A discussão dos ministros do STF sobre o caso Estadão vs Fernando Sarney

Material transcrito do site Consultor Jurídico (http://www.conjur.com.br/2009-dez-10/stf-rejeita-acao-jornal-estado-paulo-censura-mantida), para complementar a discussão contida em meu post “A censura do Estadão”, de ontem (13/12/2009).

———-

STF rejeita ação de Estadão e censura continua
Por Alessandro Cristo

O jornal O Estado de S. Paulo continuará proibido de falar no nome do filho do senador José Sarney, Fernando Sarney. A decisão é do Plenário do Supremo Tribunal Federal, que rejeitou, por maioria, a reclamação apresentada pelo jornal na tentativa de derrubar a censura imposta pela Justiça do Distrito Federal. Os ministros consideraram que o instrumento usado pelo Estadão para contestar a proibição — uma Reclamação por descumprimento de decisão do STF —, não era adequado. Eles não conheceram o pedido, sem entrar no mérito da correção ou não da decisão do Tribunal de Justiça.

A votação terminou em seis votos a três. O relator do processo, ministro Cezar Peluso, considerou que a Arguição por Descumprimento de Preceito Fundamental 130, na qual o Supremo julgou a Lei de Imprensa inconstitucional, não definiu o que seria censura prévia, alegada pelo jornal. O argumento do Estadão foi de que estaria sendo censurado pela Justiça, fato que contraria a decisão do STF no julgamento da ADPF, que considerou a liberdade de imprensa impassível de repressão.

Com Peluso, votaram os ministros Dias Toffoli, Ricardo Lewandowski, Eros Grau, Ellen Gracie e Gilmar Mendes. Toffoli apontou que, caso a corte admitisse a Reclamação, todos os temas ligados à liberdade de imprensa passariam a ter de ser vinculados ao julgamento da ADPF, que não encerrou a discussão.

Quem abriu a divergência foi o ministro Carlos Britto, relator da ADPF 130. Segundo ele, cabia a Reclamação porque os magistrados de Brasília teriam usado a Lei 5.250/67, declarada inconstitucional pelo Supremo, de forma velada. “A única base legal que dava poder de censura prévia ao juiz era a Lei de Imprensa, mas nenhum juiz vai admitir que a usou”, disse. Britto admitiu o recurso e votou pela concessão da medida cautelar pedida pelo jornal, sendo seguido pela ministra Cármen Lúcia.

O ministro Celso de Mello foi mais além, e criticou os magistrados que aprovaram a proibição. “A decisão é arbitrária e discriminatória. É lamentável ter de dizer isso de alguns magistrados. As decisões do TJ transgrediram os limites da ADPF 130”, disse.

O julgamento abordou ainda resquícios deixados pelo acórdão relatado por Carlos Britto em relação à Lei de Imprensa, tema em que os ministros parecem ainda não ter se entendido. “Todos aqui concordamos com a liberdade de imprensa, salvo o ministro Marco Aurélio, que votou pela improcedência da ação”, disse o ministro Cezar Peluso em relação ao julgamento da ADPF. “Não sou contrário à liberdade de imprensa, que é direito público do cidadão. A premissa do meu voto foi outra”, interrompeu Marco Aurélio.

Gilmar Mendes e Carlos Britto também discordaram quanto ao veredicto em relação ao julgamento da ADPF, cujo acórdão foi publicado em novembro. “Há posições do ministro Carlos Britto que não mereceram o apoio dos outros ministros, como a impossibilidade de haver lei regulando a imprensa”, disse o presidente da corte. “Mas eu não afirmei isso”, protestou Britto.

Adiantando seu voto, já que, pela ordem, seria o último a se manifestar, Mendes afirmou que a questão da censura ainda precisa ser debatida. Direitos fundamentais previstos na Constituição, como o direito à honra, de acordo com o ministro, devem ser protegidos contra “lesão ou ameaça de lesão”, o que, em seu entendimento, significa manter barreiras antes mesmo que a publicação ofenda o cidadão, e não somente depois que o direito já tiver sido transgredido. “Se são direitos invioláveis, não podem ser violados”. Britto devolveu: “O artigo 5º da Constituição não fala em ameaça de lesão. A Constituição não autoriza censura prévia”.

Para Mendes, a liberdade de imprensa é sobrevalorizada, por ter sido um direito conquistado de forma marcante na redemocratização. “O direito de imprensa suporta limitações”, afirmou. Segundo ele, se tivesse havido restrição prévia no conhecido caso da Escola Base — em que a imprensa deu ampla divulgação à acusação feita pela polícia de que os diretores da escola abusaram sexualmente das crianças, o que acabou sendo desmentido pela Justiça —, os danos à imagem dos envolvidos poderiam ter sido evitados. Britto refutou o argumento. “Não é pelo temor do abuso que se vai proibir o uso”, defendeu.

Engrossando a linha dos que rejeitavam a ação, Eros Grau se manifestou afirmando que, havendo lei, não se pode falar em censura, “como disse um pensador do século XIX”. A frase foi repetida duas vezes, até que o ministro Carlos Britto, regente do tema “liberdade de imprensa” na corte, cedeu à curiosidade. “Quem foi o pensador?”, questionou. “Carlos Marx”, disse Eros, talvez atrapalhado pela portenta barba. “Carlos Marques?”, espantou-se Britto. "Sim, Karl Marx", esclareceu Eros Grau.

A decisão do TJ-DF, segundo o voto de Eros Grau, se baseou em lei e, por isso, não foi uma censura. “Quero discutir isso, mas não por meio da Reclamação, que pode se tornar também um instrumento repressor”, disse. Em seguida, ao ouvir o voto do ministro Celso de Mello, que novamente defendeu a liberdade absoluta da imprensa e discorreu sobre a história das restrições à imprensa no país, Eros Grau afirmou sentir-se “oprimido”. “Eu paguei um preço alto por causa da censura, mas não é isso que votamos aqui”, afirmou. Mello ressalvou: “Não critico nenhum ministro desta corte, apenas os magistrados que transformam o sistema em mecanismo inaceitável de censura e inibição das comunicações. O poder geral de cautela é o novo nome da censura no país”.

Reclamação 9.428

———-

Transcrito em São Paulo, 14 de Dezembro de 2009

Gratidão

A mensagem abaixo me foi enviada pela minha irmã mais nova, Eliane. Achei-a, mais do que linda, muito profunda. Transcrevo-a aqui. Sei que ela não vai objetar.

———-

Gratidão

Agradeço a DEUS porque eu não escolhi, mas fui escolhida.

Agradeço pela vida do João. O sentimento que nos une há 32 anos, não cabe em palavras!

Agradeço pela vida e pela saúde perfeita dos meus filhos Vitor e Diogo, herança de Deus em minha vida.

Agradeço pelos meus pais, pelo amor, cuidado, ensinamentos, sacrifícios, por tudo que eles representaram em minha vida, principalmente pela herança que me deixaram: a Fé e o Amor!

Agradeço pela vida dos meus irmãos: Eduardo, Flavio e Priscila.

Agradeço pela vida de todos meus  queridos que já voltaram para o nosso verdadeiro lar e venceram a morte.

Agradeço por ter perdoado a todos que me machucaram, e peço perdão a quem eu possa ter machucado.

Agradeço pelos caminhos que percorri, as necessidades que passei,anos de dificuldades e muito trabalho, que tanto me fizeram chorar, mas consegui superar com a ajuda de algumas poucas pessoas, que agradeço eternamente!

Agradeço porque tenho aprendido a respeitar os sagrados sentimentos das outras pessoas, apesar de muitas vezes não ter sido respeitada.

Agradeço a tantas pessoas que esperei amor e carinho, e não recebi, mas aprendi que não se pode dar aquilo que não se tem. Mas também agradeço por cada pessoa que passou na minha vida, e outras que ainda estão presentes, e me doaram amor.

Agradeço por todas as situações que eu não tive controle e sempre  considerei como perdas, na realidade me fizeram mais forte, e me ajudaram a resgatar  outros valores, e assim  recebi muito mais do que me foi tirado.

Agradeço por tudo que vivi e aprendi até agora. Algumas coisas bem difíceis, mas que me ensinaram o verdadeiro sentido da liberdade.

Hoje me sinto livre!

Livre das ilusões, dores, lágrimas, mentiras, tristeza, erros, culpas, hoje enfim estou liberta!

Agradeço por essa liberdade, e por ter me tornado quem eu sou.

Agradeço por querer me tornar uma pessoa cada vez melhor, para quando eu for embora, possa ir em paz e deixar um caminho de luz!

Agradeço por poder agradecer!

———-

Ane, obrigado pela mensagem.

Em São Paulo, 14 de Dezembro de 2009

The need to rest – really rest!

Message I sent to a friend of mine, who works like crazy, and now is feeling unwell, with pain all over… Lack of real rest is charging its price.

“I am sorry to say what I am going to say…

To go to the gym after (or during) work is not to rest…

To work for the community on weekends is not to rest…

To go to Disneyland on your vacation is not to rest…

Even machines need time down. Really down, inactive (not doing something else).

Much more we, complicated, sophisticated and delicate organisms that we are…

Believe me. I know.

Buddhists also know… “

São Paulo, on December 14th, 2009

Natal e Ano Novo

É apropriado que o Natal esteja próximo do Ano Novo. Uma semana apenas separa as duas ocasiões no calendário cristão ocidental.

A razão porque é apropriado que as duas festas estejam quase juntas é que ambas têm que ver com nascimento: o nascimento de Jesus, no dia 25 de Dezembro, o nascimento de um novo ano, no dia 1º de Janeiro. Nascimento é começo, é início, é princípio…

Gosto das duas festas assim juntinhas, porque na ocasião celebramos nossos recomeços. Não é por outra razão que as pessoas nessa época fazem resoluções que decidem cumprir a partir do ano novo. Ano novo, vida nova.

Nossa vida é uma sucessão de recomeços. A primeira escola, uma nova escola, o começo da vida pós-escolar. O primeiro emprego, um novo emprego, o começo da vida na aposentadoria. O primeiro amor. Um novo amor. O primeiro casamento. Um novo casamento. O primeiro filho. Um novo filho.

Recomeços são sinais de que somos seres em construção, de que não estamos acabados, de que ainda não chegamos ao fim, de que acreditamos que temos ainda vida para viver… E de que somos arquitetos e construtores de nós mesmos. E dessa tarefa devemos contas em primeiro lugar a nós mesmos. Talvez apenas a nós mesmos.

E a morte: o fim de tudo ou ainda outro recomeço?

A motivação maior por trás das crenças na imortalidade da alma, na transmigração de almas (reincarnação), na ressurreição do corpo está em nossa inconformidade ou pelo menos relutância em aceitar que a morte é o fim.

Neste Natal e Ano Novo desejo a você um bom recomeço. Bons recomeços, quem sabe, assim no plural… E que os recomeços façam você feliz – ou ainda mais feliz.

Em São Paulo, 14 de Dezembro de 2009

A censura do Estadão

O jornal O Estado de S. Paulo está proibido de publicar notícias acerca da investigação policial de Fernando Sarney, filho do Senador José Sarney, que está sendo investigado pela Polícia Federal.

Resumo do caso apresentado no site Consultor Jurídico (vide http://www.conjur.com.br/2009-dez-11/leia-votos-peluso-toffoli-mantiveram-censura-estadao, consultado hoje, 13/12/2009):

“O jornal O Estado de S. Paulo está há mais de quatro meses impedido de publicar notícias sobre os desdobramentos da Operação Boi Barrica, da Polícia Federal. A investigação, sob segredo de Justiça, envolve o empresário e filho do presidente do Senado, Fernando Sarney. Ele pediu ao Judiciário liminar para que o jornal fosse impedido de continuar a publicar informações sobre as investigações, em que foi indiciado por lavagem de dinheiro, tráfico de influência, formação de quadrilha e falsidade ideológica. O desembargador Dácio Vieira, do Tribunal de Justiça do Distrito Federal, aceitou o pedido de liminar apresentado pelo empresário. O jornal tentou recorrer no próprio TJ, que manteve a censura contra o jornal”.

Na época da ditadura militar, os jornais (e outros meios de comunicação de massa, como as emissoras de rádio e de televisão) foram submetidos à censura prévia. Letristas de música tinham de fazer o mesmo. O Departamento de Censura Federal aprovava o que iria se publicar, transmitir ou gravar. Quando algo era censurado, o meio de comunicação sabia o que havia sido censurado – e, às vezes, até o porquê. A censura, nesse caso, era praticada sob esse nome (sem subterfúgios e eufemismos) pelo Poder Executivo.

O inusitado da proibição que pesa, há 135 dias, sobre o Estadão, é que o jornal está proibido de publicar notícias acerca da investigação que a Polícia Federal faz sobre Fernando Sarney sem que o Poder que proíbe conheça o conteúdo das notícias.

O Poder que proíbe, no caso, é o Poder Judiciário. A proibição original foi feita pelo Tribunal de Justiça do Distrito Federal – mas ela foi mantida, numa tecnicalidade (a decisão majoritária se calcou em falha no ritual processualístico e não no mérito da questão), pelo Supremo Tribunal Federal, no último dia 10/12/2009.

Vou discutir aqui apenas uma questão: Isso é censura, semelhante à que havia na ditadura militar (ou mesmo pior)?

Em outro post discutirei a  base invocada pela decisão judicial.

Assim, pergunto: é censura o que ora faz o Poder Judicial em relação ao Estadão?

Não tenho dúvida alguma de que é censura.

Concordo, em parte, com Jânio de Freitas, quando diz, na edição de 13/12 (hoje) da Folha de S. Paulo, que “proibição de publicar é censura”. E se a proibição emana do Poder Judicial, temos, aqui, um caso de Censura Judicial – com todas as letras.

Uma proibição feita pelo Poder Público, dirigida a um veículo de comunicação, impedindo-o de publicar notícia ou matéria, qualquer que seja, não deixa de ser censura por ser amparada em alguma lei (ou seja, por ser amparada por decisão do Poder Legislativo) ou por ser emitida pelo Poder Executivo ou mesmo pelo Poder Judiciário (como no caso).

Parêntese. Concordo apenas em parte com Jânio de Freitas porque acredito que apenas o poder público pode censurar. Se o editor de O Estado de S. Paulo, respaldado pelos proprietários do jornal, houvesse por bem proibir que o jornal fizesse qualquer referência a determinado fato, assunto ou pessoa, isso não seria censura, no meu entender. Sendo uma instituição privada, que tem proprietários e tem, além de interesses, posicionamento político, o Estadão tem todo o direito de decidir o que publica e o que não publica. Essa responsabilidade editorial é dele e não se trata de censura ou auto-censura. The New York Times tem como moto: “All the news that is fit to print”. Perfeito. O Times tem todo direito de tomar essa decisão para si próprio – e de manter a decisão sobre o que é “fit to print” e o que não é. Não é o Executivo nem o Legislativo nem o Judiciário dos Estados Unidos que decide isso. A decisão de proteger a liberdade de imprensa nos Estados Unidos, como aqui, está na Constituição do país. Fim do parêntese.

Assim, quando o Poder Público proíbe a publicação de uma notícia ou matéria ainda desconhecida, qualquer que seja o pretexto, e qualquer que seja o poder envolvido, é censura.

Na verdade, acho a censura atual pior, em sua essência (embora não em seu escopo e âmbito), do que a censura do governo militar, porque, além de prévia (como de resto é qualquer censura), é censura a qualquer coisa que se possa publicar acerca da investigação policial de Fernando Sarney, irrespectivamente de seu conteúdo ou de seu teor.

A Constituição Federal de 1988 estabelece, de forma plena, geral e irrestrita, o princípio da liberdade de expressão – sem prever exceções ou meios termos (como bem assinala o Editorial de 12/12 da Folha.

Em seu Artigo 5º, Inciso IX, a Constituição Federal assegura:

É livre a expressão da atividade intelectual, artística, científica e de comunicação, independentemente de censura ou licença [ênfase acrescentada]

Aquilo que o Poder Judiciário ora institui é censura. Da pior espécie. Ou vejamos. A censura do Estadão, como dissemos, é indiscriminada. Qualquer notícia sobre a investigação policial de Fernando Sarney, independemente de seu teor, está abrangida pela proibição. Por absurdo, se se desejar controlar e reduzir o escopo e o âmbito dessa determinação, cairemos na censura da ditadura: a discussão, pelo editor do jornal, com o poder censor, ou seus prepostos, da pauta do jornal e do teor das notícias… Conclusão: para chegar ao nível da censura existente na ditadura, o nível de censura hoje praticado precisa ser reduzido em escopo e âmbito… É o cúmulo do absurdo num país que se pretende democrático, nos termos da Constituição.

A Constituição diz que não há meio termo. Pela Constituição, a expressão da atividade de comunicação é livre e independe de censura ou licença. Qualquer impedimento ou restrição dessa atividade, é censura.

Concordo com o Editorial de 12/12 da Folha de S. Paulo, já mencionado:

“A plena liberdade de imprensa não equivale, cumpre ressaltar, à irresponsabilidade e à impunidade dos órgãos de comunicação. Preveem-se sanções legais a todo procedimento
que implique invasão descabida da privacidade, calúnia, injúria ou difamação. Há uma diferença essencial, por isso mesmo, entre censura prévia e punição aos delitos de imprensa. A censura pressupõe prejulgamento: determinada instância do Estado se considera autorizada a decidir aquilo que os cidadãos podem escrever, dizer, ler ou ouvir. Impõe-se a tutela sobre o conjunto da sociedade, e não mais a correção de ilegalidades eventualmente cometidas.”

E concordo, também, com o que diz o Diretor de Conteúdo do Grupo Estado, jornalista Ricardo Gandour, em observação relatada também pela Folha, em sua edição de 11/12:

"Nós entendemos que a liberdade de imprensa é um direito absoluto. Os veículos devem ser acionados pelo que publicam, e não impedidos de publicar" (ênfases acrescentadas).

E concordo, também, e para finalizar esta seção, com o que disse o advogado Luís Francisco Carvalho Filho, durante uma Conferência Judicial sobre Liberdade de Imprensa no Brasil, em 2003:

“Não vejo autoridade em ninguém neste país para proibir, antecipadamente, a publicação de qualquer notícia. Sou favorável à desobediência dessas decisões”.

Acrescentou:

"O Poder Judiciário não tem que se meter na liberdade de imprensa”.

A opinião de Carvalho Filho (que advoga para a Folha de S. Paulo), está citada no site Consultor Jurídico (em matérias de 2003 e de 2009) e foi repetida no Blog de Frederico Vasconcellos – ambos os sites consultados hoje, 13/12/2009. Vide esses dois sites:

http://www.conjur.com.br/2003-set-01/advogado_defende_imprensa_rechace_censura_previa

http://www.conjur.com.br/2009-dez-12/postura-censura-judicial-foi-discutida-lembra-jornalista 

http://blogdofred.folha.blog.uol.com.br/arch2009-12-01_2009-12-31.html 

Assim, o Poder Judiciário está impedido de proibir a veiculação de notícias, não porque a imprensa seja a imprensa ou porque a imprensa esteja situada fora da lei – mas porque a Constituição Federal o proíbe.

Em São Paulo, 13 de Dezembro de 2009.

Computadores e Educação: Bom artigo do Gilberto Dimenstein

Bom artigo do Gilberto Dimenstein na Folha de hoje: http://www1.folha.uol.com.br/fsp/cotidian/ff1312200922.htm

———-

Folha de S. Paulo
13 de Dezembro de 2009

GILBERTO DIMENSTEIN

A invenção do carro puxado a cavalo


Não é à toa que o computador em sala de aula não está relacionado à melhoria do desempenho dos alunos


IMAGINE um carro puxado a cavalo, como se fosse uma charrete. Se você visse essa cena na rua, logo pensaria que se trata de uma brincadeira, ainda mais se o inventor se apresentasse como um inovador. Mas é o que vem sendo feito com o dinheiro público, quando se investiga como são usados os computadores, revelando mais um daqueles típicos desperdícios nacionais -graves nas escolas privadas, mais trágicos nas redes públicas.

Todas as escolas públicas (para ser preciso, 98%) das principais capitais brasileiras têm computadores, quase todos conectados à internet. A imensa maioria dos professores (74%) usa o computador para apenas digitar e editar um texto. Não faria muita diferença se ainda tivessem apenas uma máquina de escrever, desaparecida há muito tempo das lojas, hoje disponível apenas nos antiquários.

Realizada pela Fundação Victor Civita, em parceria com Ibope e USP, essa pesquisa, divulgada na semana passada, é especialmente grave em comparação com os dados divulgados, na última sexta-feira, sobre os hábitos dos brasileiros diante da internet. Cada vez mais rapidamente, a escola vai ficando atrasada, correndo o risco de ser vista como uma peça de museu -assim como uma máquina de escrever.

Já escrevi aqui que o Brasil não está atento ao imenso potencial das lan houses, onde, de fato, o pobre tem acesso à internet. Um pequeno investimento poderia transformar esses locais em centros culturais e tecnológicos, com um custo muitíssimo menor do que colocar banda larga em cada casa.

O IBGE divulgou, na sexta-feira, que o brasileiro entra na internet dos seguintes locais: em casa (57%); nas lan houses (35%); e, em terceiro lugar, no trabalho (31%). Se formos contar apenas os jovens, a lan house está, em disparada, no primeiro lugar; e ainda mais em disparada se consideramos os jovens mais pobres.

Daí se pode estimar o que sente um jovem que, sabendo lidar com a internet, mergulhado nos sedutores jogos e fazendo contatos virtuais, chega à escola e se depara com um professor que usa (quando usa) o computador como uma máquina de escrever e mal consegue descobrir conteúdos na rede -e, portanto, não sabe como aplicá-los em sala de aula.

Por causa das redes de contatos, o jovem desenvolve não só a habilidade de comunicação virtual, mas a noção de construção de conhecimentos em colaboração -83% das pessoas, em 2008, usaram a internet para entrar em contato com outras pessoas. Em 2005, de novo segundo o IBGE, o principal motivo era aprender. Não havia ainda a prática do Orkut e MSN, até porque quase não havia banda larga.

Para quem acredita que os melhores lugares para aprender não são necessariamente apenas os que têm as melhores escolas, mas também aqueles onde se tem a chance de entrar em comunidades de aprendizagem, transformar espaços como lan houses significa também escolarizar a sociedade.

Daí se entende o extraordinário sucesso de uma experiência, nascida nos Estados Unidos, que se espalha pelo mundo e, agora, pelo Brasil: TED (Tecnologia, Entretenimento, Design). São encontros informais, nada a ver com a pompa acadêmica, em que gente inovadora, cada qual com direito a falar por apenas 15 minutos, é chamada para compartilhar suas ideias, com transmissão em tempo real.

O fundamento básico é o de que, na era da informação, é assim que se constrói conhecimento -é como se houvesse, em todos os lugares, uma sala de aula. Um projeto inovador no interior da Índia consegue, assim, chegar a todos os cantos. Um encontro desse projeto ocorreu, na quinta-feira passada, num pequeno teatro em São Paulo e buscava discutir capital humano e redes sociais estava lotado e silencioso.

Desprezar as possibilidades desses espaços, a começar de uma lan house, é tentar inventar um carro movido a cavalo e se sentir inovador. Não é à toa que, segundo dados oficiais, o computador em sala de aula não está relacionado à melhoria do desempenho dos alunos.

PS – A pesquisa da Fundação Victor Civita revela, entretanto, que nas escolas públicas em que o professor sabe usar as redes de comunicação, produzindo aulas mais interessantes, os resultados aparecem.

gdimen@uol.com.br

———-

Transcrito em São Paulo, 13 de Dezembro de 2009

A visão petista da Segunda Guerra

Transcrevo do artigo de Élio Gaspari na Folha de hoje (13/12/2009):

———-

A visão petista da Segunda Guerra

Há uma semana, o embaixador Samuel Pinheiro Guimarães, ministro de Assuntos Estratégicos, defendeu a reforma do Conselho de Segurança da ONU durante uma palestra no Instituto de Pesquisa de Relações Internacionais do Itamaraty. Defendeu a admissão, como membros permanentes, de Brasil, Índia, Alemanha e Japão. Ia tudo muito bem até que ele explicou a exclusão, em 1946, da Alemanha e do Japão do centro de decisões da ONU. Numa versão-companheira da Segunda Guerra Mundial, os dois países penaram "tantos anos de purgatório, de punição, por terem desafiado a liderança anglo-saxônica do mundo". (A repórter Claudia Antunes ouviu, anotou e noticiou.)

A menos que Nosso Guia indique outro caminho, a Alemanha e o Japão não desafiaram "a liderança anglo-saxônica". Eles invadiram seus vizinhos, montaram economias baseadas no trabalho escravo e máquinas de extermínio nunca antes vistas na história. Na conta da Alemanha havia cerca de 10 milhões de mortos em campos de extermínio. Na do Japão, 6 milhões de coreanos, chineses e filipinos.

E em 1945, depois da abertura dos campos de concentração da Europa e da Ásia, nem mesmo os precursores da defesa do nazismo e da Grande Esfera de Co-Prosperidade do Império Japonês falavam mais em desafio à "liderança anglo-saxônica".

Na dúvida, basta reler "Mein Kampf", de Adolf Hitler.

———-

Transcrito em São Paulo, 13 de Dezembro de 2009

O que ele quer é questionar

Matéria interessante no site do Estadão, seção Link/Notícias, com data de 29/11/2009, (Conferir em http://www.estadao.com.br/noticias/tecnologia+link,o-que-ele-quer-e-questionar,3219,0.shtm). Trata-se de uma matéria de Bruno Galo sobre Nicholas Carr. Vale a pena ler.

Para facilitar a leitura, eu a transcrevo sem seguida.

———-

Domingo, 29 de Novembro 2009, 19h08

O que ele quer é questionar

O Google está nos tornando estúpidos? Esta é uma das provocações deste pensador que nem Twitter usa

Bruno Galo

Nicholas Carr é um provocador. Um iconoclasta, para a revista inglesa The Economist. Articulado, convincente, preciso nos argumentos e competente na forma. Não raro é cético, por vezes brilhante, frequentemente polêmico. Enfim, um provocador lúcido e cativante. Duvida?

TI não importa e O Google está nos tornando estúpidos? são os mais famosos artigos deste jornalista americano. Ambos, cada um a seu tempo, foram assunto obrigatório da imprensa mundial e, é claro, de todos que se interessam por tecnologia e pelas mudanças provocadas por ela. Cinco anos separam os dois textos.

O primeiro, de 2003, foi publicado na Harvard Business Review (em que Carr era editor) e deu origem a um livro no ano seguinte, que só agora chega ao Brasil. Será que TI é Tudo? (Editora Gente) levou executivos de todo o mundo a discutir a real importância dos computadores e da tecnologia da informação (TI) nos negócios.
O segundo, publicado na tradicional Atlantic Monthly, também vai virar livro. O aguardado The Shallows: What the Internet Is Doing to Our Brains (‘Os Superficiais: O que a internet está fazendo com os nossos cérebros’, em inglês), a ser lançado no ano que vem. "Não penso mais do jeito que costumava pensar", escreveu, no artigo.

Para Carr, a internet e o Google, em especial, estão remodelando o nosso cérebro de forma a torná-lo mais eficiente em buscar informação. Ao mesmo tempo, contudo, estamos perdendo a habilidade de contemplação, reflexão, concentração. Uma perda ruim para cada um de nós e para todos nós, como sociedade, segundo ele.

Até tu… – Não tem como fugir, até a tradicional Biblioteca Nacional do Reino Unido, um templo dos livros (tão defendidos por Nicholas Carr), está substituindo alguns bibliotecários por robôs. A British Library construiu um anexo para guardar parte de seu acervo. O manuseio dos livros no novo prédio ficará completamente a cargo de robôs. As máquinas, no entanto, não serão ciborgues como da ficção científica, e sim imensas gruas automatizadas. "Antes andávamos pelos andares e buscávamos os livros nós mesmos. Agora, só precisaremos apertar um botão e ele virá até nós", disse a bibliotecária Alison Stephenson.

"A informação não é um fim em si. O sentido, o significado que damos a ela é que realmente importa", disse Carr ao Link, em entrevista, por telefone, na semana passada, antes de aterrissar em São Paulo para uma palestra, nesta terça-feira (1) no evento empresarial Expomanagement 2009, da HSM.

"Os meios de comunicação que usamos ao longo do tempo nos tornaram o que somos hoje. Os livros, por exemplo, nos obrigam a nos concentrar", observa Carr. Para ele, o Google sacrifica tudo isso ao nos oferecer uma abundância de informações, relevantes ou não, com a qual temos dificuldade de lidar.

Com a internet se tornando nosso principal meio de comunicação, Carr defende que precisamos pensar nas consequências dessa mudança, o que perdemos e sacrificamos neste processo. Não por acaso, ele é um dos raros pensadores da era digital que não está no queridinho do momento, o Twitter. "Ainda que ele faça sucesso com tantas pessoas. Não estou certo do quão útil ele me pode ser", disse Carr que, no entanto, mantêm há anos um concorrido blog, o Rough Type. Não pense, no entanto, que Carr seja uma espécie de neoludita, longe disso.

"A internet traz uma série de benefícios reais que não devem ser desprezados", apressa-se em afirmar. Questionado sobre o próximo grande avanço que veremos na área tecnológica, ele apontou a integração cada vez maior da rede com todo tipo de produtos e serviços. Nada mais natural. Afinal, no ano passado, ele lançou o livro A Grande Mudança (Editora Landscape), em que defendia que a computação em nuvem está mudando a sociedade e a cultura de forma tão profunda como a energia elétrica o fez nos últimos cem anos. "A computação está virando um serviço, e as equações econômicas que determinam a maneira como vivemos e trabalhamos estão sendo reescritas", escreveu.

Foi durante a pesquisa para este livro que Carr se interessou em estudar mais profundamente as implicações sociais e culturais que a internet poderia ter em cada um de nós com o passar do tempo.

Um dos capítulos mais interessantes – e também divertidos – de A Grande Mudança é o que trata dos profetas da energia elétrica, que faziam toda sorte de previsões mirabolantes.

Ah, sim, Carr não se considera um provocador. "Sou apenas uma pessoa que não foi completamente seduzida pelas novas tecnologias", defende-se.

DESCRENTE

Pare um pouco e pense. Para que afinal foi criada boa parte das tecnologias em qualquer tempo? Da primeira ferramenta à roda, do carro ao e-mail, do computador pessoal ao celular, todos foram criados para trazer, de um jeito ou de outro, mais conforto e facilidade para o dia a dia. Os seus efeitos a longo prazo, no entanto, costumam fugir das previsões mais otimistas. O e-mail nasceu para substituir as cartas, seria muito mais prático e rápido. E de fato é. Hoje, no entanto, muitas pessoas não conseguem desgrudar das suas caixas de entrada de mensagem, estejam elas de folga ou até de férias.

Enfim, os efeitos colaterais, de certa forma são bastante visíveis hoje e estão desassociados dos positivos. Primeiro nas empresas, depois na sociedade e, enfim, na mente de cada um de nós. Nicholas Carr decidiu mostrar que "já tem gente demais fascinada pelas novas tecnologias". Em 2003, quando escreveu TI não Importa, para a Harvard Businnes Review, a Newsweek o chamou de "o inimigo público N°1 da tecnologia no mundo". Um exagero. Carr é apenas um cético pensador da era digital em dúvida entre suas vantagens e desvantagens.

Em Será que TI é Tudo? (editora Gente), Carr afirma que "como ocorreu com muitas outras tecnologias largamente adotadas, como ferrovias ou energia elétrica, a tecnologia da informação se transformou em commodity. Com seus preços acessíveis a cada um, essa tecnologia
não tem mais valor estratégico a qualquer empresa ou usuário".

Depois, em A Grande Mudança (editora Landscape), ele fazia um paralelo entre a ascensão da energia elétrica barata, que provocou uma reação em cadeia de transformações econômicas e sociais que gerou o mundo moderno, e da computação em nuvem, que, segundo ele, vai mudar a sociedade de forma igualmente profunda. No livro, ele tenta ponderar sobre os seus possíveis benefícios e efeitos colaterais também.

Enfim, em The Shallows (ainda inédito), ele expande seu artigo O Google está nos tornando estúpidos para, segundo ele, explicar como a internet redistribui os nossos caminhos neurais, substituindo a mente sutil do leitor do livro pela mente do observador distraído das telas. Para isso, ele promete misturar ideias da filosofia, da neurociência e da história.

———-

Transcrito em São Paulo, 6 de Dezembro de 2009

Entrevistas dão trabalho, mesmo quando pequenas…

Dei uma entrevista por escrito (e-mail) para um jornalista, que me enviou as perguntas. Eis o que enviei:

———-

PERGUNTA: Quais são as novas tecnologias aplicadas à Educação?

RESPOSTA: Permita-me corrigir a formulação da pergunta… Não creio que haja tecnologias, novas ou velhas, que se apliquem à educação. Há tecnologias que podem ser usadas na educação, por professores e por alunos, para apoiar a aprendizagem dos alunos, para ajudá-los a aprender melhor…

Você me pergunta das novas tecnologias. Não há problema nisso. Mas é importante reconhecer que a tecnologia sempre existiu. Tecnologia é qualquer coisa que o ser humano inventa para tornar a vida mais fácil ou mais agradável ou prazerosa. A linguagem humana é tecnologia: ela teve de ser inventada para facilitar a nossa comunicação, e, por conseguinte, a nossa vida… A fala é mais antiga, a escrita, mais recente… O papiro, o pergaminho e o papel, bem como os instrumentos que nos permitem escrever neles, são tecnologia – não nova, é verdade, mas que já prestou muito serviço à educação. O livro impresso é tecnologia. As formas de registrar e transmitir sons e imagens são tecnologia: fotografias em papel, discos, fitas, telefones, o rádio, a televisão. Tudo isso é tecnologia que pode ser usada para apoiar a aprendizagem do aluno e que tem sido usada dessa forma. Mas tudo isso é tecnologia velha.

As tecnologias novas que podem ser usadas na educação são todas digitais: todas elas centradas em processadores eletrônicos que manipulam informações em formato binário, sejam elas texto, sons ou imagens. A principal tecnologia é o computador. Mas também telefones celulares, câmeras de fotografia ou de vídeo, tocadores de música, aparelhos de rádio, televisores, e, naturalmente, a Internet, fazem parte das novas tecnologias que ajudam os alunos a aprender melhor. Na verdade, que ajudam todos nós a aprender melhor.

PERGUNTA: Qual a importância dessas tecnologias?

RESPOSTA: Todas essas tecnologias são de informação e comunicação. Sua importância deriva do fato de que a informação e a comunicação são essenciais para o processo educacional. Sem informação e comunicação, na verdade, não há educação. Logo, as tecnologias que apóiam o acesso à informação e o seu gerenciamento e análise, bem como as tecnologias que apóiam a comunicação, em seua múltiplos aspectos, só podem ser importantes.

PERGUNTA: Essas novas tecnologias tornarão o nosso ensino melhor? De que forma?

RESPOSTA: Não estou muito interessado em que elas tornem o nosso ensino melhor, embora provavelmente o façam. As coisas mais importantes da vida aprendemos sem que alguém no-las ensine. Aprendemos a andar e a falar sem que alguém nos ensine a fazer isso… Antes de andar e falar aprendemos a identificar complicados padrões visuais e sonoros que nos permitem reconhecer o rosto e a voz de nossa mãe, de nosso pai, de nossos irmãos, de outras pessoas que nos são próximas – e fazemos isso sem necessidade de ensino… Mais tarde aprendemos a amar e nos relacionar afetivamente com outras pessoas, sem que haja professor e curso disso…

O que me interessa são as tecnologias que nos permitem aprender melhor. E como o aprender envolve o tratamento da informação e a comunicação, as tecnologias de informação e comunicação fatalmente nos ajudarão a aprender melhor. Já estão nos ajudando, na verdade.

PERGUNTA: O Brasil está avançado na adoção dessas tecnologias?

RESPOSTAS: Nos centros mais desenvolvidos e entre as camadas mais ricas, sem dúvida. Mas essa tecnologia se tornou tão barata que em pouco tempo qualquer pessoa terá amplo acesso a elas. O Brasil já tem 100% de cobertura de televisão convencional, e caminha rápido para chegar perto de 100% de cobertura de telefonia celular. Para que todo mundo tenha seu computador pessoal, falta muito pouco. Em um ano, com dez prestações de cinqüenta reais qualquer um poderá se tornar o proprietário de um possante (mas pequeno) computador. Na verdade, o telefone celular que quase todo mundo já tem já é um minúsculo computador.

PERGUNTA: Os professores brasileiros estão preparados para utilizar as novas tecnologias? Por quê?

RESPOSTA: Nem todos, naturalmente. Mas caminhamos para isso. No entanto, mais importante do que aprender a usar as novas tecnologias é dominar as competências necessárias para lidar com a informação e a comunicação, qualquer que seja a tecnologia, nova ou velha. Sou bastante otimista nessa área, porque, por mais que os atuais professores possam querer resistir ao uso das novas tecnologias na educação, eles logo vão se aposentar ou morrer e as novas gerações, compostas de nativos digitais, vão assumir o seu posto… E essas novas gerações já nascem sabendo utilizar essas tecnologias… 🙂

———-

O jornalista me encaminhou a matéria para aprovação no seguintes termos:

———-

Novas tecnologias: você está preparado?

Robo.to, Twitter, Slide Share, Facebook, Flickr.. A todo instante, surgem novos formatos comunicacionais, graças aos inovadores recursos tecnológicos. Para utilizar essas novidades nas instituições de ensino e propagar conhecimentos via ferramentas 2.0 eficazes, é preciso antes de tudo compreender o processo, entender as várias necessidades e estar alinhado com a essência. 

Eduardo Chaves, professor de Filosofia da Educação, Filosofia Política e Teoria do Conhecimento na Unicamp, defende que tecnologia é qualquer coisa que o ser humano inventa para tornar a vida mais fácil, agradável ou prazerosa. “Todas as ferramentas tecnológicas são de informação e comunicação. Sem esses dois elementos, na verdade, não há educação. Desta forma, as inovações que apóiam o acesso à informação e o seu gerenciamento e análise, bem como as que apóiam a comunicação em seus múltiplos aspectos, só podem ser importantes”, pontua Chaves.

De acordo com o especialista no uso de tecnologia na Educação, as novidades que podem ser usadas nas instituições de ensino são todas digitais e centradas, principalmente, em processadores eletrônicos que manipulam informações em formato binário, sejam elas texto, sons ou imagens.

Mas, e os professores? Estão preparados para utilizar essas inovações? O professor responde, reforçando alguns conceitos: “nem todos, naturalmente. Mas caminhamos para isso. No entanto, mais importante do que aprender a utilizar as novidades é dominar as competências necessárias para lidar com a informação e a comunicação, qualquer que seja a tecnologia, nova ou velha”.

Otimismo, no entanto, não falta a Eduardo Chaves: “a nova geração de professores, formada por nativos digitais, já nasce inserida neste contexto e, com treinamento, será capaz de, no decorrer dos anos, aplicar todos esses novos recursos em sala de aula
.

———-

Eis o que vai ser publicado, depois de uma drástica revisão minha

———-

Novas tecnologias: você está preparado?

Robo.to, Twitter, Slide Share, Facebook, Flickr.., A todo instante surgem novas aplicações na área da informação e comunicação digital, graças a inovadores recursos tecnológicos que aparecem mais rapidamente do que conseguimos dominá-los. Para utilizar essas novidades na aprendizagem, em especial na aprendizagem formal, que se dá em instituições escolares, é preciso antes de tudo compreender o que essas aplicações fazem, entender as necessidades humanas que elas satisfazem, estar bem informado sobre em que aspectos elas diferem umas das outras, e saber qual o foco de cada uma.  

Eduardo Chaves, que foi professor de Filosofia da Educação, Filosofia Política, Teoria do Conhecimento e Aplicações da Tecnologia na Área Social (Educação, Saúde e  Gestão) na UNICAMP, e, agora, depois de atuar por 35 anos nessas áreas Universidade, está trabalhando em consultoria para empresas e ONGs, defende que tecnologia é qualquer coisa que o ser humano inventa para tornar sua vida mais fácil, agradável ou prazerosa. “As tecnologias mais relevantes para a educação são as de informação e comunicação, e isto porque sem esses dois elementos, informação e comunicação, na verdade não há educação”. Assim sendo, acrescenta, “as tecnologias que nos permitem buscar, gerenciar e analisar a informação, nos comunicar em contextos interpessoais e públicos, e aplicar as informações que assim obtemos em processos de tomada de decisão, solução de problemas e busca de respostas às nossas indagações, só podem ser importantes importantes na educação. Isso “porque esses processos são da essência da educação”, pontua Chaves.

Mas, e os professores? Estão preparados para utilizar essas inovações? O professor admite que “nem todos, naturalmente”. Mas acrescenta que “caminhamos para isso”. Enfatiza, porém, que “para o professor, mais importante do que aprender a manejar tecnicamente as novidades tecnológicas é dominar as competências necessárias para lidar com a informação e a comunicação, qualquer que seja a tecnologia de apoio utilizada, nova ou velha”.

Otimismo, no entanto, não falta a Eduardo Chaves: “a nova geração de professores, formada por nativos digitais, já nasce inserida neste contexto e, quando vier a trabalhar na educação, será capaz de, com a mesma naturalidade com que hoje usa o celular e brinca de videogames, utilizar todos esses recursos, e outros que sem dúvida vão aparecer, para facilitar a aprendizagem de seus alunos e, assim, melhorar a qualidade da educação”.

———-

É isso… Uma entrevista pequenina às vezes leva tempo…

Em 5 de Dezembro de 2009

Filosofia da Educação: Um Encontro Possível entre o Professor e a Tecnologia

Este artigo, escrito no ano 2000, foi originalmente publicado em Educação: Revista da Associação Brasileira de Educação (ABE), Ano 32, nº 102, pp. 32-34, 2001

Faz vinte anos que venho refletindo sobre o uso de tecnologia (em especial de computadores) na educação (em especial na educação escolar). Ao longo desse tempo tem me ficado bastante claro que o principal obstáculo ao uso generalizado de computadores em escolas não é o custo do equipamento, não é a inexistência de software adequado, e não é a dificuldade técnica de capacitar o professor no  manejo dessa tecnologia.

O principal obstáculo tem estado no fato de que os educadores não conseguem entrar em um acordo sobre o que fazer com o computador na escola, e a principal razão pela qual não chegam a esse acordo tem que ver, não com o computador, em si, mas, sim, com o fato de que os educadores, em geral, e dentre eles os professores, têm visões muito diferentes do que seja a educação, e, conseqüentemente, de qual seja o papel da escola na educação e deles próprios, professores, na escola. Dentro desse quadro, dificilmente poderão concordar sobre qual deva ser o papel do computador na educação.

Em 1983 (dezessete anos atrás [contados do ano 2000, em que escrevi este artigo – EC]) publiquei um artigo na revista Em Aberto do Instituto Nacional de Estudos e Pesquisas Educacionais (INEP), do Ministério da Educação, com o título “Computadores: Máquinas de Ensinar ou Ferramentas para Aprender?” Nesse artigo observei que há controvérsias entre os educadores sobre a melhor maneira de usar o computador na escola e que essas controvérsias decorrem de diferentes visões da educação (em especial, da educação escolar):

“Fundamentalmente, a controvérsia maior ocorre entre os que defendem a utilização do computador basicamente como um instrumento de ensino e os que defendem a utilização do computador basicamente como uma ferramenta de aprendizagem. . . . Pode parecer que a questão não é tão fundamental assim e que tudo não passaria de uma questão de ênfase. Contudo, há aspectos importantes por detrás destas colocações.”

Nessa disputa, de um lado estão os que vêem a educação escolar como um processo de transmissão, pelos professores aos alunos, de conteúdos informacionais (fatos, conceitos e procedimentos), sistematizados em áreas específicas (disciplinas) e organizados seqüencialmente de forma cada vez mais complexa (séries). Nessa visão da educação há, conseqüentemente, a valorização relativa do processo de ensino e instrução e é colocado em relevo o papel do professor como detentor das informações e dos conhecimentos a serem repassados aos alunos. A aprendizagem, por sua vez, fica caracterizada como um processo, em grande parte passivo (do ponto de vista do aluno), de absorção de informações e conhecimentos (em geral apresentados de maneira totalmente desvinculada dos problemas fundamentais que um dia levaram o ser humano a se interessar pelas questões que estão por trás dessas informações e desses conhecimentos). 

O computador, para os que adotam essa visão da educação escolar, deve ser utilizado de modo a reforçar ou tornar mais eficiente o trabalho do professor, sem que, em decorrência da utilização do computador, seja fundamentalmente alterada a visão de ensino e aprendizagem adotada. Para eles, o computador é apenas uma máquina de ensinar – ou, mais corretamente, uma máquina que ajuda o professor a ensinar melhor.  

Do outro lado na disputa estão os que vêem a educação (até mesmo a escolar) como um processo de desenvolvimento, pelos alunos, de competências e habilidades, especialmente no domínio cognitivo (mas sem negligenciar o domínio afetivo-emocional, interpessoal e até mesmo psicomotor), com a conseqüente valorização relativa do processo de auto-aprendizagem e de aprendizagem colaborativa, e, portanto, do papel do aluno na construção ou elaboração de sua própria aprendizagem. Esta, por seu turno, é vista como um processo ativo (do ponto de vista do aluno) de construção das estruturas cognitivas (afetivo-emocionais, interpessoais e psico-motoras) que vão lhe permitir alcançar vida pessoal realizada e participação eficaz e significativa na vida da sociedade como cidadão e profissional. 

A aprendizagem, e, conseqüentemente, a educação do aluno, é, nessa visão, algo que decorre, diretamente, da ação do aluno – não da do professor. A participação deste no processo é indireta. O professor deixa de ser o detentor único e exclusivo de informações e conhecimentos cuja absorção define a aprendizagem do aluno, e passa a ser, principalmente, o motivador, o incentivador, o animador, o instigador, o facilitador do aprendizado do aluno (tanto no aspecto cognitivo como nos aspectos afetivo-emocional e interpessoal), sendo necessário, para tanto, que organize “ambientes de aprendizagem” que sejam capazes de otimizar as oportunidades de aprendizagem dos alunos – aprendizagem significativa, flexível, transferível para outros contextos, e, por isso mesmo, duradoura.

Para os defensores dessa visão, o papel principal da escola é fornecer aos alunos o maior número possível de ambientes que favoreçam a aprendizagem do aluno, aprendizagem esta que ocorre quando o aluno, em interação com esses ambientes, desenvolve estruturas cognitivas (emocionais, interpessoais, etc.) que se traduzem em competências e habilidades que lhe permitem, acima de tudo, continuar a aprender e aprender sempre. 

O computador, para os que adotam essa visão da educação, deve ser utilizado, não como uma máquina de ensinar, mas como uma ferramenta de aprender, isto é, como uma tecnologia que pode facilitar, da parte dos alunos, o desenvolvimento das competências e habilidades necessárias para que aprendam a aprender e para que aprendam sempre. Inserindo-se nos ambientes de aprendizagem em que os alunos se situam, o computador permite que se ampliem os seus horizontes cognitivos e aumentem as suas possibilidades de interação com o meio – em especial no que diz respeito a contatos com pessoas de interesses afins e a acesso a informações relevantes aos seus interesses. O computador, para os alunos, é uma ferramenta de aprender – uma tecnologia que expande e aumenta o potencial da mente humana. 

Fica claro, portanto, de tudo o que foi dito, que há uma diferença fundamental entre essas duas visões da educação e, conseqüentemente, do papel da escola na educação, do professor na escola e da tecnologia em todo o processo. Mas essa diferença não deve ser localizada no âmbito da tecnologia, mas, sim, no âmbito da filosofia da educação

É preciso registrar que a tecnologia freqüentemente serve de agente catalisador da reflexão acerca dessas questões, porque o computador, ao ser introduzido na escola, funciona como agente perturbador da ordem estabelecida e permite que os que dela discordem se valham dessa oportunidade para questioná-la. O computador provoca essa discussão porque os alunos, em geral, têm muito mais facilidade para lidar com ele do que os professores – e, portanto, se torna um agente subversivo da ordem estabelecida na escola. 

Proponentes da visão mais convencional da educação em geral procuram “domesticar” o computador para que ele se insira naturalmente naquilo que é feito na escola, sem maior perturbação da ordem – mantendo, portanto, a hierarquia na escola. Os professores, aqui, em geral preferem usar o computador com softwares educacionais que eles podem pesquisar e dominar antes – não favorecendo usos “abertos” do computador em que o que vai ser feito, e como vai ser feito, não estão previamente definidos.

Proponentes da segunda abordagem, por outro lado, às vezes de forma mais ou menos ingênua e mesmo romântica, esperam que o computador, uma vez introduzido na escola, vá ajudá-los a subverter a ordem estabelecida e a finalmente promover as mudanças que desejam que aconteçam. Às vezes isso acontece – mas é raro. Na escola, como em qualquer outro lugar, a tecnologia, por si só, em geral não promove mudanças. Estas, se vierem a ocorrer, são comumente promovidas por pessoas – que, entretanto, podem, se valer da tecnologia para alcançar alguns de seus objetivos.

Em conclusão: o momento da introdução da tecnologia (em especial do computador) na escola pode ser um excelente momento para a reflexão sobre algumas importantes questões da filosofia da educação. A discussão franca e aberta das diferentes visões da educação que subsistem na escola pode eventualmente levar os professores a entender melhor suas posições e as daqueles de quem discordam. 

Transcrito aqui em São Paulo, 3 de Dezembro de 2009