Hualien, TW

[De manhã, ainda em Taipei]

Hoje, sábado, vou a Hualien, na costa leste de Taiwan. O dia é livre e o local aparentemente é lindo. Pelo que consta, foi o lugar que os portugueses viram primeiro quando chegaram a esta ilha, e por isso a designaram Formosa. Vou de trem — leva quase três horas, mas optei por esse meio porque o trajeto, segundo dizem, também é bonito. Se for realmente o que dizem, fico lá hoje e volto só domingo à noitinha. Felizmente, tenho um "personal tour guide", anglofalante, que me acompanha.

O dia está quente e chuvoso. Ontem, quando saí do aeroporto onde o ar é climatizado, levei um choque — e eram 21h. O site MSN prevê que a temperatura aqui hoje chegue a 31 graus Celsius. Mas tenho a impressão de que ontem estava acima disso às 9h da noite. Talvez a chuva faça a temperatura cair um pouco.

 [No começo da noite, em Hualien]

Como previsto, vim para cá. A viagem de trem foi agradável. O trem foi pontualíssimo, era confortável, nossos lugares estavam guardados — não embarcamos na estação principal, mas numa estação perto do hotel. Ao logo do percurso, vi a paisagem ir mudando. O trem saiu de Taipei e foi na direção de Keelung City, no norte (Keelung City é o principal porto no norte do país). Antes de chegar à cidade, porém, o trem virou para o leste e começou a passar por túnel atrás de túnel, por causa das montanhas — com picos que ultrapassam os 3.500 metros. Depois de quase uma hora, chegamos à costa. Por um bom tempo não havia praia: só havia rochedos de diferentes tamanhos. Depois começaram aparecer algumas praias, mas feitas, quando comparadas com as nossas. A areia parecia um cascalho e era bastante escura.

Mais interessante do que as praias foi o fato de que o leito de quase todos os rios estava seco: só mostrava um mundaréu de pedra. Como há pedra por aqui!!! A água só vem na estação das chuvas ou quando há um tufão. Houve um violento tufão há 15 dias, mas, segundo o dia, a água que ele trouxe já se esgotou, correndo para o mar, ali do lado.

Além do leito seco dos rios, achei interessante ver os arrozais nos alagados — exatamente como a gente vêm em filmes sobre a China, inclusive com os trabalhadores com aqueles chapéus meios em cone…

Outra coisa interessante. No trem, que é um trem bastante bom, lugares numerados, ninguém em pé, poltronas estofadas, ar condicionado, etc., havia várias famílias jovens, com crianças pequenas, vindo para cá. Prestei atenção às que estavam mais perto de mim. Fiquei chocado com os hábitos alimentícios. Várias pessoas tinham um saco plástico com pés de frango fritos e iam comendo (na realidade, chupando) os pés de frango com uma voracidade incrível. Às vezes deixavam o pé do frango na boca e, com as mãos faziam outra coisa. Conforme limpavam (literalmente) os ossinhos, iam cuspindo os ossos que ficavam na boca num jornal no colo. Não foi um, nem dois, que eu vi. Foram vários. As famílias se conheciam, então um vinha filar um pé de frango do outro. Davam para as crianças, que faziam uma sujeira com os ditos cujos (como se pode facilmente imaginar).

Já que estou falando de comida, fui com o meu personal tour guide almoçar numr restaurante chinês, de bastante boa aparência. Aqui em Hualien, além de um McDonald’s, não parece haver restaurantes que não sejam chineses, mais especificamente cantoneses. Vem aquele monte de pratos, a maior parte dos quais eu detesto. E vêm os bendidos palitinhos para a gente comer. Eu os domino razoavelmente bem, mas quando vi um camarão enorme (quase dez centímetros), com cabeça, casca, rabo, barbichas e tudo, fiquei imaginando como é que iria atacar o bicho com os palitinhos. Observei o meu guia. Ele pegou o camarão inteiro com os palitinhos, levou à boca, deu uma dentada, cortou o camarão com casca em dois, e, em seguida, literalmente chupou cada uma das metades — o que veio para a boca ele traçou. Imagino que até os olhinhos e o cérebro do camarão (supondo que camarão tenha cérebro) ele comeu sem a menor discriminação. Eu pensei comigo mesmo: aqui cheguei ao meu limite. Pedi a ele que solicitasse à garçonete um garfo e uma faca — que ela trouxe. Cuidadosamente retirei a casca, removi a cabeça, o rabo, as barbichas, e comi o resto — que, por sinal, estava delicioso. Acho que foi o maior camarão que comi na minha vida. Quase um almoço em si só (exagero, ma non troppo).

Resolvi ficar aqui hoje à noite. O hotel é simples. Chama-se Marshall. Mas tem Internet. Felizmente. Resolvi não jantar. Não conseguiria gerenciar mais uma lauta refeição de dez a doze pratos de cozinha cantonesa. Assim faço um regiminho. E aproveito para descansar, porque o sono e o cansaço estão chegando fortes.

[Perto da meia-noite]

Acordei há questão de minutos, tomei os meus remédios da hora do almoço (aqui é tudo invertido: os remédios do café da manhã tomo no jantar; os do almoço, tomo na hora de ir dormir; e os da hora do jantar tomo no café da manhã).

A Internet foi-se. Ao acordar de minha soneca, às 23h (leva tempo para a gente conseguir dormir uma noite inteira de uma vez só), a Internet tinha sumido. Gone. Eu ainda tinha acesso à rede local, mas esta não estava conectada à Internet. Ficava aparecendo aquele maldito computadorzinho com um triângulo com um ponto de exclamação amarelo, indicando "conexão limitada" — que é uma expressão errada: com a Internet não tinha conexão nenhuma: de que me interessa estar ligado à rede local do hotel, se esta não está conectada à Internet???  

Liguei para a recepção, quem atendeu falava bem Inglês, disse que mandaria um técnico. Este veio ao quarto, não falava nada de Inglês, e só tentou abrir o Internet Explorer. Não conseguiu, fez um gesto de quem não sabia o que fazer, e saiu. Pior de tudo: fedia. Ficou o cheiro dele no ar. Dali a pouco voltaram o recepcionista de plantão (que foi quem atendeu o meu telefonema) com o fedorento técnico. Eu disse ao recepcionista o que estava acontecendo e ele me disse que então o problema talvez fosse no modem (estava usando conexão com fio) ou no roteador. Pelo menos parecia saber isso. Disse a ele para ligar e desligar o modem e o roteador. Disse que não podia, porque a gerência tranca a sala a chave à noite… Disse-me, também, que havia havido uma tempestade (eu não vi nem ouvi) e que um raio devia ter alcançado o modem ou o roteador. Disse-me, por fim, que achava que a Internet Sem Fio estava funcionando no lobby. Vim para cá, com camiseta de dormir, etc., e de fato está funcionando. por isso complemento este artigo aqui no lobby, depois da meia-noite. Estou sem sono. Vou ver se compro uma cerveja no bar para matar a fome e dar um pouco de sono…

Hoje visitei uma fundação impressionante. Tzu-Chi Foundation, criada por uma monja budista há uns 45 anos. Fiquei de queixo caído. Têm subsidiárias em 39 países e atuam com voluntários em quase todo o globo, inclusive no Brasil. Vejam o site dela em http://www.tzuchi.org.tw/ — o site está disponível em Inglês e Espanhol, além de Chinês. Aqui em Hualien, que é a sede da fundação, há um mega-hospital e uma universidade (com ênfase nas áreas da saúde e da educação). Mas eles atuam muito em "disaster relief", atendendo a vítimas de furacões (aqui chamados de tuf
es), terremotos, tsunamis e outros desastres naturais. A sede da fundação, um edifício magnífico, é também um templo budista. É preciso tirar os sapatos para entrar lá (a gente os coloca num saquinho e carrega com a gente). Apesar de sábado, recebi um tratamento VIP, porque o pessoal da Microsoft Taiwan havia acertado para que eles me recebessem. É interessante o quanto se pode fazer para melhorar a qualidade de vida das pessoas, especialmente das mais pobres, através a iniciativa privada — inicialmente de um indivíduo (que hoje coordena um exército de pessoas, quase todas voluntárias, pagando suas passagens para ir ao local de desastres naturais com dinheiro do próprio bolso).

O Budismo, segundo me disseram, trabalha com o princípio de que todo mundo tem um potencial em princípio ilimitado, que é preciso desenvolver. Donde o trabalho com a educação. O trabalho com a saúde (hospitais) e com o atendimento de vítimas de desastres naturais é urgente, porque quem morre não tem como ser educado (ou, mesmo que já fosse, deixa de fazer uso da educação que teve). Curioso que essa idéia de potencial ilimitado é trabalhada pelas Nações Unidas, especialmente através do seu programa de Desenvolvimento Humano (UNDP/PNUD), idéia essa que foi apropriada pelo Instituto Ayrton Senna. A Microsoft (WorldWide) também tem um programa chamado Unlimited Potential, voltado para ajudar ONGs.

Volto a insistir: a filantropia privada (aí incluída a de fundo religioso) é um caminho muito mais efetivo para alivar os problemas das pessoas e ajudá-las a melhorar a condição de sua vida do que os programas sociais de nosso governo, eivados de todo tipo de corrupção no nível central, local e nos intermediários.

Um hurra ao Budismo da Mestre Cheng Yen — que vive num mosteiro aqui perto, na maior simplicidade, com a cabeça raspada, junto de outras monjas.  

Em Hualien, TW, 25 de Agosto de 2007

Longa viagem e complicados fusos horários

Só para dar uma idéia da "distância temporal" entre Campinas e Taipei, vou levar, tudo dando certo, quarenta e cinco horas desde que saí de minha casa, em Campinas, até que cheguei ao meu hotel (The Tango Hotel) em Taipei. Quase dois dias completos. Eis a discriminação dos tempos, levemente arredondados, citando o horário do Brasil como referência constante:

Saída de casa: 14h00 de 22/8

Saída de São Paulo: 20h30 de 22/8 – 6 horas e 30 minutos para ir de casa até a estação da Caprioli em Campinas, para ir de ônibus de Campinas a Guarulhos, e respectivas esperas (pede-se para chegar três horas antes do vôo em Guarulhos, e, dadas as intermináveis filas para entrar na área internacional, para checar as bagagens de mão, e para passar pela Polícia Federal, três horas é um prazo bastante razoável. Fiquei apenas cerca de uma hora na sala VIP da United antes de ir para o portão de embarque).

Chegada em Chicago: 7h de 23/8 (5h, hora local) – 10 horas e 30 minutos de vôo

Saída de Chicago para San Francisco: 10h de 23/8 (8h, hora local) – 3 horas de imigração, alfândega e espera

Chegada em San Francisco: 14h30 de 23/8 (10h30, hora local) – 4 horas e 30 minutos de vôo

Saída de San Francisco: 15h30 (11h30, hora local) – 1 hora de espera

Chegada em Tokyo: 2h de 24/8 (14h, hora local) – 10 horas e 30 minutos de vôo

Saída de Tokyo: 6h de 24/8 (18h, hora local) – 4 horas de espera

Chegada em Taipei: 9h de 24/8 (20 h, hora local) – 3 horas de vôo

Chegada no Hotel: 11h de 24/8 (22 h, hora local) – 2 de imigração, alfândega, traslado para o hotel 

Ou seja: saí de casa às 14h do dia 22/8, hora do Brasil, e vou chegar ao hotel em Taipei às 11h do dia 24/8, também hora do Brasil. Total: 45 horas (sendo 28 horas e 30 minutos de vôo, propriamente dito, e 16 horas e 30 minutos de traslado, imigração, alfândega e simples espera e estação rodoviária (Campinas) e aeroportos (São Paulo, Chicago, San Francisco, Tóquio e Taipei). As 11h de 24/8 do Brasil serão 22h do mesmo dia em Taipei, que está 11 horas na frente do Brasil (Tóquio estando 12).

Divertido? Eu acho. Só não acho tanto quando vôos atrasam ou alguma outra coisa não sai como havia sido prevista.

Na volta há uma redução de cerca de duas a três horas, nos vôos da Ásia para os Estados Unidos, em decorrência de ventos favoráveis e do movimento favorável de rotação da Terra. Para voltar, portanto, o tempo de vôo, propriamente dito, fica em torno de 26 horas. O tempo no chão é mais ou menos o mesmo.

Fusos Horários (As cidades americanas, Washington, Chicago e San Francisco, em Horário de Verão [Daylight Savings Time / DST], as demais, não):

São Paulo: Quatro horas na frente de San Francisco, duas horas na frente de Chicago, uma hora na frente de Washington, onze horas atrás de Taipei, doze horas atrás de Tóquio

Washington: Três horas na frente de San Francisco, uma hora na frente de Chicago, uma hora atrás de São Paulo, doze horas atrás de Taipei, treze horas atrás de Tóquio

Chicago: Duas horas na frente de San Francisco, uma hora atrás de Washington, duas horas atrás de São Paulo, treze horas atrás de Taipei, quatorze horas atrás de Tóquio

San Francisco: Duas horas atrás de Chicago, três horas atrás de Washington, quatro horas atrás de São Paulo, quinze horas atrás de Taipei, dezesseis horas atrás de Tóquio

Tóquio: Dezesseis horas na frente de San Francisco, quatorze horas na frente de Chicago, treze horas na frente de Washington, doze horas na frente de São Paulo, uma hora na frente de Taipei

Taipei: Quinze horas na frente de San Francisco, treze horas na frente de Chicago, doze horas na frente de Washington, onze horas na frente de São Paulo, uma hora atrás de Tóquio.

Complicado? Eeu acho — mas acho também divertido.

Acima do Pacífico, a 60 minutos de Tóquio, em 24 de Agosto de 2007 (agora já dia 24 também no Brasil)

Arremetidas

O último acidente da TAM — infelizmente eles têm se tornado tão frequentes que a gente precisa se referir a eles qualificando-os — trouxe à baila a discussão de alguns termos da aviação que poucos de nós conhecíamos: primeiro foi “grooving“, depois reverso, manete, “idle“, etc. Entre os termos discutidos estava o verbo arremeter. Houve um momento, logo depois do acidente, em que se acreditou que os pilotos do avião que explodiu tentaram arremeter — isto é, inverter o processo de aterrisagem e levantar voo novamente. Isso pode se dar antes ou depois de o avião tocar o solo e, pelo que diziam os especialistas em aviação, é tão frequente que um pouso nada mais é do que uma arremetida que não aconteceu… Ou seja, pousar é como se fosse fracassar no arremeter…

Que seja. Mas quando acontece, assusta!

Aconteceu comigo hoje (ou ontem — dia 23/8/2007). Quando você voa e passa a “International Date Line”, fica complicado saber que dia é. Esqueci de dizer que estou escrevendo em voo, o voo UA 837, da United, de San Francisco para Tóquio (Narita). Saí do Brasil ontem (dia 22/8/2007), no vôo UA 842, da mesma United, para San Francisco, via Chicago (O’Hare). Chegamos a Chicago na hora, sem problemas e saímos de Chicago para San Francisco também sem problemas. Quando estávamos aterrisando em San Francisco — já estávamos baixinhos, baixinhos, quase esperando o toque das rodas do avião na pista — passa um outro avião na nossa frente (eu estava olhando a linda paisagem da baía de San Francisco e o vi sem acreditar no que estava vendo), assim como um carro passa na nossa frente num cruzamento em T. Carros só andam no nível do chão, mas aviões podem andar mais alto ou mais baixo. Esse, que passou na nossa frente estava no mesmo nível que o nosso, só que estava levantando vôo. É claro que levei aquele susto, mas o que me assustou ainda mais foi que nosso piloto também parece ter se assustado porque… é issso mesmo: arremeteu!!!

Todo mundo dentro do avião olhou para o companheiro do lado e disse (ainda que não verbalizado): “Epa!”. Como já voávamos muito baixo e o nosso avião estava como que planando, o processo foi fácil de sentir: o bico do avião levantou, como num “take-off“, e os motores foram acelerados, como acontece quando a gente subitamente passa a marcha do carrro de quinta para quarta e depois para terceira para fazer uma ultrapassagem crucial numa subida. A gente sentiu a inversão da direção (de para baixo para para cima) no próprio corpo e ouviu a aceleração das turbinas — e, pela janelinha, viu a bela paisagem da baía ir ficando lá embaixo e as primeiras nuvens aparecer… Foi um negócio rápido. Em poucos segundos estávamos novamente acima das núvens, vendo, não mais a baía, mas as montanhas.

Depois de já estarmos bem no alto novamente, o comandante deu um aviso curto, que não dizia mais do que o necessário — e o óbvio (pelo menos para quem viu o outro avião passar na nossa frente): “Como vocês devem ter percebido, tivemos de interromper momentaneamente o procedimento de descida por causa de tráfego aéreo. Devemos aterrisar dentro de cerca de dez minutos”. Aterrisamos, desta vez sem susto. Ao sentir o avião tocar na pista de levinho, senti vontade de bater palmas — e me surpreendi quando o homem no assento ao lado, que não havia aberto a boca durante as quatro horas e quinze minutos de voo, disse: “Dá até vontade de bater palmas, não dá?” (“it feels like clapping, doesn’t it?”)

Para mim, a observação do colega de voo é prova insofismável de que a natureza humana de fato existe. Temos reações muito semelhantes diante das coisas. É isso que faz a literatura, o teatro, o cinema possível. O autor do livro ou o diretor da peça ou do filme sabem quando vamos rir, quando vamos ficar penalizados, quando vamos chorar… O autor de um quadro ou de uma escultura sabe quando vamos achar a obra linda ou quando vamos ficar chocados diante dela. (Não vou à Bienal, como regra, para não ficar chocado diante de boa parte do que lá se exibe).

Mas voltemos ao nosso vôo UA 842. Com os quase 15 minutos adicionais, requeridos para o nosso arremetimento (é esse o substantivo?) e novo procedimento de descida, tive apenas meia hora para trocar de avião em San Francisco — com mudança de terminal e tudo. Tive de andar rápido, por uns 500 m, pegar um ônibus na pista, e ser levado para o outro terminal, novo, o Terminal Internacional. Chegamos ao portão de embarque, os que estávamos fazendo a conexão, poucos minutos antes de fecharem as portas do avião. Por pouco. Entrei no avião, meio esbaforido. O esforço para não perder a conexão, porém, me fez me esquecer um pouco do susto do arremetimento. Recebi uma taça de champanhe gelado da aeromoça e me recompus.

Por falar em aeromoça, na parte do vôo UA 842 entre São Paulo e Chicago sentei-me ao lado de duas pessoas interessantes (apesar de ser uma fileira de apenas dois assentos e eu ocupar um…). Explico. Raramente converso muito com meus companheiros de voo: prefiro ler, assistir aos filmes, ou simplesmente dormir. Mas neste caso, conversei bastante. Quando já estava achando que o assento do lado iria ficar vazio, apareceu seu ocupante, o lado masculino de um casal cuja mulher teve de se assentar na fileira de trás, na janelinha. Antes mesmo de levantarmos voo o cidadão já havia conseguido que o rapaz que estava ao lado da mulher dele trocasse de assento com ele — e foi assim que ganhei meu primeiro real companheiro de assento no voo, um rapaz de mais ou menos trinta e cinco / quarenta anos, cordial, sorridente. Cumprimentamo-nos e começamos a conversar as frivolidades de costume, em Inglês. Perguntei a ele se era americano (só ousei perguntar porque ele me pareceu extremamente jovial — normalmente nunca faço uma pergunta direta dessas a alguém que presumo ser americano), e ele me disse que não: havia nascido no Brasil, de pais americanos, missionários, tinha cidadania brasileira, mas também passaporte americano. Disse-lhe que então podíamos falar em Português, mesmo, e foi isso que fizemos dali para a frente. Ele me disse seu nome: James David Meadows — explicando que já foi chamado de tudo: Jeimes, James, Deivid, Daví, e até mesmo Meadows. Eu disse o meu nome — e comentei que meu pai havia sido pastor por cerca de cinquenta anos. Isso nos deu uma certa cumplicidade, imagino, porque a conversa decolou a partir dali.

Ele me explicou que, assim que jantássemos, iria trocar de lugar com a mulher, funcionária da United (área de vendas, grande clientes, em São Paulo), que estava na Classe Econômica, com o filho de dois anos e meio, por causa de uma política da companhia. Havendo lugar, os funcionários viajam em Executiva ou até mesmo em Primeira, mas não podem fazê-lo com crianças pequenas… Pelo que me explicou, deve ser porque crianças pequenas podem incomodar os outros passageiros, e se eles descobrirem que a criança pequena está ali voando de graça, porque é filha de funcionários, podem se indispor com a empresa… (Cuidados com a imagem. É bom que isso aconteça. As companhias brasileiras podiam aprender alguma coisa com essas regras pouco conhecidas do público em geral). Mas, enfim. A mulher dele estava ocupando o lugar dele, na Econômica, ao lado do menino, e, como estava grávida (para Novembro), iria trocar de lugar com ele, depois do jantar, para que pudesse dormir um pouco de forma mais confortável na Executiva.

O jantar demorou um pouco, foi precedido de drinks e canapés (ele, notei, só bebeu suco de maçã, como bom crente e filho de missionário). Conversamos bastante sobre o Brasil, os Estados Unidos, o Lulla, o Bush… Sintonizamo-nos bem, politicamente. Ele é um ser meio hermafrodita, mais ainda do que eu, sendo capaz de genuinamente sentir como brasileiro e como americano. Ele tem os pais americanos, eu tenho a filha e as netas, ambos nascemos no Brasil mas moramos também lá e estamos constantemente lá, ambos nos mantemos informado sobre os eventos dos dois países, ambos temos enorme simpatia para com o país, etc.

Depois do jantar, dormi logo e, assim, não vi a “troca da guarda”. Acordei durante a noite e vi que a companhia do assento ao lado havia mudado. Durante os noventa minutos finais do voo, quando reacendem as luzes e servem café da manhã, conversei bastante com a simpática mulher dele, Juciária Tavares Meadows. Perguntei sobre o Nicholas (nome do menino), se ele dormia bem no avião e ela me disse que sim — só ficou frustado porque não havia arrumado assento numa janelinha… Mas disse-me que se alguém chamá-lo para uma janelinha, ele vai sem pestanejar. Fiquei sabendo que o novo nenê é uma menina, mas não me lembro de ela ter me dito se já haviam escolhido o nome da menina. Conversamos um bocado sobre a United. Ela começou a trabalhar na companhia quando esta chegou ao Brasil, em 1992, na sequência do fechamento da PanAm: a United comprou suas rotas para a América Latina e para a Ásia. Eu comecei a voar sistematicamente pela United na mesma época, porque era “Frequent Flyer” da PanAm e herdei o status de Premier Executive.

Gostei muito do Davi e da Juciária — que moram em Guarulhos (ele tem uma companhia que aluga máquinas de refrigerantes e é ativo na Igreja de Cristo / Church of Christ).

Enfim, esta foi a única vez que tive dois companheiros de assento num mesmo voo e uma das raras vezes que conversei bastante com os companheiros de assento. (Uma outra vez que conversei bastante foi quando tive a sorte de sentar-me ao lado do Vice-Presidente Industrial da General Motors do Brasil, José Eugênio Pinheiro, num vôo, também da United, de Chicago a São Paulo.

Mas introduzi esse assunto, lá atrás, dizendo “por falar em aeromoça…” e acabei não falando delas. Quando conversávamos, vivamente, o Davi e eu, enquanto a aeromoça explicava os procedimentos a seguir no caso de acidentes, levamos um olhar feio da que estava ao nosso lado — provavelmente porque não estávamos prestando atenção (algum viajante que não esteja em sua primeira viagem de avião presta?). Comentei com ele que a aeromoça havia ficado brava e, com isso, iniciamos uma conversa interessante sobre aeromoças — que, no caso da United, são invariavelmente “aerovelhas”, como ele bem observou… Velhas e, infelizmente, muito feias. Provavelmente por causa da cultura e da legislação americana, que pune severamente uma empresa que deixar de contratar alguém por causa da aparência (“lookismo” – aparencismo). O exigência de que seja “moça jovem e de boa aparência” é estritamente verboten nos Estados Unidos como requisito para emprego. Comentamos como as aeromoças brasileiras são em geral jovens e bonitas — e como as asiáticas em geral são lindas, nos aviões das companhias asiáticas e mesmo nos vôos da United para a Ásia em que, fatalmente, há várias aeromoças (moças, mesmo) asiáticas. Mas a companhia e o aeroporto em que essa característica mais me chamou a atenção foi a Thai Air e o aeroporto de Bangkok (especialmente na sala VIP da Thai Air). Os aviões da Thai Air parecem ter participantes em um concurso de beleza como comissárias de bordo (vou ser politicamente correto aqui e deixar de falar de aeromoças e aerovelhas). A Sala VIP da Thai Air (Star Alliance) no aeroporto de Bangkok, além de ser a maior que eu já vi em toda a minha vida, é a que tem as mais lindas e gentis atendentes de todas as salas VIP em que já tive a oportunidade de ficar. No caso de companhias brasileiras, ou mesmo do pessoal de aeroporto da United, as moças são bonitas, mas não são de parar o tráfego, como as asiáticas da Thai Air.

Conversa de avião de vez em quando rende, como se vê. Comecei falando de um susto e agora estou aqui comendo uns chocolatinhos Ghiraldelli (marca de San Francisco) que a comissária de bordo gentilmente me trouxe, com um copo de água gelada. Minha colega de assento neste vôo é asiática e, pelo que dá pra notar, totalmente muda — não fala nem sequer uma palavra, nem mesmo com as comissárias de bordo. Agora dorme tranquila. Apesar de ter viajado bastante pela Ásia, várias vezes, não consigo distinguir direito chinesa de japonesa — e às vezes nem de coreana e tailandesa. Digo isso para mostrar que, afinal de contas, nem presto tanta atenção assim nelas. Se o fizesse, saberia distinguir a nacionalidade delas — algo que os nativos fazem com incrível facilidade.

A seleção de músicas clássicas nos voos da United está cada vez melhor. E a seleção de filmes, também. Na parte do voo entre Chicago e San Francisco assisti a “Fractured” (não sei o título em Português), com Anthony Hopkins. Gostei muito — especialmente porque era Anthony Hopkins, para mim o maior ator da atualidade.

(A propósito, na terça-feira estive em Campos do Jordão e ouvi o Ricardo Semler dizer que a única vez que ficou sem saber o que dizer foi um dia, num avião, em que o Anthony Hopkins se sentou ao lado dele no avião. O Anthony Hopkins é um tal monstro sagrado, e sua presença tão assustadoramente “imposing“, que até o Ricardo Semler admite que não teve coragem de lhe dirigir a palavra durante um voo de mais de quatro horas… Choses de la vie. Interessante.)

Dentro de mais ou menos três horas devemos aterrisar em Narita — sem arremetidas e sem outros sustos, espero. Já foi caso de avião mais do que suficiente para crônica de blog (em que felizmente não há limite para o tamanho).

Acima do Pacífico em 24 de Agosto de 2007 (hora de Tóquio — no Brasil é 21h52 do dia 23 ainda). 

Bem, minha bagagem chegou – em parte

Dez dias depois de eu chegar, parte de minha bagagem chegou — ainda falta uma mochila.
 
Estou contente de que a mala principal tenha chegado. Mas o serviço de bagagens do aeroporto de Heathrow em Londres e da British Airways é um completo desastre.
 
Durante mais de uma semana não conseguiram sequer localizar a mala que estava lá em Heathrow o tempo todo, devidamente etiquetada e identificada.
 
Quando a acharam e enviaram, eu a recebi totalmente molhada (por fora e por dentro) e num horário nada comercial: às vinte para as duas da madrugada.
 
Felizmente, embrulho em plástico livros e outras coisas que podem ser danificadas pela água, porque não é a primeira vez que recebo mala molhada. Mas os ternos e as demais roupas tiveram de ir para a lavanderia hoje, por estarem totalmente molhados.
 
Fica aqui o meu protesto.
 
Em Campinas, 20 de dezembro de 2006

Minha bagagem embarcada pelo jeito não embarcou…

Sempre que viajo para a Ásia comento, ao voltar, a minha surpresa de que tudo tenha dado tão certo. São, em geral, mais de 25 horas no ar, mais de 10 horas em traslados e esperas em aeroporto, e, chegando lá, sempre há alguém esperando, com uma plaquinha com meu nome, no hotel a reserva está feita direitinho, etc.
 
Ontem cheguei da Malásia, com uma hora de atraso – e minhas malas não chegaram. Na verdade, não chegaram as malas de quase 100 dos cerca de 350+ passageiros do Jumbo 747 da British Airways no vôo BA 235 de 10/12/2006.
 
O culpado certamente foi o Aeroporto de Heathrow, em Londres. Se apenas as minhas malas não houvessem chegado, poderia ter sido culpa da Malaysia Airlines, visto que quem as embarcou, em Kuala Lumpur, para transferência em London – Heathrow, foi a companhia da Malásia. Mas a maior parte dos passageiros que ficou sem malas embarcou originalmente em Londres. Logo, a culpa é da British Airways ou, mais provavelmente, do aeroporto de Heathrow.
 
Creio que nenhum dos passageiros tenha dúvida de que a culpa é dos absurdos procedimentos de segurança do aeroporto. Tudo lá estava caótico.
 
Primeiro, há a exigência de que cada passageiro carregue no máximo uma bagagem de mão. Nem sequer uma pequena bolsa de mulher, ou uma pequena capanga de homem, ou uma sacola com livros, muito menos uma maleta de computador, era permitida a bordo como segundo volume. Isso fez com que milhares de pessoas, que não tinham conhecimento desse procedimento, tivessem de despachar um volume na porta do avião ou, então, precisassem tentar enfiar tudo que tinham em mãos dentro de uma maleta só (que foi o que fiz). Isso explica a uma hora de atraso na partida.
 
(Esse procedimento não explica todo o atraso: o fato de a gente precisar tomar ônibus para chegar até o avião, um verdadeiro absurdo nos dias de hoje, explica o resto. No aeroporto de Lisboa acontece o mesmo. Mas lá há uma explicação plausível: a empresa portuguesa que construiu os fingers do aeroporto os contruiu verticalmente fixos. Eles, assim, não podem se ajustar à altura dos aviões modernos — aviões modernos aqui querendo dizer aviões de uns 40 anos, como os Boeing 747… Será que foi a mesma empresa portuguesa que construiu os fingers de London Heathrow? Pelo jeito…).
 
Segundo, há a proibição de carregar líqüidos na bagagem de mão. Essa proibição foi "relaxada" um pouco ultimamente: agora se admitem volumes de até 100 mil desde que colocados em um saco plástico transparente, resselável, etc. Nos locais de checagem de segurança, havia centenas de garrafinhas de água, refrigerantes, até remédios, tudo confiscado ou relutantemente abandonado pelo dono. Mais caos e demora.
 
Acredito que devem ter suspeitado alguma coisa num lote de malas que deveria ter vindo em nossa avião e, por isso, não embarcaram o lote todo. Só isso pode explicar a não chegada de tanta bagagem.
 
Uma vez mais, é o país europeu desenvolvido que decepciona, enquanto os países asiáticos fazem tudo direitinho, como manda o figurino.
 
(E não falo nem da feiura do aeroporto de Londres perto da beleza que são os aeroportos de Kuala Lumpur, Bangkok, Hong Kong, Taipei, Singapore, Seoul…) 
 
Felizmente me dei ao trabalho de colocar a minha mochila inteira dentro da maleta do computador. Ficou meio amassada, uma pena, mas não precisei despachar mais um volume — que, provavelmente, não teria chegado… E, uma vez dentro do avião, removi a mochila de dentro da maleta e carreguei as duas normalmente. Havia amplo espaço para armazenar as duas na upper deck do 747 – o lugar mais gostoso de voar, especialmente nos assentos junto à janela, que possuem bastante espaço lateral, no chão, para armazenar as coisas.
 
Em Campinas, 11 de dezembro de 2006

Os aeroportos com maior tráfego de passageiros no mundo

Os aeroportos com maior tráfego de passageiros no mundo, em 2005, foram, segundo a Wikipedia, os seguintes:
 
2005 final statistics

Rank Airport Country Location Code
(IATA/ICAO)
Total
Passengers
2004
Rank
Change
1. Hartsfield-Jackson Atlanta International Airport United States Atlanta, Georgia, United States ATL/KATL 85,907,423 1 +2.8%
2. O’Hare International Airport United States Chicago, Illinois, United States ORD/KORD 76,510,003 2 +1.3%
3. London Heathrow Airport United Kingdom Hayes, Greater London, United Kingdom LHR/EGLL 67,915,403 3 +0.8%
4. Tokyo International Airport (Haneda) Japan Ota, Tokyo, Japan HND/RJTT 63,282,219 4 +1.6%
5. Los Angeles International Airport United States Los Angeles, California, United States LAX/KLAX 61,489,398 5 +1.3%
6. Dallas-Fort Worth International Airport United States Dallas/Fort Worth, Texas, United States DFW/KDFW 59,176,265 6 -0.4%
7. Charles De Gaulle International Airport France Roissy, Tremblay-en-France, France CDG/LFPG 53,798,308 7 +5.0%
8. Frankfurt International Airport Germany Frankfurt, Hesse, Germany FRA/EDDF 52,219,412 8 +2.2%
9. Amsterdam Schiphol Airport Netherlands Haarlemmermeer, North Holland, The Netherlands AMS/EHAM 44,163,098 9 +3.8%
10. McCarran International Airport United States Las Vegas, Nevada, United States LAS/KLAS 43,989,982 11 (+1) +6.0%
11. Denver International Airport United States Denver, Colorado, United States DEN/KDEN 43,387,513 10 (-1) +2.6%
12. Barajas International Airport Spain Madrid, Spain MAD/LEMD 41,940,059 13 (+1) +8.4%
13. John F. Kennedy International Airport United States New York City, New York, United States JFK/KJFK 41,885,104 15 (+2) +8.9%
14. Sky Harbor International Airport United States Phoenix, Arizona, United States PHX/KPHX 41,213,754 12 (-2) +4.3%
15. Beijing Capital International Airport People's Republic of China Chaoyang, Beijing, People’s Republic of China PEK/ZBAA 41,004,008 20 (+5) +17.5%
16. Hong Kong International Airport Hong Kong Chek Lap Kok, New Territories, Hong Kong, People’s Republic of China HKG/VHHH 40,269,847 17 (+1) +9.7%
17. George Bush (Houston) Intercontinental Airport United States Houston, Texas, United States IAH/KIAH 39,684,640 18 (+1) +8.7%
18. Don Mueang International Airport (Old Bangkok Int’l) Thailand Bangkok, Thailand DMK/VTBD 38,985,043 14 (-4) +2.7%
19. Minneapolis-Saint Paul International Airport United States Minneapolis/Saint Paul, Minnesota, United States MSP/KMSP 37,604,373 16 (-3) +2.4%
20. Detroit Metropolitan Wayne County Airport United States Detroit, Michigan, United States DTW/KDTW 36,389,294 19 (-1) +3.2%
21. Orlando McCoy International Airport United States Orlando, Florida, United States MCO/KMCO 34,128,048 24 (+3) +8.4%
22 Newark Liberty International Airport United States Newark, New Jersey, United States EWR/KEWR 33,999,990 22 +3.3%
23. San Francisco International Airport United States San Francisco, California, United States SFO/KSFO 33,394,225 21 (-2) +2.3%
24. London Gatwick Airport United Kingdom West Sussex, United Kingdom LGW/EGKK 32,784,330 23 (-1) +4.2%
25. Singapore Changi Airport Singapore Changi, East Region, Singapore SIN/WSSS 32,430,856 26 (+1) +6.8%
26. Philadelphia International Airport United States Philadelphia, Pennsylvania, United States PHL/KPHL 31,495,385 30 (+4) +10.5%
27. Narita International Airport Japan Narita, Chiba, Japan NRT/RJAA 31,451,274 25 (-2) +1.3%
28. Miami International Airport United States Miami, Florida, United States MIA/KMIA 31,008,453 27 (-1) +2.8%
29. Toronto Pearson International Airport Canada Toronto, Ontario, Canada YYZ/CYYZ 29,914,750 28 (-1) +4.5%
30. Seattle-Tacoma International Airport United States Seattle, Washington, United States SEA/KSEA 29,289,026 N/A +1.7%
 
 
No Brasil, segundo dados da Infraero, os aeroportos que tiveram maior tráfego de passageiros em 2005 foram:
 
01. Congonhas / São Paulo: 17.147.628
02. Cumbica / São Paulo: 15.834.797
03. Brasília: 9.426.569
04. Galeão / Rio de Janeiro: 8.657.139
 
Se Congonhas e Cumbica fossem um aeroporto só, estaria entre os trinta de maior tráfego de passageiros no mundo…
 
Em Londres, 10 de dezembro de 2006

Voltando a falar da Europa e a Internet

Num dos meus artigos no meu blog de viagem escrevi sobre a Internet, os Estados Unidos e a Europa. Para contextualizar, transcrevo o artigo abaixo.
 
O que me fez lembrar do artigo foi o fato de que nos aeroportos asiáticos em que tenho estado nos últimos tempos (Tóquio, Hong Kong, Taiwan, Seoul, Bangkok, Kuala Lumpur) o acesso à Internet, nas salas VIP, é gratuito, bom e desburocratizado.
 
Nesta viagem parei no aeroporto de Munique e, hoje, aqui no aerporto de Londres (Heathrow). Em ambos os casos, as salas VIP da Lufthansa e de British Airways cobram o acesso à Internet.
 
Não é o fim da picada???
 
Em Londres, 10 de dezembro de 2006.
 
[Artigo anterior, transcrito]

Venho refletindo, nesses últimos dias, por força das circunstâncias, sobre as diferenças entre a Europa e os Estados Unidos.

Primeiro, no tocante a hotéis. Aqui na Europa tenho visto hotéis europeus tradicionais de primeira linha, caríssimos, hotéis de cadeias americanas tradicionais (Hilton, Sheraton, Marriott), hotéis da cadeia Accor, européia, e mais recente (Novotel, Sofitel, Mercure, Ibis), e hotéis mais baratos, locais, fora de cadeia.

As duas primeiras categorias têm preço que me parece exorbitante. Embora quando viage a serviço da Microsoft, fique sempre em hotéis das duas primeiras categorias (substituindo-se, na primeira categoria, “europeus” pelo adjetivo correspondente ao país em que há a reunião), quando se está viajando a lazer, durante 50 dias, não dá pra pagar de 250 a 400 Euros por dia.

As linhas Novotel e Sofitel da Rede Accor também são caras, em algumas cidades. Chequei o preço do Novotel Les Halles em Paris, e a diária era de 392 Euros. Fora de cogitação, apesar de ser um bom hotel e de ter uma localização mais do que privilegiada: nobilérrima.

Como é difícil confiar nos hotéis locais, fora de cadeia, a menos que a gente tenha conhecimento pessoal da qualidade deles, sobram as linhas Mercure e Ibis da Rede Hotel.

Minha opinião dos hotéis Ibis é de neles não falta quase nada – mas não tem nada mais do que o estritamente necessário. Normalmente são baratos – embora em Praga, uma cidade de hotéis caros, tenha pago 120 Euros por noite no Ibis Praha Old Town: que fica na entrada da Cidade Velha, na Praça da República. Em Viena, também fiquei num Ibis, a 15 minutos a pé do centrinho, e junto de uma estação do metrô: excelente – melhor do que  o de Praga, embora o preço tenha sido 77 Euros por dia.

Fiquei satisfeito tanto em Praga como em Viena – embora em Praga a Internet fosse um desastre. Sobre isso, porém, falarei adiante.

Aqui em Salzburg – cidade também conhecida pelo alto preço de seus hotéis – não havia Ibis disponíveis. Os poucos que há são fora da cidade. Optei pelo Mercure, a 144 Euros por dia. Chegando aqui, constatei que o hotel era novo. Mas aí começaram as surpresas desagradáveis. Primeiro, não havia Internet nos quartos – nem pagas (apesar de os dois Ibis anteriores, que são hotéis de uma linha mais barata do que a Mercure, terem). Segunda surpresa desagradável: o quarto não tinha ar condicionado. Fui reclamar. Disseram-me que minha reserva havia sido para um quarto padrão. Retorqui afirmando que, naturalmente que sim… O problema, porém, disse-lhes, não estava com a minha reserva, mas com o que eles entendem por quarto padrão num hotel que cobra 144 Euros por dia… Disse-lhes que em Praga, que, para eles, é cidade do segundo mundo, o Ibis, que é um hotel de linha inferior ao Mercure, tinha ar condicionado… Depois de muita briga, extraí deles a admissão de que alguns quartos possuíam ar condicionado, mas eles não eram padrão – eram quartos “Confort”, que custavam 15 Euros por pessoa por dia de upgrade…  Como àquelas alturas não dava para achar um outro hotel, e a temperatura estava fria, resolvi ficar com o que já tinha – exceto pela ausência do ar condicionado, o quarto é grande, confortável, tem TV de cristal líquido, etc. e não é longe do centrinho velho.

Mas estou dizendo isso para ressaltar que os Estados Unidos, além dos hotéis de primeira linha, de cadeia ou não, têm inúmeras cadeias de segunda e terceira linha bastante confiáveis, por preços muito razoáveis. Tenho em mente as “Inns”, as “Suites”, os motéis (que lá são hotéis populares), como La Quinta Inn, Comfort Suite, Motel 6, Motel 8, etc. Nesses hotéis você tem todo conforto, por um preço razoabilíssimo. Só para dar um exemplo, fiquei recentemente em Orlando, com a Sueli e o meu neto Gabriel, nas Homewood Suites, pertencentes à cadeia Hilton. Por 75 Dólares (não Euros) por dia tínhamos um quarto enorme com duas camas de casal, uma sala bastante grande, uma cozinha com fogão, forno micro-ondas, geladeira de tamanho normal, mesa, sofás, televisão, etc. – mais café da manhã e o que eles chamam de Happy Hour à noitinha (que é mais um lanche que substitui o jantar – há comida bastante e variada, só não havendo bebidas alcoólicas). E, para culminar o pacote, havia acesso gratuito e de banda larga (wireless, wi-fi) à Internet. Isso você (tanto quanto eu saiba) não acha na Europa.

E o último assunto traz-me à outra questão: a Internet. Nos hotéis de Praga e Viena havia acesso wireless (wi-fi) no quarto – proporcionado pela companhia de telefonia celular T-Mobile, vinculada à Deutsche Telekom (e existente também nos Estados Unidos: meu celular americano é da T-Mobile). Mas o acesso no quarto era pago – e o preço era salgado: 9 Euros por uma hora, 15 Euros por três horas, e 18 Euros por 24 horas. Na recepção, porém, havia computadores com acesso gratuito à Internet. Na verdade, computadores em Praga, onde havia dois; em Viena, havia só um computador. (Em Praga eles não funcionavam direito, mas em Viena, era perfeito).

Problema adicional: fiz duas subscrições à Internet a partir do quarto, uma de uma hora, outra de três horas. A primeira funcionou. A segunda, quando havia usado por cerca de 70 minutos, abortou e não tive como fazê-la funcionar de novo. No dia seguinte falei com o rapaz da recepção e ele disse que eles não tinham nada que ver com isso, porque o serviço era da T-Mobile: deu-me o telefone e o e-mail da T-Mobile para eu reclamar. Vale a pena reclamar por 6 Euros??? Posteriormente vim a descobrir que o serviço da T-Mobile, se ele detecta que você ficou inativo por 15 minutos, ele se desliga. Por quê, não sei: se você está pagando, pode ficar inativo que o tempo passa… O problema era mais grave, porém, porque eu não estava realmente inativo: estava baixando mensagens da Internet para o Outlook. Ou seja, eu não estava navegando pela Web, mas meu computador estava fazendo download de mensagens. Aparentemente a T-Mobile européia acha que você está inativo se não está entrando e saindo de sites. Descobri, depois, que fazer downloads de arquivos conta como inatividade, se você não estiver ao mesmo tempo navegando pela Web. Absurdo.

A situação piorou aqui em Salzburg. Aqui não há acesso à Internet nos quartos – nem mesmo pago. Há, porém, no lobby do hotel, pelos mesmos preços. Problema: hoje cedo tentei, no lobby, às 7 da manhã, fazer acesso, e o servidor da T-Mobile reportava um erro de software. Não consegui.

Falei com a moça da recepção. Ela disse que não entendia nada disso – mas que eles tinham um computador disponível no “Business Center”, ao preço de 6 Euros por 20 minutos… É isso. Vocês leram certo: 6 Euros por 20 minutos, ou 18 Euros por hora. Ou seja, aqui em Salzburg, suprimiram os computadores com acesso gratuito à Internet na recepção e, em substituição, disponibilizaram um – um solitário computador – ao preço de 18 Euros por hora.

Surpresa: saindo do hotel, e virando a esquina, há o que chamamos aí no Brasil de LAN House, e que aqui é chamado de Internet Café (embora não tenha café) que dá excelente acesso à Internet por 2 Euros por hora. Se uma portinha simples consegue fazer isso, por que uma rede internacional de hotéis não consegue?

Comparando com os Estados Unidos, todas as grandes redes de hotel (Hilton, Sheraton, Marriott) oferecem acesso por cerca de 10 dólares por dia – ou seja, eles combram por um dia inteiro o preço que aqui na Europa se cobra, nos hotéis, por uma hora. Os hotéis de segunda linha, em geral não cobram absolutamente nada: a decisão é parte de sua estratégia de procurar roubar clientes das grandes cadeias de hotel, oferecendo-lhes serviços gratuitos pelos quais elas cobram. (Outro serviço mais e mais oferecido é café da manhã dito continental – sem ovo, bacon, etc. O café da manhã é cobrado nas grandes cadeias – recentemente paguei, na Austrália, 36 dólares por um café da manhã, tipo bufê – sortidíssimo, mas caríssimo.

Terceira questão a levantar, decorrente do que acabei de dizer. Aqui na Europa, todos os hotéis da rede Accor cobram por café da manhã: de 7 a 16 Euros por pessoa.

Tudo isso anda girando pela minha cabeça – especialmente a questão da Internet. A diferença entre as atitudes das pessoas para com computadores e a Internet é chocante. Nos Estados Unidos, na sala de espera de um aeroporto ou na estação de trem, você vê um monte de gente com os computadores ligados, assentados sobre as pernas, trabalhando – geralmente conectados à Internet por wi-fi ou até mesmo através de seus telefones celulares. Aqui, não… Nos Estados Unidos, você, hoje, não encontra um hotel, nem mesmo o mais chinfrim motel, sem acesso banda larga à Internet nos quartos. Aqui você tem um Mercure, cobrando 144 Euros por dia, em Salzburg, sem acesso à Internet nos quartos.

Está  certo que a Internet foi inventada pelos Estados Unidos – que são o país mais desenvolvido tecnologicamente do mundo. Mas a Europa, se quer competir para se tornar o bloco econômico e político mais importante do planeta, não pode se dar ao luxo de capengar na sua infraestrutura tecnológica – e, em parte por isso, acredito, cobrar esses preços absurdos pelo acesso à Internet em seus hotéis. Felizmente, há os Internets Cafés – onde a gente encontra homens de terno trabalhando… que deveria estar trabalhando em seus quartos de hotéis ou, quem sabe, em algum outro lugar que não lhes porporciona acesso decente e barato à Internet.

Devo falar sobre televisão? A televisão a que tenho acesso nos hotéis aqui é um lixo. Talvez pela competição com os Estados Unidos, nem mesmo a CNN Internacional oferecem regularmente. Só uns programas de auditório e entrevistas idiotas, ou uns filmes de terceira linha europeus. A televisão americana não é modelo a se invocar, mas nos hotéis você tem uma meia centena de canais, dentre os quais uns três ou quatro de notícias (CNN, Fox News, MSNBC, Bloomsberg), vários de filmes, outros de esportes, etc. Não é por falta de alternativa que você não assiste a nada.

Há uma coisa em que a Europa em geral sobressai: transporte público. Em Praga não usei, mas em Viena usei bastante o metrô. Em Salzburg não há metrô, mas há ônibus por todo lado. E Paris têm um dos melhores metrôs do mundo – certamente em abragência. As grandes cidades americanas têm metrôs, mas eles não têm a mesma cobertura que o metrô de Paris.

Enfim, levanto uma série de questões – mais à guisa de desabafo…

Em Salzburg, 6 de outubro de 2006

[Fim da transcrição]

A fauna interessante que habita as salas VIPs de aeroportos

Estou aqui na sala VIP da British Airways, em London Heathrow. Estou cansado de 13 horas de vôo, de Kuala Lumpur até aqui, e mais casado ainda de pensar que terei mais 12 horas de vôo daqui até São Paulo — onde chegarei perto das 22h e terei ainda de ir até Campinas.
 
Dada a canseira, não estou com disposição de trabalhar nuns textos sérios que me esperam… Prefiro ficar aqui observando as pessoas e escrevendo coisa light.
 
É estranha a fauna que habita as salas VIPs dos aeroportos.
 
Em frente de mim há um senhor careca e barbudo, parecido com Alexander Solzhenitsyn, usando uma camisa de veludo vermelha, que olha para a tela do seu notebook Toshiba dele há mais de 20 minutos, sem digitar nada… Segura o queixo com as mãos, parece que está meditando, mas não escreve nada, não muda de tela… Tem um mouse roxo, horrível. Acho que  o mouse é tão feio que ele não se dispõe a utilizá-lo… O mouse se assenta sobre o seu joelho, abandonado…
 
Ao lado dele, em contraste, há um sujeito, com uma camisa marca Boss, cor-de-rosa, que digita feita um adoidado. O jeito com que ele digita me faz lembrar do meu neto Gabriel, que, quando fomos aos Estados Unidos, há dois anos, ficava nas Salas VIPs da United, digitando adoidado no laptop de brinquedo dele, fazendo de conta que estava escrevendo e-mails para a sua mãe, imitando as pessoas que ele observava… Antes de sairmos de casa aqui no Brasil ele me perguntou: "Vô, você vai levar o seu notebook?" Diante de minha resposta afirmativa, disse: "Então também vou levar o meu!" E levou. E usou, nas Salas VIP da United, mais do que eu. Começando já em São Paulo. 
 
Mais para trás dos dois, que se sentam bem na minha frente, um senhor meio gordo, de cabelos grisalhos, tem as mãos juntadas no peito e também parece meditar, tal qual um monge budista — mas na realidade dorme, como se fosse o meu amigo Ubiratan d’Ambrósio — com o qual até mesmo parece, agora que ocorreu lembrar do Bira. A única coisa que o diferencia de um monge budista é a postura. Os monges budistas se sentam eretos, não escarrapachados na poltrona como ele.  
 
Um moça loira (oxigenada? parece) brinca com o telefone celular dela. Já mudou de lugar várias vezes, tentando evitar o sol matinal de inverno que entra pelas enormes janelas da sala. O que será que ela tem de tão divertido na tela de um celular comum? Ou será que o celular dela é incomum? Não creio que seja. É incrível como adultos brincam desavergonhadamente em público com seus celulares. Jogam jogos. Mandam torpedos. Ou simplesmente ficam arranjando as coisas, mudando de ringtone, de papel de parede, de descanso de tela… Ou, então, vendo – ou tirando – fotos.
 
Mais do lado um senhor, com seus 45 anos, lê um pocket book. Não consigo daqui ver o título do livro, cuja capa é dourada. Parece estar realmente interessado na leitura. Não vê nada do que se passa ao seu lado, não come, não toma café. Outro senhor, ao lado dele, mastiga decuidadamente e olha para frente, aparentemente sem ver nada. Uma gordinha passa com uma xícara de chá e um pratinho cheio de guloseimas. Não é à toa que é gordinha… Que Deus a conserve. Não vai exigir muito esforço da parte dele: ela coopera bem. Um cara altão, loiro, vai pegar um pouco de água, com um andar decidido, como se pegar um copo de água fosse a coisa mais importante que alguém pudesse fazer na face da terra.
 
Por falar em copo de água, irrito-me, sobremaneira, com a nova mania de yuppie de carregar uma garrafinha de água para todo lugar e, a cada cinco ou dez minutos, dar um golinho… Parece que é inadmissível viajar sem a bendita garrafinha. Parece que se, não derem um golinho idiota de água a cada 5 ou 10 minutos, vão morrer desidratados… Queria saber quem foi o gênio de marketing que inventou essa moda. Deve estar ganhando milhões dos fabricantes de água. (E lá água tem fabricante??? Ou será que é só engarrafador?). Parece que é politicamente incorreto não carregar a maldita garrafinha e não tomar o bendito golinho de água. Arre!!!
 
Uma senhora oriental passa pelas mesas a cada dez minutos, mais ou menos, pegando os copos, as xícaras, os pratos que estão vazios… ou, então, os que foram abandonas meio cheios, ou até mesmo inteiramente cheios. Quando as pessoas não pagam pelo que comem, em geral pegam bem mais do que pretendem comer — e deixam resto. As churrascarias de rodízio já buscaram se precaver contra isso. Já vi em várias que, se você deixar um monte de carne no prato, ela será pesada e o seu valor será cobrado: o que você come, está incluído no preço básico; o que você pega e não come, você paga extra. Bem bolado. Só a plaquinha já funciona como condicionador do comportamento: não é preciso nem realmente cobrar.  
 
A loira se levantou. É alta, está com um vestido preto, e, nas costas do vestido, há um monte de cabelo loiro grudado. Parece que o cabelo dela está caindo — quem sabe é de tanto tingir. Ela foi até o rack de revistas e pegou uma revista chamada Hello!, que, pela capa, se parece muito com a Caras. Faz sentido.
 
Ouço, sem ver, uma criança que fala, sem parar, "miau, miau, miau" (ou será que, como os gatos anglofonos, ela está realmente dizendo "meow, meow, meow"???)… O gordo careca lá atrás nessa história que se cuide: esse gato ainda vai acabar comendo o mouse dele, se ele não cuidar… 
 
Uma senhora loira, que deve ter uns 50 anos, mas usa um cabelo de quem quer parecer que tem 20, fala ao celular, numa poltrona que acabou de ocupar… Não consigo entender porque mulheres maduras fazem essas coisas ridículas para parecer mocinhas. As mocinhas, fazem de tudo para parecer mais velhas. E as meninas tentam parecer mocinhas… Tenho para mim que as pessoas são muito mais bonitas assumindo a idade que têm do que tentando se fazer de mais novas, ou de mais velhas — afinal de contas, não enganam ninguém, em regra, não é mesmo? Ou você já pensou que uma coroa de 50 ou 60 ou é uma moçoila de 20 ou 25? Nem a Suzana Vieira é capaz de tamanho feito.
 
Vou parar, antes de falar (mais) besteira… O bom liberal tolera até aquilo que lhe parece ridículo e idiota. Mas não é obrigado a ficar calado, sem criticar… Right?
 
Em Londres, 10 de dezembro de 2006

Segurança nos aeroportos dos EUA, da Inglaterra e do resto do mundo

É chocante a diferença nos procedimentos de segurança dos Estados Unidos e da Inglaterra (aqui da Inglaterra falo apenas de Heathrow, que é o único que conheço) e os do resto do mundo.
 
Tomemos o Brasil como exemplo. No caso de companhias americanas, como a United, fazem uma série de perguntas pra você, há sorteios aleatórios de passageiros que são submetidos a vistoria das malas e revista pessoal, etc. Fui para a Malásia, desta vez, via Munique, num vôo da Lufthansa. Surpreendente a diferença. Nada de perguntas, tudo tranqüilo.
 
No aeroporto de Guarulhos, não é preciso tirar os notebooks das maletas para passar pelo raio X, não é preciso tirar os sapatos, nem o paletó ou casaco. Nos Estados Unidos e aqui em Londres, é preciso retirar os notebooks das maletas, tirar os sapatos, tirar o paletó ou o casaco, e, ainda assim, um monte de gente acaba tendo de se submeter a revista pessoal e a vistorial manual das malas (porque o raio X pode deixar passar alguma coisa).
 
Acho curioso isso, porque os Estados Unidos e a Inglaterra deveriam estar preocupados mais com quem chega do que com quem sai… Em geral os terroristas acabam entrando em aviões em outros países para tomarem controle deles quando estão chegando nos Estados Unidos ou na Inglaterra.
 
Ao embarcar, ontem à noite, em Kuala Lumpur, fui, porém, surpreendido duas vezes.
 
Na fila para passar na Imigração vi que o rapaz, na minha frente, tinha um passaporte brasileiro. Tentei falar com ele, e o cara não entendia uma palavra de português. Falei em inglês e perguntei a ele se ele não falava português. Ele respondeu dizendo que não, que era apenas neto de brasileiro. Achei meio estranho, mas ficou por isso.
 
Ao passar pela segurança, no portão de embarque, o guarda chamou outro e lhe passou meu passaporte. Este me chamou do lado e explicou que passaportes brasileiros andam sendo vendidos na Malásia por sete mil dólares e, depois, são falsificados, com nome e fotografia de outra pessoa. Pediu licença, muito delicadamente, e verificou cada página de meu passaporte com uma lupa. Passei no teste e ele me devolveu o passaporte.
 
Mas, imediatamente, me lembrei do fulano que havia visto com passaporte brasileiro mas que não falava nem entendia uma palavra de português… Mas ele não estava mais por ali. Pode ser que seu avô fosse mesmo brasileiro. Mas é uma história meio implausível.
 
Em Londres, 10 de dezembro de 2006.

Portugal e o Reino Unido

Estou em Londres, no aeroporto de Heathrow — por algumas horas.  

Há algumas coisas irônicas na vida… Eu viajo bastante. Sempre viajei muito, mas ultimamente tenho exagerado. Pelos meus cálculos, conheço mais de 45 países. Por cinco anos seguidos alcanço a categoria de passageiro Elite 1K da United, que me dá uma série de privilégios e mordomias.

Sou descendente de portugueses, tanto do lado paterno como do materno. E, durante o meu doutorado, me especializei no Iluminismo Britânico, estudando o Deísmo e filósofos como David Hume, sobre o qual acabei escrevendo minha tese de doutoramento.

No entanto, apesar das minhas tantas viagens, até este ano nunca havia colocado os pés em Portugal e no Reino Unido. Estive em Portugal durante 16 dias em Novembro. Hoje, estou aqui na Inglaterra – e, mesmo assim, apenas de passagem, no aeroporto de Heathrow. Mas coloquei os pés em solo britânico, por algumas horas (serão mais ou menos sete: cheguei às 5 da manhã e sairei ao meio-dia, com destino a São Paulo).

Sendo descendente de portugueses e tendo me concentrado na filosofia inglesa e escocesa do século XVIII, era-se de esperar que eu tivesse visitado Portugal e o Reino Unido antes dos meus vetustos 63 anos. No entanto, nunca antes deu certo. Este ano deu certo em relação a Portugal. Em relação ao Reino Unido, ainda realmente não deu — estou apenas no aeroporto.  

A ironia é que, nos últimos anos, tenho estado com freqüência em países da Ásia, continente que pouca coisa tinha que ver comigo. De 2004 para cá estive em Taiwan (três vezes, a quarta será em Maio de 2007), Hong Kong (duas vezes), Coréia do Sul, agora Malásia. Em Fevereiro de 2007 deverei ir à Cambódia, e, tudo dando certo, darei um pulo ao Vietnam, que, por razões históricas e biográficas, gostaria de conhecer. Antes, em 1984, estive na Coréia do Sul, em Hong Kong, na China, na Tailândia, na Índia… Por que é que os volteios da vida me permitiram visitar esses países, alguns mais de uma vez, antes de eu ficar conhecendo a terra de meus antepassados e antes de colocar os pés (por poucas horas) naqueles que são os meus antepassados intelectuais, ao qual devo muito de minha formação intelectual?

É difícil entender os vais-e-vens da vida.

Em Londres, 10 de dezembro de 2006