“Chega de saudade”

Não sou pessedebista. Na verdade, não sou afiliado ou simpatizante de partido político nenhum. Mas considero o Editorial da Folha de hoje perfeito. Ele está transcrito adiante. Endosso-o em sua totalidade.

Só acrescento o registro que boa parte das mudanças que resultaram na liberalização econômica do Brasil, e colocaram o Brasil na trilha do desenvolvimento econômico, foram feitas por Fernando Collor de Mello. Até o seu governo nossos cartões de crédito tinham uma tarja que dizia “Valid only in Brazil”. Foi ele que chamou os carros feitos pelas quatro montadoras que tinham o monopólio (na realidade, um oligopólio) da fabricação de automóveis no Brasil de carroças – e abriu o mercado para outras montadoras, criando um clima de concorrência do qual nos beneficiamos até hoje.

Itamar Franco deu continuidade à obra de Collor – e teve o mérito de nomear Fernando Henrique Cardoso Ministro da Economia. Foi FHC, como ministro de Itamar, que implantou o Plano Real.

Lulla se beneficiou de tudo isso – que chamou de “herança maldita”.

Crédito a quem crédito é devido.

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Folha de S. Paulo
07 de Março de 2010

Editoriais
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Chega de saudade

A candidata oficial erra ao voltar-se para o passado com o intuito de forjar uma revanche na disputa particular de FHC e Lula

EM SEU PRIMEIRO discurso depois de deixar a Casa Civil, a candidata Dilma Rousseff insistiu na tentativa de comparar o atual governo com o anterior.

Não se sabe o que pesa mais nessa estratégia enviesada, se a obsessão íntima do presidente Luiz Inácio Lula da Silva de se medir com o antecessor Fernando Henrique Cardoso ou a percepção de que é mais vantajoso para a representante da situação transformar eleições que decidem o futuro do país em avaliação de fatos passados.

Não é demais lembrar que um brasileiro com 18 anos completados em 2010 comemorava 10 ao término do governo FHC – e era uma criança de dois anos quando o sociólogo tucano assumiu.

Esse hipotético cidadão não terá idade para lembrar em que país se vivia no início da década de 90. Mas, se procurar informações, saberá que coube a FHC, na sequência do impeachment de Fernando Collor, e ainda no governo de Itamar Franco, lançar um plano -depois de várias tentativas frustradas- capaz de superar o perverso ciclo hiperinflacionário que havia anos dilapidava a economia popular e impedia o desenvolvimento do país.

Se pretende incursionar pelo passado, poderia a candidata lembrar a seus potenciais eleitores que o Partido dos Trabalhadores negou sustentação ao presidente Itamar Franco e bombardeou o Plano Real. Ou seja, opôs-se de maneira pueril e ideológica a uma das mais notáveis conquistas econômicas da história moderna do país, que propiciou aos brasileiros pobres benefícios inestimáveis, sob a forma de imediato aumento do poder aquisitivo e inédito acesso ao sistema bancário.

Sabe bem a ex-ministra que se alguém nesses anos mudou de pele foi antes o PT do que o PSDB. O que terá sido a famosa "Carta aos Brasileiros" senão uma providencial e pública troca de vestimenta ideológica do candidato Lula -que, eleito, sob aplausos do mundo financeiro, indicou um tucano para o Banco Central (agora no PMDB) e um ex-trotskista com plumagem neoliberal para a Fazenda?

É um exercício vão buscar comparações e escolhas plebiscitárias entre gestões que se encadeiam no tempo. Os avanços e problemas de uma transformam-se em acúmulo ou em fatos acabados na outra. Ou será que faz sentido questionar como teria sido a gestão lulista se tivesse de formular um plano para vencer a hiperinflação, precisasse sanear instituições financeiras públicas e se visse obrigada a estancar uma crise sistêmica dos bancos privados nacionais?

O Brasil precisa pensar e agir com olhos no futuro. Nada tem a ganhar com a tentativa da candidatura governista de forjar uma revanche de disputas pretéritas. Se o presidente Lula não venceu a contenda com Fernando Henrique Cardoso em 1994 não será agora que o fará -pelo simples motivo de que nenhum dos dois é candidato. O governo que se encerra neste ano teve méritos inegáveis, mas muitos deles, é forçoso reconhecer, nasceram de sementes plantadas no passado.

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Em São Paulo, 7 de Abril de 2010
[Obrigado a Gilmar Rocha que, no Facebook, corrigiu dois errinhos meus. Um na data,que eu havia colocado 7 de Março de 2010, e outro no "monopólio" de quatro empresas que, na realidade, é um oligopólio].

A ditadura lingüística do Politicamente Correto

O Politicamente Correto é uma ditadura lingüística que especifica, em detalhes, o que podemos e o que não podemos dizer…

Começou nos Estados Unidos, espalhou-se pelo Canada e pela Europa, chegou ao Brasil já faz algum tempo.

Aqui, por volta de 2005, a Secretaria de Direitos Humanos (a mesma que está tentando agora rever a Lei da Anistia) tentou distribuir uma Cartilha do Politicamente Correto que considerava discriminatório até mesmo o termo “anão”. Cinco mil volumes já estavam impressos quando alguns ministros conseguiram convencer o Presidente Lulla a mandar a cartilha para o lixo. O principal argumento usado foi o de que a cartilha considerava impróprios vários termos que o próprio Lulla usava freqüentemente…

Nos Estados Unidos há várias “Cartilhas do Politicamente Correto” publicadas – mas elas são todas sátiras da iniciativa, gozações bem feitas dirigidas aos acadêmicos e militantes políticos que defendem o Politicamente Correto. Aqui no Brasil o que é piada nos Estados Unidos vira coisa séria.

No Brasil, recentemente, saiu uma cartilha especificando como devemos e como não devemos nos referir a Gays, Lésbicas, Bissexuais, Transsexuais, etc. e a outros aspectos da sexualidade.

Ainda falando de nossa Terra Brasilis, aquela peça de anacronismo que é o deputado Aldo Rebello, do PCdoB, tentou nos impor uma dose maior de patriotismo e brasilidade nos proibindo de usar termos estrangeiros. Pelo jeito ele pensava que, proibindo-nos de usar termos em Inglês, a gente admiraria menos os EUA e o capitalismo. Tudo loucura de esquerdista desvairado…

Esses esforços, estrangeiros e tupiniquins, de incutir valores reformando a linguagem, fazem lembrar o livro 1984, de George Orwell, bastante conhecido como “utopia negativa” da sociedade totalitária. Ele instituía a “novilíngua” (“newspeak”), a que todos deveriam se conformar. Esperava-se reformar a mente das pessoas reformando a linguagem que elas falavam…

Junto com a reformulação da linguagem, veio a reformulação dos contos infantis. Histórias como Chapeuzinho Vermelho, Branca de Neve, etc., foram reescritas para eliminar linguagem e imagens politicamente incorretas. Vira e mexe, alguém acusa Monteiro Lobato de racista…

Os patrulheiros do politicamente correto estão ativos no Brasil. Como mostra o artigo abaixo, de Luiz Felipe Pondé, estão tentando tirar o cachimbo da boca do Saci, para tornar o afrodescendente de locomoção limitada mais correto do ponto de vista político, que hoje condena o fumo…

Abaixo o texto de Pondé. Um protesto lúcido.

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Folha de S. Paulo
5 de Abril de 2010

LUIZ FELIPE PONDÉ
De 1984 a 2010


Tiraram o cachimbo do Saci. Amante de charutos cubanos, me senti diretamente afetado

NO ROMANCE “1984”, de George Orwell, o personagem principal trabalha alterando os arquivos históricos para moldar as consciências para o bom convívio social. Chegamos à época em que essa distopia (contrário de utopia) virou realidade. Só que, desta vez, pelas mãos dos herdeiros dos projetos utópicos “mais bem- intencionados”.

Porém, antes, um reparo. A política é um mal necessário, mas existem formas e formas de política. A minha pode ser entendida como uma política herdada de autores como Isaiah Berlin, filósofo e historiador das ideias do século 20, judeu nascido em Riga, Letônia, radicado na Inglaterra. Em matéria de política, prefiro sempre os britânicos aos franceses ou alemães. Tal como ele diz em seu recém-publicado no Brasil “Idéias Políticas na Era Romântica” (Cia. das Letras), prefiro a liberdade à felicidade.

A felicidade se declina no plural, porque os valores são conflitantes e não acredito em nenhuma forma de resolver essas diferenças. A melhor sociedade é a sociedade na qual ninguém tem razão (ninguém sabe a verdade definitiva sobre o bem e o mal), mas um número significativo de pessoas consegue conviver razoavelmente, mesmo sem saber a verdade sobre o bem e o mal.

O furor coletivo de “verdades do bem” deve ser mantido sob controle rígido assim como delírios de um serial killer numa noite de calor insuportável. A sociedade é o lugar do apenas tolerável.

E a profecia de Orwell? Todo mundo já tinha ouvido falar que na China o governo estaria alterando os livros de história das escolas para que a Revolução Cultural Chinesa (uma das maiores monstruosidades cometidas na história da humanidade) desaparecesse da memória das gerações mais jovens. Vale lembrar que muitas das pessoas que entre nós se preparam para assumir o governo concordavam com aquelas atrocidades: matar, saquear, sequestrar gente inocente.

Mas o que dizer de países democráticos como o Canadá? Recentemente, estudantes e professores “amantes da liberdade” quase lincharam uma intelectual americana, Ann Coulter, e impediram que ela falasse numa universidade. Não ouvi nenhum dos intelectuais de plantão defendê-la. Era de esperar que muitas mulheres do mundo das letras não o fizessem, uma vez que ela é loira e gostosa, pecados imperdoáveis para intelectuais feias e azedas. A causa da fúria da “comunidade intelectual” da universidade no Canadá era porque essa loira conservadora é conhecida por não rezar na cartilha dos opressores “do bem”.
O Canadá é um dos países mais totalitários no que se refere à repressão ao uso livre da linguagem e à crítica aos costumes da nova casta fascista que empesteia o mundo.

Lá, de repente, você pode ser preso porque usou uma palavra que esta casta julga inapropriada. Toda vez que estamos diante do controle oficial da língua, estamos diante de um regime opressor.

Mas fiquemos em nossa cozinha e deixemos os canadenses afogados em seu fascismo do detalhe.

Outro dia vi na mão de uma colega uma foto do “novo Saci”. Tiraram o cachimbo da boca do Saci. Eu, que sou um amante de cachimbos e charutos cubanos (e viva la Revolución!!), me senti diretamente afetado. Meu irmão de fé, o Saci, está sendo reprimido. A ideia é que, com cachimbo, ele é um mau exemplo para as crianças. Imagino que esses caras acham que bom exemplo é mulher vestida de homem coçando o saco.

Outro caso recente é a perseguição a velhas cantigas de roda e histórias infantis. Por exemplo, o “atirei o pau no gato” deve virar “não atire o pau no gato” para que as crianças não cresçam espancando gatos por aí. O fascismo “verde” chega ao ponto de tirar das crianças uma música divertida para torná-las defensoras dos gatos.

Lembro-me de meninas na minha infância que cantavam essas músicas e ainda assim choravam quando os meninos ensaiavam torturar pequenos animais só para vê-las chorar e assim chegar perto delas. Como era bom jogar baratas mortas no lanche das meninas só para ver elas pularem deliciosamente das suas cadeiras em lágrimas.

O Lobo Mau não pode mais ser mau e comer a vovozinha da Chapeuzinho Vermelho. Muito menos o Caçador pode salvá-la, porque estaria estimulando às meninas sonharem com príncipes encantados. O novo fascismo quer que os lobos sejam bonzinhos (pobres lobos) e que as meninas não sonhem com caçadores que as protejam (coitadas).

Sim, 1984 é agora.

ponde.folha@uol.com.br

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Em São Paulo, 5 de Abril de 2010

Sobre o direito de que se esqueça o que dissemos e fizemos

Escrevi sobre este assunto aqui, recentemente, dois artigos. Um, a propósito da carta de uma leitora da Folha que solicitava ao Ombudsman que intercedesse junto à Redação do jornal para remover, da versão digital, disponível na Internet, uma referência a algo que ela disse, anos atrás, e de que agora discorda e que está lhe causando problemas na vida pessoal e profissional. O outro, sobre um livro (Total Recall [O Futuro da Memória] escrito por dois funcionários da Microsoft Research.

Vide:

O Memorioso e o Pensoso…

https://liberal.space/2010/02/14/o-memorioso-e-o-pensoso…

Ainda sobre o Memorioso…

https://liberal.space/2010/02/20/ainda-sobre-o-memorioso…

O assunto, pelo jeito, está finalmente começando a ocupar a atenção das pessoas.

Acho o assunto fascinante.

Vide, a seguir, a entrevista de Viktor Mayer-Schönberger, e, abaixo, a indicação do livro que ele escreveu. Ele “defende a virtude do esquecimento na era digital e diz que ‘tudo o que é arquivado na rede deve sair do ar em algum momento’”. Em outras palavras: aquilo que é arquivado na Internet deveria ter um prazo de arquivamento, depois do qual seria simplesmente deletado. Nossa ficha, na Internet, iria sendo limpada quando as informações nela contidas completassem x anos (digamos, dez)… Mas não seria só a ficha na Internet: os dados relacionados a nós… Depois de x anos, registros sobre o que escrevemos e fizemos seriam simplesmente apagados. Os registros dos diplomas que duramente obtivemos desapareceriam… Os registros sobre os casamentos e outros contratos que firmamos, seriam deletados. Os registros sobre os crimes que cometemos, sumiriam. Os nazistas históricos (se é que restam alguns ainda) seriam tacitamente reabilitados… A vida começaria de novo, apenas com uma defasagem de (digamos) dez anos. Ficaríamos, por assim dizer, crianças de novo, de ponto de vista da memória escrita e registrada.

Interessante. Pouco viável, mas interessante.

E a memória que mora dentro de nós… Será que conseguiríamos esquecer assim tão fácil? É verdade que esquecemos muito e fácil, sem querer. Mas há coisas que não esquecemos, mesmo querendo, mesmo fazendo muito esforço… O que fazer com essas memórias que nos habitam?

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Folha de S. Paulo
5 de Abril de 2010

ENTREVISTA DA 2ª – VIKTOR MAYER-SCHÖENBERGER
Esquecer limpa a mente, ajuda a abstrair e a generalizar

Pesquisador da sociedade da informação defende a virtude do esquecimento na era digital e diz que “tudo o que é arquivado na rede deve sair do ar em algum momento”

DANIELA ARRAIS
DA REPORTAGEM LOCAL

Esquecer sempre foi fácil: costumava ser o comportamento padrão diante das tantas vidas que precisam caber em uma só. Lembrar de cada aniversário, início de namoro -e seus consequentes corações partidos-, promoção de emprego, tudo bem. Mas armazenar na memória todos os detalhes dos anos que se passam não era possível nem para aqueles humanos considerados mais evoluídos. Até o momento em que a internet transformou essa utopia em realidade.

Com custos de armazenamento de dados cada vez mais baixos, a era digital modificou completamente a relação do homem com a memória. É tão barato guardar gigabytes de fotos, textos e vídeos que são poucas as pessoas que escolhem o que realmente querem ter para sempre. Elas esquecem, no entanto, que as informações colocadas na rede são difíceis de deletar -sites como o Wayback Machine são capazes de encontrar, em segundos, aquilo que você achava que tinha apagado.

Em consequência, os erros do passado não ficam mais restritos àquele tempo e podem voltar a nos assombrar a qualquer momento.

Precisamos mesmo disso? O pesquisador Viktor Mayer-Schöenberger acredita que não.

Autor do livro Delete – The Virtue of Forgetting in the Digital Age (Delete – A Virtude de Esquecer na Era Digital; Princeton University Press, US$ 24,95), ele afirma que a “limpeza” que o cérebro faz constantemente é uma virtude, e não uma limitação. É o que nos permite uma atitude tão simples quanto essencial: a de seguir em frente.

A seguir, leia a entrevista que Viktor Mayer-Schöenberger concedeu à Folha por e-mail.

FOLHA – A internet está tornando difícil o ato de esquecer informações?

VIKTOR MAYER-SCHÖENBERGER – Não é só a internet, mas a combinação com a digitalização, que nos permite usar as mesmas ferramentas tecnológicas para processar, armazenar e disseminar diferentes fluxos de informação, incluindo imagens, áudio e vídeo. Isso cria fortes economias de escala, o que tem facilitado uma queda dos custos de armazenagem. Hoje é mais barato armazenar todas as imagens digitais em um disco rígido, em vez de gastar alguns segundos para decidir se quer manter uma foto digital ou excluí-la. Adicione a isso grandes avanços na recuperação da informação, bem como uma rede digital global, a internet, para acesso ao armazenamento digital, e você tem uma situação em que a lembrança é o padrão, e esquecer, a exceção.

FOLHA – No seu livro, você fala sobre o papel de lembrar e a importância de esquecer. Pode explicar isso?

MAYER-SCHÖENBERGER – Durante toda a história da humanidade, o esquecimento tem sido fácil para nós. Ele é construído em nosso cérebro: a maior parte do que nós experimentamos, pensamos e sentimos é esquecida rapidamente. E (principalmente) com uma boa razão: essas coisas não são mais relevantes para nós, e esquecer limpa a mente. Esquecer nos ajuda a abstrair e a generalizar, a ver a floresta em vez das árvores, e a viver e agir no presente, em vez de ficar amarrado a um passado cada vez mais detalhado. Esquecer nos ajuda a evoluir, a crescer, a seguir em frente -para aprender novas coisas.

Pelo esquecimento, a nossa mente se alinha com o nosso passado, com nossas preferências do presente, tornando mais fácil a sobrevivência e a vida suportável.

Pelo esquecimento, também facilitamos a nossa capacidade de perdoar os outros por seus comportamentos.

O que é verdadeiro para indivíduos também é verdadeiro para a sociedade em um aspecto mais amplo. As sociedades devem ter a capacidade de perdoar indivíduos esquecendo o que eles fizeram, reconhecendo, deste modo, que os seres humanos têm a capacid
ade de mudar e de crescer.

FOLHA – Em seu livro, você diz que a memória perfeita altera nosso comportamento. Como isso acontece?

MAYER-SCHÖENBERGER – A memória perfeita tem dois potenciais efeitos de congelamento. O primeiro é em relação à sociedade. Se tudo o que dizemos e fazemos hoje puder ser usado contra nós em um futuro distante, acabando com a possibilidade de conseguirmos um emprego melhor ou um relacionamento melhor, muitos de nós vamos começar a nos censurar sobre o que fazemos e dizemos on-line hoje. A memória perfeita criará um pan-óptico temporário -o oposto exato do que precisamos em uma sociedade democrática baseada em robustos debates cívicos.

Minha segunda preocupação recai sobre a nossa capacidade de decidir e agir no presente.

Pessoas com memória perfeita reclamam que sua tomada de decisão é dificultada por sua incapacidade de verter o passado -recordar todo o nosso passado empurra-nos para que nos tornemos indecisos.

Nós devemos saber em que medida a memória perfeita usurpa nossas vidas. Algumas vezes, a memória pode ser útil, mas será que eu realmente preciso buscar no Google o nome de todo mundo antes de encontrar essas pessoas?

FOLHA – A memória é construída tanto pelo que aconteceu quanto pelo que não aconteceu. É parte da evolução humana criar histórias, misturá-las, mentir até. A total capacidade de armazenar informação pode afetar os afetos?

MAYER-SCHÖENBERGER – Sim, certamente. Nossa memória humana não é fixa. Ela é constantemente reconstruída com base em nossas preferências e valores presentes. Isso reduz a dissonância cognitiva e nos permite viver profundamente enraizados no presente. Se percebemos que a nossa memória humana não é perfeita e começamos a confiar em memórias digitais mais do que na nossa, três terríveis consequências podem seguir: (a) podemos acreditar que o que é capturado digitalmente e lembrado é o registro completo, embora não seja (muito pode não ter sido capturado digitalmente); (b) nós podemos nos tornar dependentes da memória digital e quem quer que seja que controla essa memória digital poderá ter o poder de reescrever a história; (c) se percebermos que a memória digital também pode não ser confiável, podemos desistir da história e da memória completamente -uma espécie arrancada sem passado.

FOLHA – Quais são os riscos de termos todas as informações disponíveis na nuvem computacional?

MAYER-SCHÖENBERGER – Se a privacidade dos indivíduos na rede falhasse em massa, todo mundo seria exposto, e a privacidade desapareceria. O sociólogo Goffman tem uma fala famosa sobre a necessidade de os seres humanos terem mais de uma fase em suas vidas. Por exemplo: uma fase para frente e uma fase para trás. Se todos os dados podem ser vistos por todos, a diferenciação desses estágios entraria em colapso, com tensões inimagináveis.

FOLHA – Nós precisamos pensar antes de começar a espalhar tanta informação por aí?

MAYER-SCHÖENBERGER – Sim, nós precisamos pensar. Mas eu estou preocupado que, se pensarmos muito, vamos nos auto-censurar. Isso pode nos proteger individualmente, mas empobrece-nos como sociedade. Seria muito melhor se nós ainda pudéssemos compartilhar muita informação, mas ter um mecanismo para que essa informação fosse esquecida ao longo do tempo. É por isso que eu tenho defendido a reintrodução do esquecimento na era digital.

FOLHA – Como na vida, a internet precisa dar uma segunda chance às pessoas? Se não, a rede pode virar uma espécie de tribunal permanente?

MAYER-SCHÖENBERGER – Realmente. Temos que perdoar, esquecer. O Google não vai nos deixar fazer isso. Se nós procuramos o nome de alguém no Google e descobrimos uma citação de que ele estava dirigindo embriagado há dez anos, o quão relevante é isso para o presente dessa pessoa?

FOLHA – Você diria que a sociedade da era digital não concede perdão?

MAYER-SCHÖENBERGER – Eu acho que isso é bastante apropriado.

FOLHA – Você acha que falta uma regulação para a internet?

MAYER-SCHÖENBERGER – Eu não acho que exista um regulamento simples que possamos estabelecer para evitar os problemas da memória digital. Como eu detalho no meu livro, precisamos de uma combinação de uma série de medidas para enfrentar o desafio do fim do esquecimento na era digital.

FOLHA – Como podemos apagar nossas pegadas na internet?

MAYER-SCHÖENBERGER – Isso é muito difícil porque não temos controle total sobre as informações pessoais. Algumas empresas de internet oferecem (difíceis) formas de eliminar informações pessoais. Outras não. Um grupo no Google está trabalhando em ferramentas para extrair todas as informações pessoais do Google e, em seguida, excluí-las, mas esse serviço ainda está na sua infância. Há empresas comerciais que têm serviços para apagar as pegadas, mas são muito caros. Devemos ensinar os softwares a agirem de acordo com nossa mente. Tudo o que é arquivado deve sair do ar em algum momento. Devemos indicar a data de validade para as fotos que colocamos na rede, por exemplo. Quando chegar o momento, elas serão deletadas. Um exemplo é o site Drop.io.

FOLHA – Como você teve a ideia de escrever o livro?

MAYER-SCHÖENBERGER – Nos agradecimentos, eu conto a história de que eu esqueci como eu tive a ideia para o livro. Por acaso eu tinha escrito uma pequena nota para mim sobre a ideia. Mais tarde, eu esqueci tudo sobre ele -talvez não fosse tão importante assim.

FOLHA – Você já deve ter ouvido muitas histórias de pessoas com problemas por conta das pegadas digitais. Qual chamou mais sua atenção?

MAYER-SCHÖENBERGER – Foi o caso de uma mulher norte-americana de quase 30 anos que havia ficado alguns anos na prisão por algo que ela tinha feito aos 18 anos. Depois de sua libertação, ela se mudou para uma nova cidade, começou uma nova vida. Encontrou um marido, um emprego, seus filhos cresciam em uma família normal. Até que um colega de um filho “deu um Google” no nome dela e, por acaso, deu de cara com um site que colocava fichas policiais com foto de todos os prisioneiros do Estado nas últimas duas décadas. De repente, a vida dela desmoronou.

FOLHA – Se hoje as pessoas não têm direito a uma segunda chance, o que pode acontecer em dez, 20 anos?

MAYER-SCHÖENBERGER – Se nós não oferecermos a nós mesmos uma chance de escolha significativa em breve, gerações de nativos digitais vão crescer e assumir que a escolha não é possível. Eles vão adaptar suas vidas para as restrições impostas pela máquina. Isso seria terrível. Nós podemos moldar a máquina de qualquer maneira que quisermos. E, se quisermos, podemos fazê-la de uma forma que nos ofereça escolha!

RAIO-X

VIKTOR MAYER-SCHÖNBERGER
>> Natural da Áustria, tem 44 anos
>> Diretor do Professor afiliado do Information + Innovation Policy Research Centre, na LKY School of Public Policy da Universidade de Cingapura
>> Estudou direito em Salzburgo, Cambridge e Harvard
>> Em 1986, fundou a Ikarus Software, empresa especializada em segurança de dados, e desenvolveu o Virus Utilities, que se tornou um produto best-seller na Áustria
>> Já publicou sete livros, como “Governance and Information Technology”
>> Em seu tempo livre, gosta de viajar, ver filmes e aprender sobre arquitetura
www.vmsweb.net/

O LIVRO

DELETE: THE VIRTUE OF FORGETTING IN THE DIGITAL AGE
>> Viktor Mayer-Schönberger
>> Princenton University Press, 2009
>> Edição de capa dura com 256 págs.
>> US$ 24,95 (mesmo preço da versão em e-book)
>> press.princeton.edu/titles/8981.html

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Em Ubatuba, 5 de Abril de 2010

POST SCRIPTUM de 16.7.2022:

Relendo este artigo (ou “ameaça de artigo”, porque meu, mesmo, há muito pouco na matéria), na madrugada de hoje, resolvi republicar a peça e acrescentei a ela este comentário que segue.

Republico aqui, intocada, uma “ameaça de artigo” que escrevi em 2010 a propósito de uma importante entrevista que li na Folha de S.Paulo acerca do direito ao esquecimento: ao direito de se esqueçam coisas que a gente já disse, ou mesmo fez. Nossas ideias e ações deveriam ter um prazo de validade, depois do qual qualquer qualquer lembrança, discussão ou mesmo relato delas evaporaria… Prazo de validade vencido.

Estava mentalmente preparado para a releitura dessa “ameaça de artigo” (ainda bem que ela não evaporou) porque ainda ontem tive um bate-papo com “a patroa”, como se dizia antigamente, acerca do esquecimento. Eu estou chegando aos 80 anos. Daqui a menos de dois meses completarei — encerrarei — meu septuagésimo nono ano de vida e entrarei no meu octagésimo ano, dando início à minha oitava década de vida. Tudo, naturalmente, se Deus deixar e, calvinisticamente, quiser e determinar.

Com essa vetusta idade, é natural e compreensível que eu me esqueça de algumas coisas. Tenho percebido que coisas importantes para mim, coisas que mexem com minhas emoções, aquilo que, ao lembrar, os olhos se me enchem de lágrimas difíceis de disfarçar — disso eu raramente me esqueço. Pode ser até coisa ruim. Coisas que me arrependo de ter feito (poucas) ou deixado de fazer (mais do que as anteriores). Coisas que me orgulho de ter feito, pensamentos que me orgulho de ter tido… Mas a Paloma tem uma memória inacreditável. Ela se lembra de tudo: bom, ruim, indiferente, insignificante (para mim: coisas que, no que me concernem, não têm importância ou significado algum.). Ou de quase tudo. Já a flagrei em alguns esquecimentos seletivos e significativos… Mas deixemos isso para lá. Por causa de sua memória fenomenal, ela às vezes não se conforma de que eu não me lembre de determinadas acontecimentos que vivenciamos juntos, ou de coisas que ela me disse ou contou…

A julgar pelo livro que é objeto da entrevista transcrita no artigo abaixo, creio que estou à frente dos tempos e já exerço esse direito ao esquecimento há um bocado de tempo. O Geraldo Alckmin também é partidário e defensor desse direito, agora que é candidato a vice-presidente da República na chapa do ex-presidiário que nunca deveria ter se tornado ex, uma figura que ele, Alckmin, no passado corretamente execrou, e que eu insisto em continuar a execrar. Do passado do Lulla eu não esqueço. Nem de escrever seu nome com dois eles, como um dia a gente escreveu de outro candidato a execrável, o Collor. Lulla foi o indivíduo que redimiu o Maluf (com um ele só).

Em Salto, 16.7.2022

Calligaris, me desculpe, mas você está muito errado…

Gosto de ler Contardo Calligaris. Raramente discordo drasticamente do que ele escreve ou diz (participei com ele de um congresso em Bento Gonçalves algum tempo atrás). Mas discordo, e veementemente, do artigo que ele publicou na Folha de S. Paulo de ontem, 1 de Abril de 2010, sobre “pedófilos, celibatários e infalíveis”.

O artigo de Galligaris é uma crítica àqueles que, como eu, acham que o celibato imposto aos sacerdotes católicos romanos tem muito (embora não tudo) que ver com os vários surtos de pedofilia homossexual que acometem os padres.

Não acho que o celibato clerical seja a única causa da pedofilia homossexual católica. Em minha opinião, ele faz parte de um conjunto de causas que me parece impossível negar.

Em dois artigos anteriores, aqui neste blog, toquei nesse assunto.

Neles argumentei em favor de minha conjectura (em três partes) acerca das causas principais do número relativamente elevado de padres que se envolvem com pedofilia homossexual. 

1) O seminarista, futuro padre, é desde cedo doutrinado a ver na mulher a fonte número um do pecado. Como ele vai ser celibatário, e sabe disso, a mulher é a tentação que ele deve evitar a todo custo. A mulher é, para ele, símbolo de tentação: a Eva que, por influência da serpente, induziu Adão a pecar.

2) A Igreja trancafia o futuro padre, em muitos casos desde cedo, em seminários, onde ele fica segregado de mulheres: só vê guris mais ou menos da sua idade – e, naturalmete, os professores (todos homens). Internatos unissex parece que foram bolados para gerar, nos adolescentes, interesse pelo mesmo sexo (principalmente quando o interesse pelo sexo oposto é não só proibido, mas demonizado).

3) Quando vai exercer o sacerdócio, o padre acaba ficando rodeado de coroinhas, parecidos com os seus coleguinhas de seminário menor, que, agora, o admiram e olham para ele como figura de autoridade. E ele, por outro lado, pela sua doutrinação, é condicionado a fugir das mulheres, e pela sua formação em internato unissex, é condicionado a se interessar por meninos… Sendo figura de autoridade, não tem muita dificuldade em convencer os meninos de que sexo (em alguma modalidade) com o sacerdote é parte de seus deveres.

Essa combinação de fatores é fatal: ela acaba produzindo essa série aparentemente infindável de casos de pedofilia homossexual entre padres católicos. Não se trata, como já disse, de meros escândalos sexuais em relação aos quais se possa dizer: “Sou culpado, mas que igreja pode dizer que não é?” Trata-se de um fenômeno tipicamente católico que não adianta tentar generalizar.

Calligaris “ach[a] bizarro que o fim do celibato dos padres seja apresentado como remédio contra a pedofilia”.

Não é só o fim do celibato que é o remédio. Conforme propus no primeiro dos meus artigos sobre o assunto, a solução, evidentemente, é tripla: que a Igreja Católica acabe com o celibato clerical, acabe com a formação para o sacerdócio no confinamento de internatos unissex, e acabe com as figuras de coroinhas e outros meninos que ficam rodeando o padre na sacristia. 

E acabar com o celibato clerical não é apenas permitir que os padres se casem: é mudar drasticamente a visão que a Igreja Católica tem da mulher como uma Eva tentadora perpétua, contra as quais os padres devem se guardar. No fundo, a Igreja Católica tem uma visão perniciosa da mulher porque tem uma visão distorcida da sexualidade. Para ser considerada pura, Maria teve não só de conceber Jesus ainda virgem como precisou permanecer virgem perpetuamente (a despeito do fato de que o Novo Testamento fala claramente nos irmãos de Jesus). A pureza de Maria não poderia sobreviver, na visão católica, à realização, por ela, do ato sexual, ainda que de forma casta, dentro do casamento dela com José, e não por prazer, mas como dever, com a finalidade de procriar (crescer, multiplicar e encher a terra de gente). Como, para a Igreja Católica, o ato sexual só pode ter como finalidade a procriação, atos sexuais homossexuais, que não podem resultar em procriação, são aparentemente vistos como menos graves…

Calligaris se explica:

“Essa ideia [de que o celibato clerical tem que ver com os surtos de pedofilia homossexual] surge de uma visão hidráulica do desejo sexual, como se esse fosse um rio que, se for impedido de correr no seu leito natural, encontrará todo tipo de caminho torto e desviado. Por essa visão, na ausência de esposa, a libertinagem, não tendo para onde ir, transborda e acaba banhando (quem sabe, afogando) as crianças; portanto, os padres pedófilos não precisariam recorrer a meninos e meninas se dispusessem de uma mulher com quem saciar seus apetites.”

É simplista essa análise de Calligaris. Há muitos, acredito, padres católicos ou não, que resistem valentemente ao desejo sexual ou são capazes de o sublimar, sem precisar dar vazão a ele. Este, evidentemente, não é o caso dos padres pedófilos. Estes não controlam nem sublimam seu desejo sexual. Optam por realizá-lo. Tendo feito essa opção, têm de escolher (ainda que tacitamente) como realizá-lo.

a) Para casar normalmente, como todo mundo, o padre terá de abandonar o sacerdócio. Essa é uma opção difícil para a maior parte deles.

b) O padre pode arrumar uma companheira secreta, viver com ela maritalmente, ter seus filhos como se fosse um homem casado. Muitos fazem isso. A Igreja Católica felizmente faz vistas grossas. O Presidente do Paraguai foi bispo, teve uma série de companheiras e deixou uma penca de filhos. Até que se tornou presidente, tudo isso estava tranqüilamente preservado do público. Essa, para o padre que quer continuar padre, é, a meu ver, a mais sadia e a mais sensata das diversas opções. Mas, como se pode ver, ela tem seu ônus, que o Presidente do Paraguai está pagando. Companheiras regulares às vezes ficam grávidas, a Igreja é contra o aborto, elas têm a criança, e o “filho do padre” é sempre um estigmatizado – alem de requerer pensão alimentícia e outros cuidados.

c) Resta a opção pelo mesmo sexo. Sem dúvida há padres homossexuais, cujos parceiros são adultos (também padres ou não). Mas essa opção também tem seu ônus. Se a “mulher do padre” é estigmatizada, “o marido do padre” seria ainda mais… Sobram os meninos, os coroinhas… O fato de que o padre é autoridade, que ele pode exigir os serviços sexuais dos meninos como parte de seus deveres como coroinhas, e a vergonha natural dos meninos que torna difícil revelar o que está acontecendo, tudo isso contribui para que muitos padres apostem nessa forma de realizar sua sexualidade. Acham que ela vai permanecer secreta e, conseqüentemente, impune. Mas, como estamos vendo, uma vez que alguém abra a boca, outros se encorajam a fazê-lo, também, e temos um surto.

É isso. Sem rever a sua doutrina acerca da sexualidade, e, conseqüentemente, a visão de que o pecado original foi sexual e induzido pela mulher; sem rever a doutrina do nascimento virginal de Jesus e da virgindade perpétua de Maria; sem rever a doutrina do celibato clerical; sem rever o confinamento em internatos unissex como a forma ideal de preparar sacerdotes; sem rever a doutrina que impede a ordenação de mulheres e a participação das mulheres em posições importantes na alta hierarquia na Igreja, chegando até mesmo ao Papado, a Igreja Católica não vai conseguir resolver o seu problema de padres pedófilos homossexuais.

A Igreja tentou fazer vistas grossas a esse problema, como sempre fez em relação aos padres que possuem companheiras ou que geram filhos com paroquianas disponíveis. Mas o problema aqui é muito mais sério. Trata-se de um crime – cometido contra menores inocentes.

Discordo mais uma vez de Calligaris quando ele diz:

“Aos meus olhos, nesta história que não acaba, o escândalo maior talvez não seja o abuso das crianças, mas o comportamento oficial da igreja: de maneira consistente e repetida, ela parece colocar seu interesse institucional acima de qualquer consideração moral.”

O escândalo maior é o abuso de crianças, sim. A tentativa de colocar panos quentes sobre o problema afeta apenas a imagem da igreja. O abuso de crianças afeta as crianças também e principalmente.

Adiante, o artigo de Calligaris.

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http://www1.folha.uol.com.br/fsp/ilustrad/fq0104201023.htm 

Folha de S. Paulo
1 de Abril de 2010

CONTARDO CALLIGARIS
Pedófilos, celibatários e infalíveis


Os padres pedófilos são minoria, mas a igreja como instituição trata fiéis como crianças


EM 2002, graças a uma série de artigos do "Boston Globe", estourou, nos EUA, o escândalo dos abusos sexuais de crianças por padres católicos. Desde então, uma onda de denúncias varre a Igreja Católica no mundo inteiro.

Última revelação, no "New York Times" da quinta passada: nos anos 1990, quando ele comandava a Congregação da Doutrina e da Fé, o atual papa, Bento 16, suspendeu o julgamento de um padre americano, acusado de molestar 200 meninos surdos, de cujos espíritos e almas, em princípio, ele devia cuidar.

Aos meus olhos, nesta história que não acaba, o escândalo maior talvez não seja o abuso das crianças, mas o comportamento oficial da igreja: de maneira consistente e repetida, ela parece colocar seu interesse institucional acima de qualquer consideração moral. Escândalo, mas sem surpresa alguma: em geral, o projeto dominante de qualquer instituição é o de durar para sempre.

Mas trégua: não escrevo esta coluna para me indignar. Prefiro contribuir ao debate do momento com duas observações, sugeridas pela psicopatologia e pela clínica.

1) Da conversa de botequim até o pronunciamento de um teólogo que admiro (Hans Küng, na Folha de 21 de março), os abusos sexuais de crianças por padres católicos reavivam as críticas contra o celibato dos padres.

Cuidado, não sou um defensor do celibato dos padres. Ao contrário, parece-me que a experiência de amar e conviver melhoraria a qualidade dos ministros da igreja, porque a tarefa de ser consorte ensina uma humildade que é difícil alcançar na solidão, seja ela orgulhosa e casta ou, então, envergonhada e masturbatória.

No entanto, acho bizarro que o fim do celibato dos padres seja apresentado como remédio contra a pedofilia.

Essa ideia surge de uma visão hidráulica do desejo sexual, como se esse fosse um rio que, se for impedido de correr no seu leito natural, encontrará todo tipo de caminho torto e desviado. Por essa visão, na ausência de esposa, a libertinagem, não tendo para onde ir, transborda e acaba banhando (quem sabe, afogando) as crianças; portanto, os padres pedófilos não precisariam recorrer a meninos e meninas se dispusessem de uma mulher com quem saciar seus apetites.

É raro que eu me expresse de maneira tão direta, mas é preciso dizer: essa ideia é uma estupidez. Fantasias e orientações sexuais nunca são o efeito de acumulação de energia sexual insatisfeita. Um pedófilo poderá, eventualmente, desejar uma mulher e casar com ela, mas o fato de cumprir, mesmo com afinco, o dever conjugal não o livrará das fantasias pedofílicas. Teremos, simplesmente, pedófilos casados, em vez de solteiros.

Não vejo o que ganharíamos com isso, mas vejo, isso sim, na própria proposta, um desprezo inacreditável pelas mulheres que se casariam para servir de válvulas de escape para a "depravação" dos seus maridos. Ninguém merece.

A quem propõe o casamento como solução para a pedofilia dos padres, uma sugestão: proponha um programa compulsório de transa diária com a boneca inflável do Geraldão. Será tão ineficiente quanto o casamento, mas, ao menos, as mulheres serão poupadas.

2) Não é exato dizer que pedófilo é quem gosta de "carne" jovem. Pois o que importa ao pedófilo, o que é crucial na fantasia, é induzir a vítima a aceitar algo que ela desconhece e não entende. A jovem idade da vítima é sobretudo garantia de sua inocência e ignorância, ou seja, do fato de que a vítima não entenderá o que lhe será feito.

Por exemplo, um dos padres denunciados em Boston, em 2002, explicou que seu prazer consistia não tanto em ser satisfeito oralmente por um menino quanto em convencer o menino de que essa era uma forma especial de santa comunhão, que ele, o padre, ensinava e administrava.

Em suma, o pedófilo encontra seu prazer iniciando os ignaros e exercendo sobre eles um poder pedagógico absoluto. Agora, considere o jeito como a Igreja Católica tratou seu rebanho, até ser forçada a reconhecer a culpa de alguns de seus ministros. Considere a prática recorrente de camuflar decisões administrativas em dogmas divinos, considere a repressão teológica em lugar do diálogo e ainda considere a doutrina da pretensa infalibilidade do pontífice. Pois bem, aparentemente, os padres pedófilos são pequena minoria, mas a igreja como instituição trata mesmo seus fiéis como criancinhas.

ccalligari@uol.com.br

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Em São Paulo, 2 de Abril de 2010

A leitura

A leitura talvez seja, de todos os vícios humanos, o único que não faz mal: pelo contrário, contribui para o nosso desenvolvimento como humanos.

É bonito ver uma criança, em idade tenra, com um livro na mão, absorta, ainda que seja apenas pelas imagens.

É bonito ver livrarias e bibliotecas cheias de crianças, esparramadas em puffs ou deitadas de bruços no chão, lendo.

Talvez dentro de algum tempo as crianças venham a ter um e-book reader na mão. Mas elas estarão lendo – e o que vierem a ler ainda será um livro.

O livro é uma tecnologia que expande a nossa experiência, enriquece a nossa vivência. Através dele, vivenciamos, vicariamente, experiências de outrem – e aprendemos com elas.

A tecnologia digital alterou o nosso acesso ao livro e, até certo ponto, modificou a nossa forma de escrever e ler certos textos. O hipertexto está aqui para ficar e, com ele, surgiu a escrita e a leitura não lineares, que operam “em saltos”. O hipertexto fez do livro um texto com vários possíveis itinerários e finais. Mas não substituiu, nem vai substituir, o livro linear, com começo, meio e fim.

Há muitas formas de contar histórias. Umas lineares, seqüenciais. Outras, cheias de saltos que nos levam para lugares diferentes e flashbacks que nos jogam para tempos diferentes. O livro, bem como o cinema, que dele depende, é a tecnologia mais adaptada para a narrativa – a seqüencial ou a que envolve saltos para diferentes tempos e lugares.

Sem o livro, impresso ou digital, seríamos muito mais pobres, teríamos muito menos oportunidades de desenvolvimento.

Em São Paulo, 2 de Abril de 2010