Lumiar: Declaração de princípios

A Escola Lumiar, criada em 2003, com funcionamento a partir de 2004, é mantida pelo Instituto Lumiar, entidade que possui atribuições de pesquisa e desenvolvimento que vão além da escola em si, em parte com recursos fornecidos pela Fundação SEMCO, criada por Ricardo Semler, e em parte com recursos oriundos do pagamento de mensalidades por parte de seus alunos.

A Lumiar foi criada para ser uma escola experimental e inovadora. Quem a criou resolveu levar extremamente a sério as aberturas da nova Lei de Diretrizes e Bases da Educação Nacional e os princípios arrojados incorporados aos Parâmetros Curriculares Nacionais, entre os quais os seguintes:

· Uma Visão da Educação que vê a educação como processo contínuo e permanente de desenvolvimento do ser humano que abrange não só os aspectos cognitivos desse desenvolvimento, mas também os seus aspectos emocionais e sociais, e que acontece através das múltiplas interações do indivíduo com seu ambiente humano e natural, fora e dentro da escola;

· Uma Visão da Escola que a vê como ambiente privilegiado de aprendizagem, organizado para propiciar aos alunos oportunidades de aprendizagem ricas, flexíveis e envolventes, que encoraje a liberdade de aprender, incentive a autonomia do aluno e, ao mesmo tempo, exija dele responsabilidade pelas suas escolhas, decisões e ações, dentro de um clima que favoreça a individualidade e, ao mesmo tempo, a cooperação; a diversidade e, ao mesmo tempo, a igualdade de direitos e a existência de atributos comuns; a tolerância e o respeito mútuo;

· Um Currículo focado no desenvolvimento de competências pelos alunos e não na transmissão de conteúdos disciplinares pelos professores e que se caracteriza, portanto, como uma Matriz de Competências, organizada ao redor dos Quatro Pilares da Educação propostos pela UNESCO, em vez de uma grade de disciplinas;

· Uma Metodologia centrada na participação em Projetos de Aprendizagem cuidadosamente definidos para facilitar aos envolvidos o desenvolvimento de competências específicas e oferecidos em quantidades e modalidades suficientes para propiciar aos alunos real liberdade de escolha, participação essa que substitui as aulas tradicionais;

· Um conjunto de Profissionais Pedagógicos diferenciados em dois grupos:

 

  • de um lado, Educadores (Mentores, Orientadores, Conselheiros) dos alunos, que são contratados pela escola em tempo integral (mínimo de seis horas) e que têm a função de acompanhar e supervisionar, ano a ano, um mesmo grupo de alunos em todas as suas atividades, inclusive nas presumidas como apenas recreativas, interagir com eles e com seus pais com o objetivo de incorporar informações extra-escolares ao Portfólio de Aprendizagem dos alunos e manter os pais informados sobre o desempenho do aluno na escola, assistir os alunos, juntamente com os pais, na escolha dos projetos de que irão participar, e avaliá-los periodicamente (pelo menos a cada dois meses e ao final do ano);
  • de outro lado, Mestres com competência e alto nível de interesse em áreas que possam servir para o desenvolvimento de competências por parte dos alunos, que são contratados pela escola por períodos limitados (dois a quatro meses em regra) e que têm a função de planejar e coordenar projetos de aprendizagem e avaliar o desenvolvimento das competências dos alunos que participam desses projetos;

· Um uso criativo e inovador da Tecnologia, que a põe a funcionar como ferramenta da aprendizagem individualizada e personalizada do aluno e não como uma ferramenta de apoio ao ensino do professor no gerenciamento da classe e na transmissão de conteúdos disciplinares;

· Uma Forma de Gestão democrática e participativa que encontra sua melhor expressão na Roda, que é uma assembléia geral da comunidade escolar que se reúne todas as semanas para discutir problemas que lhe são trazidos por qualquer membro da comunidade escolar e que vão desde questões disciplinares até questões relacionadas à natureza da comida servida ou da limpeza dos banheiros.

Numa visão como esta, a Lumiar, em vez de focar no conhecimento disciplinar e transversalizar o desenvolvimento de competências, faz o contrário: foca no desenvolvimento de competências e transversaliza a busca de conhecimento disciplinar, que entra na formação do aluno à medida que se mostra necessário ou útil para a realização dos projetos de aprendizagem.

Em Campinas, 23 de Novembro de 2007

A Finlândia e a educação

Termino hoje uma estada de basicamente dez dias na Finlândia. Saí do Brasil no dia 22/10, à noite, num itinerário que me levou para os Estados Unidos primeiro e, em seguida, para cá. Cheguei aqui dia 24/10, à noite. Estarei saindo amanhã cedo, devendo chegar no Brasil no dia seguinte, dia 6/11. Vim a serviço da Microsoft. Participei (como já disse neste blog) de quatro eventos:

* "Third ‘Innovative Teachers Forum’"

* "Third ‘School of the Future’ Summit"

* "Second In-Person Meeting of the Schools of the ‘Innovative Schools Program’"’

* "Meeting of the International Advisory Board of the ‘Partners in Learning’ Program".

Todas as expressões colocadas entre aspas simples são programas educacionais da Microsoft. Em reconhecimento pelo destaque que a Finlândia tem alcançado na área da educação, a Microsoft resolveu concentrar num mesmo período as reuniões anuais de seus principais programas voltados para Educação Básica (K-12). Tenho sido privilegiado de acompanhá-los todos desde o início, em 2003, quatro anos atrás. Is três primeiros programas fazem parte da iniciativa "guarda-chuva" "Partners in Learning" ("Parceiros na Aprendizagem", no Brasil, "Alianza por la Educación" no restante da América Latina).

A propósito, está disponível no site da Microsoft Education um relatório em PDF dos primeiros quatro anos e meio de "Partners in Learning". Os interessados podem baixá-lo no seguinte endereço:

http://www.microsoft.com/education/PartnersinLearning/2007ProgressReport.mspx 

As reuniões aqui foram entremeadas de visitas a escolas e de palestras por autoridades educacionais finlandeses. Eu dei um dos keynote speeches no segundo evento ("Third ‘School of the Future’ Summit"), no dia 30. Comecei minha fala, que teve como título "Change, Innovation and Accountability", destacando os contrastes do desempenho dos alunos de 15 alunos finlandeses e brasileiros no PISA ("Programme for International Student Assessment") da OECD ("Organisation for Economic Cooperation and Development"). Os sites respectivos são os seguintes:

http://www.pisa.oecd.org/

http://www.oecd.org/

Minha palestra foi muito parecida com uma palestra que venho dando há alguns anos em Hong Kong, Coréia do Sul, Cingapura e Taiwan — países (Hong Kong na verdade é uma região, mas considero como uma país, dadas suas diferenças do restante da China) que também têm obtido grande visibilidade na área da educação — Hong Kong e Coréia do Sul disputando com a Finlândia os primeiros lugares. É interessante registrar que Macau — que também é região especial da China hoje, foi colonizada durante vários séculos pelos mesmos portugueses que nos colonizaram e só foi devolvida à China em 1996 — também obteve resultados bastante significativos no PISA de 2003.

Tenho conversado bastante, nos últimos anos, com educadores finlandeses e desses quatro países asiáticos (já estive em Macau, mas só para conhecer: não conversei com nenhum educador de lá). Comecei minha palestra em Helsinki, realizada na abertura de um evento sobre "A Escola do Futuro", perguntando se nós, que não éramos desses países, imaginávamos que esses países já teriam alcançado "A Escola do Futuro". E relatei que — diferentemente das autoridades dos Ministérios da Educação desses países (e, aqui entre nós, do que a mídia parece pensar) — muitos educadores desses países, longe de ficarem satisfeitos com os resultados alcançados, estão preocupados, pois estão convencidos de que as escolas de seus países estão longe de ser qualquer coisa que possa ser descrita como "Escola do Futuro" e receiam que toda esse publicidade dada à suas escolas vá tornar cada vez mais difícil transformá-las significativamente, como eles acham que deve acontecer. Muitos têm receio de dizer isso em voz alta, porque vão parecer traidores da pátria, exatamente em seu momento de maior brilho — mas é isso que pensam quando se permitem discutir os problemas em ambientes sem visibilidade mediática (como, por exemplo, no caso dos finlandeses, tomando a deliciosa vodka "Finlandia" bem gelada, beliscando canapés de salmão defumado ou de ostras fritas no alho, em preparação para um jantar de filé de rena e lingüiça de alce). (E tem gente, como Jacques Chirac e Silvio Berlusconi que dizem que a Finlândia tem a pior comida da Europa. Só um francês e um italiano esnobes, que acreditam que só a França e a Itália fazem comida decente, poderiam dizer uma besteira dessas.)

Mas voltemos ao que interessa. Dado o contexto que acabei de descrever, e que descrevi também na minha palestra, propus-me discutir no restante da palestra o que, a meu ver, está acontecendo que pode explicar esse quase paradoxo: o mundo inteiro querendo saber o que a Finlândia e a Coréia do Sul estão fazendo na área da educação, para poder imitá-las, e educadores desses países receosos de que toda essa visibilidade possa dificultar o aparecimento de um processo de real transformação de suas escolas que eles consideram indispensáveis.

Vou resumir aqui o que penso, enunciando, de forma condensada, várias teses. Não vou defendê-las extensamente aqui (em alguns casos, não vou nem sequer tentar defendê-las). Mas considero todas elas muito defensáveis.

1) Nossa época, descrita como Sociedade da Informação ou Era do Conhecimento, é mais aptamente descrita como Era de Mudanças e Inovação.

2) Mudanças podem ser classificadas de várias maneiras, mas a mais interessante categorização, no contexto, é a que coloca:

a) de um lado, mudanças parciais, graduais, incrementais, que não se distanciam significamente de práticas presentes, e, portanto, levam a reformas; e

b) de outro lado, mudanças sistêmicas, rápidas, inclusivas, que se distanciam radicalmente de práticas presentes, e, portanto, levam a transformações (ou, se preferem, revoluções).

3) Tem-se mostrado de forma convincente que o principal critério que nos permite colocar mudanças numa ou noutra dessas duas categorias é o grau de inovação que a mudança implica.

4) As mudanças que caracterizam nossa época (exceção feita à escola) são do segundo tipo e esse fato tem provocado uma verdadeira revolução na economia, nas empresas, nas instituições em geral, até mesmo nos governos (sempre excetuada a escola).

5) Focando agora a escola, pequenas mudanças parciais, segmentadas, graduais, incrementais, DENTRO da escola atual (no currículo, na metodologia, na forma de preparação do professor, na introdução de tecnologia, etc.), ainda que, isoladamente inovadoras, não serão suficientes para INOVAR A ESCOLA em si, na forma radical em que essa inovação se torna, hoje, necessária.

6) O que é preciso, hoje, se a escola vai continuar a ser pedagogicamente relevante nos processos de aprendizagem das pessoas, em especial das crianças da chamada "geração digital", é reinventar a escola de forma sistêmica, repensando-a de forma global, sem compromissos com as suas práticas atuais.

Esse é o contexto teórico em que me proponho discutir a questão das escolas finlandesas e das escolas dos países asiáticos que mencionei.

Minha experiência de várias visitas aos países asiáticos nomeados nos últimos quatro anos, e em grande medida confirmada pela minha visita à Finlândia agora, é que a escola desses países alcançou um nível excepcional de qualidade DENTRO DO CONTEXTO DA ESCOLA TRADICIONAL.

Cansei de ver escolas nos países asiáticos com mais de 40 alunos na classe, todos eles sentados em fila, segundo o número de matrícula, uniformizados e com o número de matrícula gravado na camisa, quietinhos e disciplinados (chegaria a dizer amestrados — palavra que, não nos esqueçamos, tem que ver com "mestre"), ouvindo um professor que leciona (dá lição) o tempo quase todo, falando ao microfone que fica ao redor de seu pescoço, os alunos só se manifestando quando solicitados. Se levados ao laboratório de informática, os alunos conseguem demonstrar grande proficiência no trato com a tecnologia, mas o conteúdo a que aplicam a tecnologia continua sendo um conteúdo altamente tradicional.

Sem querer exagerar, e deixando de lado a tecnologia, que não tínhamos, as escolas que vi se pareciam muito, enquanto ambientes de aprendizagem, com as escolas públicas que freqüentei de 1950 a 1960, no curso primário e ginasial. Não é preciso relembrar ninguém aqui que as escolas públicas brasileiras desse período eram excelentes — enquanto ambientes de aprendizagem tradicionais, segundo os quais educar era transmitir conteúdos disciplinares ("to deliver content", como dizem os gringos), algo que se fazia pelo ensino, ensino esse ministrado por professores especializados em blocos estanques de conteúdos (disciplinas acadêmicas, dosadas por série) — e aprender era absorver e assimilar esses conteúdos, coisa que se aferia através de provas e exames. Nossos professores eram bem preparados, dentro desse paradigma, ganhavam relativamente bem, tinham elevado status social e a coisa toda funcionava mais do que a contento: havia uma concorrência brutal para entrar na escola pública. No ano de 1956, em que entrei no Ginásio, entraram menos de dez por cento dos candidatos ao Exame de Admissão do então celebrado "Colégio Estadual e Escola Normal ‘Dr. Américo Brasiliense’", de Santo André (na Praça do Quarto Centenário). Menos de dez por cento: mais de dez candidatos por vaga.

A qualidade da escola pública brasileira dos anos 50 nos permite compará-la (a meu ver) com a qualidade das escolas que se saem bem no PISA, hoje.

Mas sua seletividade a constrasta frontalmente com essas escolas. A escola pública brasileira dos anos 50 atendia a um percentual pequeno da população. As escolas finlandesas e asiáticas (dos países indicados) atendem basicamente a toda a população na faixa etária escolar. Aí está o que, a meu ver, deve ser investigado com mais profundidade. E minha conjetura (popperiana) é de que não há maior mistério no sucesso das escolas bem classificadas no PISA: elas fazem o que nós fazíamos nos anos 50: levam a educação a sério, investem significativamente no sistema escolar, pagam bem os professores, fazem do magistério uma carreira econômica e socialmente atraente, etc.

Só que a Finlândia e os países asiáticos indicados fazem isso com basicamente toda a população — nós só o fazíamos com uma parcela selecionada, que de certo modo era, ou estava destinada a ser, a elite intelectual do país.

Deixando de lado por um momento a Coréia do Sul e Taiwan, que são países de maior população, é necessário destacar que a Finlândia e Hong Kong são países de população muito pequena e estável (na verdade, com o que os entendidos chamam de "crescimento negativo"). A Finlândia tem cerca de 5 milhões de habitantes e Hong Kong um pouco mais: por volta de 7 milhões. Cabem duas Finlândias dentro do município de São Paulo (não da Grande São Paulo). A Finlândia e Hong Kong juntos representam mais ou menos um terço da população do Estado de São Paulo. Cabem duas Helsinkis dentro da Campinas.

E a população aqui no Brasil, embora tenha tido taxas de crescimento menores (em relação ao que eram), continua a crescer. Não nos esquecemos de que, em termos de população, o Brasil cresceu, nos últimos 35 anos, nada menos do que VINTE FINLÂNDIAS (passando de cerca de 90 milhões na época da Copa de 70 para cerca de 190 milhões hoje).

E a Finlândia (deixando os outros países temporariamente de lado) é um país rico com uma longa tradição cultural. Nós no Brasil estamos esperando nosso primeiro Prêmio Nobel (até a Argentina e Portugal já têm o deles). Enquanto a isso, a pequenina (em termos de população) Finlândia tem nada menos do que QUATRO:

Ragnar Arthur Granit (October 30, 1900, Helsinki, FinlandMarch 12, 1991, Stockholm, Sweden) was a Finnish scientist who won the Nobel Prize in Physiology or Medicine in 1967, along with Haldan Keffer Hartline and George Wald. He was a 1927 graduate of the University of Helsinki Faculty of Medicine.

Frans Eemil Sillanpää (September 16, 1888June 3, 1964) was one of the most famous Finnish writers. He was awarded the Nobel Prize in Literature in 1939.

Artturi Ilmari Virtanen (IPA: [ˈɑrtːuri ˈilmɑri ˈvirtɑnen]) (January 15, 1895November 11, 1973) was a Finnish chemist and a recipient of the Nobel Prize in Chemistry in 1945.

Heikki Ollila was chosen to receive the 2005 Nobel Peace Prize on behalf of the International Atomic Energy Agency (IAEA) and its chief, the Director General Mohammed El Baradei. Mr. El-Baradei and the agency will share the prize.

(http://en.wikipedia.org/wiki/Category:Finnish_Nobel_laureates)

Tão importante quanto serem quatro os prêmios é fato de que foram em áreas diversas: Fisiologia ou Medicina, Química, Literatura e Paz — o que mostra bom nível cultural nas ciências e nas humanidades. Os prêmios foram concedidos de 1927 a 2005.

Há um outro fator para o qual quero chamar a atenção, que alguns vão julgar irrelevante — mas que eu considero pertinente. Hoje, aqui em Helsinki, estava noite às 16h30 — e amanhã só vai amanhecer depois das 8. Quando chegar o Inverno, em Dezembro, os dias por aqui terão claridade apenas por cerca de três horas — o que significa que as noites têm mais de vinte horas. E, hoje, em pleno Outono, a temperatura chegou a menos sete graus Celsius aqui em Helsinki. Frio para ninguém botar defeito — e para ninguém colocar defeito. Num contexto desses, ficar em casa é a regra. E uma das coisas que se faz em casa quando está escuro lá fora durante 90% do tempo e gelado durante 100% é ler, estudar, conversar, escrever — ou ficar deprimido e encher a cara (os finlandeses, segundo meu "Guia Turístico", estão entre os maiores beberrões do mundo e suas taxas de suicídio são elevadíssimas). Enquanto isso, temos sol e calor o ano todo na maior parte do país, temos não sei quantos quilômetros de praias convidativas, etc. 

Quem duvida que esse tipo de consideração seja pertinente é convidado a ler Vianna Moog, Bandeirantes e Pioneiros.

Para encaminhar essa fase da discussão para uma conclusão: para mim o admirável (dentro do contexto da escola tradicional) é o que a Coréia do Sul e Taiwan estão fazendo — pois têm populações muito maiores do que a Finlândia, Hong Kong e, naturalmente, Cingapura (que tem apenas dois milhões e pouco de habitantes).

MAS a escola tradicional tem seus dias contados. Disso não tenho dúvida alguma. Argumentei em favor dessa tese em vários lugares. Um deles foi um artigo no meu blog "Liberal Space" no dia 28/4 deste ano: vide "Educação no Norte e no Sul" em

http://ec.spaces.live.com/blog/cns!511A711AD3EE09AA!1512.entry 

E os educadores com quem tenho conversado na Finlândia e nos países asiáticos indicados sabem disso — especialmente os asiáticos. Eles sabem que suas escolas preparam excelentes técnicos, maravilhosos cumpridores de ordem, capazes de seguir as instruções mais difíceis (desde que precisas), mas não conseguem preparar gente com elevados graus de capacidade criativa e inovadora, gente que saiba lidar com ambigüidade e complexidade, gente competente na solução de problemas inéditos, para os quais não há precedentes, gente que tem capacidade de liderança, que sabe negociar, que tem competência na resolução de conflitos interpessoais, que sabe trabalhar bem em grupos de iguais em que ninguém dá ordens e transmite instruções, gente que sabe fazer planejamento estratégico de longo prazo, inclusive da própria vida, e que sabe administrar os recursos básicos que viabilizam o gerenciamento competente de projetos: pessoas, tempo, dinheiro, e recursos materiais.

E assim vai.  

É por isso que o pessoal desses países faz curso de engenharia ou matemática em suas universidades e vai fazer Mestrado (especialmente o MBA) ou Doutorado fora — particularmente nos Estados Unidos.

Enfim… É isso o que penso. Alguns amigos me pediram que deflagrasse uma reflexão sobre a Finlândia, já que estive lá por esses dias, em eventos relacionados à educação escolar. É isso o que penso. Foi isso que, em parte, disse aos finlandeses. Não chamei a atenção deles para o fato de que têm altas taxas de consumo de álcool e suicídio — mas um outro palestrante destacou exatamente isso no início de sua fala.

Uma última palavra. Há gente que é muito cético da mídia — mas aceita mais ou menos acriticamente a tese de que os testes do PISA medem realmente qualidade em educação, e que, portanto, as escolas da Finlândia e dos "Tigres Asiáticos" são as melhores do mundo. Minha sugestão é que entrem no site do PISA e verifiquem as mudanças que os organizadores do teste estão contemplando para as próximas edições.

ET: Lendo uma versão anterior deste artigo, meu amigo Rev. Wilson Azevedo, cuja filha já estudou na Escola da Ponte, em Vila Nova do Famalicão, ao lado do Porto, e que dá cursos a distância sobre a visão pedagógica dessa escola, me perguntou:

"Estou aqui pensando: se em Portugal tem uma Escola da Ponte, se no Brasil tem uma Lumiar, o que tem nestes países em termos de reinvenção da escola? Você viu alguma coisa nesta direção?"

Respondi a ele por e-mail basicamente o seguinte:

Pode ser que haja, Wilson. Eu não vi. Da próxima vez, quem sabe, sairei ‘campeando’ uma por aqui… Quem sabe ache.

Mas fico me lembrando de um famoso ditado americano: "If it ain’t broken, don’t fix it". Traduzindo literalmente, "Se não está quebrado, não conserte". O equivalente desse ditado no Brasil é "Em time que está ganhando não se mexe".

Em coerência com esses ditados, Nicholas Negroponte disse, numa palestra no COSN (Council of School Networking), em Washington, em Março de 2004, a que eu tive o prazer de assistir, que o principal obstáculo à inovação nas escolas dos países desenvolvidos é a qualidade que se percebe nelas (ou a qualidade que se lhes atribui). Quanto maior a qualidade percebida de um sistema, menos dispostas estão as pessoas a tentar mudá-lo, porque a mudança pode dar errado e colocar em risco o sucesso alcançado. O inverso também é verdadeiro: Quanto pior a qualidade percebida de um sistema, mais dispostas estão as pessoas a tentar encontrar alternativas radicais: se as mudanças não derem certo, aquilo que elas propunham mudar não deve ficar pior por isso… e, por outro lado, elas podem dar certo…

Com base nessa "lei", Negroponte concluiu que as maiores inovações na área de educação nos próximos anos devem vir dos países em que as escolas são piores… Se isso é verdade, temos grande chances de ganhar ESSA competição (mesmo perdendo a atual de PISA)…

Estou saindo do hotel para ir para o aeroporto. São 4 da manhã da segunda – e, portanto, já do dia 5 de Novembro.

Em Helsinki, 4 de Novembro de 2007

EduTec.Net: Possivelmente a primeira comunidade virtual brasileira

Recebi um e-mail há dias de meu amigo Rev. Wilson Azevedo convidando-me a fazer parte de uma comunidade que ele havia acabado de criar no Orkut chamada "Eu fiz parte da EduTec". 

A EduTec, foi tanto quanto eu saiba, a primeira real comunidade virtual existente no Brasil. Formalmente era uma lista de discussão na Internet (no Yahoo! Groups). Na prática e na realidade tornou-se uma real comunidade virtual, que chegou a ter mais de mil membros. O tema básico do grupo era Educação e Tecnologia, mas, na prática, a gente discutia educação em geral — e até mesmo outros tópicos.

A EduTec foi criada por mim no dia 28 de Outubro de 1998 — nove anos atrás. Sua gênese foi a seguinte… No final de Outubro de 1998 tive um encontro com Carlos Alberto Ferreira, então Gerente de Educação da Microsoft Brasil. Na conversa ele me perguntou por que eu não criava uma lista de discussão na Internet para discutir Educação e Tecnologia… Foi o que eu fiz: criei a lista EduTec no Yahoo! Groups e um site para a comunidade — que hoje está hospedado no domínio edutec.net, que eu registrei posteriormente. O Carlos Alberto logo deixou o cargo na Microsoft e a Márcia Teixeira assumiu a posição que ele tinha — e me concedeu ajuda financeira para dar ao site  uma cara mais profissional (que é a cara que o site http://edutec.net ainda tem até hoje: infelizmente, não tenho tido tempo nem tesão para atualizá-lo.

No início, convidei uns poucos amigos para participar e a lista foi crescendo naturalmente daí para frente. Chegou a ter mais de participantes — a maior parte "lurkers" que dependiam da ativa participação de um "core group".

Em 2000, quando coordenei o Congresso Educador, da Promofair, que teve cerca de quatro mil participantes aquele ano, tivemos um encontro presencial de um bom número dos membros da EduTec: o núcleo central estave todo lá (vários deles dando palestras no congresso, a meu convite). Saímos jantar um dia, no restaurante do Hotel Ibis, onde muitos estávamos hospedados. Outro dia fomos tomar chopp no Shopping Center Norte. Foi uma experiência deliciosa. Lembro-me de que participaram do encontro o Renato Soffner, o Renato Mineiro, o Delarim, a Lenise, a Raquel, a Edilene, a Lourdinha, a Clara… E muitos outros. A minha filha Patrícia agiu como a secretária do grupo… A Microsoft me deu um brinde para distribuir aos edutequianos, como nos chamávamos… (um porta-lápis, no qual estava escrito EDUTECNET e MICROSOFT — ainda tenho alguns deles em casa). Além disso, mandei fazer um crachá com o nome de cada edutequiano presente no congresso…

O encerramento da lista foi em Setembro de 2001, logo depois do "Nine Eleven" (9/11). Alguns membros da lista começaram a utilizá-la para, demonstrando total ausência de sensibilidade, humana que fosse, para com as vítimas da tragédia, unir-se aos muçulmanos que dançavam nas ruas de alegria porque alguns atos terroristas de grande porte contra os Estados Unidos haviam sido bem sucedidos. Pensei comigo mesmo: "É para isso que estou mantendo essa comunidade virtual na Internet?" Eu gastava um termo enorme animando a comunidade e atualizando o site… Gastava dinheiro meu para hospedar o site… Concluí que não queria que meus esforços, e a comunidade que eu havia criado, fossem usados para servir de palco para os anti-americanos. E assim resolvi fechar a lista.

Alguns membros ficaram revoltadíssimos e argumentaram que eu não tinha esse direito, que uma comunidade, uma vez criada, não podia ser destruída assim, que meu ato de destruição era pior do que os atos que destruíram as Torres Gêmeas e parte do Pentágono, etc. Apesar de gostar muito da comunidade, mantive-me na decisão tomada.

Alguns membros da EduTec formaram uma outra comunidade, que, acredito, existe até hoje, a Cogito Libertas (acho que é esse o nome). O criador dessa lista foi o Renato Mineiro, que havia sido um dos que soltaram rojões virtuais na EduTec quando as Torres Gêmeas e parte do Pentágono foram destruídas. Mas, pelo que sei, a Cogito nunca cresceu muito.

O Renato Mineiro fez tese de Mestrado sobre a EduTec. Uma jornalista do Alagoas, de cujo nome não me recordo agora, mas que usava o apelido Luna, fez seu trabalho de conclusão de curso de Especialização sobre a EduTec.

Achei interessante e curiosa a criação, agora, pelo Wilson Azevedo, da comunidade "Eu fiz parte da EduTec" no Orkut. Lá já foi lançada a questão se a EduTec deveria ser recriada. Eu, pessoalmente, acho que tentar recriar uma comunidade daquela é mais ou menos como tentar reconstituir um casamento depois de seis anos de divórcio: é uma iniciativa que pode até dar certo, mas que tem pouca chance.

A EduTec foi minha segunda aventura na área de comunidades virtuais.

Eu já havia tido uma lista de discussão sobre Educação e Tecnologia hospedada nos computadores da UNICAMP. Criada em 1987, chamava-se INFED. A lista era no que então se chamava de BitNet, rede iniciada pela IBM que fez as vezes de Internet enquanto esta não se expandia mundialmente.

A discussão na INFED era em Inglês — imaginei, quando a criei, que discutindo em Inglês ela atrairia mais participantes. O número de participantes chegou a passar de 300 — quando tive a idéia de convidar o Valdemar Setzer para participar. Ele literalmente implodiu a lista. Começou transcrever trechos enormes de um livro que estava escrevendo sobre o uso de tecnologia na educação e assustou todo mundo, ou, mais literalmente, encheu o saco de todo mundo. A lista começou a se esvaziar até que um dia a fechei.

Depois da EduTec, criei várias comunidades virtuais na Internet. A maior delas, que continua até hoje, é a 4pilares (vide http://4pilares.net). Mas não tem a mesma vitalidade da EduTec. Inicialmente a 4pilares foi patrocinada pela Microsoft e pelo Instituto Ayrton Senna. Quando o Instituto resolveu que não iria mais se envolver com isso, me autorizou a manter a comunidade em meu próprio nome. Isso resolveu uma série de problemas que a lista enfrentou, como, por exemplo, não discutir política. Foi em decorrência dessa determinação do Instituto que acabei criando uma segunda comunidade, a LivreMente (http://livremente.net) para discutir qualquer coisa, sem restrição alguma. A LivreMente continua até hoje, sendo palco de algumas brigas homéricas, especialmente envolvendo o Antonio Morales (o "Tonhão"), esquerdista de quatro costados e, como eu, ateu convicto, e a Lenise Garcia, da UnB, católica ferrenha, do Opus Dei.

O Tonhão é ex-diretor do SENAC de Bauru. Com sua mulher, Eli Ângela, ele foi colega de turma de minha mulher, Sueli, no Curso de Pedagogia da Faculdade de Filosofia, Ciências e Letras de Rio Claro (hoje UNESP).

No devido tempo registrei os domínios edutec.net, edutecnet.com e edutecnet.com.br  (e mais uma centena de domínios). Registrei também no INPI a marca EduTec.Net, a marca MindWare e a marca ThinkWare.

Em Oulu (Finlândia), 3 de Novembro de 2007

The Teacher is Split in Two


The conventional school demands too much – and, paradoxically, too little — of teachers.
t can be safely assumed that teachers (whatever the name they had then) were originally supposed to help children in their learning. Period.

For thousands and thousands of years, learning was mostly done at home or within the confines of the family circle. The teacher, therefore, was the family: mother, father, grandmother, grandfather, aunt, uncle, older siblings, cousins… In the simplified context in which this took place, the older family members had, in their ensemble, all that was necessary to help the younger ones learn. Among them they mastered the content of what was to be learned:

· First, practical stuff: language (for a time only spoken language; later, and not in every family, reading and writing), rudimentary arithmetic, and the practical skills required for the family businesses: the external business (generally, farming, herding, hunting, fishing, etc.), as a rule reserved for men, and the domestic business of keeping the home (cooking, cleaning, sewing, needle work, etc.), as a rule reserved for women;

· Second, still practical things, but now placed on a “higher plane”: the “art of living”, or moral, spiritual and (perhaps on slightly lower plane) aesthetic education.

The first component was more or less taken for granted as of course, but the second one was considered really important, since it was meant to prepare children to live their lives not only in this life, but also in the next… The “art of living” generally included:

a) Moral education: help children understand the difference between (moral) right and wrong [concept], understand (or simply accept) what makes a given action (morally) right or wrong [criterion], classify different concrete actions as right, wrong or (morally) indifferent [according to the criterion], and, more importantly, do what is right and refrain from doing what is wrong;

b) Spiritual education: [generally, especially in Christian circles] help children understand that we have a body but we are a soul, that the soul survives after the death of its body, that how we behave here on earth will bring us rewards or punishments in the next life, that, therefore, it is important to read (or listen to) the scriptures, pray for divine guidance and help, go to church, etc.

c) Aesthetic education: [more directed to girls] help children develop some finer habits, such as draw, paint, sing, play an instrument and, in general, appreciate what is beautiful and shun from what is ugly.

As life became more complex, the family had to resort to external help in the task of helping their children learn all that was considered worthy of learning. It was then that figure of the tutor or mentor appeared – and it was in this context that the modern school, as (supposedly) an assembly of tutors/mentors, was invented.

Many things made these developments necessary – but one of set them is quite important (and they took place around the end of the fifteenth, the sixteenth and the seventeenth century): the invention of printing, the explosion in writing that followed (and that marks the beginning of literature in the vernacular of most modern languages), the discovery of up to then unknown parts of the world, the Protestant Reformation, and the appearance of modern science… The protestant reformers had an important role in the process, because they insisted that everyone ought to learn how to read in order to read the Scriptures and not by deceived by the catholic priests (the cost of not doing this could be eternal damnation…). The result was that schools started appearing everywhere next to most protestant churches.

One important consequence of this was that the business of educating children became more complex and a gradual “division of labor” (with its consequent creating of specialized functions) began to occur. The family, for a time, retained the practical functions of preparing boys for the external family business and girls for the business of housekeeping. Moral and spiritual education were to a large extent shared by family and church. Aesthetic education (“education of sensibility”) somehow lost importance. And tutors/mentors and/or the school (“assembly of tutors/mentors”) assumed an area that did not quite exist before, but that was destined to grow: “intellectual education”.

With the appearance of various modern languages and their accompanying literature, with the discovery of new worlds, with the creation of several protestant denominations (competing amongst themselves and not only with the Catholic Church), with the appearance of modern science, that gradually evolved from astronomy and physics to biology and chemistry, with the appearance, from the 18th century on, of the so-called “human sciences” (history, geography, psychology, sociology, anthropology, political science, etc.), the intellectual scenario – the world of ideas – grew in complexity and importance. Suddenly the family seemed quite inadequate to the task of helping children learn things that were so varied and complex. And, curiously and somehow paradoxically, this new world of ideas aroused the interest in the old world of ideas of the Greeks and Romans…

Not even one single individual tutor/mentor, usually employed by families of higher means, could be expected to master all that children, especially those of the higher and middle classes, were expected to learn… Richer families began to hire several specialized tutors/mentors. The emerging middle class (and, later one, also the rich) had to resort to the assembled tutors/mentors provided by the schools… (The poor generally were left out – until quite recently).

And this way we come to the present (conventional) school… This school is, from the beginning, and almost by definition, a specialized learning environment: it tries to deal with intellectual education alone, and even then, only with one segment of it. Moral, spiritual and aesthetic education are normally outside its scope. And professional and vocational education are generally assigned to specialized institutions and are not considered as important.

The convention school of today (and society, in general) wants teachers to be a number of things…

Above all, it wants teachers to be content specialists, that is, it wants them to know well one of the subject-matters (academic disciplines) in which the curriculum is presently divided.

With the explosion of information that characterizes our age, expectations regarding the area of specialization of the teachers were proportionally adjusted (that is, reduced). Today it is not considered reasonable that a teacher should be a specialist in the whole of biology, or physics, or even history. Teachers must choose sub-specialties: 20th-Century Brazilian History, for instance, in the case of a (Brazilian) history teacher…

But expectations became also more and more “focused”… Besides the choice of specialties within specialties, teachers started to concentrate on the specific content that is supposed to be taught to the classes under their responsibility: "I’m an eighth grade Math teacher"; “I’m a High School English teacher” (or “I’m a teacher of English as a second language”…). (So, in the latter case of the specialized English teacher, do not expect him to know how to get children to learn how to read and write, much less enjoy reading and writing… When he receives them, he expects them to be way past that stage).

But the level of specialization has an even more problematic consequence.

Each of the different areas of specialization can be divided into two parts: one that contains what we could call “the legacy content” produced by specialists in the past (even recent), and another that contains “the method of thinking or inquiry” that, when applied, can produce similar content…

This distinction is very important.

I will try to show why using as example my own area of specialization, philosophy. It is likely that human beings have been philosophizing for a long time. But philosophy, as a systematic form of inquiry into what there is, where we come from, what is the purpose of us being here, what is the right thing to do, what is the right way to organize ourselves in society, why do we consider some things pretty and attractive and others ugly and repugnant, and how do we know all that we presume to know – this form of inquiry had its birth among the Greeks during the centuries that preceded the Christian era. And it spread, far and quick. More than two thousand years later, we do have an incredible amount of written records about what past and contemporary philosophers have thought. This is what I call “the legacy content” of a given area of specialization.

To help a child to learn philosophy can, in this context, be interpreted in two different senses:

· to help the child assimilate the most important ideas (according to some criterion) of what other philosophers have thought and written;

· to help the child develop the competence and the skills needed to like in a similar manner.

Most teachers of philosophy do only the first – and often do not even know how to think philosophically for their own consumption. I have no doubt that the second is the most important. As a matter of fact, the written thought of other philosophers only becomes interesting when one begins to master the art of philosophizing yourself. Otherwise it is terribly dull.

What I have just said about philosophy can be said with the same propriety about the other academic disciplines. Most teachers in today’s conventional schools are not involved with helping children learn how to philosophize, how to think like a scientist, or an artist. They are only involved with imparting to the students what philosophers, scientists and artists have thought and done. Their business is “content delivery” – an ugly expression that, unfortunately, reflects quite well what most teachers do: their area of specialization is, for them, only a bunch of content that others have thought and that must now be delivered to students, who, almost by definition, are unfamiliar with it.

Since the content of a given area of specialization tends to grow fast, teachers are unable to keep track of the content even of their narrow specialties and so tend to narrow even more their specialization down to the point where they know almost everything about almost nothing. And that is what they transmit to their students.

Just to be clear, here is what they do not do – and are not required to do by their schools:

a) Help their students master the methods of inquiry of their specialized disciplines;

b) Help their students understand the larger context in which disciplines were defined and function;

c) Help their students understand that most interesting issues transcend the boundaries of traditional disciplines and even the boundaries of mega-areas such as philosophy, science and art;

d) Help their students deal with the practical competencies and skills required by different professions;

e) Help their students deal intelligently and honestly with moral, aesthetic and spiritual issues they will inevitably confront.

That is why I said, above, that the conventional school we have today demands too much – and, paradoxically, too little — of their teachers.

Lumiar tries to face these issues in several different ways.

Perhaps the most creative and interesting way is by splitting the teacher into two pedagogical figures: the tutor/mentor and the teacher/master.

The tutor/mentor is a full-time employee of the school. Each of them is supposed to be responsible for about fifteen to twenty students. This responsibility involves the personal development of the student in every relevant aspect (physical, social, emotional, moral, spiritual, intellectual). The tutor/mentor is supposed to get to know well the children for whose development he is responsible. He is responsible for knowing what the children already know when they enter the school, what their natural talents, inclinations, interests, hopes and expectations are (inasmuch as it is possible to discover these things with respect to small children), he is expected to help the children, with the help of their parents, to choose the learning projects in which they are going to be involved, he is responsible for overseeing the children while they are at play, he is charged with periodically assessing their learning and the overall development (with the help of his observations and of reports written by the teachers/masters), etc. And, above all, unless problems arise, he is not replaced by a different tutor/mentor as the children progress in their development: he is a constant reference to them.

The teacher/master is, in a way, the content specialist to whom the responsibility for the children’s development of specific competencies and skills is – to use an almost abusive word in the context — outsourced. They are not full-time staff. They are hired to offer specific learning projects to the children – to plan, develop, implement, execute and evaluate the project and to assess what students have learned by and after taking the project.

There are three features that are sought in the teachers/masters:

a) They must be masters of a particular content – that is why they are called masters;

b) They must be able to look at that content from the point of view of the competencies and skills required to produce it (or something similar) rather than as a content to be delivered to the students – that is why the school is reluctant to call them simply teachers;

c) They must have a genuine interest in the area and a visible love for what they do.

If these three features are present – mastery, focus on methods of inquiry, and motivation – they ought not to have problems with getting students to voluntarily offer to take part in their learning project: they do not have to be cajoled, persuaded, seduced, much less compelled, to participate.

If the tutors/mentors provide constancy and continuity, the teachers/masters provide change and diversity.

The administration of the school is responsible for guaranteeing that all the essential areas of the Matrix of Competencies that serves as curriculum are covered by learning projects offered, led and coordinated by the teachers/masters. These are responsible for guaranteeing that the students involved in their learning projects not learn the content of the project itself, but that they also develop the basic competencies and skills defined by the Matrix of Competencies. And the tutors/mentors are responsible for guaranteeing that what students learn in the different learning project contributes to their coherent development as persons – not only as the unique individuals they are, but also to their social existence as citizens and to the preparation that becoming a 21st-century professional requires.

The conventional teacher has been split in two at Lumiar – and even his mastery of a given content, in the case of the teachers/masters, is refocused to the methods of inquiry rather than to the transmission of the legacy content produced in his area of interest. 

Campinas, on the 12th of October, 2007

Educação e conservadorismo: uma resposta liberal

Discordo frontalmente das teses principais do artigo de Reinaldo Azevedo na VEJA desta semana (transcrito abaixo) — embora concorde com posicionamentos esparsos, dentro do artigo.

E não é implicância com ele, não, como em geral tem a esquerda: a maior parte das vezes concordo com as posições dele e tenho por elas a maior apreciação.

O desacordo é, portanto, localizado.

Começo com os posicionamentos específicos de Reinaldo Azevedo com os quais concordo. São eles:

* A atual proposta de reforma ortográfica é uma perda de tempo;

* A aprendizagem da leitura e da escrita está um desastre total nas escolas brasileiras atuais, mormente nas públicas (como, de resto, é preciso acrescentar, a aprendizagem de qualquer outra coisa que seja valiosa, necessária ou útil).

Não considero necessário perder tempo justificando meu endosso desses posicionamentos de Reinaldo de Azevedo.

As teses de que discordo são as seguintes:

* Discordo de que as teorias educacionais e as práticas pedagógicas que estão por trás da proposta de não enfatizar, nas aulas de linguagem na escola, o ensino da gramática, da análise sintática, etc., mas, sim, o desenvolvimento das competências na área de leitura, escrita, comunicação e expressão, tenha alguma coisa que ver com a atual proposta de reforma ortográfica;

* Discordo que essas teorias educacionais e práticas pedagógicas  se devam, originalmente, a Paulo Freire e/ou que devam ser caracterizáveis como esquerdistas (embora Paulo Freire tenha manifestado acordo com muitas delas — nem tanto, porém, outros esquerdistas);

* Discordo que o desastre total que é a educação proporcionada por nossas escolas tenha como causa ou origem essas teorias educacionais e práticas pedagógicas.

Passo agora a justificar os meus desacordos.

1) Reinaldo Azevedo, eu e muita gente boa estudou em escolas que, no tocante à linguagem (em especial à língua portuguesa) ensinavam gramática, análise sintática, etc. E aprendemos a ler e a escrever relativamente bem. Por isso, agora, num contexto em que as crianças saem da escola sem saber ler e escrever (ou mesmo falar), Reinaldo Azevedo parece acreditar que o remédio seja, nessa área, "restaurar" a escola antiga, tradicional, que ensinava gramática e análise sintática. "Precisamos de restauração", diz ele, "não de mais mudanças". (Pelo jeito, Reinaldo de Azevedo gostaria até que voltássemos a escrever "pharmacia", algo assim, visto que elogia os franceses por não terem eliminado as letrinhas inúteis de sua grafia em favor de uma grafia mais simplificada e racional, como nós, em parte, fizemos).

Reinaldo Azevedo comete aqui uma conhecida falácia: "post hoc ergo propter hoc". Traduzida literalmente essa frase latina quer dizer: "depois disso, logo por causa disso". Trata-se de uma falácia porque o fato de alguma coisa vir depois de outra não quer dizer, necessariamente, que tenha sido causada por ela. Pode até ter sido, porque as causas antecedem os efeitos que produzem, mas não se pode ter certeza, e isso por várias razões. A causa real pode estar mais distante no tempo. Se tive um enfarto logo depois de comer um sanduíche vagetariano (esse antecedente é verdadeiro no meu caso), isso não quer dizer que o fato de ter comido o sanduíche tenha sido a causa de meu enfarto: essas causas estão não só mais distantes no tempo como são muito mais diversificadas. Além disso, há muitas coisas que acontecem mais ou menos simultaneamente com várias outras — e a causa por ser uma (ou mais de uma) dentre as outras, não a que se resolveu privilegiar.

Enfim.

Meu contra-argumento é de que Reinaldo de Azevedo e eu aprendemos a ler e a escrever relativamente bem não por causa, mas a despeito, de havermos freqüentado uma escola tradicional que nos obrigava a aprender nomes e definições que não faziam o menor sentido e a praticar análise sintática que, de utilidade, só teve a de nos permitir nos vangloriar, hoje, de nossa capacidade de encontrar o sujeito das orações iniciais dos Lusíadas ("eu", oculto) e do Hino Nacional ("as margens plácidas").

Aprendi a ler e a escrever relativamente bem (deixo o Reinaldo Azevedo fora do quadro agora, por não conhecer sua história específica) porque desde cedo li bastante e desde cedo me dediquei a escrever. E isso por influência da família, não da escola — e a família não me ensinou gramática nem análise sintática. Na verdade, foram preservadas, no seio de minha família, cartas que eu escrevi aos meus avós maternos, à minha tia (irmã de minha mãe), aos meus primos, quando tinha por volta de sete anos e nem havia entrado na escola ainda (fato que se deu apenas quando eu tinha oito anos e meio completos). Antes de entrar na escola aprendi a ler, na Bíblia, em Sherlock Holmes, numas revistinhas de contos policiais, e nos romances adocicados da "Coleção das Moças" — livros e gêneros literários que minha mãe adorava.  

Machado de Assis e Jorge Amado são grandes escritores brasileiros, sem dúvida — mas não porque tenham aprendido gramática e análise sintática na escola, gramática e sintaxe essas que eles não raro afrontaram, mas, sim, porque tinham histórias interessantes a contar e sabiam contá-las de forma elegante e/ou pitoresca.

É fato notório e conhecido que Mário Prata, que, admitamos, também sabe ler e escrever relativamente bem, uma vez escreveu uma linda crônica no Estadão com o título "As Meninas Moça". É uma crônica deliciosa sobre o prazer que é assistir a um jogo de vôlei feminino. O preferido de Mário Prata era o time do "Leite Moça", donde o título esquisito e, por isso, chamativo, da crônica. Algum tempo depois o Ministério da Educação usou a crônica num de seus "Provões". Citou-a por inteiro e fez sobre ela oito perguntas. Esse fato levou Mário Prata a escrever outra crônica, "O que é isso, Ministro?", dirigida a Paulo Renato Souza, então Ministro da Educação. Nessa segunda crônica ele critica o MEC pelo teor das perguntas feitas sobre sua crônica (todas elas voltadas para nomenclatura, figuras de linguagem, análise sintaxe") e confessa que ele, o autor da crônica usada no exame, tentou responder às perguntas do MEC e errou todas… (Em compensação, quem acertou todas, se é que houve alguém, provavelmente não consegue escrever tão bem quanto Mário Prata…)

A língua existe para nos permitir descrever o que observamos, expressar o que sentimos, comunicarmo-nos com os outros. O problema, portanto, não está em passar a denominar o aprendizado de línguas (da materna e das estrangeiras) como parte de "Comunicação e Expressão", porque é nesse contexto que esse aprendizagem deve se dar. Na realidade, essa mudança de ênfase, longe de representar um problema, representa a solução de um problema, o de que crianças que aprendiam a nomenclatura gramatical e as regras de ortografia e sintaxe em geral em geral ficavam bem preparadas para passar provas e exames que enfatizavam esses conteúdos, mas não ficavam bem preparadas para descrever o que observavam, expressar o que sentiam, narrar histórias interessantes que outros quisessem ler, comunicar-se com os outros nos diferentes contextos em que deveriam viver suas vidas fora da escola.  

A diatribe de Reinaldo de Azevedo contra a "interpretação de textos" também não se justifica. Precisamos aprender a interpretar textos — críticos literários, legisladores, advogados, pastores, até engenheiros, interpretam textos o tempo todo. Qual o problema? Que as primeiras interpretações que fazemos sejam simples paráfrases que não têm a mesma qualidade do texto original? Isso dificilmente deveria surpreender alguém.

A linguagem verbal existe porque é uma excelente ferramenta que o ser humano inventou, ao longo de sua história, para descrever as coisas, expressar seus sentimentos e se comunicar com seus semelhantes. Ela é tecnologia que facilita nossa vida e a torna mais prazerosa. A específica forma que ela assume num determinado momento e contexto não é sacrossanta. E a tentativa de organizar e estruturar a língua, que acaba resultando numa "gramática" (antigamente chamada de "normativa"…), também é esforço humano, que, como tal, é falho, pode ser aprimorado e claramente  ("reformado"). Mas, mais do que aprimorar a gramática, é preciso colocá-la no devido lugar. Os bons escritores se tornam bons, não porque observam a gramática: as gramáticas é que se tornam boas porque levam em conta a forma de escrever dos grandes escritores.

A aprendizagem de línguas (a materna e as demais) deve se dar num contexto em que o foco é, sim, o desenvolvimento de competências de comunicação, expressão e interpretação de textos.

2) As teses que venho defendendo aqui, contra Reinaldo Azevedo, não são teses de autores esquerdistas, muito menos de Paulo Freire — embora creia que Paulo Freire, em si, estivesse de acordo com a maioria delas. Elas vem sendo propostas por educadores liberais e "escolanovistas" há mais de século. Não é necessário, aqui, comprovar essa tese, porque essa comprovação nos desviaria da finalidade principal deste artigo.

3) O que é importante ressaltar, por fim, é que o desastre total que é a educação proporcionada por nossas escolas hoje tenha como causa ou origem essas teorias educacionais e práticas pedagógicas liberais e "escolanovistas". Nossas crianças não aprendem a ler e a escrever em nossas escolas hoje, especialmente nas públicas, porque a escola pública cresceu de forma extremamente rápida nos últimos cinqüenta e poucos anos, e esse fato mudou a sua constituição. A escola pública que eu freqüentei nos anos cinqüenta era totalmente distinta da de hoje, tanto no que diz respeito à sua clientela como, e especialmente, no que diz respeito aos seus professores. Com o crescimento incrivelmente rápido da escola pública, improvisaram-se programas de formação de professores, e esse fato é, em grande parte, responsável pelo fato de que as crianças não aprendem hoje. Boa parte dos professores, hoje, fala a língua portuguesa de maneira sofrível (como qualquer um que escute o alto-falante do carro de som de uma demonstração ou passeata de professores pode averiguar) — e a escreve de maneira pior ainda. Junte-se a esse o fato de que os alunos da escola pública, hoje, vêm de classes mais pobres, que não têm condições de oferecer a eles ambientes de aprendizagem adequados no lar, a se percebe a dimensão da tragédia. Os alunos da classe média dos anos cinqüenta, que tinham, em casa, ambientes de aprendizagem adequados, poderiam até conviver sem maiores problemas com professores não tão bem preparados — e muitos de nós assim convivemos. Mas os alunos da escola pública de hoje estariam a exigir professores muito bem preparados — mais bem preparados do que os dos anos cinqüenta, porque o desafio é muito maior. No entanto, exatamente para enfrentar um desafio maior o que se tem são professores mal preparados. O resultado só pode ser tragédia.

A causa da tragédia educacional brasileira, portanto, não está nas teorias educacionais e nas práticas pedagógicas da "escola nova" e liberal. E, como Reinaldo Azevedo, estendo essa tese para além da área da linguagem.

É isso. Por enquanto.

o O o

Vou voltar à carga, porque argumentos muito parecidos com os de Reinaldo Azevedo foram, recentemente, apresentados por nada menos do que Nicolas Sarkozy, presidente da França, em sua "Carta aos Educadores" ("Lettre aux Éducateurs"), que transcrevi no meu blog. E são apresentados, rotineiramente, por autores conservadores (como Reinaldo Azevedo). Meu objetivo secundário ao fazer este tipo de análise é mostrar que as teorias educacionais e as práticas pedagógicas do liberalismo e do conservadorismo estão muito distantes umas das outras, e que não faz o menor sentido identificar liberais clássicos com conservadores de qualquer matiz. Os liberais clássicos são radicais, não conservadores. Não se enquadram, portanto, na política não-reformista e "restauradora" que Reinaldo de Azevedo quer nos impingir na área da educação — por mais que eu concorde com ele, e o admire, em outras "colocações" suas.

Em Campinas, 14 de setembro de 2007

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VEJA, Edição 2025
12 de setembro de 2007 
fls. 98-99

Restaurar é preciso; reformar não é preciso

Reinaldo Azevedo

A reforma ortográfica que se pretende é um pequeno passo (atrás) para os países lusófonos e um grande salto para quem vai lucrar com ela. O assunto me enche, a um só tempo, de indignação e preguiça. O Brasil está na vanguarda dessa militância estúpida. Por que estamos sempre fazendo tudo pelo avesso? Não precisamos de reforma nenhuma. Precisamos é de restauração. Explico-me.

A moda chegou por aqui na década de 70, espalhou-se como praga divina e contribuiu para formar gerações de analfabetos funcionais: as escolas renunciaram à gramática e, em seu lugar, passaram a ensinar uma certa "Comunicação e Expressão", pouco importando o que isso significasse conceitualmente em sua grosseira redundância. Na prática, o aluno não precisava mais saber o que era um substantivo; bastava, dizia-se, que soubesse empregá-lo com eficiência e, atenção para a palavra mágica, "criatividade". As aulas de sintaxe – sim, leitor, a tal "análise sintática", lembra-se? – cederam espaço à "interpretação de texto", exercício energúmeno que consiste em submeter o que se leu a perífrases – reescrever o mesmo, mas com excesso de palavras, sempre mais imprecisas. O ensino crítico do português foi assaltado pelo chamado "uso criativo" da língua. Para ser didático: se ela fosse pintura, em vez de ensinar o estudante a ver um quadro, o professor se esforçaria para torná-lo um Rafael ou um Picasso. Se fosse música, em vez de treinar o seu ouvido, tentaria transformá-lo num Mozart ou num Beethoven. Como se vê, era o anúncio de um desastre.

Os nossos Machados de Assis, Drummonds e Padres Vieiras "do povo" não apareceram. Em contrapartida, o analfabetismo funcional expandiu-se célere. Se fosse pintura, seria garrancho. Se fosse música, seria a do Bonde do Tigrão. É só gramática o que falta às nossas escolas? Ora, é certo que não. O país fez uma opção – ainda em curso e atravessando vários governos, em várias esferas – pela massificação de ensino, num entendimento muito particular de democratização: em vez de se criarem as condições para que, vá lá, as massas tivessem acesso ao conhecimento superior, rebaixaram-se as exigências para atingir índices robustos de escolarização. Na prova do Enem aplicada no mês passado, havia uma miserável questão próxima da gramática. Se Lula tivesse feito o exame, teria chegado à conclusão de que a escola, de fato, não lhe fez nenhuma falta. Isso não é democracia, mas vulgaridade, populismo e má-fé.

Não é só a língua portuguesa que está submetida a esse vexame, é claro. As demais disciplinas passaram e passam pela mesma depredação. A escola brasileira é uma lástima. Mas é nessa área, sem dúvida, que a mistificação atingiu o estado de arte. Literalmente. Aulas de português se transformam em debates, em que o aluno é convidado (santo Deus!) a fazer, como eles dizem, "colocações" e a "se expressar". Que diabo! Há gente que não tem inclinação para a pintura, para a música e para a literatura. Na verdade, os talentos artísticos são a exceção, não a regra. Os nossos estudantes têm de ser bons leitores e bons usuários da língua formal. E isso se consegue com o ensino de uma técnica, que passa, sim, pela conceituação, pela famigerada gramática. Precisamos dela até para entender o "Virundum". Veja só:

"Ouviram do Ipiranga
as margens plácidas
De um povo heróico
o brado retumbante"

Quem ouviu o quê e onde, santo Deus? É "as margens plácidas" ou "às margens plácidas"? É perfeitamente possível ser feliz, é certo, sem saber que foram as margens plácidas do Rio Ipiranga que ouviram o brado retumbante de um povo heróico. Mas a felicidade, convenham, é um estado que pode ser atingido ignorando muito mais do que o hino. À medida que se renuncia às chaves e aos instrumentos que abrem as portas da dificuldade, faz-se a opção pelo mesquinho, pelo medíocre, pelo simplório.

As escolas brasileiras, deformadas por teorias avessas à cobrança de resultados – e o esquerdista Paulo Freire (1921-1997) prestou um desserviço gigantesco à causa –, perdem-se no proselitismo e na exaltação do chamado "universo do educando". Meu micro ameaçou travar em sinal de protesto por escrever essa expressão máxima da empulhação pedagógica. A origem da palavra "educação" é o verbo latino "duco", que significa "conduzir", "guiar" por um caminho. Com o acréscimo do prefixo "se", que significa afastamento, temos "seduco", origem de "seduzir", ou seja, "desviar" do caminho. A "educação", ao contrário do que prega certa pedagogia do miolo mole, é o contrário da "sedução". Quem nos seduz é a vida, são as suas exigências da hora, são as suas causas contingentes, passageiras, sem importância. É a disciplina que nos devolve ao caminho, à educação.

Professores de português e literatura vivem hoje pressionados pela idéia de "seduzir", não de "educar". Em vez de destrincharem o objeto direto dos catorze primeiros versos que abrem Os Lusíadas, apenas o texto mais importante da língua portuguesa, dão um pé no traseiro de Camões (1524-1580), mandam o poeta caolho cantar sua namoradinha chinesa em outra barcarola e oferecem, sei lá, facilidades da MPB – como se a própria MPB já não fosse, em nossa esplêndida decadência, um registro também distante das "massas". Mas nunca deixem de contar com a astúcia do governo Lula. Na citada prova do Enem, houve uma "modernização" das referências: em vez de Chico Buarque, Engenheiros do Hawaii; em vez de Caetano Veloso, Titãs. Na próxima, é o caso de recorrer ao funk de MC Catra: "O bagulho tá sério / vai rolar o adultério / paran, paran, paran / paran, paran…".

Precisamos de restauração, não de mais mudanças. Veja acima, no par de palavras "educação/sedução", quanto o aluno perde ao ser privado da etimologia, um conhecimento fascinante. As reformas ortográficas, acreditem, empobrecem a língua. Não democratizam, só obscurecem o sentido. Uma coisa boba como cassar o "p" de "exce(p)ção" cria ao leitor comum dificuldades para que perceba que ali está a raiz de "excepcional"; quantos são os brasileiros que relacionam "caráter" a "característica" – por que deveriam os portugueses abrir mão do seu "carácter"? O que um usuário da nossa língua perderia se, em vez de "ciência", escrevesse "sciência", o que lhe permitiria reconhecer na palavra "consciência" aquela mesma raiz?

Veja o caso do francês, uma língua que prima não por letras, mas por sílabas "inúteis", não pronunciadas. E, no entanto, os sempre revolucionários franceses fizeram a opção pela conservação. Uma proposta recente de reforma foi unanimemente rejeitada, à direita e à esquerda. Foi mais fácil cortar cabeças no país do que letras. A ortografia de Voltaire (1694-1778) está mais próxima do francês contemporâneo do que está Machado de Assis do português vigente no Brasil. O ditador soviético Stálin (1879-1953) era metido a lingüista. Num rasgo de consciência sobre o mal que os comunistas fizeram, é dono de uma frase interessante: "Fizemos a revolução, mas preservamos a bela língua russa". Ora, dirão: este senhor é um mau exemplo. Também acho. O diabo é que ele se tornou referência de política, não de conservação da língua…

Já que uma restauração eficaz é, eu sei, inviável, optemos ao menos pela educação, não por uma nova e inútil reforma. O pretexto, ademais, é energúmeno. Como escreveu magnificamente o poeta português Fernando Pessoa (1888-1935), houve o tempo em que a terra surgiu, redonda, do azul profundo, unida pelo mar das grandes navegações. Um mar "portuguez" (ele grafou com "z"). Hoje, os países lusófonos estão separados pela mesma língua, que foi se fazendo história.

A unidade só tem passado. E nenhum futuro.

Nicolas Sarkozy: "Lettre aux Éducateurs"

Transcrevo, abaixo, a Carta aos Educadores escrita por Nicolas Sarkozy, Presidente da França, no dia 4 de Setembro último — às vésperas do início do ano escolar. Minha atenção foi trazida para a carta por meu amigo Axel de Ferran, que a transcreveu na lista de discussão na Internet chamada 4 Pilares, que eu coordeno. Agradeço a ele tê-la transcrito lá. O texto aqui copiado foi retirado do site da Presidência da França.

Acho o fato extremamente importante, e por duas razões principais:

Primeiro, pela fato da mensagem em si (independentemente de seu conteúdo), ou seja, porque temos aqui o Presidente da República francesa se dirigindo direta, pública e oficialmente aos educadores do país — e o fazendo de forma extremamente séria e responsável, como cabe a um Presidente da República ciente e zeloso do seu papel.

Segundo, porque o conteúdo da carta é importante. Embora eu não concorde com muitas de suas propostas (respostas), não há como negar que as questões que ele colocam são importantes e precisam ser discutidas.

Vou estudar o documento com cuidado e escrever uma análise detalhada aqui, entrando no mérito de suas propostas. Na discussão ficará claro, espero, porque na área da educação o discurso liberal (que é o meu) é diferente do discurso conservador (que é o de Nicolas Sarkozy).

Em Salto, 10 de Setembro de 2007

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Retirado do site da Presidência da França:

http://www.elysee.fr/elysee/elysee.fr/francais/interventions/2007/septembre/allocution_du_president_de_la_republique_lettre_aux_educateurs.79338.html

Allocution du Président de la République

4 septembre 2007

Lettre aux Éducateurs

Mesdames, Messieurs

A l’occasion de cette rentrée scolaire, la première depuis que j’ai été élu Président de la République, je souhaite vous parler de l’avenir de nos enfants.

Cet avenir, il est entre les mains de chacun d’entre vous qui avez en charge d’instruire, de guider, de protéger ces esprits et ces sensibilités qui ne sont pas encore complètement formés, qui n’ont pas atteint leur pleine maturité, qui se cherchent, qui sont encore fragiles, vulnérables. Vous avez la responsabilité d’accompagner l’épanouissement de leurs aptitudes intellectuelles, de leur sens moral, de leurs capacités physiques depuis leur plus jeune âge et tout au long de leur adolescence. Cette responsabilité est l’une des plus lourdes mais aussi des plus belles et des plus gratifiantes.

Aider l’intelligence, la sensibilité à s’épanouir, à trouver leur chemin, quoi de plus grand et de plus beau en effet ? Mais quoi de plus difficile aussi ? Car à côté de la fierté de voir l’enfant grandir, son caractère et son jugement s’affirmer, à côté du bonheur de transmettre ce que chacun a le sentiment d’avoir de plus précieux en lui, il y a toujours cette crainte de se tromper, de brider un talent, de freiner un élan, d’être trop indulgent ou trop sévère, de ne pas comprendre ce que l’enfant porte au plus profond de lui-même, ce qu’il éprouve, ce qu’il est capable d’accomplir.

Éduquer c’est chercher à concilier deux mouvements contraires : celui qui porte à aider chaque enfant à trouver sa propre voie et celui qui pousse à lui inculquer ce que soi-même on croit juste, beau et vrai.

Une exigence s’impose à l’adulte face à l’enfant qui grandit, celle de ne pas étouffer sa personnalité sans renoncer à l’éduquer. Chaque enfant, chaque adolescent a sa manière à lui d’être, de penser, de sentir. Il doit pouvoir l’exprimer. Mais il doit aussi apprendre.

Longtemps l’éducation a négligé la personnalité de l’enfant. Il fallait que chacun entrât dans un moule unique, que tous apprissent la même chose, en même temps, de la même manière. Le savoir était placé au dessus de tout. Cette éducation avait sa grandeur. Exigeante et rigoureuse, elle tirait vers le haut, elle amenait à se dépasser malgré soi.

L’exigence et la rigueur de cette éducation en faisait un puissant facteur de promotion sociale. Beaucoup d’enfants néanmoins en souffraient et se trouvaient exclus de ses bienfaits. Ce n’était pas parce qu’ils manquaient de talent, ni parce qu’ils étaient incapables d’apprendre et de comprendre mais parce que leur sensibilité, leur intelligence, leur caractère se trouvaient mal à l’aise dans le cadre unique que l’on voulait imposer à tous.

Par une sorte de réaction, depuis quelques décennies, c’est la personnalité de l’enfant qui a été mise au centre de l’éducation au lieu du savoir.

Accorder plus d’importance à ce que l’enfant a de particulier, à ce par quoi se manifeste son individualité, à son caractère, à sa psychologie, était nécessaire, salutaire. Il était important que tous soient mis en mesure de tirer le meilleur parti d’eux-mêmes, de développer leurs points forts, de corriger leurs faiblesses. Mais à trop valoriser la spontanéité, à trop avoir peur de contraindre la personnalité, à ne plus voir l’éducation qu’à travers le prisme de la psychologie, on est tombé dans un excès contraire. On ne s’est plus assez appliqué à transmettre.

Jadis il y avait sans doute dans l’éducation trop de culture et pas assez de nature. Désormais il y a peut-être trop de nature et plus assez de culture. Jadis on valorisait trop la transmission du savoir et des valeurs. Désormais, au contraire, on ne la valorise plus assez.

L’autorité des maîtres s’en est trouvée ébranlée. Celle des parents et des institutions aussi.

La culture commune qui se transmettait de génération en génération tout en s’enrichissant de l’apport de chacune d’entre elles s’est effritée au point qu’il est plus difficile de se parler et de se comprendre.

L’échec scolaire a atteint des niveaux qui ne sont pas acceptables.

L’inégalité devant le savoir et devant la culture s’est accrue, alors même que la société de la connaissance imposait partout dans le monde sa logique, ses critères, ses exigences. Les chances de promotion sociale des enfants dont les familles ne pouvaient pas transmettre ce que l’école ne transmettait plus se sont réduites.

Il serait vain pourtant de chercher à ressusciter un âge d’or de l’éducation, de la culture, du savoir qui n’a jamais existé. Chaque époque suscite des attentes qui lui sont propres.

Nous ne referons pas l’école de la IIIème République, ni celle de nos parents, ni même la nôtre. Ce qui nous incombe c’est de relever le défi de l’économie de la connaissance et de la révolution de l’information.

Ce que nous devons faire c’est poser les principes de l’éducation du XXIème siècle qui ne peuvent pas se satisfaire des principes d’hier et pas d’avantage de ceux d’avant-hier.

Que voulons-nous que deviennent nos enfants ? Des femmes et des hommes libres, curieux de ce qui est beau et de ce qui est grand, ayant du cœur et de l’esprit, capables d’aimer, de penser par eux-mêmes, d’aller vers les autres, de s’ouvrir à eux, capables aussi d’acquérir un métier et de vivre de leur travail.

Notre rôle n’est
pas d’aider nos enfants à rester des enfants, ni même à devenir de grands enfants, mais de les aider à devenir des adultes, à devenir des citoyens. Nous sommes tous des éducateurs.

Éduquer c’est difficile. Souvent il faut recommencer pour parvenir au but. Il ne faut jamais se décourager. Ne Jamais craindre d’insister. Il y a chez chaque enfant un potentiel qui ne demande qu’à être exploité. Chaque enfant a une forme d’intelligence qui ne demande qu’à être développée. Il faut les chercher. Il faut les comprendre. Tout autant qu’une exigence vis-à-vis de l’enfant, l’éducation est une exigence de l’éducateur vis-à-vis de lui-même.

Le but n’est ni de se contenter d’un minimum fixé à l’avance, ni de submerger l’enfant sous un flot de connaissances trop nombreuses pour qu’il soit en mesure d’en maîtriser aucune. Le but c’est de s’efforcer de donner à chacun le maximum d’instruction qu’il peut recevoir en poussant chez lui le plus loin possible son goût d’apprendre, sa curiosité, son ouverture d’esprit, sons sens de l’effort. L’estime de soi doit être le principal ressort de cette éducation.

Donner à chacun de nos enfants, à chaque adolescent de notre pays l’estime de lui-même en lui faisant découvrir qu’il a des talents qui le rendent capable d’accomplir ce qu’il n’aurait pas cru de lui-même pouvoir accomplir : telle est à mes yeux la philosophie qui doit sous-tendre la refondation de notre projet éducatif.

Nous devons à nos enfants le même amour et le même respect que nous attendons d’eux. Cet amour et ce respect que nous leur devons exigent que nos relations avec eux ne soient empreintes d’aucune forme de renoncement ni de démagogie. Parce que nous aimons et respectons nos enfants, l’éducation que nous leur donnons doit les élever et non les rabaisser. Parce que nous aimons et respectons nos enfants nous ne pouvons pas accepter de renoncer à les éduquer à la première difficulté rencontrée. Ce n’est pas parce que l’enfant a du mal à se concentrer, parce qu’il n’apprend pas vite ou qu’il ne retient pas facilement ses leçons qu’il doit être privé de ce trésor de l’instruction sans lequel il ne pourra jamais devenir un homme vraiment libre.

Parce que nous aimons et respectons nos enfants, nous avons le devoir de leur apprendre à être exigeants vis-à-vis d’eux-mêmes. Nous avons le devoir de leur apprendre que tout ne se vaut pas, que toute civilisation repose sur une hiérarchie des valeurs, que l’élève n’est pas l’égal du maître. Nous avons le devoir de leur apprendre que nul ne peut vivre sans contrainte et qu’il ne peut y avoir de liberté sans règle. Quels éducateurs serions-nous si nous n’apprenions pas à nos enfants à faire la différence entre ce qui est bien et ce qui est mal, entre ce qui est autorisé et ce qui est interdit ? Quels éducateurs serions-nous si nous n’étions pas capables de sanctionner nos enfants quand ils commettent une faute ? L’enfant s’affirme en disant non. On ne lui rend pas service en lui disant toujours oui. Le sentiment de l’impunité est une catastrophe pour l’enfant qui teste sans cesse les limites que lui impose le monde des adultes. On n’éduque pas un enfant en lui laissant croire que tout lui est permis, qu’il n’a que des droits et aucun devoir. On ne l’éduque pas en lui laissant croire que la vie n’est qu’un jeu ou que la mise en ligne de toutes les connaissances du monde le dispense d’apprendre. Les technologies de l’information doivent être au cœur de la réflexion sur l’éducation du XXIe siècle. Mais il ne faut pas perdre de vue que la relation humaine entre l’éducateur et l’enfant reste essentielle et que l’éducation doit aussi inculquer à l’enfant le goût de l’effort, lui faire découvrir comme une récompense la joie de comprendre après le long travail de la pensée.

Récompenser le mérite, sanctionner la faute, cultiver l’admiration de ce qui est bien, de ce qui est juste, de ce qui est beau, de ce qui est grand, de ce qui est vrai, de ce qui est profond, et la détestation de ce qui est mal, de ce qui est injuste, de ce qui est laid, de ce qui est petit, de ce qui est mensonger, de ce qui est superficiel, de ce qui est médiocre, voilà comment l’éducateur rend service à l’enfant dont il a la charge et comment il lui exprime le mieux l’amour et le respect qu’il lui porte.

Le respect, justement, ce devrait être le fondement de toute éducation. Respect du professeur vis-à-vis de l’élève, des parents vis-à-vis de l’enfant, respect de l’élève pour le professeur, de l’enfant pour ses parents, respect des autres et respect de soi-même, voilà ce que l’éducation doit produire. S’il n’y a plus assez de respect dans notre société c’est d’abord, j’en suis convaincu, un problème d’éducation.

Je souhaite que nous reconstruisions une éducation du respect, une école du respect. Je souhaite que nos enfants apprennent la politesse, l’ouverture d’esprit, la tolérance, qui sont des formes du respect.

Je souhaite que les élèves se découvrent lorsqu’ils sont à l’école et qu’ils se lèvent lorsque le professeur entre dans la classe, parce que c’est une marque de respect.

Je souhaite qu’on apprenne à chacun d’entre eux à respecter le point de vue qui n’est pas le sien, la conviction qu’il ne partage pas, la croyance qui lui est étrangère, qu’on lui fasse comprendre à quel point la différence, la contradiction, la critique loin d’être des obstacles à sa liberté sont au contraire des sources d’enrichissement personnel.

Être bousculé dans ses habitudes de pensée, dans ses certitudes, être obligé d’aller vers l’autre, de s’ouvrir à ses arguments, à ses sentiments, de le prendre au sérieux est une incitation à s’interroger sur ses propres convictions, sur ses propres valeurs, à se remettre en cause, à faire un effort sur soi-même, donc à se dépasser. C’est la raison pour laquelle nous devons conserver, même si nous devons le rénover, notre modèle d’école républicaine qui brasse toutes les origines, toutes les classes sociales, toutes les croyances, et qui s’impose de rester neutre face aux convictions religieuses, philosophiques ou politiques de chacun en les respectant toutes.

Ce modèle s’est affaibli, ses principes ne sont plus assez respectés. Si je souhaite aller progressivement vers la suppression de la carte scolaire, c’est précisément pour qu’il y ait moins de ségrégation.

Si je souhaite réformer le collège unique, c’est pour que chacun puisse y trouver sa place, pour que les différences de rythmes, de sensibilités, de caractères, de formes d’intelligence soient mieux prises en compte de façon à donner à chacun une plus grande chance de réussir.

Si je souhaite que les enfants handicapés puissent être scolarisés comme tous les autres enfants, ce n’est pas seulement pour faire le bonheur des enfants handicapés mais aussi pour que les autres enfants s’enrichissent de cette différence.

Si je veux que l’école, par-dessus tout, demeure laïque, c’est parce que la laïcité est à mes yeux un principe de respect mutuel et parce qu’elle ouvre un espace de dialogue et de paix entre les religions, parce qu’elle est le plus sûr moyen de lutter contre la tentation de l’enfermement religieux. Au risque de la confrontation religieuse qui ouvrirait la voie à un choc des civilisations, qu’avons-nous de mieux à opposer que quelques grandes valeurs universelles et la laïcité ? Pour autant, je suis convaincu qu’il ne faut pas laisser le fait religieux à la porte de l’école. La genèse des grandes religions, leurs visions de l’homme et du monde doivent être étudiées, non, bien sûr, dans un qu
elconque esprit de prosélytisme, non dans le cadre d’une approche théologique, mais dans celui d’une analyse sociologique, culturelle, historique qui permette de mieux comprendre la nature du fait religieux. Le spirituel, le sacré accompagnent de toute éternité l’aventure humaine. Ils sont aux sources de toutes les civilisations et l’on s’ouvre plus facilement aux autres, on dialogue plus facilement avec eux quand on les comprend.

Mais l’apprentissage de la différence ne doit pas conduire à négliger la participation à une culture commune, à une identité collective, à une morale partagée. Eduquer c’est éveiller la conscience individuelle et la hausser par paliers jusqu’à la conscience universelle, c’est faire que chacun se sente une personne unique et en même temps partie prenante de l’humanité tout entière. Entre les deux il y a quelque chose d’essentiel que nulle éducation ne peut contourner. Entre la conscience individuelle et la conscience universelle il y a, pour nous Français, la conscience nationale et la conscience européenne.

Entre la conscience de l’appartenance au genre humain et la conscience d’une destinée individuelle, l’éducation doit aussi éveiller des consciences civiques, former des citoyens. Nos enfants ne seront jamais des citoyens du monde si nous ne sommes pas capables d’en faire des citoyens français et des citoyens européens.

La famille joue bien sûr un rôle essentiel dans la transmission de l’identité nationale. Mais c’est l’école qui est le creuset. En parlant de l’école je ne pense pas seulement à l’instruction civique dont l’enseignement doit retrouver une place de premier plan à l’école primaire, au collège et au lycée. Je ne pense pas seulement à la transmission de valeurs morales comme les droits de l’Homme, l’égalité de l’homme et de la femme ou la laïcité qui sont au cœur de notre identité. Je pense aussi aux valeurs intellectuelles, à une façon qui nous est propre de penser, de réfléchir. Je pense à cette tradition française de la pensée claire, à ce penchant si français pour la raison universelle qui est dans notre philosophie, dans notre science, mais qui est aussi dans notre langue, dans notre littérature, dans notre art.

Face à la menace d’aplatissement du monde, notre devoir est de promouvoir la diversité culturelle. Ce devoir nous impose de défendre d’abord notre propre identité, d’aller puiser ce qu’il y a de meilleur dans notre tradition intellectuelle, morale, artistique et de le transmettre à nos enfants pour qu’ils le maintiennent vivant pour tous les hommes. Car les héritages de toutes les cultures, de toutes les civilisations appartiennent à toute l’humanité. Nous sommes nous-mêmes les héritiers de toutes les conquêtes, de toutes les créations de l’esprit humain. Nous sommes les héritiers de toutes les grandes civilisations qui ont contribué à la fécondation réciproque des cultures qui est en train d’engendrer la première civilisation planétaire.

Ouvrir nos enfants à l’universel, au dialogue des cultures, ce n’est pas un reniement de ce que nous sommes. C’est un accomplissement. De tout temps la France a placé l’universalisme au cœur de sa pensée et de ses valeurs. De tout temps, la France s’est regardée comme l’héritière de toutes les cultures qui dans le monde ont apporté leur contribution à l’idée d’humanité.

Nous devons remettre la culture générale au cœur de notre ambition éducative. Naturellement l’horizon de cette culture générale ne doit pas être une accumulation sans fin de connaissances, mais un savoir réfléchi, ordonné, maîtrisé. Il ne faut chercher ni l’exhaustivité ni la quantité, mais viser l’essentiel et la qualité, mettre en relation les différents champs de l’intelligence humaine pour permettre à chaque enfant, à chaque adolescent de se construire sa propre vision du monde. Pour la première fois dans l’histoire les enfants savent beaucoup de choses que leurs parents ne savent pas. Mais il faut structurer ce savoir en culture, l’éclairer de tout l’héritage de la sagesse et de l’intelligence humaines.

Il ne faut pas cloisonner, isoler, opposer les différentes formes de savoir. L’enseignement par discipline doit demeurer parce que chacune a sa logique propre, parce que c’est le seul moyen d’aller au fond des choses. Mais il faut le compléter par une vision d’ensemble, par une mise en perspective de chaque discipline par rapport à toutes les autres. Par-dessus les catégories traditionnelles de la connaissance, je suis convaincu qu’il nous faut maintenant tisser la trame d’un nouveau savoir, fruit de la combinaison, du mélange, de la fécondation réciproque des disciplines.

Je ne suis pas pour le manuel unique, je ne suis pas pour la globalisation du savoir qui mène à la confusion. Mais je crois que l’interdisciplinarité doit trouver sa place très tôt dans notre enseignement parce que l’avenir est au métissage des savoirs, des cultures, des points de vue. Je crois que là se trouve l’une des clés de notre Renaissance intellectuelle, morale et artistique. La culture générale, elle doit être une préoccupation constante. Et quand nos enfants apprennent des langues étrangères, et je souhaite qu’ils en apprennent obligatoirement au moins deux en plus du Français, il faut que cet apprentissage soit aussi un apprentissage de culture et de civilisation. Je souhaite que nos enfants apprennent les langues à travers la littérature, le théâtre, la poésie, la philosophie, la science.

Affirmer l’importance de la culture générale dans l’éducation où elle a tant reculé au profit d’une spécialisation souvent excessive et trop précoce, c’est affirmer tout simplement que le savant, l’ingénieur, le technicien ne doit pas être inculte en littérature, en art, en philosophie et que l’écrivain, l’artiste, le philosophe ne doit pas être inculte en science, en technique, en mathématiques.

L’idée que celui qui se destinerait aux sciences n’aurait rien à faire de la poésie, du théâtre ou de la philosophie est une idée que je trouve absurde. L’idée que l’enfant de famille modeste, celui qui est né dans l’un de ces quartiers difficiles qui accumulent les handicaps, le fils ou la fille de l’employé, de l’ouvrier n’aurait pas besoin d’être confronté aux grandes œuvres de l’esprit humain, qu’il ne serait pas capable de les apprécier, que lui apprendre à lire, écrire et compter serait bien suffisant, est pour moi l’une des plus grandes marques du mépris.

Si tant d’adolescents n’arrivent pas à exprimer ce qu’ils ressentent, si tant de jeunes dans notre pays n’arrivent plus à exprimer leurs émotions, leurs sentiments, à les faire partager, à trouver les mots de l’amour ou ceux de la douleur, si beaucoup d’entre eux n’arrivent plus à s’exprimer que par l’agressivité, par la brutalité, par la violence, c’est peut-être aussi parce qu’on ne les a pas initiés à la littérature, à la poésie, ni à aucune des formes d’art qui savent exprimer ce que l’homme a de plus émouvant, de plus pathétique, de plus tragique en lui.

A l’époque de la vidéo, du portable, d’internet, de la communication immédiate, nos enfants n’ont pas moins besoin de culture générale mais davantage. Ils ont davantage besoin de capacités d’analyse, d’esprit critique, de repères. Plus le monde produit de connaissances, plus il produit d’informations, plus il produit de techniques, plus est forte l’exigence de culture pour celui qui veut rester libre, qui veut maîtriser son destin. Dans le monde tel qu’il est, avec ses sollicitations de plus en plus nombreuses et prenantes, nos enfants ont besoin de plus d’humanisme et de plus de science. Sur ces deux terrains, nous avons trop cédé.

A rebours de nos traditions intellectuelles, la culture humaniste s’étiole et la culture scientifique régresse. Il nous faut nous battre sur les deux fronts, donner tôt aux enfants le goût de la lecture, de l’Art et de la science.

Mais il nous faut revoir notre façon de transmettre. Trop longtemps, la passivité de l’enfant qui reçoit le savoir fut de mise dans notre éducation. On a sans doute trop critiqué l’apprentissage par cœur qui a son utilité dans l’entraînement de la mémoire. Et qui peut se plaindre d’avoir gravé dans son souvenir quelques fables de La Fontaine ou quelques vers de Verlaine ou d’avoir appris à se repérer dans la chronologie de l’histoire de France ou dans la géographie du monde, d’avoir récité les tables de multiplication et les formules usuelles de l’arithmétique et de géométrie ? Mais la culture véritable exige davantage que la récitation. Elle ne s’installe en profondeur qu’à travers l’éveil de la conscience, de l’intelligence, de la curiosité. Il faut amener l’enfant à s’interroger, à réfléchir, à prendre de la distance, à réagir, à douter et à découvrir par lui-même les vérités qui lui serviront durant toute sa vie.

Notre éducation doit devenir moins passive, moins mécanique. Elle doit aussi réduire la place excessive qu’elle donne trop souvent à la doctrine, à la théorie, à l’abstraction devant lesquelles beaucoup d’intelligences se rebutent et se ferment. Il nous faut faire une place plus grande à l’observation, à l’expérimentation, à la représentation, à l’application. Je suis convaincu que de cette façon on intéressera davantage un plus grand nombre d’enfants et que l’échec scolaire s’en trouvera réduit. Cela vaut pour les sciences, comme pour les humanités ou pour les arts. Pour que le savoir devienne plus vivant, plus concret, il faut ouvrir davantage le monde de l’éducation sur les autres mondes, ceux de la culture, de l’art, de la recherche, de la technique et, bien sûr, sur le monde de l’entreprise qui sera celui dans lequel la plupart de nos enfants vivront un jour leur vie d’adulte.

Il faut que nos enfants rencontrent des écrivains, des artistes, des chercheurs, des artisans, des ingénieurs, des entrepreneurs qui leur feront partager leur amour de la beauté, de la vérité, de la découverte, de la création. Des liens doivent être tissés entre les institutions culturelles, les centres de recherche, le monde de l’édition, des entreprises et les écoles, les collèges, les lycées.

Il ne faut pas que les enfants restent enfermés dans leur classe. Très tôt, ils doivent aller dans les théâtres, les musées, les bibliothèques, les laboratoires, les ateliers. Très tôt ils doivent être confrontés aux beautés de la nature et initiés à ses mystères. C’est dans les forêts, dans les champs, dans les montagnes ou sur les plages que les leçons de physique, de géologie, de biologie, de géographie, d’histoire mais aussi la poésie, auront souvent le plus de portée, le plus de signification. Il faut apprendre à nos enfants à regarder aussi bien le chef d’œuvre de l’artiste que celui de la nature. Pas plus qu’il ne faut hésiter à les mettre en contact avec les grandes œuvres de l’esprit humain et avec ceux qui les maintiennent vivantes.

Nos enfants ne seront pas tous musiciens, poètes, scientifiques, ingénieurs ou artisans dans les métiers d’art. Mais à l’enfant qui ne sera jamais musicien, il ne faut pas renoncer à donner le goût de la musique. A l’enfant qui ne sera jamais poète, l’amour de la poésie. A l’enfant qui ne sera jamais chercheur, le goût de la rigueur scientifique et la passion de chercher. A l’enfant qui ne sera jamais artisan, l’amour du travail bien fait, du beau geste, de la technique accomplie.

Cela vaut pour tous les enfants, tous les adolescents, quelles que soient leurs origines, leur milieu social, qu’ils soient élèves dans l’enseignement général ou dans l’enseignement professionnel. Car c’est un autre des défauts de notre éducation traditionnelle que d’opposer ce qui est manuel à ce qui est intellectuel. Cloisonnement absurde qu’il faut briser pour que les filières professionnelles soient reconnues comme des filières d’excellence au même titre que les autres.

Il est une autre opposition encore qu’il nous faut dépasser : celle du corps et de l’esprit. L’éducation est un tout. Elle doit être théorique autant que pratique, intellectuelle autant que physique, artistique autant que sportive. La place faite au sport est encore insuffisante. L’enfant a besoin de se dépasser. Mais le sport est aussi une école du respect des autres, du respect de la règle, de la loyauté et du dépassement de soi. Je crois à la valeur éducative du sport. Non seulement le sport doit prendre plus d’importance à l’école, mais il faut aussi que le monde du sport et celui de l’éducation s’ouvrent davantage l’un sur l’autre, qu’entre les institutions sportives et les institutions éducatives aussi les liens soient resserrés, qu’entre les sportifs et les enseignants la coopération s’établisse pour le plus grand bien de nos enfants.

Comprenez-moi bien, il ne s’agit pas dans mon esprit d’alourdir encore les horaires d’enseignement qui sont déjà trop lourds. Il ne s’agit pas d’ajouter encore des enseignements nouveaux à une liste déjà trop longue. Dans mon esprit, il s’agit au contraire, de redonner à nos enfants le temps de vivre, de respirer, d’assimiler ce qui leur est enseigné.

Ce qu’il nous faut retrouver, c’est la cohérence du projet éducatif. Elle passe naturellement par la remise à plat des rythmes et des programmes scolaires qui est devenue nécessaire après des décennies où l’école s’est trouvée confrontée à une masse croissante d’exigences contradictoires et à des tensions et des attentes de plus en plus fortes au fur et à mesure que la cohésion sociale devenait plus fragile. Retrouver une cohérence à l’intérieur de chaque discipline, mais aussi entre les discipline et avec les attentes de la société, retrouver un fil directeur dans l’éducation, lui fixer des principes, des objectifs, des critères simples. Voilà ce que nous avons d’abord à faire. En même temps, il nous faut élever le niveau d’exigence, non pas en quantité mais en qualité.

Au lieu de mettre en place une sélection brutale à l’entrée de l’université qui serait une solution malthusienne, il nous faut élever progressivement le niveau d’exigence à l’école primaire, puis au collège et au lycée. Nul ne doit entrer en 6e s’il n’a pas fait la preuve qu’il était capable de suivre l’enseignement du collège. Nul ne doit entrer en seconde s’il n’a pas fait la preuve qu’il était capable de suivre l’enseignement du lycée et le baccalauréat doit prouver la capacité à suivre un enseignement supérieur. Ce sera un long travail qui ira de la reconstruction de l’école primaire à celle du lycée. Mais il est vital pour l’avenir de notre jeunesse et donc de notre pays.

Donner le maximum à chacun au lieu de se contenter de donner le minimum à tous. Voilà comment je souhaite que nous prenions désormais le problème de l’éducation et particulièrement celui de l’école.

Cette refondation de notre éducation, elle ne pourra être accomplie qu’avec le concours de tous les éducateurs. La volonté politique ne peut suffire à elle seule. C’est pourquoi je m’adresse à vous.

Quand je dis " tous les éducateurs ", je veux dire que le but ne sera pas atteint seulement avec l’aide des professeurs ou seulement avec l’aide des parents. Ce ne peut-être que l’œuvre commune de tous les éducateurs travaillant ensemble.

Il faut pour que nous réussissions que chacun d’entre vous se fasse un devoir de travailler avec les autres. Entre le père, la mère, le professeur, le juge, le policier, l’éducateur social, et tous ceux qui sont en contact avec l’enfant dans le milieu sportif, culturel, associatif, l’intérêt de l’enfant doit l’emporter sur toutes autres considérations. La confiance, la coopération, l’échange, l’esprit de responsabilité doit régner. Chacun doit passer par-dessus ses préventions ou ses a priori pour remplir son devoir qui est de préparer l’enfant à devenir adulte.

Parents, vous êtes les premiers des éducateurs. Je sais combien ce rôle est difficile quand le chômage menace, quand la famille se recompose, quand le père ou la mère se retrouve tout seul pour élever ses enfants. Je sais combien la vie peut être lourde. Je veux vous dire que vous serez soutenus, que vous serez aidés à chaque fois que vous en aurez besoin pour éduquer vos enfants dès le plus jeune âge et que pour moi la politique familiale fait entièrement partie du projet éducatif.

Je veux vous dire que le droit à la garde d’enfants et la maternelle seront pour moi, au cours des cinq années qui viennent, des priorités et que je suis décidé à faire en sorte que plus aucun enfant ne soit livré à lui-même une fois la classe terminée afin que vous puissiez achever votre journée de travail sans éprouver l’angoisse de savoir votre fils ou votre fille sans surveillance, sans encadrement. Désormais les devoirs seront faits à l’école, en études surveillées et pour les bons élèves issus des familles les plus modestes qui ne peuvent pas offrir à leurs enfants un cadre propice à l’étude, des internats d’excellence seront créés.

Vous serez aidés dans votre tâche. Mais vous avez des devoirs vis-à-vis de vos enfants. Vous devez donner l’exemple. Mais vous avez la responsabilité de faire en sorte que votre enfant aille à l’école, de lui inculquer le respect des lois et de la politesse, de contrôler que les devoirs sont faits. Si vous les laissez manquer la classe, si vous les abandonnez à eux-mêmes, alors il est normal que la société vous demande des comptes, que votre responsabilité soit mise en jeu, que les aides qui vous sont accordées puissent être placées sous tutelle.

Professeurs, enseignants, vous aussi vous avez droit au respect, à l’estime. Votre rôle est capital. Vous avez souvent fait de longues études. Vous devez faire preuve d’intelligence, de patience, de psychologie, de compétence. Je sais à quel point le merveilleux métier d’enseigner est exigeant, à quel point il vous oblige à donner beaucoup de vous-même, à quel point aussi il est devenu difficile et parfois ingrat depuis que la violence est entrée dans l’école. J’ai bien conscience que votre statut social, votre pouvoir d’achat, se sont dégradés au fur et à mesure que votre tâche devenait plus lourde, vos conditions de travail plus éprouvantes. La Nation vous doit une reconnaissance plus grande, de meilleurs perspectives de carrière, un meilleur niveau de vie, de meilleurs conditions de travail.

Jadis l’instituteur, le professeur avaient une place reconnue dans la société parce que la République était fière de son école et de ceux auxquels elle en avait confié la charge. L’instituteur, le professeur était fier de son métier, fier de servir la République et une certaine idée de l’Homme et du progrès. Nous devons renouer avec cette fierté. Dans l’école de demain vous serez mieux rémunérés, mieux considérés et à rebours de l’égalitarisme qui a trop longtemps prévalu, vous gagnerez plus, vous progresserez plus rapidement si vous choisissez de travailler et de vous investir davantage.

Vous pourrez choisir la pédagogie qui vous semblera la mieux adaptée à vos élèves parce que je crois qu’il faut faire confiance aux enseignants, à leur capacité de jugement, parce qu’ils sont les mieux placés pour décider de ce qui est bon pour leurs élèves. Les établissements dans lesquels vous enseignerez auront une plus grande autonomie dans le choix de leur projet, de leur organisation. L’évaluation sera partout la règle et les moyens seront répartis en fonction des résultats et des difficultés que rencontrent les élèves.

La reconversion de ceux d’entre vous qui après avoir longtemps enseigné éprouveront le besoin de changer de métier et faire valoir autrement leurs compétences, leur savoir, sera facilitée que ce soit à l’intérieur du secteur public ou à l’extérieur. A l’inverse, ceux qui après avoir acquis ailleurs une expérience souhaitent se tourner vers l’enseignement seront mieux accueillis qu’aujourd’hui. Dans l’éducation nationale, comme dans toute la fonction publique, le carcan des statuts doit s’ouvrir pour permettre que circulent les hommes, les idées, les compétences.

Je souhaite faire de la revalorisation du métier d’enseignant l’une des priorités de mon quinquennat parce qu’elle est le corollaire de la rénovation de l’école et de la refondation de notre éducation. Mais vous devez, vous le professeur, l’enseignant, comme les parents, vous montrer exemplaire. Exemplaire par votre comportement, par votre tenue, par votre rigueur, par votre esprit de justice, par votre implication. Exemplaire aussi par votre capacité à faire prévaloir l’autorité du maître, par votre souci de récompenser le mérite et de sanctionner la faute.

Dans l’école que j’appelle de mes vœux où la priorité sera accordée à la qualité sur la quantité, où il y aura moins d’heures de cours, où les moyens seront mieux employés parce que l’autonomie permettra de les gérer davantage selon les besoins, les enseignants, les professeurs seront moins nombreux. Mais ce sera la conséquence de la réforme de l’école et non le but de celle-ci. Et, je m’y engage, les moyens qui seront ainsi dégagés seront réinvestis dans l’éducation et dans la revalorisation des carrières. Il s’agit d’être plus efficace, non de rationner. Et il s’agit d’être efficace non seulement pour atteindre un objectif économique, non seulement pour que demain notre économie dispose d’une main d’œuvre bien formée, mais aussi, et peut être surtout, pour que nos enfants soient porteurs de valeurs de civilisation, pour qu’une certaine idée de la civilisation continue de vivre en eux

Chacun d’entre vous, je le sais, mesure l’importance du défi que nous avons à relever. Chacun d’entre vous comprend que la révolution du savoir qui s’accomplit sous nos yeux ne nous laisse plus le temps pour repenser le sens même du mot éducation. Chacun d’entre vous est conscient que face à la dureté des rapports sociaux, à l’angoisse devant un avenir de plus en plus vécu comme une menace, le monde a besoin d’une nouvelle Renaissance, qui n’adviendra que grâce à l’éducation. A nous de reprendre le fil qui court depuis l’humanisme de la Renaissance jusqu’à l’école de Jules Ferry, en passant par le projet des Lumières.

Le temps de la refondation est venu. C’est à cette refondation que je vous invite. Nous la conduirons ensemble. Nous avons déjà trop tardé.

Nicolas SARKOZY

Informática, educação e trabalho

[Mais um artigo escrito nos anos noventa, este em 1997, quando eu era presidente de uma rede de franquias de escolas de informática. A finalidade marketeira é a mesma do artigo anterior]

o O o

Nunca se colocou tanta fé na educação. Nunca se esperou tanto da escola.

Pais de alunos, educadores, políticos, todos concordam que, sem uma educação de qualidade, o Brasil não conseguirá competir de igual para igual em uma economia globalizada, pois os países que possuem profissionais mais bem preparados do que os nossos levarão vantagem sobre nós. Por isso, nosso futuro, como nação, depende da qualidade da educação que oferecermos hoje aos nossos jovens.

E não basta (como antigamente) oferecer educação de qualidade apenas para aqueles que vão ser parte da elite dirigente do país.

Até bem pouco tempo, algumas funções, no mercado de trabalho, podiam ser exercidas por pessoas basicamente analfabetas, porque envolviam atividades repetitivas, que não exigiam delas muito mais do que a capacidade de repetir uma mesma tarefa um sem número de vezes — como um autômato.

Hoje essas funções repetitivas estão sendo assumidas por computadores e robôs e as pessoas analfabetas ou semi-analfabetas estão ficando com cada vez menos opções de emprego.

Dentro do setor produtivo, até mesmo as funções mais simples estão exigindo hoje, dos que as executam, bom nível de conhecimento, capacidade de discernimento e decisão, visão mais ampla. Muitas profissões na área de turismo e entretenimento (que é uma das áreas em que mais cresce a oferta de emprego) exigem não só bom domínio da língua materna mas também conhecimento fluente de duas ou mais línguas estrangeiras. É a globalização redefinindo e enobrecendo funções dentro de um setor que, tradicionalmente, não era muito prestigiado.

A sociedade está mudando muito mais rápido do que a escola. Isso faz com que muitas empresas precisem oferecer aos seus funcionários formação profissional adicional, em complemento à que receberam na escola, para que esses funcionários possam exercer as funções que lhes são atribuídas no nível de competência desejado.

Mas as empresas não continuarão por muito tempo a treinar seus funcionários. Em nossa economia globalizada, vai chegar o momento em que, se uma empresa não encontra funcionários qualificados em um país, muda-se para um outro país onde esses profissionais estejam disponíveis.

Isso quer dizer que a tarefa de formação de um quadro de pessoal qualificado vai finalmente ficar nas mãos da escola mesmo. É por isso que se espera tanto da escola. Para corresponder às expectativas que lhe foram dirigidas, a escola vai precisar oferecer aos seus alunos uma educação de qualidade.

Por muito tempo nossa educação foi voltada para o passado. Hoje, para podermos nos colocar no nível dos países mais desenvolvidos, precisamos de uma educação voltada para o futuro, porque é no futuro que os alunos de hoje estarão vivendo e exercendo suas profissões.

Antigamente, quando havia menos mudanças e elas ocorriam mais lentamente, era mais fácil prever o futuro. Sabíamos, com razoável precisão, que iríamos precisar de tantos novos engenheiros por ano, tantos novos médicos, tantos novos advogados. E conhecíamos bastante bem o seu perfil profissional.

Hoje não podemos ter certeza sobre como será o futuro. Tudo está mudando rápido demais. Profissões tradicionais vão aos poucos desaparecendo ou drasticamente se transformando. Profissões outrora nobres, como a medicina, vão perdendo sua característica liberal, à medida que os seus praticantes vão se tornando assalariados ("proletarizando-se"), como funcionários de serviços de saúde públicos ou empregados de grandes empresas privadas de medicina de grupo. Novas profissões surgem a todo momento. Hoje há todo um mercado de trabalho em torno de desenvolvimento de aplicações para a Internet que não existia há cinco anos aqui no Brasil. E é difícil prever o que vai acontecer daqui a outros cinco anos.

Mas se não conseguimos prever o futuro com clareza, como podemos ter uma educação voltada para o futuro?

A chave está em uma educação de base sólida, mas que seja extremamente flexível quanto às opções de especialização e profissionalização. Não sabemos quais especializações serão requeridas em cinco anos. Não sabemos quais profissões serão demandadas daqui a dez anos. Por isso, precisamos de uma educação que, dando uma base sólida aos alunos, lhes permita flexibilidade para optar por novas especializações ou profissões, à medida que estas forem aparecendo.

Uma coisa é certa, porém: as profissões, mesmo na área de humanas, serão cada vez mais afetadas pela tecnologia — e a tecnologia será a informática. Por isso, uma exigência fundamental para uma educação básica de qualidade hoje é uma boa formação em informática.

Boa formação em informática, entretanto, não quer dizer que todos precisem saber programar, ou entender como funcionam os circuitos digitais do computador. O que é essencial é que todos saibam usar competentemente o computador como ferramenta de produtividade pessoal, dentro e fora do ambiente de trabalho.

Não se concebe mais que médicos, advogados, administradores de empresa, economistas, professores, saiam da Universidade virtualmente analfabetos em termos de tecnologia.

Mas não basta dar a todos os alunos um cursinho "fajuto" de Windows 95 ou Word 97, com material didático improvisado e instrutores que podem entender de informática mas não conhecem com profundidade as áreas em que a informática está sendo aplicada. Precisamos, cada vez mais, de profissionais versáteis na tecnologia mas que mantenham os pés plantados em suas áreas específicas de atuação. Estes são os melhores professores para iniciar os outros à área de informática.

Escrito em 1997 e transcrito aqui em Washington, 7 de Setembro de 2007 (esperando o avião para São Paulo)

A tecnologia, a escrita, o cálculo…

Transcrevo, a seguir, uma mensagem que escrevi dia 19 de Abril de 1999 na minha lista de discussão EduTec.Net (encerrada em Setembro de 2002). Redescobri-a por acaso, dando uma busca no Windows Live Search em outro assunto de interesse meu. Achei que vale a pena transcrevê-la aqui no meu Space. Aqui vai:

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From: Eduardo O C Chaves chaves@mindware.com.br
To: edutec@mindware.com.br edutec@mindware.com.br
Date: Monday, April 19, 1999 12:54 AM
Subject: Escrita como tecnologia

Comprei recentemente um livro interessante: Writing Space: The Computer, Hyptertext, and the History of Writing, de Jay David Bolter.

Eis uma passagem particularmente interessante:

"Escrever com caneta e papel não é mais natural, ou menos tecnológico, do que escrever com teclado e vídeo num computador. É verdade que um computador é mais complicado e mais frágil do que uma caneta. Mas não podemos nos isolar da tecnologia e reverter para os métodos de escrever mais antigos. Além disso, a produção de canetas e papel hoje também requer um processo sofisticado de manufatura: sem eletricidade, organização industrial, e redes de transporte e distribuição, não teríamos, hoje, suprimentos adequados de canetas e papel, os materiais necessários para a escrita antes do computador. De qualquer forma, não é a complexidade dos materiais que importa tanto: mais importante é o estado de mente técnico, que é comum a todos os métodos de escrever." (p.37).

Esta passagem, que eu não havia lido antes, se liga a algo que disse na palestra que dei em Uberaba, a convite da Iolanda [EC: Esses dados eram facilmente inteligíveis no contexto da lista na época]. No debate, uma aluna argumentou que a calculadora e o computador estão prejudicando a educação das crianças, porque estão fazendo com que estas deixem de fazer (e, em breve, de aprender a fazer) contas com lápis e papel e passem a fazê-las na calculadora (ou no computador). Minha resposta a ela foi de que fazer conta com lápis e papel não é uma forma natural de fazer contas: é uma forma de fazer contas (dividir, por exemplo) que usa tecnologia — não só o lápis e o papel, mas o método de dispor os números, a técnica de concentrar na parte do dividendo que é divisível pelo divisor e temporariamente ignorar o resto, etc. O método mais natural de fazer contas seria o de fazer contas mentalmente — mas nem esse é natural, porque precisamos inventar técnicas e macetes para conseguir lidar com grandes números mentalmente — e nem todos, de fato muito poucos, conseguem fazer isso. Assim, se nada temos contra o uso de lápis e papel na aritmética, por que objetar à calculadora ou ao computador? Porque no caso de lápis e papel usamos algoritmos? Mas a maior parte das pessoas aprende a aplicar o algoritmo automaticamente, sem necessariamente entendê-lo. Por que, então, não usar simplesmente a calculadora ou o computador?

No meu último livro [EC: escrito para o MEC, em 1988] argumento que mesmo a arte de falar, a linguagem em si, é tecnologia. O uso de conceitos envolve processos mentais sofisticados e complexos, faz uso de regras. Conseguir se comunicar pela linguagem é dominar métodos e técnicas de comunicação sofisticados — como todo mundo que aprende uma língua estrangeira descobre. O fato de que falamos nossa língua materna desde pequeninos nos oculta o fato de que estamos usando uma tecnologia sofisticada.

Lutam em vão os que se posicionam contra o desenvolvimento tecnológico. Sócrates lutou contra a escrita. Em vão. Ainda bem que perdeu — caso contrário, não teríamos acesso ao que ele pensou e disse, apesar de ele próprio ter-se recusado a colocar esses pensamentos no papel, através da escrita. Ainda bem que Platão o fez por ele e para nós.

O ser humano é um animal que inventa técnicas e métodos, cria artefatos, constrói mecanismos (devices, gadgets). Não fosse isto, estaríamos ainda antes da idade da pedra, dando grunhidos, como os primatas que, segundo dizem, nos antecederam, e que vieram a ser dominados, na briga pela sobrevivência do mais apto, quando um deles descobriu (segundo 2001: Odisséia do Espaço) que batendo com um osso em outro osso, era fácil quebrá-lo, criando assim uma ferramenta para quebrar a cabeça do inimigo. Duro, brutal, mas provavelmente verdadeiro.

Continuamos a inventar ferramentas para matar os inimigos e os que nos ameaçam. O duro é que, embora tenhamos aperfeiçoado enormemente nossa tecnologia, não tenhamos conseguido aperfeiçoar nossos valores e, conseqüentemente, nossa moralidade. Nesse sentido, concordo com o Antonio Carlos [EC: Novamente, a referência era inteligível no contexto original]. O problema básico é de valores — e dentro dos valores, dos valores morais, cuja descoberta e elaboração é função da ética. 

Eduardo Chaves (eduardo@chaves.com.br)

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Os temas continuam relevantes.

Em Tokyo, 4 de Setembro de 2007

What is schooling about?

No mês que vem estarei mais uma vez em Taiwan participando de encontros relativos ao programa Escola do Futuro de lá. O tema de minha palestra principal será o título desta matéria: What is schooling about? Livremente, poderíamos traduzir a pergunta por: A escola deve fazer o quê?

Uma primeira resposta, que apenas joga o problema mais para a frente, diria que a escola deve, naturalmente, educar. Mas, como disse, essa resposta não responde, realmente, a questão inicial, pois agora podemos, e devemos, continuar perguntando: Mas o que se entende por educar? E, dado que há outras instâncias que também educam, a mais importante delas sendo a família, que parcela da educação cabe à escola e que parcela cabe a outras instituições? Ou será que essa “divisão de tarefas” não faz sentido, cabendo a todas as instituições envolvidas educar “num sentido pleno”, educar “integralmente”?

Começo de trás para frente: acredito que a “divisão de tarefas”, se um dia fez sentido, hoje não se sustenta. E por uma série de razões, que passo a resumir.

No caso das famílias mais pobres, o problema é mais sério. As famílias em geral têm um nível educacional mais baixo, os cônjuges, quando convivem, precisam ambos trabalhar fora, as famílias correm mais risco de se desestruturar, não raro as crianças ficando sob a guarda real de apenas um dos cônjuges, etc. Nesse contexto, a idéia de que alguns aspectos da educação — na realidade, os mais importantes, como, por exemplo, a educação moral, a educação da vontade, a educação dos sentimentos — sejam atribuídos exclusivamente à família, a escola passando ao largo deles, beira o utópico.

No caso das famílias de classe média, o problema é um pouco menor. Aqui o nível educacional em geral é mais alto, a pressão econômica para que ambos os cônjuges trabalhem fora é menor. Mas, neste caso, há uma pressão muito grande, não necessariamente de ordem econômica, mas de ordem social, para que o foco de atenção da mulher não se esgote no lar, que ela busque realização pessoal fora dele, ainda que não seja para buscar suplementação da renda familiar. Como neste caso o problema financeiro é menos sério, acabam-se contratando babás, empregadas, etc. para cuidar das crianças, e, não raro, despachando as crianças (em alguns casos com a ajuda de um motorista) para aulas adicionais de inglês, informática, karatê, futebol, etc. Ou seja, mais uma vez se torna utópico imaginar que a família possa cuidar de aspectos da educação — novamente, os mais importantes — enquanto a escola cuida da educação “do pensar”.

Aqui há, ainda, um aspecto curioso, até irônico. Em países mais desenvolvidos, como os Estados Unidos, uma parcela bastante culta da classe média está ativamente engajada, não em delegar mais tarefas educacionais à escola, mas em roubar da escola algumas das funções que, tradicionalmente, lhe foram atribuídas. O “Home Schooling” é, na realidade, um movimento de desescolarização da sociedade, talvez ainda mais radical do que o de Ivan Illich, na medida em que propõe que as famílias eduquem “integralmente” — ficando as escolas (pelo menos as hoje obrigatórias) sem função. 

Essa questão acaba fazendo uma transição interessante para as classes mais elevadas. Estas nunca realmente precisaram da escola: têm toda condição de educar seus filhos em casa, com a ajuda de tutores e preceptores particulares. Além disso, o “networking” que elas oferecem aos seus filhos, as oportunidades de viajar pelo país e pelo exterior, etc., tudo isso ajuda de forma significativa na educação não-escolar dos filhos. 

Fica evidente, portanto, que para a grande maioria da sociedade a tradicional “divisão de tarefa” não faz sentido. Ela só não faz sentido para aqueles que têm condições de oferecer uma educação de qualidade em casa — mas estes estão em condições não só de oferecer uma educação de qualidade em aspectos que seriam privativos da família e do lar, mas até mesmo em aspectos que tradicionalmente foram atribuídos à escola. 

A segunda questão, e mais complicada, é: mas o que realmente se entende por educação? 

Na visão tradicional, a educação é entendida como o processo através do qual as gerações mais velhas transmitem às mais novas a visão de mundo (suas crenças, seus valores, suas atitudes) que as torna aptas a operar na sociedade (Durkheim).

A razão de ser dessa visão tradicional está na preservação (reprodução, perpetuação), numa determinada configuração, das estruturas sociais que tornam possível a vida em sociedade. A sociedade se preserva, se reproduz, se perpetua na justa medida em que os adultos inculcam nas crianças a visão de mundo da sociedade e as crianças introjetam essa visão de mundo, fazendo-a também sua.

Dentro dessa visão tradicional, a educação não é permanente, um processo que dura a vida inteira. A educação é algo que ocorre durante um tempo específico da vida de cada um: quando se é criança.

Além do mais, não resta dúvida, dentro dessa visão tradicional, acerca de quem educa e quem é educado: adulto educa criança, pai educa filho. Não há nada aí da visão paulofreireana de que “ninguém educa ninguém, mas tampouco ninguém se educa sozinho: nós nos educamos uns aos outros…” Na visão tradicional alguém educa o outro, sim: o adulto à criança, e não vice-versa. Nada de imaginar que nós nos educamos uns aos outros.

É oriunda dessa visão tradicional a clara divisão de papéis dentro da educação: uns ensinam, outros aprendem, uns educam, outros são educados, uns são educadores, outros são educandos…

Na verdade, a visão tradicional da visão “bancária” que Paulo Freire tanto critica: educar é o processo mediante o qual os educadores (pais, professores) “transferem conteúdos” de suas cabeças para as cabeças dos que precisam ser educados (filhos, alunos) — da mesma forma que, numa transação bancária, uns transferem fundos para os outros.

Dentro dessa visão, tornar-se adulto é, para uma criança, algo muito próximo de tornar-se uma réplica de seu pai ou de sua mãe. Não se fala, nesse contexto, em projeto de vida individual (e a mobilidade social que ele envolve): o projeto é coletivo, social, e ele envolve manter a estabilidade de uma sociedade em que cada um se prepara para ocupar o escaninho que lhe cabe na vida social, no mesmo nível, às vezes até na mesma função, que seus pais ocuparam (Durkheim). 

Essa visão tradicional da educação não mais se sustenta. Ela vinha sendo criticada há muito tempo — John Dewey talvez seja o seu crítico mais importante, e ele viveu na transição do século XIX para o século XX — embora sua longa vida abranja várias décadas tanto de um como do outro século. Mas o que realmente implodiu essa visão tradicional da educação foram as mudanças acontecidas no mundo nos sessenta e poucos anos que passaram desde o fim da Segunda Guerra Mundial. Durante esses anos vimos o uso do telefone, do rádio, e da televisão (tecnologias surgidas antes de 1945) se universalizar nos países desenvolvidos; vimos o lançamento do primeiro computador, um monstro em tamanho e consumo de energia, mas, em termos de capacidade de processamento, menos potente do que a maior parte dos brinquedos infantis de hoje; vimos a popularização das viagens aéreas, principalmente depois do surgimento dos primeiros aviões aéreos, que deu enorme mobilidade às pessoas e fez com que essa mobilidade ficasse cada vez mais rápida; vimos o nascimento e a evolução das viagens espaciais; vimos a miniaturização da eletrônica e o surgimento dos microprocessadores e dos computadores pessoais, cada vez menores, mais portáteis e mais potentes; vimos a convergência de todos os meios de comunicação para a tecnologia digital, centrada no computador; vimos o surgimento e a popularização da Internet; vimos o aparecimento da pílula anticoncepcional, que permitiu à mulher controlar e planejar a sua natalidade e, assim, entrar maciçamente na força de trabalho; vimos a redução da natalidade nos países desenvolvidos, decorrente do planejamento familiar, e um crescimento inacreditável na prosperidade desses países; e muitas outras mudanças.

De todas essas mudanças, a mais impactante, do ponto de vista da educação, foi o surgimento das novas tecnologias de informação e comunicação, centradas no computador. Essas tecnologias viabilizaram o acesso fácil e rápido à informação e a comunicação instantânea — e mostraram às pessoas a gama de alternativas e possibilidades que se abrem diante delas: novas visões de mundo, novas crenças, novos valores, novos estilos de vida, novas profissões, novos lugares para viver e trabalhar. A informação, quando necessária, está sempre “na ponta dos dedos”. O contato com outras pessoas, ainda que estejam do outro lado do mundo, demora uma fracão de segundo. A busca de interesses próprios e divergentes, mesmo exóticos, encontra sempre respaldo em grupos de interesses afins na Internet. A televião a cabo e via satélite bombardeia os nossos lares com centenas de canais, muitos deles em língua estrangeira, alguns oferecendo programação especializada e, não raro, voltada para públicos selecionados. Dentro das nações, múltiplas visões de mundo, projetos coletivos diferenciados (alguns com fundo étnico, outros com fundo religioso, outros com fundo político), uma miríade de projetos de vida individuais que se tornam possíveis.

Diante de tudo isso, não faz mais sentido pensar na educação como um processo de transmissão de uma visão de mundo de uma geração para outra, transmissãao esse que se faz em cima do pressuposto de que existe uma visão de mundo única na sociedade, que ela é estável, e que, portanto, o mundo em que as crianças viverão e trabalharão não sofrerá grandes mudanças em relação ao mundo que existe no momento em que elas são educadas…

Nada disso se sustenta, hoje.

Precisamos de uma visão da educação que se alicerce no fato de vivemos — e continuaremos a viver, cada vez mais — num mundo plural, cheio de visões de mundo alternativas, e num mundo livre, em que as pessoas podem escolher entre diferentes visões de mundo e, a partir delas, definir seu projeto de vida individual, quiçá único.

Nossa visão da natureza do ser humano também vem mudando. O ser humano, hoje se acredita, não é, ao nascer, uma tabula rasa, uma folha de papel em branco, na qual pode ser escrito qualquer roteiro que os adultos desejem. O ser humano nasce, sem dúvida, com sua programação aberta, inconclusa. É totalmente incompetente e dependente dos outros. Mas nasce com potenciais, que lhe permitem recusar roteiros que não estejam de acordo com sua natureza… Dentre esses potenciais, destaca-se sua incrível capacidade de aprender e sua capacidade de, a partir de um certo momento, definir o seu projeto de vida pessoal. No contexto de uma sociedade livre e pluralista, que não procura “moldar” os seus membros futuros de acordo com sua própria imagem, isso significa que cada um é livre para definir o que será sua vida, para criá-la e recriá-la, em função de seus projetos de vida pessoais.

Precisamos, assim, de uma nova visão da educação que, em vez de almejar a reprodução da sociedade, visa ao desenvolvimento do ser humano, permitindo que ele se torne aquilo que escolhe ser.

Se adotamos uma visão da educação voltada para o desenvolvimento da autonomia e para a tradução de potenciais em competências, nossa resposta à pergunta “What is schooling about?” será bem diferente do que é, hoje, nos contextos em que ainda impera a visão tradicional da educação.

Primeiro, em vez de um currículo centrado na transmissão de informações e conhecimentos disciplinares, teremos um currículo centrado no desenvolvimento de competências. Em vez de uma grade de matérias e séries, teremos uma matriz de competências, organizada, quem sabe, ao redor dos Quatro Pilares da educação propostos pela UNESCO: aprender a ser, aprender a conviver, aprender a fazer, aprender a aprender.

Segundo, em vez de uma metodologia de ensino centrada na aula expositiva, uma metodologia de aprendizagem centrada na execução de projetos (como já sugeria Dewey e seu discípulo William Kilpatrick).

Terceiro, em vez de uma avaliação centrada em testes que visam a aferir se o aluno absorveu as informações e os conhecimentos transmitidos, uma avaliação permanente, centrada na observação participante do desenvolvimento das crianças.

Por fim, duas lições adicionais.

Primeiro, nesse novo contexto a educação será vista como algo permanente, que tem lugar ao longo da vida todo. Nunca estaremos totalmente “terminados”, “conclusos”, “acabados” — até que nossa vida cesse. Enquanto vivermos, poderemos sempre estar nos criando e recriando — e isso quer dizer, nos educando.

Segundo, nesse novo contexto é possível recapturar a verdade sublinhada por Paulo Freire. Não são uns, os educadores, que educam os outros, os educandos. Todos nós estamos envolvidos, o tempo todo, no processo de nos educar uns aos outros.

Em Salto e Campinas, 27 e 28 de Julho de 2007.

Howard Gardner e as Múltiplas "Inteligências"

Transcrevo, abaixo, duas entrevistas de Howard Gardner publicadas em revistas brasileiras (Veja, nas Páginas Amarelas da edição 2018, de 25 de julho de 2007, e Mente Cérebro, Agosto de 2007).

Concordo, no que me parece fundamental, com Gardner. Mas discordo em algumas questões que, para mim, são muito importantes. O texto dele está disponível, abaixo, para leitura. Por isso, não preciso resumir suas idéias: a entrevista, em si, as resume.

Em vez de resumir as idéias de Gardner, vou procurar resumir as minhas, deixando em evidência os aspectos em que me distancio de Gardner.

1) Concordo com Gardner que a inteligência não é nossa única capacidade mental: temos múltiplas capacidades mentais – que eu prefiro chamar de “competências” (e, anteriormente, se chamava de “faculdades”). Podemos colocar isso em outras palavras dizendo que a mente humana acomoda não só múltiplas competências, mas múltiplas categorias (ou agrupamentos) de competências, que podem ser denominadas “mega-competências” ou “macro-competências”. A inteligência é apenas uma delas.

2) A capacidade mental que é tradicionalmente identificada com a inteligência é a capacidade lógico-raciocinativa. Como nossos argumentos e raciocínios são, em regra, expressos através de palavras ou números e símbolos, a inteligência é, em geral, subsidiariamente conectada com a capacidade lingüístico-verbal e/ou com a capacidade matemático-simbólica. Mas sua característica básica é a capacidade lógica-raciocinativa.

3)  Essa capacidade é, no meu entender, bastante bem medida através dos chamados testes de inteligência, em especial pelo consagrado teste do Quociente de Inteligência (QI, ou, em Inglês, IQ).

4)  No meu ponto de vista, a razão principal pela qual Gardner chama de “múltiplas inteligências” as múltiplas capacidades de nossa mente (das quais, a meu ver, apenas uma é apropriadamente denominada de inteligência) deve ser buscada no contexto político-acadêmico americano. É fato indisputável que, nos Estados Unidos, diferentes grupos étnicos (brancos [Euro-Descendentes], negros [Afro-Descendentes], amarelos [Asio-Descendentes], marrons [Latino-Americanos, em especial os oriundos de mestiçagem indígena, chamados nos Estados Unidos de “Hispânicos”], vermelhos [Nativo-Americanos] e) têm resultados consistentemente diferentes nos testes de QI – em geral os Asio-Descendentes têm melhor desempenho do que os Euro-Descendentes, estes têm melhor desempenho do que os Latino-Americanos /Hispânicos, e estes têm melhor desempenho do que os Afro-Descendentes (os Nativo-Americanos são estatisticamente insignificantes nas amostras). O resultado desses testes, que privilegiam os aspectos lógico-raciocinativos, verbais e matemáticos, permite concluir que há inegáveis diferenças no nível médio de desempenho de diferentes grupos étnicos na sociedade americana. Essa conclusão, apesar de não se aplicar a indivíduos, mas apenas aos diferentes grupos étnicos, é, hoje, considerada politicamente incorreta, posto que há, hoje, nos Estados Unidos e alhures, um pressuposto de que “raça” (caso seja um conceito legítimo, o que é freqüentemente negado) não é um fator que significativamente afete a inteligência. Por isso, a meu ver, Gardner houve por bem, conscientemente ou não, concluir que as múltiplas capacidades da mente humana, cuja existência ninguém jamais colocou em dúvida, devem ser chamadas de “múltiplas inteligências”, assim tornando possível afirmar (como Gardner o faz na entrevista à Veja) que “cada um tem uma mistura singular dos vários tipos de inteligência, o que torna a questão bem mais complexa do que dividir a humanidade entre burros e inteligentes.  . . . A maioria das pessoas é, ao mesmo tempo, inteligente para algumas áreas do conhecimento e limitada para outras. Estou me referindo à media.”

5) Não devemos, nesta delicada área extremamente sensível, tentar alcançar conquistas políticas através de decretos lingüísticos. Assim, não devemos chamar de inteligência outras capacidades que, tradicionalmente, têm sido muito bem denominadas de outras formas. No entanto, é isso que, na minha opinião, Gardner faz.

6)  A proposta de Gardner me parece ser uma nobre tentativa de encobrir fatos desagradáveis, mas difíceis de simplesmente negar, com decretos lingüísticos. A afirmação de que “a maioria das pessoas é, ao mesmo tempo, inteligente para algumas áreas do conhecimento e limitada para outras” só tem alguma semelhança de verdade quando o termo “inteligente” é interpretado no sentido de “ou inteligente no sentido clássico, ou inteligente no sentido de sentir-se bem consigo mesmo, ou inteligente no sentido de se relacionar bem com os outros, ou inteligente no sentido de ser bom em algum esporte, ou inteligente no sentido de ter facilidade para música, ou no sentido de conseguir orientar-se bem em espaços complicados e desconhecidos, ou, enfim, bom em alguma coisa”. Mas esse é o sentido do termo “inteligente” apenas para Howard Gardner e aqueles que resolveram aceitar sua saída fácil para o problema apresentado pelo fato de que diferentes grupos étnicos, nos Estados Unidos pelo menos, obtêm resultados médios consistentemente diferenciados em testes de inteligência, sempre na mesma seqüência hierárquica. Esse fato precisa ser explicado, e há várias explicações para ele. Mas dizer que todo mundo é “inteligente” no sentido de ter alguma capacidade mental que, embora conhecida por outro nome, pode ser rebatizada de “inteligência ‘alguma coisa’” claramente não soluciona o problema, nem mesmo o esconde satisfatoriamente.

7)  No entendimento convencional do que seja a inteligência, a afirmação de Gardner, citada nos parágrafos quarto e sexto, é simplesmente falsa. A afirmação correta é de que (a) pessoas que não obtêm resultados muito bons nos testes de inteligência freqüentemente se dão muito bem em áreas que privilegiam outras capacidades mentais (Garrincha é um excelente exemplo aqui: seu QI era baixíssimo, quase no limite do que se chama de “retardo mental”, mas ele era um gênio no futebol – demonstrando superior capacidade “corporal-cinestésica”), e (b) pessoas que têm QI muito alto muitas vezes são totalmente incompetentes em áreas que privilegiam outras capacidades mentais (como o próprio esporte, a música, o relacionamento interpessoal, o movimentar-se em complicados espaços urbanos, ou mesmo o resolver pequenos problemas práticos da vida).

8)  Talvez devam se acrescentar a essa discussão duas observações freqüentemente feitas, a segunda delas pelo próprio Gardner na entrevista. São elas: (a) “sucesso na vida” não se deve exclusivamente à inteligência; (b) embora os chamados “gênios” alcancem essa distinção em apenas uma área, eles não raro exibem capacidades acima da média em diversas outras áreas também.  

NOTA 1: São estas as “sete capacidades básicas” (ou “inteligências”, como ele prefere, que Gardner identificou: Lingüística, Lógico-Matemática, Musical, Espacial (ou Visual), Corporal-Cinestésica, Interpessoal e Intrapessoal. Subseqüentemente, Gardner acrescentou uma oitava capacidade básica, que ele chama de Naturalista (a capacidade de reconhecer e classificar plantas, minerais e animais, ou até mesmo artefatos culturais) – mas ela não tem ganho tanta aceitação quanto as outras sete. Gardner chegou a estudar a possibilidade de acrescentar uma nona capacidade básica, a ser chamada de Existencial (ou Espiritual
), mas aparentemente desistiu do empreendimento. Também tem relutado a aceitar a noção de que existe uma capacidade básica na área moral, ou uma Inteligência Moral.

NOTA 2: Note-se a passagem a seguir transcrita da entrevista para Mente Cérebro. Nela Gardner admite que chamar de inteligência o que é capacidade, habilidade ou talento não passa de uma "sacada" de marketing.  

"M&C: O senhor usa os termos “inteligência” e “talento” como sinônimos. Mas, para a maioria das pessoas, esses termos se referem a conceitos bem distintos.

Gardner: De fato. Mas, ao privilegiar o termo “inteligências” em vez de “talentos” ou “habilidades”, fiz um movimento retórico importante. Todos reconhecem a existência de diferentes talentos e habilidades humanas, e provavelmente eu não estaria aqui sendo entrevistado se tivesse usado essas palavras em vez de “inteligências”."

É isso… Uma "sacada" de marketing para aliviar a consciência culposa do "establishment" acadêmico de esquerda dos Estados Unidos.

Em Salto, 22 de julho de 2007 [modificado em 5 de agosto de 2007] 

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VEJA
Edição 2018 – 25 de julho de 2007

Entrevista: Howard Gardner

"Os burros são raros"

O psicólogo americano diz que a maioria das pessoas é inteligente para algumas áreas do conhecimento e que o teste de QI não expressa esse fato

Monica Weinberg

"Com esforço, a inteligência humana pode ser aprimorada apenas até um certo ponto. A genialidade é para poucos"

O psicólogo americano Howard Gardner deu um passo adiante na compreensão da inteligência humana ao concluir, com base em duas décadas de estudos, que a mente é composta de múltiplas capacidades independentes entre si. Ele descreveu cientificamente oito tipos de inteligência: a lingüística e a lógica (medidas em testes de QI), além da espacial, musical, corporal, naturalista (a habilidade de compreender os fenômenos naturais), intrapessoal (a de reconhecer os próprios defeitos e qualidades — e tomar decisões com base neles) e interpessoal (a de interpretar as intenções alheias e exercer a liderança). A teoria de Gardner, que na década de 90 passou a influenciar acadêmicos e educadores, teve o mérito de subverter a visão de que a humanidade se divide basicamente entre seres iluminados e aqueles desprovidos de inteligência. Diz o psicólogo: "Há infinitas nuances. Pablo Picasso foi um gênio da pintura, mas era péssimo aluno". Aos 64 anos, professor da Universidade Harvard, nos Estados Unidos, e autor de vinte livros sobre o assunto, Gardner tem viajado o mundo para proferir palestras nas quais fala sobre genialidade, liderança e sala de aula. Ele concedeu a seguinte entrevista a VEJA.

Veja – Há pessoas menos inteligentes do que outras?

Gardner – Cada um tem uma mistura singular dos vários tipos de inteligência, o que torna a questão bem mais complexa do que dividir a humanidade entre burros e inteligentes. A observação científica mostra que o mundo está cheio de gente que se destaca no pensamento lógico, mas não tem inteligência suficiente para expressar uma idéia com começo, meio e fim. Ou de pessoas que são brilhantes ao filosofar sobre as grandes questões do mundo moderno e não têm nenhum traquejo para executar exercícios físicos de jardim-de-infância. Conclusão: a maioria das pessoas é, ao mesmo tempo, inteligente para algumas áreas do conhecimento e limitada para outras. Estou me referindo à média. Bem mais raros são os casos de gente desprovida de qualquer inteligência. Mas eles existem.

Veja – Até que ponto é possível desenvolver a inteligência?

Gardner – Essa é uma questão que vem intrigando os especialistas há séculos. Nas sociedades asiáticas influenciadas pelo confucionismo, vigora a idéia de que as pessoas diferem pouco no intelecto. Mais importante para seu sucesso é o esforço despendido por cada um. No Ocidente, por sua vez, circula a visão de que a inteligência é inata e de que quase nada se pode fazer para mudá-la. O fato é que a ciência já reuniu evidências suficientes para concluir que a inteligência é resultado dos dois fatores: a genética e a experiência de cada um. Ainda não se sabe qual deles tem mais peso. Algumas habilidades, como o raciocínio lógico e o talento para a música, sofrem maior influência da genética. Mas, no geral, tudo indica que os genes e o ambiente contribuam em igual proporção na formação da inteligência humana. Certamente não estão determinadas no berçário todas as capacidades intelectuais das pessoas, o que quer dizer, sim, que é possível esculpir a inteligência – ainda que haja limitações para isso.

Veja – Quais são os limites mais evidentes para o desenvolvimento da inteligência?

Gardner – A primeira barreira é imposta pela própria biologia: o tempo de vida de um indivíduo, em média de 70 anos, é curto para certos desafios intelectuais. O segundo ponto é que, quanto mais velha uma pessoa, mais dificuldade ela tem para mudar seu perfil de inteligência. Está demonstrado por meio de extensas pesquisas que a fase em que a experiência causa mais impacto ao cérebro é até os 20, 25 anos de vida. As pessoas podem até ficar mais sábias depois disso, mas não mais inteligentes. A única exceção a essa lógica é quanto às inteligências pessoais, aquelas que definem as capacidades de autoconhecimento e de lidar com seus semelhantes. Há evidências de que apenas estas se aperfeiçoam ao longo da vida. Um terceiro problema é que as chances de alguém sair das trevas numa determinada área de conhecimento também dependem de sua condição socioeconômica.

Veja – Como a classe social influencia na construção da inteligência?

Gardner – Está claro que um menino pobre do Brasil tem menos probabilidade de desenvolver suas múltiplas inteligências do que uma criança rica dos Estados Unidos. O jogo é desigual por uma razão simples: onde existem carências de recursos, há falta de estímulos. Feitas essas ponderações, não restam dúvidas de que, à custa de esforço, é possível alcançar bons resultados no aprimoramento da inteligência. Mas, na discussão sobre esse tema, há ainda outro aspecto que considero bastante interessante: o da genialidade. Os estudos indicam que é impossível tornar-se genial numa área para a qual não se tem talento natural.

Veja – Por quê?

Gardner – Está suficientemente demonstrado que são vários os fatores que atuam ao mesmo tempo para produzir tais talentos excepcionais – e não apenas um. Ao estudar trinta grandes gênios de áreas distintas, descobri uma característica em comum entre eles: são pessoas que exibem um conjunto de pelo menos dois tipos de inteligência em que sobressaem. Numa delas, têm desempenho extraordinário. Albert Einstein (físico alemão, 1879-1955), por exemplo, mostrava um fantástico raciocínio lógico-matemático e se destacava nas capacidades espaciais. Além de um talento especial para a música, Igor Stravinsky (compositor russo, 1882-1971) demonstrava outras inteligências artísticas, o que provavelmente explica sua carreira eclética: foi um grande compositor de balés, era capaz de musicar textos e tornou-se um dos comentaristas mais incisivos de sua época. Gosto também de citar o fut
ebol. Se você nasce sem grande potencial nas áreas do pensamento espacial e do raciocínio lógico, pode treinar 365 dias por ano, ao longo de uma década, para, enfim, se tornar um bom jogador de futebol. Mas jamais será um Pelé.

Veja – Entre os oito tipos de inteligência que o senhor descreve, há um que seja mais determinante para o sucesso nas sociedades modernas?

Gardner – Certamente a inteligência mais valorizada hoje é a que defino como lógico-matemática. Digo isso com base num fato concreto: a maioria das grandes empresas procura, no mundo inteiro, gente capaz de observar padrões, manipular números e produzir análises objetivas. São pessoas com uma cabeça mais científica. Não estamos falando aqui apenas de matemáticos e engenheiros, mas de um jeito de atuar em diversas profissões. O pensamento lógico representa para a sociedade moderna o que significava a habilidade lingüística quinhentos anos atrás. Naquele tempo, as explicações mais convincentes para os fenômenos se propagavam por meio de relatos – contados ou escritos. Saber empregar um idioma com desenvoltura era, por essa razão, um bem incomparável. Com o advento da ciência, o raciocínio lógico passou a ser cultuado. Mas é bom que se ressalte: esse tipo de inteligência, isolada, dificilmente fará alguém alçar vôos mais ambiciosos – a não ser que o objetivo seja seguir carreira como matemático ou analista de sistemas.

Veja – Existe, então, uma combinação de habilidades mais admirada no mercado de trabalho?

Gardner – A união do pensamento lógico à capacidade de lidar com as pessoas tem resultado em carreiras de sucesso nas grandes empresas. O que não dá é para interpretar esse tipo de constatação como uma espécie de fórmula para o êxito. Em minhas palestras, faço questão de enfatizar dois pontos aparentemente óbvios. Primeiro, afirmo que mesmo os profissionais mais brilhantes precisam ter como motor a ambição para crescer. Cheguei a uma conclusão intrigante sobre muitos deles: apesar do talento fora do comum, são pessoas que tendem a ficar acomodadas em suas áreas de interesse. Acabam se tornando superespecialistas, mas, ironicamente, não costumam deixar nenhuma marca no mundo das idéias. O segundo ponto é que às vezes os melhores não dão certo quando chegam ao topo de uma organização, porque a eles, também, falta alguma espécie de inteligência fundamental para exercer o cargo de liderança.

Veja – Qual a lacuna mais comum entre os vários tipos de chefe?

Gardner – A muitos deles falta uma capacidade essencial à liderança – a inteligência para detectar suas forças e fraquezas. Isso não ocorre com os líderes mais eficientes, que têm um cérebro moldado para entender o que considero básico: como qualquer outra pessoa, não sabem tudo, estão sujeitos a errar e, por essa razão, se cercam de gente melhor do que eles em áreas nas quais se saem pior. Os líderes menos eficazes, por sua vez, pecam pelo excesso de orgulho e pela cegueira sobre suas reais capacidades. O presidente americano George W. Bush é o melhor exemplo de ausência desse tipo de inteligência – a que me refiro como inteligência pessoal – e por isso é incapaz de produzir uma auto-avaliação mais realista. Bush também esbarra numa outra deficiência comum entre pessoas que ocupam função de liderança: a de não pensar nas grandes questões existenciais, mas ater-se somente aos problemas mais imediatos do dia-a-dia.

Veja – Essa é uma limitação e tanto.

Gardner – Sem dúvida. Sabe-se que, desde o tempo das cavernas, os homens apresentavam um cérebro capaz de imaginar o infinito e de considerar questões cosmológicas, muito além da preocupação com a própria sobrevivência. Vários dos líderes modernos, no entanto, não exibem essa capacidade. Eles têm dificuldade de pensar num espectro mais amplo. Está claro que as pessoas mais eficazes em cargos de comando são aquelas que conseguem despertar nos outros a sensação de que fazem parte de um projeto maior. É uma característica que separa os líderes que ficarão na história dos que logo serão descartados da memória coletiva. Dois bons exemplos são o indiano Mahatma Gandhi (1869-1948) e Nelson Mandela (ex-presidente sul-africano). Adolf Hitler (1889-1945) e Mao Tsé-tung (1893-1976), ambos ditadores, respectivamente, na Alemanha e na China, alcançaram o mesmo efeito em suas platéias – sem ter feito, claro, o uso positivo de suas capacidades intelectuais.

Veja – A inteligência tem alguma relação com a moral?

Gardner – Definitivamente, não. As inteligências são moralmente neutras. Tome-se como exemplo a comparação entre Joseph Goebbels (1897-1945), o ministro da Propaganda de Hitler, e o poeta Goethe (1749-1832), ambos mestres no emprego da língua materna: o alemão. Em poder do mesmo tipo de inteligência, Goebbels disseminou o ódio e Goethe criou obras de arte. O estudo que fiz sobre os trinta personagens com atuação acima do comum em suas respectivas áreas, ao longo da história, ajuda a enfatizar a idéia da inteligência amoral. Tirando Gandhi, nenhuma das figuras por mim pesquisadas teve uma vida pessoal digna de ser classificada como exemplar. Pablo Picasso (pintor espanhol, 1881-1973), T.S. Eliot (poeta inglês, 1888-1965) e até Einstein, para citar alguns, lamentavelmente demonstraram insensibilidade moral em muitos aspectos da vida. Com base nesses argumentos, repito o que pode parecer óbvio: o principal desafio da humanidade não é apenas produzir um exército de pessoas com suas múltiplas inteligências afiadas – o maior avanço será vê-las usadas de forma mais ética.

Veja – O senhor acha que é viável contemplar as diferentes inteligências nas escolas?  

Gardner – Concordo com meus adversários no campo acadêmico: é difícil transpor toda essa teoria à realidade das salas de aula. Ensinar as matérias de sete ou oito maneiras distintas seria uma tarefa para loucos, e não é isso que eu proponho. Mas acho que aplicar em sala de aula ao menos dois jeitos diferentes de ver um mesmo problema já terá sido um tremendo avanço em relação ao que se vê hoje no mundo todo: escolas atrasadas educando as crianças para o século passado. Com base em dezenas de viagens pelo mundo, afirmo que as escolas estão, no geral, cometendo o mesmo erro: elas ensinam as crianças a ler, escrever e usar o computador como um fim em si, quando essas são apenas ferramentas para aprofundar o conhecimento sobre temas mais relevantes.

Veja – Como é possível identificar oito tipos de inteligência se há apenas medidores para duas ou três delas?

Gardner – A neurociência já produziu um sólido conjunto de evidências para comprovar minha tese. Por meio da observação do cérebro em funcionamento, essas pesquisas revelam que a mente humana abriga, sim, capacidades intelectuais independentes entre si. É da combinação delas que surgem os mais diversos perfis de inteligência. Infelizmente, as sociedades modernas não assimilaram o que a ciência descortinou décadas atrás. Elas seguem com uma visão antiga – valorizam apenas os tipos de inteligência que podem ser medidos em testes de QI, como as habilidades para a matemática e a lingüística. Em relação às demais capacidades humanas que descrevo em meu trabalho, elas ainda são desprezadas pela maioria das pessoas.

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Mente Cérebro
Edição 175 – Agosto 2007

Múltiplas inteligências

Para o psicólogo americano
Howard Gardner, criador da teoria das habilidades múltiplas, a predisposição genética e as experiências vividas na infância podem favorecer nossos “computadores mentais”. Em sua opinião, é mais importante estimular do que medir os recursos mentais

Daniele Fanelli

“Não deveria valer apenas a nota tirada na prova de matemática, mas o respeito pelo outro e o tipo de ser humano que nos revelamos” – Howard Gardner

O ser humano tem muitos tipos de inteligência. A hipótese do psicólogo Howard Gardner, formulada em 1982, o tornou conhecido mundialmente. Passados 25 anos, ele sustenta haver, além das reconhecidas habilidades lingüística e lógico-matemática, outras seis formas de inteligência: espacial (mais presente em navegantes e engenheiros); corporal-cinestésica (desenvolvida em atletas ou dançarinos); interpessoal (representada pela capacidade de compreensão dos sentimentos do outro); intrapessoal (expressa pelo autoconhecimento); naturalística (referente à relação da pessoa com a natureza) e musical. Professor da Universidade Harvard, Gardner é considerado um dos “demolidores” do conceito de quociente de inteligência (QI). Suas teorias, entretanto, têm pequena aceitação entre neurobiólogos. Resenha publicada recentemente na revista Educational Psychologist menciona a insuficiência de comprovação empírica. A possibilidade de medir a inteligência pela aplicação de testes simples parece ser um critério para validação das hipóteses.

Artigo publicado em 2004 pela revista Nature Neuroscience relacionava o desenvolvimento de competências a fatores socioeconômicos e a aspectos biológicos como dimensões do cérebro, duração da memória de curto prazo, velocidade de transmissão sináptica e metabolismo neuronal. No mesmo ano foi observada correlação entre o QI de bebês e a velocidade de crescimento do córtex cerebral. Tais descobertas não parecem perturbar o prolífico Gardner, que tem sua teoria aplicada com eficácia em escolas de todo o mundo. Nesta entrevista, ele declara-se mais interessado em estimular virtudes e talentos humanos do que em medi-los.

Mente&Cérebro: O senhor poderia resumir sua teoria da inteligência múltipla?

Howard Gardner: A visão tradicional a respeito da inteligência, que prevalece há centenas de anos, sustenta que em nosso cérebro existe um único computador, de capacidade muito geral. Quando funciona bem, a pessoa é inteligente e capaz de destacar-se em qualquer atividade. Se o desempenho for apenas razoável, o portador consegue resultado satisfatório em diversas circunstâncias. Mas se funcionar mal, o dono desse equipamento é um tolo, incapaz de estabelecer relações coe-rentes. Discordo disso tudo. Creio que a relação cérebro-mente pode ser descrita como um conjunto de oito ou nove sistemas distintos de elaborações fundamentais. Um deles pode atuar muito bem enquanto outro apresenta rendimento mediano e um terceiro funciona mal. Qualquer observador admitiria que na patologia há fenômenos que sustentam minha hipótese. Existem pessoas dotadas de grande talento artístico ou com habilidade para números e xadrez que, no entanto, são incapazes de compreender os outros e manter relacionamentos. A medicina oficial as considera casos patológicos, mas eu sustento que esses fenômenos são normais.

M&C: Vejamos um exemplo: como o senhor avalia a sua mente?

Gardner: Com base na teoria da inteligência múltipla eu sou, certamente, do tipo lingüístico-musical. Minha lógica é boa, mas jamais fará de mim um matemático. Fisicamente não sou nada especial e sou medíocre na inteligência espacial, mas me viro bem com um mapa. A inteligência interpessoal, diferentemente de outras, pode ser melhorada. Assim, espero continuar aprimorando minha capacidade de compreender outros.

M&C:Uma das principais objeções à sua teoria é a impossibilidade de medir as oito formas de inteligência.

Gardner: Se eu estivesse de fora observando meu trabalho, é provável que dissesse a mesma coisa. Trata-se de uma crítica bem razoável. Mas estou certo de que, se minhas idéias forem um dia levadas a sério, algum pesquisador desenvolverá instrumentos capazes de medir as várias inteligências. Mas para mim isso jamais foi uma prioridade. Não me dediquei ao tema. Robert J. Sternberg [pai da teoria “triárquica”, segundo a qual a inteligência se manifesta em três modalidades distintas: analítica, criativa e prática] tentou fazê-lo no âmbito de sua pesquisa, mas os resultados não me pareceram muito convincentes. Posso deduzir que ou suas teorias são equivocadas, ou medir as diversas inteligências humanas é tarefa mais complicada do que parece.

M&C: Mas a psicometria clássica faz medições. As pontuações que a pessoa obtém nos diversos testes verbais e lógicos estão correlacionadas, o que sugere a existência de uma inteligência “geral”. O QI está vinculado a diversos parâmetros biológicos. O que o senhor pensa sobre isso?

Gardner: Levo a sério essa questão e, se tivesse de reescrever meu livro sobre a inteligência múltipla, trataria mais do tema. Mas há fenômenos que esses estudos não explicam, em particular as razões que nos tornam tão diferentes uns dos outros. Um cientista pode passar a vida tentando acumular provas da existência de uma inteligência geral, mostrando como esta se correlaciona a este ou aquele fator; ou pode tentar explicar por que as pessoas têm habilidades tão diversas, quais as causas dessas diferenças e a que servem.

M&C: Mas as duas coisas não se contradizem. Podemos fazer uma analogia com os músculos do corpo, que se desenvolvem de forma desigual em cada pessoa. Isso não impede que algumas pessoas possuam – graças à combinação de genes, alimentação e exercícios físicos – estrutura muscular bem mais desenvolvida e potente que outras. Nem todos podem se tornar um Schwarzenegger. O que vale para os músculos não poderia valer para os neurônios?

Gardner: Tenho a mente aberta em relação à questão. Caso eu viva mais 30 ou 40 anos e a ciência identifique uma propriedade biológica fundamental – por exemplo, a velocidade de transmissão nervosa ou a plasticidade das conexões entre os neurônios – que explique uma parte maior ou menor das diferenças de inteligência, estarei pronto a rever meu pensamento. Mas isso não esclarece as razões para alguém ser mais capaz em certos setores que em outros. A resposta pode ser simplesmente que a vida humana não é infinita, e, portanto, não podemos ser excelentes em tudo. Penso que a explicação mais plausível esteja na predisposição genética e nas experiências infantis capazes de “estimular” e potencializar um dos computadores mentais de que dispomos. Um gênio poliédrico como Leonardo da Vinci é exceção, e não regra. E devemos explicar ainda a origem das diferenças nos perfis e talentos.

M&C: O senhor usa os termos “inteligência” e “talento” como sinônimos. Mas, para a maioria das pessoas, esses termos se referem a conceitos bem distintos.

Gardner: De fato. Mas, ao privilegiar o termo “inteligências” em vez de “talentos” ou “habilidades”, fiz um movimento retórico importante. Todos reconhecem a existência de diferentes talentos e habilidades humanas, e provavelmente eu não estaria aqui sendo entrevistado se tivesse usado essas palavras em vez de “inteligências”.

M&C: O que o senhor entende por inteligência?

Gardner: O ponto é que a definição de inteligência não é óbvia. Tra
ta-se de algo debatido por estudiosos e leigos. Segundo minha análise, os pesquisadores orientados pela cultura escolástica se concentraram nas habilidades verbais e lógicas, denominando as “inteligência”. É uma questão de retórica e lingüística. Não é “a” resposta correta. As pessoas com bom desempenho em línguas e lógica são, em geral, bons alunos, e nós as classificamos inteligentes. Nada tenho contra isso, desde que se fale em “inteligência escolástica”. Se, porém, sairmos da escola e estudarmos a inteligência de arquitetos, bailarinos ou comerciantes, descobriremos que podem ser excelentes naquilo que fazem, independentemente do desempenho escolar. Se os homens de negócio tivessem inventado o QI, a avaliação mediria, provavelmente, atitude em relação a risco, iniciativa e capacidade de vender. Nenhuma dessas coisas é medida pelos testes clássicos de inteligência.

M&C: Mas isso não ameaça relativizar o conceito de inteligência, esvaziando-o de seu significado intuitivo e científico?

Gardner: A ciência não deve, necessariamente, reforçar o senso comum, muitas vezes equivocado. Minhas pesquisas, além disso, atingem o campo das ciências sociais, diferentes da física ou da biologia, justamente porque devem sempre elucidar os próprios conceitos, propondo definições novas e mais adequadas. O filósofo Bertrand Russell disse certa vez que as idéias de todos os grandes pensadores podem ser resumidas em uma ou duas frases: o que os torna notáveis é a estrutura argumentativa que criaram para sustentar as afirmações e defendê-las das críticas. Se eu transmitir às pessoas apenas o conceito de que, além da escolástica, existem outras formas de inteligência, já será um enorme progresso. Creio que já alcancei algo nesse sentido. Mas Daniel Goleman conseguiu ainda mais, pois seu conceito de “inteligência emocional” tem apelo intuitivo, aludindo às experiências do cotidiano, sobretudo no mundo do trabalho. O gerente de uma empresa pode ter a mente perfeitamente organizada e revelar-se um desastre para motivar funcionários. A diferença entre nossas pesquisas é que estabeleci oito critérios a serem atendidos por uma suposta inteligência.

M&C: Há poucos anos o senhor identificou a existência de uma oitava inteligência, a naturalística. Pensa em acrescentar outras?

Gardner: Escrevi bastante a respeito da possibilidade de uma inteligência moral. Até há pouco tempo era cético quanto a isso, mas mudei de idéia depois de algumas leituras, em particular o livro escrito pelos neurobiólogos Jean-Pierre Changeaux e Antonio Damásio. Avalio a possibilidade de uma inteligência existencial, mas o problema é saber se é diferente de qualquer outra capacidade filosófica. Se não for, poderá ser explicada pelas inteligências lingüística e lógica. As provas nesse sentido ainda não são conclusivas.

M&C:Haveria em nosso DNA genes que a seleção natural favoreceu, proporcionando assim a inteligência naturalística ou a existencial?

Gardner: Certamente. Há genes para a inteligência naturalística e, provavelmente, para todas as formas de inteligência que menciono. Creio, porém, que cada um desses tipos possui subcomponentes. Na inteligência lingüística, por exemplo, não haveria só um gene, mas centenas. Alguns deles podem predispor às línguas estrangeiras, outros, à poesia e assim por diante. Mas se dissesse em meus livros que há 500 inteligências, ninguém me levaria a sério.

M&C: Falemos de seu último livro, Five minds for the future. O senhor descreve com precisão as cinco mentes que devemos desenvolver para viver na futura sociedade: sintética, respeitosa, ética, disciplinada e criativa. Que mentes não deveríamos cultivar?

Gardner: Ninguém me havia feito esta pergunta até agora. No livro falo, sobretudo, do mau uso que se pode fazer de cada tipo de mente. Temo particularmente e penso que não deveríamos cultivar a mente fundamentalista, aquela determinada a não mudar de idéia sobre as coisas. É uma postura muito mais comum do que pensamos. Basta perguntar a alguém se recentemente mudou de idéia a respeito de algo. Provavelmente dirá que sim, mas se pedirmos um exemplo, terá dificuldade em responder. Sem perceber, nos aferramos facilmente a nossas convicções.

M&C: Permita-me uma provocação. O que o senhor diz é sem dúvida correto. Qualquer um concordaria que é bom ser mais disciplinado, respeitoso, razoável e assim por diante. Qual é, assim, a novidade da mensagem de seu livro?

Gardner: É uma pergunta legítima. Objetivamente, há aspectos da natureza humana sobre os quais é difícil hoje dizer algo de original. Esses temas, entretanto, devem ser reapresentados para cada nova geração de forma que lhe pareçam compreensíveis e sensatos. Creio ser importante fazer isso, sobretudo porque hoje se fala da mente quase que apenas do ponto de vista cognitivo. Em vez disso, eu falo de respeito, ética e educação em um sentido mais clássico. Não deveria valer apenas a nota tirada na prova de matemática, mas o tipo de ser humano que nos revelamos. Em segundo lugar, é verdade que o respeito sempre foi considerado qualidade desejável, mas na era da globalização, num mundo em que os povos podem facilmente se destruir, trata-se de algo indispensável.

M&C: Por qual de seus estudos o senhor gostaria de ser lembrado no futuro?

Gardner: Sou conhecido como “o fulano da bizarra idéia sobre inteligência”, mas gostaria que as pessoas recordassem a pesquisa sobre ética profissional que realizo há 15 anos e que se tornou um estudo sobre a confiança. Não sei se no futuro me darão crédito em relação a esse trabalho, mas não importa, pois estou totalmente convencido de que é indispensável. O domínio cultural exercido pelo mercado nos Estados Unidos está arruinando o que há de mais precioso no ser humano. Os americanos acabarão por destruir a si mesmos e provavelmente ao mundo, pois ignoram qualquer aspecto da vida que não seja comercializável. E porque pensam que, se fizerem uma prece todo domingo de manhã, terão indulto para arruinar qualquer habitante do planeta nos outros seis dias e meio. Estudando a ética e o sentimento de confiança, gostaria de chamar atenção para coisas antes importantes que hoje não têm mais valor. De fato, a pergunta que você me fez é equivocada. A correta seria: por que as coisas de que falo, que todos deveriam saber, foram esquecidas?


OITO CRITÉRIOS PARA DEFINIR TALENTOS

1. Ser isolável em casos de lesão cerebral;

2. Ser desenvolvida em autistas “eruditos”, prodígios ou indivíduos excepcionais;

3. Basear-se em uma (ou mais) série de operações identificáveis;

4. Atingir níveis diversos de competência identificáveis em todo indivíduo;

5. Ter história evolutiva plausível;

6. Ser apoiada por dados da psicologia experimental;

7. Ser apoiada por provas de psicometria;

8. Ser codificável em um sistema de símbolos.

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Daniele Fanelli é jornalista científica – Tradução de Doris Cavallari

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