Educação, Tecnologia e Mudanças (ou: A Importância de Outras Tecnologias para a Educação)

Artigo que publiquei em 28/07/2011 no Blog das Editoras Ática e Scipione, no endereço

http://blog.aticascipione.com.br/eu-amo-educar/educacao-tecnologia-e-mudancas.

———-

Mudanças educacionais inovadoras requerem visão e coragem. Para promovê-las, é necessário abandonar as soluções parciais e buscar soluções globais.

Este é o vigésimo artigo que publico nesta coluna. Vou retomar nele algumas das principais questões abordadas nos artigos anteriores e levar a discussão um pouco adiante.

É bastante plausível e verossímil a tese de que “nunca antes na história da humanidade” o ser humano passou por uma onda de mudanças tão ampla, profunda, radical, duradoura e acelerada como nos cerca de sessenta e cinco anos decorridos desde o fim da Segunda Guerra Mundial em 1945.

Essas mudanças são sociais, culturais, políticas e econômicas e foram alavancadas, em grande medida (mas não apenas), pela inovação tecnológica, em especial pelo desenvolvimento das tecnologias da informação e comunicação, comumente chamadas de TIC.

Embora quando se fale em tecnologia na área da educação tenha-se em mente quase que exclusivamente as TIC, porque a comunicação e a informação são processos essencialmente ligados à educação e suas tecnologias, por conseguinte, são diretamente relevantes para a atividade educacional, é preciso reconhecer que as TIC não foram a única tecnologia relevante na deflagração e sustentação dessas mudanças.

Vou mencionar, apenas à guisa de ilustração, duas outras tecnologias que provocaram grandes mudanças no contexto em que a educação tem lugar.

Em primeiro lugar, a tecnologia dos transportes.

O aperfeiçoamento da aviação, especialmente com a introdução dos motores a jato e com a construção de aeronaves cada vez maiores e com maior autonomia de voo, literalmente encolheu o nosso mundo. Hoje encaramos com naturalidade o fato de que, saindo de São Paulo à noitinha, podemos estar em Nova York ou em Paris no outro dia bem antes do almoço (de madrugada, em Nova York, que está dois fusos horários atrás, e cedo, mas não tanto, em Paris, que está quatro fusos horários na frente). Mas nossos bisavôs considerariam isso algo próximo de um milagre, acostumados que estavam a cruzar o Atlântico apenas em navios, em viagens de várias semanas. Foi apenas em 1927 que Charles Lindbergh cruzou o Atlântico, de Nova York a Paris, sem parada, com um avião. Hoje é possível sair de casa no Brasil na sexta-feira à noitinha, passar o fim de semana em Nova York ou em Paris, e estar em casa de novo na manhã da segunda-feira, em tempo de ir para o trabalho. Futebolistas famosos que jogam na Europa e corredores de Formula 1 fazem algo mais ou menos assim, no sentido inverso. Os corredores de Formula 1 muitas vezes pilotam seus próprios jatos.

Isso tudo era inimaginável há algum tempo.

Essa revolução alavancada pela tecnologia dos transportes é significativa. Ela revolucionou não apenas o transporte de pessoas, mas também o transporte de mercadorias e de correspondência. (O transporte de correspondência seria, naturalmente, mais uma vez revolucionado com o aparecimento da tecnologia digital, com o e-mail e as mensagens instantâneas). Aquilo que hoje chamamos de globalização depende, naturalmente, das TIC e do fluxo rápido da informação – mas também depende do transporte rápido e confiável de produtos agropecuários, minérios e outras matérias primas, e mercadorias manufaturadas.

Em segundo lugar, a tecnologia médico-farmacológica.

Essa tecnologia, que produziu em 1961 a pílula anticoncepcional, tem parcela significativa de responsabilidade na facilitação das mudanças que ocorreram no comportamento sexual das pessoas (especialmente das mulheres) e nas atitudes da maioria das pessoas em relação ao sexo e aos sexos (hoje comumente chamados de gênero – expressão que acho horrível, mas não vou criticar aqui). A revolução sexual e a revolução feminista são creditadas, em grande medida, a essa pequena pílula.

Essa mesma tecnologia médico-farmacológica, apoiada por algumas políticas públicas, vem aumentando a duração média da vida humana. A engenharia genética poderá fazer com que, em alguns anos, uma pessoa típica possa viver o equivalente a quatro ou cinco vidas dos poetas românticos do século XIX: Castro Alves morreu com 24 anos; Casemiro de Abreu, com 21; Álvares de Azevedo, com 20; Gonçalves Dias morreu relativamente velho, com 41 anos!

Uma característica importante dessas mudanças, para a qual especialmente Alvin Toffler nos chamou a atenção com seus livrosChoque do Futuro (1970) e A Terceira Onda (1980), é a sua velocidade, que parece acelerar-se cada vez mais.

As mudanças que vimos descrevendo, e outras que facilmente poderiam ser incluídas no cenário, devem ter um grande impacto sobre a educação, pois elas afetam pelo menos os seguintes aspectos da atividade educacional:

a)      O contexto histórico-social mais amplo em que em que a educação acontece

b)      Os ambientes específicos em que a aprendizagem ocorre

c)      As metodologias, os materiais e os recursos que as pessoas usam para aprender

d)      O perfil dos alunos que chegam à escola

Não é preciso discorrer em detalhe sobre todos esses aspectos. Vou apenas ilustrar o que tenho em mente. As mudanças descritas, principalmente por causa de sua rapidez, acabaram por investir as coisas, os processos e os relacionamentos de certo caráter de impermanência, instabilidade, volatilidade. Antes, presumia-se que as coisas, os processos e os relacionamentos fossem razoavelmente permanentes, pelo menos estáveis, isto é, que não mudassem ou mesmo desaparecessem de uma hora para a outra.

Ou vejamos.

Há não muito tempo, a vida das pessoas tinha as seguintes características:

  • as pessoas viviam a maior parte de suas vidas em apenas um país (uma nação), em uma região de um país, ou até mesmo em uma cidade específica de uma região;
  • as pessoas falavam apenas uma língua, professavam apenas uma religião, frequentavam apenas uma igreja, filiavam-se a apenas um partido político, adotavam um código de valores estável, considerado permanente;
  • as pessoas se casavam apenas uma vez (a menos que enviuvassem), e certamente com alguém do sexo oposto, tinham apenas uma família, muitas vezes viviam a vida adulta inteira em apenas uma casa;
  • a mulher cuidava da casa e dos filhos e o homem trabalhava fora, não raro em apenas um emprego ou ramo de atividade durante toda a vida;
  • as pessoas tinham um tipo de lazer bem definido e se dava em um clube da cidade;
  • as pessoas tinham hobbies razoavelmente padronizados (colecionar selos ou moedas, ler, ir ao cinema);
  • as pessoas não tinham dúvida de que havia uma distinção clara entre lazer, aprendizagem e trabalho, que essa distinção se aplicava a todos, e que havia épocas distintas na vida para cada uma dessas coisas;
  • a “virtualidade” da vida era pequena (limitando-se à literatura e ao cinema);
  • enfim, as pessoas conviviam basicamente com apenas uma “cultura” – a menos que descendessem de imigrantes de cultura diferente.

Hoje, tudo mudou, sendo comum que:

  • as pessoas mudem de país (região de um país, cidade de uma região) ao longo de sua vida, ou mesmo morem em mais de um país (região de um país, cidade) ao mesmo tempo;
  • as pessoas falem diversas línguas e até mesmo tenham múltiplas nacionalidades;
  • as pessoas troquem de religião ou de convicção política com relativa facilidade, e, em alguns casos, passem a não professar nenhuma religião ou crença política distintiva;
  • as pessoas se casem mais de uma vez, algumas vezes com pessoas estrangeiras, que falam uma língua diferente e têm costumes significativamente distintos;
  • as pessoas se casem até mesmo com pessoas do mesmo sexo;
  • as crianças tenham mais de um “pai” ou “mãe”, múltiplos avós e uma família estendida enorme, formada por várias famílias que se estendem, sequencialmente, no tempo;
  • as crenças, os valores e os costumes das pessoas combinem elementos de diversas origens e culturas (em um verdadeiro multiculturalismo, muitas vezes no âmbito de uma só pessoa);
  • as pessoas exerçam várias profissões e tenham vários empregos ao longo da vida;
  • as pessoas não saibam exatamente onde começam e terminam o trabalho, a aprendizagem, o lazer;
  • as pessoas passem um tempo longo (e significativo) em relacionamentos virtuais nas redes sociais;
  • enfim, as próprias pessoas, e não apenas as nações, se tornem basicamente “multiculturais”.

É por isso que hoje em dia a residência, a igreja, o emprego, o casamento, até mesmo a família assumiram certo caráter de impermanência, instabilidade, volatilidade. Hoje é assim, amanhã pode ser diferente… Inspirando-me no que disse Marx, tudo o que era sólido parece se desmanchar no ar, tudo o que era sagrado parece ter sido profanado…”. Diante disso a própria noção de lealdade exclusiva a um país (patriotismo), uma cultura (identidade cultural definida), uma língua (a materna), a uma religião (a dos nossos pais), para não dizer a uma só pessoa (nos relacionamentos afetivos) se torna problemática. Na melhor das hipóteses há múltiplas lealdades que se substituem umas às outras, em série…

No entanto, apesar de todas essas mudanças que afetam o contexto em que a educação tem lugar, e que foram alavancadas por múltiplas tecnologias, os sistemas e as unidades escolares não parecem estar levando muito a sério o impacto dessas mudanças sobre a educação, em geral, e a prática escolar, em particular.

Mas elas afetam o contexto em que se educa, o ambiente em que se aprende, e os recursos e materiais com os quais se aprende. Mais e mais sério ainda: elas transformam a clientela que chega à escola. Todo o alarde que hoje se faz acerca dos nativos digitais tem como base o fato de que a escola precisa se transformar radicalmente para receber um aluno essencialmente diferente.

Como já vimos em outros artigos, há, em última instância, dois tipos de mudanças:

  • Mudanças incrementais, parciais, menores, lentas, superficiais, de longo prazo (em geral graduais)
  • Mudanças sistêmicas, radicais, maiores, rápidas, profundas, de curto prazo (em geral abruptas)

O que separa e diferencia um tipo de mudança do outro é o grau de inovação – a radicalidade – presente na mudança. Mudanças pouco inovadoras, que ficam perto da prática atual, reforçam o paradigma vigente. Mudanças muito inovadoras, que se distanciam bastante da prática atual, tendem a subverter e eventualmente a destruir o paradigma vigente.

Mudanças educacionais inovadoras requerem visão e coragem. Para promove-las é necessário, primeiro, desaprender muita coisa, abandonar as soluções parciais e buscar soluções globais, que transformem pelo menos os seguintes aspectos do trabalho educacional:

  • A Visão da Educação e da Aprendizagem e a Estratégia Pedagógica (para que, embora informadas pelo passado, sejam focadas no futuro)
  • A Liderança (para que seja iluminada e inspiradora em nível do sistema e das unidades locais)
  • Os Profissionais da Educação (para que sejam engajados e bem capacitados)
  • Os Ambientes de Aprendizagem (para que integrem, de forma natural e sem “costuras” visíveis, o formal e o não formal, o presencial e virtual, de forma rica, diversificada e flexível)
  • Os Recursos de Aprendizagem (para que sejam desafiadores, eficazes e envolventes)
  • A Comunidade (para que seja envolvida e apoiadora, em nível local, regional, nacional e até mesmo global)

Todas essas mudanças devem ocorrer mantendo-se o foco nos alunos, porque a clientela das escolas mudou significativamente. Para que os alunos possam continuar a ser, dentro da escola, o que já são fora dela, a saber, aprendentes motivados, ativos, interativos e colaborativos, é necessário que a escola mude, e mude radicalmente. Se isso não acontecer, a sua participação na aprendizagem das pessoas se tornará cada vez menor e menos significativa.

———-

Transcrito aqui em São Paulo, 12 de Agosto de 2011

Educação e Felicidade

Artigo que publiquei em 19/07/2011 no Blog das Editoras Ática e Scipione, no endereço http://blog.aticascipione.com.br/eu-amo-educar/educacao-e-felicidade.

———-

As competências não cognitivas, como a sensibilidade, as emoções, a criatividade, os valores e as atitudes não parecem relevantes ao trabalho pedagógico realizado na escola convencional.

Nos mais de 30 anos em que fui professor de Filosofia da Educação para as primeiranistas do curso de Pedagogia da Unicamp (95% dos alunos eram mulheres), fiz um levantamento com as minhas turmas sobre possíveis objetivos para a escola. O levantamento foi adaptado de algo que fazia meu colega Morris J. Weinberger, daUniversidade de Bowling Green, em Ohio. Vi o levantamento quando ele passou um ano sabático na Unicamp, em meados da década de 70 (acho que em 1976).

O levantamento listava 20 possíveis objetivos para a escola de Educação Básica e pedia que as alunas hierarquizassem individualmente esses objetivos segundo sua preferência, depois de discutir durante cerca de 30 minutos com as colegas. Aquele que fosse o principal objetivo da escola ficaria em primeiro lugar na resposta do aluno – e, claro, o objetivo colocado em vigésimo lugar não seria algo que a escola devesse perseguir, na opinião de quem estivesse respondendo ao levantamento. Na sequência, fazia-se a média da classe.

Estes são alguns dos possíveis objetivos listados para a escola:

  • “Ensinar o aluno a pensar criticamente”;
  • “Contribuir para que os alunos alcancem autonomia na vida”;
  • “Ajudar o aluno a se conscientizar dos problemas sociais e a aprender a lutar por uma sociedade melhor e mais justa”;
  • “Conseguir que o aluno assimile bem os conhecimentos apresentados e obtenha bom rendimento nas provas”;
  • “Contribuir para que o aluno possa entrar numa boa universidade e oportunamente arranjar um bom emprego”.

“Ajudar os alunos a alcançar a felicidade” sempre apareceu em penúltimo lugar nas respostas de minhas alunas. Só perdia para o objetivo que aparecia consistentemente em último lugar: “Ajudar os alunos a alcançar sucesso financeiro (enriquecer)”.

Vou deixar a questão do enriquecimento de fora. No tocante à felicidade, porém, considero essa consistente colocação em penúltimo lugar do objetivo relacionado à felicidade uma aberração muito séria. Uso o termo conscientemente. E me indago, sem encontrar uma resposta clara, acerca do que teria levado as alunas a essa aberração.

A educação, quando entendida como um processo mediante o qual nos desenvolvemos como seres humanos, tem que ver com a construção de capacidades que tornam possível que:

  • Sonhemos nossos próprios sonhos;
  • Transformemos nossos sonhos em projeto de vida consistente e defensável;
  • Realizemos esse projeto de vida, tornando-o “vida vivida”.

Quando conseguimos fazer isso, sentimo-nos realizados, bem-sucedidos na vida. Em outras palavras, sentimo-nos felizes. Logo, o principal objetivo da educação, entendida esta como processo de desenvolvimento humano, é que alcancemos a felicidade. O resto é meio.

Confesso que esse entendimento da educação e do desenvolvimento humano é derivado mais da cultura grega clássica do que da cultura cristã que dominou o Ocidente por tanto tempo. Por isso esse entendimento chega a soar um pouco pagão, talvez quase hedonista (embora em nenhum momento se faça referência a prazer). Esse entendimento parte do pressuposto de que o homem está aqui nesta Terra para conquistar, nesta vida, a felicidade, entendida como autorrealização, porque essa felicidade é sua por direito.

Os gregos tinham um conceito, representado pelo termo eudaimonia, que exprimia perfeitamente esse sentido da vida, para o qual a educação deveria decididamente contribuir: autorrealização. Para que alguém a alcance, afirmavam eles, precisa, acima de tudo, aprender a ser humano…

1.) Autoconhecimento
Para aprender a ser humano o homem precisa, primeiro, conhecer-se a si próprio. O autoconhecimento envolve a capacidade de identificar e reconhecer, em si próprio:

  • Os pontos fortes (strengths), ou talentos, e os pontos fracos (weaknesses), ou áreas a monitorar;
  • Os seus interesses, gostos, preferências, atitudes, paixões, valores, áreas de sentido ou importância especial;
  • O seu pertencimento a grupos significativos, como, por exemplo, a família, a vizinhança ou comunidade local, a comunidade dos amigos e colegas, os que partilham ideias religiosas, políticas ou filosóficas afins, a etnia, a nação, o continente, ou mesmo o planeta, que ajudam a dar sentido à vida.

2.) Criatividade
Criatividade é a capacidade de imaginar coisas que não existem e de encontrar formas de criá-las, de encontrar soluções novas e originais para problemas, recentes ou antigos, de encontrar problemas onde nenhum era visto etc.

3.) Tomada de decisão
A capacidade de tomar decisões envolve reconhecer situações que exigem uma escolha, identificar e avaliar as opções e alternativas, e selecionar a melhor alternativa com base em valores, interesses pessoais ou sociais e objetivos de vida.

4.) Gestão estratégica da vida
A capacidade de gerir estrategicamente a vida envolve a definição de um projeto de vida, incluindo aspectos pessoais, sociais e profissionais, além da determinação dos passos básicos necessários para transformá-lo em realidade.

5.) Construção da identidade
O processo de construção da identidade desemboca na capacidade de se ver e reconhecer como ser humano único e irrepetível e de respeitar e apreciar os demais seres humanos pelas semelhanças e diferenças que exibem em relação a si próprio.

6.) Busca de autorrealização
Por fim, tudo isso culmina com a autorrealização, que é a determinação de persistir sempre na tentativa de realizar o projeto de vida, vivendo de tal modo que se possa, um dia, fazer jus à sensação de ver seus objetivos alcançados, de ter cumprido seu dever consigo próprio, de ter alcançado sucesso, de ter vivido a vida em sua plenitude. A felicidade é isso.

A busca de autorrealização é compatível com dificuldades e mesmo fracassos em determinados pontos da jornada. Ela envolve a capacidade de perceber quando o projeto de vida definido precisa ter correções de rumo, ou ser até mesmo substituído, e de identificar as razões que tornam as mudanças necessárias, mas tudo isso sempre sem perder de vista que o fim principal do ser humano é se realizar nas múltiplas dimensões em que a vida se desdobra, e que incluem, pelo menos, a vida pessoal, social e profissional.

*

Isso posto, é preciso reconhecer que a escola, como a conhecemos, aquela que podemos chamar de escola convencional, não parece ter muito a ver com nossa felicidade. Pelo contrário. Muitos de nós nos sentimos entediados e frustrados na escola. A escola convencional organiza suas atividades em aulas, e aulas são quase universalmente consideradas coisa extremamente chata.

Gostaria de sugerir duas razões para esse estado de coisas:

Em primeiro lugar, a felicidade tem componentes cognitivos (como a consciência de que você conseguiu realizar o seu projeto de vida, que é a face racional do seu sonho), mas também tem componentes não cognitivos: a sensação de autorrealização, o sentimento de satisfação pelo sucesso alcançado, o prazer que advém do reconhecimento de que você viveu a vida que queria viver em sua plenitude.

A escola convencional, porém, só foca o cognitivo. E não foca nem mesmo as competências cognitivas, preferindo apenas encher as cabeças de seus alunos de informações e conhecimentos. Como disse uma vez Sir Ken Robinson, a escola parece pressupor que seus alunos só têm cabeça, não têm coração nem corpo… E quer fazer da cabeça de seus alunos, como um dia disse Rubem Alves, umas cabeçonas obesas, com pouca agilidade… (Professores universitários, segundo Sir Ken Robinson, parecem achar que o único uso relevante de seus corpos é levar sua cabeça a conferências e congressos…).

As competências não cognitivas, a sensibilidade, as emoções, a criatividade, os valores, as atitudes, nada disso parece relevante ao trabalho pedagógico que tem lugar na escola convencional.

Alain de Botton, filósofo suíço, disse em entrevista à Folha de S. Pauloem 16/7/2011:

‎”Se uma pessoa for a uma boa universidade, como Harvard, Oxford ou Cambridge, e pedir aconselhamento sobre moral, ou se disser que quer aprender como viver, vão encaminhá-la para uma instituição psiquiátrica. As universidades acreditam que todos somos adultos racionais, que precisamos apenas de informação e dados, não de ajuda.”

Essa citação sugere que a felicidade tem que ver com a realização de nosso projeto de vida. Para definir um projeto de vida e transformá-lo em realidade precisamos fazer escolhas e, como vimos em artigo anterior, escolhas têm que ver com valores. Valores são algo de que a escola foge como o diabo da cruz. A escola, sob uma pretensa adesão à ciência, têm se preocupado com fatos, não com valores que possam orientar as escolas e as ações. É isso que a citação de Alain de Botton sugere.

Em segundo lugar, a felicidade é algo que se alcança através da ação consciente e intencional.  Há os que dizem, com verdade, que a felicidade não é apenas uma linha de chegada, mas também todo o processo que leva a essa linha. O caminhar é tão importante quanto o destino, porque, ao desejar chegar a um determinado lugar, ao desejar transformar um projeto de vida em realidade, desejamos, também, os meios que nos levarão lá, os processos que permitem que o projeto de vida se concretize em nossa vida.

A escola convencional não dá quase nenhuma importância ao fazer, ao saber fazer, ao desenvolvimento de competências e habilidades. Na escola tradicional espera-se que o aluno fique passivamente quieto e que preste atenção ao que diz o professor. Assim sendo, há um claro descompasso entre a vida e a escola, entre a busca da felicidade e o que se aprende nos bancos escolares, entre aspectos cognitivos e aspectos vitais de nossa vida (para tomar emprestada uma frase de Hugo Assmann).

Ser feliz (diferentemente de estar contente) é uma condição duradoura, não um estado momentâneo. É feliz aquele que, sobre o alicerce de seus valores, é capaz de definir seu projeto de vida e transformá-lo em realidade. Em outras palavras, feliz é aquele cujos valores determinam os seus sonhos e que é capaz de transformar os seus sonhos em realidade. A felicidade existe – não é uma quimera.

O objetivo maior de nossa vida não é sobreviver: é alcançar a felicidade. Viver a vida em sua plenitude é ser capaz de fruir a vida, ser feliz… O papel fundamental da educação é nos ajudar a viver a vida que, com base em nossos valores, escolhemos para nós mesmos.

O que nos traz a felicidade é, portanto, a realização de um projeto de vida defensável, alicerçado em valores: não o mero alcançar daquilo que simplesmente queremos.

*

Tomando emprestada uma ideia de Karl Popper, o que torna a vida o valor supremo é o fato de ela ter duração limitada e desconhecida: pode terminar a qualquer hora… Os jovens em geral não se dão conta disso: pensam que têm todo o tempo do mundo. São os mais velhos que em geral percebem que seu recurso mais valioso não é dinheiro ou qualquer outro: é tempo. Tempo de vida.

O tempo é um recurso interessante… É igual para todos: um dia tem 24 horas para todo mundo, rico ou pobre, culto ou inculto, britânico, suíço ou brasileiro. No entanto, uns conseguem fazer muita coisa em um dia, outros veem os dias passar sem conseguir fazer grande coisa…

Administrar o tempo não é tornar-se escravo do tempo, mas tornar-se senhor dele. Administrar o tempo não é ficar obcecado com o relógio: é definir prioridades e levá-las a sério. Tem tempo, não aquele que não faz nada, mas aquele que sabe administrar prioridades e fazer o que realmente importa para ele, no quadro de seu projeto de vida.

Não somos donos de boa parte de nosso tempo – pois o vendemos (em troca de dinheiro). Mas a importância do dinheiro está no fato de que ele também nos permite comprar tempo.  A solução do dilema está em conseguir ganhar dinheiro fazendo o que realmente importa.

Ser produtivo, portanto, não é estar sempre ocupado. (Na verdade, gente muito ocupada em geral não é muito produtiva). Ser produtivo é saber administrar o tempo, ter prioridades, ter sentido de direção, saber para onde se vai.

Administrar o tempo, em última instância, é planejar estrategicamente a vida. Quem dentre nós tem um projeto de vida, ou seja, realmente sabe o que deseja e espera da vida? Quem dentre nós tem um plano para onde deseja estar na vida daqui a 5, 10, 20, 50 anos? “Quem não sabe para onde vai nunca vai chegar lá – ou acaba indo para qualquer lugar” – vide Alice no País das Maravilhas.

A importância da administração do tempo está em que, quando acaba o nosso tempo, acaba a nossa vida. Quem administra o tempo ganha vida, ainda que viva o mesmo tempo que os outros. Prolongar a vida não é algo sobre o qual tenhamos muito controle. Mas ganhar mais vida, administrando o tempo, está ao alcance de todos!

Para planejar estrategicamente a vida o primeiro passo é determinar onde estamos e escolher aonde queremos chegar. Escolher aonde queremos chegar é definir um projeto de vida. A natureza da educação tem a ver com mudança: transformar o ser incompetente, dependente, inautônomo, arresponsável que nasce em um adulto capaz, competente, livre, autônomo para escolher sua vida e responsável pelas escolhas que faz.

Muitos de nós tentamos mudar os outros, ou as instituições, antes de entender que a mudança começa conosco: em realidade, só conseguimos mudar a nós mesmos. A educação deve ser voltada para a vida, nos capacitar para viver a nossa vida. Isso envolve a construção de competências, habilidades, valores, atitudes – e a aquisição de conhecimentos e informações. Mas a competência central é a de planejar estrategicamente a vida – para a qual a administração do tempo é essencial. Sem essa competência, ninguém será realmente feliz.

———-

Transcrito aqui em São Paulo, 12 de Agosto de 2011

GPS, Instrumentos de Navegação e Guias de Viagem

Foi publicado ontem um novo artigo meu no Blog das Editoras Ática e Scipione. Transcrevo-o aqui, como sempre.

———-

No meu penúltimo artigo falei sobre escolhas. Neste, vou discutir algo que poderia ser descrito como tecnologia de apoio à escolha – na área de viagens. Antes, porém, farei um breve preâmbulo, em que darei continuidade à discussão já iniciada acerca de escolhas. E, no final, procurarei aplicar a discussão à área da educação.

1. Uma tese sobre escolhas

Em condições normais, a maior parte das pessoas prefere poder fazer uma escolha a não ter nenhuma para fazer. E, podendo fazer uma escolha, prefere, em princípio, ter mais opções do que menos para, dentre elas, escolher uma…

É verdade que opções demais muitas vezes podem tornar uma escolha mais difícil, e, de vez em quando, até quase impossível, em muitos casos nos paralisando. Basta ver uma criança numa loja de brinquedos ou numa sorveteria. Parece impossível que ela seja capaz de escolher apenas um brinquedo: ela gostaria de levar todos. Numa sorveteria self-service, com umas quatro dezenas de sabores e outro tanto de coberturas e extras, ela também fica sem saber o que fazer, querendo pegar um pouquinho de cada coisa, e, no processo, quem sabe, enchendo a taça a tal ponto que dificilmente conseguiria comer tudo. (Um professor universitário numa megalivraria também enfrenta dificuldade semelhante: fica paralisado, sem saber qual livro, ou quais livros, levar. Gostaria de levar todos. Como não pode, por falta de dinheiro ou espaço em casa, fica tenso… Conheço alguns que até enfrentam ataques de enxaqueca nessa situação).

Entretanto, feita essa ressalva, a tese original parece se sustentar: a maior parte das pessoas prefere ter a não ter escolha, ter mais a ter menos opções. No entanto, é preciso fazer uma qualificação. O objetivo deste artigo é discutir essa qualificação. A qualificação explica porque sistemas que fornecem roteiros ou instruções passo a passo são tão populares hoje. Eles nos permitem delegar a eles uma boa parte de nossas escolhas.

2. GPS

Vou começar discutindo uma tecnologia que está se tornando extremamente popular e barata: o GPS, ou Global Positioning System (Sistema de Posicionamento Global). Esta fantástica tecnologia é materializada em um pequeno equipamento que envia e capta sinais. Esse equipamento, apelidado de GPS, envia sinais acerca de onde está localizado em cada momento (mesmo que esteja em movimento). Esses sinais são captados por satélites situados ao redor da Terra, que identificam a localização do GPS e lhe enviam informação acerca das coordenadas de latitude e longitude em que o GPS está posicionado. Com base nessas coordenadas, o software do GPS é capaz de identificar em um mapa digital, contido em uma base de dados armazenada no próprio equipamento, o ponto preciso do mapa em que o equipamento se encontra.

A maior utilidade desse equipamento está em permitir que o seu usuário defina um destino, para o qual o GPS fornece uma rota, detalhada, passo a passo, a partir do local onde o equipamento se encontra. Assim, o GPS é uma excelente – hoje indispensável – ferramenta para que motoristas encontrem o caminho em uma grande cidade ou em qualquer contexto onde o trânsito seja complexo (isto é, em que há várias opções para chegar de um lugar a outro). Outra importante utilidade do GPS está em sugerir, com base em uma base de dados armazenada no próprio equipamento, quais serviços (ou outras coisas, como radares) estão presentes na vizinhança de qualquer lugar que selecionemos como referência (como, por exemplo, o local em que nos encontramos no momento): postos de serviço, supermercados, farmácias, cinemas, shoppings, etc. O usuário pode também identificar as coordenadas de destinos frequentemente utilizados, como a sua casa, o seu local de trabalho, ou qualquer outro ponto de interesse (POI, Point of Interest), e rotulá-las com descrições simples (Casa, Serviço, Sítio, etc.).

A principal função do GPS, portanto, é fabricar rotas passo a passo no trânsito para destinos fornecidos pelo usuário. Quando estamos usando uma rota, como as fornecidas pelo GPS, nós abrimos mão, até certo ponto, do direito de fazer escolhas em relação àquelas que vamos seguir. Delegamos (no caso) ao GPS a responsabilidade de fazê-las por nós, porque sabemos que, não importa quão complicado o caminho que leva ao destino desejado, o GPS nos levará lá.

No entanto, mesmo um GPS nos deixa espaço para muitas escolhas.

Em primeiro lugar, o GPS não escolhe o nosso destino: isso somos nós que temos de prover. O GPS não faz nem mesmo sugestões. Quando procuramos descobrir que serviços estão disponíveis na região onde estamos, ele nos mostra todos os serviços, classificados por categoria. Cabe a nós escolher a categoria e, dentro dela, o serviço desejado.

Em segundo lugar, o GPS nos deixa configurar o equipamento com nossa escolha do tipo de rota que preferimos: a rota mais curta, a rota mais rápida, a rota mais simples (quase sempre a rota mais rápida, que faz uso das grandes avenidas), e a rota mais pitoresca (em que há coisas interessantes ou vistas bonitas para desfrutar).

Em terceiro lugar, qualquer que seja a configuração que adotemos para a rota (mais curta, mais rápida etc.), o usuário sempre tem a opção de não seguir, no detalhe, a rota sugerida pelo GPS para adotar, em contextos específicos, um caminho que conhece bem e prefere seguir. O GPS, disciplinadamente, arranja o restante da rota para acomodar a sua preferência.

Ou seja, mesmo que escolhamos usar um GPS, que opera na base de uma série de roteiros passo a passo, ainda temos escolhas. E elas se situam principalmente no plano mais importante, o dos fins: a escolha do destino. Mas ainda podemos chamar para nós algumas escolhas acerca de meios (o tipo geral de rota, por exemplo, ou a rota específica em um determinado lugar).

Uma lição a tirar da discussão até aqui é que o GPS, com seus roteiros passo a passo, pode ser extremamente úteis no plano dos meios. E isso não só na área do trânsito. Um roteiro passo a passo para instalar ou utilizar um software complicado, ou para corrigir um problema de configuração num computador, é, como a rota de GPS, algo bastante útil. Eu mesmo, que tenho razoável experiência com computadores, de vez em quando preciso ligar para um Centro de Apoio (Help Desk) de banco para ser teleguiado na instalação de um certificado de segurança ou de um plug in, porque as configurações de segurança de meu computador tornam virtualmente impossível instalar o dito cujo sem ajuda externa.

A questão se torna mais complicada, porém, se adentramos o plano do fim. Falaremos mais sobre isso adiante, na Seção 5.

3. Instrumentos de navegação

Pode-se dizer que o GPS é um instrumento de navegação. Mas aquilo que eu chamo instrumento de navegação é algo um pouco diferente de um GPS.

Antonio Carlos Gomes da Costa, falecido em março deste ano, gostava de citar o seguinte verso de Gilberto Gil, retirado de sua famosa canção Aquele Abraço:

“Meu caminho pelo mundo eu mesmo traço,
A Bahia já me deu régua e compasso.
Quem sabe de mim sou eu.
Aquele abraço.”

Gilberto Gil não deixa dúvida de que o caminho dele pelo mundo é ele que traça. Isso quer dizer que ele não só escolhe seus destinos, mas também traça o percurso que vai seguir pela vida para chegar ao seu destino. Para traçar o seu percurso, ele não o GPS, mas outra tecnologia: instrumentos de navegação. No caso, os instrumentos de navegação que ele menciona são régua e compasso.

Tenho para mim a impressão que uma pessoa como Gil não gosta de GPS. Ele gosta não só de escolher o seu destino (como o faz o usuário de GPS) como também de escolher o caminho que vai ser trilhado, isto é, a rota. Mas, para definir a rota, ele usa certas ferramentas tecnológicas: régua e compasso.

Fico com a nítida impressão de que Gil escolheu régua e compasso porque compasso rima com abraço. Só por isso. Na área de navegação, parece-me que mapa e bússola são instrumentos de navegação muito mais indicados para essa tarefa.

Uma bússola nos indica o Norte, e, a partir dele, podemos descobrir a direção geral em que devemos seguir para chegar aonde queremos chegar. Um mapa nos permite escolher caminhos específicos. Podemos escolher, com a ajuda do mapa, um caminho rápido e fácil, seguindo por autoestradas com pedágios. Ou podemos escolher, com a ajuda do mesmo mapa, um caminho mais sinuoso, pelas montanhas, mais longo, mais lento – mas muito mais bonito (e sem pedágio): aquilo que os americanos chamam de scenic route, rota cênica.

Um mapa (dependendo do seu nível de detalhe) também nos ajuda a descobrir onde há obstáculos ou empecilhos nas rotas que gostaríamos de escolher: montanhas muito altas, com apenas umas poucas passagens (quem sabe um só túnel), ou um rio, que é preciso cruzar, mas que só tem uma ou outra ponte, aqui e ali.

O GPS nos permite escolher o nosso destino. Mas instrumentos de navegação, além de nos permitir escolher o nosso destino, nos ajudam a escolher a rota, fornecendo-nos apenas a direção geral, as rotas possíveis, e os obstáculos ou empecilhos que podemos encontrar.

4. Guias impressos de viagem

Um guia de viagem impresso nos descreve vários possíveis destinos dentro de um “macrodestino” que escolhemos. Digamos que queremos conhecer a França – esse é o macrodestino. O guia de viagem nos descreve vários possíveis destinos específicos na França. Ou pode ser que o nosso macrodestino seja Paris. O nosso guia de viagem nos descreve vários possíveis destinos (as diversas atrações da cidade), dentro desse macrodestino. Cabe a nós escolher o destino que nos parece mais interessante, dentro do leque de opções fornecido pelo guia de viagem.

Raramente um guia de viagem se preocupa em nos fornecer rotas, percursos, itinerários, no formato passo a passo. O máximo que ele faz é sugerir que, se você está numa região (o 16e Arrondissement, por exemplo), visitando o Trocadéro, há, na vizinhança, várias outras atrações que você pode visitar, como, por exemplo, Le Bois de Boulogne ou La Maison de la Radio.

Para chegar ao destino escolhido, é possível usar um carro equipado com GPS ou, então, usar um mapa e uma bússola…

5. Aplicação à educação

No meu último artigo, falei um pouco sobre meu itinerário de aprendizagem e minha trajetória intelectual. Terminei com uma citação de um biógrafo de John Dewey, que tomo a liberdade de transcrever, porque é relevante como introdução ao presente tópico.

“Sempre aberto às ideias dos outros, Dewey, no entanto, passava essas influências pelo crivo de seu pensamento e sentimento [i.e., de sua experiência] de modo a dar-lhes sentido e a transformá-las em algo seu, muito pessoal. Ele nunca se esqueceu de uma dívida intelectual ou pessoal significativa, em áreas que considerasse realmente importantes. Mas ele nunca permitiu que as várias ideias que o influenciaram ficassem separadas umas das outras, isoladas, como se ele fosse apenas um conjunto de espelhos que refletisse o pensamento dos outros. Ele armazenava tudo o que aprendia, mas, deixando de lado peculiaridades das fontes que o influenciaram, transformava as ideias dos outros em algo tipicamente seu”. (Jay Martin, The Education of John Dewey: A Biography [Columbia University Press, New York, 2002] p.131).

Quando recebemos a influência intelectual de outra pessoa (em geral um autor, um professor, um padre ou pastor, ou um parente), ficamos com uma dívida intelectual para com ela. Nesse caso, prestamos-lhe uma homenagem se o nosso pensamento, decorrente dessa influência, não é apenas uma cópia ou um espelho do pensamento da pessoa que nos influenciou. Para usar as palavras de Jay Martin, não devemos ser um conjunto de espelhos que apenas reflita o pensamento dos outros. Precisamos, como eu disse naquele artigo, ingerir, mastigar e digerir aquilo que tomamos dos outros, para que esse legado entre em nosso sangue a passe a integrar o nosso DNA intelectual.

Nesse contexto, preocupa-me a tendência, herdada dos Estados Unidos, mas bastante comum em nossa cultura, de, para tudo, não só para percursos de uma viagem, elaborar um roteiro passo a passo, um step by step. O passo a passo, como vimos, é um algoritmo, uma receita, que prescreve como devemos fazer algo “nos mínimos detalhes”.

Essa tendência se manifesta também em uma série de livros americanos, em geral manuais de instrução ou de vida, que pretendem ensinar os seus leitores, da maneira mais simples possível, a fazer alguma coisa. Eles chegam a se descrever como “à prova de idiotas”. Isso quer dizer que, qualquer idiota, seguindo o livro, é capaz de fazer aquilo que se pretende ensinar.

Mas justifica-se um passo a passo para professores darem aula de suas matérias? Ou seria melhor, num caso assim, usar um guia de viagem, que deixa ao professor não só a tarefa de expor vários possíveis destinos para os seus alunos, e de explicar a eles como usar os mapas e as bússolas, incentivando-os e ajudando-os a escolher seus próprios destinos e os seus itinerários de aprendizagem?

Alguns dos chamados “sistemas de ensino” existentes no mercado parecem não passar de um conjunto de roteiros passo a passo. Felizmente não se anunciam como idiot proof… Mas, à primeira vista, parecem não ser muito mais do que isso. Melhor seria que funcionassem mais como guias de viagem e instrumentos de navegação, deixando aos alunos a tarefa prazerosa de escolher os destinos que vão visitar e de escolher as rotas mais interessantes.

———-

Em São Paulo, 12 de Julho de 2011

Itinerários de Aprendizagem e Trajetórias Intelectuais

O décimo sétimo artigo meu no Blog das Editoras Ática e Scipione foi publicado ontem. Vide a URL original: http://blog.aticascipione.com.br/eu-amo-educar/itinerarios-de-aprendizagem-e-trajetorias-intelectuais 

———-

Li uma vez a história de um avô que passeava carregando a neta nos ombros. Ao encontrar um amigo, este resolveu brincar com a criança e elogiou-lhe o tamanho. Ao elogio a menina respondeu: “Bem, muito obrigado, mas nem tudo disso que o senhor vê sou eu”.

(Peguei essa história de terceira mão. Ela é mencionada no livro The Schools our Children Deserve: Moving Beyond Traditional Classrooms and “Tougher Standards”, de Alfie Kohn [Houghton Mifflin Company, New York, 1999, 2000], p. 333. O autor afirma que a ouviu contada pelo antropólogo Lionel Tiger, que dizia que o caso se passara com um não identificado professor e sua neta…).

Ao chegar perto de vinte artigos neste blog, lembrei-me da observação da menina, e concluí que ela é relevante aqui. Pouca coisa do que discuti aqui é ideia original minha. Ao especialista na área, isso ficará imediatamente evidente. Para o leigo no assunto, porém, isso deve ser clara e formalmente declarado – muito embora tenha, nos diversos artigos, feito referência a vários autores que me serviram de fonte e inspiração.

Nenhum trabalho intelectual é uma produção totalmente individual. Há dívidas com pessoas que já morreram, em alguns casos há muito tempo. E dívidas com pessoas ainda vivas.

Minha formação pessoal se deu, formalmente, na teologia e na filosofia. Tenho dívidas intelectuais enormes com alguns filósofos famosos, aos quais dediquei mais atenção em minha formação. Com nenhum deles concordo inteiramente, mas todos os que vou citar deixaram em mim influências marcantes.

Procurarei, aqui, fazer um breve relato de meu itinerário de aprendizagem, que define a minha trajetória intelectual. Primeiro falarei das influências de alguns grandes nomes da filosofia, todos eles já falecidos. Depois falarei dos vivos.

Comecemos no começo.

Sócrates, o mestre de Platão, sempre chamou minha atenção para os seguintes fatos:

Primeiro, como crianças, ideias são sempre concebidas em interação humana. Não nascem por geração espontânea.

Em segundo lugar, da mesma forma que a mulher que dá à luz uma criança frequentemente precisa da ajuda de um parteiro (ou obstetra), nós também precisamos de parteiros e obstetras intelectuais que nos ajudem a dar à luz as ideias que concebemos.

Em terceiro lugar, como a criança que nasce, nossas ideias precisam se desenvolver, o que novamente se dá através da interação humana, do diálogo, do embate de ideias, da discussão crítica.

O legado de Sócrates pode, portanto, ser resumido na seguinte frase: o foco da educação deve estar no aprendente: é sobre ele que deve brilhar a spotlight. A melhor metáfora a descrever a função do professor é “parteiro de ideias” – de ideias dos outros, bem entendido.

Aristóteles, aluno de Platão (por sua vez, discípulo de Sócrates), me marcou pela ênfase que deu ao fato de que as ideias que concebemos devem estar ancoradas na experiência e à necessidade de que, ao tratar essas ideias, respeitemos a lógica e razão. (Entendo a razão com o conjunto de procedimentos e métodos, que certamente incluem a lógica e o respeito à evidência, que impedem que nossos conceitos, juízos e decisões sejam totalmente arbitrários).

Aristóteles também me convenceu de que algumas de nossas ideias são objetivamente verdadeiras, e que o relativismo e o ceticismo se destroem a si próprios (são self-defeating, como se diz em inglês).

David Hume, o grande cético (não-radical, convenhamos) da época do Iluminismo, sobre quem escrevi minha tese de doutoramento em 1970-72, me ajudou a evitar o dogmatismo ao insistir que tudo, até mesmo nossa experiência sensorial, a lógica, a racionalidade e a crença na posse da verdade, deve ser encarado com certa dose de ceticismo.

Mas Hume não foi capaz de fazer de mim um cético total, nem um relativista, nem um descrente na experiência sensorial, na lógica, na razão e na existência da verdade.

Hume e seu melhor amigo, Adam Smith, foram, porém, capazes de me convencer de que existe algo que é apropriado chamar de natureza humana – que nunca se desrespeita impunemente, isto é, sem pagar um alto preço, especialmente quando se trata da organização da sociedade.

E os dois, mas principalmente Adam Smith, neste caso, me ajudaram a me tornar um liberal estilo clássico (mas nisso tiveram a ajuda de muitos outros, em especial de Ayn Rand).

Karl Popper, crítico de Hume em alguns aspectos, mas seguidor dele em outros, me ajudou a ver o processo de construção do conhecimento humano – incluindo o conhecimento científico – como algo hipotético, conjetural, falível, nunca final e definitivo, mas que não deixa de ser, por isso, objetivo e racional.

Popper ainda me ajudou a entender a continuidade que existe entre a ciência e o senso comum, bem como entre a ciência e a filosofia (ambas dependentes da razão crítica). Popper também me ajudou a entender porque a racionalidade crítica só pode prosperar numa sociedade aberta e livre.

Da mesma forma que Sócrates foi “avô intelectual” de Aristóteles, Popper foi o meu: ele foi orientador de doutorado do meu orientador de doutorado, William Warren Bartley III, falecido prematuramente.

Por fim, a minha influência maior, Ayn Rand, que, além de reforçar – de forma inigualável – os temas aristotélicos na filosofia do século 20, me fez ver algo que Popper já havia me mostrado: que a racionalidade só pode prosperar e frutificar em uma sociedade radicalmente aberta e livre, que valoriza o indivíduo e seus direitos, básicos e fundamentais, quais sejam: o direito à vida, o direito à liberdade (de expressão, locomoção, associação, contrato, e de busca da felicidade como ele a entender), e o direito à propriedade dos frutos do trabalho.

Com sua inestimável ajuda consegui integrar minha metafísica, minha epistemologia, minha ética, e minha filosofia política.

Em 5 de Fevereiro de 2005 o mundo racional e livre comemorou 100 anos do nascimento dessa grande filósofa e insuperável romancista, nascida na Rússia como Alyssa Zinovievna Rosenbaum, mas que cedo percebeu que não seria capaz de manter sua racionalidade numa sociedade sem liberdade, como era a sociedade russa depois da tomada do poder pelos comunistas em 1917, e, por isso, fugiu para os Estados Unidos, onde alcançou fama e sucesso e se tornou profundamente influente.

Esses filósofos são os principais pilares em cima dos quais minhas ideias e minha visão de mundo foram construídas. Mas ainda faltava integrar à minha visão de mundo a minha filosofia da educação.

Aqui, registro apenas uma influência estrangeira digna de nota.

John Dewey é, a meu ver, o maior filósofo da educação do século 20 (embora discorde dele em muitos pontos importantes) – talvez o maior desde Jean Jacques Rousseau, no século 18. Dewey me ajudou a perceber três aspectos essenciais da educação, que estão refletidos claramente nos artigos que escrevo neste blog.

Primeiro, a educação tem que ver com a criança, não com o professor, e, portanto, com a aprendizagem, não com o ensino.

Segundo, a educação é um processo natural de desenvolvimento humano, de “dentro para fora”, por assim dizer, não um processo artificial de imposição à criança, “de fora para dentro”, de um conjunto de informações e conhecimentos.

Terceiro, a forma mais eficaz e eficiente de ajudar a criança a aprender – e, portanto, de ajudá-la a se desenvolver – é respeitando, e não subjugando, seus interesses. Especialmente num contexto escolar, esse respeito se traduz na chamada aprendizagem ativa, que é promovida através da metodologia de projetos de aprendizagem (metodologia que foi introduzida no mundo pedagógico por um discípulo de Dewey, William Heard Kilpatrick).

O meu envolvimento com o Instituto Ayrton Senna a partir de 1999 me ajudou, de certo modo, a “traduzir” John Dewey para o contexto brasileiro atual, sem violar os demais elementos de minha visão filosófica, que acabei de ressaltar.

O meu envolvimento com o Instituto Lumiar me permitiu ver que o que penso não é utopia: a Escola Lumiar é, em sua concepção, e, espero, cada vez mais na sua prática, a escola mais próxima das ideias que tenho publicado neste blog que conheço.

Sou devedor a todas as pessoas mencionadas, e a muitas outras. Destaco, entre essas outras, dois amigos pessoais: Rubem Alves e Antonio Carlos Gomes da Costa (este, infelizmente, falecido recentemente, no último 5 de março). Dois magníficos educadores de estilos bastante diferentes.

Conheço Rubem Alves há quase cinquenta anos. Foi a Igreja Presbiteriana que nos aproximou. Estudamos no mesmo Seminário, em Campinas, ele um pouco antes de mim. Sofremos nas mãos das mesmas pessoas na igreja, na época do autoritarismo. Fomos para os Estados Unidos mais ou menos na mesma época, no final da década de sessenta. Estudamos em lugares diferentes, ele em Princeton, eu em Pittsburgh. Finalmente, trabalhamos juntos por longos anos na UNICAMP, no Departamento de Filosofia e História da Educação da Faculdade de Educação. Foi por influência dele que eu vim para essa universidade, em 1974.

O Antonio Carlos fiquei conhecendo ao me envolver com o Instituto Ayrton Senna, no ano 2000. Ele foi o principal responsável pela construção do referencial teórico do Instituto: a noção de educação para o desenvolvimento humano. Foi também o grande introdutor no Brasil do conceito de protagonismo juvenil, que eu discuti no segundo artigo desta série: Educação centrada no aluno.

As principais ideias de ambos vêm se mesclando de tal forma com as que eu já trazia comigo que não sei o que estaria pensando hoje se, um dia, não tivesse tido o privilégio e a satisfação pessoal de me tornar amigo dos dois, embora com um intervalo de quase quarenta anos.

Há algum tempo escrevi que tinha um projeto pessoal de fazer com que os dois, o Rubem e o Antonio Carlos, se encontrassem pessoalmente. O Antonio Carlos me pregou uma peça. Foi embora antes.

O que apresento nos meus artigos aqui é a minha visão – visão que é fruto de minha ingestão, mastigação e digestão dos pontos de vista dessas muitas pessoas (e, desnecessário frisar, muitas outras). Mas esses pontos de vista, depois de devorados por mim, passaram a circular no meu sangue, e, por conseguinte, passaram a ser parte de mim: integraram-se à minha visão de mundo, ao meu DNA intelectual. O que se encontra aqui é minha opinião.

Encontrei uma referência a essa forma de “antropofagia” na excelente biografia de John Dewey escrita por Jay Martin, sob o títuloThe Education of John Dewey: A Biography (Columbia University Press, New York, 2002). Diz ele na p. 131:

“Sempre aberto às ideias dos outros, Dewey, no entanto, passava essas influências pelo crivo de seu pensamento e sentimento [i.e., de sua experiência] de modo a dar-lhes sentido e a transformá-las em algo seu, muito pessoal. Ele nunca se esqueceu de uma dívida intelectual ou pessoal significativa, em áreas que considerasse realmente importantes. Mas ele nunca permitiu que as várias ideias que o influenciaram ficassem separadas umas das outras, isoladas, como se ele fosse apenas um conjunto de espelhos que refletisse o pensamento dos outros. Ele armazenava tudo o que aprendia, mas, deixando de lado peculiaridades das fontes que o influenciaram, transformava as ideias dos outros em algo tipicamente seu”.

———-

Em São Paulo, 5 de Julho de 2011

Escolhas

Artigo publicado em 29/06/2011 no Blog das Editoras Ática e Scipione:

http://blog.aticascipione.com.br/eu-amo-educar/escolhas

———-

1. Escolhas, opções e decisões

As escolhas que fazemos na vida dependem das opções que temos – e se materializam através de nossas decisões.

Há momentos na vida em que somos confrontados por situações em que (segundo tudo indica) temos de fazer uma escolha e tomar uma decisão. Em situações assim, não nos é ofertada a opção da continuidade: ou seguimos por um lado, ou pelo outro.

Se, Deus nos livre, formos assaltados na rua e o assaltante nos colocar diante da clássica equação “a bolsa ou a vida”, nos depararemos com uma escolha a fazer, embora as opções não sejam apenas as que o assaltante impõe. Podemos lhe entregar a bolsa e, se tudo sair certo, nos safarmos do incidente com vida, ou podemos ficar com a bolsa e arriscar a vida. Mas ainda podemos – apesar de o bom senso e as autoridades policiais não recomendarem – criar uma terceira opção: tentar ficar tanto com a vida como com a bolsa, reagindo contra o assaltante. Há, evidentemente, a possibilidade de perdermos ambos, mas o fato é que numa situação assim não temos a opção de não fazer uma escolha: somos obrigados, forçosamente, a fazê-la.

Há momentos na vida em que somos confrontados por situações em que (pelo menos aparentemente) temos a opção de fazer uma escolha (dentro de uma série de opções), mas podemos também não fazê-la (pelo menos naquele momento). Só que não fazer a escolha também reflete, de certo modo, uma escolha…

Imaginemos um jovem solteiro, com cerca de 30 anos, que esteja bem empregado e ainda more com seus pais. Em algumas sociedades, ele será pressionado a fazer uma escolha: casar-se (ou viver junto em união estável) ou não. Se ele inicialmente optar por não fazer a escolha, de certo modo fará a escolha de não se casar (pelo menos naquele momento). Se optar por se casar, terá, na sequência, de fazer várias outras escolhas. Hoje em dia, pelo andar da carruagem, terá de fazer uma escolha básica: decidir se se casa com alguém do outro sexo ou com alguém do mesmo sexo… Após esta etapa, terá de escolher com quem irá se casar. E assim vai.

Em uma sociedade simples, normalmente temos poucas opções. Se a sociedade é também conservadora e estável – isto é, se quase não muda, ou muda muito devagar –, o número de opções que temos é ainda menor, porque várias coisas são decididas por nós através da tradição, do costume, ou até mesmo da lei, que muitas vezes incorpora a tradição e o costume.

Quando a lei, ou o costume, ou a tradição proíbem alguma coisa, sempre temos a opção de afrontá-los, se julgamos o assunto suficientemente importante e estivermos dispostos a sofrer as consequências. Numa sociedade assim, o curso de nossa vida é, em grande medida, decidido por nós, isto é, independe de nossas escolhas.

Ou vejamos.

Na sociedade brasileira em que viviam nossos avós (ou bisavós, se você, leitor, for muito jovem), casar-se com alguém do mesmo sexo não era uma opção. A tradição, o costume e a lei daquela sociedade não colocavam essa opção. É inegável que as pessoas podiam afrontar a tradição, o costume e a lei e viver juntos com alguém do mesmo sexo. Mas essa união, além de não ser bem aceita socialmente, não produzia no plano jurídico os mesmos efeitos que, hoje, uma união estável entre pessoas do mesmo sexo produz (pensão, seguro, herança etc.). Naquela sociedade, nem mesmo a opção de simplesmente não se casar era muito realista, por causa da pressão social – a menos que você estivesse disposto a se tornar padre ou freira.

É verdade que muitos (quem sabe muitas) queriam se casar dentro do padrão convencional, mas não encontravam ninguém suficientemente interessante com quem pudessem fazê-lo – ou simplesmente não encontravam ninguém, ponto, interessante ou não, dentro ou fora do convencional, disposto a aceitar uma proposta de casamento. (Ninguém nunca disse que a vida é fácil…).

Na sociedade brasileira anterior a 1977, uma vez casado, sempre casado: o divórcio não era uma opção, porque a lei não o permitia. A separação de fato sempre era possível, mas ela não produzia efeitos no plano jurídico. A “separação de jure”, o chamado desquite, era possível e produzia alguns efeitos jurídicos, mas não podia ser seguida de um novo casamento ou união estável legalmente registrada, porque apenas a sociedade conjugal era dissolvida, não o casamento.

Note-se que estamos falando, aqui, de coisas importantes, como casar-se ou não se casar, e, tendo se casado, separar-se ou não se separar… Mas as coisas funcionam do mesmo jeito mesmo em situações relativamente simples.

Disse atrás que uma sociedade simples é uma sociedade em que, normalmente, temos poucas opções. Antigamente, se estivéssemos na rua e quiséssemos tomar um café, iríamos a um bar e pediríamos um cafezinho – passado no coador convencional, ele seria servido já adoçado, inevitavelmente. Hoje em dia, se entrarmos num bar e pedirmos um café, teremos, provavelmente, de fazer várias escolhas: comum ou expresso? Puro ou com um pouco de leite? Com açúcar, com adoçante, ou sem nada? Se formos a uma coffee shop sofisticada, provavelmente teremos de fazer várias outras escolhas, porque lá existe até mesmo a oportunidade de tomar café com chocolate e canela, ou café gelado em um copo com mistura de conhaque, por exemplo. Isso mostra que, à medida que a sociedade se sofistica, o número de nossas opções aumenta e, consequentemente, temos mais escolhas a fazer e somos obrigados a tomar mais decisões.

Embora possamos concluir que é melhor ter mais opções do que menos, é inegável que, em muitas situações, fazer escolhas e tomar decisões não é algo fácil. Às vezes é muito difícil, e em situações extremas pode parecer até impossível. (Alguém viu o filme A Escolha de Sofia?)

É difícil fazer uma escolha se nenhuma das opções disponíveis é aceitável… No caso do assaltante, descrito atrás, nem a opção de entregar a bolsa nem a opção de abrir mão da vida é aceitável para a maioria das pessoas. Por isso algumas delas criam a opção, arriscadíssima, de reagir. Também é difícil fazer uma escolha se mais de uma opção é igualmente aceitável, mas não é permitido ou viável escolher mais de uma opção…

Também é difícil fazer uma escolha se o número de opções é muito grande, mesmo que seja possível adotar mais de uma delas. Uma criança numa loja de brinquedos, ou um professor universitário numa livraria, ou uma jovem numa loja de sapatos atraentes em liquidação são todos exemplos dessa situação. Têm vontade de levar tudo – mas, por razões financeiras ou logísticas, estão impedidos de fazê-lo, tendo, portanto, de escolher apenas uns poucos.

2. A escolha de uma profissão ou carreira

A escolha de uma profissão ou carreira era, num passado não muito remoto, algo bem mais simples e fácil do que é hoje. Por um lado, havia menos opções. Por outro lado, a fixidez dos costumes, a rigidez dos papéis sociais e sexuais e a ausência de possibilidades reais de mobilidade social restringiam as opções de cada um. O filho de um pequeno agricultor tinha poucas opções além de seguir a profissão ou carreira do pai, ao mesmo tempo em que filhos de advogados e médicos dificilmente não se formavam advogados e médicos.

Note-se que estou usando exemplos de pessoas do sexo masculino de forma intencional, porque mulheres, especialmente as mais pobres, não tinham muitas opções profissionais, além do casamento ou (e) do trabalho doméstico. Para as mulheres da – relativamente pequena – classe média, havia a opção de seguir o magistério, a enfermagem, ou de trabalhar no comércio. Existiam mais opções para as mulheres das classes mais abastadas – mesmo assim, uma gama bastante limitada face às possibilidades disponíveis atualmente.

Uma menina pobre que diga que pretende ser médica ou astronauta faz ainda hoje com que as sobrancelhas de muita gente se entortem. Um menino pobre, engraxate, que afirme que um dia será presidente da nação ainda causa a mesma reação – embora, como todos sabemos, isso hoje não só é possível como já aconteceu.

De qualquer maneira, as opções hoje disponíveis para quem está no momento de escolher uma profissão ou uma carreira são infinitamente superiores às que existiam cem anos atrás – tanto para homens como para mulheres. O problema, há cem anos, é que existiam poucas opções. Hoje o problema é o excesso de opções.

3. Projeto de vida

A definição de um projeto de vida envolve mais do que a escolha de uma profissão ou carreira (embora necessariamente inclua isso). Ela envolve, por exemplo, as questões que discutimos no primeiro ponto: queremos viver a vida basicamente sozinhos ou queremos compartilhá-la com alguém? Se optarmos por compartilhá-la com alguém, qual é, em linhas gerais, o perfil da pessoa com quem gostaríamos de compartilhá-la? Definido este perfil, qual, dentre as pessoas que o preenchem, parece mais interessante? Ela está disponível e disposta a compartilhar sua vida conosco? Se não está, devemos desistir ou há possibilidade de a convencermos de que compartilhar sua vida conosco é uma opção atraente?

Mas um projeto de vida envolve mais do que escolhas sobre profissão e carreira, ou sobre casar ou não casar, ou (tendo decidido casar) com quem… Também envolve a escolha (extremamente complexa) do tipo de pessoa que queremos ser e do tipo de vida que queremos viver. Por exemplo: onde vamos querer viver – numa grande capital ou numa pequena cidade? Numa montanha ou num vale? Na praia ou num sítio sossegado no interior?

4. Autoconhecimento

Todos nós nascemos com certas capacidades e aptidões naturais. Normalmente chamamos essas capacidades ou aptidões de talentos naturais, ou dons – um dom é algo que nos é dado, que não fomos nós que adquirimos ou construímos.

Uns têm talento ou dom para a comunicação verbal (oral ou escrita), outros para lidar com números, outros para a música (que se desdobra em vários dons subsidiários), outros para a dança (que também se desdobra em vários dons subsidiários), outros para o esporte (que igualmente se desdobra em vários dons subsidiários), outros para a negociação e para a busca de acordos e consensos, outros para cuidar de crianças, ou de idosos, ou de doentes, etc.

Nosso projeto de vida deve refletir aquilo que realmente queremos ser e fazer na vida. Para isso, devemos buscar conhecimento sobre nossos talentos ou dons…

É verdade, entretanto, que, algumas vezes, podemos ter talentos e dons para uma coisa, mas não sentir prazer em realizá-la. Neste caso, nossos talentos e dons não combinam com aquilo que realmente gostamos de fazer.

Outras vezes escolhemos fazer algo porque representa o que nos dá prazer, ou é a nossa paixão, mas não temos talento para a coisa. Por exemplo, tocar violino ou piano, jogar futebol… Aqui a paixão não combina com nossos talentos e dons.

Situação talvez mais difícil seja a de quem não consegue descobrir quais seus talentos e dons, ou, talvez ainda mais complicado, quais são as suas paixões, as coisas de que realmente gosta de fazer, que o faz vibrar, o que lhe enche de entusiasmo e motivação.

Muitos jovens, hoje em dia, parecem perdidos diante da vida, sendo incapazes de definir um projeto de vida de longo prazo. Precisam aprender a fazer isso.

5. Valores

Definir um projeto de vida envolve fazer escolhas. E escolhas são feitas com base em valores.
Valores (verdade, honestidade, justiça, bondade, beleza) são entidades abstratas que orientam nossas escolhas e decisões e, através delas, nossas ações. Sendo assim, muitas vezes abrimos mão de algo que queremos ou que nos traria vantagem por causa de nosso compromisso com a verdade ou com a honestidade ou com a justiça.

Suponhamos que um jogador de futebol faça um gol com a mão e, na sequência, levante o braço e acuse, ele próprio, a irregularidade no lance. Ainda que o árbitro tenha validado o gol, ele exibirá, na prática, o que são valores, porque a atitude representa que ele não está interessado em levar vantagem o tempo todo nem a qualquer preço. (No Brasil, infelizmente, se alguém fizer isso provavelmente será considerado um babaca).

É possível que nossos valores nos impeçam de escolher determinadas profissões ou carreiras que gostaríamos de exercer, ou, tendo-as escolhido, de exercê-las como a maior parte das pessoas as exerce. Também é possível que nossos valores nos impeçam de nos casar com determinadas pessoas, com quem gostaríamos de nos casar, porque são de raça ou de cor ou de religião ou de orientação sexual ou de posição ideológica diferente – ou apenas porque elas já são casadas.

Nesses casos, devemos nos privar daquilo que queremos ou submetermos nossos valores a uma análise séria e, quem sabe, a uma revisão.

6. O papel da educação

A visão de educação como processo de desenvolvimento humano (e não como processo de transmissão da tradição cultural da humanidade de uma geração para outra) coloca todo esse conjunto de questões no centro do trabalho educativo.

Essa visão da educação se alicerça num entendimento, ainda que minimalista e formal, da natureza do ser humano, que ressalta os seguintes traços:

  • O ser humano ao nascer

Para estabelecer comparação e contraste, vamos analisar brevemente uma espécie animal bastante curiosa e interessante: as tartarugas marinhas.

O filhote de uma tartaruga marinha nasce sabendo fazer aquilo que ele precisa fazer para sobreviver. Ao sair do ovo, ele já domina as competências básicas necessárias para sua sobrevivência: sabe andar, sabe nadar, sabe encontrar alimento adequado. Por isso, o filhote de tartaruga marinha nem sequer precisa de cuidados maternos para sobreviver. Sua mãe bota ovos na areia da praia e vai embora, abandonando os futuros filhotes à própria sorte antes mesmo de eles nascerem. O filhote, depois de nascido, não precisa se submeter a um processo de desenvolvimento, digamos, “tartarugal”: ele já nasce pronto para viver sua vida de tartaruga marinha. Não precisa aprender nada. Tudo que ele precisa saber fazer para sobreviver ele já nasce sabendo. Só lhe resta crescer e amadurecer algumas funções já existentes, como, por exemplo, a função reprodutiva.

Isso poderia parecer uma grande vantagem. Mas tem seu preço. Nenhuma tartaruguinha marinha escolhe o que vai ser e o que vai fazer na vida, nenhuma tartaruguinha define um projeto de vida e gasta tempo procurando descobrir quais seus talentos e dons, ou procurando selecionar seus valores.

Em contraste, o ser humano não nasce totalmente desenvolvido: nasce, por assim dizer, inacabado. Apesar de passar por uma gestação relativamente prolongada no útero materno, ao nascer ele não está pronto para viver a vida de um ser humano: não sabe fazer basicamente nada, além de chorar, quando está em desconforto.

Diferentemente da tartaruguinha marinha, o bebê humano é, no momento do nascimento, totalmente incompetente, do ponto de vista de sua capacidade de sobrevivência autônoma: não domina nenhuma das competências específicas indispensáveis para esse tipo de sobrevivência, como, por exemplo, locomover-se com eficiência, comunicar-se de forma eficaz com aqueles que vivem ao seu redor, arranjar comida e abrigo para si próprio… Para se locomover de forma mais ou menos eficiente, o ser humano leva pelo menos um ano; para se comunicar de forma mais ou menos eficaz com seus semelhantes, precisa de no mínimo três anos; para cuidar de sua vida com um mínimo de autonomia, precisa de vários anos – só Deus sabe quantos, hoje em dia. Por isso, o ser humano é, ao nascer e por bom tempo depois, totalmente dependente de outras pessoas. E, por ser dependente, não pode ser considerado responsável por suas ações. Na verdade, por bom tempo ele mais sofre as ações dos outros do que propriamente age (no sentido estrito do termo “agir”). Por isso, a legislação em geral o considera legalmente incapaz durante esse tempo.

Assim sendo, ou o ser humano constrói, através da aprendizagem, as competências específicas indispensáveis para a sua sobrevivência, ou ele viverá para sempre dependente dos outros, um parasita, porque, deixado à própria sorte, morrerá.

  • Sua capacidade de aprender

Apesar de nascer incompetente, no sentido visto, o ser humano nasce com uma incrível capacidade de aprender, que lhe possibilita a partir do seu nascimento dominar várias habilidades que, oportunamente, se aglutinam nas competências que lhe permitem deixar para trás a incompetência originária, alcançando níveis cada vez maiores de autonomia e assim se tornando cada vez mais responsável por suas ações e pelo seu destino.

A capacidade de aprender do ser humano lhe permite aprender em interação com o seu ambiente, em especial com o ambiente humano. E essa capacidade é inata: o ser humano não precisa aprender a aprender. Isso, ele já nasce sabendo. Depois de nascer, ele precisa apenas exercitar essa aptidão de modo a adquirir outras habilidades, que não lhe são inatas.

  • Educação e projeto de vida

Porque o ser humano não nasce pronto para a vida, sua “programação genética” é, em grande medida, “aberta”: restringe-se aos essenciais biológicos.

Esse fato lhe permite, oportunamente, por escolha própria, respeitadas as circunstâncias em que vive (que incluem condições naturais, históricas e sociais, bem como decisões e ações de terceiros), definir seu projeto de vida, isto é: (a.) Escolher que tipo de vida deseja viver e que tipo de ser humano deseja ser; (b.) Usar sua capacidade de aprender para desenvolver as habilidades e competências necessárias para transformar seu projeto de vida em realidade.

Esse projeto de vida pode e deve ir muito além da mera sobrevivência de cada um para incluir a fruição da vida, vale dizer, sua realização nos diversos planos em que essa vida se desenrola: pessoal, social, profissional etc.

É importante registrar que, nessa visão da educação, não são os educadores que definem o tipo de ser humano que querem “formar”: cada criança escolhe que tipo de pessoa quer ser, vale dizer, que tipo de pessoa pretende se tornar.

  • Projeto de vida e construção de competências

Informações, conhecimentos, valores e atitudes são necessários para que o ser humano defina seu projeto de vida e o transforme em realidade. No entanto, o foco da educação está no processo de desenvolvimento humano – e esse processo se dá pela aprendizagem, entendida como construção de capacidades, vale dizer, de competências.

Uma competência é um conjunto de habilidades adquiridas ou construídas pela aprendizagem que permite ao ser humano fazer coisas que ele não sabe fazer naturalmente – como, por exemplo, falar uma linguagem verbal específica, ou ler e escrever o código escrito dela.

Algumas competências básicas, como falar uma linguagem verbal, são essenciais para qualquer projeto de vida. No tipo de sociedade desenvolvida em que vivemos, dominar o código escrito dessa linguagem também é uma competência essencial para qualquer projeto de vida. Muitos argumentam que manejar tecnicamente as tecnologias digitais e saber o que fazer com elas também são competências essenciais aos seres humanos privilegiados que vivem no Século XXI, em que essas tecnologias estão por toda a parte.

A aprendizagem, embora seja social, isto é, aconteça no processo de interação de cada ser humano com seus semelhantes, precisa ser uma construção de cada um. É essa a essência da visão construtivista da educação e da aprendizagem. O ser humano aprende, neste caso, quando se torna capaz de fazer aquilo que não conseguia fazer antes.

Dentro dessa visão, o ser humano se desenvolve à medida que aprende, e a construção de sua identidade como pessoa autônoma (que define seu próprio projeto de vida) e responsável (que transforma seu projeto de vida em realidade) é um processo que acontece ao longo de toda a sua vida. Por isso, a aprendizagem, e, por conseguinte, o desenvolvimento do ser humano, tem lugar ao longo de toda a sua vida.

7. O desafio: meios e fins

Se não me engano foi Albert Einstein que disse uma vez que nós vivemos em uma época de meios cada vez mais aperfeiçoados e fins cada vez mais confusos. Isto se reflete na educação que proporcionamos a nós mesmos e aos outros.

Tecnologia é meio. Competências são meios. Meios sem dúvida são importantes. Mas só são importantes quando servem para nos ajudar a alcançar fins que desejamos atingir e que estão firmemente alicerçados em nossos valores.

Dar ênfase, na educação, ao desenvolvimento de competências e ao domínio de tecnologias, sem enfatizar os fins, sem uma concomitante discussão séria do papel que esses fins têm no projeto de vida de cada um e nos projetos de vida coletivos é propiciar uma educação capenga, que permite que as crianças fiquem com potentes meios nas mãos, mas sem saber o que podem e o que devem fazer com eles.

Que as crianças, os adolescentes e os jovens queiram saber para que servem as coisas que queremos e esperamos que eles aprendam na escola não é de admirar. Na realidade, é evidência de que eles têm a cabeça focada nas coisas certas. O que é de admirar é que tantos educadores não saibam responder a essas perguntas, nem se preocupem com isso.

———-

Em São Paulo, 4 de Julho de 2011

A Escola e as Redes Sociais

Artigo publicado no dia 20/06/2011 no Blog das Editoras Ática e Scipione:

http://blog.aticascipione.com.br/eu-amo-educar/a-escola-e-as-redes-sociais

———-

Meu artigo anterior, A revolução da desintermediação, gerou alguns comentários longos. A alguns eu respondi na seção de comentários do próprio blog. No entanto, resolvi abrir uma exceção para escrever um artigo inteiro acerca do comentário de Rose Marie Dubinskas. Acho que ela tocou em algumas questões importantes cuja discussão merece ficar num plano mais amplo.

Transcrevo aqui, na íntegra, o comentário que ela deixou no blog, para que os leitores possam tê-lo como pano de fundo do meu artigo e fazer referência a ele com mais facilidade.

Diz Rose Marie:

Não acredito que seja algo tão simples assim. Não se trata simplesmente de “desintermediar”, ou seja lá qual for o termo, a educação. A escola precisa e deve ser mais do que um ambiente onde se discute o conhecimento humano acumulado ao longo dos séculos. Tem que ser um lugar onde as relações humanas, a vivência e a troca de experiências se desenvolvam naturalmente e façam parte do dia a dia daqueles que nela se encontram. Deve privilegiar as descobertas e os caminhos percorridos para se chegar a determinados objetivos e não ter como meta a pura e simples aquisição do conhecimento. Deve proporcionar um convívio no qual as relações sejam questionadas e os métodos sejam avaliados mais do que os resultados. Reduzir o trabalho do professor a um mero cuidador de pessoas é minimizar demais a sua importância. Nem as escolas de educação infantil têm mais esse caráter. As redes sociais têm sim a sua importância, mas por si só não substituem o aconchego do encontro entre as pessoas, o sentir-se acolhido e amado entre seus semelhantes, a troca, o compartilhar, o toque, o olhar e a sensação de pertencimento. Muito eu teria ainda para dizer em relação aos espaços escolares, mas aqui não há como fazê-lo com a amplitude e a importância merecidos. Há que se trabalhar neles e vivenciar a beleza das relações que ali se desenvolvem, num processo muito mais amplo do que um simples aprender técnico e funcional. Aprender a fazer uma bomba através da internet parece muito simples, mas a ética, o porquê construir uma bomba e suas consequências não são, de maneira nenhuma, objeto de discussão no processo.”

Cara Rose Marie…

Há algumas questões que você levanta em seu comentário sobre as quais nós (acredito) realmente discordamos. Há uma ou outra questão colocada por você sobre a qual acredito que não fui interpretado corretamente. E, naturalmente, há questões sobre as quais concordamos.

Vejamos.

1.) Você afirma: “A escola precisa e deve ser mais do que um ambiente onde se discute o conhecimento humano acumulado ao longo dos séculos.” A sua redação sugere que a escola deve ser isso (“um ambiente onde se discute o conhecimento humano acumulado ao longo dos séculos”) e mais alguma coisa. Eu discordo de que a escola deva ser isso – e mostrarei nos itens seguintes (em especial no item 2) as razões que tenho para discordar. Acho que, se ela continuar a existir, ela forçosamente vai ser outra coisa (sem o “mais”): a) OU, se ela não se transformar, ela vai se tornar um mero lugar de custódia de crianças e adolescentes, sem maior significado para a sua aprendizagem; OU, se ela se dispuser a se reinventar, ela vai se tornar alguma coisa que não é NEM “um ambiente onde se discute o conhecimento humano acumulado ao longo dos séculos” NEM um local de custódia de crianças e adolescentes. Neste caso, voltará a ser um ambiente de aprendizagem.

2.) Por que eu acho que a escola não é nem deve ser “um ambiente onde se discute o conhecimento humano acumulado ao longo dos séculos”? Que ela (falo da escola básica) não é um ambiente “onde se discute o conhecimento humano acumulado ao longo dos séculos” me parece evidente. Esse conhecimento é discutido (se o termo “discutir” for levado a sério) em livros e artigos escritos por gente que realmente domina esse conhecimento. A escola básica tem simplesmente tentado repassar aos seus alunos uma leve ideia do que é esse conhecimento.  O pior é que o tem feito de uma maneira tal que a maior parte dos alunos acaba por não querer ter mais nada que ver com esse legado intelectual. Deveria a escola básica tentar se tornar nesse ambiente? Creio que não. Ela tem, a meu ver, funções muito mais importantes, voltadas para o futuro, não para o passado, e, além disso, a função que você sublinha já vem sendo exercida satisfatoriamente por outras instituições e pessoas: universidades, institutos de pesquisa, a mídia especializada, estudiosos independentes, intelectuais autônomos, críticos, autores em geral. (No entanto, é bom que se frise que o estudo do passado, por parte daqueles que, por alguma razão, têm interesse nele, pode ser extremamente valioso. Eu próprio tenho enorme interesse no estudo da história da filosofia – mas não acho que a história da filosofia, nem mesmo a filosofia, deva se tornar estudo obrigatório nas escolas de educação básica para todos os alunos).

3.) Você afirma: “Reduzir o trabalho do professor a um mero cuidador de pessoas é minimizar demais a sua importância”. Também acho. Nisso concordo totalmente com você. Mas eu não propus que isso acontecesse. Apenas previ que poderia acontecer. Minha previsão foi (e continua sendo) que, SE a escola não se transformar e reinventar, ela se tornará um local de mera custódia de crianças e adolescentes, e, nesse caso, os professores se tornarão meros cuidadores de pessoas. (Já que estamos tratando disso, não considero cuidar de pessoas uma atividade desprezível: acho-a extremamente importante. Mas ela é uma função, em si mesma, despida, ou vazia, de significado pedagógico).  SE, no entanto, a escola se transformar e reinventar (como eu sinceramente desejo, embora ache cada vez mais difícil, à medida que passa o tempo e ela permanece fundamentalmente inerte), o trabalho do professor terá de ser forçosamente redimensionado para que se torne novamente relevante para a aprendizagem dos seus alunos. (Para aqueles que se preocupam com o que será dos atuais professores se as mudanças aqui imaginadas acontecerem, é preciso ressaltar que pode ser que haja mais oportunidades de trabalho para facilitadores da aprendizagem do que há hoje para professores. Em espaços de aprendizagem diferenciados, a presença de pessoas que estejam dispostas e interessadas em ajudar a aprendizagem dos outros é sempre muito bem-vinda!).

4.) Você afirma: “[A escola] tem que ser um lugar onde as relações humanas, a vivência e a troca de experiências se desenvolvam naturalmente e façam parte do dia a dia daqueles que nela se encontram”. Aqui tenho de dizer, como costumo dizer no meu Facebook, “hummmm…”. De um lado, acho extremamente importante que as pessoas tenham lugares assim, onde se relacionem uns com os outros de maneira significativa; onde não só troquem experiências vivenciadas em outros lugares, mas também criem e vivenciem experiências que contribuam para seu crescimento, para seu desenvolvimento, para sua aprendizagem; onde gostem de estar, porque percebem que estar ali contribui, não só para a sua aprendizagem, mas, também, para o seu lazer e seu bem-estar, e, não raro, para o seu crescimento e desenvolvimento profissional. Perfeito! Só que o lugar que você descreve se parece muito mais com Facebook do que com uma escola típica… :)

5.) Digamos que você me responda que afirmou que a escola “tem que ser” um lugar assim, não que ela seja, hoje, um lugar assim. Se você me disser isso, eu simplesmente lhe direi que a escola atual, para se tornar um lugar assim, terá de sofrer um processo de transformação tão radical que representará sua total reinvenção. Ou vejamos:

5.a) Em primeiro lugar, Facebook (ou locais semelhantes) não é um local que as pessoas são obrigadas a frequentar. A escola básica é. Só isso já faz uma diferença enorme. As pessoas frequentam Facebook se quiserem e quando querem. Em geral o fazem quando estão interessadas em conversar, trocar ideias, compartilhar suas fotos ou ver e comentar as fotos dos outros, provocar ou cutucar (em mais de um sentido) seus amigos, ficar sabendo de gente que não vê há muito tempo, descobrir o que é que está alegrando, irritando ou de alguma forma agitando as pessoas, comentar os acontecimentos e as notícias do dia, tirar sarro dos torcedores dos times rivais que perderam etc.

5.b) Em segundo lugar, Facebook é um local em que a maioria das pessoas passam no máximo uma ou duas horas por dia (exceto alguns fanáticos como eu que ficam com o Facebook aberto quase o dia inteiro). A escola é um local em que crianças e adolescentes passam, hoje, cerca de quatro a cinco horas por dia, duzentos dias por ano – e há quem defenda a ideia de que devam passar até o dobro disso. (É uma característica extremamente positiva desta rede social que a gente possa monitorá-la o tempo todo, pelo computador e pelo telefone, sem precisar dedicar-lhe atenção total, pois isso permite que a gente lhe dê alguma atenção o tempo todo sem lhe dar toda atenção em nenhum momento…).

5.c) Em terceiro lugar, no tempo que eu passo no Facebook eu faço o que eu quero – apenas aquilo que me interessa. Se eu estou a fim de ver fotos dos amigos, é isso que eu faço. Se estou disposto a discutir união estável de homossexuais, procuro um lugar onde isso esteja sendo discutido ou começo uma discussão sobre a questão. Em outras palavras: o uso de meu tempo, enquanto estou no Facebook, é totalmente discricionário: sou eu que decido o que vou fazer quando estou lá. “Discricionário” quer dizer, segundo oDicionário Eletrônico Houaiss da Língua Portuguesa, “livre de condições, de restrições; arbitrário”. O uso do tempo que a criança e o adolescente são obrigados a passar na escola é exatamente o oposto disso: totalmente condicionado, controlado, determinado por terceiros. Em muitas escolas, até para ir ao banheiro é preciso pedir permissão – e casos são conhecidos em que a permissão foi negada, com consequências desastrosas.

5.d) No Facebook cada um se junta com seus amigos, com sua turma, com aqueles com os quais têm interesses comuns. Ali, muitas vezes, especialmente entre os mais jovens, o fato de pertencer à mesma faixa etária é poderoso aglutinador. Pré-adolescentes de onze ou doze anos dificilmente se enturmam com coroas de quarenta ou cinquenta anos: juntam-se preferencialmente com amigos da mesma idade. É com eles que gostam de conversar. E sua conversa às vezes é ininteligível para os mais velhos. Como pré-teens, às vezes fazem (ou sofrem) distinções que, para os mais velhos, parecem absurdas: não aceitam, por exemplo, os teens – ou são por eles rejeitados… É difícil de imaginar que, na escola, queiram estabelecer “relações humanas” e fazer “troca de experiências” com seus professores… Ou que estes, enquanto na escola, queiram fazer o mesmo com seus pré-teens.

5.e) O que foi descrito no item anterior talvez seja um caso especial de algo mais abrangente: no Facebook as “relações humanas” e as “trocas de experiência” se fazem entre iguais. Ali não há hierarquia. A escola, porém, é uma instituição totalmente hierarquizada, dominada por aqueles que são investidos de autoridade: diretores, coordenadores, professores… É difícil imaginar relações humanas e troca de experiências genuínas entre os alunos e as figuras de autoridade que, na escola, detêm o poder de colocar os alunos fora da sala, dar-lhes ou obter-lhes uma suspensão, ou até mesmo deflagrar processos que podem culminar em sua expulsão da escola. Relacionamentos desse tipo em geral se dão entre pares – e alunos e professores na escola definitivamente não são iguais, estão longe de ser pares.

5.f) No Facebook todo mundo aprende, todo mundo se diverte, todo mundo é capaz de encontrar algo que sirva para sua atividade profissional. Na escola, espera-se que uns aprendam – os alunos – e outros ensinem – os professores. Facebook se parece muito mais com o ambiente de aprendizagem descrito por Paulo Freire emPedagogia do Oprimido: ali ninguém educa ninguém, mas também ninguém se educa sozinho: todos se educam uns aos outros, em comunhão, em “curtição” mútua… A escola está muito longe disto. Ali uns são educadores, outros são educandos.

5.g) No Facebook ninguém é pago para fazer o que quer (com uma ou outra exceção, talvez). A participação é totalmente voluntária. Na escola, o professor é pago para estar ali e para realizar um conjunto específico de tarefas. Se ele não as realiza, ou as realiza mal, ele pode (dependendo do tipo de escola em que atua) até perder o emprego… O aluno, cuja presença ali é obrigatória e involuntária, é, por assim dizer, o insumo básico do trabalho do professor. Em escolas particulares, se os alunos se vão, porque os professores são ruins, os professores também se vão… Sem alunos, uma escola particular fecha. Uma escola pública tem, de certo modo, alunos cativos – as crianças e os adolescentes que moram numa determinada região e não podem (ou não querem) pagar uma escola particular, são obrigados a frequentar uma escola daquela região, com pouca flexibilidade. Esse ambiente é muito pouco condizente com significativos relacionamentos pessoais e troca de experiências entre alunos e professores.

5.h) Basta, não?

6.) Você afirma, Rose Marie: “As redes sociais têm sim a sua importância, mas por si só não substituem o aconchego do encontro entre as pessoas, o sentir-se acolhido e amado entre seus semelhantes, a troca, o compartilhar, o toque, o olhar e a sensação de pertencimento”. De novo sinto vontade de dizer “hummmm”. Começo com uma pergunta, não sobre o que você diz, mas sobre o que você aparentemente sugere: as escolas que você conhece favorecem e estimulam “o aconchego do encontro entre as pessoas, o sentir-se acolhido e amado entre seus semelhantes, a troca, o compartilhar, o toque, o olhar e a sensação de pertencimento”? Continuo: de que redes sociais virtuais você participa? Pergunto isso porque conheço várias redes sociais virtuais que, exceto, naturalmente, pelo toque e o olhar, fazem exatamente isso.

Meu grupo de discussão na internet, o EduTec.Net, que existiu, em sua forma original, durante quase três anos, era uma rede social que propiciava, favorecia e estimulava, para cerca de mil participantes, exatamente isso: “o aconchego do encontro entre as pessoas, o sentir-se acolhido e amado entre seus semelhantes, a troca, o compartilhar, a sensação de pertencimento”. Parece impossível que isso pudesse ser feito para cerca de mil pessoas de uma vez, mas era – embora para uns, mais do que para outros. Uma vez, um dos membros teve seu jovem filho assassinado em Búzios por um ladrão que queria lhe roubar o relógio. Foi com seus amigos da EduTec.Net que ele compartilhou a notícia e buscou apoio e ajuda. Uma outra jovem, jornalista em Alagoas, uma vez, lia as mensagens do grupo no computador do seu trabalho, quando, emocionada com o teor da troca, começou a chorar quietinha… Um colega insensível viu e disse: “Chorando por quê? Isso é apenas uma tela de computador”. Ao que ela respondeu: “É uma tela… mas do outro lado tem gente! Gente mais humana e compreensiva do que você…”. É por isso que há pessoas que chegam a se apaixonar nesses ambientes por pessoas de quem ainda não sentiram o toque e o olhar.

7.) Concluindo: vou resumir o essencial daquilo que você diz que é importante que a escola seja – aquilo que você afirma que a escola “tem que ser”: “[A escola] tem que ser um lugar onde as relações humanas, a vivência e a troca de experiências se desenvolvam naturalmente e façam parte do dia a dia daqueles que nela se encontram”. Você deixa subentendido que a escola deve ser um ambiente que favoreça “o aconchego do encontro entre as pessoas, o sentir-se acolhido e amado entre seus semelhantes, a troca, o compartilhar, o toque, o olhar e a sensação de pertencimento”. Parece-me, Rose Marie, que você propõe que a escola, para se tornar novamente um agente significativo de aprendizagem e de desenvolvimento humano, precisa se tornar algo muito parecido com uma rede social. É exatamente isso que eu venho sugerindo neste blog desde o início. Mas, diferentemente de você, não acho que a escola já seja isso. Na verdade, acredito que, para se tornar isso, ela terá de se reinventar. Terá de se transformar a tal ponto que ficará irreconhecível como escola, porque terá quebrado o paradigma atual da educação escolar.

8.) Mais uma coisa, porém, antes de terminar, apenas para não deixar uma referência lá de trás ficar solta no espaço. Disse, no item 2, que a escola tem funções muito mais importantes (do que discutir o passado), voltadas para o futuro. No meu entender, e, creio, também no seu, educar não é transmitir a herança cultural do passado. (Talvez você dissesse que não é apenas isso). Para mim, educação é a mesma coisa que desenvolvimento humano. O ser humano nasce com inúmeros potenciais e uma enorme capacidade de aprender, mas sem saber, ou saber fazer, efetivamente, nada. Para que se desenvolva, que transforme seus potenciais em realidade, que construa ou domine competências, que alcance autonomia. Tudo isso se conquista através da aprendizagem, que é um processo de se tornar capaz de fazer aquilo que antes não se conseguia fazer. Para que consiga viver uma vida propriamente sua, única, diferente da vida de todos os outros, uma vida que o realize como pessoa, como profissional, como cidadão, cada um precisa, como parte da sua educação, escolher um projeto de vida, com base em seus valores, e adquirir as competências que tornarão esse projeto de vida uma realidade. É por isso que a educação tem que ver com o futuro, não com o passado. Ela é o mecanismo que o ser humano inventou para permitir que os membros da espécie não só sobrevivam desassistidos, mas criem para si mesmos vidas que os realizem plenamente.

Obrigado, Rose Marie, por me ajudar a escrever este artigo.

———-

Em São Paulo, 4 de Julho de 2011

A Revolução da Desintermediação

Meu décimo quarto artigo no Blog das Editoras Ática e Scipione, publicado nesta segunda-feira passada (13 de Junho de 2011) em:

 http://blog.aticaescipione.com.br

———-

Extra ecclesiam nulla salus – “Fora da Igreja não há salvação”. (Dito de São Ciprião de Cartago, bispo cristão do terceiro século; e máxima geralmente aceita pela Igreja Católica na Idade Média e até mesmo depois – quem sabe até hoje?).

“Se eu quiser falar com Deus tenho que ficar a sós”. (Gilberto Gil, em sua canção “Se eu quiser falar com Deus”, de 1980).

Durante boa parte da história do Cristianismo, não foi assim como disse Gilberto Gil, nosso ex-Ministro da Cultura. Para falar com Deus, o fiel não podia ficar a sós: tinha de encontrar um intermediário. Na verdade, o intermediário é quem falava com Deus por ele. Padres, santos, a Virgem Maria, todos eles eram credenciados como intermediários no relacionamento e na comunicação do fiel com Deus – algo parecido com despachantes espirituais. E todos eles abrigados dentro da Santa Madre Igreja, fora da qual, como ela mesma alegava, não havia salvação. Ou seja: nada se resolvia, no plano espiritual, sem a intermediação dos padres e da igreja.

Na verdade, nem mesmo ler o livro que consideravam a Palavra de Deus os fiéis podiam fazer sozinhos: o texto das Escrituras é de difícil interpretação, contém uma série de aparentes contradições, e está recheado de várias histórias pouco edificantes sobre alguns dos chamados heróis da fé. Assim, para a igreja, seria melhor que o fiel não lesse o livro diretamente e dependesse do sacerdote para selecionar as passagens certas, interpretá-las, e entregá-las ao fiel pré-digeridas, como se fosse.

Por isso, para a igreja da Idade Média era ótimo que o fiel nem soubesse ler, para não ser tentado a ler as Escrituras (ou, pior ainda, os escritos profanos). O fato de que os livros, naquela época, eram manuscritos, e, portanto, de difícil, lenta e cara produção, era, para a igreja, algo bom e positivo. Mesmo exemplares da Bíblia existiam em pequeníssima quantidade e, por isso, eram bem guardados em igrejas e mosteiros, raramente chegando às mãos dos fiéis (que, aliás, em sua maioria, nem sabiam ler, caso também de alguns religiosos; vide O Nome da Rosa, livro de Umberco Eco).

Nada disso é novidade. O que estou dizendo sobre a igreja da Idade Média é fato conhecido e notório.

A Reforma Protestante procurou acabar com essa intermediação de múltiplos níveis. Só por isso já deveria ser chamada de Revolução Protestante, em vez de Reforma, porque o que fez foi muito além de mera reforma: foi subversão, mesmo, de um sistema de mediação (e, portanto, de dependência, muito bem arranjadinho).

A doutrina protestante do “sacerdócio universal dos crentes” afirmava que todo crente é, na verdade, um sacerdote, e, como tal, tem acesso direto a Deus, sem intermediação de outros sacerdotes, ou dos santos, ou da santa virgem… A doutrina de que os santos e a Virgem Maria são intermediários, que intercedem por nós, também foi descartada. Na doutrina evangélica, os crentes, quando oram, estão a sós com Deus (como sugere Gilberto Gil), sem necessidade da presença de intermediários e intercessores.

Por conseguinte, não há motivo para que o crente não deva ler a Bíblia e interpretá-la desassistido dessa mediação. Por isso, Lutero traduziu a Bíblia, que antes existia apenas em língua que a maior parte do povo não falava, o Latim, para o Alemão, a língua que o povo falava na sua região. E criou escolas ao lado das igrejas para que o povo pudesse aprender a ler, exatamente para lê-la.

Dali em diante, pelo menos nas partes do mundo em que o Protestantismo vicejou, o fiel lia diretamente o livro que ele considerava a palavra de Deus e falava diretamente com Deus em oração. Por isso, a oração protestante não é reza, coisa fixada, decorada, repetida mecanicamente de cor: é conversa mesmo, do crente com seu pai, na qual o crente conta coisas, se confessa, pede coisas, agradece por coisas… Isso explica porque no Protestantismo não há confissão de pecados do fiel para o sacerdote: o fiel se confessa diretamente para Deus.

O que aconteceu durante a Reforma Protestante foi um processo gigantesco de desintermediação na interação e comunicação com Deus. Foram dispensados os intermediários, os despachantes espirituais.

*

Passemos da Idade Média para o presente, da Europa para o Brasil.

Houve época no Brasil em que um despachante era indispensável para qualquer ação que envolvesse interação e comunicação entre o cidadão e os órgãos e as agências governamentais. Para comprar, transferir, e licenciar um veículo, era preciso um despachante. Para tirar, renovar ou recuperar a carteira de motorista, também. Para tirar uma carteira de identidade, passaporte, ou carteira de trabalho, idem. Para quase todo relacionamento do cidadão com os governos (federal, estaduais, municipais), ele precisava de um intermediário.

Hoje é possível fazer todas essas coisas e tirar todos esses documentos sem necessidade de despachante ou de outro intermediário qualquer. O usuário final pode ir diretamente aos órgãos ou às agências governamentais, que, em alguns estados, como São Paulo, estão todos reunidos em um mesmo espaço (Poupa Tempo, para os paulistas). Alternativamente, pode fazer várias dessas coisas diretamente pela internet, sem mesmo sair de casa.

Como os sacerdotes católicos na época da Reforma Protestante, os despachantes estão em baixa, hoje, nesse enorme processo de desintermediação na interação e comunicação do cidadão com os seus governos.

*

Mesmo na interação e comunicação das pessoas com instituições privadas tem havido uma tendência clara na direção da desintermediação.

Em bancos, o próprio correntista faz, hoje, quase tudo, sem precisar recorrer a um intermediário: gerente, caixa ou atendente. Os caixas eletrônicos são amplamente usados e a Internet permite aos correntistas fazer boa parte de suas transações a partir de sua própria casa ou do seu trabalho, sem precisar se locomover. Isso é desintermediação.

Nos restaurantes, o self-service impera – pelo menos na hora do almoço. O garçom é quase totalmente desnecessário. Isso é desintermediação.

Nos postos de gasolina dos Estados Unidos, da Europa e de outros países desenvolvidos, o próprio freguês se serve e paga com cartão de crédito. Não há atendentes que operam como intermediários. Se for preciso checar a pressão dos pneus, é o próprio dono do carro que faz isso (aqui no Brasil, também). Isso é desintermediação.

Nos aeroportos, os passageiros fazem seu próprio check in, despacham suas malas, recebem seus cartões de embarque, e embarcam, dispensando uma série de intermediários. Isso é desintermediação.

Nos Estados Unidos, na Europa e em outros países desenvolvidos veem-se, nos supermercados, “caixas sem caixa”, isto é, terminais de caixa não operados por empregados do estabelecimento, nos quais os fregueses passam os produtos, pagam por eles com cartão de crédito, colocam-nos numa sacola e vão-se embora. Isso é desintermediação.

*

Os exemplos podem ser acrescentados de forma quase que ilimitada. Em muitos deles, especialmente os mais recentes, a revolução da desintermediação tem acontecido e continua a acontecer em decorrência da evolução tecnológica.

Os de mais de 60 anos vão se lembrar da época em que, para fazer um telefonema interurbano, ou até mesmo local, era preciso recorrer a uma telefonista. Lembro-me de que, na Cia Swift do Brasil, em Utinga, onde trabalhei no fim da década de 1950 e início da década de 60, mesmo dentro do escritório era preciso recorrer à telefonista para falar com alguém em outra sala ou em outra mesa. Os telefones não tinham mecanismo de discagem (disco, teclado, etc.). A tecnologia mudou tudo isso. Hoje falamos com pessoas do outro lado do mundo, usando telefone fixo, celular, ou o próprio computador, sem precisar da intermediação de nenhuma telefonista.

(Li certa vez um artigo que mencionava o fato de que, no início do século XX, quando a telefonia – ainda manual – se popularizava nos Estados Unidos, um analista disse que, se a curva de crescimento se mantivesse, dentro de 50 anos, a contar daquela data, toda mulher americana teria de ser telefonista. Errou cheio – e feio. Não levou em conta a evolução da tecnologia. E, não sei por que cargas d’água, não imaginou que homens pudessem vir a exercer a função, como hoje exercem a função de comissários de bordo ou atendentes de voo, antes prerrogativa das aeromoças…).

*

Agora, a grande questão, que justifica a inserção deste artigo aqui neste blog…

E o acesso à educação, à aprendizagem? Vai continuar a ser mediado por professores, dentro de uma instituição, a escola? Ou será que teremos a desintermediação também no acesso à educação e à aprendizagem?

Há gente que, tentando parecer atualizada, diz que o professor não ensina, apenas medeia… Irônico que se diga isso justamente numa época em que os intermediadores estão desaparecendo!

*

É forçoso reconhecer que, em grande medida, o acesso à educação e à aprendizagem já está desintermediado. Pela internet, temos acesso direto não só a todo e qualquer tipo de informação, como também a uma ampla e variada gama de pessoas com quem podemos interagir e nos comunicar, para solucionar dúvidas, buscar orientação, discutir e debater as questões que nos são importantes, dispensando a intermediação do professor e da escola.

Facebook, a rede social de mais de 700 milhões de usuários – 10% da população do mundo, provavelmente, em seu conjunto, a parcela que detém mais informações, conhecimentos e competências – não vai deixar de afetar a educação e as nossas formas de aceder à informação e nos comunicar, vale dizer, de aprender.  Ali temos acesso a informações de todos os tipos, ali encontramos pessoas com enorme cabedal de informações, conhecimentos e competências, em áreas afins aos nossos interesses, ali podemos conversar diretamente com especialistas em quase qualquer assunto.

Na verdade, ali podemos descobrir propostas novas e ali podemos expressar e testar nossas ideias e reflexões, receber críticas, rebatê-las. Facebook é um micromundo no espaço virtual. Ali impera a desintermediação no acesso à informação, à comunicação, à educação, à aprendizagem. Ali podem ser criados, com extrema facilidade, inúmeros ambientes virtuais de aprendizagem colaborativa, com configurações que se adaptem aos interesses e aos estilos de aprendizagem de cada um. Temos, ali, todos nós, múltiplas possibilidades de acesso personalizado à educação e à aprendizagem. Uma alternativa à escola padronizada e massificada em que um só tamanho veste todo mundo.

Li, recentemente, um livro interessante, chamado The Church of Facebook: How the Hyperconnected Are Redefining Community (A Igreja de Facebook: Como os Hiperconectados Estão Redefinindo Comunidade), de Jesse Rice.

Eis o que diz a última capa do livro (em minha tradução):

O mundo está ficando menor, um perfil de cada vez.

Uma revolução está acontecendo diante de nossos olhos. Um movimento de amplitude mundial, ancorado em redes wi-fi, está mudando a forma como interagimos e nos relacionamos com os outros. É uma mudança sísmica que está redefinindo a ideia de comunidade. Todo dia milhões de pessoas se conectam umas às outras através de redes sociais online, sites que nos permitem acompanhar as andanças, atividades e pensamentos de nossos amigos e nos ajudam a definir as formas como eles nos veem.

Mas, por mais que perfis pessoais possam se tornar reveladores, eles apontam para além de si próprios, para realidades e verdades ainda mais amplas e profundas. Eles colocam a nu nosso desejo de identidade e de comunidade, nossa fome por sermos conhecidos, identificados e reconhecidos como parte de um grupo significativo.

Jesse Rice acredita queo  Facebook nos oferece a oportunidade de olhar, com profundidade, para nossas necessidades mais básicas e fundamentais. Acompanhe Jesse enquanto ele explora o enredamento social e seu impacto sobre a cultura – e sobre a igreja, que é parte da cultura. Cheio de perspectivas inovadoras e de questões provocadoras, A Igreja de Facebook nos encoraja a perseguir relacionamentos autênticos, com Deus e com aqueles que nos rodeiam.”

É isso. Muita gente considerava a igreja e as forças armadas as instituições mais conservadoras da sociedade. Mas aí está um “pastor de música e adoração” (evidentemente protestante, não católico) mostrando que alguns segmentos da igreja estão atentos a inovações. Afinal de contas, a igreja não quer que os fiéis vivam a religião apenas nos domingos (muito menos apenas na Páscoa e no Natal): quer que eles a vivam o tempo todo, 24 horas por dia, sete dias por semana. Quer que a religião os envolva enquanto trabalham e enquanto se divertem. Anytime, Anywhere Worship… (Culto a Qualquer Momento e em Qualquer Lugar…). Sem sacerdotes, sem pastores… Na verdade, em boa doutrina da Reforma, o sacerdote e o pastor estão onde está o crente… A desintermediação da Reforma em roupagem do século 20, agora viabilizada pela tecnologia.

Quando acontecer o que imagino que vá acontecer com o Facebook na área da educação, por que a gente vai precisar de escolas e de professores? Só para guardar e custodiar crianças pequenas? Será que as escolas vão se tornar grandes creches e os professores os seus atendentes?

Será que a escola vai ganhar da igreja como instituição mais conservadora da sociedade? (Os militares já são super high tech).

Alguém pode tentar responder argumentando que as escolas, além de responsáveis (através dos professores) por ensinar, são também responsáveis (através da direção e coordenação) por elaborar o currículo, isto é, fixar as expectativas de aprendizagem que elas (pretendendo falar pela sociedade) têm para os seus alunos. E perguntarão quem fará isso, se as escolas deixarem de existir, ou se as escolas se tornarem, não ambientes de aprendizagem, mas ambientes de mera custódia (e alimentação – a merenda parece ter se tornado uma ação pegagógica essencial…).

A resposta é relativamente fácil.

A maior parte do que a escola espera que seus alunos aprendam é totalmente inútil para a vida, o trabalho e o exercício da cidadania de seus alunos em uma sociedade aberta e democrática na qual a tecnologia é ubíqua. Para começar, a escola afirma preparar cidadãos para o exercício da democracia em um ambiente do qual a democracia e a liberdade passam longe. Os alunos não têm liberdade para escolher o que aprender, não participam da governança da escola, não decidem nada nem mesmo a respeito de suas próprias vidas na escola. Leiam o artigo “Pequena Escola de Liberdade”, escrito por Ricardo Semler, a pessoa que concebeu, criou e até hoje mantém as Escolas Lumiar. Depois, verifiquem se a escola democrática descrita ali se parece com as escolas que vocês frequentaram e com as outras escolas que vocês vieram a conhecer depois…

Por que isso acontece?

Todos sabemos que cada ser humano é único e irrepetível (com a possível exceção de gêmeos idênticos). Temos conjuntos de características cognitivas e não cognitivas únicos. Cada um de nós tem sua personalidade, seu temperamento, seus talentos naturais, seus interesses, seu jeito próprio de ser, de pensar, de fazer as coisas, de aprender. No devido momento, cada um de nós faz suas escolhas, com base em seus valores, e define seu projeto de vida. A ideia de que exista um amplo conjunto de coisas que todos precisamos saber ou saber fazer é um despropósito. Sim, existe um pequeno conjunto, mas esse conjunto é mínimo. Talvez ele se exaura em algo como a seguinte lista do que todos nós precisamos saber numa sociedade como a nossa:

  • Entender a língua materna e a falar bem, para poder ouvir e entender os outros e expressar o que pensamos, sentimos, desejamos, e escolhemos, de modo a poder interagir e nos comunicar com os nossos semelhantes;
  • Ler e escrever na língua materna, para poder fazer essas mesmas coisas por escrito, deixando-as registradas, para nós mesmos e para a posteridade;
  • Argumentar e criticar argumentos, para poder debater com os nossos semelhantes questões de interesse comum;
  • Entender raciocínios quantitativos elementares para poder transacionar em uma sociedade cuja economia depende do dinheiro;
  • Respeitar os direitos básicos de terceiros e seguir certas regras básicas de convivência sem as quais retroagimos à barbárie.

(Este é o básico. Há, nessa lista, embora curta demais para alguns, mais do que havia no Trivium Medieval. Menos, em muitos casos, é mais… ).

Tudo mais que precisamos aprender ou aprender a fazer depende dos talentos naturais, dos interesses, das escolhas, dos valores e dos projetos de vida de cada um. Não é básico, é específico. Um escritor de ficção não precisa conhecer quase nenhuma matemática. Um médico não precisa conhecer quase nenhuma literatura. Um advogado não precisa conhecer quase nenhuma física. Um pastor, um padre e um rabino não precisam conhecer quase nenhuma química. Um poeta não precisa conhecer quase nenhuma estatística.

De qualquer maneira, mesmo que minha proposta seja vista como exageradamente minimalista, acredito que não seria difícil chegar a um acordo sobre o mínimo básico que todos deveriam saber e saber fazer. E saberíamos determinar, melhor do que a escola, quando alguém chegou ao nível de proficiência desejável em cada um desses aprenderes. As empresas e as demais instituições da nossa sociedade selecionam bons empregados sem necessidade de um currículo oficial. Cada um sabe o perfil profissional de que precisa e que deseja ter em seu quadro de colaboradores.

A tecnologia hoje disponível nos permite um nível de desintermediação, e, portanto, de emancipação, enorme em relação a instituições que tentam nos tutelar, que tentam nos roubar a liberdade de aprender. É hora de nos libertarmos da tutela da escola e dos professores, como a população do século 16 se libertou da tutela dos padres e da igreja.

Por que tantos intermediários? Vamos desintermediar o acesso à educação e à aprendizagem! Vamos instituir a liberdade de e no aprender…

(E se, ao final, restarem algumas escolas, que elas sejam totalmente separadas, como as igrejas são hoje, do estado).

Desintermediar não é algo simples como tirar dinheiro de um caixa eletrônico poderia sugerir. O processo mexe com uma gama enorme de interesses. Haja vista as guerras (chamadas de religiosas) que se desenrolaram na Europa nos dois séculos posteriores à Reforma. Mas é algo cuja hora chegou, também na educação.

———-

Em São Paulo, 15 de Junho de 2011

A Arte de Maquiar Defuntos e as Pseudoinovações Educacionais

A seguir, meu artigo de hoje (deveria ter saído ontem, mas houve algo “time-bound” que acabou empurrando meu artigo para hoje) no Blog das Editoras Ática e Scipione.

———-

A Arte de Maquiar Defuntos e as Pseudoinovações Educacionais 

Diferentemente do que fiz em vezes anteriores, vou dividir este artigo em blocos numerados, para destacar bem o argumento. E vou fazer uso de algumas metáforas, a primeira delas, admitidamente, não de muito bom gosto. Ao final, receio, a metáfora de mau gosto será, talvez, o aspecto menos inaceitável deste artigo para a maioria dos leitores. Mas que assim seja.

1. A arte de maquiar defuntos

O defunto está lá na mesa do velório, mortinho da silva. Nós nos consolamos, e imaginamos consolar os outros, dizendo: “Mas ela está tão linda, não? Parece que está apenas dormindo…”.

Saber maquiar defuntos é arte valiosa em nossa sociedade, porque cada vez mais procurada. Ela faz com que mortos pareçam Belas Adormecidas, prontas para serem despertadas com o beijo casto de um príncipe.

O ofício do maquiador de defuntos faz uso de tecnologias e materiais sofisticados para disfarçar a impressão sempre ruim da morte e reduzir o seu impacto doloroso.

2. Investir ou trocar?

Mudando (felizmente) de assunto e metáfora, se a gente vê alguém colocando rodas de liga leve em seu carro, trocando pedais, instalando volante esportivo, substituindo bancos de tecido por bancos de couro, botando para-brisa ray ban ou insufilm, é legítimo concluir que a pessoa acredita  que o carro, no essencial, ou seja, naquilo que afeta a sua operação, está basicamente em ordem, e que vale a pena investir nos detalhes cosméticos, que afetam apenas a sua aparência. Em suma: a pessoa acredita que vale a pena conservar o carro, investindo nele.

Se a gente vê alguém colocando pneus novos no carro, trocando amortecedores, ajustando embreagem, regulando freios, retocando lataria, é legítimo concluir que a pessoa acredita, por qualquer razão, que é um bom negócio conservar o carro, desde que sejam feitas algumas reformas no essencial, no que afeta a operação do veículo, mesmo que os recursos investidos nessas reformas sejam relativamente significativos. Em suma: a pessoa acredita que, com as reformas, o carro ainda poderá durar bom tempo.

Quando, porém, a gente vê alguém trocando um carro usado por um carro novo, é legítimo concluir que a pessoa acredita que não compensa mais investir no carro velho e que vale a pena mudar para um zero quilômetro. (Numa eventual troca, investimentos significativos feitos no carro que se quer trocar raramente se traduzem em preço proporcionalmente maior, de modo a justificar o investimento).

3. A razão do exercício

Por que começo este artigo mencionando essas coisas?

Por uma razão simples, que ficará evidente na sequência. Mas posso dizer desde já que a razão tem que ver dois trinômios: “educação, tecnologia e mudanças” e “reforma, inovação e transformação”

4. Conservar, reformar ou transformar?

George Scharffenberger, que foi diretor da ONG global WorldLinks, ligada ao Banco Mundial, uma vez disse (numa reunião em Brasília, em 2004, da Comissão de Educação do World Economic Forum, de que tive o prazer de participar, representando o Instituto Ayrton Senna) que, encarando as coisas no nível mais básico e amplo, a tecnologia pode ser usada na educação (especialmente na educação escolar) fundamentalmente de três maneiras:

  • Para sustentar (apoiar) o que já se faz

  • Para suplementar (estender) o que se faz

  • Para subverter (transformar) o que se faz

Esses os “três esses”: sustentar, suplementar, subverter. Poderíamos dizer que eles representam o uso, respectivamente,conservador, reformador e transformador da tecnologia na educação (especialmente no caso da educação escolar).

O professor que usa o computador para projetar slides em PowerPoint em vez de escrever no quadro negro da classe, ou que indica para leitura textos disponíveis na internet em vez de textos impressos encontráveis na biblioteca ou adquiríveis em livraria, se enquadra na primeira categoria. A tecnologia, nesse caso, não altera substantivamente nada nos processos por ele utilizados: apenas os torna, talvez, um pouco mais eficientes e “charmants”.

O professor que usa a internet para estender (no espaço e no tempo) o alcance de sua sala de aula se enquadra na segunda categoria. Ele suplementa o que antes fazia com, digamos, um site de apoio, um blog, um grupo de discussão numa rede social, um chat. Educação a Distância, ou E-Learning, especialmente quando a metodologia se esgota em Ensino a Distância, com quase nenhuma discussão substantiva, se encaixa também aqui.

O que se enquadra na terceira categoria ficará mais claro no decorrer deste artigo. Mas são processos que vão além do que já se faz, e, em última instância, subvertem a prática pedagógica corrente, em favor de algo totalmente novo – ou seja, altamente inovador.

5. Inovação

O fator inovação no uso da tecnologia na educação é diretamente proporcional a essa sequência: uso conservador, uso reformador, uso transformador. Quanto mais transformador (vale dizer, subversivo do paradigma atual) for o uso da tecnologia na educação, mais inovador ele será; quando mais conservador, menos inovador ele será.

Essa não é uma conceituação arbitrária de inovação. Inovar tem que ver com introduzir o novo. É difícil imaginar como é possível inovar enquanto se procura conservar o velho. O próprio Mestre disse, dois mil anos atrás, que não se deve colocar vinho novo em odres velhos.

6. Quem se arrisca a inovar na educação?

Nesse espírito, mas levando a discussão um pouco adiante, Nicholas Negroponte, ex-diretor do Media Lab do MIT, celebridade da área de educação e tecnologia, e pai da ideia de que cada criança de hoje pode e deve ter seu próprio computador (One Laptop Per Child), disse – em palestra que tive o privilégio de assistir, no Consortium of School Networking (CoSN), em Washington (DC), também em 2004 – que se desejarmos encontrar práticas realmente inovadoras na educação, não devemos procurá-las nos países que têm bons resultados nas avaliações internacionais da educação escolar, como é o caso de Finlândia, Hong Kong e Coreia do Sul. Por estarem entre os mais bem avaliados em testes como PISA, esses países (compreensivelmente) têm receio de adotar práticas muito inovadoras em seu sistema educacional. Afinal, se essas práticas não derem certo, poderão colocar em risco a posição já conquistada. Faz sentido, portanto, que sejam conservadores no tocante a seus sistemas educacionais – ou que, no máximo, introduzam algumas pequenas reformas para corrigir pequenas falhas.

Propostas inovadoras na área da educação provavelmente virão de países que, atualmente, estão muito mal avaliados em testes internacionais – como, possivelmente, o Brasil, concluiu Negroponte. Esses países têm bem menos a perder se as propostas não derem muito certo.

(Será que temos em nós aquilo que é necessário para corresponder à expectativa de Negroponte e nos transformarmos em líderes mundiais na área de inovação educacional?).

7. O contrassenso

Tudo o que foi dito até aqui parece-me fazer muito sentido. Na verdade, creio que dispensa argumentação adicional.

O que não faz sentido – o contrassenso – é continuar a investir, especialmente através de reformas cosméticas, em veículo que já deu o que tinha de dar, cujo motor vai fundir a qualquer hora, cuja suspensão está torta em decorrência de inúmeras batidas, cuja lataria está amassada, arranhada e meio solta, cujos pneus estão gastos, cuja embreagem torna a mudança de marchas penosa – e cuja manutenção é extremamente cara!

Parece-me evidente que, em caso assim, vale mais a pena trocar de carro. Apliquemos agora o argumento à questão que nos propusemos a discutir neste artigo.

8. Educação, mudanças e inovação

Ricardo Semler, que “virou a própria mesa” em sua empresa, a SEMCO, se propôs, no início dos anos 2000, a virar a mesa na área da educação. Criou um ambiente de aprendizagem diferente e inovador, a Lumiar, que pudesse servir de base para uma troca de paradigma na educação.  Ele ainda a chamou de escola, porque, afinal de contas, a Lumiar se propunha a fazer aquilo que a escola deveria fazer, mas não fazia: ser o local em que crianças aprendem, com prazer, porque percebem o propósito e, portanto, o sentido das atividades em que se engajam, posto que podem escolher o que querem aprender. Assim, aprendem aquilo de que precisam para poder “sonhar seus próprios sonhos e transformá-los em realidade”.

Por que Ricardo Semler fez isso?

Porque, como ele costuma ressaltar (com base em estudos feitos, segundo alega, na Universidade de Chicago), a retenção média pelos alunos daquilo que o professor diz numa aula normal de uma escola convencional (em que o professor fala quase o tempo todo) é de cerca de 6%. Isto significa que na escola há uma perda de 94% daquilo que o professor diz. Nenhuma instituição com uma taxa de perda ou rejeição de 94% tem direito de sobreviver. Mantê-la é preservar o mais incompetente ambiente de aprendizagem que jamais se criou, e que é incompetente porque vai de encontro a tudo o que sabemos sobre como crianças, adolescentes e jovens aprendem – na verdade, sobre como qualquer um aprende.

Para quem pensa assim, não faz sentido tentar reformar o sistema educacional vigente, mantendo o paradigma: é preciso investir em um paradigma diferente. Nem a reforma básica dos essenciais se justifica, se se mantém o paradigma, porque o sistema não é capaz de fazer aquilo que se espera dele. Introduzir pequenas reformas cosméticas, que não afetam o essencial do sistema, então, é jogar dinheiro fora.

9. O sistema educacional brasileiro

Apliquemos agora o argumento ao caso da educação brasileira – falo principalmente da educação pública, mas não somente.

Dá para reformar um sistema educacional que consome uma quantidade enorme de recursos, que está entre os mais mal avaliados do planeta, e que permite que alunos cheguem à sexta, sétima e até oitava série basicamente analfabetos?

Ou será que é preciso substituí-lo por um sistema novo, basicamente diferente? É exatamente em casos assim que se justifica uma troca radical de paradigmas.

Se, no caso brasileiro, se justifica a busca de um novo paradigma, é contrassenso ficar exigindo do governo ainda mais recursos financeiros (10% do PIB, por exemplo), como o faz a professora potiguar que ficou famosa através do YouTube, para a manutenção de um sistema em condição tão precária. Dificilmente o investimento maior vai se traduzir em resultados proporcionalmente melhores.

Se o argumento está correto até aqui, certamente reformas cosméticas não se justificam. Mas sequer reformas que afetam os aspectos essenciais resolverão o problema.

10. Moral da história

Nós vivemos, todos sabem, no Brasil – um país que se via como gigante adormecido e que agora acha que nem emergente mais é, devendo ser contado entre os grandes. Mas todos sabemos que nosso sistema educacional não consegue competir com o da Finlândia, de Hong Kong e da Coreia do Sul, que operam em alto nível de qualidade, mas dentro de um quadro de educação tradicional. E igualmente sabemos que, na forma em que se encontra, o nosso sistema educacional também não tem conseguido se distinguir como realmente inovador.

Ou seja, não conseguimos reformar o carro, deixando-o “tinindo” (como se dizia antigamente), não conseguimos comprar um carro “novinho em folha” (como também se dizia antigamente). Na verdade, para conduzir o argumento a um novo patamar, muito menos conseguimos ser radicalmente inovadores e inventar novos meios de transporte!

Nesse quadro, causa-me pena ver os investimentos que são feitos com o equivalente de rodas de liga leve, volantes esportivos, pedais metálicos, alavancas de câmbio reluzentes, vidros ray ban ou insufilmna janela, sistemas de som sofisticados, isto é, com reformas cosméticas, quando o motor, a suspensão, a embreagem, os freios, etc. já deram tudo que podiam dar – e quando, talvez, nem mesmo um veículo novo, da mesma espécie, estaria à altura do desafio.

11. Quais são as reformas cosméticas na educação?

O que considero reformas cosméticas na educação são mudanças que se concentram no nível micro, que ficam muito próximas da prática atual, e que são incrementais (do tipo de tijolinho em cima de tijolinho).

Exemplos das micromudanças são propostas como WebQuests,WebLessons, WebClasses, Objetos de Aprendizagem, Planos de Aula Digitais, Sala de Aula Invertida, Ensino Híbrido, coisas assim facilmente encontráveis na internet. Tudo isso é parte de uma tendência atual na área de educação e tecnologia que integra a abordagem que chamo de “microentrega” (micro delivery) e “microgerenciamento” (micro management) do ensino. Nessa abordagem, embora se possa reconhecer que há problemas no paradigma educacional vigente, não se busca transformá-lo, ir além dele. Tenta-se fazer uso criativo e envolvente da tecnologia para atrair e engajar os alunos e assim conseguir uma sobrevida para o paradigma atual.

Maquia-se o defunto para dar a impressão de que ainda há vida nele. Em países como Finlândia, Hong Kong, Coreia do Sul, que têm bons sistemas educacionais dentro do paradigma vigente, essas microssoluções ainda fazem sentido. Aqui, não: desviam o foco do que precisa ser feito.

12. Inovação na escola ou inovação da escola

Enfim…

Nosso mundo tem sofrido mudanças consideráveis nos últimos 65 anos, desde o final da Segunda Guerra Mundial. Só essas mudanças no contexto em que a escola opera já seriam mais do que suficientes para que encarássemos seriamente o desafio de transformar a escola, reinventá-la, e não apenas introduzir pequenas inovações dentro dela. Mas elas vêm na sequência de uma série enorme de mudanças que ocorreram no século 19 e na primeira metade do século 20, ou seja, depois que o paradigma atual da educação escolar foi concebido, desenvolvido e implementado.

Falando de hoje, não basta introduzir o computador na sala de aula e no ensino do professor: é preciso criar novas formas de aprendizagem e novos ambientes de aprendizagem que, viabilizados pela tecnologia disponível (redes sociais etc.), prescindem da sala de aula e mesmo da escola, e permitem que as pessoas aprendam em qualquer lugar, a qualquer hora, de forma horizontal ou lateral, entre pares, e em contato com uma gama ampla e diversificada de pessoas que possam ajudá-las. Com isso, o ensino perde o seu sentido e os professores precisam reinventar o seu ofício.

O mindset (digamos, a organização mental) da maioria das pessoas é tão condicionado pelo paradigma de educação atual, centrado na escola, que elas não conseguem sequer imaginar uma educação que prescinda dessa instituição (até aqui, desde o século 18, o principal ambiente de aprendizagem), com seus currículos (que definem o que aprender: o conteúdo das disciplinas acadêmicas), metodologias (que especificam o como aprender: em decorrência do ensino), e agentes técnicos (representados por aqueles de quem se deve aprender: os ensinantes ou professores).

Se alguém não quer conceber uma educação sem escolas, sem ensino, sem professores (no papel concebido a eles até hoje), creio que seja um problema de conservadorismo. E todos têm direito de ser conservadores. Se, entretanto, não conseguem, o problema é outro: é de falta de imaginação.

Por mais absurdo que possa parecer a algumas pessoas, a educação não existe para dar emprego para burocratas, sindicalistas, autores, editores, livreiros, promotores de eventos, consultores – nem mesmo para professores e outros educadores. A educação existe para que cada bebê humano que nasce possa se desenvolver como um ser humano pleno: como pessoa que tem talentos, sonhos e desejos; como cidadão, que precisa viver em convivência com seus semelhantes; como profissional, que tem de encontrar um meio não só de ganhar a vida e se sustentar, mas de se realizar no processo; como “aprendente” permanente que tem de aprender, desaprender e reaprender o tempo todo, ao longo da vida inteira. Qualquer função, estrutura ou instituição que se pretenda educacional deve servir a esse propósito de contribuir para o desenvolvimento do ser humano – ou ir cantar em outra freguesia…

É da vida de cada um que se trata na educação. A opção de terceirizar para a escola e para o professor as ações voltadas para o desenvolvimento do ser humano, num processo do qual os maiores interessados não escolhem participar, mas são compelidos a fazê-lo, sem nenhum direito de se envolver na definição do que ali se passa, parece-me de longe a pior opção.

A educação é “prática de liberdade” (Paulo Freire), não sentença de 12 anos a ser cumprida em instituição que mais se assemelha a uma prisão (de país civilizado, há de se convir) do que a um verdadeiro ambiente de aprendizagem.

O que importa é a aprendizagem da criança, do adolescente, do jovem, do adulto, não o ensino do professor. Estamos cansados de saber que a maior parte das coisas realmente importantes que aprendemos na vida nós aprendemos (graças a Deus) fora da escola: aprender a ter iniciativa, aprender a se responsabilizar por nossas ações, aprender a assumir riscos, aprender a respeitar os direitos dos outros, aprender a dizer a verdade, aprender a ser honesto, aprender a se relacionar de forma mais íntima com outras pessoas, aprender a amar, aprender a apreciar o belo, aprender a imaginar o que não existe (mas é possível inventar…), aprender a agir moralmente, aprender a se posicionar de forma respeitosa perante a natureza e o universo.

E muito, muito mais.

Por mais vivo que ele possa parecer, e por mais que desejemos (por qualquer razão) que realmente estivesse, é preciso encarar a realidade e enterrar o defunto, antes que o processo de decomposição do cadáver comprometa a vida que ainda existe ao redor dele.

Em São Paulo, 31 de Maio de 2011

Ivan Illich e a Troca do Paradigma

Artigo que publiquei em 22/5/2011 no Blog da Editora Ática e Scipione, no URL:

http://blog.aticascipione.com.br/eu-amo-educar/ivan-illich-e-a-troca-do-paradigma/ 

———-

Continuo a falar sobre Ivan Illich, dando prosseguimento a alguns temas levantados nos dois artigos anteriores (“Cutucando o paradigma…”, o nono, e “Cutucando ainda mais o paradigma…”, o décimo).  A ideia básica de Illich é que “educação para todos” é, necessariamente, “educação por todos”.

Do ponto de vista negativo, isto implica uma educação sem escolas, e, por conseguinte, sem currículos, sem professores, sem ensino… Illich endossa a tese de Paulo Freire, citada no artigo anterior. No aspecto negativo, essa tese afirma que “ninguém educa ninguém” e “ninguém se educa a si mesmo”. No aspecto positivo, ela afirma que “os homens se educam uns aos outros em comunhão, mediatizados pelo mundo”.

Como ressaltei no artigo anterior, essa afirmação de Freire está, a meu ver, entre as mais radicais do grande educador patrício. Para ele, a mediação da educação se faz pelo mundo, não pela escola ou pelos professores. Quanto a estes, que, com indisfarçado orgulho, se designam educadores, Paulo Freire diz, taxativamente, que ninguém educa ninguém. Mas ele diz, na sequência, que tampouco nos educamos sozinhos. A educação, para ele, acontece em interação, diálogo, discussão: nós nos educamos uns aos outros “em comunhão”. A expressão “mediatizados pelo mundo” indica que a educação não se dá em isolamento do mundo, mas exatamente dentro dele e com sua mediação, enquanto trabalhamos e nos divertimos (como dirá depois Illich).

Isso quer dizer que ninguém é educador – ou, o que dá na mesma, que todos somos. Em qualquer das hipóteses deixa de haver uma categoria profissional distinta composta daqueles que estão capacitados e credenciados para educar, os professores, que se contrapõem aos que estariam incumbidos de aprender, os alunos. Todos educamos e todos aprendemos.  A frase de Illich citada no início deste artigo capta bem a posição de Paulo Freire: “A educação para todos”, afirma ao chegar próximo do final do primeiro capítulo de Sociedade sem Escolas, “é, necessariamente, a educação por todos”.

Como vimos no artigo anterior, a escola, para Illich, especialmente quando obrigatória (com seus professores, currículos, seu ensino, suas metodologias de ensino e seus materiais didáticos), limita e restringe o direito de aprender das pessoas.

Em outras palavras: mais escola (na forma de mais anos de escolaridade obrigatória, mais dias letivos, presença na escola por mais tempo, menos tempo “desperdiçado” enquanto na escola) não implica, necessariamente, mais aprendizagem: pelo contrário.

Para Illich, ensino não redunda necessariamente em aprendizagem. “Aprender é adquirir uma nova habilidade ou uma nova forma de ver o mundo”. E aprendemos em interação (conversa, diálogo, troca de ideias e experiências, discussão), compartilhando o que sabemos fazer, o que sabemos, o que pensamos, o que imaginamos, o que sentimos, o que desejamos, e participando do compartilhamento que os outros fazem dessas mesmas coisas. Da mesma forma que a aprendizagem não decorre necessariamente do ensino, para Illich é um absurdo confundir aprendizagem e escolarização. “A maior parte das pessoas adquire a maior parte de suas habilidades e de seus conhecimentos fora da escola”. Oscar Wilde já havia dito isso no século 19.

O processo de aprendizagem precisa ser voluntário. Devemos escolher o que queremos aprender e o que queremos compartilhar, bem como com quem, quando e onde queremos fazer isso. É esse o significado da expressão “liberdade de aprender”, que, em Illich, tem seu sentido mais radical. Mas não nos esqueçamos de que Paulo Freire também caracteriza a educação como “Prática da Liberdade”. (Alguém conhece alguma escola, com a exceção notória de Summerhill, Sudbury, Lumiar, e algumas outras poucas, que podem ser contadas nos dedos da mão, da qual se possa dizer que a educação, ali, é realmente prática da liberdade?).

Segundo Illich, o processo de aprendizagem acontece de forma natural e espontânea, até mesmo casual, dispensando planejamento meticuloso.

O modelo de aprendizagem que Illich coloca diante de nós é o da aprendizagem da fala na língua materna por parte de uma criança pequena. Vou descrever o processo como eu o entendo e em minhas palavras. A criança nasce em um mundo de falantes daquela língua que denominamos materna, a da mãe. A mãe e outras pessoas falam com a criança muito antes de ela conseguir entender o que dizem. Os sons da língua materna, em especial o “infantilês” (baby talk) em que os membros da família ou habitantes da casa lhe dirigem a palavra, lhe soa gostoso, e ela cedo procura emitir sons que emulem os de seus interlocutores. Aos poucos ela descobre que certos sons servem de rótulo – “mamãe” é como se fosse o nome próprio daquela pessoa que cuida dela. Mais adiante descobre que determinados sons têm significado, expressam sentidos definidos. Descobre que, quando alguém lhe diz “Bate palminhas”, espera-se que ela bata palmas… A partir de certo momento ela consegue articular sons que se assemelham cada vez mais aos das palavras que são usadas por seus interlocutores. E, quando menos se espera, a criança está entendendo a fala e falando – cada vez melhor.

O processo é natural e espontâneo, casual, mesmo. Os parentes e amigos da criança evidentemente querem que ela aprenda a entender a fala e a falar. A própria criança, a partir de determinado momento, também parece querer, segundo tudo indica. Para ajuda-la, os parentes e amigos falam com ela, mesmo sabendo que, de início, ela não vai entender. E ela, sem saber que os outros não vão entende-la, se esforça por responder a eles. Aos poucos, sem obrigatoriedade, sem planejamento, sem didática, sem ensino, sem aulas, a criança aprende a entender a fala e a falar. Daí para a frente é só aperfeiçoar o processo.

Bill Hull uma vez disse a John Holt que “se a gente ensinasse as crianças a falar, elas nunca aprenderiam” (“If we taught children to speak, they’d never learn”). Vou transcrever a seguir a maior parte do artigo “Teaching Children How to Speak”, de John Holt, no qual ele discorre sobre as implicações do que Bill Hull lhe disse. Mas antes devo dizer que Bill Hull, John Holt, Everett Reimer, A. S. Neill, Paulo Freire, e, por que não dizer, Ricardo Semler, são todos pássaros da mesma plumagem.

Eis o que diz John Holt no artigo:

“Vamos supor que tomemos a decisão de ‘ensinar’ as crianças a falar. Como é que a gente faria? Primeiro, um comitê de especialistas analisaria a fala e a quebraria em um certo número de ‘habilidades requeridas para a fala’. Provavelmente os especialistas diriam que, visto que a fala é composta de sons, seria necessário, primeiro, ensinar a criança a emitir todos os sons requeridos por sua língua materna. Sem isso não seria possível ensiná-la a falar… Sem dúvida eles classificariam os diversos sons dos mais fáceis e frequentes para os mais difíceis e raros. E o professor então começaria a ensinar à criança, primeiro os sons mais fáceis e frequentes, depois os mais difíceis e raros, até passar por toda a lista. Talvez, para não ‘confundir’ a criança, a gente a colocasse em um ambiente segregado, isolado da vida normal, para que ela não ouvisse a fala regular dos já falantes, mas apenas repetidamente ouvisse, em cada estágio, os sons que o professor está tentando ensinar a ela. Ao lado de uma lista de sons, os especialistas comporiam uma lista de sílabas que combinassem os sons, e uma lista de palavras selecionadas que combinassem as sílabas pertencentes à lista de sílabas. Num segundo estágio, o professor ensinaria a criança a combinar sons em sílabas, num terceiro, a combinar sílabas em palavras. Em estágio subsequente, o professor ensinaria a criança a combinar palavras em frases e sentenças. Mas, antes disso, teria de ensinar a criança as regras gramaticais que regem a formação de frases e sentenças. Tudo seria completa e meticulosamente planejado, nada sendo deixado ao acaso. Em cada estágio haveria uma grande quantidade de exercícios práticos, revisões, testes, para garantir que nenhuma criança esquecesse o que já lhe havia sido ensinado. Suponhamos que fizéssemos isso. O que aconteceria? O que aconteceria seria que a maior parte das crianças, antes de ir muito longe, ficaria confusa, frustrada, desencorajada, humilhada, temerosa – e provavelmente desistiria de aprender a falar. Se, fora da sala de aula, elas vivessem vidas normais de crianças, poderiam, sem prejuízo, simplesmente ignorar o ‘ensino’ e aprender a falar do jeito normal. Se, entretanto, a escola tivesse controle integral e completo de sua vida desde os primeiros meses de vida (o sonho de demasiados educadores), elas buscariam refúgio no silêncio e no fracasso deliberado, como tantas fazem, quando tentamos ensina-las, não a falar, mas a ler e escrever…”.

Pesado, não?

Mas voltemos a Ivan Illich. No caso da aprendizagem de línguas estrangeiras, diz ele, a escola e os professores tentam, e tentam, ao longo de cerca de oito anos, ensiná-las aos alunos. Mas as crianças e adolescentes não aprendem. Ao final de cerca de oito anos, mal conseguem ler, não conseguem entender e conseguem falar menos ainda. Eles só conseguem aprender uma língua estrangeira bem quando vão morar com parentes que falam regularmente a língua (em geral os avós imigrantes), ou quando vão viver no exterior, ou, então, quando arrumam um(a) amigo(a) ou namorado(a) que fala bem a língua.

É possível reunir, desde já, algumas das teses de Illich sobre como a aprendizagem ocorre.

Em primeiro lugar, a aprendizagem ocorre, muitas vezes, como já foi assinalado, de forma casual, enquanto fazemos alguma outra coisa: “a aprendizagem em geral ocorre casualmente como subproduto de alguma atividade geralmente classificável como lazer ou trabalho”. Como eu assinalei atrás, entendo essa observação de Illich como a repetição, em outras palavras, da tese de Paulo Freire de que a educação, e, portanto, a aprendizagem, precisa ser “mediatizada pelo mundo” – não por uma instituição que procura isolar a criança do mundo. Aprendemos enquanto fazemos coisas que nos interessam no mundo em que vivemos:

    a) Coisas que nos dão prazer, como namorar, bater papo com os avós, viajar pelo exterior…  (lazer);
    b) Coisas que se encaixam no nosso projeto de vida, como fazer algo que junta nossos talentos e nossas paixões… (trabalho).

Notaram? Primeiro, a caixinha de brinquedos e a caixinha de ferramentas de Rubem Alves parecem ter sido antecipadas aqui… Afinal de contas, Rubem Alves conheceu Ivan Illich pessoalmente. Segundo, a noção de “elemento”, de Sir Ken Robinson, também se encaixa bem aqui…

(Sobre a caixinha de brinquedos e a caixinha de ferramentas de Rubem Alves, vide aqui mesmo neste blog o meu artigo “Ferramentas e Brinquedos”. Sobre a noção de “Elemento” e sua aplicabilidade na aprendizagem, vide, também aqui neste blog, dois artigos meus: “O Elemento e Como Aplicar O Elemento à Aprendizagem Escolar”).

Em segundo lugar, a aprendizagem ocorre o mais das vezes entre pares engajados em uma mesma atividade ou que “pelo menos tenham alguma coisa em comum” (como dizia o velho anúncio da TV – um belo anúncio, apesar de ser de cigarro). Diz Ivan Illich: “Aprendizagem criativa e exploratória requer que pares (peers) estejam naquele momento encafifados com algum problema ou alguma questão”.

Pares, neste caso, não quer dizer, necessariamente, pessoas da mesma idade. Quer dizer, isto sim, pessoas que estão no mesmo plano, sem que uma tenha sido capacitada e credenciada para ensinar (como o professor) e a outra esteja incumbida, obrigatoriamente, de aprender (como o aluno). A idade, aqui, é irrelevante. Avós e netos são pares, nessa visão.

Essa tese de Ivan Illich tem todo respaldo na literatura atual sobrePeer Coaching. Na realidade, meu amigo Les Foltos criou, há algum tempo, nos Estados Unidos, um dos mais difundidos programas de aprendizagem no contexto profissional de que tenho notícia, e o seu nome é, exatamente, Peer Coaching. Está esparramado pelo mundo todo, graças à Microsoft, que o disseminou. Em sua versão em português, usada amplamente no Brasil, onde Les Foltos já esteve várias vezes, o programa foi batizado de Aprender em Parceria. Ele se baseia no fato sobejamente conhecido de que, quando um novo empregado entra numa empresa, a melhor maneira de fazer sua iniciação à cultura da organização e de introduzi-lo aos métodos e procedimentos de trabalho específicos de sua área de atuação é através de outro empregado: um “par” que, primeiro, tem experiência na empresa, segundo, conhece a área de atuação do novo empregado, e, terceiro, possui competência básica nas áreas de comunicação, facilitação e colaboração. Esse conjunto de experiências, conhecimentos e competências o colocam em posição privilegiada para ajudar o novo empregado a aprender, vale dizer, a se tornar, oportunamente, ele próprio, um profissional competente no novo local de trabalho.

Essa tese da aprendizagem lateral ou horizontal, entre pares, já havia sido defendida, em embrião, por Ivan Illich.

Diante da posição radical de Illich, é cabível perguntar: mas então a gente não aprende nada em decorrência do ensino ou da instrução deliberada e formal?

Aprende, sim, responde Illich – mas apenas “quando se está altamente motivado para adquirir uma habilidade nova, específica e complexa”. Quando não estamos genuinamente interessados no assunto ou não temos algum tipo de motivação intrínseca para aprender o que nos é ensinado, a instrução deliberada e formal comprovadamente não funciona.

É verdade que Ivan Illich acredita que é possível criar, na sociedade, ambientes de aprendizagem eficazes, desde que estruturados de forma diversa da escola. Citarei dois desses ambientes que ele discute no Capítulo 6 de seu livro.

  • Centros de Permuta de Habilidades (Skill Exchange Centers)

A Escola da Ponte, em Vila das Aves, no distrito do Porto, em Portugal, usa, dentro da escola, algo parecido com o que propõe Illich. Nas paredes das diversas salas da escola há pares de listas, cujos títulos são parecidos com “Preciso de Ajuda” e “Posso Ajudar”. Através dessas listas a comunidade é informada acerca de quem precisa de ajuda para aprender alguma coisa, e de quem pode ajudar alguém a aprender alguma coisa. Por exemplo: “Preciso de ajuda para aprender a resolver equações de segundo grau”, ou “Preciso de ajuda para aprender Inglês”, ou “Preciso de ajuda para aprender contar uma história em MovieMaker”, ou “Preciso de ajuda para aprender a jogar tênis”; do outro lado, “Posso ajudar quem quer aprender Espanhol”, ou “Posso ajudar quem quer aprender a extrair raiz quadrada”, ou “Posso ajudar quem quer aprender a jogar xadrez”, ou “Posso ajudar quem quer aprender a bordar”.

O que Illich propõe é que a comunidade crie Centros de Permuta de Habilidades, em centros comunitários, igrejas, sindicatos, etc., nos quais as pessoas podem deixar seus nomes em listas muito parecidas com as da Escola da Ponte. Assim, uma pessoa que sabe bordar bem pode ajudar quem quer aprender, e alguém que quer aprender a jogar xadrez pode encontrar quem pode ajudá-la a aprender.

O procedimento é simples, e pode até parecer simplório. Mas Illich o constrói em cima do bom senso que já prevalece nas famílias e comunidades. Em qualquer festinha no salão social da igreja, em que cada pessoa precisa trazer algo, logo haverá pessoas perguntando quem fez aquele bolo ou aquela torta para descobrir qual é a receita, e haverá pessoas se oferecendo para ajudar quem quer aprender a fazer o molho usado nos sanduíches de pernil.

Os jovens de hoje usam muito esse mecanismo de troca de habilidades, mesmo quando não há nenhum centro designado para reunir quem precisa de ajuda e quem pode ajudar. Através da internet eles rapidamente encontram quem pode ajudá-los e quem precisa de sua ajuda em tarefas de aprendizagem.

  • Teias Educacionais (Educational Webs)

Sobre as Teias Educacionais (Educational Webs), já falei no artigo anterior, mas resumo aqui o assunto novamente, com alguma informação adicional.

A internet foi inventada apenas em 1969, pelo Departamento de Defesa dos Estados Unidos, originalmente com o nome de ArpaNet. Era a primeira rede de computadores existente e interligava os computadores de grandes universidades americanas que faziam pesquisas extremamente estratégicas para o Departamento de Defesa. Por trinta e poucos anos a Internet foi uma rede exclusivamente acadêmico-militar. Só veio se tornar popular a partir de 1993, quando o vice-presidente dos Estados Unidos, Al Gore (o mesmo que atua em causas ambientais), propôs sua abertura ao mercado, para empresas e indivíduos, em troca da criação, com apoio do governo, de uma infraestrutura de comunicação realmente eficaz e eficiente, que na época foi chamada de Information Highway – “Rodovia (ou Autoestrada) da Informação”. O resto é história. A Web (termo que quer dizer “Teia”) só foi inventada (na Suíça, por incrível que pareça) em 1990. O primeiro navegador gráfico da Web foi inventado apenas em 1993, nos Estados Unidos, e se chamava Mosaico (Mosaic).

No entanto, em 1970, Ivan Illich já falava em Educational Webs e as teias que ele sugeria eram relacionadas com computadores. Embora, quando comparada com Facebook, a teia de Illich pareça primitiva, não é exagerado dizer que Illich pode ser considerado o pai das redes sociais… Diz ele (em passagem que já citei no artigo passado):

“As pessoas poderiam, a qualquer momento, e por um preço mínimo, se identificar em um computador, fornecendo seu endereço e número de telefone, e indicando quais as coisas (livros, artigos, filmes, gravações) para as quais gostariam de ter parceiros de discussão. Em poucos dias, receberiam pelo correio uma listagem com os nomes, endereços e telefones de pessoas com os mesmos interesses. Isso lhes permitiria contatar os possíveis parceiros, agendar uma reunião, conversar e discutir com elas. Não é preciso que essas pessoas se conheçam previamente. A única exigência é que estejam, todas, interessadas em discutir o mesmo assunto”.

Mas o que ele chamava de “Teias Educacionais” não exigia, necessariamente, a presença de computadores (raros, naquela época). Associações diversas, como partidos políticos, igrejas, sindicatos, clubes, centros comunitários e sociedades profissionais etc. também poderiam reunir pessoas com interesses afins desejosas de encontrar parceiros de discussão. Dessa forma a aprendizagem teria lugar num contexto libertário, democrático, não autoritário – e a sociedade iria se desescolarizando e se tornando mais educacional…

As comunidades eclesiais de base, de algum tempo atrás na Igreja Católica, e a igreja em células, ou em pequenos grupos, das comunidades protestantes de hoje, são exemplos dessas teias. Sua finalidade não é somente educacional, mas a aprendizagem está presente nelas.

Enfim, Ivan Illich, quarenta anos atrás, propunha uma sociedade em que o aprender fosse voluntário, espontâneo, natural – e não obrigatório, planejado, formal. Ele desejava que a sociedade se tornasse mais educacional e menos escolarizada.

Muitos o consideram um romântico. Mas há muito em suas críticas da escola e em suas propostas alternativas que merece nossa atenção ainda hoje. É interessante imaginar o que ele diria em um contexto em que a internet é ubíqua e uma só rede social – o Facebook – envolve um décimo da população do planeta.

———-

Em São Paulo, 29 de Maio de 2011