Milk” (Focus Features), A Groundswell and Jinks/Cohen Company Production, Dan Jinks and Bruce Cohen, Producers
“The Reader” (The Weinstein Company), A Mirage Enterprises and Neunte Babelsberg Film GmbH Production, Anthony Minghella, Sydney Pollack, Donna Gigliotti and Redmond Morris, Producers
“Slumdog Millionaire” (Fox Searchlight), A Celador Films Production, Christian Colson, Producer

2. Achievement in directing

“The Curious Case of Benjamin Button” (Paramount and Warner Bros.), David Fincher
“Frost/Nixon” (Universal), Ron Howard
“Milk” (Focus Features), Gus Van Sant
“The Reader” (The Weinstein Company), Stephen Daldry
“Slumdog Millionaire” (Fox Searchlight), Danny Boyle

3. Performance by an actor in a leading role

Richard Jenkins in “The Visitor” (Overture Films)
Frank Langella in “Frost/Nixon” (Universal)
Sean Penn in “Milk” (Focus Features)
Brad Pitt in “The Curious Case of Benjamin Button” (Paramount and Warner Bros.)
Mickey Rourke in “The Wrestler” (Fox Searchlight)

4. Performance by an actress in a leading role

Anne Hathaway in “Rachel Getting Married” (Sony Pictures Classics)
Angelina Jolie in “Changeling” (Universal)
Melissa Leo in “Frozen River” (Sony Pictures Classics)
Meryl Streep in “Doubt” (Miramax)
Kate Winslet in “The Reader” (The Weinstein Company)

5. Performance by an actor in a supporting role

Josh Brolin in “Milk” (Focus Features)
Robert Downey Jr. in “Tropic Thunder” (DreamWorks, Distributed by DreamWorks/Paramount)
Philip Seymour Hoffman in “Doubt” (Miramax)
Heath Ledger in “The Dark Knight” (Warner Bros.)
Michael Shannon in “Revolutionary Road” (DreamWorks, Distributed by Paramount Vantage)

6. Performance by an actress in a supporting role

Amy Adams in “Doubt” (Miramax)
Penélope Cruz in “Vicky Cristina Barcelona” (The Weinstein Company)
Viola Davis in “Doubt” (Miramax)
Taraji P. Henson in “The Curious Case of Benjamin Button” (Paramount and Warner Bros.)
Marisa Tomei in “The Wrestler” (Fox Searchlight)

7. Original screenplay

“Frozen River” (Sony Pictures Classics), Written by Courtney Hunt
“Happy-Go-Lucky” (Miramax), Written by Mike Leigh
“In Bruges” (Focus Features), Written by Martin McDonagh
“Milk” (Focus Features), Written by Dustin Lance Black
"WALL-E” (Walt Disney), Screenplay by Andrew Stanton, Jim Reardon, Original story by Andrew Stanton, Pete Docter

8. Adapted screenplay

“The Curious Case of Benjamin Button” (Paramount and Warner Bros.), Screenplay by Eric Roth, Screen story by Eric Roth and Robin Swicord
“Doubt” (Miramax), Written by John Patrick Shanley
“Frost/Nixon” (Universal), Screenplay by Peter Morgan
“The Reader” (The Weinstein Company), Screenplay by David Hare
“Slumdog Millionaire” (Fox Searchlight), Screenplay by Simon Beaufoy

9. Achievement in music written for motion pictures (Original score)

“The Curious Case of Benjamin Button” (Paramount and Warner Bros.), Alexandre Desplat
“Defiance” (Paramount Vantage), James Newton Howard
“Milk” (Focus Features), Danny Elfman
“Slumdog Millionaire” (Fox Searchlight), A.R. Rahman
“WALL-E” (Walt Disney), Thomas Newman

10. Achievement in music written for motion pictures (Original song)

“Down to Earth” from “WALL-E” (Walt Disney), Music by Peter Gabriel and Thomas Newman, Lyric by Peter Gabriel
“Jai Ho” from “Slumdog Millionaire” (Fox Searchlight), Music by A.R. Rahman, Lyric by Gulzar
“O Saya” from “Slumdog Millionaire” (Fox Searchlight), Music and Lyric by A.R. Rahman and Maya Arulpragasam                  

11. Best foreign language film of the year

“The Baader Meinhof Complex” A Constantin Film Production, Germany
“The Class” (Sony Pictures Classics), A Haut et Court Production, France
“Departures” (Regent Releasing), A Departures Film Partners Production, Japan
“Revanche” (Janus Films), A Prisma Film/Fernseh Production, Austria
“Waltz with Bashir” (Sony Pictures Classics), A Bridgit Folman Film Gang Production, Israel

12. Best animated feature film of the year

“Bolt” (Walt Disney), Chris Williams and Byron Howard
“Kung Fu Panda” (DreamWorks Animation, Distributed by Paramount), John Stevenson and Mark Osborne
“WALL-E” (Walt Disney), Andrew Stanton

13. Best animated short film

“La Maison en Petits Cubes” A Robot Communications Production, Kunio Kato
“Lavatory – Lovestory” A Melnitsa Animation Studio and CTB Film Company Production, Konstantin Bronzit
“Oktapodi” (Talantis Films), A Gobelins, L’école de l’image Production, Emud Mokhberi and Thierry Marchand
“Presto” (Walt Disney), A Pixar Animation Studios Production, Doug Sweetland
“This Way Up” A Nexus Production, Alan Smith and Adam Foulkes

14. Best documentary feature

“The Betrayal (Nerakhoon)” (Cinema Guild), A Pandinlao Films Production, Ellen Kuras and Thavisouk Phrasavath
“Encounters at the End of the World” (THINKFilm and Image Entertainment), A Creative Differences Production, Werner Herzog and Henry Kaiser
“The Garden” A Black Valley Films Production, Scott Hamilton Kennedy
“Man on Wire” (Magnolia Pictures), A Wall to Wall in association with Red Box Films Production, James Marsh and Simon Chinn
“Trouble the Water” (Zeitgeist Films), An Elsewhere Films Production, Tia Lessin and Carl Deal

15. Best documentary short subject

“The Conscience of Nhem En” A Farallon Films Production, Steven Okazaki
“The Final Inch” Vermilion Films in association with Google.org, Irene Taylor Brodsky and Tom Grant
“Smile Pinki” A Principe Production, Megan Mylan
“The Witness – From the Balcony of Room 306” A Rock Paper Scissors Production, Adam Pertofsky and Margaret Hyde

16. Best live action short film

“Auf der Strecke (On the Line)” (Hamburg Shortfilmagency), An Academy of Media Arts Cologne Production, Reto Caffi
“Manon on the Asphalt” (La Luna Productions), A La Luna Production, Elizabeth Marre and Olivier Pont
“New Boy” (Network Ireland Television), A Zanzibar Films Production, Steph Green and Tamara Anghie
“The Pig” An M & M Production, Tivi Magnusson and Dorte Høgh
“Spielzeugland (Toyland)” A Mephisto
Film Production, Jochen Alexander Freydank

17. Achievement in art direction

“Changeling” (Universal), Art Direction: James J. Murakami, Set Decoration: Gary Fettis
“The Curious Case of Benjamin Button” (Paramount and Warner Bros.), Art Direction: Donald Graham Burt, Set Decoration: Victor J. Zolfo
“The Dark Knight” (Warner Bros.), Art Direction: Nathan Crowley, Set Decoration: Peter Lando
“The Duchess” (Paramount Vantage, Pathé and BBC Films), Art Direction: Michael Carlin, Set Decoration: Rebecca Alleway
“Revolutionary Road” (DreamWorks, Distributed by Paramount Vantage), Art Direction: Kristi Zea, Set Decoration: Debra Schutt

18. Achievement in cinematography

“Changeling” (Universal), Tom Stern
“The Curious Case of Benjamin Button” (Paramount and Warner Bros.), Claudio Miranda
“The Dark Knight” (Warner Bros.), Wally Pfister
“The Reader” (The Weinstein Company), Chris Menges and Roger Deakins
“Slumdog Millionaire” (Fox Searchlight), Anthony Dod Mantle

19. Achievement in film editing

“The Curious Case of Benjamin Button” (Paramount and Warner Bros.), Kirk Baxter and Angus Wall
“The Dark Knight” (Warner Bros.), Lee Smith
“Frost/Nixon” (Universal), Mike Hill and Dan Hanley
“Milk” (Focus Features), Elliot Graham
“Slumdog Millionaire” (Fox Searchlight), Chris Dickens

20. Achievement in sound mixing

“The Curious Case of Benjamin Button” (Paramount and Warner Bros.), David Parker, Michael Semanick, Ren Klyce and Mark Weingarten
“The Dark Knight” (Warner Bros.), Lora Hirschberg, Gary Rizzo and Ed Novick
“Slumdog Millionaire” (Fox Searchlight), Ian Tapp, Richard Pryke and Resul Pookutty
“WALL-E” (Walt Disney), Tom Myers, Michael Semanick and Ben Burtt
“Wanted” (Universal), Chris Jenkins, Frank A. Montaño and Petr Forejt

21. Achievement in sound editing

“The Dark Knight” (Warner Bros.), Richard King
“Iron Man” (Paramount and Marvel Entertainment), Frank Eulner and Christopher Boyes
“Slumdog Millionaire” (Fox Searchlight), Glenn Freemantle and Tom Sayers
“WALL-E” (Walt Disney), Ben Burtt and Matthew Wood
“Wanted” (Universal), Wylie Stateman

22. Achievement in visual effects

“The Curious Case of Benjamin Button” (Paramount and Warner Bros.), Eric Barba, Steve Preeg, Burt Dalton and Craig Barron
“The Dark Knight” (Warner Bros.), Nick Davis, Chris Corbould, Tim Webber and Paul Franklin
“Iron Man” (Paramount and Marvel Entertainment), John Nelson, Ben Snow, Dan Sudick and Shane Mahan

23. Achievement in makeup

“The Curious Case of Benjamin Button” (Paramount and Warner Bros.), Greg Cannom
“The Dark Knight” (Warner Bros.), John Caglione, Jr. and Conor O’Sullivan
“Hellboy II: The Golden Army” (Universal), Mike Elizalde and Thom Floutz

24. Achievement in costume design

“Australia” (20th Century Fox), Catherine Martin
“The Curious Case of Benjamin Button” (Paramount and Warner Bros.), Jacqueline West
“The Duchess” (Paramount Vantage, Pathé and BBC Films), Michael O’Connor
“Milk” (Focus Features), Danny Glicker
“Revolutionary Road”  (DreamWorks, Distributed by Paramount Vantage), Albert Wolsky

o O o

Como se pode ver, Quem Quer Ser um Milionário? (Slumdog Millionaire), indicado para dez Oscars, acabou ganhando a competição contra O Curioso Caso de Benjamin Button (The Curious Case of Benjamin Button), indicado para treze Oscars: ganhou mais Oscars e Oscars mais importantes (inclusive Melhor Filme e Melhor Diretor). Minha preferência, porém, era por Benjamin Button. Mas é bom ver a participação bem sucedida da Índia num filme de primeira linha.

Fiquei muito contente com dois Oscars. Primeiro, o de Penelope Cruz na categoria Melhor Atriz Coadjuvante. Ela está magnífica em Vicky Cristina Barcelona: ofuscou minha “ídola” Scarlett Johansson. Segundo, o de Kate Winslet, na categoria Melhor Atriz, pelo filme O Leitor (The Reader). Ela é sempre excelente.

Apesar de ter gostado do Oscar de Kate Winslet, eu também teria adorado se Meryl Streep tivesse ganho o Oscar de Melhor Atriz. Indicada pela décima quinta vez (um record), Meryl Streep merece qualquer Oscar que ainda vier para ela (apesar de já ter ganho dois).

Fiquei triste de Brad Pitt não ter ganho na categoria Melhor Ator, pelo filme O Curioso Caso de Benjamin Button (The Curious Case of Benjamin Button).

Por fim, uma palavra sobre a produção do show. Foi de longe o melhor Oscar, ever. Os múltiplos cenários estavam magníficos. Mas a melhor inovação foi o procedimento para indicar os melhores nas categorias de Melhor Atriz e Melhor Ator. Cinco ganhadores nessas categorias fizeram um breve resumo da biografia dos cinco indicados. Ficou excepcional. Por fim, a apresentação foi competente, profissional, séria e discreta: o australiano Hugh Jackman foi um apresentador de primeira, não um aprendiz de palhaço, como alguns apresentadores de outras vezes.

São Paulo, em 22 de Fevereiro de 2009

Dois fatos importantes sobre o ser humano

Os antigos já sabiam duas coisas importantes sobre o ser humano. A primeira é que somos mortais (Eis o silogismo clássico: “Todo homem é mortal; Sócrates é homem; logo, Sócrates é mortal”; a segunda, que somos falíveis (“errare humanum est”).

Esses dois fatos estão correlacionados…

Já escrevi aqui defendendo a tese de que é a morte – isto é, o fato de que somos mortais, e, portanto, teremos um fim – que dá sentido à vida. Se fôssemos imortais, nossas escolhas não seriam tão importantes. Por quê? Porque, quando errássemos, o que fatalmente aconteceria se somos também falíveis, teríamos toda a eternidade para voltar atrás, nos corrigir, e até errar de novo… Ou seja: nossa falibilidade não seria tão importante, se não fôssemos mortais…

Talvez porque sejamos mortais, e possamos, por conseguinte, até morrer em decorrência de um erro nosso (no volante, por exemplo), a nossa falibilidade se tornou um problema sério. Como não temos jeito de nos tornar infalíveis, procuramos encontrar infalibilidades em outros lugares: em Deus, nas Escrituras, nos pronunciamentos papais…

Mas há um problema sério aí. Quem decide que o Papa é infalível quando faz pronunciamentos ex cathedra sobre fé e prática? Somos nós, seres humanos, falíveis… Quem decide que a Bíblia é a palavra inerrante de Deus? Somos nós, seres humanos, falíveis… Quem decide que Deus existe e é infalível? Somos nós, seres humanos, falíveis. Ou seja: as decisões sobre quem ou o que é infalível não são infalíveis… Os protestantes acham que aqueles que decidiram que os pronunciamentos papais são infalíveis estavam simplesmente errados… Os católicos, por sua vez, acham que os protestantes, que acreditam que a Bíblia deve ser entendida literalmente como a Palavra de Deus, negligenciando o “sensus plenior” e a necessidade de interpretação do texto, e que a Bíblia, na interpretação literal, é inerrante, estão simplesmente errados… E assim vai…

Como é que seres humanos, reconhecidamente falíveis, podem ter tanta certeza de que encontraram a infalibilidade ou a inerrância em algum lugar? Como é que não admitem que, por serem admitidamente falíveis, podem estar errados na crença de que encontraram a infalibidade ou a inerrância em alguma pessoa ou em algum texto?

Por sermos mortais, desejamos a imortalidade; por sermos falíveis, desejamos a infalibilidade… Mas sendo falíveis, como é que podemos ter certeza de que somos imortais e identificamos corretamente fontes infalíveis de verdades?

Em São Paulo, 17 de Fevereiro de 2009

Que bom é viver frugalmente — quando isso se dá por escolha e não por necessidade…

Começo de noite, numa sexta-feira treze. São 20h30 — faltam três horas e meia para o fim oficial do dia. Espero que não haja mais tempo suficiente para acontecer uma daquelas desgraças em que os supersticiosos acreditam.

Estou sentado na varanda do meu apartamento, com os pés em cima de uma mesinha, admirando a vista da Chácara Klabin e, além da Ricardo Jafé, do Alto do Ipiranga. Perto dali está o Museu do Ipiranga –que fica no lugar em que foi proclamada a Independência do Brasil, no dia do meu nascimento, mas 121 anos antes. O riacho do Ipiranga, que passa lá, passa também quase do lado do nosso prédio. 

A temperatura caiu, faz um friozinho, e eu tomo vinho… Vamos jantar daqui a pouco: arroz parboilizado, carne moída, farofa… Um de meus pratos favoritos. Depois da meia noite vamos ao Extra, aqui pertinho, que fica aberto 24 horas por dia, para fazer a compra do mês. Afinal de contas, amanhã meus irmãos vêm jantar aqui amanhã. Embora pretendamos encomendar umas pizzas, é preciso ter pequenas coisas para mastigar e líqüidos gostosos para beber…

O vento fresco é gostoso… Acho lindo ver a cidade ir se acendendo aos poucos… As ruas, as janelas dos prédios. De vez em quando se ouve um carro ou uma moto que acelera, e, vez ou outra, ouvem-se foguetes. O lugar é residencial, silencioso. Os vizinhos, ciosos de sua privacidade. Moro aqui há mais de quatro meses, e não conheço os vizinhos — nem mesmo os três vizinhos de andar. Isso não me faz falta. Só fiquei sabendo que o porteiro é pastor evangélico de uma pequena comunidade da Assembléia de Deus em São Caetano do Sul. No prédio em frente ao meu mora uma conhecida, a Mila, que trabalha no CENPEC. Estivemos juntos em Brasília em Outubro último, num congresso da Interdidática. Por falar nisso, haverá um congresso da Interdidática aqui em São Paulo, em Abril, e daremos uma outra palestra (para quem não sabe, meus plurais não são majestáticos).

Sinto-me bem, feliz, em paz. Tenho muitos problemas a resolver em diversos departamentos da minha vida, tanto pessoais quanto profissionais. Mas estou bem, feliz e em paz comigo mesmo. O que mais pode alguém pedir?

Estou curtindo a noite, as luzes, o vento, o friozinho gostoso… Na cozinha, a carne descongela. Uma vez descongelada, em menos de meia hora faremos o jantar. Comeremos com calma, tranqüilos. Há três computadores abertos ao nosso redor — e mais dois desligados… Felizmente, não há ninguém para dizer que os fechemos, e que só pensamos em trabalho…

Em São Paulo, 13 de Fevereiro de 2009 – Sexta-feira treze

“A consciência por vezes é uma merda”

A frase que dá título a este artiguete me foi dita pelo Rubem Alves, em correspondência pessoal. Espero que ele me perdoe por citá-la, entre aspas, em público.

A consciência é, por vezes, isso aí que ele disse, porque ela não é racional, e, portanto, não reflete aquilo que racionalmente consideramos certo e errado: ela é, em grande medida, formada pela opinião dos outros, que procuram nos moldar e formar, assim condicionando e influenciando o que pensamos, o que valoramos, o que consideramos certo e errado… A consciência por vezes é uma merda porque uma vez gravado algum ditame em nossa consciência, não é fácil removê-lo de lá… Se alguém escreveu em nossa consciência, em algum momento, que, por exemplo, dizer palavrões é algo errado, que devemos a todo custo evitar dizê-los, que não devemos nem sequer chamar de bunda a parte de nosso corpo com que nos sentamos, vamos sempre sentir uma dorzinha na consciência ao dizer um palavrão – ainda que não seja realmente um palavrão, mas apenas, digamos, um palavrinho…

Certamente não basta que, com nosso pensamento racional, deixemos de acreditar que é errado aquilo de que nossa consciência nos acusa… Racionalmente, dizemo-nos que há horas em que apenas um enorme palavrão é a reação correta a algo de ruim ou absurdo que nos está acontecendo… Mas mesmo nessas circunstâncias a nossa consciência vai continuar, merdosamente, a nos acusar… Acho até que o Rubem Alves usou um palavrão (palavrinho?) na frase dele para desafiar a consciência de bom menino protestante que, mesmo em época que antecedia de muito a era do politicamente correto, aprendeu que o “certo” seria dizer “a consciência por vezes é um cocô…”. (Com toda a franqueza, acho esta última frase quase pornográfica de tão horrível…).

A consciência é nosso “super-ego”… Ela é formada pelos pais, pela comunidade, pela igreja, pela escola, pela mídia… Felizmente, essas diversas influências, muitas vezes, não agem na mesma direção. É terrível quando o fazem. Quando eu era criança, meus pais, a comunidade em que eu vivia, minha igreja, minha escola e a mídia pareciam estar todos de acordo que não era certo dizer palavrões. Bem… a comunidade de pares (os meninos que jogavam bola juntos no campinho) e o ambiente não-formal da escola, nem tanto… Nesses ambientes eu ouvia uma boa série de palavrões… Colegas de escola uma vez me chamaram (por causa de meu segundo nome) de Oscar Alho… Até de amigos da igreja com quem eu jogava bola eu ouvia palavrões… O Israel, crente que freqüentava a mesma igreja, um dia, quando jogávamos bola, e ele ia bater uma falta, me mandou ficar no cu da área… Minha consciência já era bem formada: eu ouvia esses palavrões e me sentia culpado – culpado de os haver ouvido, não de os haver dito, notem bem…

Quando criança, em regra eu me sentia culpado de ler um palavrão muito feio (que até hoje minha consciência não me permite escrever aqui) que estava pichado na parede de uma fábrica que ficava entre minha escola e minha casa… Eu tomava a firme resolução, ao sair de casa ou da escola, de que, ao passar pela fabrica, não iria olhar o palavrão… Mas meus olhos eram como que magneticamente atraídos por ele… Mesmo quando eu conseguia não olhar para ele, eu me lembrava de que ele estava lá e a palavra vinha à minha mente (a coisa eu nem tinha bem como imaginar ainda…). E eu, como acreditava então, pecava – e tinha de orar pedindo perdão a Deus por ter visto o palavrão – ou pensado nele, mesmo sem vê-lo… (Um dia, fui orar, enquanto andava, ao passar pelo palavrão na parede, de olhos fechados, como sempre, para que assim não o visse, e entrei com tudo num poste: Deus podia ter me protegido, em consideração ao esforço que eu estava fazendo para não ver o palavrão…). Por que é que, até hoje, mais de cinqüenta e cinco anos depois, eu consigo até dizer o palavrão, em determinados contextos, mas apenas no diminutivo, como se essa forma diminuísse o seu conteúdo pecaminoso, no qual eu não mais acredito? Por que eu consegui escrever cu, no parágrafo anterior, mas não consigo aqui dizer qual é o palavrão da parede da fábrica – mesmo que, racionalmente, eu há muito tempo tenha deixado de acreditar no fetiche das palavras, e, portanto, não mais acredite que seja moralmente errado dizer qualquer palavra (ainda que seja deselegante, e, portanto, desaconselhável dizer algumas delas em determinados contextos)??? A Adélia Prado, poetisa mineira que o Rubem Alves cita adiante, em texto que transcrevo, me ajudou a me livrar desse fetiche, quando escreveu um poema em que dizia “cu é lindo” – poema esse que foi usado numa escola católica, segundo consta, ligeiramente modificado: lá se dizia “céu é lindo”…).

Estou, porém, como dizia meu pai, rodeando o toco e levando um tempo enorme a preambular para chegar aonde eu quero… O assunto que eu quero discutir é casamento, separação, divórcio, adultério – e o papel que a religião tem na formação de nossa consciência sobre esses assuntos (que no fundo são apenas um) – consciência que, merdosamente, por vezes dá umas pontadas em relação a esses assuntos, mesmo quando a gente está racionalmente convencida de que não fez nada errado.

Começo citando um exemplo que me vem prontamente à mente. Na igreja que eu freqüentava quando criança, da qual o meu pai era pastor, havia um senhor nordestino, já prá lá da meia idade, que era um dos membros mais assíduos e dedicados. Como se isso não bastasse, ele era, do ponto de vista doutrinário defendido por meu pai, o pastor, inatacável. Meu pai não conseguia encontrar nele desvio doutrinário algum (coisa extremamente rara, pois ele via desvios doutrinários com grande facilidade, a torto e a direito: vivia escrevendo artigos contra os católicos romanos, os pentecostais, os glórias, os adventistas, os testemunhas de Jeová, os mórmons, até contra os batistas, os carismáticos e os avivados…). Apesar de pessoa simples (era pedreiro), esse senhor fazia umas das mais belas orações que me foi dado ouvir na minha infância e adolescência – belas no conteúdo e na forma. Não me esqueço delas até hoje. Mas ele tinha, na visão do meu pai, um problema sério… Havia sido casado, no Nordeste, antes de vir para São Paulo. Ninguém nunca soube o que exatamente se passou com esse casamento. O que se sabia é que, já separado, ou ainda não, ele veio tentar a vida em São Paulo. Veio e ficou. Um dia, lá atrás, uns vinte anos antes, encontrou uma outra mulher, apaixonou-se e passou a viver com ela (algo de resto bastante comum). Tiveram filhos: muitos. Eles viviam uma vida normal de casados – só que eram apenas “amasiados”, como se dizia então, naqueles tempos anteriores ao divórcio (linguagem que ainda prevalece em textos jurídicos de baixa qualidade hoje em dia). Ambos freqüentavam a igreja regularmente, na Escola Dominical, no culto do domingo à noite, nos estudos bíblicos de quarta-feira… As crianças eram criadas na fé e na moral cristã (o filho mais velho é pastor presbiteriano hoje…). No entanto, a consciência de meu pai não lhe permitia que ele deixasse aquele senhor já de meia-idade, crente fiel e zeloso, sob todos os aspectos temente a Deus, participar da Santa Ceia… Por quê? Óbvio: porque ele estava vivendo, na visão do meu pai, em adultério, e, portanto, em pecado… Na realidade, ninguém sabia se a primeira mulher do nosso amigo ainda existia ou se já havia morrido… Se ela já houvesse morrido, o nosso amigo seria viúvo e, portanto, poderia se casar de novo… Mas quem iria garantir que isso havia acontecido? Assim, em caso de dúvida, meu pai julgava contra o réu, não a favor dele… E o impedia de participar daquela que é chamada “A Ceia do Senhor”. Nos primeiros domingos do mês, no culto da noite, se celebrava a Santa Ceia. Nessa ocasião, o nosso amigo, crente assíduo e fiel, não vinha à igreja para não passar pelo constrangimento público de ver negada a sua participação na “Mesa do Senhor”… Desumano? Evidente. Não tenho dúvida acerca disso. Desumano e errado. Não sei como nosso amigo suportou a humilhação até a morte. Eu teria procurado outra igreja e outro pastor – ou teria abandonado a igreja de vez… Ele, não. Continuou na igreja – só fugia do constrangimento humilhante… Admirável a sua conduta, em especial quando vista em contraste com a do meu pai. Mas tenho certeza que sua consciência doía muito nos primeiros domingos do mês à noite, porque ela havia sido em grande parte moldada por aquele que na verdade era o seu algoz, o Rev. Oscar…

Meu pai era um presbiteriano fundamentalista. Quando jovem, havia sido católico romano fervoroso, participado da congregação mariana (hoje quase ninguém parece mais saber o que significava ser mariano, para um homem, ou filha de Maria, para uma mulher…). Mas ele era daqueles “ou tudo, ou nada”… Quando se desconverteu do catolicismo romano, e se converteu ao protestantismo presbiteriano, rejeitou tudo – ou assim ele pensava – que a Igreja Católica representava e passou a combatê-la com o fervor de um neófito zeloso, cujas atitudes beiravam o fanatismo… E passou a aceitar in totum a doutrina protestante-presbiteriana, na sua versão fundamentalista, como ele a entendia, então amplamente difundida e compartilhada. Dentro dessa visão, se alguém está vivendo com uma pessoa com quem não se casou, direitinho, segundo as leis da terra, no cartório, de papel passado, com uma penca de testemunhas, esse alguém está vivendo em pecado. Ou seja: nessa visão, o não cumprimento de uma lei humana implicava uma ofensa moral e espiritual (um pecado)… e cabia à igreja punir essa ofensa, ou, pelo menos, deixar claro que ela a tomava seriamente!

O Rubem Alves, num artigo que publicou há algum tempo, intitulado “A Praga”, escrito quando o Papa (acredito) ainda era outro, comentou:

“É bom atentar para o que o Papa diz. Porta-voz de Deus na Terra, ele só pensa pensamentos divinos. Nós, homens tolos, gastamos o tempo pensando sobre coisas sem importância tais como o efeito estufa e a possibilidade do fim do mundo. O Papa vai direto ao que é essencial: ‘O segundo casamento é uma praga!’

Está certo. O casamento não pertence à ordem abençoada do Paraíso. No Paraíso não havia casamento. Na Bíblia não há indicação alguma de que as relações amorosas entre Adão e Eva tenham sido precedidas pelo cerimonial a que hoje se dá o nome de casamento: o Criador, celebrante, Adão e Eva nus, de pé, diante de uma assembléia de animais, tudo terminando com as palavras sacramentais: ‘E eu, Jeová, vos declaro marido e mulher. Aquilo que eu ajuntei os homens não podem separar…’

Os casamentos, o primeiro, o segundo, o terceiro, pertencem à ordem maldita, caída, praguejada, pós-Paraíso. Nessa ordem não se pode confiar no amor. Por isso se inventou o casamento, esse contrato de prestação de serviços entre marido e mulher, testemunhado por padrinhos, cuja função é, no caso de algum dos cônjuges não cumprir o contrato, obrigá-lo a cumpri-lo.

Foi um padre que me ensinou isso. Ele celebrava o casamento. E foi isso que ele disse aos noivos: ‘O que vos une não é o amor. O que vos une é um contrato.’ Aprendi então que o casamento não é uma celebração do amor. É o estabelecimento de direitos e deveres contratuais. Até as relações sexuais são obrigações que devem ser cumpridas.

Agora imaginem um homem e uma mulher que muito se amam: são ternos, amigos, fazem amor, geram filhos. Mas, segundo a Igreja, estão em estado de pecado: falta ao seu relacionamento o selo eclesiástico legitimador. Ele, separado da antiga esposa, não pode se casar de novo porque a Igreja proíbe a praga do segundo casamento. Aí os dois, já no fim da vida, são obrigados a se separar para poder participar da eucaristia: cada um para um lado, adeus aos gestos de ternura… Agora está tudo nos conformes. Porque o Deus da igreja não enxerga o amor. Ele só vê o selo eclesial.

O Papa está certo. O segundo casamento é uma praga. Eu, como já disse, acho que todos são uma praga, por não ser da ordem paradisíaca mas da ordem da maldição. O símbolo dessa maldição está na palavra ‘conjugal’: do Latim, ‘com’= junto e ‘jugus’= canga. Canga, aquela peça pesada de madeira que une dois bois. O vínculo conjugal significa que, mesmo quando um dos cônjuges não quer mais estar junto do outro, a canga vai obrigá-lo, sob pena do ferrão divino…”

O artigo continua, e mais adiante citarei o que falta.

O Rubem Alves é, porque sempre foi, um protestante presbiteriano – mas nunca foi, que eu saiba, um protestante presbiteriano fundamentalista. Para ele, a instituição do casamento (ou do matrimônio, como preferem alguns) pertence não à “Cidade de Deus”, mas, sim, à “Cidade dos Homens” – aquela cidade que, segundo Agostinho, o inventor dessas expressões, é governada por “um bando de ladrões” – era assim que Agostinho via o governo (presciente o homem!). Como ressalta o Rubem Alves, não consta que Deus tenha celebrado o casamento de Adão e Eva no Paraíso… Deus simplesmente criou os dois e… bom, eles se encarregaram do resto. Em outras partes da Bíblia, no Novo Testamento, se esclarece que, no Céu, não haverá casamentos… Tudo isso parece corroborar a tese de que o casamento, como hoje o temos, é uma instituição humana, criada, como tantas outras, para arranjar e facilitar a nossa vida em sociedade – pelo menos em uma sociedade em que há propriedade privada, que deve ser transmitida por herança, etc.

A Igreja Católica Romana, porém, não acredita nisso. Continuo a citar o artigo do Rubem Alves.

“Por que o segundo casamento é uma praga para a Igreja Católica? Porque, para havê-lo, é preciso que o primeiro seja anulado pelo divórcio. Mas, se a Igreja admitir a anulação do primeiro casamento ela terá de admitir também que o sacramento que ela realizou não é aquilo que ela afirma ser: um ato realizado pelo próprio Deus. Permitir o divórcio equivale a dizer: o sacramento é uma balela. Donde, a Igreja é uma balela… Com o divórcio ela seria rebaixada do seu lugar infalível e passaria a ser apenas uma instituição falível entre outras. A Igreja não admite o divórcio não é por amor à família. É para manter-se veículo privilegiado das bênçãos divinas…

A Igreja, sábia, tratou de livrar seus funcionários da maldição do amor. Proibiu-os de se casarem. Livres da maldição do casamento, os sacerdotes têm a suprema felicidade de noites de solidão, sem conversas, sem abraços e nem beijos. Estão livres da praga…”

O artigo termina aí.

Há uma coisa, porém, que o Rubem Alves omite na sua interessante análise, a saber: o fato de que os diversos fundamentalismos protestantes, em geral extremamente críticos da Igreja Católica Romana, adotaram essa visão católica, sacramental, do casamento…

Para os protestantes não fundamentalistas, o casamento é uma instituição humana: pertence à “Cidade dos Homens”. A decisão de se casar é uma decisão inteiramente humana, tomada por um homem e uma mulher. Não é um ato no qual Deus tenha necessariamente participação. A igreja pode apenas, caso os nubentes assim o desejem, pedir a bênção divina sobre a união que se celebra (como, mal comparando, se pede a bênção divina sobre uma casa nova que se constrói ou um navio novo que se lança ao mar). Dentro desse entendimento, não é a igreja (ou Deus) que faz o casamento: a regulamentação da união é toda feita pelas leis da terra. A igreja apenas invoca a bênção de Deus sobre o casal. (Mesmo hoje, quando se faz um casamento religioso com efeito civil, o casamento é celebrado pelo pastor ou padre apenas porque as leis da terra facultaram à autoridade competente a delegação ao pastor ou ao padre do direito de celebrar casamentos).

Para os protestantes fundamentalistas, entretanto, o casamento é “divinizado”: ele deixa de ser apenas uma relação “biunívoca” entre um homem e uma mulher e passa a ser uma relação “triangular” entre um homem, uma mulher, na base, e, no vértice do triângulo, Deus. Quando o casamento se desfaz, rompe-se o triângulo e, assim, se desmancha não apenas a relação entre o marido e a mulher mas, para aquele considerado responsável pelo rompimento, também sua relação com Deus. Dentro dessa visão, o cônjuge responsável (“culpado”) pelo rompimento do elo matrimonial ofende não apenas o outro cônjuge, mas também a Deus – porque o casamento é, de fato, sacramentalizado.

As igrejas protestantes, mesmo as fundamentalistas, em geral se recusam a aceitar a tese católica romana de que o casamento é um sacramento, como o batismo e a eucaristia. Na prática, porém, as igrejas protestantes fundamentalistas endossam essa tese. Se esse cônjuge responsável pelo desfazimento de um casamento vier a se relacionar com outra pessoa, passa a ser considerado adúltero – embora tenha decidido encerrar o casamento antes de conviver maritalmente com a outra pessoa e até mesmo comunicado o fato ao cônjuge anterior. É por isso que ao nosso amigo, na igreja do meu pai, era negado o direito de participar da Santa Ceia, um sacramento oficialmente aceito pela Igreja Presbiteriana: porque ele havia violado o sacramento – oficialmente não aceito, mas na prática endossado por meu pai – do matrimônio… (Foi por isso que disse anteriormente que meu pai rejeitou tudo – ou assim ele pensava – que a Igreja Católica representava… Ele continuou aceitando a doutrina católica do casamento como sacramento). Dentro dessa visão, o cônjuge não considerado culpado pelo rompimento do vínculo matrimonial pode continuar a ter assento à “Mesa do Senhor” – ainda que seja mentiroso, ladrão, ou pior… (et qu’il y en a, il y en a…). Mas o considerado culpado, ainda que tenha uma vida impoluta, não pode… Essa a teologia do Rev. Oscar Chaves – que Deus lha perdoe.

Para os católicos romanos e os protestantes fundamentalistas, não basta que o amor seja infinito enquanto dure… eles querem torná-lo obrigatoriamente eterno. Mas como os amores em geral acabam, ou, pelo menos, são substituídos por outros maiores ou mais interessantes, surge o dilema: o que fazer? Os católicos romanos e os protestantes fundamentalistas em geral argumentam que o que deve ser feito é tentar “salvar o casamento” a qualquer custo. Isto implica, muitas vezes, tentar fazer, por uma série de mecanismos, e até mesmo artimanhas, com que um amor moribundo reviva, ou tentar convencer alguém a matar ou sublimar um grande amor em favor de um amor menor… O resultado é sofrimento… Sofrimento por causa da culpa – ou, pior, por causa da consciência de uma culpa que não deveria existir… É aí que se aplica como uma luva o dito alvesiano: a consciência por vezes é uma merda… Ela é, entre outras coisas, recipiente de um entulho religioso que deveria estar de muito ultrapassado.

Poderia parecer aos desavisados que aqueles que consideram o casamento como um contrato o vêem como uma instituição humana – afinal de contas, contratos podem ser rescindidos, e as leis terrenas da maioria dos países, inclusive do nosso, admitem hoje que o contrato matrimonial seja rescindido – até mesmo de comum acordo, consensual e amigavelmente, sem que seja necessariamente atribuída culpa a um dos cônjuges – e que um novo contrato seja estabelecido. Mas, como se pode perceber na frase do padre, citada por Rubem Alves, o contrato que católicos romanos e protestantes fundamentalistas vêem no casamento não é bilateral: é trilateral: Deus faz parte dele. Isso o torna irrompível.

Na verdade, os fundamentalistas protestantes às vezes são mais realistas do que o rei… Reconhecendo que, na prática, contratos são rompíveis, eles preferem falar, em relação ao casamento, não de contrato, mas de aliança (que é o símbolo material do casamento, quando, no Brasil, usada no dedo anelar esquerdo). Assim, para eles, mesmo que o contrato possa ser rompido, segundo as leis da terra, a aliança, celebrada pelo casal com Deus, é irrompível… O rompimento entre os cônjuges é sempre um rompimento também da aliança supostamente feita por ambos com Deus… Se esse rompimento se dá unilateralmente, por iniciativa de um dos cônjuges, este é visto como pecador… Se ele se separa oficiosamente e entra numa nova união (forçosamente também oficiosa) é adúltero… Se legal e oficialmente obtém o divórcio, e se casa de novo, tudo direitinho, segundo as leis da terra, ainda assim será visto como adúltero pela igreja (enquanto o cônjuge anterior ainda viver)…

Dentro visão católica romana e protestante fundamentalista, o contrato não é apenas um contrato terreno: é uma aliança sobrenatural, eterna. Mesmo que o amor acabe, o contrato-aliança tem de ser mantido, custe o que custar… Mesmo depois de o amor se ter ido, o contrato matrimonial permanece, tem de ser preservado a qualquer custo, mesmo na cláusula que exige dos cônjuges que se relacionem sexualmente um com o outro. (Não conheço outra defesa tão obscena do sexo sem amor como essa…)

É curioso que os protestantes fundamentalistas, que acusam os católicos romanos de toda sorte de erro, se unam a eles nessa visão do casamento, da separação, do divórcio, deixando de lado a visão mais sadia dos protestantes não fundamentalistas.

Acredito que tenha descoberto a razão…

Católicos romanos e protestantes fundamentalistas estão à busca de certezas… Quem se atrai a eles em geral está em busca de certezas… Não é à toa que os católicos tenham investido certos pronunciamentos do papa (sobre fé e prática, feitos ex cathedra) do atributo de infalibilidade… E também não é à toa que os protestantes fundamentalistas tenham atribuído característica semelhante (inerrância), não a pronunciamentos, mas à Bíblia Sagrada (devidamente expurgada de alguns livros que os católicos romanos aceitam e em geral interpretada de forma literal)… Ambos estão à busca de certezas, de coisas verdadeiras de forma absoluta, de sentimentos e relacionamentos eternos… No tocante ao casamento, esquecem-se de que sua base deve ser o amor, não a certeza, a infalibilidade, a inerrância – e que o amor, sendo sentimento, pode acabar… Ele não é imortal, posto que é chama – mas deve ser infinito enquanto dure (Vinicius de Moraes – o soneto é transcrito na íntegra adiante). [Vide adiante, também, em outro post, uma nova crônica, "Dois fatos importantes sobre o ser humano", publicada posteriormente].

Transcrevo parte de uma outra crônica do Rubem Alves, que me é muito cara, porque se refere a pássaros e gaiolas – e tenho, em meu coração, um lugar especial para seu livrinho A Menina e o Pássaro Encantado (que, por sinal, traduzi para o Inglês como The Little Girl and the Enchanted Bird):

“Escrevo hoje para os que casam, por medo de que, fascinados por um rito, se esqueçam do outro… . . .

O primeiro rito, sobre que todos sabem, e para o qual se fazem convites, é feito com pedras, ferro e cimento.

Mas há um outro rito, secreto, que se faz com o vôo das aves, com água, brisa, espuma e bolhas de sabão.

O primeiro rito nasceu de uma mistura de alegria e tristeza. Viram o vôo do pássaro, ficaram alegres. Mas logo o pássaro se foi e ficaram tristes. Não lhes bastava que a alegria fosse infinita enquanto durasse. Queriam que ela fosse eterna. E disseram: ‘Queremos o vôo do pássaro, eternamente.’ E que coisa melhor existe para conter o vôo do pássaro que uma gaiola? E assim fizeram. Engaiolaram o pássaro e chamaram os mágicos, ordenando-lhes que dissessem as palavras do bruxedo: ‘Para sempre, até que a morte os separe.’

A definição mais precisa desse rito, eu a ouvi da boca de um sacerdote. ‘Não é o amor que faz um casamento’, ele afirmou. ‘É o contrato’. Contratos são feitos de promessas.

Assustei-me. Sabia que assim era, no civil, casamento-contrato, rito frio da sociedade, para definir os deveres (sobre os prazeres se faz silêncio) e a partilha dos bens e dos males. Sociedade é coisa sólida. Precisa de pedra, ferro e cimento. Garantias. Testemunhas. Documentos. O futuro há de ser da forma como o presente o desenhou. Para isso, os contratos. E a substância do contrato são as promessas. Sim. Ele estava certo. ‘Não é o amor que faz o casamento. É o contrato’. São as promessas.

Promessas são as palavras que engaiolam o futuro. Por isso elas se fazem acompanhar sempre de testemunhas. Se o pássaro engaiolado, em algum momento do futuro, mudar de sentimento e de idéia e resolver voar, as testemunhas estão lá para reafirmar as promessas feitas no passado. O dito e contratado não pode ser mudado.

Muitas são as promessas que os noivos podem fazer: prometo dividir os meus bens, prometo não maltratá-la, prometo não humilhá-lo, prometo protegê-la, prometo cuidar de você na doença. Atos exteriores podem ser prometidos.

Assim se fazem os casamentos, com pedra, ferro, cimento – e, espera-se, amor.

Mas as coisas do amor não podem ser prometidas. Não posso prometer que, pelo resto da minha vida, sorrirei de alegria ao ouvir seu nome… Não posso prometer que, pelo resto de minha vida, sentirei saudades na sua ausência…

Sentimentos não podem ser prometidos. Não podem ser prometidos porque não dependem da nossa vontade. Sua existência é efêmera. Só existem… enquanto existem! Como o vôo dos pássaros, o sopro do vento, as cores do crepúsculo.

O casamento contratual é um rito de adultos, porque somente os adultos desejam que o futuro seja igual ao presente. A sua gravidade, a sua seriedade, os passos cadenciados, processionais, as suas roupas, as suas máscaras, as palavras sagradas, definitivas, para sempre, o que Deus ajunta os homens não podem separar, a exaltação dos deveres: tudo dá testemunho de que esse é um ritual adulto.

O outro ritual, entretanto, se faz com o vôo das aves, com água, espuma e bolhas de sabão. É secreto, para ele não há convites. Secreto foi o casamento de Abelardo e Heloísa, o mais belo amor jamais vivido – o mais belo, mas proibido… Para esse tipo de amor não há convites, nem lugar certo, nem hora marcada: ele simplesmente acontece.

‘Amor é dado de graça, é semeado no vento, na cachoeira, no eclipse…’ (Drummond). Esse tipo de amor não precisa de altares: sempre que ele acontece o arco-íris aparece: a promessa de Deus, porque Deus é amor. Pode ser a sombra de uma árvore, um carro, uma cozinha, um banco de jardim, um vagão de trem, um aeroporto, uma mesa de bar, uma caminhada ao luar…

Não há promessas para amarrar o futuro. Há confissões de amor para celebrar o presente. ‘Como és formosa, querida minha, como és formosa! Há mel debaixo da tua língua!’, ‘O teu rosto, meu amado, é um canteiro de bálsamo e os teus lábios são lírios…’ (Bíblia Sagrada); ‘Eu sei que vou te amar, por toda a minha vida eu vou te amar, em cada despedida eu vou te amar, desesperadamente eu sei que vou te amar…’ (Vinícius); ‘Eu te amo, homem, amo o teu coração, o que é, a carne de que é feito, amo tua matéria, fauna e flora… Te amo com uma memória imperecível’ (Adélia Prado).

E os convidados, muito poucos, vestem-se como crianças: pés descalços, balões coloridos nas mãos: eles sabem que o amor fica somente se permanecermos crianças, eternamente…

‘Ego conjugo vobis in matrimonium’, diz um velho com rosto de criança.

Para vós invoco os prazeres que voam nos ventos e as alegrias que moram nas cores: beleza, harmonia, encantamento, magia, mistério, poesia: que essas potências divinas lhes façam companhia.

Que o sorriso de um seja, para o outro, festa, fartura, mel, peixe assado no fogo, coco maduro na praia, onda salgada do mar…

Que as palavras do outro sejam tecido branco, vestido transparente de alegria, a ser despido por sutil encantamento.

E que no final das contas e no começo dos contos, em nome do nome não-dito, bem-dito, em nome de todos os nomes ausentes e nostalgias presentes, de ágape e filia, amizade e amor, em nome do nome sagrado, do pão partido e do vinho bebido, sejam felizes os dois, hoje, amanhã e depois…”

Que coisa mais linda… mais protestantemente linda. Mas os católicos romanos a refugam. Infelizmente, os protestantes fundamentalistas ficaram, nesse aspecto, do lado dos católicos e tentaram até mesmo ir adiante, com sua doutrina da aliança matrimonial. Para eles, casamento é contrato, aliança. Trouxeram Deus para o casamento na forma de gaiola – não na forma do canto e da beleza do pássaro. Trouxeram Deus para o casamento para tentar eternizar e engaiolar o amor – esquecendo-se de que o amor só sobrevive em liberdade, e deixando de lado o fato de que, no Novo Testamento, Deus é um Deus de amor, não um Deus de contratos, pactos e alianças, como era o Deus do Antigo Testamento…

“Ama”, disse Agostinho, o mais protestante dos pais da igreja, que antecedeu o protestantismo em mais de mil anos, “e faze o que quiseres”.

Como prometi…

Soneto de Fidelidade

Vinicius de Moraes

De tudo ao meu amor serei atento
Antes, e com tal zelo, e sempre, e tanto
Que mesmo em face do maior encanto
Dele se encante mais meu pensamento.

Quero vivê-lo em cada vão momento
E em seu louvor hei de espalhar meu canto
E rir meu riso e derramar meu pranto
Ao seu pesar ou seu contentamento

E assim, quando mais tarde me procure
Quem sabe a morte, angústia de quem vive
Quem sabe a solidão, fim de quem ama

Eu possa me dizer do amor (que tive):
Que não seja imortal, posto que é chama
Mas que seja infinito enquanto dure.

(Vinicius de Moraes, "Antologia Poética", Editora do Autor, Rio de Janeiro, 1960, pág 96.)

Em São Paulo, 13 de Fevereiro de 2009 – Sexta-Feira 13.

Uma nova Escola Lumiar

Foi inaugurada ontem, 2 de Fevereiro de 2009, no bairro “rururbano” do Lageado, em Santo Antonio do Pinhal, SP, a terceira Escola Lumiar. Com uma novidade: esta é uma Escola Bilíngüe: Português-Inglês.

A Escola Lumiar Internacional do Lageado começa pequena – mas tem tudo para crescer (dentro dos parâmetros da região). É uma escola particular, mas não lucrativa. Será uma grande contribuição para a região do Vale do Paraíba e um grande desafio para o Instituto Lumiar, que tenho o privilégio de presidir, que é responsável pela orientação pedagógica da escola.

A Escola surge de uma parceria entre Ricardo e Fernanda Semler, da Fundação Ralston Semler, e Flávio e Gláucia Zuffellato, moradores da região há muito tempo. A Coordenação Pedagógica geral é de Paloma Machado, do Instituto Lumiar. Érika Júlio é a Diretora da Escola, e Bruna Ortiz é a principal educadora bilíngüe.

As instalações da escola estão em duas casas que foram totalmente renovadas e unidas, e que ficam num terreno amplo, no centrinho do Lageado, com um laguinho, uma piscina e um playground, além de um amplo espaço coberto e descoberto. A escola fica ao lado do Posto de Saúde do Lageado e da igreja local, e do outro lado da Escola Lumiar Municipal do Lageado, que é mantida em convênio com a Prefeitura de Santo Antonio do Pinhal. As duas escolas são separadas pelo campo de futebol municipal que existe no bairro, que, por acordo com a Prefeitura, será usado para atividades recreativas e de educação física.

Eis algumas fotos da escola e do dia da inauguração.

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No Lageado, em Santo Antonio do Pinhal, 2 de Fevereiro de 2009

Pittsburgh Steelers: hexacampeões nacionais de futebol (americano) [como, aqui, o glorioso SPFC (em futebol de verdade)]

Notícia da Folha de S. Paulo de hoje. Agora tenho o privilégio de ser bi-hexa… 🙂 Será que é meu karma que meus times sejam hexa-campeões nacionais???

02/02/2009 – 01h10

Steelers vencem Super Bowl das viradas e se tornam "os maiores"

Do UOL Esporte
Em São Paulo

Numa das mais emocionantes e imprevisíveis decisões dos últimos tempos, o Pittsburgh Steelers se consagrou como a equipe mais vencedora da história da NFL (sigla em inglês para liga de futebol americano). O time do lançador Ben Roethlisberger e do técnico Mike Tomlin derrotou o Arizona Cardinals neste domingo por 27 a 23 em Tampa e se isolou como o grande nome do Super Bowl. O título só veio no último quarto, depois de duas viradas no placar.

JOGADA HERÓICA NO 2º QUARTO

Gene J. Puskar/AP

Harrison atravessa o campo após interceptar passe de Warner e marca o touch down

John Bazemore/AP

Em seguida, defensor dos Steelers recorre ao oxigênio para recuperar suas forças

Com o título na edição 43 da final da NFL, os Steelers superam Dallas Cowboys e San Francisco 49ers e chegam ao sexto título no Super Bowl. Derrotados em sua primeira aparição na final, o Arizona por sua vez continuam sem os famosos anéis de campeões do futebol americano.

Foi o triunfo de uma equipe mais eficiente na defesa, com um quarterback consistente e que explora basicamente os lançamentos em curta distância, sobre o segundo melhor ataque da NFL, com um lançador que arrisca demais e prioriza os passes de longa distância. No caso, Kurt Warner, campeão com o Saint Louis Rams em 2001.

Mais cauteloso e 11 anos mais jovem que Warner (37), "Big Ben" Roethlisberger faturou seu segundo título (havia triunfado com o Pittsburgh em 2006, como mais jovem quarterback campeão) apoiado em seu jogo de avanços precisos de curta e média distância.

O Pittsburgh foi o time que menos cedeu jardas aos adversários através de passes com uma média de 156,9 jardas durante a temporada regular. Para se ter uma ideia, o segundo foi o Baltimore Ravens com 179,7. Nas corridas, os Steelers chegaram à decisão com a segunda melhor defesa, cedendo apenas 80,2 jardas em média aos rivais. Com isso, o time foi o que menos sofreu pontos na primeira fase e teve um trabalho vital do setor para eliminar San Diego Chargers e Baltimore Ravens nos playoffs, antes do Super Bowl de Tampa.

Em tempos de Barack Obama na presidência dos Estados Unidos, o técnico Mike Tomlin também cravou neste domingo seu nome na história do esporte mais popular do país, ao se tornar o segundo treinador negro campeão da NFL.

O título dos Steelers veio mesmo com a atuação espantosa do wide receiver Larry Fitzgerald, responsável por dois touch downs a favor dos Cardinals. Fitzgerald é o recordista na história de anotações em playoffs.

Em campo no primeiro quarto, o Pittsburgh chegou à end zone dos Cardinals logo na primeira incursão ao ataque, graças a um avanço do lançador Ben Roethlisberger. No entanto, a arbitragem decidiu anular o touch down, depois de rever a jogada pela TV, alegando que o camisa 7 dos Steelers tocou o joelho no solo antes de cruzar a linha final.

Mesmo assim, o time de Pittsburgh conseguiu inaugurar o placar no mesmo ataque, com um field goal de 18 jardas de Jeff Reed.
Os Steelers chegaram à vantagem de 10 a 0 logo no começo do segundo quarto. Perto da end zone, Roethlisberger optou pelo trabalho com o running back Gary Russel, que assegurou mais seis pontos aos Steelers. Em seguida, o chute do ponto extra consolidou os dois dígitos no placar.

Os Cardinals esboçaram uma reação logo depois, com o desabrochar de Warner. Primeiro, o lançador achou Anquan Boldin, que efetuou avanço de 45 jardas. Em seguida, Ben Patrick entrou na end zone e conferiu equilíbrio ao Super Bowl. Somado ao ponto extra, o Arizona diminuiu a diferença para 10 a 7.

A primeira jogada crucial para a definição do jogo aconteceu nos segundos finais do segundo quarto. O defensor dos Steelers James Harrison interceptou um passe de Warner na end zone contrária e correu o campo todo, de ponta a ponta para fazer touch down e aumentar a vantagem para seu time. Após o esforço, Harrison desabou no chão e, instantes depois, teve que recorrer ao balão de oxigênio para recobrar as forças.

John Mabanglo/EFE

Santonio Holmes foi o herói do último quarto, ao efetuar o touch down decisivo

Após o intervalo, os Steelers continuaram soberanos na defesa e conseguiram ampliar a vantagem com mais um field goal. Mas o instante de suspense veio no fim, quando Larry Fitzgerald, wide receiver estrela dos playoffs, pegou passe de Warner para dar mais um touch down ao Arizona.

A reação dos Cardinals ganhou força nos minutos finais, quando a arbitragem detectou uma infração em uma ação de ataque do Pittsburgh dentro da end zone. Ou seja, o Arizona ganhou dois pontos e mais uma posse de bola.

Em seguida, Warner conectou passe com o cabeludo Fitzgerald, que se desvencilhou da marcação dos Steelers e chegou à end zone inimiga em uma progressão de 64 jardas.

Mas quando tudo apontava para o título inédito dos Cardinals, Roethlisberger conseguiu empurrar o Pittsburgh para uma improvável virada. Quase saindo de suas características, o lançador arriscou e, no passe final, achou Santonio Holmes na end zone para selar o dramático 6º título dos Steelers. A jogada acabou dando a Holmes o título de MVP (sigla para jogador mais valioso) da final.

Pouco mais de 72 mil pessoas acompanharam a partida no Raymond James Stadium e viram, além da vitória do Pittsburgh, o show do intervalo com o veterano cantor Bruce Springsteen. As imagens do Super Bowl 43 foram levadas para mais de 230 países ao redor do mundo.

PONTOS DO SUPER BOWL 43

PRIMEIRO QUARTO

STEELERS 3 a 0 – Kicker Jeff Reed converte field goal de 18 jardas e coloca o Pittsburgh logo de cara em vantagem.

SEGUNDO QUARTO

STEELERS 10 a 0 – O running back Gary Russel, recebe perto da end zone e faz o 1º touch down do jogo. O ponto extra consolida dois dígitos de vantagem dos Steelers.


CARDINALS reagem.. 10 a 7 –
Ben Patrick foi acionado por Kurt Warner e ingressa na end zone para marcar seis pontos. O ponto extra ainda ajuda a colocar o Arizona no jogo.

STEELERS 17 a 7 – O defensor James Harrison intercepta passe de Warner e corre o campo todo para fazer incrível touch down.

TERCEIRO QUARTO

STEELERS 20 a 7 – Jeff Reed converte mais um field goal e aumenta a vantagem do Pittsburgh

ÚLTIMO QUARTO

CARDINALS diminuem 20 a 14- Mesmo marcado em cima, Larry Fitzgerald pega passe diagonal de Warner para dar mais um touch down ao Arizona.

CARDINALS equilibram.. 20 a 16- Arbitragem detecta infração de ataque na end zone dos Steelers e concede

CARDINALS viram.. 23 a 20- Warner conecta passe com Fitzgerald, que se livra da marcação na corrida para fazer mais um touch down

STEELERS retomam o placar 27 a 23 – Roethlisberger arrisca e acha Santonio Holmes no limite lateral da end zone. É a jogada do título, com direito ao último extra point da temporada

Transcrito no Lageado, em Santo Antonio do Pinhal, 2 de Fevereiro de 2009