Educação na tradição liberal

Na tradição liberal a educação deve se alicerçar nos seguintes princípios:

  • Foco no indivíduo (não na sociedade)
  • Ênfase no desenvolvimento humano (não na transmissão de legados culturais)
  • Orientação para o futuro (não para o passado)
  • Existência de ricas e reais alternativas (não "tamanho único")
  • Estrutura flexível (não rígida)
  • Liberdade de escolha (não roteiros pré-determinados)

Seu objetivo deve ser a construção de:

  • Competência (não erudição)
  • Autonomia (não dependência)
  • Responsabilidade (não obediência)

Sua metodologia deve ser:

  • Centrada na aprendizagem ativa
  • Construída sobre os interesses do aprendente
  • Voltada para a solução de problemas
  • Organizada em projetos

Em Campinas, 20 de Julho de 2008

A liberdade de aprender

Duas teses importantes de Wilhelm von Humboldt:

"O princípio maior, e fio condutor, do argumento desenvolvido nestas páginas é a absoluta e essencial importância do desenvolvimento humano em sua mais rica diversidade" (p.xvii).

"Ao tratar os cidadãos de forma paternalista, o Estado lhes nega e os priva de uma característica essencial de sua humanidade: a liberdade de escolher e a oportunidade de espontaneamente desenvolver as suas potencialidades através da aprendizagem" (p.li).

Até depois.

Em Campinas, 17 de Julho de 2008

Educação compulsória e educação estatal

Não sou daqueles que, quando os filhos eram pequenos, se julgava dono deles. E nem de longe me considero dono de meus netos. Converso com eles, negocio com eles, como se fossem gente grande — mesmo com o Marcelo, que tem apenas três aninhos.

Se nunca me considerei dono de meus filhos e meus netos, rejeito, enfaticamente, qualquer tese que pressuponha, assuma, ou sugira que o Estado é dono dos meus filhos e tenha o direito (quanto mais o dever) de determinar se e como devem ser educados.

Considero a educação mais do que importante: ela é o processo mediante o qual nós, que nascemos incompetentes, inautônomos (dependentes) e irresponsáveis, nos tornamos, no devido tempo, adultos competentes, autônomos e responsáveis. Se não passarmos por esse processo, vamos crescer (crescer é um processo meramente biológico, que acontece de forma virtualmente automática, desde que sejamos alimentados) e nos tornar parasitas totalmente incompetentes, incapazes de assumir responsabilidade sobre nossa vida e nosso destino: ou alguém (o Estado?) cuidará de nós, ou morreremos à míngua.

Isso posto, pergunto: se nem mesmo nós, pais e avôs, nos consideramos donos de nossos filhos e netos, de onde surge a idéia de que o Estado tem o direito — ou, mais do que isso, o dever — de decidir que nossos filhos e netos devem ser educados dessa ou daquela maneira, nessa ou naquela instituição, durante no mínimo tantos anos (e a partir de determinada idade), de decidir quantas horas por semana ou por ano são sentenciados a permanecer na escola, de definir que coisas devem aprender na escola e como, de escolher quem deve ajudá-los a aprender, de punir os pais que desejam educar eles próprios seus filhos, fora das escolas autorizadas a funcionar pelo Estado?

A noção de uma educação pública, regulada e até mesmo oferecida pelo Estado, é, junto com a noção de uma saúde pública, o último resquício de um socialismo estatizante que, em tudo mais, está totalmente desmoralizado. Na realidade, a educação e a saúde públicas também estão totalmente desmoralizadas — só que a esquerda conseguiu convencer a população a acreditar que podem ser recuperadas, se investirmos mais recursos (isto é, se pagarmos ainda mais impostos) — haja vista a tentativa imoral de ressuscitar a CPMF com outro nome.

O estado socializante arrecada uma quantidade inacreditável de recursos para sustentar o anacronismo de uma educação e uma saúde pública, oferece à população educação e saúde de péssima qualidade, que obriga os cidadãos que tem recursos a pagar pela educação e pela saúde uma segunda vez em instituições privadas, e usa a má qualidade dos serviços que oferece para tentar persuadir os trouxas de que a qualidade deles só vai melhorar se desembolsarmos ainda mais dinheiro.

A escolarização não deve ser compulsória. O Estado não tem o direito, muito menos o dever, de obrigar quem quer que seja a colocar seus filhos na escola. E a educação não deve ser estatal. Isto quer dizer que, havendo escolas, o Estado não deve nem financiá-las nem administrá-las nem, muito menos, definir o que deverá ser ensinado nelas, por quanto tempo, de que forma, ou por quem.

O estado desastroso da educação pública neste país, que tenta doutrinar nossas crianças numa ideologia ultrapassada e já totalmente refutada pelos fatos, é resultado dessa interferência indevida do Estado na educação. As revistas VEJA e Época já denunciaram os livros que o governo compra para colocar nas escolas públicas (assim decretando que determinados autores se tornem sucesso de vendas do dia para a noite, e milionários, exclusivamente porque declamam em piloto automático o catecismo da esquerda).

A esquerda sempre defendeu, quando chegou ao poder, a tese de que as nossas crianças são propriedade do Estado, para serem transformados em bucha de canhão em suas guerras e revoluções ou para se tornar dóceis papagios que repetem o ideário esquerdista, ou, então, robôs que, incapazes de pensar por si próprios, cumprem as ordens de sua "vanguarda" e fazem greve, ou passeatas e demonstrações, ao ouvir o apito de seus líderes, por mais corruptos que sejam. 

Ou os brasileiros recuperam a guarda de seus filhos, impensadamente colocada nas mãos do Estado, e os educam foram da tutela do Estado, ou este país não tem futuro.

Em Campinas, 8 de Junho de 2008.

Debate entre Valdemar Setzer e Eduardo Chaves na TV Cultura (Opinião Nacional) em 28/5/99



Debate na TV Cultura, programa Opinião Nacional
28 de Maio de 1999
O Uso da Informática na Educação

Entrevistador: Heródoto Barbeiro
Comentarista: Carlos Alberto Sardenberg
Debatedores: Valdemar Setzer e Eduardo Chaves

Heródoto Barbeiro:

Afinal, o uso da Informática na escola ajuda ou atrapalha? Os computadores estão cada vez mais presentes na sala de aula. Os estudantes usam programas de edição de texto, produção gráfica, softwares educacionais nos seus trabalhos escolares. O professor Valdemar Seltzer da USP considera esse uso prejudicial. Está aqui conosco o professor Eduardo Chaves da UNICAMP que defende a informática na educação. Muito bem. Nós convidamos os dois para um debate aqui. Professor Valdemar, boa noite. Professor Eduardo, boa noite.

Professor Valdemar, esta questão da utilização do computador na escola não nos remete a uma questão anterior? Eu me lembro quando saíram as máquinas de calcular. Aí eu cheguei para um professor de matemática, Professor Orivaldo Pereira, que era meu colega na época, e disse:

– “Escute, como fica esse negócio da maquininha de calcular? Então não é mais preciso saber fazer raiz quadrada, é só apertar o botãozinho”?

Aí ele me disse:

-“Olha, é como andar de bicicleta. Você sabe andar de bicicleta”?

Eu disse: -“Sei”.

-“Você desaprendeu a andar porque anda de bicicletas”?

Eu disse: -“Não”.

-“Então vamos usar as maquininhas que são os antepassados dos computadores”.

Eu gostaria de saber se o senhor concorda ou não com este professor que estou citando aqui.

Valdemar Setzer:

É interessante, Heródoto, que eu publiquei um artigo no jornal “O Estado de São Paulo”, contra o uso de calculadoras eletrônicas na educação elementar, muito antes de se falar em computadores na educação. Acho que foi nos anos 70 e qualquer coisa. Eu acho que aquele artigo tinha sido motivado por uma frase que foi dita por um famoso cientista da computação nos Estados Unidos, Joe McCarthy, dizendo que era um absurdo as crianças aprenderem aritmética em 1000 horas, quando podiam aprender em 10 horas a usar uma maquininha de calcular. Ocorre que essa pessoa não percebe que o aprendizado da aritmética, o decorar da tabuada, representa um esforço mental, um esforço rítmico. O desenvolvimento que a criança faz decorando a tabuada é muito mais importante do que simplesmente sabe-la de cor. Se se entregar a uma criança uma máquina de calcular muito cedo, a criança vai deixar de passar por essa fase de aprender essa abstração que é a tabuada. Terá deixado de fazer um treino mental essencial para o raciocínio e para a capacidade de memorizar.

Carlos Alberto Sardenberg:

Mas a criança pode treinar em outras coisas não pode?

Valdemar Setzer:

Não, porque a tabuada é algo único, do ponto de vista de desenvolvimento mental. Isso me lembra toda aquela discussão com a Matemática Moderna, que felizmente já desapareceu, a menos das pobres crianças e adolescentes que continuam a calcular o “conjunto verdade” das equações – um conceito puramente lógico-formal, uma equação considerada como uma asserção da lógica – em lugar de procurarem as “raízes” das mesmas. Eu ainda tenho a esperança de que outras coisas ainda vão desaparecer do ensino, outros modismos vão desaparecer, como o uso exagerado de definições. Um exemplo é o absurdo de se ensinar ilha como “um pedaço de terra cercado de água por todos os lados”, o que, além de estar logicamente errado, é uma definição morta, como todas as definições. Essa ilha não tem plantas, praias, rochedos no mar, vento, etc. – é uma ilha morta, e isso mata de certa maneira a imaginação das crianças e força-as a uma atividade mental inapropriada para a idade (talvez 8 anos). O raciocínio matemático, como por exemplo o envolvido no aprendizado da tabuada, é um raciocínio muito especial, abstrato, e ele tem que ser dado com muito vagar. Não há necessidade de se ter pressa, pois, afinal, estamos moldando a mente da criança. Nós vimos aqui no bloco anterior um vídeo sobre uma escola. Interessante que é justamente a escola onde minha esposa é médica, e todos meus filhos nela se formaram, onde eu dei aula de matemática por dois anos. Essa escola pertence a um sistema pedagógico mundial, a Pedagogia Waldorf (há mais de 1.000 escolas Waldorf no mundo, 4 aqui em São Paulo, com o ensino fundamental e médio). Essa pedagogia, que tem muito sucesso, de todos os pontos de vista (desenvolvimento intelectual, artístico e social), é totalmente diferente do usual. Por exemplo, todas as crianças fazem tricô no primeiro ano. Isso serve como preparação para a aritmética, porque no tricô é preciso contar os pontos e, como em uma conta armada, não se pode pular nenhum passo, perder nenhum ponto.

Heródoto Barbeiro:

Como se fosse um ábaco?

Valdemar Setzer:

É, no ábaco também se desloca uma pecinha ao lado da outra, mas ele exige muito menos coordenação motora; além disso, usa um sistema quinário que não é adequado para crianças pequenas como as da primeira série. Por outro lado, o tricô é uma coisa muito mais real, produzindo algo de utilidade. No decorrer dos anos, o tricô vai se tornando mais complexo: chega uma série em que todos os alunos fazem uma meia sem costura, usando 5 agulhas, depois cada um faz uma malha para si, e no colegial chega-se à tecelagem.

Heródoto Barbeiro:

Professor Eduardo, é assim que o ensino do século XXI, estamos na beirada do século XXI, é tricotando que nós vamos desenvolver o ensino do século XXI?

Eduardo Chaves:

Poderia até ser, mas não será só com isso… Eu queria, de início, em vez de falar do século XXI, falar um pouquinho do século V a.C.. Naquela época, Sócrates, por exemplo, se opôs ao uso da tecnologia da escrita (isto é, ao uso de materiais escritos, livros) na educação, principalmente por duas razões. Primeiro, disse ele, porque quando a gente usa um material escrito a gente não precisa guardar o conteúdo na memória (pois está sempre ali, disponível) e, assim, esse tipo de material não exercita e fortalece a memória. Segundo, acrescentou ele, porque com o livro você não pode dialogar: se você tiver vontade de fazer uma pergunta para o livro, já sabe de antemão que ele não responde… Para Sócrates, a educação era alguma coisa que deveria ter lugar entre duas pessoas, face a face, uma dialogando com outra… Para ele, o livro, ou qualquer material escrito, iria atrapalhar a educação, pois interferiria com esse diálogo interpessoal face-a-face…

Carlos Alberto Sardenberg:

O que era uma bobagem…..(risos)

Eduardo Chaves:

É verdade: essa foi uma grande bobagem socrática – o que prova que até grandes homens dizem besteira. A história é análoga à da bicicleta que o Heródoto mencionou: quando a gente aprende a andar de bicicleta, a gente não precisa abandonar o andar a pé. Hoje a gente nem se dá conta de que o livro é tecnologia, de que a gente usa o livro, usa uma série de outras coisas que são tecnologia, usa tudo isso na educação, com a maior naturalidade – sem, necessariamente, abandonar o diálogo socrático, que continua importante. Na verdade, a tecnologia até aumenta, exponencialmente, as possibilidades que temos de dialogar socraticamente – interpessoalmente, mas não face-a-face. Tricô é tecnologia: você precisa ter agulhas, você precisa ter uma receita a ser seguida, etc… Então, o que eu não consigo entender em posturas como a do Setzer, é por que a criança, que hoje é acompanhada pela tecnologia desde antes de nascer (faz exames de ultrassom, nasce num centro cirúrgico sofisticado, vai para casa de carro, que é uma tecnologia, em casa tem eletricidade, quando não tem uma babá eletrônica para informar os pais que a criança está chorando, etc.), não pode – ou não deve – aprender com o auxílio da tecnologia. Pelo que sei, o Setzer não se opõe, como Sócrates, a que a criança aprenda usando o livro, usando materiais de toda sorte que são tecnologia ou sub-produtos da tecnologia. Ora, por que singularizar, por que pegar computador e a máquina de calcular como bodes expiatórios e dizer: na hora de aprender a criança não pode – ou não deve – usar essas coisas aqui. Parece-me que fazer isso é quase cometer uma violência contra a criança, é dizer: olhe, o seu aprender, a sua educação não têm nada que ver com sua vida fora da escola: lá fora você usa toda a tecnologia disponível, mas aqui dentro da sala de aula você só pode usar as tecnologias do livro, do gis, do quadro-negro — ou do tricô. Não é esquisito?

Heródoto Barbeiro:

Professor Valdemar.

Valdemar Setzer:

Existe um ponto…

Carlos Alberto Sardenberg:

Pela teoria do professor, deveriam ser usados video games não tricô, não é?

Valdemar Setzer:

Exatamente. Acontece que a situação é bastante complexa. Existem vários pontos de vista. Veja como Sócrates ou Platão tinham toda razão. Antes da escrita era necessário fazer um esforço de memória, aliás, a memória era fantástica. Por exemplo, acredita-se que inicialmente a Ilíada e a Odisséia foram transmitidas de memória. Imagina-se que muito depois de Homero é que elas foram escritas; a humanidade estava perdendo essa capacidade de memória e por isso é que se precisou inventar a escrita e se precisou colocar a história em livro. Mas isso correspondeu a uma perda, claro (a propósito, uma perda necessária para se desenvolver a capacidade de abstração). Eu não sou contra o livro; eles são fantásticos e sua leitura é essencial para o desenvolvimento intelectual e emotivo dos jovens. Só que há idade certa para se começar a ler um livro; com pouco mais de 1 ano de idade pode-se começar a mostrar figuras infantis bonitas, artísticas – raridade nos livros infantis de hoje. Como nesse tipo de escola que vocês mostraram no vídeo no bloco anterior, eu não recomendo que as crianças aprendam a ler antes de 6,5 ou 7 anos, para não forçar uma abstração mental precocemente (as letras latinas são símbolos sem vida ou estética, hoje em dia). Esse aprendizado tem que ser muito lento, como o Herodóto conhece muito bem, porque os filhos deles freqüentaram uma escola que usa método pedagógico. É importante entender-se qual é a influência da tecnologia, dos aparelhos, sobre as crianças, e aí perguntar-se: existe idade adequada para começar a usá-los? Vou dar um exemplo por analogia – com isso termino, para o Eduardo também ter alguma chance. Alguém diria que uma criança de 7 ou até 10 anos devesse guiar automóvel? Certamente, não nesta cidade de São Paulo. O Eduardo Chaves tem a sorte de morar em Campinas, isso é como um sítio para nós, pois aqui nós estamos num caos total no trânsito. Bem, certamente ninguém iria dizer que uma criança de 7 ou 10 anos deveria aprender a guiar um automóvel, não tem coordenação motora, não tem responsabilidade, vai brincar no volante, etc. Por que não se faz um estudo, como eu fiz, de qual é a idade adequada para se usar um computador? Porque o desastre…

Heródoto Barbeiro:

Qual é a idade professor por favor?

Valdemar Setzer:

… o desastre que o computador produz não é físico como o automóvel. Esse é um desastre mental, é um desastre psicológico.

Heródoto Barbeiro:

E qual é a idade então, adequada?

Valdemar Setzer:

Bem, a idade que eu cheguei à conclusão nos meus estudos é que deveria ser depois da puberdade, idealmente aos 17 anos. O computador exige uma tremenda auto-disciplina, um enorme auto controle e grande maturidade. Imagine essas crianças todas tendo acesso à Internet sem nenhum controle, sem poder julgar o que é bom e o que é mal.

Heródoto Barbeiro:

Mas veja, o senhor não está comparando o computador com a televisão, mas aí nós vamos chegar no lugar da televisão…

Valdemar Setzer:

Eu gostaria que vocês me convidassem uma vez e vamos falar só contra a televisão (risos).

Heródoto Barbeiro:

Falaremos em outra oportunidade. O senhor também acha que o computador só deveria ser usado após a puberdade, professor Eduardo?

Eduardo Chaves:

Não. Eu sei que o Setzer tem um referencial teórico muito elaborado por trás das posições dele, ao qual ele fez menção: a Pedagogia Waldorf. Mas estou certo de que esse referencial, elaborado há muito tempo, não leva em conta o fato de que a criança de hoje é muito diferente da criança de 100 anos atrás, quando esse referencial foi desenvolvido. Acho que hoje a criança está preparada para a alfabetização muito antes dos 7 anos tradicionais e isso porque, dada a estimulação do meio, repleto de tecnologia, tem uma sofisticação cognitiva que lhe permite lidar com razoável tranqüilidade e naturalidade até com máquinas sofisticadas e abstratas, como é o caso do computador e de aparelhos de vídeo-game – sem que isso lhe cause qualquer efeito nocivo, no curto, no médio e no longo prazo, muito pelo contrário. Um jogo de vídeo-game estimula o sistema sensorial-perceptivo, o sistema psico-motor, o sistema cognitivo (o raciocínio) – muito mais do que o tricozinho do Setzer, ainda que feito com cinco agulhas (contra o qual não tenho nada, repito, desde que ele encontre uma criança que prefira aprender fazendo tricô a aprender jogando um vídeo-game, ou interagindo com um computador, ou, melhor ainda, interagindo com seus colegas através do computador).

Heródoto Barbeiro:

Olha, tenho duas manifestações aqui já, uma do Sr José Roberto Rosa que é gerente de tecnologias e diz o seguinte: “Segundo algumas projeções de evolução do processamento de inteligência artificial, no ano 2019 o micro de U$1000 terá a capacidade de um cérebro humano. Imagino como será a sociedade e que educação precisará ter hoje.” O senhor Alexandre Ramalho, que é professor universitário, diz: “Sou radicalmente contra a utilização do computador no ensino fundamental. As crianças não devem primeiro aprender a usar o cérebro? Posteriormente poderão aprender a utilizar os magníficos recursos dessa informática.”

Valdemar Setzer:

Exatamente.

Eduardo Chaves:

Uma coisa não exclui a outra, professor Ramalho: a criança pode muito bem aprender a usar seu cérebro usando a melhor tecnologia disponível hoje. Ficar ouvindo um professor que usa, como tecnologia, apenas a voz, o giz e o quadro negro (como o faz a maioria dos professores universitários) não me parece ser uma forma muito eficaz de aprender a usar o cérebro – a não ser, talvez, como repositório de informação, muitas vezes inútil, não raro doutrinária. Uma das formas mais eficazes de aprender a usar a nossa capacidade cognitiva é interagindo com o nosso ambiente natural, humano e tecnológico (i.e., artificial), tentando resolver os problemas que esse ambiente apresenta… e esse meio ambiente hoje é repleto da mais variada e poderosa tecnologia. Nós encontramos tecnologia sofisticada hoje em todo e qualquer lugar. Tentar fazer com que a educação escolar abstraia desse universo tecnológico em que a criança vive, para que apenas depois, lá pelos 17 anos, ela subitamente comece a interagir com esse ambiente todo, me parece, no mundo em que nós vivemos hoje, mais do que irrealista: é um grande desperdício de oportunidades educacionais.

Valdemar Setzer:

Isso depende dos pais e da escola. Felizmente nós estamos num país onde se pode ter e fazer dentro do lar aquilo que se quiser, desde que não se maltratem as crianças. Pode-se organizar o próprio lar da maneira como a gente escolher, não há imposição quanto a isso. Então é muito simples, e eu apelo para os pais pensem, estudem, reflitam: não há a mínima necessidade de uma criança usar o computador…

Heródoto Barbeiro:

Isso é um modismo, na opinião do senhor?

Valdemar Setzer:

Não é só um modismo, é um tremendo mercado, por que atende os interesses dos fabricantes e não da sociedade – se bem a sociedade está sendo induzida a consumir computadores, isto é, está com seus interesses bem deturpados.

Carlos Alberto Sardenberg:

Há estatísticas a respeitos disso, por exemplo, avaliar o desempenho de alunos de escolas que usam o computador e não usam o computador? Há modos de medir isso?

Valdemar Setzer:

Sim, eu gostaria de citar dois estudos, aliás os dois da mesma universidade de Carnegie Mellon, uma das melhores universidades americanas. Um deles é um estudo que foi publicado há alguns meses, em que se demonstrou que o uso da Internet produz aumento de depressão e antisociabilidade. Foi uma surpresa porque inclusive esse estudo foi financiado por Bill Gattes & Cia., que queriam resultados exatamente contrários. Um outro estudo foi muito interessante e diz respeito direto à nossa questão aqui. Eu li uma referência a esse estudo em uma tese que acabei de receber há pouco tempo pela Internet (risos) de Lowel Monkey, professor secundário nos Estados Unidos, que fez doutorado numa universidade americana. Ele cita uma pesquisa, naquela mesma universidade, em que se examinou o resultado de testes de matemática de crianças que tiveram aulas de uso do computador, em comparação com outro grupo de crianças que não teve aulas de uso do computador, mas estudou música, estudou piano. O resultado daqueles que estudaram piano foi muito melhor nos testes de matemática dos que tiveram computador. Na sua tese, Monkey cita que ele era membro de um conselho de tecnologia das escolas secundárias lá da sua cidade, Des Moines, capital do estado de Iowa, nos EUA. Ele escreveu um relatório dizendo que, baseado, naquele estudo, não se deveria embarcar na campanha do presidente Bill Clinton de instalar um computador em cada sala de aula; o correto, do ponto de vista educacional, seria instalar um piano em cada sala de aula, pois o resultado seria muito melhor. Eu gostaria de acrescentar o seguinte. Todas as experiências de uso de arte em qualquer ambiente escolar, prisão, FEBEM (que é o caso do magnífico projeto Guri, de ensino de música e formação de orquestras juvenis), dá resultados extraordinários, como pode ser verificado nas escolas Waldorf, onde há um intenso ensino artístico. O computador não dá resultados extraordinários, pelo contrário, em minha conceituação ele é extremamente prejudicial à formação intelectual, sentimental e volitiva das crianças e jovens. Isso está sendo comprovado cada vez mais por pesquisas estatísticas.

Eduardo Chaves:

Ninguém está defendendo que se use apenas a tecnologia na escola, em detrimento de tudo o mais, que a escola abra mão do uso da pintura, da música, da arte em geral. Algumas dessas pesquisas mostram que se o indivíduo ficar fixado no computador 10 ou 12 horas por dia, ele pode sofrer efeitos nocivos para a sua personalidade, da mesma forma que se ele ficar trancado numa biblioteca, lendo 12 horas por dia, se ele não tiver uma vida social, se não se movimentar, brincar, correr, se não fizer outras coisas além de ler, isso também pode prejudicá-lo…

Carlos Alberto Sardenberg:

E se ele ficar a tarde inteira decorando tabuada?

Eduardo Chaves:

… É a mesma coisa. Falou-se no início sobre o suposto mérito da memorização. Eu não vejo mérito algum na memorização como tal, em decorar tabuada ou coisas desse tipo. O importante é saber o que fazer com as informações que estão disponíveis para nós. Se eu compreendo a natureza das operações aritméticas, sei quais são as operações que precisam ser feitas para resolver um problema, e faço essas operações usando a máquina de calcular ou o computador (e não de memória – ou usando papel e lápis, que, convenhamos, são tecnologias…), eu não preciso ter presente na memória o tempo todo o algoritmo que me permite multiplicar ou dividir dois números, extrair raiz quadrada, etc. Eu sei quais são as operações, vou ali na maquininha e as faço – pronto, problema resolvido. Então o suposto mérito de memorizar a tabuada, ou os algoritmos necessários para extrair a raiz quadrada, ou as declinações e conjugações latinas, como se fazia antigamente, é uma coisa, na melhor das hipóteses, sobre-valorizada – na pior das hipóteses, uma perda de tempo terrível. Certamente nossa capacidade de memorizar foi reduzida com as várias tecnologias que surgiram, com o aparecimento do livro, com o surgimento da máquina de calcular, com a presença ubíqua do computador entre nós… Mas nós certamente ganhamos em nossa capacidade de armazenar informações fora da memória e em nossa capacidade de processar a enorme quantidade de informações armazenadas em meios externos e disponíveis a qualquer momento. Ganhamos na forma de processar essa informação, de analisá-la, de raciocinar em cima dela, de colocá-la a bom uso. Pode parecer um truísmo, mas podemos fazer, utilizando a tecnologia (com o seu auxílio ou apoio), boa parte das coisas que também podemos fazer sem ela. E podemos fazer, com a tecnologia, coisas que é muito difícil (ou mesmo impossível) fazer sem ela. E, assim, ainda teremos até mais tempo para fazer as outras coisas, aquelas que não podemos fazer com a tecnologia, do jeito que devem ser feitas: a pintura, o teatro, ou o tricô do Setzer…

Valdemar Setzer:

Eu gostaria de citar mais um fato. Não sei se o Eduardo Chaves sabe disso:existem várias universidades americanas que estão com aconselhamento psicológico para estudantes que são viciados na Internet, porque ela está prejudicando seus estudos de uma maneira extraordinária. Eu pergunto aos senhores o seguinte: alguém já ouviu falar de “rato” de biblioteca que fosse mal nos estudos?

Eduardo Chaves:

O problema, Setzer, não é a Internet: é o vício. Ser viciado em qualquer coisa é sempre ruim – ainda que o objeto do vício seja, fora do contexto do vício, alguma coisa boa.

Valdemar Setzer:

Um aluno viciado em biblioteca não irá mal nos estudos.

Eduardo Chaves:

Isso me faz lembrar a história do indivíduo que era alcoólatra. Um dia quiseram mostrar para ele o mal que o álcool fazia ao organismo e jogaram um ovo fresco dentro de um copo com pinga: o ovo imediatamente ficou cozido. O alcoólatra olhou e falou: puxa vida, de hoje em dia não como mais ovo… (risos….). O problema é o vício, não é a Internet. Qualquer coisa em excesso, até uma coisa boa, é prejudicial. Um aluno que se trancafie na biblioteca 12 horas por dia, lendo o tempo todo, e não fazendo outra coisa, pode até não ir mal nos estudos, mas irá terrivelmente mal na vida.

Valdemar Setzer:

Repito, nenhum aluno viciado em biblioteca foi mal nos estudos. Isso mostra que o computador e a Internet têm uma influência maléfica especial. Mas estou de acordo quanto aos prejuízos sociais, se isso prejudicar o convívio social, mas isso aplica-se a qualquer vício. A segunda coisa que você falou foi o latim. Aqui eu gostaria de citar uma historinha que se conta de um dos fundadores do ensino da matemática superior na antiga Faculdade de Filosofia da USP, um daqueles famosos matemáticos europeus, franceses e italianos, talvez Fantapié, Dieudonné ou Alabanesi, que estiveram aqui, acho que evitando o nazismo. Perguntou-se a ele o que se deveria ensinar no colegial ou na escola para que ele recebesse posteriormente bons alunos de matemática no ensino superior. Sabem o que ele respondeu? “Por favor, não ensinem matemática, ensinem latim”. Vejam a sabedoria, a intuição que havia naquela época. Porque quando se estuda o latim faz-se um intenso desenvolvimento de raciocínio lógico, em cima de uma linguagem natural. Hoje em dia essa língua está morta, mas existiu. É uma linguagem natural, não é uma linguagem simbólica, formal como a matemática…

Eduardo Chaves:

… Mas dá para estudar lógica em cima de uma linguagem viva…

Valdemar Setzer:

…mas o latim tem uma estrutura lógica que hoje em dia é difícil de encontar em outras linguagens. Por exemplo, nele a ordem das palavras não interessa, as declinações dão o sentido de um sujeito, de um objeto direto ou indireto, etc. A capacidade de raciocinar que o Eduardo Chaves mencionou pode ser desenvolvida com o latim. Na estou advocando que se volte a ensinar latim, como era obrigatório no Brasil inteiro, por 4 anos, quando eu estava o antigo ginásio (atuais 5ª a 8ª séries). Ele mencionou uma outra palavra antes: chamou o computador de máquina abstrata. De fato, o computador é uma máquina puramente matemática, isso pouca gente sabe. Ele é uma máquina abstrata porque nós podemos descrever todas as funções que ela exerce por meios matemáticos, estritamente formais. A linguagem que se usa com o computador, pode ser digitando algum comando, control + C por exemplo, ou então selecionando um ícone, é estritamente formal, ela não tem ambigüidades como as linguagens naturais…

Eduardo Chaves:

Eu como usuário posso muito bem usar o computador sem fazer uso dessas linguagens formais que são necessárias para programá-lo.

Valdemar Setzer:

Não, é impossível. Eu não estou falando de linguagens de programação, que obviamente são formais, mas nos comandos que é necessário dar no uso de qualquer software. Na hora que você aciona um ícone sempre a mesma função matemática de manipulação de símbolos vai ser executada pelo computador. As pessoas não percebem isso, mas no fundo quando se usa o computador com qualquer programa, por exemplo com um editor de textos (não precisa ser na confecção de um programa, onde o formalismo lógico-matemático é óbvio), também se está usando uma linguagem formal. Qual é a conseqüência disso?

Heródoto Barbeiro:

O resultado é sempre o mesmo?

Valdemar Setzer:

Sim o computador é uma máquina totalmente determinista. É isso que faz o computador ser uma máquina tão potente: sempre que ele está em certo estado, por exemplo apresentando alguma coisa na tela, apertando-se uma tecla – tanto faz qual é a pessoa que aperte aquela mesma tecla –, ele vai sempre fazer a mesma ação; trata-se de um processo matemático. Agora, qual é a conseqüência disso? Que o computador força, induz, um pensamento lógico-simbólico. Por exemplo, os ícones são símbolos, os caracteres são símbolos, constituindo uma linguagem lógico-simbólica. Portanto e ele força um tipo de raciocínio, um tipo de pensamento, lógico-simbólico, e aí é que vem o problema. Na minha concepção não é correto que se force crianças a pensar dessa maneira: vai ser prejudicial posteriormente.

Heródoto Barbeiro:

Professor Eduardo, gostaria de ouvir o comentário do senhor, porque o nosso tempo está esgotando.

Eduardo Chaves:

Certamente o computador é uma máquina abstrata, lógica, determinista. Mas é possível usá-la de forma concreta, não determinista, até ilógica. Vou usar uma comparação para ilustrar o que estou dizendo. A linguagem que usamos – a linguagem escrita mais do que a falada – é uma tecnologia abstrata, lógica, determinista. É abstrata porque usamos símbolos para representar entidades (reais ou fictícias), características e atributos (empíricos ou abstratos), conceitos de vários tipos. É lógica porque esses símbolos precisam ser usados de acordo com certas regras. E é determinista: exceto em situações muito especiais, não temos liberdade de inovar à vontade no uso desses símbolos e nas regras que os governam. E, no entanto, a despeito de tudo isso, somos capazes de usar a linguagem não só em contextos matemáticos e científicos, admitidamente rigorosos, mas para registrar eventos, para narrar histórias (reais ou inventadas), para criar contos fantásticos, surrealistas ou pós-modernos, para compor poemas que inspiram e nos fazem sentir que a vida vale a pena. O mesmo vale para o computador. Ele é, lá dentro dele, uma máquina abstrata, lógica, determinista. Mas nós o usamos – o mundo inteiro o usa – para conversar com os entes queridos pela Internet, para trocar e visualizar fotos, para compartilhar e ouvir músicas, para distribuir nossos ensaios literários e nossos poemas, para registrar nossas viagens em textos e imagens… Tudo isso é concreto e nada tem de lógico ou determinista. Toda a estrutura abstrata, lógica, determinista do computador está lá, mas ela não é visível para mim, ela é transparente, eu não a enxergo – e posso usar o computador para fazer coisas que não são condicionadas por essa infra-estrutura tecnológica. Concentrar a atenção, como se fosse, nos intestinos do computador, da forma que o faz o Setzer (algo até compreensível para quem é um cientista da computação, mas que implica um reducionismo terrível), é deixar de lado o fato de que com o computador nós podemos fazer uma multidão de coisas extremamente úteis e importantes – como, por exemplo, interagir e dialogar com nossos semelhantes, aceder às informações de que precisamos para fazer aquilo que desejamos, etc. Interação humana, acesso a informações, manipulação de informações, etc. são atividades essenciais para o mister de aprender, de educar, de viver.

Heródoto Barbeiro:

Eu quero agradecer a presença dos dois, professor Valdemar e Professor Eduardo. Quero dizer que vocês acabaram de responder o senhor Romildo Neto, de São Paulo, e o comentário do senhor Cláudio Teles, Salvador na Bahia: “Devemos olhar os mais nobres valores de conduta, noção de vida, sociedade e respeito ao próximo. Felizmente, o computador não tem condição de transformar indivíduos e seres humanos”.

Valdemar Setzer:

Na minha concepção, transforma, sim, pois atua no nível mental. No caso de crianças, para muito pior. Por favor, sobre isso, leiam os artigos em meu site. Insisto em que o computador impõe certo tipo de pensamento, que é inadequado para crianças e adolescentes. Há várias pesquisas mostrando que, quanto mais um aluno usa o computador, pior o seu rendimento escolar. Uma das razões que se dá é o tempo que a criança ou adolescente perde com o computador, prejudicando suas outras atividades, inclusive o estudo. Isso é óbvio. Mas eu vou muito mais a fundo: preocupa-me a influência no tipo de pensamento e na linguagem lógico-simbólicos. Isso obviamente não ocorre quando uma criança está digitando um e-mail, mas na hora de enviar o e-mail, ela usará um comando que, no fundo, é matemático, pois dispara funções matemáticas dentro do computador. Como exemplo de prejuízo, tenho certeza que algum dia uma pesquisa mostrará que o computador prejudica a imaginação (o que ocorre com também qualquer aparelho que use tela), e portanto a criatividade, bem como induz indisciplina mental. Gostaria ainda de salientar o que já disse: não há necessidade de se começar a usar o computador e a Internet muito cedo. Quase todos os que têm mais de 40 anos hoje não os usaram quando crianças, e não tiveram dificuldade de aprender a usá-los quando adultos.

Eduardo Chaves:

Só uma observaçãozinha final, curtinha… Um dos grandes males da escola é tentar impingir sobre as crianças um modelo de aprendizagem, fazendo de conta que é o único. As crianças, tradicionalmente, acreditavam que ouvir o professor falar, ler o que ele escrevia no quadro-negro, e fazer anotações no caderno era o único jeito de aprender. Hoje, quando têm acesso a uma tecnologia sofisticada que lhes permite aprender de várias outras formas – pesquisando, discutindo, criando modelos, fazendo simulações, resolvendo problemas que consideram importantes – é natural que se dêem conta de que o modelo de aprendizagem que a escola tenta lhes impor deixa muito a desejar e, por isso, que percam ainda mais o pouco interesse numa escola que mantém esse paradigma hoje ainda, infelizmente, vigente – e que seu rendimento escolar caia.

Heródoto Barbeiro:

O debate segue na Internet, via computador. Os dois participantes têm nas suas páginas artigos sobre o assunto. O endereço do professor Valdemar é http://www.ime.usp.br/~vwsetzer. A home page do Projeto Edutecnet do professor Eduardo é: http://edutec.net [hoje, 15/6/2015: https://liberal.space/ e http://facebook.com/eduardo.chaves) O debate vai seguir lá com certeza, mais animado depois da participação dos dois aqui. Muito obrigado aos dois.

[A transcrição deste debate foi feita, a partir de fita gravada, por Lourdes Matos, do grupo de discussão EduTec, que eu criei e coordenei de 1998 a 2001. Ela foi revista pelos entrevistados em abril de 2008; eles tentaram conservar os argumentos e conhecimentos da época. EC ]

Debate gravado em São Paulo, na TV Cultura, em 28/5/1999; transcrito em uma versão anterior do meu blog em 14/4/2008; e, posteriormente, transferido para WordPress; revisto em 15/6/2015


Two ways of viewing work and educational practice

Tthere are two ways of viewing work:

  • Work is something you have to do, like it or not, to make money that will allow you not onlt to sustain yourself but also, and most importantly, do the things you really enjoy doing;
  • There are many things you really enjoy doing, and the best way to work is by getting people to pay you to do the things you would do anyway, even without pay.

Running the risk of oversimplifying the issue, I believe that there are two alternative, competing ways of viewing educational practice that are somehow analogous to these two ways of viewing work:

  • There are many things (information, knowledge, values, attitudes, skills, competencies) that you have to learn, like it or not, and the function of the teacher is to present these things to you and (in the case of teachers considered good) to look for ways of motivating you to learn them by trying to make learning them either fun and interesting or otherwise rewarding;
  • There are many things that you are interested in doing, and the function of the teacher is to find ways to get you to learn important things (competencies, skills, information, knowledge, values, attitudes) while you are doing the things in which you are interested.

Over Great Falls, Montana (United flight 755, from Chicago to Seattle), on the 11th of March of 2008, 8:00 Pacific Daylight Savings Time

O professor é dividido em dois…

[No dia 12/10/2007 publiquei aqui este artigo em Inglês. Agora ofereço a sua tradução]

A escola convencional exige demais — e, paradoxalmente, de outro ângulo, muito pouco — de seus professores.

Pode-se presumir que o ofício de professor (qualquer que fosse o nome dado aos seus ocupantes então) surgiu porque havia necessidade de alguém que ajudasse as crianças a aprender e, assim, a se desenvolver. Ponto final.

Por milhares e milhares de anos, as crianças aprendiam tudo o que precisavam aprender em casa ou dentro dos limites do círculo familiar. O professor, portanto, era a família: a mãe, o pai, a avó, a avô, a tia, o tio, os irmãos mais velhos, os primos mais experientes… No contexto relativamente simplificado em que isso se dava, os membros da família tinham, em seu conjunto, tudo o que se exigia para ajudar os mais jovens a aprender e a se desenvolver. Em seu conjunto, eles dominavam o conteúdo de tudo o que precisava ou devia ser aprendido:

· Em primeiro lugar, coisas práticas: a linguagem (por muito tempo apenas a linguagem falada; depois, e mesmo assim nem em todas as famílias, a leitura e a escrita), os rudimentos da aritmética, e as habilidades práticas exigidas pelo negócio da família: os negócios externos (em geral caçar, pescar, cultivar a terra, cuidar dos animais, etc.), em regra reservados para os homens, e o trabalho doméstico: cuidar da casa, cozinhar, lavar roupas, tecer, costurar, bordar, tricotar, etc.), em regra reservado para as mulheres;

· Em segundo lugar, ainda coisas práticas, mas agora colocadas num “plano mais elevado”: a “arte de viver”, ou os princípios e as regras da moralidade, da vida espiritual e (talvez num plano não tão alto) da estética.

O primeiro componente era mais ou menos pressuposto como algo que nem merecia discussão, mas o segundo era considerado realmente importante, visto que envolvia preparar as crianças para viver suas vidas não só nesta vida, mas também na futura… (como diz, até hoje, o moto da educação adventista).

A “arte de viver” geralmente incluía:

a) Educação moral: ajudar as crianças a entender a diferença entre o moralmente certo e o moralmente errado [conceito], entender (ou simplesmente aceitar) aquilo que faz com que uma determinada ação seja moralmente certa ou moralmente errada [critério], classificar diferentes ações concretas como moralmente certas, ou moralmente erradas, ou moralmente indiferentes [segundo o critério], e, mais importante, fazer o que é moralmente certo e deixar de fazer o que é moralmente errado;

b) Educação spiritual: [especialmente em círculos cristãos] ajudar as crianças a entender que temos um corpo mas somos uma alma, que nossa alma que sobrevive à morte do seu corpo, que como nos comportamos aqui na vida aqui na Terra vai nos trazer recompensas ou punições na vida futura, e que, portanto, é importante ler (ou ouvir) as escrituras, orar solicitando a orientação divina, ir à igreja, etc.

c) Educação estética: [dirigida mais para as meninas] ajudar as crianças a desenvolver alguns dos mais finos hábitos e a cultivar as artes, aprendendo a desenhar, pintar, cantar, tocar um instrumento, e, em geral, apreciar o que é belo e evitar o que é feio.

À medida que a vida foi se tornando mais complexa, porém, a família teve de recorrer a agentes externos, especializados, para apoiá-la na tarefa de ajudar suas crianças a aprender tudo o que era considerado digno de aprender. Foi nesse contexto que surgiu a função do professor – e foi nesse contexto que a escola moderna, com sua “congregação de professores” (expressão até hoje utilizada), foi inventada.

Muitas coisas tornaram esse desenvolvimento necessário – mas algumas delas são especialmente importantes, e tiveram lugar por volta do fim do século quinze e durante os séculos dezesseis e dezessete: a invenção da imprensa de tipo móvel, a explosão de textos escritos que resultou dessa invenção (e que marca o início da literatura no vernáculo da maior parte das línguas modernas), a descoberta de partes até então desconhecidas do mundo, a Reforma Protestante, o aparecimento da ciência experimental moderna… Os reformadores protestantes tiveram um papel importante no processo, porque insistiram que cada um devia aprender a ler para poder ler as Escrituras por si só, e, assim, não ser enganado pelos padres católicos (pois o preço de não aprender a ler poderia ser a danação eterna no inferno…). O resultado disso foi que escolas começaram a aparecer em toda cidade ao lado das igrejas protestantes.

Uma conseqüência importante dessa ênfase na educação foi que o mister de ajudar as crianças a aprender se tornou mais complexo e uma gradual “divisão de trabalho” (com sua conseqüente criação de funções especializadas) começou a ocorrer. A família, por um tempo, reteve as funções práticas de preparar os meninos para os negócios externos da família e as meninas para os negócios domésticos relacionados ao cuidado da casa e, oportunamente, dos filhos. A educação moral e spiritual foi, em larga medida, compartilhada pela família e pela igreja. A educação estética (“a educação da sensibilidade”) perdeu um pouco de sua importância. E a escola assumiu uma área que não existia antes, mas que estava fadada a crescer e a assumir cada vais mais importante: a educação intelectual.

Com o aparecimento de várias linguagens modernas e sua correlata literatura, com a descoberta de novos mundos, com a criação de várias denominações protestantes (competindo não só com a Igreja Católica, mas também umas com as outras), com o surgimento da ciência moderna, que gradualmente evoluiu da astronomia e da física para a química e a biologia, e o posterior surgimento das ciências humanas (história, geografia, psicologia, sociologia, antropologia, ciência política, etc.), o cenário intelectual – o mundo das idéias – cresceu em complexidade e importância. De repente a família parecia totalmente inadequada para a tarefa de preparar as crianças para aprender coisas tão complexas e variadas. E, curiosamente, e de certo modo paradoxalmente, esse novo mundo das idéias estimulou o interesse no velho mundo das idéias dos Gregos e Romanos…

Nem mesmo se podia esperar que um professor individual, geralmente empregado por famílias de mais posses, pudesse dominar tudo aquilo que se esperava que as crianças, especialmente as das classes mais elevadas, viessem a aprender… As famílias mais ricas começaram a contratar vários professores especializados. A classe media emergente (e, mais tarde, também os ricos) tiveram de recorrer à congregação de professores fornecida pelas escolas… (Os pobres geralmente ficavam de fora – até bem recentemente).

E assim chegamos à escola atual, convencional… Essa escola é, desde o início, e quase que por definição, um ambiente de aprendizagem especializado: ela tenta lidar apenas com a educação intelectual e, mesmo assim, apenas com um segmento dela. A educação moral, espiritual e estético ficam normalmente fora de seu escopo. E a chamada educação profissional e vocacional foi atribuída a instituições especializadas e nunca foi considerada muito importante.

A escola convencional de hoje (e a sociedade, em geral) quer que os professores sejam várias coisas ao mesmo tempo…

Acima de tudo, ela quer que os professores sejam especialistas em conteúdo, isto é, quer que eles conheçam bem uma das matérias (disciplinas acadêmicas) nas quais o currículo (aquilo que deve ser aprendido na escola) veio a ser dividido.

Com a explosão da informação que caracteriza o nosso tempo, expectativas acerca da área dos professores foram sendo ajustadas (i.e., estreitadas). Hoje não se considera mais razoável que um professor seja um especialista em toda a biologia, ou em toda a física, ou mesmo em toda a história: os professores precisam escolher sub-especialidades: História do Brasil, por exemplo, no caso de um professor de história… ou até mais (isto é, menos) do que isso: História do Brasil Republicano (ou, pior, História do Brasil Após a Segunda Guerra…)

Mas as expectativas foram ainda mais estreitadas à medida que foram sendo “focadas”… Além da escolha de especialidades dentro das especialidades, os professores começaram a se especializar no conteúdo específico que deveria ser ensinado às classes sob sua responsabilidade: “Sou professor de matemática no ensino médio”… “Sou professor de língua portuguesa na oitava série”…

Mas o nível de especialização tem uma conseqüência ainda mais problemática.

Cada uma das diferentes áreas de especialização pode ser dividida em duas partes: uma que contém o que poderia ser chamado de o “conteúdo legado”, produzido pelos especialistas do passado (mesmo recente), e outra que contém o “método de investigação e reflexão” que, quando aplicado, pode produzir conteúdo semelhante…

Essa distinção é muito importante.

Tentarei mostrar por que usando como exemplo minha própria área de especialização, a filosofia. É provável que os seres humanos tenham estado a filosofar por muito tempo. Mas a filosofia, como uma forma de investigação sistemática sobre questões como o que existe (ontologia), de onde viemos e para onde vamos (metafísica), qual é o curso correto de ação que devemos assumir (ética), qual é a forma correta de organizar a vida em sociedade (filosofia política), por que consideramos algumas coisas lindas e atraentes e outras feias e repugnantes (estética), e como é que sabemos tudo aquilo que presumimos saber (lógica e epistemologia) – essa forma de investigação teve seu início entre os gregos durante os cinco séculos que precederam a era cristã. E se espalhou, para todo canto e muito rapidamente. Mais de dois mil anos depois, temos uma quantidade incrível de registros históricos daquilo que pensaram os filósofos passados e contemporâneos. Esse é o que chamo de o “conteúdo legado” dessa área de especialização.

Ajudar uma criança a aprender a filosofar pode, nesse contexto, ser interpretado de duas maneiras diferentes:

· Ajudá-la a assimilar as idéias mais importantes (segundo algum critério) daquilo que outros filósofos pensaram e escreveram;

· Ajudá-la a desenvolver as competências e as habilidades necessárias para pensar e escrever de maneira semelhante (ou seja, necessárias para que eles mesmos filosofem).

A maior parte dos professores de filosofia opta por fazer apenas a primeira dessas duas coisas – e muitas vezes não sabe filosofar nem mesmo para consumo próprio. Não tenho dúvida nenhuma, porém, de que a segunda dessas coisas é a mais importante para a filosofia (a primeira, na verdade, não é filosofia: é história, ainda que da filosofia)… Na realidade, o pensamento escrito de outros filósofos só se torna interessante quando a gente começa a dominar a arte de filosofar… Para quem não tem esse domínio, o pensamento filosófico de terceiros é terrivelmente chato.

O que acabei de dizer sobre a filosofia pode ser dito, com a mesma propriedade, sobre qualquer outra das disciplinas acadêmicas. A maior parte dos professores nas escolas convencionais de hoje não ajuda as crianças a aprender como filosofar, como pensar como um cientista, como produzir obras de arte. Esses professores estão apenas envolvidos em transmitir para os alunos o que filósofos, cientistas e artistas pensaram e fizeram ao longo da história. Seu negócio é “transmitir conteúdos” – uma expressão horrível que, infelizmente, reflete bastante bem o que a maior parte dos professores faz: sua área de especialização é, para eles, apenas um monte de conteúdo – conteúdo esse que consiste daquilo que os outros pensaram ou fizeram, e que, agora, precisa ser transferido para os alunos que, quase por definição, não têm familiaridade com ele.

Posto que o conteúdo de uma área de especialização, hoje, cresce muito rapidamente, os professores são incapazes de se manter atualizados até mesmo sobre o que se produz em suas estreitas especialidades, e a tendência é que se especializem cada vez mais, até chegar o ponto de saberem quase tudo sobre virtualmente nada. E é isso que transmitem para seus alunos.

A bem da clareza, aqui está o que esses professores não fazem – nem suas escolas exigem que o façam:

a) Ajudar seus alunos a dominar os métodos de investigação de suas disciplinas especializadas;

b) Ajudar seus alunos a entender o contexto mais amplo em que as disciplinas foram definidas e operam;

c) Ajudar seus alunos a entender que as questões mais interessantes em geral transcendem os limites das disciplinas tradicionais e mesmo de mega-áreas como, por exemplo, filosofia, ciência, ou arte;

d) Ajudar seus alunos a lidar com as competências e habilidades práticas exigidas pelas diversas profissões intelectuais;

e) Ajudar seus alunos a lidar inteligente e honestamente com questões morais, espirituais e estéticas que vão inevitavelmente confrontá-los.

Isto posto, fica claro por que eu disse, no início, que a escola convencional, e a sociedade que a apóia, exige, ao mesmo tempo, demais e muito pouco de seus professores.

A Lumiar tenta enfrentar esse problema de diversas maneiras.

Talvez a maneira mais criativa e interessante tem sido dividir o professor em duas figuras pedagógicas: o tutor/mentor e o instrutor/mestre.

O tutor/mentor é funcionário de tempo integral da escola. Cada um deles é responsável por cerca de 15 a 20 alunos. A responsabilidade envolve o desenvolvimento pessoal do aluno em todos os aspectos relevantes: físico, social, emocional, moral, espiritual e, naturalmente, intelectual. O tutor/mentor deve conhecer bem as crianças por cujo desenvolvimento ele é responsável. Ele deve descobrir o que as crianças já sabem quando entram na escola, isto é, quais são os talentos, inclinações, interesses, esperanças e expectativas que trazem consigo para a escola (tanto quanto se pode descobrir essas coisas em relação a crianças pequenas). Com a ajuda dos pais delas, ele deve ajudar as crianças a escolher e contratar os projetos de aprendizagem em que vão se envolver. Ele deve supervisionar as crianças enquanto elas não estão envolvidas nos seus projetos de aprendizagem (pois neste caso elas ficam sob a supervisão do instrutor/mestre). Ele deve periodicamente avaliar o seu aprendizado e o seu desenvolvimento (com base em suas observações e com a ajuda de relatórios elaborados pelos instrutores/mestres). E, a menos que problemas surjam, ele não é substituído por outro tutor/mentor à medida que a criança vai ficando mais velha: ele é uma referência constante para elas.

O instrutor/mestre é, de certo modo, o especialista em conteúdo a quem a responsabilidade pelo desenvolvimento das competências e habilidades específicas é – para usar um termo quase que abusivo – terceirizado. Ele não é funcionário de tempo integral da escola: é contratado para oferecer – planejar, desenvolver, implementar, executar — projetos específicos de aprendizagem para as crianças – e avaliar o seu desempenho neles (avaliando não só se realizaram as atividades previstas mas, também, se desenvolveram, ao realizar essas atividades, as competências e habilidades previstas).

Há três características importantes que são buscadas nos instrutores/mestres:

a) Que dominem com competência um conteúdo específico – por isso são chamados de mestres;

b) Que sejam capazes de olhar ao conteúdo que dominam do ponto de vista das competências e habilidades exigidas para produzi-lo, e não do ponto de vista de sua mera transmissão para os alunos – é por isso que a Lumiar reluta em chamá-los simplesmente de professores;

c) Que tenham um genuíno interesse na área e uma paixão visível pelo que vão fazer, a saber, ajudar as crianças no seu desenvolvimento.

Se essas três características estiverem presentes – domínio, foco nos métodos de investigação, e motivação – os instrutores/mestres não devem ter problemas para conseguir que os alunos voluntariamente se disponham a participar de seus projetos: os alunos não precisam ser seduzidos, muito menos compelidos, a participar.

Se os tutores/mentores fornecem oferecem constância e continuidade, os instrutores/mestres oferecem mudança e diversidade.

A administração da escola é responsável por garantir que todas as áreas essenciais da Matriz de Competências que serve de currículo estejam cobertas por projetos de aprendizagem oferecidos, liderados e coordenados pelos instrutores/mestres. Estes são responsáveis por garantir que os alunos envolvidos em seus projetos não só aprendam o conteúdo dos próprios projetos, mas, também, que desenvolvam as competências e habilidades definidas pela Matriz de Competências. E os tutores/mentores são responsáveis por garantir que aquilo que os alunos aprendem nos diversos projetos contribui para seu desenvolvimento coerente como pessoas – não só como os indivíduos únicos que são, mas também para sua existência social como cidadãos e para sua preparação para serem, oportunamente, os profissionais que o século XXI exige.

O professor convencional foi dividido em dois na Lumiar – e, no caso dos instrutores/mestres, seu foco de atuação, dentro de sua área de especialização, foi retirado da transmissão do “conteúdo legado” nela existente para os métodos de investigação.

Em Campinas, 12 de Outubro de 2007 (traduzido em 3 de Março de 2008)

Innovative curricula – or: What learnings are of most worth?

In one of the discussion groups of the site of the twelve schools that participate in Microsoft’s Innovative Schools Program, Allison More placed the question below and I answered with the text that comes after the question… EC

>From: Allison Moore
>Posted: Sunday, February 17, 2008 7:02 PM
>Subject: Issue 2: Innovative Curricula

>People from across the world—educators, business leaders, and other thought leaders—have expressed concern that our schools are not preparing students as best they might for the demands of the 21st century. There have been calls for changes to curricula, teaching practices and assessments that will personalize student learning, better teach students to problem solve, think critically, communicate effectively and work in teams, and will help ensure that they acquire the skills to adapt to new innovations, innovate themselves, and learn effectively in the future. <

>QUESTION: From your perspective, what innovations in curriculum, pedagogy and assessment have you made or do you think are important to make, and why? Share your current thoughts on best practices and exemplary curricula and assessment practices. What benefits and challenges have you experienced (or do you anticipate experiencing) in the process of implementing these innovations? <


Let me try my hand at answering this thought-provoking question…

Curricula are attempts to define what must be learned in a given context. Methodologies are attempts to to define how best to learn what must be learned. Evaluation is the attempt to assess whether what was to be learned was in fact learned.

It seems to me that the main issue in relation to curricula – including innovative curricula – is philosophical, not scientific, and so not approachable from a “research-based” perspective, at least if “research” is understood as “empirical research” (as it commonly is, especially in the United States). The main issue is:

What learnings are of most worth today in 21st-century post-industrial societies?

This issue is not scientific – it is not answerable by any of the academic disciplines or by a survey of specialists, for instance. This issue is clearly philosophical, since it involves an important discussion of values.

To be historically fair, this is basically the same question that Herbert Spencer asked more than 150 years ago (in 1854), when he asked “What knowledge is of most worth?” I chose to replace “knowledge” by “learnings”, because the word “knowledge” is frequently identified with typical academic – or even scientific – learning. The word “learnings” is more general, and therefore better suited to my purpose, even if it looks and sounds a bit odd in the plural.

Spencer said: “before there can be a rational curriculum, we must settle which things it most concerns us to know; . . . we must determine the relative values of knowledges" [Herbert Spencer, Education: Intellectual, Moral, and Physical (New York: Appleton and Co., 1909), p. 11]. Please observe that the word “knowledges”, in the plural, is also a bit odd…

I would like to change Spencer’s question and ask:

“Before there can be innovative curricula, we must settle which things it most concerns us to learn; . . . we must determine the relative values of distinct learnings."

Spencer’s question, and its paraphrased counterpart, make it clear that we are dealing with values, here. And, I add, values are not the sort of issues that one handles through scientific methodology or “research-based” approaches.

This being said, we are ready to suggest the lines along which we ought to look for answers to this question:

What learnings are of most worth today in 21st-century post-industrial societies?

The first thing to emphasize is the last part of the question: “today in 21st-century post-industrial societies”. Unless we intend to arrive at very general answers, applicable universally (anytime, anywhere), such as “the true, the good and the beautiful” (that which traditional philosophy called the “transcendentalia”), our search for the most worth learnings must be contextualized – in time and space.

The most worth learnings in Western Medieval society are certainly not the most worth learnings in 21st-century post-industrial societies or knowledge-based economies. To begin with, science and technology, as we know it, did not exist in the Middle Ages. To take just another example, reading and writing were a rather specialized kind of learning in the Middle Ages, best left to monks in monasteries (in the monasteries dedicated to the preservation of culture, to be more precise: there were monastic orders dedicated, for instance, to agriculture or even to war). So, changes in time do make a great difference here, even if we maintain the variable space intact.

My friend Rubem Alves, one the greatest living Brazilian educators, never tires of saying that the variable space is also very important in education. The learnings that are of most worth to a child living in a Middle Eastern desert village will not be identical to those of an indian living in the heart of the Amazon forest – even in the 21st century… To stay within the confines of the West, the learnings that are of most worth to a child living at the top of the austrian Alps will not be identical to those of a child living along the Mediterranean sea: in Monte Carlo or Marseille, or in the Algarve, in Southern Portugal – or in the Harlem, in New York… So, changes in space do make a great difference here, even if we maintain the variable time intact.

The second thing to emphasize, especially given the emphases of traditional schooling, is that there are at least two important kinds of learning, which must not be made to appear as only one kind: there is “learning that…” something is the case and there is “learning how…” to do something.

Traditional schooling has emphasized the first: that is why the academic disciplines are so central in traditional curricula. Most of the learnings that the traditional school considers of most worth are “learnings that…” something is the case. Even in my area, philosophy, if I may take it as a typical example, the traditional school tries to get the students to learn that Plato thought this or that, that Descartes is the father of modern philosophy, that Kant was influenced by the rise and the incredible early success of newtonian science, that existentialism is a revolt against the rationalism of the Enlightenment, etc. All “learnings that…”

Contemporary technology has made it quite unnecessary for the school to “deliver” this sort of “content” to the students: a quick search of the Internet answers all of these questions, or at least brings up texts and media clips that allow one to easily find the answer. “Learning that…” is basically equivalent to “finding out”, “come across a given piece of information”.

I am convinced that the learnings that are of most worth today, in the West, are “learnings how…”. To learn how to do something one did not not know
how to do before is to acquire a skill – or, if the “learning how…” is to mobilize and integrate lower-order skills to perform a higher function, it is to develop a competency. These learnings are typically transdisciplinary. It is not the case that they are multidisciplinary (involve more than one academic discipline) or interdisciplinary (integrate different academic disciplines): they transcend the disciplinary model or paradigm. Most of what we call “21st-century skills” today (some of which are listed in the question) are nothing but complex competencies that mobilize and integrate lower-order skills.

To use philosophy again as an example, what students need today is to learn how to philosophize – rather than learn that this or that philosopher thought this or that over two thousand years ago.

So, to finish, one of the basic requirements for innovative curricula is that they be based on competencies and centered on the development of competencies.

At Lumiar, in São Paulo, that is the kind of curriculum that we endeavor to implement. If you are interested in these ideas, check the space http://lumiarschool.spaces.live.com.

–Eduardo Chaves
International Advisory Board
Partners in Learning

Microsoft Corporation

In Campinas, on the 17th of February, 2008

Oitenta anos da fundação do JMC

Hoje comemoramos o octagésimo aniversário da fundação do Instituto “José Manuel da Conceição” (JMC), que teve lugar no dia de ontem. O JMC foi criado no dia 8 de Fevereiro de 1928. A comemoração se deu com um culto solene na Catedral Evangélica da Igreja Presbiteriana Independente de São Paulo, na Rua Nestor Pestana, depois do qual houve um almoço de confraternização. Mais sobre o culto e o almoço depois.

A Ata de Fundação do JMC começa assim:

“No dia 8 de fevereiro de 1928 reuniram-se no salão nobre do Acampamento do Mackenzie College, sito no kil. 32 da E.[strada de] F.[erro] Sorocabana, o Rev. Dr. W.[illiam] A.[lfred] Waddell, Rev. e Snra. C.[harles] R.[oy] Harper, Rev. R. F. Lenington e os Snrs. Erencio Victorino, Eduardo Pereira de Magalhães e Tuffy Elias, para a abertura das aulas do Curso Universitário ‘José Manuel da Conceição’.  Foi cantado o hymno nº 26, dos ‘Psalmos e Hymnos’, um dos hymnos predilectos do fallecido Rev. José Manuel da Conceição. O Dr.Waddell relembrou a ocasião em 7 de fevereiro de 1891, quando se reuniram na casa nº 1 da antiga rua S. José, hoje Líbero Badaró, o Rev. e Snra. G. W. Chamberlain, e, com 3 creanças, um menino branco, nº 1 da matrícula, depois o Rev. Álvaro Reis, uma menina branca e um menino preto, organisaram a Escola Americana de São Paulo. Também a ocasião, no dia 8 de março de 1891, quando na sala do Rev. G. W. Chamberlain, na Rua Consolação em São Paulo, elle, Dr. Waddell, organisou o Mackenzie College, com três matriculados.” [Continua. Foi mantida a ortografia da época.]

Dr. Waddell também havia criado, em 1906, o Instituto Ponte Nova, no local em que hoje se situa a cidade de Wagner, na Bahia. Foi um semeador de escolas.

Registre-se que Erencio Victorino, Eduardo Pereira de Magalhães e Tuffy Elias, presentes no momento da criação do JMC, foram seus três primeiros alunos, tendo os números de matrícula 1, 2 e 3, respectivamente.

Estiveram presentes na comemoração de hoje, e dirigiram a palavra aos presentes, o Rev. Richard L. Waddell, neto do Dr. Waddell e bisneto do Rev. Chamberlain, e o Rev. Charles Roy Harper (Junior), filho do Rev. Harper e de Dona Evelyna Harper. O primeiro está radicado nos Estados Unidos e o segundo na França.

O culto foi longo: começou às 10h30 e só terminou perto das 13h. Muita música – com um coral improvisado, que ensaiou durante uma hora, das 9h30 às 10h30, sob a batuta sempre firme do Rev. Maestro João Wilson Faustini – meu antigo professor de música e regente de vários corais dos quais tive o privilégio de participar (de quem me tornei amigo pessoal nos últimos quinze anos). A liturgia foi celebrada pelos Revs. Gerson Correia de Lacerda e Elizeu Rodrigues Cremm (esse meu contemporâneo no JMC – estava um ano na minha frente). Não conheci o Dr. Waddell e o Rev. Harper (os que criaram o JMC), mas meu pai os conheceu bem (foi aluno do JMC de 1934 a 1938) e os admirava muito – bem como à Dona Evelyna. O Rev. Waddell de hoje eu não conhecia. O Rev. Harper de hoje (o Royzinho) eu fiquei conhecendo há cerca de vinte anos em Genebra, através de nosso amigo comum Rev. Aharon Sapsezian.

Pregou no culto de hoje o Rev. João Dias de Araújo, ex-manuelino, que nos idos dos anos 50 e 60 era considerado um teólogo revolucionário, professor que era no Seminário Presbiteriano do Norte, em Recife. Depois do Golpe de 1964, foi perseguido. Hoje falou sobre “O Mutirão de Deus”. Não entro no mérito do conteúdo – mas na forma foi um bom sermão: o Rev. João Dias é um experiente orador. Não o conhecia pessoalmente – embora tivesse lido vários de seus artigos quando eu era aluno do Seminário Presbiteriano de Campinas (1964-1966).

O culto, apesar de longo demais, foi lindo – falando do ponto de vista estético. Os hinos foram bonitos – eu me comovi, no final, quando todos cantamos a chamada Bênção Aarônica e, para encerrar, num majestoso “Grand Finale”, o Aleluia de Haendel – números que cantei tantas vezes enquanto era aluno do JMC.

Depois do culto, um almoço e um momento social. Saí de lá, com minha mulher, por volta das 15h30 – e a sala ainda estava bem cheia. Encontrei inúmeros colegas de classe, contemporâneos e amigos que estudaram lá em outras épocas.

Dos formandos de 1963, minha turma, estavam lá, do Clássico, apenas o Assir Pereira e eu, e do Ginásio, o João Rhonaldo de Andrade, atual presidente da Associação dos Ex-Alunos, a Sueli Barbosa Cavalcanti Jardim, secretária perpétua da Associação, e o Paulo Cosiuc. Fazendo um parêntese, a turma de 1963 foi a última turma a se formar antes da Ditadura Militar, em cuja vigência a escola foi fechada. Neste ano de 2008, vamos comemorar, em Novembro, 45 anos de nossa memorável viagem pelo Sul do Brasil: Curitiba, Florianópolis, e Porto Alegre, passando por Tubarão, Joinville, Blumenau, Lajes e pela nascente comunidade de Camboriú — quase só havia a praia, já linda, então. Quem sabe consigamos montar uma celebração. Fim do parêntese.

Durante o culto eu fiquei pensando sobre o JMC. Embora comemorássemos o octagésimo aniversário da fundação do Instituto, ele só esteve em existência durante 41 desses oitenta anos. Foi fechado, inexplicavelmente, em 1969, pela Igreja Presbiteriana do Brasil, que nunca explicou sua extinção – no auge da Ditadura. Mais inexplicável ainda foi o uso de parte do campus para instalação de uma fábrica, hoje abandonada, que, segundo consta, era de armamentos. O assunto é tabu dos bravos – todo mundo que deveria saber alguma coisa, e que está ainda vivo, desconversa quando se aborda o assunto. Já abordei, em outras ocasiões, muita gente (Olson Pemberton, ex-diretor do JMC, e Oswaldo Henrique Hack, ex-aluno e ex-Chanceler do Mackenzie, ambos presentes no culto), mas sem sucesso. 

Mas, como dizia, fiquei pensando sobre o JMC. Em um artigo anterior, escrito em 1997, mais de dez anos atrás, e publicado aqui neste site, na seção “Vinhetas”, eu defendi a tese (que era o título do artigo) de que “O JMC nos deu Educação”. Não tenho dúvida disso. Não consigo encontrar outra explicação para o fato de que, quase quarenta anos depois de sua extinção, essa escola seja capaz de reunir várias centenas de ex-alunos em uma associação, criada em 1992, e consegue, pelo menos uma vez por ano, mobilizar quase uma centena de ex-alunos, todos aí na casa dos cinqüenta anos para cima, para um encontro anual.

Alguns participantes desses encontros trazem seus filhos, e os filhos de seus filhos, para tentar fazer com que eles entendam o que o JMC significou em suas vidas. Isso tudo fica ainda mais surpreendente quando se constata que, durante os seus 41 anos de funcionamento, o JMC teve apenas 2.604 alunos.

Estiveram presentes hoje no encontro alguns ex-alunos bem avançados nos seus oitenta anos. Sono Yuasa Tanaami, matrícula 186, entrou no JMC em Janeiro de 1937, com 17 anos. Tem, hoje, portanto, 88 anos. O número anterior de matrícula, 185, é do Rev. Gerson Azevedo Meyer, também com 88 anos, que não esteve presente, mas que me ligou ontem para justificar sua ausência, que se deveu ao estado de saúde não muito bom de sua mulher, Dona Romélia. Ambos moram aqui em Campinas. A matrícula 181 foi de Martha Faustini (hoje Martha Faustini Egg), cuja idade deve estar por aí — e cujo dueto de “Jesus, o Bom Pastor”, com Carlos René Egg, seu marido, é absolutamente inesquecível (meu pai tinha o disco de 78 rotações, mas ele misteriosamente sumiu). Por falar em meu pai, que hoje teria 95 anos, se estivesse vivo, sua matrícula no JMC tinha o número 98. Minha matrícula foi 1514. A última aluna a se matricular no JMC foi Wanda Emir Simões: teve o número 2604. O Rev. João Dias, pregador de hoje, teve matrícula 629; o Rev. Faustini, 611.

Como disse, não tenho dúvida de que o JMC nos deu educação. O que me intriga é como foi que isso aconteceu. As instalações da escola, embora próprias e, de certo ângulo, até pitorescas, eram bastante precárias – ainda quando eu estudei lá, de 1961 a 1963. Imagino o que não foram antes. A comida, às vezes feita pelos próprios alunos, era horrível: havia um ovo cozido servido num ensopado de espinafre com o qual até hoje tenho pesadelos. Os quartos em que morávamos (a maioria dos alunos morava na escola em regime de internato) eram um desastre: poucos erram forrados, alguns tinham enormes goteiras. Os chuveiros dos banheiros coletivos eram de água fria, ainda em 1963. Nem menciono como eram as instalações sanitárias. A biblioteca era fraquíssima – e não havia bibliotecário especializado. Tecnologia? Bom, havia uma máquina de escrever na secretária, e, presumo, uma máquina de calcular na tesouraria. Os professores não tinham pós-graduação, muito menos formação no exterior (exceção feita, neste caso, aos estrangeiros – quase todos missionários e seus cônjuges). Olhando em retrospectiva, as aulas eram tradicionais – alguns professores pareciam simplesmente “declamar” o livro texto…

E, no entanto, o JMC nos deu educação… Como?

Da minha vida profissional, quase 33 anos foram passados na Faculdade de Educação da UNICAMP, onde me ocupei, entre outras, da cadeira de Filosofia da Educação. Sempre me preocupei em tentar definir o que é que caracteriza uma educação e uma escola de qualidade. Nos últimos anos tenho assessorado a Microsoft num programa que ela instituiu e implementa chamado “Escolas Inovadoras”. Em todas essas atividades, tem me parecido evidente que uma escola de qualidade é uma escola inovadora – e que uma escola inovadora se caracteriza por um projeto pedagógico ousado, um currículo orientado para o futuro (não para o passado), uma metodologia ativa, centrada no estudante… e uso criativo e inovador da tecnologia.

O meu problema é que, julgado por esses critérios, o JMC não se sai bem… E, no entanto, eu não tenho nenhuma dúvida de que o JMC era uma excelente escola.

Como explicar?

Durante o culto me surgiram algumas idéias, que passo a compartilhar. O Rev. João Dias que me desculpe os vôos de pensamento durante o seu sermão.

1. Primeira idéia

No JMC, virtualmente todos os alunos tinham um projeto de vida bem definido, sabiam que a educação era importante para esse projeto, e, portanto, não tinham nenhuma dúvida sobre por que estavam no JMC. O Instituto foi criado como um curso preparatório para o Curso de Teologia, ministrado pelos Seminários Evangélicos. A escola era até chamada de “Seminário Menor” (houve quem tenha conseguido contar. Sua função era preparar candidatos ao ministério (pastorado) para que pudessem fazer com sucesso, ou com melhor aproveitamento, o Curso de Teologia. Quem chegava ao JMC, especialmente nos tempos mais antigos, era por que queria ser pastor evangélico. Não importava a denominação. Embora mantido pela Igreja Presbiteriana e pela sua co-irmã brasileira a Igreja Presbiteriana Independente (criada em 1903, através de uma cisão), o JMC aceitava candidatos de outras denominações: metodistas, batistas, episcopais, congregacionais. Era, na verdade, uma instituição ecumênica, antes de o ecumenismo se tornar moda.

Tendo um projeto de vida bem definido, e sabendo que a educação era essencial para ele, os alunos chegavam ao JMC em geral vinham dispostos a estudar. Quem não tinha essa disposição, não agüentava um mês da escola: ia de volta para casa, porque compreendia que no JMC o estudo era coisa séria. É verdade que uns vinham mais bem preparados do que os outros, outros tinham mais facilidade para aprender do que os outros, mas nenhum tinha dúvida de que estava ali para estudar e para aprender – de que forma fosse, custasse o que custasse. Os melhores alunos ajudavam os que tinham mais dificuldades, havia aulas de reforço pelos professores, e muitos alunos passavam a noite “queimando as pestanas” em cima dos livros e das anotações de aula. Mas aprendiam.

Hoje, ao se ler livros sobre pedagogia, pouco ou nada se encontra sobre a importância de um projeto de vida para a educação. No entanto, quem trabalha na área sabe que, muitas vezes, um aluno se arrasta por um curso, repetindo séries, ou ficando em dependência em matérias – até que define um projeto de vida. Alguém decide ser médico ou dentista – e, de repente, aquelas aulas chatas de biologia se tornam interessantes, porque passaram a ser condições necessárias para a realização do projeto de vida. Outro decide ser engenheiro – e, de repente, aquelas aulas insuportáveis de matemática se tornam interessantes… (ou, pelo menos, o fato de serem chatas não se torna mais um empecilho para a aprendizagem). Quem quer ser pastor (ou professor, ou advogado) sabe que tem de conhecer bem a língua materna, falá-la bem, inclusive em público, escrevê-la bem… Sabe que terá de aprender a usar bem a retórica e a oratória… Sabe que deve conhecer bem a literatura e a história, a filosofia, bem como uma ou duas línguas estrangeiras vivas… No caso do pastor, se quiser ser “bom de púlpito”, terá de saber fazer exegese dos textos bíblicos, interpretar criativamente passagens obscuras; se quiser ser “bom no pastoreio das almas”, terá de conhecer bem a psicologia, talvez um pouco de sociologia… A razão para estudar está dada – e, conseqüentemente, o problema da motivação está resolvido.

(O fato de que alguns dos alunos, e todas as alunas, não pretenderem ingressar no pastorado – até porque ele era, e continua sendo, vedado para mulheres na maioria das denominações protestantes – não refuta a minha tese: esses alunos e alunas em geral tinham um projeto de vida relacionado à igreja: trabalho missionário, o ministério da música, etc. No mínimo, muitas das alunas aspiravam a se tornar “mulher de pastor”…)

2. Segunda idéia

O JMC era um ambiente propício ao estudo e à aprendizagem. Todo mundo ali estudava e aprendia: aluno e professor. Ninguém tinha vergonha de confessar sua ignorância e de ser apanhado estudando.

Como ambiente de aprendizagem, o JMC tinha um currículo. Diferentemente de outras escolas, porém, os professores não tinham dificuldade de convencer os alunos de que o currículo que a escola oferecia era essencial para a realização do projeto de vida que tinham. A finalidade do JMC era oferecer aos seus alunos o Curso Secundário, como então definido, em dois ciclos: o Ginásio e o Clássico. Futuros pastores, se acreditava (corretamente, acrescento eu), não precisavam estudar nem muita matemática nem muita ciência. De matemática ainda precisavam conhecer os aspectos mais relevantes à gestão das atividades do dia-a-dia. Mas de ciência, quase nada. Coerentemente, o JMC oferecia o Clássico, não o Científico, e dava ênfase às línguas vivas e mortas (Português, Francês, Inglês, Latim, Grego), à Literatura e à História (repositórios excelentes de histórias edificantes), à Filosofia, à Lógica, à Psicologia… E esse era um currículo bastante ajustado às necessidades do futuro pastor. O encaixe era perfeito. Assim, nenhum aluno perdia tempo perguntando por que ele tinha de estudar tanto Português, ou Filosofia, ou História… porque a resposta era evidente.

A segunda característica interessante do ambiente de aprendizagem que era o JMC era o fato de que alunos e professores viviam na escola em tempo integral. Os alunos, nos quartos do internato. Os professores, nas casas de professores que havia dentro do campus. Para uns e outros, estudar e aprender, ou estudar e ajudar os outros a aprender, eram tarefas de tempo integral. (Havia exceções: uns poucos alunos externos e um ou outro professor que era pastor fora do campus. Mas a regra era clara: o JMC era uma escola de tempo integral e dedicação exclusiva). Os professores estavam disponíveis não só durante as aulas. Era possível visitá-los em suas casas, ou abordá-los fora do horário das aulas. Eles nos convidavam para suas casas com freqüência. O “English Club” se reunia à noite – não raro na casa da professora de Inglês.

É verdade que tínhamos várias ocupações “não acadêmicas” durante nosso tempo de permanência na escola. Tínhamos de lavar nossa roupa, limpar nossos quartos, cuidar da limpeza dos pátios e banheiros – não havia serventes. Vários alunos, para ganhar um dinheirinho, ou até mesmo para conseguir pagar a escola, trabalhavam na secretaria, na cozinha, no refeitório, ou em outros locais. O “enfermeiro” da escola em geral era um aluno que já tinha trabalhado em farmácia e, por isso, sabia aplicar injeções e fazer curativos… Quem cuidava da biblioteca em geral era um aluno. Quem supervisionava o estudo dos alunos mais novos em geral era um aluno. E assim vai.

Mas essas atividades, longe de roubar o tempo de nossa educação, eram incorporadas nela. A educação, entendíamos (corretamente, acrescento eu hoje) que educação é preparação para a vida – e as distinções entre educação formal e não-formal, entre aprendizagem e trabalho, entre aprendizagem e esporte, entre aprendizagem e lazer, são artificiosas. Tudo pode contribuir para nossa educação, se nosso objetivo maior e constante é aprender, e aprender sempre.

Na verdade, muitas das atividades extra-classe foram extremamente importantes na nossa educação.

A música, em primeiro lugar: a participação nos corais, nos conjuntos, nos octetos, nos quartetos, o estudo de harmônio e piano… Lembro-me bem de quando chegou ao JMC o Manuel Vieira de Castro Neto – magro, tímido, oriundo de meio pobre… Mas extremamente interessado em música e muito talentoso. Em pouco tempo tocava harmônio, logo evoluiu para o órgão elétrico. Ele tocou no culto de hoje. Deu um show. Estudar harmônio, órgão ou piano não era obrigatório para todos. Estudar regência também não. Participar do coral, também não. Criar um quarteto ou octeto próprio, menos ainda. Participar nos festivais de música, nos concertos (até no Municipal, em São Paulo), também não. Mas nunca se viu uma fábrica tão competente de cantores de coral, de solistas, de organistas e pianistas, de regentes corais, de compositores, de professores de música, como o JMC. A música sacra no Brasil se divide em antes e depois do JMC.

O esporte, em segundo lugar. Jogávamos futebol de campo, futebol de salão, vôlei e basquete. E éramos bons. Esportes de equipe são excelentes instrumentos para ajudar os que deles participam a “aprender a conviver”: a trabalhar em equipe, a cooperar e colaborar, a liderar… Ninguém era obrigado a participar dos diversos esportes – eles não contavam como aulas de “Educação Física”. Mas eram mais do que isso: eram instrumentos de educação para a vida em sociedade e instrumentos para que pudéssemos aprender a conviver com nossas limitações, em especial diante de gente de excepcional habilidade — Dorival de Oliveira nos “futebóis”, por exemplo…

Havia também o Clube Literário – o Castro Alves. Ali aprendíamos a debater, a redigir, a usar a voz, a falar em público, a declamar poesias… A participação nele também não era obrigatória.

Havia ainda o Clube Miguel Torres, dedicado a questões de natureza mais filosófica e teológica. Também de participação voluntária.

Em resumo: o ambiente de aprendizagem propiciado pelo JMC era excelente, especialmente por abranger a educação formal e a não-formal, o ensino em sala de aula e a aprendizagem na solidão do quarto ou na convivialidade dos grupos, a aprendizagem pela música, pelo esporte, pelo lazer e pelo trabalho.

Quando um ambiente de aprendizagem desse tipo é oferecido a quem tem um projeto de vida definido, que exige que estudem e aprendam, ninguém consegue ficar sem aprender. Se não quiser aprender, reconhece que aquele não é o ambiente adequado e vai embora rápido. Mas se quiser, as possibilidades e oportunidades estão aí para todo mundo ver. Uns avançaram mais do que outros – mas todos avançaram bem mais do que inicialmente julgavam possível.

3. Terceira idéia

Apesar de o JMC ser um magnífico ambiente de aprendizagem, a responsabilidade de aprender era claramente definida e entendida como sendo de cada aluno.

Desculpas como as seguintes não eram admitidas para desempenho fraco: “Ah, a aula do professor é maçante”; “Ah, o livro didático é fraco”; “Ah, esse mês eu tive que supervisionar os estudos dos mais jovens”; “Ah, pedi aos colegas das séries mais altas que me ajudassem, mas eles não o fizeram”; “Ah, minha namorada me deu o fora e eu fiquei muito deprimido”…

E a responsabilidade de cada um ia adiante: muitos professores nos davam a prova e saíam da classe, ou nos davam a prova e diziam que podíamos fazê-la no quarto e depois entregá-la – e que tínhamos duas horas para concluí-la. Ficávamos sozinhos na sala, e não conversávamos ou colávamos. Ou, no quarto, sozinhos, não olhávamos o livro ou os cadernos – e encerrávamos a prova quando terminava o tempo, ainda que tivéssemos mais a dizer, e ninguém estivesse olhando. O ambiente da escola criava um clima em que era inadmissível não cumprir as regras, não corresponder às expectativas que eram depositadas em nós. Uma ou outra vez um aluno, pressionado para mostrar um nível aceitável de desempenho (sete era a nota mínima para aprovação) não resistia – mas sua consciência doía tanto que ele mesmo se encarregava de confessar o erro, e aceitava qualquer veredicto que o mestre houvesse por bem lhe dar.

Enfim: aí estão algumas idéias.

O JMC tinha defeitos? Claro que tinha. Mas eram poucos e menores. Não tínhamos liberdade para fumar, beber ou dançar, por exemplo. Embora o JMC abrigasse homens e mulheres, era proibido namorar – ou, pelo menos, exibir as manifestações exteriores do namoro (pegar inocentemente na mão da namorada, por exemplo).

Seria viável recriar o JMC hoje? Acho difícil. Os tempos são outros. Mas é possível difundir a sua filosofia e a sua prática. Só isso já traria uma grande contribuição para a educação brasileira.

Em Campinas, 9 de Fevereiro de 2008

A chave da qualidade na área da educação

Como já sabem, se acompanham este space, estou em Seul, Coréia — linda, toda coberta de neve.

Ontem tive o privilégio de compartilhar o palco com Michael Fullan, a maior autoridade hoje em dia na área de mudanças na educação (vide http://www.michaelfullan.ca). O Michael é canadense, tendo se aposentado da Faculdade de Educação da Universidade de Toronto há pouco tempo. Lá foi deão da Faculdade de Educação. Eu me aposentei recentemente da UNCIAMP, onde fui diretor da Faculdade de Educação por quatro anos, depois de ter sido diretor associado também por quatro anos. Nós dois somos membros do International Advisory Board de Parceiros na Aprendizagem desde 2003. Nosso mandato de cinco anos deve terminar no final deste semestre.

Ontem nós dois demos os keynotes de abertura do 21st Century Schools Forum 2008 aqui em Seul. Ele falou sobre "Large Scale Change" e eu sobre "Education, Change and Technology: An Inquiry into the Future of Schooling".

Na apresentação de "cases", houve palestras de Cingapura e de Taiwan (Chen Kee Ng, Assistant Director do Ministério da Educação de Cingapura, e Carrie Chen, minha amiga querida, Academic Program Manager na área da educação da Microsoft Taiwan. Cingapura é um país tão pequeno que o Ministério da Eduçacão de lá cuida de tudo na educação: não há Ministério, Secretaria Estadual, Secretaria Municipal…).

Em Out-Nov de 2007 estive na Finlândia (Helsinki e Oulu). A Finlândia e a Coréia são dois países que se destacam na área da educação nos testes de PISA — exatamente com Cingapura, Taiwan e o Canada (com exceção da Finlândia, todos representados aqui).

Gostei muito da fala de Chen Kee Ng, da Cingapura. O que ela mostrou, que me impressionou, foi a consciência de que Cingapura alcançou um nível de qualidade bastante alto na área da educação, mas a educação na qual eles se tornaram bons não está lhes servindo mais, porque o mundo mudou na frente dos olhos deles… "Sabemos fazer alunos tirar notas boas em testes, até mesmo internacionais", disse ela, "mas isto, apesar de nos trazer alguma visibilidade, tem valor apenas relativo para nós". O ponto dela é que o século 21 exige "picos de excelência", não tanto médias altas "across the board" em matérias acadêmicas que, em termos de importância, estão rapidamente cedendo lugar para conjuntos bem definidos de competências.

Fui anotando algumas coisas que ouvi acerca das características dos países que têm se dado bem nas avaliações internacionais (aqueles mencionados acima mais uns poucos, como Canada, Holanda, Australia, Nova Zelândia, Japão, etc. — notem que, com exceção do Japão, nenhum "powerhouse" como Estados Unidos, Inglaterra, Alemanha, França, Itália, etc. está entre eles).

Eis algumas dessas características:

* Esses países estão conseguindo que as pessoas certas venham para a área da educação, porque a área da educação é valorizada socialmente (traz status ser professor), paga bem e claramente contribui para o crescimento pessoal dos seus profissionais. Isso tem permitido que esses países SELECIONEM (sic) para a área da educação, dentre os melhores alunos que saem das universidades, aqueles que demonstram possuir características pessoais que os tornam especialmente adequados para o trabalho educacional (como, por exemplo, facilidade para trabalhar com pessoas, interesse em ajudá-las a aprender, capacidade de ouvir, etc.);

* Conseguiram criar uma "infraestrutura de apoio pedagógico" que permite que os profissionais da área se capacitem e desenvolvam o tempo todo, em especial no próprio local de trabalho, e tenham à sua disposição duas coisas: (a) apoio permanente e constante de profissionais experientes em comunidades de prática e de aprendizagem colaborativa focadas na qualidade da prática pedagógica escolar (e que o mais das vezes funcionam virtualmente); e (b) recursos materiais (sugestões curriculares, materiais de apoio à aprendizagem como livros, fotos, filmes, clips de audio, acesso de qualidade à Internet, etc.), que possam ser usados conforme as necessidades de aprendizagem dos alunos;

* Conseguiram montar sistemas e mecanismos de avaliação institutucional das escolas que lhes permite identificar áreas problemáticas cedo e intervir nelas, para que não causem maior dano aos seus alunos e não "contagiem" as demais.

Interessante, não?

Quão longe estamos dessas características no Brasil de hoje.

Em Seoul, 21 de Janeiro de 2008

A CPMF

Recebi por e-mail e redistribuo (com alguns aperfeiçoamentos):

[Caso alguém ache a categoria "Education" inapropriada, sugiro que pense duas vezes. Aprender a não se deixar enganar é parte importante da educação de cada um.]

A CPMF é um imposta virótico, pois se espalha em uma terrível reação em cadeia.

Isso é verdade ou é mentira? Essa é a grande discussão do momento.

Acompanhem o destino de R$ 100,00, para ficarmos num número simples.

1) A empresa "B" recebe R$ 100,00 por um produto que fabrica ou comercializa ou por um serviço que presta. A empresa "A", que pagou a fatura pelo produto ou serviço, recolhe, ao fazer o pagamento, 0,38% para o governo, ou seja, R$ 0,38. Parece pouco.

2) Os R$ 100,00 recebidos pela empresa "B" entram no seu caixa. Ela os usa para cobrir parte da sua Folha de Pagamento e, por conseguinte, deposita os mesmos R$ 100,00 na conta de um dos seus empregados, o Seu Zé. Nesse processo também a empresa "B" recolhe para o governo mais R$ 0,38 — sobre os mesmos R$ 100,00. Ou seja, a CPMF está sendo paga pela segunda vez sobre os mesmos R$ 100,00.

3) O Seu Zé usa os R$ 100,00 para pagar a conta do supermercado (empresa "C"). Ao fazer o cheque para pagar o supermercado, ou a sacar o dinheiro no Caixa Eletrônico para pagar o supermercado (empresa "C") em cash, o Seu Zé recolhe para o governo mais 0,38%. É a terceira vez que o imposto é pago sobre os mesmos R$ 100,00.

4) Os R$ 100,00 que o Seu Zé deixou no supermercado (empresa "C) serão usados pela empresa para comprar da empresa "D" mais bens que lhe permitam refazer o estoque das prateleiras. Lá vão para a governo mais R$ 0,38. É a quarta vez que o imposto é pago sobre os mesmos R$ 100,00.

5) A empresa "D", da qual o supermercado comprou os produtos para colocar na prateleira usa os R$ 100,00 para pagar algum de seus empregados ou para comprar algum insumo de que precisa. Lá vão mais R$ 0,38 para o governo. É a quinta vez que o imposto é pago sobre os mesmos R$ 100,00.

E a cadeia continua, numa espiral interminável.

Mas reparem: ao final desse pequeno percurso que esboçamos, os mesmos R$ 100,00 foram tributados cinco vezes, o que rendeu ao governo não R$ 0,38, mas R$ 1,90 (ou seja, 1,90% de R$ 100,00, ou 0,38% de R$ 500,00).

Ocorre que as quatro empresas que aí aparecem têm como se defender. Seus respectivos departamentos financeiros se encarregarão de repassar ao preço final das mercadorias que comercializam ou dos serviços que prestam o custo que elas tiveram com a CPMF.

Então, a quem restará pagar, sem chiar, sem poder sonegar, e sem ter a quem repassar? O Seu Zé. Mesmo que ele não tenha conta em banco e receba o seu pagamento em dinheiro vivo. Se ele receber em dinheiro vivo, quando ele gastar os R$ 100,00, não pagará R$ 0,38 sobre cheque ou saque, mas continuará a pagar os vários R$ 0,38 embutidos nos preços das mercadorias que adquire ou dos serviços que lhe são prestados, em toda a cadeia produtiva.

A CPMF é paga pelos quase 200 milhões de brasileiros, sim! E incide muitas vezes sobre o mesmo dinheiro. Lulla, quando jovem, não teve tempo para estudar. Quando ele afirma que só rico que tem conta em banco paga a CPMF, ou ele está demonstrando que não sabe fazer contas ou está mentindo deslavadamente. A Dilma Roussef, que também disse a mesma balela, estava empenhada em ser guerrilheira quando jovem, e também não deve ter estudado matemática. Ou, então, a alternativa é que ela também é uma mentirosa deslavada.

Querem a prova?

Quanto é que o governo esperava arrecadar com a CPMF de 0,38% ao longo de 2008? Algo em torno de R$ 40 bilhões, certo? Vamos fazer uma regrinha de três?

Se R$ 40 bilhões correspondem a 0,38%, que valor corresponderia a 100%?

Como ensinava nossa professorinha, dona Zezé, com sua regrinha de 3:

R$ 40.000.000.000,00 = 0,38%

x = 100,00%

Multiplica-se em cruz e faz-se a divisão, etc…. e tal:

0,38x = 40.000.000.000,00 X 100

x = R$ 10.526.315.789.473,68

Dessa forma simples você chegará à conclusão, leitor amigo, que os R$ 40 bilhões arrecadados pelo governo através da CPMF correspondem à aplicação da alíquota de 0,38% sobre — atenção! — nada menos do que R$ 10.526.315.789.473,68.

Isso mesmo. Se você tiver dificuldade de ler, eu ajudo: dez trilhões, quinhentos e vinte e seis bilhões, trezentos e quinze milhões, setecentos e oitenta e nove mil, quatrocentos e setenta e três reais e sessenta e oito centavos.

É isso aí. O valor que o governo previa arrecadas com a CPMF é 0,38% de QUASE CINCO PIBs BRASILEIROS. Em um único ano.

Eis aí! Trata-se de prova material, escancarada, evidente, de que a CPMF tributa muitas vezes um mesmo dinheiro e de que TODOS PAGAM. E VáRIAS VEZES. Não só rico. Não só quem tem conta em banco. Quem tenta impedir os outros de entender isso, ou é ignorante ou é mentiroso mal intencionado.

Agora já se diz que até a própria oposição, que derrotou a CPMF no Senado, estaria de acordo com uma nova CPMF, um pouco menor, talvez, e dedicada, quem sabe, totalmente à saúde. Lembram-se da primeira CPMF? Também era pra ser dedicada totalmente à saúde. O babacão do Adib Jatene acreditou. Muita gente acreditou. Será que a oposição vai acreditar? Ou será que ela vai deixar que os Srs. José Serra e Aécio Neves, que esperam poder distribuir esse dinheirinho um dia, reverta uma das poucas decisões decentes que o Senado tomou em 2007?

E-Mail nos Senadores, nos Deputados, nos jornais.

Em Campinas, 14 de Dezembro de 2007