Polêmica na academia paulista

Transcrevo, abaixo, matéria publicada na VEJA: http://veja.abril.com.br/160507/p_052.shtml.

Só faltou incluir a UNICAMP no artigo…

No final de março deste ano, os alunos da UNICAMP invadiram o prédio da Reitoria, tomaram o Gabinete do Reitor e as demais instalações da Reitoria, e, no dia seguinte, a sala do Conselho Universitário. Ficaram lá durante quase uma semana. O Reitor foi literalmente exilado. A Reitoria ganhou uma liminar de reintegração de posse e… professores da universidade foram à Justiça para pedir que a ordem de reintegração fosse revogada…

Havia reclamações específicas por parte dos alunos — mas sobre elas se sobrepôs a exigência de que o governador Serra cessasse a "intervenção" na universidade, revogando os decretos baixados desde o início do ano que afetam o ensino superior. A Reitoria, no início, disse que algumas exigências dos alunos não poderiam ser atendidas — e que essa posição era inegociável (e.g., exoneração da coordenadora da moradia estudantil). Depois cedeu tudo, concordando até com a saída da infeliz, cuja permanência havia sido considerada inegociável.

Como se vê, quando a Reitoria está invadida e nem o Reitor pode pôr os pés lá, a universidade facilmente abre mão de sua autonomia… Certamente, os alunos invasores não terão deixado de perceber isso. Na próxima invasão (e a da USP é a invasão seguinte, ainda que noutra universidade do sistema) aumentarão suas apostas.

Em Taipei, 12 de maio de 2007

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http://veja.abril.com.br/160507/p_052.shtml 

VEJA – Edição 2008 – 16 de maio de 2007

No caminho certo

O governador Serra enfrenta o atraso que ainda reina na USP

Camila Pereira

Vandalismo na invasão à reitoria: ação corporativa contra a transparência

O obscurantismo abomina o conhecimento. A queima de livros durante a Inquisição, a depredação, no ano passado, de um centro de pesquisas da companhia Aracruz por uma horda de 2 000 militantes teleguiada pelo Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra (MST). Os exemplos atravessam eras e continentes. O obscurantismo pode tornar-se pior quando combinado com a praga do corporativismo. Foi o que ocorreu no último dia 3 na Universidade de São Paulo, a maior instituição de ensino superior e pesquisa do país. Um bando de 300 alunos invadiu o prédio da reitoria, depredou suas dependências e ocupou o gabinete da reitora Suely Vilela. Os manifestantes passaram a usar internet e telefone livremente para divulgar seu protesto, que, na última sexta- feira, já durava uma semana. Qual é a razão para tanto vandalismo? Entre reivindicações oportunistas, como a melhor conservação dos prédios da universidade, os depredadores de prédios públicos querem impedir que o governador José Serra exija mais transparência dos gastos das três universidades estaduais — além da USP, a Unesp e a Unicamp.

A queda-de-braço começou porque Serra resolveu incluir as contas das três universidades no Sistema Integrado de Administração Financeira para Estados e Municípios (Siafem). O sistema monitora a movimentação do caixa de órgãos públicos — ou seja, permite aos contribuintes acompanhar o uso de seu dinheiro e, aos administradores, avaliar a eficiência da gestão financeira. A medida, mais que salutar, foi vista como um ataque à autonomia universitária pelos sindicatos de professores e de funcionários da USP, as entidades que estão por trás da manifestação. Trata-se de uma desculpa esfarrapada. O Judiciário e o Legislativo, poderes independentes, também recebem recursos do governo estadual. E também estão no Siafem. Por que as universidades mereceriam tratamento diferenciado? "Em nome da autonomia, criou-se o mito no Brasil de que universidades estão acima de qualquer fiscalização", afirma o economista Gustavo Ioschpe. "É preciso mostrar como se gasta cada centavo."

No caso, não se trata de centavos: o orçamento executado da USP em 2005 foi de 1,9 bilhão de reais. O gasto anual por aluno anda na casa dos 12 000 dólares. Esse valor, em relação ao PIB per capita do estado de São Paulo, é quatro vezes maior do que o custo por estudante nas universidades dos ricos países da OCDE. A produtividade não acompanha esse gasto. Apesar da excelência nas áreas de pesquisa e pós-graduação, a USP ainda tem desempenho fraco em critérios acadêmicos importantes (veja o quadro). O governador Serra cumpre seu papel de administrador ao enfrentar esses problemas e resistir às pressões corporativas. Age com a autoridade de quem foi presidente da União Nacional dos Estudantes e teve longa carreira como professor em instituições como a própria Unicamp e Princeton, nos EUA. Não é ele quem quer destruir a autonomia da USP.

QUADRO

Alto Custo, Baixa Produtividade

* O custo anual de um aluno da USP é quatro vezes maior do que nas universidades dos países ricos

* Professores ou alunos da USP jamais ganharam um Prêmio Nobel. A Universidade de Buenos Aires tem cinco.

* Na USP o ensino é gratuito. Na Coréia do Sul, e até na China comunista, a universidade é paga.

* Quando se mede a repercussão da publicação de textos científicos, a USP fica em 266º lugar numa lista de 287 instituições. 

Educaçao no Norte e no Sul

Participei, na semana passada, de mais um encontro internacional sobre escolas inovadoras – em Seattle, WA, EUA. Representantes de todo mundo estavam presentes, especialmente do Norte: América do Norte (EUA, Canadá, México), da Europa (que também fica ao Norte), e do Norte da Ásia  (Japão, Coréia do Sul, Taiwan, Hong Kong). Coloco no Norte os países que estão acima do Equador. Havia, também, representantes do Sul, entre os quais Brasil, Chile e Austrália.

Dentro de menos de duas semanas parto, pelo quarto ano seguido, para Taiwan para uma série de conferências e palestras, exatamente sobre essa temática (escolas inovadoras). Farei até mesmo uma conferência no lançamento da Escola Inovadora de Kaoshiung, no sul da ilha.

Impressiona-me cada vez mais um problema que, ao tempo que me parece importante, é pouco percebido e até mesmo ignorado.

Alunos de escolas de Hong Kong, Taiwan, Cingapura e Coréia do Sul em geral se saem muito bem nos testes internacionais aplicados a alunos no final do Ensino Médio, como o PISA, da OCDE/OECD. Alunos da Finlândia se saem melhor ainda: em regra são os primeiros em todas as categorias (linguagem, matemática, ciências são as principais).

O problema que me impressiona é o seguinte: o alto nível de desempenho dos alunos desses países em testes internacionais coloca um sério risco para esses países: o de não contemplar seriamente a possibilidade de mudanças suficientemente radicais em seus sistemas educacionais. Quanto mais alto é o nível da qualidade atribuído a um dado sistema educacional, tanto menor é a disposição, por parte daqueles envolvidos nele, de contemplar mudanças radicais nesse sistema.

A questão é sempre: "If it ain’t broken, don’t try to fix it" – se não está quebrado, não tente consertar… No Brasil, país com mais tradição em futebol do que em engenharia ou "bricolage", se diz: "Em time que está ganhando não se mexe". Se qualquer equipamento ou sistema está funcionando bem, tentar consertá-lo é um risco muito grande: o sistema pode ficar pior… Quanto mais se percebe um sistema como próximo da perfeição, menos se sente a necessidade de mudá-lo radicalmente.

A menos que o sistema seja percebido como absolutamente perfeito, algo raro, sempre é possível mudá-lo – melhorá-lo, aperfeiçoá-lo. Mas a mudança, nesse caso, em regra não é radical: ela é "piecemeal", "incremental", aos pedacinhos, gradual… Karl Popper era defensor desse tipo de mudança na ordem social, que ele chamava de "piecemeal social engineering". Conservador que era, Popper era avesso a revoluções, embora admitisse mudanças que não colocassem em risco as conquistas já feitas.

Por que considero essa atitude um problema na área da educação para esses países (e também para qualquer país desenvolvido, como o restante da Europa Ocidental, os Estados Unidos e o Canadá)?

Antes de responder, para a área da educação, analisemos algumas outras áreas.
 
Houve época em que se entregava correspondência através do "Pony Express". Os melhores cavaleiros e os melhores cavalos eram usados nesse sistema. Mas o sistema tem um limite. É possível melhorá-lo um pouco, encontrando cavalos mais fortes e velozes e cavaleiros mais hábeis. Mas há um limite na capacidade de um e de outro: cavalos não conseguem correr além de uma certa velocidade. Quando se alcança esse limite, não adianta ficar perdendo tempo com pequenas e graduais melhorias no sistema: chegou a hora de recomeçar do zero.

Um outro exemplo é o barco a vela Clipper. Ele era quase perfeito – na realidade, perfeito, aos olhos de seus criadores. Mas ele tinha uma limitação séria: se não houvesse vento, ele não andava… Não fazia sentido tentar melhorá-lo aqui e ali, em pequenos aspectos. O que era necessário era um novo tipo de navio – que apareceu na forma do  barco / navio a vapor.

(Peguei esses dois exemplos de uma excelente palestra de John-West Burnham, no encontro mencionado).
 
No início do século XIX havia companhias poderosas que se especializavam na venda de gelo para refrigerar alimentos. Não havia refrigeradores elétricos e nem mesmo a gás. Os alimentos eram refrigerados numa com dois compartimentos com porta: embaixo se colocavam os alimentos, em cima se colocava gelo. Esses proto-refrigeradores eram denominados (com pouca criatividade) "ice boxes", caixas de gelo. Funcionavam bem – no inverno, quando havia gelo… No verão, eram um problema – mas um problema que o mercado logo se encarregou de resolver. Nos meses quentes, nos Estados Unidos, essas empresas iam até o norte do Canadá, às vezes próximo da Groelândia, e cortavam grandes blocos de gelo para trazê-los até os Estados Unidos e vendê-los para os possuidores de ice boxes. Toda uma tecnologia de extração do gelo, de isolamento térmico, e de transporte evolui ao redor desse comércio, que foi sendo aperfeiçoado ao longo do termo, a ponto de permitir às empresas que exploravam essa fatia do mercado a exportar gelo até para a Índia. Apenas metade dos blocos de gelo chegavam até lá, mas mesmo assim o empreendimento era lucrativo. Pequenas melhorias aqui e ali permitiam que o negócio florescesse e crescesse. Até, naturalmente, que surgiu a eletricidade e os refrigeradores elétricos que refrigeravam a gás. Os donos das empresas extratoras de gelo não acharam que esse outro negócio fosse matar o negócio deles. Mas matou – enquanto eles tentavam, desesperadamente, melhorar, ou aperfeiçoar, seus métodos de extração do gelo, de isolamento térmico, de transporte… E eles quebraram todos. Morreram, como empresas, porque não souberam mudar na hora certa.

E as máquinas de escrever? As empresas que lideraram o mercado de máquinas de escrever quando a tecnologia era mecânica perderam a liderança quando máquinas de escrever elétricas apareceram. As empresas que lideraram o mercado de máquinas de escrever elétricas perderam a liderança quando as máquinas de escrever eletrônicas (com "margaridas") apareceram. E as empresas que lideraram o mercado de máquinas de escrever eletrônicas não perceberam que os computadores pessoais iriam matar o seu negócio…

E a IBM? Era a maior fabricante de computadores de grande porte (os únicos que havia). Adaptou-se até bem quando o mercado se interessou por computadores de médio porte. Em 1977 apareceram os primeiros computadores pessoais, da Apple, da Radio Shack, da Commodore. A IBM achou que eram meros brinquedos, que não mereciam sua atenção – afinal de contas, ela detinha 75% do mercado de computadores e possuía mais de 400 mil empregados. Três anos depois, começou a ter dúvidas e resolveu fazer um microcomputador, lançado em 1981 – o IBM PC, que virou padrão. Esse computador, que virou sucesso nas mãos da Compaq e outros fabricantes que o clonaram, porque tinha projeto aberto, com partes de mercado, e um sistema operacional feito por outra empresa, a Microsoft, foi colocado no mercado pela IBM sem que ela acreditasse nele! Por não acreditar nele acabou criando concorrentes que quase a mataram: a Microsoft, a Intel, a Compaq, depois a Dell…  Por muitos anos a IBM ainda defendeu a tese de que o PC não seria nada mais do que um terminal inteligente para computadores de grande porte. Quando percebeu seu erro, quase quebrou. Fez "downsize", reduziu o tamanho; fez "reengineering", mudou de negócio… Acabou sobrevivendo, mas como uma empresa menor e totalmente diferente.

Que relevância tem tudo isso para a tese que enunciei no início?

A relevância é a seguinte, e pode ser expressa em duas teses: primeiro, o sucesso é, freqüentemente, o principal fator que impede as instituições de perceber que chegou a hora de mudar; segundo, a melhor hora de mudar é quando as coisas estão indo bem e a mudança pode ser planejada com calma e com cuidado.

Tenho conversado muito com educadores da Finlândia e da Ásia que estão começando a perceber que o sucesso de seus sistemas educacionais nos testes internacionais lhes dá uma sensação de segurança que, entretanto, é uma sensação de falsa segurança… Seus sistemas educacionais estão tendo desempenho superior na formação de pessoas – mas na formação de pessoas para uma realidade que está rapidamente desaparecendo! A Finlândia e a Ásia chegam às melhores posições num sistema educacional projetado e construído para a Segunda Onda (Toffler) – quando várias partes do mundo já fizeram avanços significativos na Terceira Onda! Os alunos desses países são inteligentes e disciplinados, fazem o que deles se espera, são bons no domínio da língua materna, talvez de uma língua estrangeira, são muito bons em matemática e ciências – quando o mercado começa a buscar gente que é criativa, que convive bem com ambigüidade, que está disposta a assumir riscos, que sabe se adaptar a mudanças, improvisar,ou "think out of the box,"que sabe negociar objetivos, resolver conflitos, trabalhar colaborativamente em equipes, administrar o tempo, liderar, motivar, inspirar… No momento em que a Finlândia e a Ásia chegam ao primeiro lugar no campeonato, alcançando níveis excepcionais de desempenho em linguagem, matemática, ciências, percebem que as regras do jogo mudaram…

E nós, no Brasil, dedicamos um enorme esforço para alcançar a Coréia do Sul… Convidamos educadores coreanos para vir ao Brasil nos explicar qual é o segredo… Quando os educadores coreanos mais progressistas estão tentanto aprender com o "jeitinho" brasileiro, com a improvisação brasileira, com a criatividade brasileira….

O sucesso, em um determinado estágio do desenvolvimento tecnolológico, não raro, é o maior obstáculo à percepção de que é necessário não só mudar, mas mudar radicalmente, reinventar o negócio, mudar os pressupostos…
 
Há países bem sucedidos que hoje começam a olhar para o Brasil – porque percebem que a melhor hora de mudar é quando as coisas vão indo bem e não querem que seu sucesso os anestesie quanto à necessidade de continuar mudando…

E nós, continuamos a olhar para trás, não para a frente, e ficamos tentando alcançar a Coréia, em vez de usar as nossas competências mais importantes e "leapfrog", dar um salto por cima de estágios que ainda não cumprimos – mas que não há mais porque devamos cumpri-los.

Em Salto, 28 de abril de 2007

Entrevista ao Site MiniWeb (2002)

Entrevista com Eduardo Chaves

Tema: Tecnologia aplicada a Educação – Por Arlete Embacher

Transcrito de:
http://www.miniweb.com.br/atualidade/entrevistas/eduardo_chaves/prof_eduardochaves.html

MINIWEB -O Sr. vem atuando na área de Tecnologia Aplicada à Educação há 20 anos, desde que, em 1981, enquanto Diretor da Faculdade de Educação da Universidade Estadual de Campinas (UNICAMP), o Sr. tomou a iniciativa pioneira de criar, dentro da Universidade, o Núcleo de Informática Aplicada à Educação (NIED), primeiro núcleo de pesquisa verdadeiramente interdisciplinar a ser oficialmente criado nessa área dentro da Universidade brasileira. Miniweb pergunta: Como criador do NIED, como o Senhor avalia a evolução que o Núcleo teve dentro da Unicamp?

EDUARDO CHAVES: É difícil fazer o que você pede porque não venho acompanhando de perto o trabalho do NIED desde que deixei sua coordenação em 1986 para ir trabalhar na Secretaria da Educação do Estado de São Paulo, dirigindo o Centro de Informações Educacionais. Contudo, posso que garantir que, pela qualidade dos profissionais que ali trabalham (Armando e Ann Valente, Bete Brisola [que em priscas eras foi minha aluna!] e outros), a qualidade deve ser muito boa.

Creio estar em condições de fazer uma crítica, que não se aplica exclusivamente ao NIED mas a toda a área da Educação da UNICAMP: a de que existe nessa área um grande preconceito contra escolas particulares e a iniciativa privada em geral. Na minha opinião, uma Universidade, ainda que pública, não pode atender apenas as escolas públicas, como se não existissem escolas particulares. Outras áreas da UNICAMP (as engenharias e a física, por exemplo) não demonstram preconceito contra a iniciativa privada, mas na educação ele chega a ser gritante.

MINIWEB – Em seu livro: Multimídia: Conceituação, Aplicações e Tecnologia (People-1992), o Sr. defende a tese de que as escolas não podem ficar à margem do desenvolvimento tecnológico que permeia o restante da sociedade, mas precisam urgentemente incorporar essa tecnologia ao processo de ensino e aprendizagem, mas de forma consciente e responsável. Miniweb pergunta: Como o senhor orientaria a incorporação da tecnologia nas escolas onde a necessidade faz-se de fato imprescindível face à sua clientela, como é o caso das escolas públicas?

EDUARDO CHAVES – Minha opinião a esse respeito vem evoluindo nesses mais de dez anos que se passaram desde a publicação de meu livro sobre Multimídia. Hoje estou mais preocupado com o fato de que as escolas atuais, tanto as públicas como as privadas, e quase sem exceção, se alicerçam numa visão de educação e do papel da escola que foi tornada totalmente ultrapassada e obsoleta pela evolução da sociedade. Na Sociedade da Informação, em que vivemos, em que a tecnologia desempenha um papel fundamental, não faz mais sentido ver a educação como um processo de transmissão de informações — a herança cultural da sociedade ou mesmo da humanidade — de uma geração para a outra. Essa herança está aí disponível em bilhões de livros e revistas, em outro tanto de discos e fitas, e online na Internet. Temos excesso, não carência de informações. Não faz mais sentido — e isso em decorrência da evolução social, na qual a tecnologia teve um papel preponderante — a escola tornar o problema de excesso de informação ainda mais grave, transmitindo mais informações aos alunos — informações não raro mais desatualizadas do que as que ele encontra nos meios de comunicação.

Diante desse quadro, simplesmente introduzir tecnologia na escola, mantendo essa visão da educação e do papel da escola, não resolve o problema e pode até piorá-lo. Se estamos indo na direção errada, mas estamos a pé, pode demorar muito para que encontremos um penhasco — e sempre conseguiremos parar, antes de cair. Se estamos indo na direção errada e recebemos tecnologia sofisticada para nos movimentar (como um carro de Formula 1), chegaremos muito mais rápido ao penhasco — e poderemos não conseguir parar o carro, encontrando desastre.

Assim, antes de pensarmos em introduzir tecnologia na escola, precisamos rever nossa visão da educação e reinventar a escola para que promova essa nova visão.

Não vou entrar em detalhes aqui, mas defendo uma visão de educação como desenvolvimento humano e concebo o papel da escola como uma contribuição para a construção, pelos alunos, de competências e habilidades que os capacitem a se desenvolver no máximo de suas potencialidades. Essa visão é promovida pelo Instituto Ayrton Senna e se deve, em última instância, ao trabalho de órgãos da ONU, como a UNESCO e o PNUD.

Só vale a pena discutir o papel da tecnologia na escola quando essas questões básicas e antecedentes estiverem adequadamente equacionadas — ou, no mínimo, dada a urgência, simultaneamente com o equacionamento dessas questões.

MINIWEB – O que é Mindware?

EDUARDO CHAVESMindware é o nome fantasia que adotei para a minha empresa (MindWare – EduTec.Net). É uma marca registrade de minha propriedade. 

Por que a escolhi?

Fala-se muito, em relação ao computador, que a tecnologia consiste de dois componentes básicos: hardware e software. O hardware é o equipamento em si e o software é o conjunto de instruções que o faz se comportar desta ou daquela maneira — o conjunto de programas que faz com que o hardware nos faça algo de útil.

Isto é correto — até aonde vai. Mas falta alguma coisa. O que é que esse conjunto de hardware e de software vai estar fazendo? Qual é a utilidade a que ele vai servir? Que problemas vai estar efetivamente resolvendo? Como pode ser ele utilizado como uma extensão de nossa capacidade de pensar e de resolver problemas? É aqui que criei o termo "Mindware". Alguns autores falam em "Peopleware" ou "Humanware". Mas como o que importa aqui, em relação ao ser humano, não é seu corpo (nesse caso teríamos "bodyware" ou "brainware"), mas, sim, a sua mente, o termo "Mindware" se refere a todo tipo de reflexão que visa a encontrar, para a tecnologia, utilizações que ampliem e estendam nossos poderes (certamente mentais) de resolução de problemas, permitindo que a tecnologia, em vez de ser uma solução em busca de problemas, nos ajude a efetivamente resolver os problemas que realmente temos. Em especial na educação.

No site da Mindware (mencionado abaixo) digo o seguinte sobre o conceito
"Mindware":

Mindware, entretanto, é bem mais do que tudo isso [hardware e software]: é a inteligência que permite que o ser humano aprenda, pense, imagine coisas e depois as crie. Entre as coisas que o ser humano inventou (imaginou e criou) estão ferramentas que estendem sua força física, sua habilidade locomotora, sua capacidade sensorial, e mesmo, como no caso do computador, seus poderes mentais. (É bom que não nos esqueçamos de que, a menos que sejamos anjos, não há mindware sem bodyware, e especialmente sem brainware…).

Por aí se vê que mindware não é um componente do computador: é um componente do ser humano que criou e que usa o computador. Sem mindware, não teria sido criado o computador; sem mindware, ele não pode ser colocado a bom uso — especialmente na educação.

A finalidade da Mindware (agora a empresa) é ajudar as pessoas a usar bem o computador. Por isso, a Mindware é educação, a Mindware é treinamento, a Mindware é sinônimo da inteligência que nos permite usar o computador para aprender e para a pensar crítica e criativamente.

Por isso, escolhi como moto para a Mindware: ‘Mais importante do que aprender informática é usar a informática para aprender’.

MINIWEB – Como Consultor do Instituto Ayrton Senna no Programa "Sua Escola a 2000 por Hora", o Sr. Publicou um artigo sobre: "Educação Orientada para Competências" e "Currículo Centrado em Problemas". O Sr poderia falar para os internautas da Miniweb sobre o papel do professor em uma Educação orientada para competências e, ainda, sobre a importância dos Parâmetros Curriculares Nacionais em um currículo centrado em problemas.

EDUARDO CHAVES – Um Currículo Centrado em Problemas é um currículo voltado para o construção das competências e habilidades requeridas para resolver esses problemas. Esse currículo deve ser desenvolvido através de uma metodologia que hoje se denomina de Pedagogia de Projetos de Aprendizagem. Darei, a seguir, algumas características dessa metodologia, extraídas de um livro que estou terminando para o Instituto Ayrton Senna.

A proposta de que a aprendizagem escolar se faça predominantemente por projetos de aprendizagem – a pedagogia de projetos – procura se pautar pelos seguintes princípios:

· A pedagogia de projetos de aprendizagem vê a educação, e, portanto, a aprendizagem como o principal mecanismo pelo qual o ser humano projeta e constrói a sua própria vida, e, portanto, como algo que lhe é natural e intrinsecamente motivador, procurando, assim, evitar que a criança seja vista como um ser essencialmente refratário à aprendizagem, que precisa, por isso, ser obrigado a aprender através de mecanismos artificiais de recompensas e punições que agem como motivadores externos;

· A pedagogia de projetos de aprendizagem incentiva a criança a explorar e a investigar seus interesses – as coisas que ela gosta de fazer e que gostaria de aprender – e atribui ao professor a responsabilidade de encontrar maneiras de, a partir desses interesses, tornar a atividade da criança útil no desenvolvimento das competências e habilidades básicas necessárias para que ela se torne capaz de sonhar seus próprios sonhos e transformá-los em realidade, procurando, assim, evitar que a criança seja obrigada a deixar de lado seus interesses, sua imaginação e sua criatividade ao entrar na escola;

· A pedagogia de projetos de aprendizagem procura evitar que a aprendizagem se torne algo passivo, e, por conseguinte, desinteressante, abrindo o maior espaço possível para o envolvimento ativo da criança, não só na concepção e na elaboração dos seus projetos de aprendizagem, mas também na sua implementação e avaliação, pois esse envolvimento não só a motiva (por estar relacionada com seus interesses) como torna a sua aprendizagem ativa e significativa – um real fazer mais do que um mero assimilar de informações;

· A pedagogia de projetos de aprendizagem procura, assim, estabelecer uma estreita relação entre a aprendizagem que acontece na escola e a vida e a experiência da criança, reconstituindo o vínculo entre seus processos cognitivos e seus processos vitais, pois os projetos que ela escolhe partem, inevitavelmente, de questões relacionadas à sua vida e à sua experiência que lhe parecem importantes e sobre as quais ela se interessa em aprender mais;

· A pedagogia de projetos de aprendizagem rejeita a noção de que todas as crianças devam aprender as mesmas coisas, pelos mesmos métodos, nos mesmos ritmos e nos mesmos momentos – independentemente de seus interesses, de suas aptidões, de seu estilo cognitivo, de seu estado de espírito, etc.;

· A pedagogia de projetos de aprendizagem não concentra, portanto, a atenção nos eventuais "pontos fracos" da criança, com o objetivo (que a escola tradicional compartilha com a linha de montagem da fábrica) de que todas as crianças estejam "padronizadas" (e, portanto, sejam intercambiáveis) ao final do processo de educação escolar, mas procura valorizar os interesses, as aptidões e os dons naturais de cada criança – ou seja, os seus pontos fortes;

· A pedagogia de projetos de aprendizagem busca, portanto, evitar que o objetivo do aprendizado escolar seja definido como a absorção, pela criança, de grandes quantidades de informação (fatos, conceitos, procedimentos, valores), e que o aprender da criança seja visto como o sub-produto esperado da ação do professor (algo que se espera que o professor faça, através do ensino, e que a criança apenas "sofre", em mais de um sentido), procurando caracterizar esse aprendizado como algo ativo, que a criança faz, à medida que desenvolve as competências e
habilidades que a tornam capaz de sonhar seus próprios sonhos e de transformá-los em realidade;

· A pedagogia de projetos de aprendizagem procura evitar que o aprender seja um procedimento totalmente artificial, difícil e doloroso, que começa quando a criança entra na escola e termina quando ela, com enorme alívio, deixa a escola, e se torne o que deve ser, a saber, um processo natural, agradável e contínuo, que começa muito antes de ela entrar na escola (com o nascimento, ou mesmo antes) e termina apenas com a morte, sendo o tempo de permanência da criança na escola apenas um momento privilegiado de sua vida em que ela pode se dedicar, total e exclusivamente, à tarefa de projetar o restante de sua vida e de se capacitar para construí-la.

MINIWEB – Qual o papel do professor nessa metodologia?

O papel dos professores, no contexto da metodologia de projetos de aprendizagem se assemelha mais ao de um orientador de estudos do que ao de ensinante, podendo até mesmo ser comparado, mutatis mutandis, com o papel de um orientador de estudos de pós-graduação.

Isso quer dizer que os professores deverão acompanhar a elaboração, a implementação e a avaliação dos projetos de aprendizagem dos alunos, procurando garantir, nesse processo, pelo menos o seguinte:

. Que os alunos consigam aprender e fazer aquilo que se propõe aprender e fazer em seus projetos;

. Que os alunos encontrem encontrem as informações necessárias para o desenvolvimento de seus projetos;

. Que os alunos desenvolvam, em cada projeto, competências e habilidades básicas importantes para o seu desenvolvimento como ser humano, dentro dos princípios organizadores dos Quatro Pilares.

Dessas três funções, a terceira é certamente a mais importante.

Todo projeto precisa ser planejado, redigido, colocado em linguagem e formato adequado, apresentado a outras pessoas (em forma escrita ou oral), defendido, especialmente se recursos escassos são necessários para sua implementação, e assim por diante. Nesse processo, os alunos podem desenvolver várias competências e habilidades importantes, nas áreas de planejamento, organização, coordenação, comunicação, argumentação, e outras. Por exemplo: os alunos deverão aprender a expor suas idéias com clareza (comunicação oral, lógica), a colocá-las em linguagem e formato adequado (comunicação escrita), a apresentá-los em público de forma persuasiva e convincente (retórica), a defender o uso de recursos comuns na sua implementação (lógica), a criar um site para o projeto (comunicação, domínio de tecnologia), a buscar informações e conhecimentos necessários para sua implementação (pesquisa), a planejar as atividades dentro do tempo disponível e a cumprir cronogramas (administração do tempo), a abrir mão de outras atividades desejáveis para concluir o projeto, conforme prioridades definidas (administração de prioridades), etc.

Essas competências e habilidades lhes serão muito mais importantes, em sua vida, do que as informações específicas que vierem a obter em decorrência da execução de seu projeto. É aqui que se situa a competência de pensar criticamente, com suas habilidades de analisar informações, verificar suas credenciais epistemológicas, separar o joio do trigo, discernir quais informações são relevantes para a ação, saber levá-las em consideração no momento de decidir, e assim por diante.

Se os alunos vão estar usando tecnologia para o planejamento e a execução de seus projetos (e quem duvida que o farão?), em uma aprendizagem verdadeiramente ativa, é inconcebível que os seus orientadores não tenham familiaridade com esse recurso. Basta dizer isso.

MINIWEB – O Sr. acredita nas Comunidades Virtuais como um espaço de crescimento pessoal para os indivíduos?

EDUARDO CHAVES – Acho que as Comunidades Virtuais são o melhor espaço disponível hoje em dia para o crescimento das pessoas. De longe.

MINIWEB – No aprendizado colaborativo, como o que acontece em EAD, Grupos de Discussão, e outros eventos online, o que se deve priorizar para que eles sejam bem sucedidos?

EDUARDO CHAVES – O aprendizado colaborativo parte do pressuposto — correto — que aprendemos melhor quando aprendemos aquilo que nos interessa através de um processo de troca de idéias, diálogo, discussão e crítica com outras pessoas que têm interesses semelhantes. O que se deve priorizar, portanto, para que esse aprendizado seja bem sucedido, são quatro coisas :

a) Temas que correspondam aos interesses (perguntas, dúvidas, problemas) de um bom número de pessoas;

b) Um bom número de pessoas interessadas em aprender através da discussão dessas questões;

c) Mecanismos de interação amistosos, fáceis de usar, que motivem e incentivem os participantes a se comunicar, em vez de se tornar obstáculos à comunicação;

d) Um coordenador ou animador da discussão — ou mais de um — que funcione como verdadeiro "pastor" dessa "comunidade virtual" — para usar uma imagem que me foi passada pelo Rev. Wilson Azevedo, ele próprio não só pastor presbiteriano de uma igreja convencional como um dos melhores pastores de comunidades virtuais de aprendizagem que conheço. Uma outra excelente pastora que conheço é a Profa. Lenise Garcia, da UnB. Procuro seguir nos seus passos.

MINIWEB– O Senhor pretende criar uma nova lista de discussão do tipo do EduTec.Net?

Na verdade, já criei… Estou com uma lista nova, desde o início de Agosto, patrocinada pelo Instituto Ayrton Senna. Chama-se 4pilares e discute o desenvolvimento de competências e habilidades como parte do processo de educação como desenvolvimento humano. Ela é aberta ao público em geral. Para entrar nela, basta ir ao site do Instituto Ayrton Senna (http://www.escola2000.org.br) e clicar na opção Grupos de Discussão, selecionando a opção 4pilares. Essa lista tem um site próprio em http://escola2000.net/4pilares/.

Estamos no momento com cerca de 80 participantes apenas, mas excelentes — e o número vem crescendo regularmente. [Cerca de mil participantes em 2007 – e a lista não é mais patrocinada pelo Instituto Ayrton Senna. EC]

Para saber mais sobre Prof.Eduardo Chaves acesse:

Entrevista com o Professor Eduardo Chaves. Professor de Filosofia, Universidade Estadual de Campinas, Campinas, SP. Diretor, Mindware Editora, Tecnologia Educacional e Consultoria, Campinas, SP, Brazil. Presidente, Associação Alumni/ae do Instituto José Manuel da Conceição, São Paulo, SP, Brazil. Membro do Conselho Diretor, Aliança Francesa de Campinas, Campinas, SP, escola pertencente à Alliance Française Mondiale. Consultor do Instituto Ayrton Senna no Programa "Sua Escola a 2000 por Hora.

SINOPSE
Entrevista com a Prof. Eduardo Chaves.

Citações
"Antes de pensarmos em introduzir tecnologia na escola, precisamos rever nossa visão da educação e reinventar a escola para que promova essa nova visão. "

Prof. Eduardo Chaves

*

"Na minha opinião, uma Universidade, ainda que pública, não pode atender apenas as escolas públicas, como se não existissem escolas particulares."

Prof. Eduardo Chaves

*

"As Comunidades Virtuais são o melhor espaço disponível hoje em dia para o crescimento das pessoas."

Prof. Eduardo Chaves

Escolas presumidamente bem sucedidas

Há uma série de teses e pressupostos no Editorial da Folha de 24/12/2006, que transcrevo abaixo, de que discordo veementemente. Vou me ater às discordâncias essenciais. Sinto parecer um estraga-prazeres – no caso, um estraga-notícias supostamente boas.

Prefacio o que vou dizer ressaltando que é impossível determinar se os problemas que encontro no Editorial são falhas do próprio Editorial ou se vêm do estudo do UNICEF e do MEC. Espero que sejam do Editorial.


Primeira crítica:

Eis o que diz o primeiro parágrafo do Editorial:

"UM INTERESSANTE estudo co-assinado pelo Fundo das Nações Unidas para a Infância (Unicef) e pelo Ministério da Educação (MEC) identificou 33 escolas públicas estaduais e municipais de ensino fundamental que, além de apresentar boas notas em avaliações, tiveram um impacto positivo sobre o aprendizado das crianças."

Ou seja: os autores do Editorial (ou o UNICEF e o MEC) se regozijam por ter encontrado, na educação pública de nível fundamental brasileira, 33 escolas que "tiveram um impacto positivo sobre o aprendizado das crianças." Quantas escolas públicas desse nível há no Brasil? No final do Editorial se afirma que são 41 mil. Que percentual das escolas públicas existentes esse percentual representa? Pelas minhas contas, 0,08% (0,1% seriam 41 escolas, 1% seriam 410). As 33 escolas que, segundo o Editorial, oferecem "educação de qualidade" representam um percentual ínfimo quando se comparam as escolas ditas de qualidade com o total de escolas existentes no ensino público brasileiro. Achar uma escola pública em que os alunos aprendem agora é notícia no Brasil??? Onde estamos?!?!?!

O estudo não investigou todas as escolas? Se é esse o caso, quantas foram estudadas? Esse número pode fazer uma diferença tremenda. Se o estudo examinou, digamos, apenas 50 escolas, e 33 (dois terços, por aí: 66%) delas tiveram resultados considerados positivos, então temos razão para um Editorial. Mas não se diz qual o universo do qual essas 33 escolas estão sendo abstraídas. O Editorial é absolutamente omisso sobre esse dado extremamente importante.


Segunda crítica:

Afirma o Editorial:

"Não se trata mais de apurar médias, mas de saber por que, em determinados locais cuja população tem características socioculturais específicas, as escolas conseguem transmitir mais conhecimento a seus alunos em relação ao que era esperado."

A visão da educação que o Editorial adota é de que educar é "transmitir conhecimentos aos alunos". Embora muito difundida, essa visão não só está ultrapassada, como contradiz o entendimento de educação que subjaz aos próprios Parâmetros Curriculares de um dos resposáveis pelo estudo, o MEC, para os quais educar é, no fundo, um processo de formação de pessoas (indivíduos), cidadãos e profissionais — ou seja, um processo de desenvolvimento humano. Como bem disse Paulo Freire, a educação não esse processo de transferência bancária de conhecimentos de uma conta corrente, a do professor, para outra conta corrente, a do aluno. A educação é um processo permanente, que vai do nascimento à morte, de preparação para a vida, mas não uma vida que é mera sobrevida, mas uma vida que represente uma escolha consciente de um projeto de vida que lhe dê sentido e realize.

O objetivo da eduação e, a fortiori, da escola, não é encher a cabeça das crianças de informações e supostos conhecimentos (vide Edgar Morin, La Tête Bien Faite), mas sim ajudá-las a construir as suas competências e, através delas, a sua autonomia. E não se conhece nenhum caso de competência e autonomia "transferida" por um professor a um aluno. Competência e autonomia se constróem — e cada um tem de construir as suas (embora, como mais uma vez bem ressaltou Paulo Freire, ninguém faça isso sozinho).


Terceira crítica:

Afirma o Editorial:

"O desempenho na prova nacional realizada pelo MEC dos alunos da 8ª série . . . ficou 18% acima da média nacional em português e 17% em matemática".

Coerentemente com a visão ultrapassada da educação vem uma visão ultrapassada da avaliação do sucesso (ou "êxito", como o chama Editorial). Sucesso na escola, ou, como se pretende, sucesso na aprendizagem, é medido por uma prova nacional realizada pelo MEC. O que mede essa prova? Se os alunos assimilaram bem os "conhecimentos transmitidos" pelo professor? Se os tais conhecimentos ficaram na "conta bancária" das crianças o tempo suficiente para elas acertarem um número razoável de respostas às perguntas do MEC?

Como é que se avalia a construção de competências? Aluno x aprendeu a ler, diz a professora. Fácil de avaliar: traga o aluno aqui que eu vou lhe dar uns textos para ler e, depois, conversar com ele para ver se ele entendeu. Aluno x aprendeu a nadar. Traga-o aqui que quero vê-lo pular na piscina e sair nadando. Aprender a ler e aprender a nadar são processos de aquisição de competências, são processos mediante os quais alguém se torna capaz de fazer aquilo que não conseguia fazer antes. E a aquisição da competência se comprova fazendo… Fazendo aquilo em que consiste a referida competência, não fazendo uma prova. Boa nota em uma prova dessas que há por aí só comprova que o aluno adquiriu a competência de passar em prova daquele tipo, a competência de tirar nota.


Quarta crítica:

Diz o Editorial:

"As ‘receitas’ das 33 instituições selecionadas pelo Unicef e pelo MEC não são universalizáveis. Foi o caminho que aquela escola encontrou para resolver seu problema específico. Eventualmente, a solução servirá a outro colégio, mas não a todos."

Triste conclusão. O sucesso dessas escolas, se é que é de sucesso que se trata, se deve a combinações de variáveis que não podem ser replicadas. Elas são como aquela pizzaria que vende excelente pizza porque o pizzaiolo é um gênio. Mas ele, se tem uma receita, não a compartilha. Logo, só ele sabe fazer a pizza deliciosa. Tudo bem: pra quem pode ir lá comer a pizza, enquanto o pizzaiolo está vivo, ótimo. Mas depois, perdeu-se o know-how. Uma pizzaria dessas não dá para ser base de uma franquia que traga pizzas de qualidade, em escala, à população toda do país.

Sucesso ou êxito, no caso da educação pública brasileira, só pode ser declarado quando se encontrarem soluções para o problema da qualidade que sejam, sim, universalizáveis, que possam ser transferidos de uma escola para as demais. Caso contrário, o impacto é, estatisticamente falando, negligível


É isso. Por enquanto.

Em Salto, 26 de dezembro de 2006

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Folha de S. Paulo
24 de dezembro de 2006

Editorial

O segredo do êxito

Estudo de escolas com alunos carentes de bom desempenho mostra que ensino de qualidade pode superar obstáculo social

UM INTERESSANTE estudo co-assinado pelo Fundo das Nações Unidas para a Infância (Unicef) e pelo Ministério da Educação (MEC) identificou 33 escolas públicas estaduais e municipais de ensino fundamental que, além de apresentar boas notas em avaliações, tiveram um impacto positivo sobre o aprendizado das crianças.

Esse último aspecto – o de medir o peso da instituição escolar no desempenho de crianças e adolescentes – é uma inovação que aos poucos ganha terreno em pesquisas na área da educação. Não se trata mais de apurar médias, mas de saber por que, em determinados locais cuja população tem características socioculturais específicas, as escolas conseguem transmitir mais conhecimento a seus alunos em relação ao que era esperado.

De posse da lista das 33 instituições – todas atendem a clientelas carentes -, um grupo de técnicos visitou as escolas, procurando determinar os elementos que tinham em comum.

Suas conclusões não chegam a surpreender. As boas práticas encontradas reforçam o que especialistas vêm dizendo já há algum tempo. Os principais ingredientes para o sucesso incluem: professores capacitados e empenhados; alunos interessados e exigentes; projetos pedagógicos ligados ao cotidiano das crianças; conexões entre a escola e fontes produtoras de conhecimento como universidades; e o envolvimento dos pais e da comunidade no processo de aprendizado.

É claro que outros elementos, como salários e infra-estrutura, importam. Mas o trabalho, intitulado "Aprova Brasil – o direito de aprender", mostra que, em determinados casos, carências nessa área podem ser compensadas por uma feliz conjunção de liderança com criatividade.

Um exemplo é o da escola municipal Minas Gerais, do Rio de Janeiro. A instituição está instalada num prédio histórico. Não tem quadras nem equipamentos esportivos. As crianças, contudo, conseguem praticar atividades físicas porque a direção firmou parcerias com universidades e um quartel do entorno que emprestam suas instalações.

Outro caso notável é o de uma escola municipal em São Brás do Suaçuí (MG). Funciona em prédio cedido, não tem computador nem internet: conta com dois mimeógrafos a álcool e um aparelho de som. Mesmo assim, o desempenho na prova nacional realizada pelo MEC dos alunos da 8ª série -instados pelos mestres a relatar quantas horas dedicam ao estudo em casa- ficou 18% acima da média nacional em português e 17% em matemática.

As "receitas" das 33 instituições selecionadas pelo Unicef e pelo MEC não são universalizáveis. Foi o caminho que aquela escola encontrou para resolver seu problema específico. Eventualmente, a solução servirá a outro colégio, mas não a todos.

A mensagem que o "Aprova Brasil" procura transmitir é que as carências sociais não são obstáculo intransponível a uma educação de qualidade. Como fazer para que as mais de 41 mil escolas do país sigam o exemplo das 33 permanece um desafio.

É possível e defensável terceirizar a educação?

O que segue é, em parte, baseado no debate que travei na minha lista de discussão “4pilares” com interlocutores que criticavam algumas escolas e faculdades privadas por “terceirizarem” parte de suas atividades-fim, contratando, no caso de escolas de ensino básico, escolas de língua e de informática para ministrarem cursos de língua estrangeira e de informática a seus alunos, e, no caso de faculdades, contratando cooperativas de professores para evitar a contratação direta dos professores e, assim, os encargos sociais correspondentes.

Comecei por levantar a seguinte questão: para criticar uma pessoa ou instituição por “terceirizar”, em parte, suas atividades, é preciso, em primeiro lugar, definir quem é inerentemente responsável por aquelas atividades.

Em se tratando de atividades educacionais, propus a seguinte tese.

Se há um dever de educar (algo que reputo discutível – esclareço adiante), ele recai, em primeiro lugar, sobre a própria pessoa. Isso quer dizer que, havendo tal dever, a responsabilidade pela sua execução recai, em princípio, sobre cada pessoa – e o objeto de sua execução é a própria pessoa.  Cada um teria, nessa hipótese, o dever se se educar a si próprio.

Admito, naturalmente, uma exceção para essa regra: o caso de crianças pequenas, incapazes de assumirem, e até mesmo entenderem, esse dever.  No caso de crianças pequenas, o dever de educar é de seus pais, ou de quem lhes faça as vezes, e decorre das obrigações inerentes à ação de colocar um filho um mundo. Da mesma forma que quem gera um filho tem o dever de alimentá-lo e de cuidar dele, para garantir que sobreviva, tem, também, o dever de educá-lo, para que ele se desenvolva e se torne, um dia, uma pessoa autônoma e competente, capaz de cuidar de si próprio e de escolher, e transformar em realidade, se possível, o seu projeto de vida.

A partir de um certo momento, porém, a educacão dos filhos deixa de ser um dever dos pais e passa a ser um dever de cada para consigo mesmo. Qual é esse momento? É discutível, até certo ponto. Mas quando se trata de ensino superior, não tenho dúvida alguma que ele já tenha sido alcançado. Uma pessoa que entra uma faculdade tem por volta de, pelo menos, 18 anos. Já é, portanto, dona de seu nariz e seus pais não têm mais nenhum dever em relação à sua educação: eles participam do processo se ela concordar e se eles, pais, tiverem condições e disposição.

Em se tratando de criança pequena, até, digamos, 18 anos, no máximo, o dever de educá-la é, claramente, dos pais. Se estes a colocam na escola, já estão terceirizando para a escola, em parte, a execução de um dever seu. Ao escolher uma escola para seus filhos, e delegar para ela o dever de educá-los, os pais, tácita ou explicitamente, autorizam a escola a escolher quais serão os professores que elas alocarão a cada grupo de crianças, qual método utilizarão na educação delas, de quais recursos se valerão (por exemplo, que livros, didáticos ou não, serão usados no processo), etc. Assumindo que nenhuma cláusula do contrato da escola com os pais seja quebrada, nem nenhuma lei seja violada no processo, nada impede a escola de, através de um novo processo de terceirização, sub-delegar a uma outra escola, ainda que não formal (escola de línguas, escola de informática), a execução de parte das atividades que ela se obrigou a executar no processo de educar as crianças cuja educação lhe foi confiada pelos pais.

Isso se aplica tanto a escolas privadas como a escolas públicas. Os pais pagam à escola para fazer o que eles deveriam fazer: pagam diretamente, no caso da escola particular, ou indiretamente, via governo (impostos).

No tocante ao ensino superior, há uma terceirização, para uma instituição (faculdade, universidade), da prestação de um serviço que a pessoa deveria prestar para si mesma. Algo parecido com o exemplo seguinte (mas mais importante). Digamos que eu tenha o dever de me manter limpo diariamente: por isso, tomo banho todos os dias. Se não gosto de me lavar, ou, por alguma razão, estou impedido de fazê-lo (por estar, imaginemos, paralizado na cama), terceirizo a prestação desse serviço que devo a mim mesmo: pago um(a) enfermeiro/a para me dar banho (ou conto novamente com a boa vontade de familiares ou de outras pessoas).

Quem terceiriza, para uma faculdade, a execução do dever que ele presumivelmente tem de educar-se, dificilmente pode invocar o direito de terceirizar e o fato da terceirização, em si, para contestar a ação da faculdade de terceirizar para uma cooperativa de professores a execução de parte de suas atividades.

Como se vê, poucas atividades são tão terceirizadas, e sub-terceirizadas, como a educação.

A esquerda não tem nada contra a terceirização em si – só quer que ela seja feita exclusivamente para o governo (no caso, para a escola pública). Aquilo que parece ser uma campanha anti-terceirização por parte da esquerda é, na verdade, uma campanha a favor da terceirização, por parte das pessoas para o governo, de cuidados básicos que, presumivelmente, elas devem tomar para consigo mesmas. A área da saúde é outro exemplo claro. Cada um deve cuidar de sua própria saúde. Se não tem condições de executar os serviços necessários para manter-se sadia, a pessoa pode terceirizar para indivíduos (médicos e enfermeiros) ou para instituições (clínicas, ambulatórios, laboratórios e hospitais) esses cuidados. Não há nenhuma razão por que a terceirização para o governo (clínicas, ambulatórios, laboratórios e hospitais públicos) seja menos criticável do que a terceirização para institutuições do setor privado. Quem defende a terceirização para o setor público não pode usar o direito de terceirizar e o fato da terceirização para criticar instituições privadas que sub-terceirizam parte de suas atividades.

Voltando para o caso da educação, quem critica a terceirização, por parte de escolas e faculdades privadas, de parte de suas atividades para outras instituições (escolas de língua e de informática, cooperativas de professores, etc.), em geral argumenta com base no fato de que o dever de educar não é das próprias pessoas para consigo mesmas, mas, na melhor das hipóteses, da sociedade para com os indivíduos, ou, na pior das hipóteses, do estado para com a sociedade ou os cidadãos.

Eu não acredito que existam argumentos defensáveis que justifiquem essa atribuição do dever de educar à sociedade ou, ainda muito menos, ao estado.

Só concordaria com a afirmação de que a educação é tarefa da sociedade no sentido de que todo indivíduo, quer viva em sociedade ou não, presumivelmente tem o dever de se educar (i.e., de se desenvolver, como pessoa) – e, como visto, que os pais têm dever o dever de educar seus filhos, enquanto eles não são capazes de assumir controle de suas próprias vidas.

Nunca vi, em nenhum lugar, uma defesa convincente da tese de que a educação seja tarefa do estado – muito menos da tese de que seja tarefa exclusivamente do estado, como defende a esquerda, quando propõe que a educação seja monopólio estatal.

Não faz o menor sentido propor que a educação seja monopólio estatal. A educação de crianças pequenas é, claramente, direito dos pais. O ser humano precisa de educação do momento em que nasce até o momento em que morre. Não faz o menor sentido confiar a educação de um recém-nascido ao estado (embora isso já tenha sido proposto pelos comunistas).

Mas o que a esquerda geralmente deseja é que a educação escolar seja  monopólio estatal. Mas muito menos faz sentido essa tese mais restrita. Por que deveria o estado se responsabilizar, com exclusividade, pela educação escolar? Não há nenhum argumento – embora toda vez que há uma constituinte ou a elaboração de uma Lei de Diretrizes e Bases da Educação a esquerda retome a bandeira do monopólio da escola pelo estado.

Durante as discussões acerca dos artigos relacionados à educação na última constituinte, a esquerda tentou tudo o que pode para fazer passar sua tese do monopólio, pelo estado, da educação escolar. Perdeu. Ainda assim, é comum encontrar em publicações esquerdistas a enunciação da tese de que a escola privada é uma “concessão” do estado. Não é. A escola privada existe por direito definido pela Constituição Brasileira.

Numa clara tentativa de confundir a questão, a esquerda tem tentado argumentar que “a educação por uma única pessoa, ou o autodidatismo, é destinada ao fracasso”.

Em primeiro lugar, é mister indagar, dos que defendem essa categórica afirmação, em que se baseiam para fazê-la? Em pesquisas de terceiros? Em experiência própria?

Em segundo lugar, essa tese confunde (ou mistura intencionalmente, quem sabe com a intenção de confundir) duas coisas:

a) De um lado, o dever, em si, pela educação.

b) De outro lado, a forma em que esse dever deva se exercer (i.e., o processo da educação).

Eu afirmo que esse dever é, no caso de adultos, de uma pessoa só, da própria pessoa, e, no caso de crianças pequenas, dos seus pais – ou dos que lhes façam as vezes. Ou seja, no caso de adultos, o dever é de uma pessoa, e, no caso de crianças pequenas, de, basicamente, duas.

No entanto, essa afirmação não implica a tese de que cada um, adulto, deva se educar sozinho, ou que, no caso dos pais, eles não possam, desejando, recorrer à escola ou a outros terceiros, no processo de educar seus filhos pequenos!

Se o autodidatismo é, ou não, uma atitude ineficaz, não vem ao caso, aqui – mas é algo que estou disposto a discutir em outros contextos. Mas ninguém jamais propôs que as pessoas se eduquem a si próprias sozinhas. A questão é definir de quem é o dever, ou a responsabilidade, pela educação. No tocante à forma de exercer esse dever (i.e., o processo educacional), não questiono, nem jamais questionei, em momento algum, o direito de os pais (no caso de filhos pequenos) ou a própria pessoa (no caso de adultos) terceirizarem a execução de seu dever.

(Voltando a comparar a questão educacional com a questão da saúde, também acho que os pais têm o dever de cuidar da saúde de seus filhos pequenos – mas nem por isso acho que eles devam fazer isso sozinhos, sem buscar auxílio de médicos, clínicas, hospitais). 

Alguns, da esquerda, têm procurado defender duas teses subsidiárias acerca da educação:

a) que a terceirização se aplique apenas a empresas, não a pessoas;

b) que a terceirização se aplique apenas a atividades-meio, não a atividades-fim.

Primeiro, essa pode ser uma opinião sua, que eu respeito — apesar de dela discordar. Mas ela não me parece ser justificada pela autoridade a que você recorre. O que diz o Houaiss é o seguinte (e copio e colo o que você transcreveu):

Numa discussão recente um representante da esquerda invocou o Houaiss para argumentar a favor da primeira tese. Mas o próprio Houaiss, em uma de suas definições de “terceirização”, lhe refutou a argumentação. Diz o Houaiss:

"Terceirização: . . . 2. contratação de terceiros, por parte de uma empresa, para a realização de atividades ger. não essenciais, visando à racionalização de custos, à economia de recursos e à desburocratização administrativa"

A palavrinha "ger.", aqui incluída, quer dizer "geralmente". Ou seja, Houaiss admite que, em regra, as empresas terceirizam a execução de suas atividades-meio (segurança, alimentação, limpeza, processamento de dados), para poder se concentrar nas atividades-fim – mas não exclui a possibilidade de que elas possam terceirizar, em algumas situações, até mesmo suas atividades-fim.

(A propósito, a restrição imposta por Houaiss, de que a terceirização se faça “visando à racionalização de custos, à economia de recursos e à desburocratização administrativa”, não justifica: a terceirização pode ser feita por qualquer razão – embora as mencionadas estejam entre as principais).

As próprias empresas discutem, definem e redefinem o que é sua atividade-fim e quais são suas atividades-meio. Se a gente perguntar a qualquer pessoas, qual é o negócio da Nike, é provável que a resposta seja que se trata de um fabricante de tênis. No entanto, no gerenciamento estratégico da empresa, a fabricação dos tênis, em si, é terceirizada (em grande parte para empresas daqui da Malásia, onde me encontro no momento). A Nike aparentemente concluiu que deveria concentrar suas energias no design, no marketing e nas vendas de tênis (e, naturalmente, no gerenciamento do processo de terceirização da fabricação. A qualquer momento, porém, ela pode mudar de opinião e criar suas próprias fábricas. Das duas uma: ou a Nike terceiriza atividades-fim, ou o que é atividade-fim e o que atividade-meio não é fixado de uma vez para todo o sempre para uma determinada empresa. 

Por fim, é forçoso reconhecer que, embora a discussão da terceirização tenha se originado no contexto empresarial, a língua é viva e continua a evoluir. Na nossa língua viva de cada dia, porém, o termo já tem significado mais amplo e hoje se aplica não só a empresas, mas a governos, organizações não-empresariais e, sem dúvida, como vimos fazendo, a pessoas.

Terceirizar hoje significa "delegar, por qualquer razão, a terceiros, em condições negociadas, a execução de atividades e deveres que são de responsabilidade de uma determinada pessoa, física ou jurídica."

Em Kuala Lumpur, 3 de dezembro de 2006.

Ainda a inclusão / exclusão digital

Venho defendendo, há uns três anos, a tese de que a inclusão digital envolve três condições ou elementos básicos:

a) Acesso à tecnologia digital;

b) Capacidade técnica no manejo da tecnologia digital;

c) Capacidade de empregar a tecnologia digital na melhoria da qualidade de vida, na promoção dos interesses próprios.

Comecei a defender essa tese em 2003, quando li um interessante livro sobre a inclusão digital, em preparação para a participação em um seminário de uma semana sobre o assunto promovido pelo Salzburg Seminars, em Salzburg, Áustria, ao qual a Microsoft me enviou (junto com Michael Furdyk). [Depois coloco o nome do livro aqui].

Na defesa de minha tese, venho usando, nos últimos tempos, uma analogia simples, mas, acredito, instrutiva. Um trator claramente é tecnologia (não digital, evidentemente). Muitos são excluídos dessa tecnologia. Para sair do que poderíamos chamar de exclusão tratorial, não basta ter acesso a um trator, nem mesmo saber guiá-lo e operá-lo: é preciso enfrentar problemas para os quais o trator é uma solução e, evidentemente, saber empregar o trator na solução desses problemas.

Eu próprio sou um excluído tratorial — principalmente pela primeira razão. Tenho um pequeno sítio, e um trator cairia bastante bem ali. Tenho cerca de 10 mil metros de gramado, tenho pomar, tenho horta, tenho local onde plantamos milho, tenho pastos, tenho um pequeno lago, tenho um local aplainado onde quero fazer um campo de futebol e uma quadra, etc. Logo, tenho uma série de problemas para os quais um trator seria uma excelente solução. Não sei, eu mesmo, operar um trator, para cortar grama, fazer valetas, construir diques, arar a terra, mas não teria dificuldade em aprender — embora prefira pagar alguém pra fazer isso pra mim. Só não sou incluído tratorialmente porque nunca me decidi a investir o dinheiro na compra de um trator. De vez em quando, quando tenho necessidade, alugo um, que já vem com o operador. Assim, tenho o benefício da aplicação, sem ter o acesso e o manejo técnico, e sem precisar investir meu capital na aquisição de um.

Tenho quase certeza de que o empecilho maior para a inclusão digital entre as classes mais pobres no Brasil está, não nos dois primeiros componentes, mas no terceiro.

Apesar de muitos proponentes da inclusão digital concentrarem suas baterias na questão do acesso, mencionando o preço dos computadores, e apesar de o Nicholas Negroponte estar querendo imortalizar seu nome como o grande santo dessa causa, provendo computadores de 100 dólares (parece que vai ser bem mais do que isso nos primeiros anos), o acesso ao equipamento, tenho plena certeza, não será o grande gargalo da questão em, no máximo, cinco anos aqui no Brasil.

O preço dos computadores do tipo desktop vem caindo vertiginosamente, até mesmo aqui no Brasil (lá fora, nem se fala). Hipermercados como o Extra e o Carrefour, para não falar nas Casas Bahia, no Magazine Luiza e nas Lojas Cem, já vendem desktops em dez prestações sem juros, ou em mais prestações com juros, mas fixas (já vi desktops anunciados por 24 de 67,00). O preço dos notebooks (comumente chamados de laptops) também vem caindo. Vi na FNAC, esta semana, notebooks bastante bons, novos, por 2.400,00 — em até 6 prestações fixas.

Assim, estou absolutamente convencido de que o acesso ao equipamento não será, como pretende o Negroponte, e o governo brasileiro parece acreditar, o grande gargalo.

Mais sério do que o problema do acesso ao equipamento é o acesso à Internet. Esse problema talvez seja mais difícil de resolver a curto prazo pelas forças de mercado (se bem que, acredito, se o mercado das telecomunicações fosse realmente livre no Brasil, sem as Anatéis, os Ministérios das Comunicações, os FUSTS da vida, também esse problema estaria próximo de uma solução). Vejam os números nas matérias abaixo, retiradas da Folha de S. Paulo de hoje: apenas 12,5% das residências brasileiras possuem telefone fixo (isso claramente ainda uma decorrência do monopólio do antigo sistema Telebrás, que o diabo o tenha). Sem telefone fixo, a banda larga fica mais complicada. Imagino que o percentual de famílias que possuem tv a cabo não seja maior. Há o wireless (quem sabe o Wimax), a tv digital, etc., mas é difícil imaginar como essas coisas vão evoluir — especialmente porque o governo insiste em continuar a meter o bedelho na questão…

O problema do manejo técnico também não vai ser um grande problema. Crianças em geral aprendem a manejar esse tipo de tecnologia sem necessidade de treinamento formal. Os adultos atuais, excluídos, vão eventualmente sair de cena (como os atuais adultos incluídos, também). Em pouco tempo, o cenário estará ocupado por nativos digitais, não por imigrantes digitais como nós. E a tecnologia vai ficar cada vez mais fácil de manejar.

Resta, portanto, o terceiro componente: fazer o quê com essa tecnologia??? Sabemos o que fazer com telefones: falar com os outros. Por isso, compramos um, assim que podemos. Mas fazer o que com o computador???

Conheço várias pessoas pobres que compraram um computador, até com certo sacrifício, antes de eles ficarem tão baratos quanto são hoje, fizeram alguns cursinhos em escolas de informática, e, depois, venderam o computador — não porque estivessem especialmente necessitados de dinheiro, mas porque, não tendo filhos ou crianças em casa, não sabiam muito o que fazer com ele…

As classes média e alta em geral sabem o que fazer com o computador — é por isso que se incluem (desexcluem) mais rapidamente. E sabem, não porque têm mais dinheiro, mas porque têm melhor educação.

As crianças das classes pobres também em geral sabem o que fazer com um computador ligado à Internet: jogar joguinho, bater papo em chats, procurar uma ou outra coisa de interesse na web. Mas a coisa em geral pára aí. Para seus pais, o investimento ainda é grande, se se trata de dar um brinquedo aos filhos. E o custo de possuir um computador não é só o da aquisição: o custo da eletricidade e do acesso à Internet se tornam maiores no longo prazo.

Ainda temos sérios problemas de acesso — ninguém se engane com isso. E de capacitação técnica. Mas, a meu ver, o problema maior, de fundo, é o problema educacional. É a educação que nos ajuda a encontrar aplicações para a tecnologia digital, que permite com que essa tecnologia represente um benefício para nossa qualidade de vida. É só com a educação que encontramos formas de fazer com que a tecnologia funcione em nosso benefício, resolvendo nossos problemas, promovendo nossos interesses…

Em Campinas, 16 de setembro de 2006

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Folha de S. Paulo
16 de setembro de 2006

Mais de 120 milhões não utilizam internet

Quase 80% da população com mais de dez anos não acessou a rede de computadores nos 3 meses anteriores à pesquisa do IBGE

Nos domicílios com renda mensal maior, 70% usam a web; nos mais pobres, porém, percentual cai para apenas 3% dos brasileiros

DA SUCURSAL DO RIO

Em plena era digital, um contigente de mais de 120 milhões de brasileiros não usa a internet, a rede mundial de computadores. Eles representam 79% da população com mais de dez anos de idade que, de acordo com o IBGE, não acessou nenhuma vez à rede nos últimos três meses.

Como era de esperar em um país com altos índices de desigualdade, o acesso varia significativamente de acordo com renda ou escolaridade. No maior extremo de renda pesquisado (domicílios com renda mensal per capita superior a cinco salários mínimos), 69,5% dos brasileiros usavam. No extremo oposto (renda per capita inferior a 1/4 do salário mínimo), esse mesmo percentual era de apenas 3%.

O acesso cresce de acordo com a renda, mas mesmo em faixas de renda intermediárias, como na de dois a três salários mínimos per capita, ele ainda é restrito a uma minoria (42%) de brasileiros.

O mesmo fenômeno acontece quando é analisado o acesso de acordo com o grau de escolaridade. No menor extremo de instrução (menos de quatro anos de estudo), somente 2,5% acessavam a internet. No extremo oposto (os que completaram ao menos o ensino médio), essa proporção chega a 76,2%.

Esta é a primeira vez em que o instituto analisa o acesso à internet pelas pessoas, e não apenas sua presença nos domicílios. A situação de acesso nos domicílios vem aumentando constantemente desde 2001, mas continua em patamares muito baixos. No início da década, 8,6% de residências possuíam computadores conectados. Em 2005, esse percentual chegou a 13,9%.

Analisando por unidade da Federação, a que apresentava maior percentual de sua população com acesso regular à internet era o Distrito Federal, com 41,2% usando a rede. O menor percentual foi encontrado em Alagoas (7,2%) e no Maranhão (7,1%).

Além de restrito ainda a uma minoria de maior poder aquisitivo, o acesso à internet varia muito também de acordo com a idade. Quanto mais jovem, maior a probabilidade de um brasileiro ter feito uso da rede nos últimos três meses de casa, do trabalho, da escola ou de qualquer outro ponto.

Os maiores percentuais de acesso foram encontrados na faixa etária de 15 a 17 anos, com 33,9% da população usando a rede. De 18 a 24 anos, a proporção continua acima de 30%, mas passa a cair gradualmente de acordo com a idade, chegando a apenas 3,3% da população acima de 60 anos.

Apartheid

Para Rodrigo Baggio, diretor-executivo do Comitê pela Democratização da Informática -organização não-governamental que mantém 891 escolas de informática e cidadania no Brasil e em nove países-, os dados do IBGE revelam um apartheid digital.

"Há uma legião de excluídos à margem da sociedade do conhecimento. É um cenário extremamente preocupante, principalmente quando comparamos nossa situação com a de outros países, já que hoje o uso da tecnologia é uma ferramenta fundamental para o desenvolvimento social e econômico de uma sociedade", diz Baggio.

Para ele, para reverter essa situação, é preciso investir na melhoria de infra-estrutura de acesso à internet em municípios pequenos, na capacitação de pessoas de baixa renda em informática e cidadania e na disseminação de pontos públicos de acesso.

Investimentos

Para o presidente da Abranet (Associação Brasileira dos Provedores de Acesso), Antônio Tavares, faltam investimentos em educação, não só para crianças como também para adultos para acelerar o ritmo de expansão da internet no país.

"A internet precisa crescer de forma útil e não apenas como entretenimento, como se vê muitas vezes nas classes A e B, e, para isso, é preciso investir na inclusão digital."

Foco

Nas classes média e alta, uso intensivo da web pelos jovens preocupa os pais DA SUCURSAL DO RIO

O uso intensivo da internet por parte dos jovens faz parte do perfil das famílias de classe média ou alta no Brasil. A analista de sistema Teresa Puzzi Nicolau, 46, tenta sempre conversar com os dois filhos sobre um limite para o uso da rede, mas diz que a tarefa não é fácil.

"Me preocupa muito o tempo que meus filhos ficam na internet. Há dois anos, o acesso era limitado apenas aos finais de semana ou à noite, mas hoje tento estabelecer o tempo máximo de duas horas por dia, mesmo sabendo que isso não está sendo seguido. Já pensei até em bloquear o acesso deles no período em que trabalho, mas ponderei que isso traria problemas em relação a pesquisas e deveres que eles têm que fazer para a escola."

A filha de Teresa, Andréa Nicolau, 14, admite que fica bem mais do que duas horas por dia na Internet. Segundo seus cálculos, são mais ou menos sete horas por dia, principalmente usando o Messenger e o Orkut. O mesmo dilema sobre o tempo de uso da internet pelos jovens foi enfrentado pelo comerciante Sérgio Pinho, 57. Seu filho, Maurício Pinho, 16, usa a rede mundial de computadores somente de sexta a domingo. "Estabeleci isso porque, se ele ficar só na frente do computador, acaba não fazendo mais nada no dia. Quero que ele faça outras coisas no dia dele", afirma o pai.

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Além de inacessível, internet não desperta interesse de mais pobres

DA REPORTAGEM LOCAL

A disseminação de LAN houses e a instalação de computadores com acesso à internet em escolas, centros culturais e associações vêm propiciando a mais e mais paulistanos o usa da rede. Mas isso, não necessariamente, tem despertado o interesse dos cidadãos.

A frentista Sueli Ferreira, 30, não tem acesso à internet e não sente falta dela. "Nunca fiz curso, não sei usar, não tenho computador", diz. Mas, conta, se tivesse necessidade de usar a rede mundial de computadores, poderia ir a uma LAN ou a um centro cultural.

O vendedor Nelson Gomes jamais usou a internet. Se quisesse, diz, poderia acessar a rede na casa de amigos. "Mas nunca me interessei." Preocupado com a educação dos filhos, de dois e sete anos, o vendedor pensa atualmente em adquirir um computador e tomar contato com a rede, mas ainda sem grande empolgação.

Ricardo Augusto, 30, funcionário de um lava-rápido na Vila Nova Cachoeirinha (zona norte de SP), não tem computador e nunca esteve em uma LAN house. "Não tenho o que procurar", diz ao questionado sobre sua relação com o mundo virtual. Outro "desinteressado" no assunto é o aluno do terceiro ano do ensino secundário Gabriel Paixão, 17. "Não sou muito chegado [à internet]." Gabriel vendeu recentemente o seu computador.

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Celular está em 24% das casas; fixo, só em 13%

DA SUCURSAL DO RIO

Pela primeira vez desde que o IBGE passou a pesquisar na Pnad a presença de celulares, o número de domicílios que utilizam apenas esses aparelhos superou aqueles onde havia somente telefone fixo.

Essa tendência já era prevista, pois o percentual de domicílios somente com celular, hoje em 23,6%, vem aumentando ano a ano desde 2001. Enquanto isso, a proporção de residências apenas com telefone fixo, hoje em 12,5%, apresentava tendência inversa.

O IBGE pesquisou também pela primeira vez o acesso dos brasileiros a celulares para uso pessoal e não apenas a presença desse aparelho nos domicílios. Em 2005, 36,7% dos brasileiros com mais de dez anos de idade usavam celular. Esse uso pessoal, porém, varia muito de acordo com a renda.

Em domicílios com renda média mensal per capita superior a cinco salários mínimos (R$ 1.750), o acesso a celular para uso pessoal é quase universalizado, já que 82,1% dos brasileiros com mais de dez anos de idade nessas famílias tinham seu próprio aparelho. No outro extremo (domicílios com menos de um quarto do salário mínimo per capita), esse percentual era só de 9,2%.

Esse dado pode indicar que, em muitas famílias mais pobres, há um único celular para ser dividido entre todos os moradores. Nas famílias mais ricas, além do telefone fixo, há praticamente um celular para cada morador.

Segundo o presidente executivo da Acel (Associação Nacional das Operadoras de Celulares), Ércio Zilli, a troca do fixo por celular é uma tendência mundial. "A comunicação de voz está migrando para a telefonia móvel. A aplicação fixa residencial vai acabar evoluindo para outro tipo de comunicação, como a banda larga."

Segundo ele, existem hoje no país 93 milhões de linhas habilitadas, o equivalente a uma linha para cada dois brasileiros. Desse total, 80% são telefones pré-pagos, os mais populares entre as pessoas de renda mais baixa.

Para o executivo, o custo é um dos fatores associados à troca de linhas fixas por móveis. "Mesmo depois que acaba o prazo do cartão pré-pago, a pessoa não perde a possibilidade de ser localizada, embora não consiga mais fazer chamadas", disse.

A esteticista Débora Canto, 39, é um exemplo dessa tendência. Até 2004, ela tinha um telefone fixo em casa. Desistiu do aparelho quando começou a se estressar com a empresa de telefonia fixa ao tentar negociar uma dívida. "Eles não ofereciam facilidade nenhuma. Também não faziam nenhuma promoção ou desconto especial para quem, como eu, usa muito o telefone para falar com outros Estados."

Ela diz que não se arrependeu de ter trocado o fixo da casa por três celulares pré-pagos usados hoje por ela e pelos dois filhos. "Aproveito todas as promoções da operadora. Meu filho usa o celular da mesma operadora e posso falar de graça com ele."  

Quarenta anos depois do CAOS: 1966-2006 (III)

[DUAS NOTAS ACRESCENTADAS POSTERIORMENTE, EM 2015:]

Quem preferir ler em um artigo só os três artigos que compõem esta trilogia intitulada “Quarenta Anos depois do CAOS: 1966-2006” pode optar por lê-la (a trilogia) em meu outro blog, biográfico, Autobio Space, neste URL:

https://autobiospace.wordpress.com/2015/11/07/quarenta-anos-depois-do-caos-1966-2006/.

Quem preferir ler apenas os artigos escritos por mim em 1966, sem o histórico e os comentários acrescentados em 2006, pode consultar “O CAOS em Revista: Editoriais e Artigos de 18/3/1966 a 18/8/1966 (alguns censurados)”, no meu blog Autobio Space, neste URL:

https://autobiospace.wordpress.com/2015/11/07/o-caos-em-revista-editoriais-e-artigos-de-1831966-a-1881966-alguns-censurados/.

o O o 

– Continuação do artigo anterior –

Foi este o meu Editorial no terceiro número de “O CAOS em Revista”, publicado em 18 de Maio de 1966:

Novo dia 18. Novo “O CAOS em Revista”. Até aqui temos podido ser pontuais. Esperamos poder continuar a sê-lo.

Muitas coisas aconteceram em nossa casa desde que o segundo número saiu. Dentre elas merece destaque, não pelo conteúdo, mas pela repercussão, o Manifesto (na falta de melhor palavra) que um grupo de quinze alunos endereçou aos membros da Igreja Presbiteriana do Brasil, delatando coisas que se passam aqui dentro (e até as que não se passam), separando estas coisas de seu contexto, julgando-as erradas e pedindo punição para quem as comete. Deve ser dito ainda que o referido manifesto está sendo espalhado ilegalmente, pois não passou pela Congregação, canal competente para o envio de qualquer documento dos alunos para fora dos limites do Seminário.

“O CAOS em Revista” lamenta o sucedido. Lamenta por várias razões.

Em primeiro lugar, o referido manifesto veio dividir definitivamente nossa comunidade. Antes dele havia correntes, tendências divergentes, que não chegavam, contudo, a ser grupos. Havia mesmo aqueles que eram neutros a qualquer corrente: os que se chamavam de “a terceira força”. O manifesto, no entanto, acabou com tudo isto, criando dois grupos apenas: o dos que assinaram o manifesto (quinze) e o grupo dos restantes. Este fato decepou qualquer esperança de se poder viver em real comunidade aqui.

Em segundo lugar, lamenta pelo simples fato de que “roupa suja se lava em casa”.

Lamenta, ainda, pelo mal que os colegas signatários do referido manifesto vão causar ao membros da IPB, escandalizando-os desnecessariamente. Porque o instrumento de escândalo não são tanto os que cometeram determinadas coisas tidas por erradas quanto os que as espalharam a um contexto inteiramente diferente e não preparado para ouvi-las. Se observarmos o que Paulo tem a dizer a respeito do comer carne de porco, vamos notar que o erro não estava no comer em si, mas no escândalo que isto podia causar. Correto. São feitas e ditas coisas aqui dentro de nosso dormitório e de nossos quartos (não tantas e tão terríveis quanto o referido manifesto pretende que sejam) que não escandalizam ninguém no ambiente em que estão sendo feitas e ditas. Levadas, contudo, para um ambiente não preparado para ouvi-las, estas coisas servem de escândalo. O culpado deste escândalo, contudo, não é quem faz o ato, mas quem o espalha para um ambiente não preparado para ouvi-lo.

Isto é o que mais lamentamos no manifesto. Não lamentamos o mal que seus signatários pretenderam causar aos outros, “neutros e liberais”. Lamentamos, sim, pelo mal que causarão e já estão causando, inconscientemente, a uma enormidade de crentes inocentes, que não precisavam saber das dificuldades internas de nossa casa, que, porque internas, deveriam ser resolvidas aqui dentro. A atitude dos que assinaram o manifesto, dos que orientaram ou estimularam a sua confecção, dos que o estão enviando e distribuindo não é nada pastoral em relação aos membros da Igreja que eles querem salvar! Eles, os responsáveis pelo manifesto, não tinham o direito de escandalizar os membros humildes e inocentes das nossas Igrejas. Por isso é que reputo correta a opinião de um pastor que ao receber o manifesto disse: “Isto é antes de um ato de covardia para com os membros da Igreja!” É construindo e não destruindo que se deve alcançar um objetivo.

“O CAOS em Revista” registra, pois, com pesar, esta mancha negra nos anais do corpo discente desta casa. Continuaremos, porém, a lutar, de modo franco e legal, à luz do dia, através do diálogo leal, para que cada um tenha a liberdade de pensamento e ação indispensáveis à vida de cada verdadeiro homem, de cada verdadeiro cristão. É com o intuito de restabelecer diálogo que o redator escreveu o artigo “Parafraseando”. Ele tem esperado em vão a contribuição dos colegas. E ainda espera. Por que algum dos colegas signatários  do manifesto não se decide a um diálogo franco em lugar de fazer ataques subversivos e inesperados? É uma tática mais madura e mais máscula. As páginas de “O CAOS em Revista” estão à espera.

Enquanto isto, colegas, lutemos para que, em nosso meio, cada um possa ter a autonomia de pensamento que o cristão precisa ter. “Lembrai-vos sempre de que não existe felicidade sem liberdade, e de que o fundamento da liberdade é a coragem” (Péricles, Discurso aos Atenienses, citado por Tucídides, em A Guerra do Peloponeso, Livro 2, citado por Celso Furtado, Dialética do Desenvolvimento, p. 7).

O artigo “Parafraseando”, citado no Editorial, foi este, também escrito por mim:

“Propôs Jesus também esta parábola a alguns que confiavam em si mesmos por se considerarem justos, e desprezavam os outros” (Lucas 18:9).

Certa vez, em uma Faculdade Teológica, passaram a existir dois grupos: um que se dizia “conservador” e outro que era taxado de “modernista”. Certo dia os conservadores oraram assim: “Ó Deus, graças te damos porque não somos como os demais colegas: defensores da libertinagem e da imoralidade, fumantes e beberrões, defensores do amor livre, mantenedores de simpatias pronunciadamente esquerdistas, irreverentes, cínicos, contadores de piadas e desrespeitadores da dignidade feminina. Louvamos-te, ó Deus, porque assim não o somos. Nós fazemos reunião de oração diariamente, ocasião em que um rabi nos instrui a respeito das idéias ortodoxas da tua palavra e a respeito do calvinismo clássico que tu nos legaste; nós, por ocasião das refeições, ficamos quietos: chegamos a bater palmas e a sorrir para mostrar nosso amor cristão, mesmo quando são proferidos discursos que nos criticam; aceitamos a Bíblia toda como palavra inspirada de Deus; estamos sempre aos pés dos líderes da Igreja para aprender deles como agir honesta, franca e desinteressadamente; saímos três ou mais vezes por semana para pregar a tua palavra, embora nosso estudo seja com isso prejudicado: contudo, teu sábio servo do passado já dizia que “o muito estudar é enfado da carne” — aliás o teu Espírito colocará nos nossos lábios a mensagem, mesmo que nada tenhamos estudado! Ó Deus, atenta para isto: somos fiéis servos e testemunhas da tua palavra aqui neste Seminário; para conseguirmos sê-lo chegamos até a desrespeitar as leis da Congregação, ó Deus, pois mandamos, por trâmites ilegais, um formidável manifesto aos crentes da tua igreja, condenando tudo o que de errado se passa aqui dentro, fora do nosso grupo, evidentemente; por amor à tua causa, ó Deus, chegamos ao ápice da ousadia e da coragem ao afirmar que as próprias autoridades que dirigem este Seminário não parecem estar em condições de agir com firmeza. Mas nós o estamos, ó Deus, e te agradecemos por isto.”

O resto todo o mundo sabe. Aquela criatura de tão excelentes qualidades, o fariseu da parábola de Jesus, não foi o que desceu para casa justificado, mas sim aqueles que era roubador, injusto e adúltero, aquele que era um pária moral na sociedade de sua época. Estranho, não? Mas real. No entanto seria bom perguntar por que o fariseu, que era o pietista, o legalista, o moralista, o ortodoxo da época de Jesus, não foi justificado. A razão parece óbvia, embora muitos não a queiram ver: o fariseu não foi justificado porque colocou como critério de sua auto-avaliação diante de Deus o seu próximo, o publicano. E, nestas circunstâncias, aferindo-se por um critério imperfeito, o fariseu jactou-se diante de Deus, orgulhou-se, e creu que poderia trazer nas mãos e apresentar diante de Deus algo de bom: o seu comportamento, o seu modo de agir, o seu zelo pelo cumprimento da lei divina. E não foi justificado embora praticasse atos muito bons em sua vida, se os considerarmos isolados de sua motivação e de seu contexto. Porque todas as vezes que nos avaliamos por critérios e padrões imperfeitos nos tornamos orgulhosos.

Às vezes este orgulho é disfarçado sob a capa de uma pseudo-humildade, sob palavras tais como estas: “Somos os primeiros a reconhecer nossa imperfeição, nosso pecado, nossas falhas, nossa pobreza espiritual, nossas deficiências em todos os sentidos, contudo…” (grifo meu). Não são, no entanto, nossas palavras a coisa que tem importância primária. É nossa atitude que, lhes subjaz, que é o primariamente importante. Mesmo que pronunciemos, em lágrimas e com o coração sangrando, palavras que falem a respeito de nossa humildade, se nossa atitude for a de um juiz apontando erros nos outros, não estaremos sendo humildes, mas orgulhosos.

Será bom perguntar porque sentimos um prazer imenso em apontar as falhas, erros e os defeitos dos outros, principalmente quando estes são pessoas mais preeminentes que nós, em outros setores, ou talvez no mesmo a que nos dedicamos. Porque no instante que fazemos isto podemos nos jactar e nos consolar intimamente, dizendo: “embora fulano seja melhor estudante que eu, embora se destaque mais em certos círculos, na hora em que souberam que ele faz isto e aquilo eu subirei na cotação do povo, mediante o rebaixamento do outro!” A raiz de todo mexerico, fuxico e de toda delação está nesse nosso desejo de nos compararmos com os outros e de ver neles falhas, e de torná-las ainda mais negras, através de generalizações precipitadas e de mentiras mesmo, porque assim teremos maior realce. Isto até me faz lembrar da história daquela ordem de monges, que nada mais tendo de que se orgulhar orgulhavam-se de sua humildade!

O erro do fariseu não foi fazer todas aquelas coisas. Foi comparar-se com o que não fazia, e julgar-se superior, julgar-se na condição de juiz do seu próximo. Todas as vezes que nos aproximamos de Deus auto-avaliando-nos por critérios imperfeitos nos tornamos orgulhosos, e nos sentimos no direito e em condições de apresentar a Deus alguma realização nossa, algo que nos conceda mérito diante dele. E todas as vezes que assim fazemos estamos sendo fariseus: mesmo que aquilo que estejamos apresentando a Deus seja a nossa fé, seja a nossa “ortodoxia”, seja a nossa conduta impecável!

O mérito do publicano estava em que, quando quis avaliar-se, não tomou para si critérios humanos, e, portanto, imperfeitos, mas colocou o próprio Deus como padrão de sua auto-avaliação. E porque assim agiu sentiu-se imediatamente arrasado. Não viu mérito algum em sua pessoa. Diante de Deus ele não era nada. Então, não podia orgulhar-se. Simplesmente não tinha de quê. Só pode dizer: “Ó Deus, tem misericórdia de mim, pecador”. E foi justificado.

Como esta parábola deve ter chocado os ouvintes de Jesus! Como aquela crítica tremenda aos “santos” e “justos” fariseus, aos “ortodoxos”, e a setença de que o publicano havia sido justificado deve ter arrasado os ouvintes de Jesus! Justamente o publicano, que não era apenas “modernista e liberal”, mas HEREJE! No entanto, o impacto que a parábola causou nos ouvintes de Jesus foi esquecido e hoje a parábola não faz parte da Bíblia de muita gente tida por aí como exemplo de santidade.

Finalmente uma palavra aos “quinze”: o que fazeis, vós os que assinastes o manifesto, com textos tais como este (Lucas 18:9:14)? Simplesmente o ignorais? Por diversas vezes já tenho ouvido a acusação de que nós, os “modernistas”, recortamos a Bíblia, para fazer nossa exegese ou formular nossas doutrinas. Será que é verdade? Ou, em última instância, será que é toda a verdade? Porque o que posso perceber é que vós, os conservadores e “ortodoxos”, também a recortais, não através da exegese, mas através do vosso comportamento, através de vossas vidas! E, em assim fazendo, vos tornais mais liberais do que os próprios. Quero crer, no entanto, que assim o fazeis ignorantemente e não de espírito premeditado. Quero, com sinceridade, crer que é inconscientemente que extraís de vossas Bíblias, em vossa vida e através de vossa conduta, textos tais como o acima mencionado, que não é o único. Ou será que não percebestes que a vossa atitude em fazendo o manifesto que fizestes, não permite que a Parábola do Fariseu e do Publicano continue mais em vossas Bíblias? O mesmo se dá com textos tais como Mat. 7:1 sqq; Tiago 4:11-12 e outros.

Minha opinião particular é que fostes, a maioria de vós os “quinze”, ingênuos simplesmente. Não pudestes perceber as dimensões do que fizestes. Os outros, os  “não-ingênuos” que vos manipularam, não passam também de ingênuos nas mãos de outros menos ingênuos do que eles. Quando tiverdes adquirido um pensamento crítico e uma capacidade independente de avaliar as coisas, o que se dará do segundo ano em diante, embora haja alunos que já cheguem aqui com estas qualidades, então podereis observar o quanto fostes insensatos. E vos arrependereis muitíssimo. Pois então vereis porque as vossas expectativas de ter 2/3 dos alunos ao vosso lado (correspondentes ao I e II ano somados), expectativas estas bastante vivas no início deste ano, vieram a falhar, e sois apenas quinze em uma comunidade de quase oitenta. Tendes apenas dois do segundo ano em vosso meio. Os outros “abriram os olhos” (o que não significa que tenham se tornado “modernistas” – apenas perceberam quão estreitos sois). Então (quando adquirirdes um espírito crítico mais aguçado, na pressuposição de que este Seminário vai ajudar-vos a aguçá-lo), vereis porque é que um professor que luta ano a ano para ver seu circulo de influência crescer não consegue, cada ano, fazer com que sua influência abranja senão um pequeno número de calouros. Seu contato influente com os alunos termina em três semestres. Vereis porque de professor de mais ou menos cinco matérias veio ele a lecionar apenas uma, presentemente. Mas é somente o tempo que vos poderá mostrar isto. É com paciência que espero que ele e o Espírito Santo (por que não?) realizem o seu trabalho.

Para se aquilatar a distância que separava pai e filho, eis a carta que meu pai escreveu ao meu colega Evandro Luiz da Silva, signatário do Manifesto dos Quinze, e, por um tempo, muito admirado por meu pai (depois se desentenderam):

Esta carta, dirigida a você e extensiva aos seus colegas que assinaram  aquele manifesto, é para dar-lhes o meu apoio  integral e o meu grande abraço pela coragem, pela firmeza, e pela sinceridade que vocês demonstraram naquele brado de alerta. Graças a Deus, nem tudo está perdido. Estava faltando justamente isso que vocês revelaram naquele papel, estava faltando uma denúncia corajosa contra o atual estado de coisas no Seminário, mas uma denúncia partida aí de dentro, mesmo, de alunos que vivem aí e sentem o drama em suas próprias carnes. Quando os de fora acusavam, eram taxados de exagerados, de ignorantes da vida do Seminário, de inimigos dos alunos. Mas agora vocês fizeram o que já deviam ter feito há muito tempo: Deram o alarme! E esse alarme irá despertar a Igreja Presbiteriana e estimular outros alunos que devem estar sentido o mesmo nos outros Seminários. Sei que vocês irão sofrer com a atitude que tomaram, irão ser mal compreendidos, até por alguns de seus próprios Presbitérios. A acusação é tão forte (e diz a verdade) que muitos não acreditam, porque uma grande parte do ministério não sabe o que se passa aí na ex-Casa de Profetas. Vocês sofrerão, mas tenham coragem: vocês não estão sozinhos. Continuem firmes, e Deus os abençôe. O abraço do amigo e companheiro de lutas, Oscar Chaves, pastor da Igreja Presbiteriana de Santo André.

PS. A única nota triste daquele manifesto, para mim, é não estar lá a assinatura do meu filho.

O artigo “Parafraseando” lança várias farpas contra o mentor dos “Quinze”, o Rev. Waldyr Carvalho Luz. É ele o “rabi” mencionado na frase “Nós fazemos reunião de oração diariamente, ocasião em que um rabi nos instrui a respeito das idéias ortodoxas da tua palavra e a respeito do calvinismo clássico que tu nos legaste”.

Também é o Rev. Waldyr o presumido “não-ingênuo” (deliberadamente entre aspas) que manipulou os “Quinze”, mas que estava sendo manipulado pela direção da Igreja, a quem eu acuso, quando digo: “Minha opinião particular é que fostes, a maioria de vós os ‘quinze’, ingênuos simplesmente. Não pudestes perceber as dimensões do que fizestes. Os outros, os  ‘não-ingênuos’ que vos manipularam, não passam também de ingênuos nas mãos de outros menos ingênuos do que eles.” (Alguns anos depois, o próprio Rev. Waldyr seria expulso do Seminário, junto com o Rev. Américo Justiniano Ribeiro).

Também é ao Rev. Waldyr que faço menção quando digo: “Então (quando adquirirdes um espírito crítico mais aguçado, na pressuposição de que este Seminário vai ajudar-vos a aguçá-lo), vereis porque é que um professor que luta ano a ano para ver seu circulo de influência crescer não consegue, cada ano, fazer com que sua influência abranja senão um pequeno número de calouros. Seu contato influente com os alunos termina em três semestres. Vereis porque de professor de mais ou menos cinco matérias veio ele a lecionar apenas uma, presentemente.”

A única disciplina que o Rev. Waldyr acabou lecionando no Seminário era Grego — uma matéria na qual era excelente professor, mas que era desprovida de maior conteúdo teológico, e, portanto, não suscitava muita controvérsia (exceto pelo método do professor, que teve que ser revisado várias vezes, especialmente no tocante às suas famosas “topadas”, ou provas sem data marcada). Enquanto eu estudava no Seminário a Congregação tentou atribuir-lhe a disciplina “Exegese do Novo Testamento”, mas os alunos se recusaram a tê-lo como professor.

Em sua autobiografia o Rev. Waldyr dá sua própria versão desses fatos. Procura explicar-se e até certo ponto defender-se da acusação, nunca no texto explicitada, de que seu comportamento foi no mínimo incoerente. Foi inicialmente o paladino e o maior defensor das mudanças que a Igreja procurava realizar dentro do Seminário. Quando as mudanças finalmente o alcançaram, virou repentinamente crítico da administração, passou de telhado a estilingue, assumiu posturas de oposição.

No que me diz respeito, sempre usou sua famosa retórica para (do seu ponto de vista) atacar-me, sem jamais explicitar o meu nome. Eis, por exemplo, um outro incidente que ele relata a meu respeito:

Boa amostra do espírito desse aluno [o editor do jornal] dá-o o seguinte fato. A Editora da tradução do NOVO DICIONÁRIO DA BÍBLIA para o português pediu-me fazer a concatenação dos itens compostos para impressão. Como eu não dispunha de tempo para esse trabalho, sugeri algum seminarista. Autorizado pela editora, consultei o referido escrivinhador, moço inteligente, de bom preparo, competente para esse mister. Quis saber primeiro quanto lhe pagariam. Quando lhe disse qual a remuneração prevista, ele que estava em férias, com muito tempo disponível, apesar de tratar-se de livro importante para o povo crente, respondeu que por esse preço não faria o trabalho. Procurei, então, outro seminarista, Célio João Duarte, modesto, firme de convicções, piedoso e consagrado, que, ao dizer-lhe da gratificação oferecida, se prontificou a fazê-lo de graça para ajudar a Igreja, aceitando a custo o minguado pagamento proposto. Não pude deixar de contrastar a atitude dos dois: aquele, avançado de idéias, defensor dos postulados sociais, argentário e ambicioso, a preocupar-se com o dinheiro, este, conservador de pensamento, fiel à doutrina da Igreja, dominado pelo espírito de servir à Causa, desprendido e indiferente a recursos materiais. Era incontestável evidência do espírito diferente gerado pelas duas posições teológicas antagônicas. E enquanto este entrou para o ministério, pastor fiel e dedicado que o tem sido, aquele ‘arripiou carreira’ e hoje parece nem religião ter!

Devo deixar aqui registrado que, em todo esse processo, o Rev. Waldyr, não sei se em respeito ao meu pai, ou em consideração à “promessa intelectual” que, para ele, eu representava, sempre me tratou, no nível pessoal, de forma extremamente cortês, naquela época e depois. O mesmo não posso dizer de sua esposa, Da. Amélia Luz, que, um dia, na saída da Escola Dominical da Igreja do Jardim da Guanabara, que funcionava no prédio do Seminário, investiu contra mim, tirando satisfações pelas críticas que fazia ao seu marido, falando aos gritos e criando um verdadeiro escândalo no pórtico do Seminário. Que me lembre, não lhe disse nada, em resposta. Sempre tive receio de altercações verbais públicas, preferindo, consistentemente, a via escrita para debater. (Recentemente, neste ano de 2006, por ocasião do enterro de minha tia, Alice de Campos Sanvido, encontrei Da. Amélia Luz, que me tratou de forma cortês).

Voltando para 1966, eu pretendia publicar um quarto número de “O CAOS em Revista” no mês de Junho — no dia 18, para manter a regularidade. Esse número não saiu. Explico porquê.

No fim de Maio e início de Junho percebi que a história ia acabar mal. A situação política do país prenunciava um endurecimento político, e, dentro da Igreja, parecia certa a vitória do candidato da reação, Rev. Boanerges Ribeiro, que fazia campanha de Norte a Sul do Brasil, prometendo, entre outras coisas, “limpar” (ou “salvar”) os Seminários.

O Manifesto dos 15 começava a surtir efeito também. Algumas Igrejas, entre elas uma de Belo Horizonte e outra do Presbitério de Rio Claro, ajudaram a espalhar o Manifesto pelo Brasil, como prova de que precisava ser eleito um Presidente do Supremo Concílio que tivesse, como parte de seu programa, a “salvação” do Seminário. O circo estava armado.

A Congregação do Seminário apertava o cerco. Embora, em sua reunião de 19 de Abril, a Congregação houvesse decidido não se manifestar sobre o conteúdo dos dois primeiros números de “O CAOS em Revista”, apenas remetendo a questão ao meu Presbitério, depois do número de Maio ela se reuniu novamente e decidiu “reprovar energicamente” as matérias publicadas. Além disso, numa reunião da qual infelizmente não tenho a ata, mas cujo teor me foi oficialmente comunicado, a Congregação deu ordem explícita e inequívoca ao CAOS para não publicar mais nenhum “O CAOS em Revista”, ou equivalente, sem o visto escrito do Reitor ou do Deão. Por fim, o Redator recebeu, pessoalmente, uma repreensão enérgica pela matéria dos três primeiros números e foi advertido de que seria exemplarmente punido por indisciplina no caso de reincidência.

Eu, com meus jornais, acabara por tornar-me o estopim da crise do Seminário de Campinas. Certamente não seria poupado em hipótese alguma. Assim sendo, saí a procurar emprego. Fiz um teste na Bêndix e, no dia 13/6, na Bosch, que me chamou em seguida. Comecei a trabalhar dia 20/6 — por ora ainda mantendo meu quarto no dormitório do Seminário. Como comecei a trabalhar no final do último mês do primeiro semestre, não me vi forçado a tomar nenhuma decisão. Resolvi, até certo ponto, deixar os fatos se desenrolarem por si mesmos.

Preparei, entretanto, um Editorial para o quarto número de “O CAOS em Revista”, que deveria sair em 18 de Junho (para manter o cronograma previsto) e que teria apenas um Editorial, que explicasse o que vinha ocorrendo, e uma seção do livro A Formação da Mentalidade, de James Harvey Robinson, então bastante popular aqui no Brasil, que eu considerava relevante para o entendimento do que estava acontecendo. É este o Editorial que escrevi:

Ainda um “O CAOS em Revista”. O último deste semestre. Os leitores já acostumados à sua leitura talvez notem que, neste número, “O CAOS em Revista” está um pouco diferente, em seu conteúdo, dos números anteriores: está menos vivo. Motivos vários contribuiram para que isso se desse, dentre os quais a falta de tempo do Redator e a falta de colaboração dos colegas no sentido de enviarem artigos, traduções, poesias, etc., para serem publicados.

Outro motivo ainda, a ser notado, é a ordem explícita e inequívoca da Congregação do Seminário Presbiteriano do Sul, que determinou que nenhum “O CAOS em Revista”, ou equivalente, fossem publicado sem o visto do Senhor Reitor ou do Senhor Deão. Esta ordem explícita, acrescentada da reprovação enérgica feita ao Redator, pela matéria contida nos três primeiros números do jornal, e da ameaça de punição por indisciplina em caso de reincidência, esclarecem, sem possibilidade de equívoco, a posição da Congregação e a posição que ela nos reserva. (Observe-se que os dois primeiros números do jornal foram julgados duas vezes pela Congregação. Na primeira vez, ela decidiu não opinar sobre eles, enviando-os ao Presbitério do Redator. Na segunda vez, por razões ignoradas, decidiu reprovar a matéria sobre a qual em vez anterior havia se omitido).

O campo que a Congregação nos permite abranger, contudo, torna-se demasiado restrito quando notamos que ela considera a matéria contida no terceiro jornal fora da competência e do direito de manifestação de um jornal do corpo discente. Torna-se difícil, pois, formular um jornal em que tratar de problemas que diretamente afetam a vida de todos os alunos é considerado “fora da competência” de um jornal de alunos.

Assim sendo, resolvemos, em protesto, transcrever uma seção (Seção 4, no Capítulo II) do livro A Formação da Mentalidade, de James Harvey Robinson. Se o trecho que será transcrito for lido em seqüência aos três primeiros números do jornal, poderá comunicar uma mensagem bastante relevante. É o que esperamos.

A matéria que seria transcrita do livro de Robinson procurava mostrar que a maior parte das pessoas não aceita as idéias que tem em função de exame crítico, mas, sim, em função das circunstâncias que se encontra. Aqui estão algumas passagens importantes:

Somos incrivelmente descuriosos da formação das nossas crenças, mas por elas nos enchemos de amor quando no-las querem roubar. Torna-se óbvio que não são propriamente as idéias que nos são caras, sim o nosso amor próprio. . . .

Gostamos de continuar a crer no que nos acostumamos a aceitar como verdade, e a revolta sentida quando duvidam das nossas verdades estimula-nos a ainda mais nos apergarmos a elas. O resultado é que a maior parte do chamado raciocínio humano consiste em descobrirmos argumentos para continuarmos a crer no que cremos.  . . .

Esta distinção entre “boas” e “reais” razões é das mais importantes nos domínios do pensamento. Podemos de pronto dar o que chamamos as nossas “boas” razões para sermos católicos ou maçons, republicanos ou democratas, amigos ou inimigos da Liga das Nações. Mas as razões “reais” ficam em outro plano. Não há dúvida que a importância desta distinção é notória, embora obscura. Um missionário batista concorda prontamente em que o budista não é budista por conseqüência do cuidadoso estudo que fêz dessa crença, mas simplesmente porque nasceu numa família budista de Tóquio. Mas considerará ofensivo à sua fé reconhecer que a sua parcialidade para com certas doutrinas provém de ter tido ele uma progenitora afiliada à igreja batista de Pudlebuyry. . . . Mas nem um nem outro perceberá por que motivo está defendendo as suas opiniões pessoais.

As razões “reais” das nossas crenças vivem ocultas des nós mesmos, tanto quanto dos outros. À medida que crescemos, muito naturalmente vamos adotando as idéias ambientes relativas à religião, às relações de família, à propriedade, aos negócios, ao governo. Absorvêmo-las, de tanto ouvi-las zumbir em torno de nós, no seio do grupo em que vivemos. Ademais, como Totter notou, essas idéias, como produto da sugestão e nunca do raciocínio, possuem o característico de parecerem perfeitamente óbvias. . . .

Este espontâneo e leal apoio aos nossos preconceitos — este processo de descobrir “boas” razões para justificá-los — recebe dos cientistas modernos o nome de “racionalização” — palavra nova para coisa muito velha. Nossas “boas” razões nada valem para o honesto esclarecimento de um assunto, porque, por mais solenemente que sejam apresentadas, não passam, no fundo, de resultados de preferências pessoais, ou preconceitos, não refletindo nenhum sadio desejo de acertar. . . .

O fato de uma idéia ser antiga e largamente espalhada não constitui argumento a seu favor, mas sim argumento para que tal idéia seja estudada e testada, a fim de verificarmos se não passa de mera racionalização.

O Reitor e o Deão não aprovaram nem o Editorial nem a matéria a ser transcrita do livro de Robinson — e o jornal abortou.

Preparei ainda um quinto número do jornal, para ser publicado dia 18 de Agosto, mas com o aborto do número anterior, o quinto, evidentemente, não viu a luz do dia: fui expulso da instituição antes.

Era o seguinte o edital daquele número:

Temos em mãos o que seria “O CAOS em Revista” do mês de Junho, mas que não o foi, por causa do aborto que sofreu. O Editorial, que naquela ocasião escrevemos, procurava dar um relato sucinto dos acontecimentos que culminaram na colocação, naquela oportunidade, de “O CAOS em Revista” sob a tutela da Congregação do SPS [Seminário Presbiteriano do Sul], fato este que, por sua vez, ocasionou o aborto mencionado.

Um tempo relativamente longo decorreu desde então. Vivemos em outro contexto: temos outro Reitor, temos outro Presidente no Supremo Concílio. A cúpola que dirigia os destinos da IPB [Igreja Presbiteriana do Brasil] foi trocada. Há uma nova direção.

Todos estes acontecimentos, todas estas mudanças, toda esta “renovação”, pareceriam ser sinais de que a IPB rejuvenesce, reforma-se, atualiza-se, sofre uma renovação, no verdadeiro sentido do termo, sem as aspas indispensáveis ao emprego anterior da palavra. Mas, todos sabemos, isto não é verdade. A IPB preferiu, através da maioria dos representantes presentes ao Supremo Concílio, dar-se um outro rumo: o de lutar, em pleno século de viagens interplanetárias e de armas nucleares, como se fosse “remanescente de uma época de cavalaria”, para usar a apta imagem de Dietrich Bonhoeffer [em Letters and Papers from Prison], isto é: usando uma linguagem que não é a nossa do século XX; valendo-se de meios de ação que mais se assemelham aos da Idade Média; pregando idéias que há um século já eram tidas como desatualizadas, anacrônicas, conservantistas, vetustas; empregando métodos de pressão e repressão que nos fazem lembrar a Santa Inquisição Medieval; sendo dirigida por uma cúpola que, no seu totalitarismo, faria Hitler tremer de inveja no túmulo; expressando-se através de um órgão oficial que nada fica a dever aos periódicos do Rev. Raphael Camacho e do Mr. Robert Rapp! A IPB chegou a este ponto. Ou, melhor dizendo, permitiu que a conduzissem a este ponto.

Lembro-me de uma frase de Goethe, lida algures, que diz: “Muitos preferem morrer a pensar”. Na minha opinião, esta frase explica a razão de ter a IPB se deixado levar à situação em que se acha: “Muitos preferem morrer a pensar”. A IPB já sofre, agora, e vai sofrer muito mais ainda, os resultados da “preguiça intelectual” daqueles aos quais se delegaram poderes para decidir a respeito dos destinos da Igreja. Isto porque, enquanto a maioria prefere morrer a pensar, há aqueles, poucos e raros, que quase morrem de pensar para descobrir meios de manipular a maioria não-pensante, a fim de que esta venha a servir a seus objetivos pessoais, egoístas, de “will to power”. E o resultado, trágico, mas inevitável, a menos que os não pensantes se decidam a pensar por si, é que, muitas vezes, uma pessoa, que se proponha este alvo, consegue manipular uma multidão, quase sempre de boa fé, levando-a a satisfazer às suas aspirações (suas, bem entendido, do manipulador). É mais fácil, realmente, deixar que os outros pensem por nós; que nos ditem o que fazer; que decidam quais destinos devam ser os da Igreja; quais normas devam regê-la; quais doutrinas devam ser sua confissão. É o caminho mais fácil, o “caminho largo”, mas aquele que leva à negação completa do dom da inteligência.

“Contudo”, talvez diga alguém, “o prezado jovem está se esquecendo de algo muito importante: foi o Espírito Santo que fêz com que se deliberasse em Fortaleza como foi deliberado. Ou será que o irmão é dos ‘modernistas’ que não crêem no Espírito Santo?” Sim, muitos já disseram isto, e não só uma vez. E é aqui que se situa, no meu entender, a maior heresia dos “situacionistas” presbiterianos de hoje: a heresia de fazer a vontade soberana, ilimitada, perfeita de Deus identificar-se com sua finita, limitada, imperfeita, egoísta e pecaminosa vontade, a heresia de cercear os limites da ação divina, a heresia de orientar o Espírito Santo em lugar de procurar dele genuína orientação, a heresia de buscar Deus apenas como um meio útil na aquisição de um determinado objetivo e não como um fim em si, a heresia de colocar doutrinas e normas de conduta em nível superior à vontade específica de Deus para o nosso hic et nunc, a heresia de fazer com que a mensageira se torna mensagem, a heresia de tornar a serva maior do que o seu Senhor!

Parece que exagero. Provo, contudo. Tenho em mãos uma carta escrita pelo Conselho da IP [Igreja Presbiteriana] de Belo Horizonte, data de 2 de julho, quase dez dias antes do Supremo Concílio — carta esta para cuja elaboração um de nossos colegas, especialmente chamado a Belo Horizonte, emprestou sua valiosa cooperação! A carta, que deveria ser enviada a todas as Igrejas Presbiterianas do Brasil, acompanhada de uma cópia do “Manifesto dos 15”, reimpresso por aquela Igreja, denuncia em alto e bom som a “orientação modernista que os nossos Seminários vêm dando aos seus alunos [oxalá!], nossos futuros pastores”. Depois de analisar a situação, o referido Conselho, encabeçado pelo Rev. Wilson de Souza, faz as seguintes sugestões aos Conselhos das Igrejas às quais se destina a carta:

“a) Ore e convide outros irmãos a orarem, pedindo a Deus uma solução certa para o problema, promovendo, se possível, reuniões de oração com esta finalidade.
. . . . .
c) Telegrafe AGORA e peça a outros irmãos para telefonarem HOJE ao Presidente do Supremo Concílio, solicitando solução urgente para os problemas dos nossos Seminários”.

Até aí compreende-se. A aberração, contudo, vem depois, quando a carta continua:

“Esses telegramas poderão ter redações, mais ou menos, como estas:

— ‘Solicito SC tome providências enérgicas contra modernismo reinante nossos seminários’.
— ‘IP de (nome da cidade) espera que SC promova expurgo modernistas que atuam em nossos seminários’.”

Mais do que em qualquer outro lugar, aqui se faz presente a heresia atrás mencionada. Aconselhava-se a orar, pedindo a Deus a solução do problema. Para que orar, entretanto, se a solução já estava decidida, como bem o expressam os “telegramas-padrão”. Ei-la, clara, insofismável: EXPURGO dos que conosco não concordam. Esta solução já estava pronta, já havia sido tomada muito antes do Supremo Concílio. E do mesmo modo todas as outras. Aqueles belos apelos feitos pelo agora Presidente do Supremo Concílio, através de sua imprensa privada, para que a Igreja orasse, pedindo que o Espírito Santo orientasse o Supremo, eram desnecessários. As principais decisões e soluções já estavam no bolso de seu colete, Deus sabe já há quanto tempo! Uma prova inequívoca disto é o fato de ter sido designado relator da Comissão que iria estudar os problemas dos Seminários, ninguém menos do que o Rev. Wilson de Souza, o capacho atrás mencionado, que já se demonstrara parcialíssimo e preconcebido em relação ao problema. E a arbitrariedade acompanhou todas as outras decisões. Pobre Espírito Santo! Invocaram-no tanto, mas manietaram-no, cercearam-lhe a ação. Talvez tivesse ele uma outra solução para os problemas, talvez ele não fosse tão conservador quanto se dizem ser os atuais chefes da Igreja, mas seu parecer não foi aceito, talvez por ter sido expresso por alguém da ala contrária, talvez por não se identificar com os moldes dos “telegramas-padrão” e com os planos do partido vitorioso.

E assim caminha o tempo. A história, contudo, saberá passar seu julgamento (além de Deus que será bem capaz de passar o seu) sobre este negro período na vida da IPB. Enquanto, porém, o futuro não vem, para apresentar os vários aspectos e matizes da situação, é dever nosso, ao qual não nos podemos escusar, levantar uma voz profética contra o estado de coisas em que nos encontramos. “O CAOS em Revista” sempre se dispôs a isto. O artigo de Tristão de Athayde reflete o conflito das gerações. O de Alvino Alves, mais específico, é muito oportuno ao caracterizar a ortodoxia conservadora. “O Pequeno Inquisidor”, colaboração anônima, recebida pelo Correio, ataca o problema ainda mais específico da “inquisição” que nos visitou aqui.

O Redator aproveita para comunicar que deixará o cargo, a partir do próximo número, em virtude de seu desligamento do Seminário, a partir de 5 de Setembro até o final do ano. Agradece a colaboração, o estímulo, e o incentivo que recebeu durante o tempo que dirigiu o jornal, e coloca-se, mais do que nunca, ao lado daqueles que, cientes de sua responsabilidade para com Deus e os homens, para com o homem do século vinte, procuram evitar que a Igreja se torne mais uma relíquia, entre outras, dentro de nossa história. Agradece ainda àqueles que programaram este número, e o realizaram, sem os quais ele não sairia.

E até breve.

O até breve foi um até nunca mais.

Com exceção dos signatários do Manifesto dos 15, nenhum dos demais alunos do Seminário pode se matricular normalmente no segundo semestre de 1966. Para ter direito à matrícula, os alunos teriam de assinar um documento em que se comprometiam a se comportar, em doutrina e comportamento, como o Seminário exigia. Para sua honra, nenhum o fez. Assim, fomos todos literalmente expulsos do Seminário Presbiteriano de Campinas em Agosto de 1966.

Em 8 de Setembro daquele ano, o funesto ano de 1966, não houve celebração no Seminário. E o CAOS não jogou futebol contra ninguém: o CAOS havia sido fechado. Pensaram que com isso acabaria o caos. Não acabou. 

Em Campinas (ainda!), 8 de Setembro de 2006 

Quarenta anos depois do CAOS: 1966-2006 (II)

[DUAS NOTAS ACRESCENTADAS POSTERIORMENTE, EM 2015:]

Quem preferir ler em um artigo só os três artigos que compõem esta trilogia intitulada “Quarenta Anos depois do CAOS: 1966-2006” pode optar por lê-la (a trilogia) em meu outro blog, biográfico, Autobio Space, neste URL:

https://autobiospace.wordpress.com/2015/11/07/quarenta-anos-depois-do-caos-1966-2006/.

Quem preferir ler apenas os artigos escritos por mim em 1966, sem o histórico e os comentários acrescentados em 2006, pode consultar “O CAOS em Revista: Editoriais e Artigos de 18/3/1966 a 18/8/1966 (alguns censurados)”, no meu blog Autobio Space, neste URL:

https://autobiospace.wordpress.com/2015/11/07/o-caos-em-revista-editoriais-e-artigos-de-1831966-a-1881966-alguns-censurados/.

o O o 

– Continuação do artigo anterior –

Eis a versão do caso dada pelo Rev. Waldyr Carvalho Luz, em sua autobiografia:

Eu encontrava séria resistência e era indisfarçada a má vontade para comigo da parte da maioria dos alunos e de certos professores. Assim é que ao criticar um sermão pregado pelo seminarista Floramante [sic] Dias Gonçalves, elemento sério, firme, um dos poucos que se me revelavam amigos, eu o louvei pelo teor edificante da mensagem e pelo fato de não ceder aos pressupostos críticos que negariam a historicidade do profeta e do livro, dizendo eu que tais críticos achariam até “chifres em cabeça de cavalo”. Essa afirmação minha irritou profundamente os “doutos” adeptos da mentalidade liberal-modernista e, na manhã seguinte, circulava um jornaleco ou folhetim do famigerado CAOS (Centro Acadêmico Oito de Setembro), o grêmio dos estudantes, em que um seminarista que viera para o Seminário muito crente e piedoso, filho de consagrado pastor meu contemporâneo de Seminário, agora um dos mais virulentos corifeus da nova linha de pensamento, derramava todo o seu amargo fel em insultuoso artigo contra mim e minha posição teológica. O folhetim não publicaria defesa minha, já que era privativo dos estudantes. A Congregação, fugindo a suas responsabilidades, não tomou medida alguma contra o deselegante rabiscador de inuendos e agravos. Eu, porém, em nada me abalei com esse proceder, seja do estudante, seja da Congregação.

A Congregação, na realidade, determinou ao Reitor (o pacato Rev. Júlio Andrade Ferreira, por quem tive enorme estima pessoal até que faleceu, recentemente), que apreendesse a edição do jornal – o que ele constrangidamente fez (porque, entre outras coisas, também era amigo de meu pai e de minha mãe), mas não antes de havermos distribuído mais de 200 cópias e escondido outras tantas.

O Rev Waldyr, oficiosamente e por iniciativa própria, e certamente com a melhor das intenções (concedo-lhe isto), chamou meu pai a Campinas, mostrou-lhe o artigo, e disse-lhe que, não fora a consideração a ele, meu pai e tutor, eu poderia ter sido suspenso ou mesmo expulso do Seminário incontinenti – no que certamente exagerava. Lembro-me bem de que assistia a uma aula de Alemão, à noite, no Instituto Goethe, no centro da cidade, quando vi meu pai parado perto da porta, do lado de fora. Pensei que minha mãe houvesse morrido, ou que algo igualmente grave houvesse acontecido. Peguei minhas coisas e saí da aula. O assunto era o artigo. Fui severamente repreendido pelo pai e ameaçado de perder a bolsa de estudos por ele, enquanto meu tutor eclesiástico (que era). De nada adiantou argumentar. As linhas da batalha estavam definidas.

Voltei para o Seminário naquela noite e quase não dormi. Na noite em claro refleti sobre tudo o que estava acontecendo e tomei a decisão de seguir a minha consciência, que de nada me acusava, e que me lembrava de que mais vale lutar para preservar e ampliar as liberdades que temos do que depois lastimar o seu cerceamento ou mesmo a sua extinção.

Nesse estado de espírito fiquei sabendo, através de um dos colegas (não me lembro quem), que teria sido o meu pai (e tutor), na conversa que teve com o Rev. Waldyr, quem teria recomendado a minha expulsão do Seminário. Liguei para o meu pai para interpelá-lo e verificar a veracidade da informação. Foi uma conversa tensa, que o deixou extremamente preocupado, a tal ponto que ele me enviou, bastante tempo depois, em 30 de abril, um relato escrito do que teria sido a conversa dele com o Rev. Waldyr. Passo por cima do relato por ser muito longo.

Nos dias seguintes à conversa com meu pai, sentei-me à maquina de escrever e escrevi o Editorial do segundo número do jornal, relatando o que acontecera com o primeiro e protestando contra o empastelamento determinado pela Congregação e executado, creio que a contragosto, pelo Reitor. Inspirei-me em Da Liberdade, de John Stuart Mill. Afinal, não estava desobedecendo a nenhuma ordem superior, porque a resolução da Congregação, determinando a apreensão do primeiro número, não havia proibido a publicação de um segundo, nem a discussão do que havia acontecido.

Publicado o segundo número do jornal, em 18 de Abril de 1966, a pancada veio mais forte. O segundo número do jornal também foi apreendido e a Congregação agora determinou que os estudantes nada publicassem sem a prévia censura da Congregação. Eis o editorial-artigo, chamado “Ainda Jonas”, que foi o carro chefe do número:

No número anterior, primeiro de nosso jornal, procuramos, em um artigo que teve um Sitz im Leben de todos conhecido, dizer algumas palavras sobre o livro de Jonas. Naquele ocasião dissemos que o livro tinha uma mensagem ainda hoje relevante, pois era “uma voz profética e uma permanente advertência contra tudo o que estreita e particulariza a religião, e contra todo exclusivismo religioso”. Nosso interesse hoje é assinalar a relevância e o oportunismo desta mensagem no contexto imediato em que nos encontramos, a saber, na vida da IPB.

Vimos, no artiguete passado, que a mensagem de Jonas foi um brado de protesto contra o nacionalismo particularista dos judeus que se consideravam detentores únicos e exclusivos da divina graça, e que, assim fazendo, limitavam à ação de Deus à nação política Israel. Deus estava cercado dentro dos limites políticos da nação. Qual a relação que isto pode ter com a IPB? A relação é que, ainda hoje há o grupo que se considera detentor exclusivo e único da graça divina, grupo este que, assim fazendo, procura limitar a ação de Deus, não a uma nação política, mas a um círculo ideológico, que procura cercar Deus, não dentro de limites políticos, mas de limites ideológicos.

Concretizamos: aqueles que, no seio da IPB, estão preocupados em tirar do seu caminho todos os que não concordarem em gênero, número e caso com os padrões rígidos de sua “ortodoxia” superada estão praticando o mesmo tipo de exclusivismo religioso (senão pior) praticado pelos judeus aos quais foi dirigida a mensagem do livro de Jonas. Estas normas “ortodoxas” têm se tornado os limites cerceadores da ação de Deus. Quem delas se afastar — dizem, ou se não dizem assim o entendem, pois suas atitudes o comprovam — afasta-se do próprio Deus, e então não é digno de permanecer na IPB. Precisa ser expurgado (palavra, por eles, estimadíssima!).

Vimos, contudo, no artigo passado, que quando o homem estabelece limites que particularizam e estreitam a órbita da ação de Deus o próprio Deus encontra um meio de arrasar com essas pretensões do coração humano. As obras do autor de Jonas e de Deutero-Isaías são em Israel  evidências típicas disto. Foi porque os israelitas não atentaram ao fato de que Deus queria quebrar (como de fato quebrou) estas barreiras particularizantes que foram por Ele rejeitados.

É conscientes desta verdade que levantamos a nossa voz em protesto contra a estreiteza de mente de alguns dentro da IPB para os quais até opinião é delito, para os quais a livre expressão do pensamento é causa suficiente para expurgo! Como é mais fácil lutar para manter as liberdades que já temos do que lutar para reconquistar as liberdades perdidas, “O CAOS em Revista” se dispõe, em suas páginas, a dar livre expressão ao pensamento dos alunos. O número presente é exemplo disto. Não podemos permitir que nos tolham a liberdade de termos os nossos próprios pensamentos e o livre direito de expressá-los. É esta a base da democracia. É esta a base do regime presbiteriano. Em sua obra Utilitarianism, Liberty and Representative Government (New York: Dutton, 1910, p.79) John Stuart Mill faz notar, com toda razão, que silenciar a expressão de uma opinião é roubar a raça humana, tanto a geração presente como a posterior, sendo ainda mais prejudicados os que discordam do que os que mantêm a opinião, pois, se a opinião é correta, aqueles que dela discordam estão perdendo a oportunidade de trocar o erro pela verdade, e, se é errada, os dela discordantes perdem o grande benefício de adquirir uma percepção mais clara e mais viva da verdade, proveniente de sua colisão com o erro. Se as idéias que temos expresso e, esperarmos, continuaremos a expressar através deste jornal não são verdadeiras e são perniciosas, não vingarão, pois a melhor maneira de destruir uma idéia falsa é expô-la! Quem estiver com a verdade não precisa temer idéias, por mais estapafúrdias que sejam, pois terão com que refutá-las, através de um franco diálogo. Aqueles que se crêem portadores de idéias verdadeiras, se querem mantê-las, devem torná-las continuamente relevantes, e não impedir que novas idéias apareçam e sejam disseminadas.

Aquilo que tem sido considerado como delito, isto é, a apresentação de idéias que não se harmonizam inteiramente com os padrões oficiais, o delito de opinião, é um crime que devemos praticar diariamente, sob quaisquer riscos. Se deixarmos de ser “criminosos” neste campo, estaremos roubando as gerações passadas que lutaram, até o sangue, para obter as liberdades de que somos herdeiros, a geração presente que estará tendo sua voz sufocada e reprimida, e a geração futura que sentirá que uma geração deixou de realizar o seu papel na história!

Neste espírito e com este alvo é que “O CAOS em Revista” sai, exatamente um mês depois do primeiro, em seu segundo número.

O Rev. Waldyr novamente contatou meu pai para informá-lo do ocorrido. Com meu pai, nova conversa difícil. Meu pai relutava em acreditar que eu estivesse agindo de moto próprio. Em uma atitude que mais do que tudo ofendia os meus brios, ele achava que outros estavam me usando e que eu estava apenas servindo de “inocente útil”. É difícil discutir quando o outro lado acredita que você é apenas porta-voz daqueles que preferem ficar não-identificados, para não se arriscar.

A comunicação do Seminário com o meu pai deixou, no mês de Maio, de se fazer apenas de forma oficiosa, por intermédio do Rev. Waldyr. Em 11 de maio de 1966, o Rev. Júlio Andrade Ferreira, Reitor do Seminário, escreveu, a meu pai e tutor, uma carta, para comunicar a decisão tomada pela Congregação vinte e dois dias antes. Eis a carta:

Campinas, 11 de maio de 1966

Rev. Oscar Chaves
Cx. 626
Santo André, SP

Prezado Colega:

Escrevo-lhe esta, na qualidade de Reitor do Seminário Teológico Presbiteriano de Campinas, para comunicar a decisão tomada pela Congregação desta Casa de Ensino, em sua reunião do dia 19 do mês p.p., nos seguintes termos:

“Encaminhar ao PLIS, presbitério a que é filiado o estudante Eduardo Oscar de Campos Chaves, comunicação do caso criado pelo referido aluno, constante de duas publicações no folhetim CAOS EM REVISTA e demais informações atinentes ao caso. Registra-se que na discussão e votação desta matéria não tomaram parte os professores Waldyr Carvalho Luz e Américo Justiniano Ribeiro”.

Junto os dois números do referido jornal do CAOS, bem como a informação de que o 2º número saiu após ter o Reitor dado ordem para que o 1º fosse recolhido, bem como após o Deão ter tido conversa com o aluno, mostrando a inconveniência de atitudes como a assumida pelo aluno, no fazer a crítica constante do 1º artigo.

Pessoalmente, desejo esclarecer que a Congregação resolveu mandar o caso ao Presbitério do aluno, sem tomar, ela mesma, alguma atitude direta quanto ao caso, em virtude de situação interna, que dificilmente poderia expor. O julgamento do aluno, contudo, dificilmente poderia ser justo se todos esses elementos não fossem considerados.

Era o que me cumpria dizer.

Abraça-o, colega e companheiro na seara do Mestre,

Rev. Júlio Andrade Ferreira
Reitor

Não tenho certeza de qual seria a “situação interna, que dificilmente poderia expor” em virtude da qual a Congregação do Seminário, segundo o Rev. Júlio, resolveu não tomar “alguma atitude direta quanto ao caso”, e que tornaria o meu julgamento, naquela esfera, “dificilmente justo”. Imagino que os problemas diziam respeito aos dois professores que se omitiram de votar no caso, os Revs. Waldyr Carvalho Luz e Américo Justiniano Ribeiro, que persistiam em abster-se nas votações, mas, por trás, tentavam tramar as ações.

As coisas estavam nesse pé quando explodiu outra bomba — agora do outro lado. Sob a coordenação do Rev Waldyr Carvalho Luz, um grupo de alunos, dos mais conservadores (e, acrescente-se, academicamente mais fracos), escreveu um texto-denúncia, intitulado “Manifesto dos Quinze”, em que relatavam, para a Igreja, todos os desmandos que estariam ocorrendo no Seminário — que iam desde modernismo teológico, com rejeição das idéias calvinistas, desvios éticos, com aceitação, prática e defesa do fumo, da bebida, do amor livre, etc. O manifesto foi enviado para virtualmente todas as igrejas do país — sem haver sido submetido a apreciação da Congregação, que, por causa do meu “folhetim”, havia imposto censura prévia a publicações estudantis!

O texto completo desse Manifesto é o seguinte:

Aos Membros, Oficiais e Ministros da Igreja Presbiteriana do Brasil

Saudações no Senhor,

Sentimos um dia que Deus nos chamava para o sagrado ministério da Palavra. Obedecendo a esse chamamento, decidimos entregar a vida ao serviço do Senhor, não medindo as dificuldades, os problemas, os sacrifícios que teríamos de enfrentar. Foi nesse propósito que viemos para o Seminário. Não tínhamos ilusões de que não iríamos encontrar um céu aberto. Esperávamos, entretanto, encontrar um ambiente favorável para os estudos, um meio apropriado para cultivar espiritualidade, uma atmosfera de seriedade moral e de respeito, particularmente para com as pessoas e as instituições da Igreja. Preferiríamos não dizer da desilusão que tivemos.

Não queremos prejudicar o Seminário ou a Igreja. Nem desejamos atingir pessoas. Somos os primeiros a reconhecer nossa imperfeição, nosso pecado, nossas falhas, nossa pobreza espiritual, nossas deficiências em todo sentido, contudo, aspiramos um Seminário melhor, mais vida espiritual, mais firmeza de caráter, mais consagração, fé mais vigorosa, convicção mais sólida, testemunho mais cristão e espírito mais dedicado na evangelização e na obra da Igreja. Temos silenciado até agora por que não queríamos nem de longe concorrer para o agravamento da situação. Só Deus sabe das angústias de nossa alma e das preocupações de nosso espírito, das lágrimas que temos vertido, das noites mal dormidas, das lutas em oração que temos sustentado. Chegamos, porém, a um ponto em que não mais podemos manter-nos calados. Por amor ao Seminário e à Igreja temos de sair a público para clamar contra os abusos que presenciamos e a situação em que vivemos. Com tristeza infinita, temos de apelar a todos os corações crentes a que se levantem para defender esta Casa, que tanto amamos, e a IPB nesta hora crítica.

Com o maior dos pesares temos de dizer que o Seminário não é hoje a Casa de Profetas, de onde saíam homens de Deus, fiéis à Bíblia e ardendo de entusiasmo pela salvação dos pecadores, ministros piedosos que continuem a obra dos grandes homens do passado, grandes na fé, grandes na consagração, grandes no fervor, grandes na piedade, prontos a todo sacrifício, varões de Cristo sem reservas. O Seminário é hoje um lugar onde se zomba dos que levam a sério a Bíblia, a oração, a vida espiritual; onde se desmoraliza de todas as formas a liderança da Igreja, suas instituições e seus homens de confiança; onde se hostilizam professores que não se dobram aos interesses do grupo dominante; onde se defende a libertinagem e a imoralidade; onde existem clubes dos que se reúnem para fumar e beber; em cujo refeitório se praticam atos que ferem a mais elementar educação e onde a própria oração é motivo de ridículo e zombaria; onde se defende o amor livre e se condena como pietismo e moralismo todo esforço de viver cristãmente, segundo os padrões do Evangelho; onde se tacham de estreitos todos quantos mantêm firmes as doutrinas do Calvinismo clássico e aceitam a Bíblia como inspirada Palavra de Deus; onde se veiculam idéias modernistas como se fossem a verdade de Deus, somente porque os teólogos do dia e os estafetas dos evoluídos desta e de outras terras o proclamam; onde não existe interesse geral pela evangelização e pela conversão dos pecadores; onde uma cúpula ativista, politiqueira, de simpatias pronunciadamente esquerdista, exerce inexorável pressão sobre os colegas que não rezam pela sua cartilha e trama de maneira traiçoeira contra os líderes da Igreja que não obedecem à sua linha de pensamento; onde figuras estranhas ao Seminário e até à IPB, muitos até ministros, não sentem escrúpulos em manter encontros para desmoralizar a Igreja, autoridades eclesiásticas e professores da instituição de maneira desleal e revoltante; onde impera a irreverência e o cinismo; onde palavrões e piadas picantes são a norma de não poucos; onde a dignidade feminina e a pureza pessoal são objeto de alusões que não podemos aqui referir. Onde colegas são humilhados e tratados de maneira contrária ao amor de que tanto falam, especialmente aqueles que são novatos, vítima de trotes que refletem bem o espírito evoluído dos seus promotores; onde a vida espiritual e devocional é baixa, tanto quanto o pode ser; onde os cultos são mal assistidos e por alguns inteiramente desprezados; onde um círculo de oração iniciado por um grupo desejoso de mais vida devocional é hostilizado e combatido; onde a maioria indiferente e acomodada, querendo manter uma neutralidade impossível, acaba sempre fazendo a jogada da liderança negativista; onde as próprias autoridades não parecem em condições de agir com firmeza.

Irmãos no Senhor, não dissemos tudo que poderíamos dizer. O próprio deão do ano passado, Rev. Dr. Osmundo Afonso Miranda, traçou um retrato bem realista da situação em seu relatório à Diretoria do Seminário, que é um brado de alerta contra a referida situação. A situação é séria, o sentimos. Por amor a Cristo e Sua Palavra, por amor à IPB e seu ministério autêntico, por amor aos crentes sinceros de hoje e às gerações do futuro, é preciso por paradeiro a esses desmandos. Aqui, diante de nosso Deus, obedecendo à voz de nossa consciência, com o coração sangrando de tristeza, bradamos pedindo que alguma coisa seja feita. Não podemos ficar indiferentes nem calar-nos; seríamos cúmplices desse processo de desmoralização da Causa. Pensai no que estamos relatando, informai-vos de tudo, orai muito e agi com firmeza. E que Deus, o nosso Deus, nos dê forças para não fugirmos ao dever, para sermos fiéis à Sua vontade. Amém.

Hermes Mariano, Presbitério de São Paulo
Ariovaldo C. Bomfim, Presbitério de São Paulo
Elpídio Gonçalves. Presbitério do Rio Doce
Evandro Luiz da Silva, Presbitério de Cuiabá
Floramonte Dias Gonçalves, Presbitério Oeste de Goiás
Célio J. Duarte, Presbitério Florianópolis
Francisco Antônio Maia, Presbitério de Brasília
Ailas Augusto Tscherne, Presbitério de Rio Claro
Dirceu Xavier de Mendonça, Presbitério de Rio Claro
Gilson Barbosa Gomes, Presbitério do Rio de Janeiro
Eldman Francklin Eler, Presbitério de Governador Valadares
Adolfo Potenciano, Presbitério de Goiânia
José Silvério Júnior, Presbitério de Brasília
José dos Anjos, Presbitério Norte de Minas
Jarbas Dantas, Presbitério de Campinas

Aqui está um resumo das principais denúncias nele feitas, nas palavras do Rev. João Dias de Araújo:

As de ordem piedosa: Há quem zombe da Bíblia, da oração e da vida espiritual; a vida devocional é baixa; os cultos mal assistidos ou desprezados; o círculo de oração combatido.

As de ordem doutrinária: Desprezo ao calvinismo, apego ao modernismo, negação da inspiração [da Bíblia], etc.

As de ordem ética: Há libertinagem, imoralidade, fumo, bebida, amor livre, palavrões, piadas atentando à pureza feminina, etc.

As de ordem administrativa: Há os que desmoralizam a liderança da Igreja, hostilizam professores; “uma cúpula ativista, politiqueira, de simpatias pronunciadamente esquerdistas, exerce inexorável pressão sobre os colegas”; “tramam de maneira traiçoeira contra os líderes da Igreja que não obedecem à sua linha de pensamento”; “elementos de fora, até ministros, vêm aqui, tramam, etc.”.

Eis o que diz o Rev. Waldyr sobre o manifesto em sua autobiografia:

Ante o estado de coisas vigente, autoridades sem pulso, alunos sem disciplina, ensino acomodatício, vago, difuso, incerto, incapaz de dirimir dúvidas e firmar vocações, a vida espiritual do Seminário em nível raso, alunos mais sérios e responsáveis, que se não podiam conformar com a situação, decidiram encontrar-se em reunião de oração às seis e meia da tarde nos dias de aula, convidando-me para com eles participar. Eram reuniões ferventes de súplica a Deus em favor do Seminário, rogando-se ao Senhor interviesse e mudasse as coisas para que o ambiente fosse o de real Casa de Profetas e não um reduto de fariseus, mercenários e agitadores, como estava sendo. Essa plêiade de seminaristas, menos de vinte, ridicularizada pelos colegas avançados e revolucionários, com lágrimas não raro, preservava a pureza da fé, o alvo do ministério, a espiritualidade real, a ética genuína, em orações tocantes e sentidas, brotadas de corações sinceros e almas piedosas.

Vinha essa prática sendo mantida já por meses, quando se realizou no Seminário um encontro de qualquer comissão ou grupo de estudos, de que fazia parte o Rev. Domício Pereira de Mattos, um dos expoentes da corrente liberal. Como costumava acontecer sempre que vultos dessa mentalidade apareciam no Seminário, foi ele convidado a falar aos estudantes, promoção do famigerado CAOS. Havíamos encerrado a reunião de oração, quando chegaram dois do grupo, Gilson Barbosa Gomes e Adolfo Potenciano, visivelmente indignados, dizendo não agüentarem mais a situação, revoltados com o que haviam ouvido nesse encontro, em que o canhestro convidado buscara desestimular os que visavam ao ministério, a seu ver, carreira falida e parasitária, a serviço de uma Igreja retrógrada, dizendo que ele continuava no ministério somente porque, já cinqüentenário, não acharia outro emprego, além de que, perguntado por um dos futuros alunos de Exegese aos Romanos, como impedir que eu fosse o professor, ferindo os ditames de até comezinha ética, a despeito de colegas de Seminário que fomos, aconselhava-os a promoverem desordem em classe, buscando irritar-me com provocações e acintes, que eu perderia a serenidade e eles acabariam levando a melhor. Com os dois solidarizaram-se os demais membros do grupo e decidiram redigir um manifesto à Igreja, expondo tudo o que se passava de irregular no Seminário, embora na época fosse proibido pela Congregação qualquer pronunciamento de alunos a entidades externas [ênfase acrescentada]. Não se dirigiram à Congregação porque sabiam de sobejo que a questão seria abafada em seu clássico imobilismo. Elaboraram o documento, que veio a ser conhecido por MANIFESTO DOS QUINZE, tantos os seus signatários, e o despacharam aos quatro cantos do país para conhecimento de pastores e igrejas. Foi uma bomba! A repercussão foi enorme e traria resultados inimagináveis.

A Congregação ficou entalada em agudo dilema. Os fatos referidos eram de extrema gravidade. Eu que tomara conhecimento do teor do documento desde o início, por muitos havido como de minha lavra, o que não era bem verdade [ênfase acrescentada], pois que não o redigi, apenas revi a fraseologia e linguagem, indaguei dos rapazes se eles tinham provas objetivas de tudo quando denunciaram, e afirmavam que sim, porquanto, do contrário, corriam sério risco de exemplar punição. Não tomar medida nenhuma comprometeria a Congregação, inda mais que estava próxima a reunião do Supremo Concílio. Punir os signatários do documento comprovaria evidente parcialidade. Apurar os fatos poderia acarretar pesadas críticas e desprestigiar a Direção do Seminário. Como algo teria de ser feito, decidiu a Congregação encarregar uma comissão de professores, de que eu não fazia parte, de, à base do Manifesto, elaborar um questionário a ser respondido, de surpresa, pelos alunos. Constou de vinte e oito quesitos que abordavam todos os aspectos envolvidos, menos questões políticas. Era esperança de muitos que os acusados negassem o que deles se dizia e os não-acusados pouco ou nada confirmassem que pudesse convalidar as denúncias contidas no Manifesto. Dos acusados apenas um se furtou a responder objetivamente, os demais todos confessaram as faltas denunciadas; dos signatários, um recuou do que havia subscrito, justamente Gilson Barbosa Gomes, que de início se mostrara tão inconformado, os não-denunciados, por sua vez, confirmaram os fatos incriminados. A Congregação não teve outra solução senão encaminhar todo o material ao supremo Concílio para apreciação. Os quinze estavam vindicados!

A Congregação não puniu os alunos que haviam desrespeitado a sua Resolução nem repreendeu o mestre que os incitou a fazê-lo, tendo até mesmo, segundo admite, ajudado na redação da peça. Não vindo a punição, considerei-me moralmente justificado, nessas circunstâncias, a também ignorar a Resolução da Congregação e publicar o terceiro número do jornal — e foi isso que fiz. 

– Continua –

Em Campinas, 8 de Setembro de 2006

Quarenta anos depois do CAOS: 1966-2006 (I)

[DUAS NOTAS ACRESCENTADAS POSTERIORMENTE, EM 2015:]

Quem preferir ler em um artigo só os três artigos que compõem esta trilogia intitulada “Quarenta Anos depois do CAOS: 1966-2006” pode optar por lê-la (a trilogia) em meu outro blog, biográfico, Autobio Space, neste URL:

https://autobiospace.wordpress.com/2015/11/07/quarenta-anos-depois-do-caos-1966-2006/.

Quem preferir ler apenas os artigos escritos por mim em 1966, sem o histórico e os comentários acrescentados em 2006, pode consultar “O CAOS em Revista: Editoriais e Artigos de 18/3/1966 a 18/8/1966 (alguns censurados)”, no meu blog Autobio Space, neste URL:

https://autobiospace.wordpress.com/2015/11/07/o-caos-em-revista-editoriais-e-artigos-de-1831966-a-1881966-alguns-censurados/. 

o O o 

CAOS era um acrônimo certo para o nosso Centro Acadêmico naqueles tempos: Centro Acadêmico “Oito de Setembro”. A época, em si, já era de caos, sem necessidade de um CAOS para conturbar as coisas ainda mais.

O Centro Acadêmico “Oito de Setembro” reunia os alunos daquilo que o pessoal da Igreja chamava de “Seminário Presbiteriano do Sul”, localizado em Campinas. A gente, aluno muito metido a besta, dizia que o CAOS reunia os alunos da “Faculdade de Teologia de Campinas da Igreja Presbiteriana do Brasil”. Afinal de contas, a gente (segundo o nosso próprio entendimento) não estudava teologia: estudava e interpretava a realidade brasileira à luz da teologia. Apesar de o Ministério da Educação não reconhecer a o Seminário como uma instituição de ensino superior, para nós ele era simplesmente a nossa Faculdade. Ponto final. Até que voltou a ser Seminário e degradou ainda mais para ser Instituto Bíblico…

Não que a gente achasse que o ensino ali ministrado pelos professores fosse de categoria tal a justificar o upgrade para Faculdade. Pelo contrário: nossa opinião, de alunos, acerca da qualidade dos nossos professores e do ensino que nos proporcionavam era a pior possível. “Medíocres” era o rótulo mais generoso que lhes dávamos – com uma ou outra exceção.

O Rev. Francisco Penha Alves, o famoso “Chicão”, era uma delas. Afinal de contas, ninguém pode ser considerado medíocre se ele mesmo se rotula como tal. Ele não era pretensioso: conhecia suas limitações. Era pastor, formado em teologia, em seminário… Mas nos dava aula de filosofia e sociologia. Tive o meu primeiro curso de filosofia com ele. Usava um livro texto chamado Living Issues in Philosophy, de H. H. Titus. Era bom professor. Conquistava os alunos para a sua matéria. Devo a ele ter me interessado pela filosofia. Não conseguiu fazer o mesmo com a sociologia.

Eu tinha uma outra exceção: o Rev. Osmundo Affonso Miranda, professor de Novo Testamento, com doutorado no Seminário de Princeton. Ele via talento em mim e eu o admirava. Quando em circunstâncias trágicas ele deixou o Seminário de Campinas – digo, a Faculdade de Teologia de Campinas – para voltar aos Estados Unidos com os filhos, me deu um monte de livros dele e me legou os arquivos pessoais das pesquisas que havia feito para suas teses de Mestrado e Doutorado.

O resto era triste. Alguns, ressalvo, eram gente boa, no plano pessoal, mas péssimos professores – simplesmente despreparados ou, então, extremamente dogmáticos. Outros, nem gente boa eram – além de também serem despreparados ou dogmáticos. Deixo de citar os seus nomes por generosidade (embora os nomes de alguns apareçam adiante em outro contexto).

Entrei na Faculdade de Teologia de Campinas, pertencente à Igreja Presbiteriana do Brasil, em Fevereiro de 1964. O primeiro dia de aula foi 17 de Fevereiro, uma segunda-feira. O nome oficial da instituição era Seminário Presbiteriano do Sul. Mas a gente preferia chamar a instituição de Faculdade de Teologia. Minha festa de calouro estava programada para o dia 1º de abril. É evidente que não houve. Os militares, dando início ao golpe político-militar, com amplo apoio da sociedade, levaram de roldão a minha festa de calouro. Eu tinha uma madrinha, a Yara Lígia, mas nunca entrei com ela na festa. Ela me deu, porém, como presente, o livro Conheça-se a Si Mesmo, de Karen Horney. Na dedicatória dizia: “Ao meu afilhado, Oscar, a bênção de sua madrinha, Yara Lígia”. Yara, estou tentando… (Todo mundo me chamava de Oscar, naquela época, e não Eduardo, porque meu nome é composto, Eduardo Oscar, mas Oscar era o nome de meu pai).

Os dias que transcorriam entre o início das aulas e a festa dos calouros eram de trote. Os calouros tinham de andar de gravata o tempo todo – até indo para o banho. E, por falar em banho, havia o banho de um calouro toda noite, depois do café das 21h. A gente tomava café e os calouros corriam pros quartos. Dali a pouco ouvia o coro dos veteranos subindo as escadas e cantando: “A árvore da montanha, olê-le-a-ô, a árvore da montanha, olê-le-a-ô… A árvore tinha um galho, ai-ai-ai que amor de galho…” Tortura pura. Ameaçavam entrar num quarto, recuavam. Às vezes pegavam um calouro, levavam até o meio do caminho, e desistiam: voltavam e pegavam outro que já se julgava livre por aquele dia. O destino? Uma banheira velha cheia de água no segundo andar do alojamento velho. A gente era levado de óculos, relógio, sapatos, roupa e jogado dentro da água. Às vezes um veterano aparentemente bonzinho dizia: “Ah, vamos tirar os sapatos do calouro, coitado: ele só tem esses…”. Quando o dito calouro caía na água, já encontrava os pobres sapatos flutuando na banheira. Ao sair do banho, o calouro banhado era abraçado pelos veteranos… Ser considerado não-calouro, porém, só depois da festa – que, no meu caso, nunca houve… Culpa dos milicos. Os veteranos precisaram decretar que nossa condição, a partir de um certo momento, era de não-calouro, dando a festa como se tivesse acontecido.

Demorou um pouco para que o espírito repressivo do Golpe de 64 penetrasse os diversos escalões da Igreja Presbiteriana e permitisse que um grupo de pastores perpetrasse, dentro da Igreja, um golpe dentro do golpe. O artífice dessa manobra foi o Rev. Boanerges Ribeiro. O Diabo deve tê-lo em alta conta. Ao perceber que o clima político era propício a uma guinada fundamentalista dentro da Igreja, montou uma estrutura semi-partidária que o levou ao cargo de Presidente da Igreja numa eleição feita em Fortaleza, durante a reunião do Supremo Concílio, em Junho de 1966. Dali para frente foi sarrafo na moçada.

Para entender a razão do sarrafo, é preciso explicar, para aqueles que nunca viveram em Seminário, o que é a vida ali dentro.

Cheguei no Seminário crente piedoso, e tinha certeza de que sairia de lá pastor dedicado ao ministério. Quando saí de lá, dois anos e seis meses depois, tinha perdido a piedade, minha fé estava profundamente abalada, não tinha respeito pela liderança da igreja e tinha sérias dúvidas de que realmente um dia viria a ser pastor um dia. Nunca fui.

Do ponto de vista do comportamento, quando cheguei ao Seminário não bebia, não fumava, não dançava, guardava seriamente o Domingo. Quando saí de lá, tinha começado a fumar, e, embora nunca de forma exagerada, bebia cerveja, vinho, e, às vezes, até um golinho de pinga. Também tinha tentado aprender a dançar e achava uma bobagem a guarda do Domingo.

O que aconteceu nesse processo? Como é que se processam essas mudanças, que são, na realidade, um processo de desconversão – o caminho inverso de um processo de conversão?

Em outro artigo vou tratar desse processo de desconversão. Aqui basta descrever, com grandes pinceladas, o ambiente que o tornou possível.

O médico que estuda medicina, parece perder o respeito pela doença. Ele muitas vezes a trata de forma brincalhona. Lembro-me de que uma vez minha mãe precisou ser operada, e meu pai assistiu à operação – que foi feita no Hospital Presbiteriano de Rio Claro, pelo amigo dele, e depois amigo e colega meu na UNICAMP, Dr. Eduardo Lane. Meu pai ficou irritadíssimo, porque enquanto esperava que a anestesia fizesse efeito, Eduardo Lane (segundo relatou meu pai) havia ficado a fazer uma discreta batucadinha na barriga de minha mãe, sem ligar muito para a gravidade da situação…

Bem, com quem estuda teologia algo semelhante acontece. Rapidamente se perde o espírito de reverência diante das coisas sagradas. Brinca-se com tudo. Dá-se apelido a quem, antes, não se ousava dizer o nome. O Deus dos Judeus, em Hebraico, é chamado de YHWH – pronunciado Yahweh em Inglês, Iavé (ou Javé, ou Jeová), em Português. Bom, se Deus é Iavé, Jesus Cristo deve ser Iavezinho… Fazia-se gozação com as passagens bíblicas, brincava-se com os milagres… Nada disso significava, necessariamente, perda de fé. Era apenas o preço a pagar pela familiaridade excessiva com as coisas ditas sagradas.

Mas não era só a doutrina que era objeto de brinquedo. Brincava-se também com a ética. Embora a maioria absoluta dos seminaristas fosse tão pura quanto o puríssimo coração de Maria, os veteranos adoravam pretender que não eram, para impressionar – através do choque e do escândalo – os calouros… Eles davam a entender que se envolviam em ousadias sexuais que, é mais do que certo, nem em pensamento se arriscavam a perpetrar. Falavam da zona como se fosse um local visitado cotidianamente… E, naturalmente, fumavam, bebiam e dançavam – coisas que, para presbiterianos conservadores, eram quase tão pecaminosas quanto fornicar. No que diz respeito a fumar, beber e dançar não era apenas blefe: aprendi a fazer essas coisas no Seminário, como já assinalei. Quanto às outras, se o intuito era chocar, chocavam; se era escandalizar, escandalizavam. Mas os calouros logo viravam veteranos e percebiam que a maior parte desses alardeados comportamentos era blefe.

Em 1966 entrou uma turma de alunos especialmente conservadora no Seminário. Gente de mais idade, vários casados e com família. Formaram uma patota – e decidiram que iriam converter os devassos veteranos. Conquistaram o apoio do Rev. Waldyr Carvalho Luz (pelos veteranos apelidado de Rev. Trevas), e se reuniam, diariamente, para orar pela regeneração dos colegas que caminhavam rápido no caminho da perdição. Achavam-se os bons, os puros, os eleitos. E nós, os veteranos (eu já estava no meu terceiro ano), adorávamos provocá-los.  E, para provocá-los, exagerávamos nosso pensamento divergente (nossa heterodoxia, ou heresia mesmo) e nosso comportamento fora dos padrões aceitos pela igreja.

Em Março de 1966 explodiu uma crise no Seminário, da qual, felizmente ou infelizmente, não sei, fui pivô – e estopim. No dia 18 – cerca de um mês, portanto, depois do início das aulas – um estudante do curso breve (curso de três, e não de cinco anos, como era normal), Floramonte Dias Gonçalves, pregou um sermão de prova sobre o livro de Jonas, pressupondo não só a historicidade do profeta mas de todos os mínimos detalhes do relato bíblico. Na exegese do colega, Jonas realmente sofreu um naufrágio, foi engolido por uma baleia, ficou três dias na barriga da baleia e, depois, foi vomitado na praia de Nínive, para onde estava indo quando o ocorreu o naufrágio.

Na crítica ao sermão, o mais conservador de nossos professores, o Rev. Waldyr Carvalho Luz, foi o que mais falou: elogiou o aluno pelo sermão, dizendo, entre outras coisas, que ele fez muito bem em tomar por incontroversa a historicidade do livro, “sem ficar procurando chifres na cabeça de cavalo”. Embora o Rev. Earle D. Roberts (professor de Velho Testamento) houvesse mencionado, meio en passant, que a interpretação histórica do livro enfrentava uma série de problemas levantados pela crítica textual e literária, não explicitou quais seriam esses problemas. O Rev. Osmundo Affonso Miranda (meu guru, professor de Novo Testamento) disse que não concordava totalmente com a interpretação dada ao livro, mas não passou disso. Na verdade, o  comportamento do Rev. Osmundo me irritou mais do que o do Rev. Waldyr, cuja posição não me surpreendeu. Surpreendeu-me, entretanto, a omissão do Rev. Osmundo – até porque eu admirava muito, em nível pessoal. Fui para o quarto pensando o que fazer.

Dias antes, a Diretoria do Centro Acadêmico “Oito de Setembro” (CAOS), do qual eu havia sido eleito Secretário para o ano letivo de 1966, havia decidido publicar um jornalzinho e eu fora escolhido para ser o seu Editor/Redator. Dei-lhe o título, deliberadamente provocante, de “O CAOS em Revista”. Eis o meu primeiro Editorial.

Em sua reunião de 18 de fevereiro do corrente a Diretoria do CAOS decidiu que se publicasse, periodicamente, um jornal informativo da Diretoria, designando-nos, naquela mesma ocasião, responsáveis pela sua edição. Exatamente um mês após sai o primeiro número. Como primeiro é este um número experimental, para o qual pedimos a opinião dos colegas, para que ele venha a ser a expressão do corpo discente de nossa casa. Não é, porém, apenas a opinião dos colegas que solicitamos. Pedimos também a colaboração de cada um através do artiguetes escritos, através de trechos ou excertos traduzidos de livros ou revistas, através da indicação de livros e artigos recomendáveis. Esperamos que os colegas nos tragam suas colaborações. Será distribuído, gratuitamente, apenas um exemplar para cada colega. A pessoa que desejar mais números terá que pagá-los a razão de Cr$ 200 cada. Será esta uma maneira de arranjarmos um pouco de fundos para a contínua publicação do jornal. Cada vez que houver material suficiente, nas mãos do redator, para a tiragem de um número, este sairá. Contamos, pois, com a colaboração de todos.

A crítica do sermão (mais do que o sermão em si) me deu o assunto para o primeiro número. O resto foi recheio.

Com toda a paixão dos meus 22 anos, escrevi um pesado artigo sobre o assunto com o título de “Instituto Bíblico em Campinas”. Chamar a Faculdade de Seminário já era ofender. Chamar o Seminário de “Instituto Bíblico”, era chamar para briga. Institutos Bíblicos eram, em geral, instituições sem tradição acadêmica, e sem regulamentação, que preparavam leigos para o trabalho na Igreja em locais afastados em que não havia pastores em número suficiente. No artigo, ressalvei o direito de o colega Floramonte pregar sobre o que quisesse, do jeito que quisesse. O que não era admissível, argumentei, sendo a ocasião um sermão de prova, feito, portanto, para fins didáticos, era que os mestres se calassem sobre os problemas e as interpretações alternativas do livro de Jonas. Os problemas eram tantos, afirmei, que ignorá-los era equivalente a não ver chifres na cabeça de um boi – frase que especialmente feriu o Rev. Waldyr, de quem eu era, até aquele momento, um dos alunos mais queridos, por ter tirado algumas das maiores médias em Grego na história do Seminário (acima de 98.5, em três semestres consecutivos). Além do mais, o Rev. Waldyr havia sido colega de meu pai no Seminário e era amigo da família da minha mãe.

Mas em vez de resumir o artigo, êi-lo na íntegra:

Estamos ainda debaixo do revoltante impacto que nos causou a crítica ao sermão pregado hoje por um de nossos colegas. Queremos, de início, esclarecer que tudo o que aqui vamos dizer não visa à pessoa e às idéias do pregador, mas sim à posição e às idéias dos “críticos”, membros do corpo docente desta “Faculdade”. Colocamos estas duas palavras entre aspas porque não reputamos críticos os que não levam em conta a obra e os resultados da Crítica, fazendo de sua “crítica” tão simplesmente uma avaliação da simpatia do pregador, de sua vestimenta, de sua linguagem, de sua elocução, da estrutura homilética de seu sermão, de sua liturgia, negligenciando o cerne do sermão que é a interpretação dada ao teto. Para se fazer esta interpretação a Crítica Histórico-Literária e Textual é simplesmente considerada “farrapos”. Além do mais não consideramos Faculdade uma instituição de ensino que se aliena, através de seus professores (mas graças a Deus não através de todos os seus alunos) do movimento intelectual teológico contemporâneo. O que está se dando aqui é que nosso Seminário, tido aí por fora como “Faculdade de Teologia”, não passa, atualmente, de um Instituto Bíblico, que acha virtude, através de alguns de seus professores, em nem se aproximar dos problemas levantados pela Crítica Bíblica, e que acha que os alunos não precisam conhecê-los, pois são irrelevantes.

Vejamos, porém, o caso concreto. Pregou-se, hoje, uma sermão de prova biográfico sobre JONAS. Como base da mensagem do pregador estava a pressuposição de que o livro de Jonas é um livro histórico no sentido de que as informações nele contidas são historicamente fidedignas, e que o que nele é registrado se deu literalmente como o descreve o livro. O Jonas de que o livro fala foi tido como o profeta Jonas, filho de Amitai, que profetizou em Israel, no século VIII, no reinado de Jeroboão II (Cf. II Reis 14:25). Reafirmamos que o pregador tinha pleno direito de fazer o que fez, ou seja, de dar esta interpretação conservadora ao livro. Não o criticamos por isso. Afirmamos também que os mestres tinham pleno direito de concordar com o pregador a respeito de sua interpretação e da linha de sua mensagem, o que de fato fizeram. Com o que não concordamos, porém, é que o outro lado da questão não tivesse sido sequer mencionado! Um dos professores mencionou de passagem que o livro apresentava problemas críticos, mas nem sequer esboçou quais e que tipos de problemas seriam estes. Apenas afirmou (certamente opinião pessoal sua) que a Crítica havia tornado o livro em “farrapos”, subentendendo-se daí que se é impossível pregar sobre o livro de Jonas com uma interpretação outra que não a sua pessoal, naquele contexto representada também pelo pregador e pelos outros críticos. Um outro crítico mencionou que sua opinião era diferente, mas não julgou conveniente apresentá-la. De qualquer forma o sermão foi tido como muito feliz, pela interpretação sadia, pela riqueza de material, etc., pois fugiu dos problemas críticos, “não procurando chifres na cabeça de cavalo”. Embora um crítico houvesse achado que o sermão carecia de melhoras, a impressão tida após a crítica é que o sermão do colega foi o tipo de sermão ideal, “ungido” (o termo foi usado).

Nossa intenção, aqui neste artiguete, pelo qual somos pessoalmente responsáveis, é apresentar o outro lado da questão, como um dever de consciência, pois o outro lado foi redondamente ignorado pelos “críticos” do referido sermão. Se o fazemos é no interesse de esclarecer os colegas, mostrando que o livro de Jonas é “pregável” mesmo depois de a ele ser aplicada uma crítica bastante radical.

Vamos à questão.

O livro de Jonas é diferente de todos os outros escritos proféticos do Velho Testamento no sentido de que não contém uma coleção de oráculos de um profeta, mas é simplesmente uma história a respeito de um profeta. Pode ser esta a razão pela qual um livro que não reivindica de modo algum ter sido escrito por um profeta (o v.1 diz: “Veio a palavra do Senhor Jonas, filho de Amitai, dizendo:…” – Notar que o livro é escrito na terceira e não na primeira pessoa: “Jonas se dispôs”, “Jonas orou”, etc.), e que no aspecto literário pertence a um tipo bastante diferente, foi incluído entre os Livros dos Doze Profetas. Nem podemos dizer que o livro de Jonas seja um conto profético de natureza histórica e biográfica, porque a base requerida para tal não está presente no livro. O livro de Jonas é um poema didático, podemos mesmo dizer que um poema parabólico, escrito para mostrar que Deus se compadece mesmo dos ímpios quando eles se arrependem (3:10; 4:10). Este poema foi escrito com uma moral dirigida contra a intolerância dos Judeus e sua arrogância para com as nações pagãs, resultantes da doutrina da eleição mal interpretada em um sentido particularista. Bastava somente esta moral para que concluíssemos que o livro é pós-exílico, pois sua atitude básica toma por pressuposta a influência de Deutero-Isaías com sua idéia de salvação universal. O capítulo 3, versículo 3, dá a entender que Nínive era considerada uma cidade legendária, dos tempos antigos. Além do mais, a linguagem do livro, com seus aramaísmos, e com formas hebraicas bem posteriores em seu vocabulário e estilo (1:6, 7; 2:1; 3:2, 7; 4:6, 8) não permite que se date o livro anteriormente ao século V. Como terminus ad quem há o fato de o livro ser pressuposto no século II (Cf. Eclesiástico 49:12; Tobias 14:4,8).

Não há dúvida, entretanto, de que o autor do livro de Jonas tivesse tido a intenção de fazer com que o Jonas por ele descrito fosse entendido como o Jonas do século VIII. Isto era comum na antigüidade, quando a questão de direitos autorais e de direitos de nome não era problema jurídico. Qualquer pessoa podia escrever um livro em nome de outrem, ou poderia por seu nome em obra de outrem, ou poderia ainda, como no caso, usar a pessoa de outrem como personagem de seus escritos. O autor, contudo, não pretendeu estar escrevendo naquela época. Além do mais há muito no livro que indica que ele vem de um período bem posterior ao século VIII, além de que apresentamos acima. A cidade de Nínive não era tão grande no século VIII. Além do mais é difícil de se crer que uma cidade tão grande quanto descrita tenha se convertido “desde o menor até o maior” (3:5), o rei inclusive 3:6 sqq. Note-se que em nenhum lugar mais nem na Bíblia, nem fora dela, se menciona “Rei de Nínive”, pois o rei não era de Nínive, e sim da Assíria, país cuja a capital era Nínive, e que isto não tenha sido registrado em nenhum lugar, nem nas crônicas assírias nem nas israelitas. Por cima é difícil de harmonizar como a Nínive convertida a YHWH, inclusive com o seu rei, no século VIII, tivesse, com o restante da Assíria, ainda naquele mesmo século (721), conquistado Israel e destruído Samaria, levando cativos os líderes.

Por todos estes motivos é difícil crer na historicidade do livro como tal. Não negamos que tenha existido um Jonas, filho de Amitai, profeta. O que afirmamos é que ele não é o protagonista deste episódio, e que o que é narrado no livro de Jonas é uma parábola escrita com a finalidade acima apresentada, a saber, de mostrar aos Judeus que Deus se compadece e quer a redenção mesmo dos ímpios e gentios. Porque esta mensagem é apresentada com igual clareza por Deutero-Isaías é que se coloca o livro de Jonas mais ou menos na mesma época.

Agora perguntamos: Reconhecer isto é “procurar chifres na cabeça de cavalos”? Cremos que não reconhecê-lo é ignorar chifres na cabeça de um boi! Continuamos: reduz isto o livro de Jonas a “farrapos”? Absolutamente! Devemos deixar de pregar sobre o Bom Samaritano somente porque ele não é histórico? Evidentemente não! Se isto é verdade podemos pregar sobre o livro de Jonas mesmo que o episódio e o personagem ali descritos não sejam históricos. O que importa é a mensagem que o autor quis transmitir, ao criar esta parábola: quebrar as tradições nacionalistas dos Judeus, mostrando que Deus ama até os inimigos de Israel!

Embora o livro por seu tipo literário não seja profético, seu espírito o é, particularmente na tendência geral de pensamento a ele imprimida, quando foi escrito, em tempos pós-exílicos. Para por em cheque o particularismo exclusivista do Judaísmo pós-exílico, e a distorção da doutrina da eleição imposta pelo egoísmo religioso, este livro testifica a grandeza da profética concepção de Deus, e a ampla tolerância que esta concepção implica! O livro ainda hoje é uma voz profética e uma permanente advertência contra tudo o que estreita e particulariza a religião, e contra todo exclusivismo religioso. Porque pretendeu mostrar que a compaixão de Deus é maior que o coração humano, que sua vontade de salvar alcança mesmo além dos limites de seu próprio povo, e portanto o leva à tarefa missionária, este livro pertence aqueles no Velho Testamento que prepararam o caminho para o Evangelho.

Os colegas julguem se a crítica que aplicamos ao livro, privando-o de sua historicidade, tornou-o “impregável”, esfarrapou-o. Julguem se, em uma Faculdade de Teologia do gabarito que a nossa pretende ter, pode alguém pregar sobre Jonas nos termos em que se pregou, sem que qualquer dos professores presentes à crítica tivesse sequer levantado o problema da historicidade do livro.

Aos Colegas a palavra!

A crise estava iniciada.

— Continua —

Em Campinas, 8 de Setembro de 2006 [com pequenas revisões em 12 de Dezembro de 2020]

Conselhos à Andrea sobre a educação da Olívia…

Em 22 de Julho de 2003 escrevi (devidamente provocado por ela) uma carta à minha filha Andrea, que mora nos Estados Unidos, que estava preocupada com a educação de minha neta, Olivia, que tinha um ano e quatro meses naquela época. Foi uma carta longa (que pode ser lida na íntegra, em Inglês, em meu site http://www.trivium.org.br/). 

Terminei a carta fazendo as seguintes sugestões a ela acerca da educação da Olivia (que traduzo do Inglês agora):

Primeiro, não se preocupe demasiado com a educação dela — evite ansiedades: relache (relax), e desfrute (enjoy) a nobre tarefa de ajudá-la a aprender e a se desenvolver;

Segundo, ofereça a ela um ambiente cheio de amor (que, eu sei, você já faz);

Terceiro, ofereça a ela um ambiente rico em oportunidades de aprendizagem (que, também sei, você já faz);

Quarto, confie na curiosidade natural dela, no seu desejo de aprender: isso é, nela, quase um instinto de sobrevivência;

E quinto, afaste dela qualquer pessoa que tente fazer do aprender um ato compulsório, sem vínculo com vida, e, portanto, doloroso, entediante… E procure evitar que qualquer coisa sugira a ela que aprender é isso.

Na semana atrasada, em Sydney, Australia, eu folheava, durante uma reunião da Microsoft, um livro que meu amigo Bruce Dixon carregava com ele (Andy Hargreaves & Dean Fink, Sustainable Leadership [Jossey-Bass, San Francisco, 2006]). Ali encontrei nas pp. 18-20 uma defesa da noção de “Escolarização Vagarosa” (Slow Schooling), que os autores defendiam – e que me fez lembrar dos conselhos que dei à Andrea…

Eis como os autores conceituam “Slow Schooling”:

·         Deixa para iniciar o aprendizado formal bem mais tarde

·         Aumenta ao máximo a flexibilidade do currículo

·         Enfatiza o prazer de aprender

·         Reabilita o papel do jogo na aprendizagem

·         Não pressiona a criança para aprender o que ela não está interessada em aprender

·         Elimina ou reduz testes e provas

Cada vez me convenço mais de que a “nova escola”, a “escola do futuro”, a “escola do século XXI” deve procurar eliminar ao máximo as diferenças entre educação não-formal e educação formal, deve reintegrar a educação à vida, deve reunir o que meu amigo Hugo Assmann (que gosta de falar sobre a necessidade de “reencantar a educação” chama de “processos cognitivos” e “processos vitais” (que nada mais são do que a aprendizagem e a vida).

Se a tecnologia não fizer outra coisa além de derrubar os muros da escola atual e as paredes das salas de aula de hoje, reintegrando a escola ao mundo e a educação à vida, já terei nos prestado inestimável serviço.

Numa mesa redonda de que participei em Caraguatatuba, no último dia 24/8, em companhia de meu colega na UNICAMP José Armando Valente (que herdou o NIED que eu criei), bati nessa tecla. 

Salto, em 30 de agosto de 2006