O JMC nos deu Educação – no sentido mais pleno do termo

O JMC não era uma simples escola, como as outras.

O JMC era uma escola de vida.

Para começar, era um internato. A maior parte de nós, alunos, morávamos lá – isso quer dizer que vivíamos a nossa vida lá. A maior parte dos professores também. Também os diretores.

As outras escolas em geral se preocupam em encher a mente de seus alunos de informações. O JMC fazia, das cianças e adolescentes que ali chegavam, literalmente gente grande. E não só gente grande do ponto de vista intelectual: gente grande também do ponto de vista emocional, interpessoal, profissional, social – humano, enfim.

Ali aprendemos a pensar com idéias próprias, a argumentar, a defender nossas idéias contra crítica, a criticar as idéias dos outros, a debater questões controvertidas (o JMC não fugia delas)…

Ali aprendemos a entender outras línguas, a nos expressar nelas e a praticá-las em clubes de línguas estrangeiras (clubes de alunos interessados em uma determinada língua, como o English Club);

Ali os professores, se você já conhecia bem o assunto da aula deles, o dispensava da aula para trabalhar com você em tutoriais individualizados (dona Elza, professora de Francês, fez isso comigo durante os três anos que passei lá);

Ali aprendemos a conviver uns com os outros, a gerenciar nossas emoções, a lutar contra impulsos primitivos, a nos conter quando um colega nos fazia uma brincadeira de mau gosto…

Ali aprendemos a amar e a encontrar formas criativas de expressar o amor, para contornar a proibição do namoro…

Ali aprendemos a tomar conta de nossa vida, de nosso quarto, de nossas roupas, de nossos objetos pessoais, de nossos livros…

Ali aprendemos a trabalhar em atividades manuais ou braçais, limpando o chão e até mesmo a privada, servindo no restaurante, lavando roupas e louças…

Ali aprendemos a viver simples e frugalmente, com pouco e, por vezes, nenhum dinheiro, e a compartilhar o pouco que tínhamos…

Ali aprendemos a administrar o nosso tempo, alocando-o conforme nossas prioridades: a vida intelectual e o estudo; a música, o esporte, e o lazer; o amor e a vida social; a contemplação e a devoção…

Ali aprendemos que, de vez em quando, ficar sem fazer nada, deitados na grama, olhando para o céu, tendo apenas nós mesmos como companhia, era algo importante…

Ali aprendemos a ter responsabilidade, a responder por nossos atos – a fazer provas sozinhos no quarto, com os livros e cadernos ao lado, sem sucumbir à tentação de abri-los…

Ali desenvolvemos nosso caráter, que é (como alguém um dia disse) aquilo que fazemos quando ninguém está olhando…

Michael Hammer, o guru da reengenharia, disse, em um de seus livros, citando alguém, que educação é aquilo que resta depois que a gente esqueceu o que nos foi ensinado.

No caso do JMC, restou muito. Somos o que somos, em grande parte, em virtude de nossa experiência no JMC.

Educação é isso: é o que resta, depois que a gente se esqueceu do que nos foi ensinado: o amor do saber, o entusiasmo pela descoberta, a fascinação pelo conhecimento, pela cultura, pelas artes, por outras manifestações tipicamente humanas, como esporte, o desejo de sempre aprender mais, o sentido de valor que nos ensina a separar o importante do urgente e a priorizar as coisas, a honestidade e a honradez, a certeza de que a vida vale a pena quando se tem um objetivo pelo qual lutar e se luta por ele sem abandonar os princípios que moldam o nosso caráter. O JMC nos legou tudo isso. O JMC nos deu educação. Talvez a melhor educação de que se tenha notícia neste país.

Por isso, a experiência, ainda que apenas de um ano, no JMC marcou todos os seus alunos.

É por isso que, quarenta anos depois de seu fechamento, seus ex-alunos ainda se apegam à memória da instituição, querem preservá-la, não conseguem se conformar que ela se perca com a morte, cada vez mais freqüente agora, dos manuelinos. É uma tristeza reconhecer que não existem mais manuelinos com menos de cinqüenta anos, por aí… e que dentro de uns trinta anos, no máximo, provavelmente não haverá mais nenhum manuelino vivo.

Por isso essa obsessão por preservar a memória, contar e registrar a história, para que filhos, netos, bisnetos saibam que um dia houve uma escola contra a qual nenhuma voz jamais se levantou e que todos os que passaram por lá amam com devoção… Há ex-alunos com mais de 90 anos, que amam o JMC com devoção até hoje). E para que saibam, também, e esse o lado negro da história, que a escola foi fechada, quarenta anos atrás, pelo medo – ou, o que é pior, por interesses escusos… E para que saibam que os que estiveram envolvidos no processo ou já morreram ou, se ainda vivos, preferem morrer a revelar o que realmente aconteceu.

Por isso o Museu Presbiteriano, com sede no Seminário Presbiteriano do Sul, em Campinas, decidiu, neste ano em que se celebram cento e cinqüenta anos do presbiterianismo no Brasil, acolher o pedido da Associação dos ex-Alunos do JMC de fazer uma mostra, no início de 2010, do que foi o JMC. Oitenta e dois anos depois de ele ter sido fundado. E quarenta anos depois de ter sido fechado.

São Paulo, em 3 de Dezembro de 2009

Quinto Aniversário deste Space

Passa da meia-noite. Já estamos no dia 2 de Dezembro. É o dia do quinto aniversário deste space. Fica o registro aqui para agradecer os que já se manifestaram.

Dias atrás deixei um post que de certo modo historia parte desses cinco anos de vida. Se você tem interesse na gênese deste space, em especial do blog, por favor, leia.

Obrigado por me acompanhar aqui.

Em São Paulo, 2 de Dezembro de 2009.

Pouca vergonha !!! (Parte 1)

O artigo transcrito abaixo é da jornalista Leonor Macedo, jornalista e corintiana. Está transcrito no Blog do Juca Kfouri de hoje, disponível no UOL. O texto do Juca, que também é corinthiano, diz apenas: “É preciso dizer mais alguma coisa?” ao mostrar uma foto de capa de O Fiel – O Jornal Oficial do Corinthians, de ontem 30 de Novembro de 2009. A foto tem a legenda: “Doce derrota: Timão perde para o Flamengo mas atrapalha os seus rivais na luta pelo título brasileiro”.

 

O Fiel

Seus rivais? Atrapalha o São Paulo. O Palmeiras até foi ajudado pela vitória do Flamengo. O Corinthians, hoje, mais do que ganhar um jogo, quer ver o São Paulo perder o título, perder a hegemonia do Brasileirão, não ser tetra seguido e hepta no descontínuo. 

Uma vergonha. Dá vontade de nunca mais olhar futebol.

Há dias, depois do fim de semana anterior, alguém escreveu no FaceBook que agora (então) ninguém segurava mais o Flamengo, porque o time, que tinha com a maior torcida do Brasil, iria agora contar também com o apoio da a segunda maior torcida. Não achei possível. Santa ingenuidade.

Abaixo, o artigo de Leonor Macedo. Como diz o Juca, não é preciso dizer mais nada.

Descobri a matéria através de uma referência ao blog do Juca no FaceBook de meu amigo Hélio Oliveira Gandhi Ferrari, também corinthiano. O Gandhi diz: “Alguém escreveu exatamente o que eu penso”

Que bom. Este é o outro lado da medalha. De um lado um bando de jogadores que não honra o dinheiro que ganha. Mas do outro, felizmente, ainda há corinthianos como Juca, Leonor e Gandhi, que têm uma vergonha maior do que a minha revolta.

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http://blogdojuca.blog.uol.com.br/arch2009-11-29_2009-12-05.html#2009_11-30_16_48_22-9991446-0

CORINTHIANISMO

Por LEONOR MACEDO*

Se você gosta de futebol e já sabia que a rodada de domingo, 29/11, estava arranjada para favorecer o Flamengo antes mesmo de ela acontecer, aconselho que desista do esporte.

Que tente canalizar sua energia para algo mais legítimo, mais honesto, mais respeitoso, mais digno.

Porque futebol é isso: é o ópio do povo, é irracional e se pararmos para pensar, a gente pára de gostar.

É amor, é paixão, é utopia, é ingenuidade. É burrice.

Fui para Campinas, com toda a minha burrice e ingenuidade, confiando no discurso da diretoria do Corinthians e dos jogadores de que seria o "jogo do ano".

Ronaldo prometeu uma chuva de gols, outros jogadores afirmaram que dariam o sangue, o técnico se irritou ao ser questionado sobre um possível favorecimento ao Flamengo para eliminar as chances do São Paulo ser campeão: "o Corinthians estará empenhado para ganhar. Se o São Paulo não fez a sua parte, não é um problema nosso."

Acreditei e fui confiante!

Comprei meu ingresso mesmo sabendo que a renda do futebol seria destinada ao carnaval do centenário, em 2010.

Mesmo sabendo que o correto é utilizar a arrecadação do futebol com o futebol. Fui porque meu amor pelo futebol é muito maior do que meu ódio pelo carnaval.

Cheguei a Campinas cedo, ganhei uma carona de carro e almocei em um shopping relativamente próximo ao estádio.

Vi dezenas de corinthianos exibindo suas camisas orgulhosos, confiantes na equipe, assim como eu.

Porque me recuso a acreditar que algum corinthiano realmente estivesse interessado em uma derrota para o Flamengo apenas para prejudicar o São Paulo.

A rivalidade não pode ser maior do que a vontade de ver seu time ganhar qualquer coisa, até campeonato de Master.

Cresci aprendendo que existem apenas dois tipos de torcida no Brasil: a corinthiana e a anticorinthiana.

A nossa, até então, era a corinthiana.

Quando entrei no estádio (com uma entrada relativamente organizada nas catracas do Fiel Torcedor, diga-se de passagem), acomodei-me em um degrau semi-alagado e vi o Brinco de Ouro da Princesa lotar de corinthianos e flamenguistas, que também compareceram.

Foi quando Evandro Roman apitou e a vergonha começou.

Não falo apenas de erros grotescos de arbitragem porque, se eu sou ingênua a ponto de acreditar na hombridade de um elenco todo, sempre acreditei em juiz ladrão.

Falo de corpo mole, de recuar a bola para o goleiro em um ataque, de 90% de passes errados, de contusões inexplicáveis, da expulsão do nosso capitão, do nosso técnico.

De 10 jogadores caminharem dentro de campo (o único que tentou foi Defederico, que não fala português e que talvez não tenha entendido a recomendação de entregar uma partida), de um goleiro não tentar pegar a bola em forma de "protesto" contra a arbitragem (e o melhor protesto que ele podia ter feito ali era agarrar o pênalti e honrar os milhares de corinthianos que estavam na arquibancada).

De o nosso elenco fazer o que fez estampando o rosto de centenas de corinthianos na nossa camisa (a obrigação de ganhar a partida podia ser só por esse motivo).

De ouvir um meia do Corinthians que está de férias desde o fim do Campeonato Paulista justificar seus erros na arbitragem (concordo, Elias, que o juiz errou, é péssimo e tem que ser punido, mas quando foi que o Corinthians dependeu de juiz?).

De ver o nosso técnico ser expulso quando ele é o primeiro que tem que manter a cabeça fria para dar tranqüilidade ao elenco, honrando o salário milionário que ele recebe. E depois reclamar da arbitragem também, sendo que o próprio, no meio do campeonato, afirmou que a prioridade nunca foi o Campeonato Brasileiro, mas o time em 2010.

A prioridade, senhor Mano Menezes, é respeitar o torcedor do Corinthians e tentar vencer tudo o que se propuser a ganhar.

Eu não tenho seis meses de férias, nem ganho um centésimo do que o senhor ganha e trabalho com seriedade.

Saí do estádio sem conseguir falar uma palavra.

Atônita e surpresa sim, porque eu acreditava que o elenco do Corinthians pudesse, pelo menos, honrar aqueles que acreditavam.

Porque sempre acreditei que eu, como torcedora, pudesse ter alguma importância (mesmo que financeira) para o clube.

Voltei para São Paulo pensando que por muito menos a torcida expulsou do clube um dos maiores jogadores da história do futebol, o Rivelino.

Que, mesmo naquele contexto importantíssimo que é um Corinthians X Palmeiras, ele pode ter errado, mas jamais entregado uma partida a nosso rival.

Que a gente pode ter perdido um clássico, um título, mas que não perdemos a dignidade tanto quanto neste domingo, em Campinas.

Nem quando fomos rebaixados para a Série B.

Sei que a falta de dignidade não é única e exclusiva da diretoria do Corinthians.

No próximo fim-de-semana, por exemplo, é a última rodada do campeonato e o Grêmio anunciou que pode escalar o time reserva contra o Flamengo apenas para prejudicar o Inter.

Que o mesmo Inter entregou uma partida para prejudicar o Corinthians contra o Goiás, em 2007.

Que muitas pessoas consideram isso absolutamente normal no futebol e depois reclamam de ética em seu trabalho, nas relações pessoais, enfim, em sua vida.

O futebol é espelho de tudo isto.

Se a falta de dignidade não é única e exclusiva da diretoria do Corinthians e do elenco corinthiano, é com ela sim que eu me preocupo, porque eles, infelizmente, carregam o escudo que eu defendo.

Se todos os anos para mim terminam com o fim da temporada de futebol, 2009 foi o ano que terminou mais cedo.

Curarei minha ressaca futebolística longe de Corinthians X Atlético Mineiro.

Sei que a minha fé no futebol retornará assim que a ressaca passar.

Que eu encerrarei o papo de "não bebo mais" e continuarei enchendo a cara dessa cachaça.

Que seguirei acreditando que outro futebol é possível: com dignidade, honestidade e hombridade.

Com jogador que defende o escudo do clube acima de qualquer dinheiro, com dirigente que recusa mala branca e leva em consideração sua torcida, com elenco que não entrega a partida, com torcedor apaixonado que prefere ver o time ganhar a ver o rival se dar mal.

Morrerei velhinha acreditando.

E precisarei de dois caixões: um para mim e outro para a minha santa ignorância.

* Leonor Macedo é corintiana e jornalista.

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Em 1 de Dezembro de 2009

A construção do conhecimento e a busca da sabedoria

Matéria simples mas bem posicionada da Folha de S. Paulo em relação à “pretensão construtivista” das escolas brasileiras de hoje.

Criticar o construtivismo aqui no Brasil virou politicamente incorreto – pega tão mal quanto criticar a maternidade, a democracia, o igualitarismo. (Acho irônico que criticar o igualitarismo seja politicamente incorreto – mas criticar a liberdade, não… Os críticos da liberdade abundam. Abundam ainda mais os inimigos da liberdade que professam ser seus defensores… Mas esse é outro assunto….).

O consenso construtivista, porém, como a maior parte dos consensos, é obtido através da vagueza, da imprecisão, da ambigüidade do conceito.

Para mim a gênese do construtivismo está em Sócrates, não em Piaget. A pedagogia de Sócrates era a “pedagogia da pergunta”, não a “pedagogia da resposta” das abordagens não-construtivistas. Tanto quanto eu saiba é de Paulo Freire o uso original dessas duas expressões. Sócrates não dava resposta a nenhuma pergunta – o ofício dele era fazer perguntas. A resposta sacia a curiosidade. A pergunta a alimenta a curiosidade. As perguntas de Sócrates desequilibravam (para usar um conceito piagetiano), faziam o interlocutor se questionar, levavam-no a duvidar das próprias certezas (a Léa Fagundes gosta de usar essa expressão). Elas faziam o seu interlocutor pensar, refletir por si próprio, chegar às suas próprias conclusões…

Construtivismo, para mim, é basicamente isso: o processo mediante o qual construímos para nós mesmos um jeito de olhar o mundo, uma forma de agir no mundo, uma maneira de ser no mundo (desculpem o mal-cheiro existencialista da última expressão).

Informação se encontra virtualmente em qualquer lugar. Informação se transmite. Informação se acumula. Uma educação que privilegia a entrega e a transmissão de informações ao aluno por parte do professor, e o recebimento, a assimilação a retenção e a reprodução de informações por parte do aluno, é uma “educação bancária”, como dizia Paulo Freire, feita com base na analogia da transferência de fundos. Informações, como fundos, são transferíveis, é bom que se diga.

E pensar que há gente – e escola – que fala em “ensino construtivista”… 

Essa chamada educação bancária, como bem ressaltou Rubem Alves, não educa ninguém. Ela simplesmente nos deixa cheios de informação – produzindo “obesidade mental”. A solução para uma “mente estufada” de informações, segundo ele, é de vez em quando esvaziar a mente, pois uma mente obesa, cheia de informações, prejudica a agilidade mental, torna o pensar difícil, às vezes impossível… A educação deveria ser vista, nesse contexto, muito mais como um processo de esvaziamento da mente do lixo que se acumula nela do que o contrário… Um bom laxativo mental, mais do que uma macarronada informacional… Uma boa evacuada mental, mais do que um açaí-na-tijela informacional…

Na época de Sócrates conhecimento era informação verdadeira, bem fundamentada na evidência. Por isso, ele defendia a busca da sabedoria… A busca da sabedoria, em vez de requerer que nos locupletemos de informações, pressupõe que “desaprendamos” o que nos foi ensinado… A educação, disse alguém, é aquilo que permanece quando nos esquecemos daquilo que nos foi ensinado… Quando fazemos um “enema mental”, uma “lavagem da mente”… (Infelizmente a expressão “lavagem mental” ou “lavagem cerebral” se tornou sinômina do processo de tirar as informações que estão na mente de uma pessoa para imediatamente colocar outras lá…. O processo de conversão religiosa ou política é mais ou menos desse tipo: retiram-se da mente algumas crenças para ali colocar outras… O que estou propondo aqui é mais como a limpeza de um terreno cheio de mato e lixo para que possamos construir um lindo edifício ali… Trocar um mato e lixo por outro mato e lixo não resolve…)

Aquilo que, na era pós-piagetiana, chamamos de “construção do conhecimento” é equivalente à busca da sabedoria de Sócrates. A sabedoria não se encontra em qualquer lugar, não se entrega de um para outro, não se transmite, não se recebe, não se assimila, não se retém, não se reproduz num exame ou numa prova. Sabedoria se constrói. Ela inclui jeitos de ver as coisas, modelos mentais, esquemas de análise…

Pode-se falar em uma informação – e uma informação pode ser verdadeira ou falsa. Mas não se pode falar em “uma sabedoria”, nem em sabedoria verdadeira e sabedoria falsa… À sabedoria aplicam-se outros critérios – não o critério da veracidade…

Uma pessoa jovem pode ser muito bem informada. Dificilmente será sábia. A sabedoria, em geral, vem com a experiência, e esta, em geral, com a idade. Mas a sabedoria é fruto mais da qualidade do que da quantidade dos momentos vividos. Infelizmente a idade muitas vezes chega desacompanhada da experiência (como disse alguém) – e, por isso, por si só não é nenhum indicador confiável de sabedoria. A posse de informações se demonstra num exame, num trabalho escrito, numa apresentação oral.

A verdade é um atributo de enunciados, de proposições. A sabedoria é um atributo de pessoas. A posse da sabedoria se demonstra no viver.

Para mim, construtivismo, em educação, é mais ou menos isso: a busca da sabedoria… A busca dos princípios e valores que tornam possível o bem viver. E o desenvolvimento das competências e habilidades que nos permitem viver bem.

A boa vida, como disse Sócrates, é a vida constantemente examinada, permanentemente questionada, diariamente reconstruída. A outra não vale a pena viver.

Amém.

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Folha de S. Paulo
30 de Novembro de 2009

“Construtivistas, mas nem tanto”

Muitas escolas dizem seguir o construtivismo -que defende que o aluno deve construir por si só o conhecimento-, mas, na prática, continuam tradicionais

Quando estão escolhendo um colégio, os pais não devem se prender a rótulos, mas perguntar como são as práticas em sala de aula

ANGELA PINHO
DA SUCURSAL DE BRASÍLIA
FABIANA REWALD
DA REPORTAGEM LOCAL

Se você perguntar a um professor brasileiro se ele é construtivista, é quase certo que ele dirá que sim. No entanto, ao acompanhá-lo em aula, é possível que você não veja os princípios da teoria sendo aplicados.

O construtivismo se desenvolveu a partir de estudos do suíço Jean Piaget (1896-1980) e, em linhas gerais, parte do princípio de que o aluno aprende melhor quando constrói o conhecimento por si só -com a mediação do professor- do que quando recebe o conteúdo apenas de forma passiva.

A partir da teoria, surgiram p
ráticas pedagógicas que não são exclusivas do construtivismo, mas acabaram sendo associadas a ele: atividades de pesquisas, trabalhos em grupo e priorização do raciocínio em detrimento da memorização.

No Brasil, onde as diretrizes curriculares nacionais têm inspiração construtivista, a maioria dos professores diz seguir essa teoria, segundo pesquisa feita neste ano pela OCDE (Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Econômico) com 23 países.

Assim como quase todos os seus pares -a exceção são os italianos-, os professores brasileiros dizem concordar com afirmações relacionadas ao construtivismo, como: "Estudantes aprendem melhor quando encontram sozinhos a solução para problemas."

A pesquisa também perguntou a posição dos professores em relação a afirmações como "bons professores demonstram a maneira correta de resolver um problema" -mais ligada a outro modo de ensinar, em que o conhecimento é transmitido diretamente pelo professor.

Em países como Áustria e Islândia, os adeptos dos conceitos construtivistas rechaçavam as afirmações relacionadas à transferência do conhecimento pelo professor. Já em outros, como o Brasil, os professores aceitavam as duas abordagens.

"Os professores brasileiros têm práticas tradicionais, porque a escola é tradicional, mas abrem parênteses construtivistas", diz Bernard Charlot, professor emérito da Universidade Paris 8 e atualmente docente na Universidade Federal de Sergipe. Na prática, propõem trabalhos em grupo, mas não abandonam a lousa e o giz.

Essa mescla de métodos, no entanto, não é necessariamente negativa, segundo Charlot, desde que o aluno seja motivado a pensar em vez de só ouvir e anotar. "Há métodos melhores para alguns alunos e outros melhores para outros. Quando se mesclam, cresce a possibilidade de que mais alunos aprendam." Nélio Bizzo, professor da Faculdade de Educação da USP, concorda. "Não se pode pensar que você vai alfabetizar uma classe inteira com uma teoria pedagógica."

O Albert Sabin, por exemplo, é socioconstrutivista (privilegia o debate de ideias e a interação entre alunos e o professor), mas se permite usar o chamado material dourado.

De inspiração montessoriana, ele facilita o entendimento dos números. "O mesmo material didático pode ser trabalhado de forma construtivista ou tradicional", diz Giselle Magnossão, diretora pedagógica.

O importante, para Silvio Barini Pinto, diretor do colégio São Domingos, é não ter receitas para o aprendizado, mas sim jogo de cintura para misturar diferentes linhas.

Por isso educadores dizem que, ao escolher um colégio, os pais não devem se prender a rótulos, mas analisar as práticas em sala de aula e se os objetivos da escola combinam com o que eles querem para seus filhos.

Foi o que Jaqueline Maria Rapoza Cruz fez ao escolher o colégio de sua filha Maria Clara, 8. Ela conta que se decidiu pelo Sion quando ouviu que a filha aprenderia por meio de brincadeiras. Satisfeita, matriculou na escola a caçula Isabella, 5, e ainda se tornou professora de inglês do colégio.

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Em São Paulo, 30 de Novembro de 2009

Cinco anos deste space (e um pouco de história de vida)

No dia 2 de Dezembro, daqui a dias, este space comemora cinco anos de vida.

Quando chegarmos lá, serão, ao todo, sessenta meses, mais de mil e oitocentos dias…

Dos sessenta meses, só em dois (Abril de 2005 e Outubro de 2006) não escrevi nada no blog.

Em compensação, em dois meses (Agosto de 2007 e Agosto de 2008) escrevi vinte artigos no mês. Na verdade, Agosto parece ser o meu mês mais prolífico: a média de artigos nos cinco meses de Agosto foi de 15.73.

Ao todo foram 480 artigos (481 com este) no blog, o que dá uma média mensal de oito artigos. Isso não contando os spaces filhotes, dos quais há varios…

Também criei, nesse período, nada menos do que quarenta albuns de fotografia… E criei listas de filmes favoritos, com um pequeno resumo, o meu “credo liberal”, e outras coisas mais… E cada um tem seus albuns de fotografias.

O começo deste space foi modesto, em 2 de Dezembro de 2004. Criei-o por sugestão da Márcia Teixeira, amiga querida e, naquela época, Gerente de Educação da Microsoft no Brasil. (Hoje a Márcia trabalha na sede latinoamericana da Microsoft em Fort Lauderdale, FL, EUA).

Nessa ocasião eu estava na região de Seattle, WA, nos Estados Unidos, com a Ana Teresa Ralston, que trabalhava com a Márcia Teixeira no Grupo de Educação da Microsoft Brasil. Estávamos fazendo um treinamento, conduzido por Lester Joseph Foltos, na Puget Sound Center for Teaching, Learning and Technology, perto da sede da Microsoft, na grande Seattle (a sede da Microsoft é numa cidadezinha chamada Redmond, perto de uma cidade um pouco maior, chamada Bellevue, que fica perto de Seattle…).

Eis uma foto de uma reunião que tivemos na região de Seattle (Meadowdale Elementary School), na qual Peer Coaching era amplamente utilizado.

Passamos estudando Peer Coaching uma semana no Puget Sound Center – semana que foi cheia de frutos. Um dos frutos foi trazer “Peer Coaching” (batizado como “Aprender em Parceria”) para o Brasil – para apliçação, a partir de 2005, depois de sofrer várias modificações que o “tupiniquizaram” um pouco…

Um outro fruto dessa semana foi o início de um romance bonito entre a Ana Tereza e o Les. Sou amigo dos dois, gosto muito deles, e sinto que circunstâncias complicadas envolvendo filhos, trabalho e uma distância de mais de 10.000 km não tenham permitido que esse amor tivesse a continuidade natural que romances bonitos como esse normalmente têm… Estivemos, a Paloma e eu, com o Les, no início deste mês, em Salvador, e com a Ana Tereza, no final do mês (ante-ontem), em uma reunião da Comunidade Praxis, realizada no Colégio Dante Allighieri, em São Paulo. Abaixo, uma foto da Paloma com a Ana e o Les (e um figurante — sorry, Alexandre…), tirada em 8 de Junho de 2005 – as circunstâncias são explicadas adiante:

Alexandre, Ana, Eu e Les

Les Foltos veio ao Brasil pelo menos duas vezes em 2005, para ministrar formação para educadores brasileiros. A primeira vez foi em Fevereiro (de 14 a 18), a outra em Junho (de 7 a 10). Em ambas as ocasiões veio acompanhado por Shelly, A formação foi ministrada em duas fases de uma semana cada (cinco dias úteis). Ambas as fases foram ministradas no Information Technology Academy Center (ITAC) da Microsoft, nas dependências do Bradesco Information Technology (BIT) da Fundação Bradesco (FB) em Campinas. (O BIT foi fundado nas dependências da antiga Fazenda Sete Quedas, de Amador Aguiar, que já abrigava a Escola da Fundação Bradesco em Campinas. O BIT fica no km 3,5 da Rodovia SP-73, antiga Estrada Campinas-Indaiatuba).

Entre a primeira e a segunda fase da formação ministrada por Les Foltos começamos a multiplicar, por nós mesmos, a formação da primeira fase…

De 10 a 12 de Maio (2005) fizemos um primeiro ensaio no SENAC da Lapa (Rua Tito, 54). Ali oferecemos a primeira parte da formação para um grupo seleto de educadores que já possuíam algum envolvimento com a Microsoft. Ana Tereza Ralston e eu (que vinha adaptando o material para as condições brasileiras) coordenamos uma equipe constituída por Mônica Gardelli Franco (hoje Assessora da Vice-Presidência da TV Cultura) e Luciana Maria Allan (hoje Diretora Executiva da ONG Instituto Crescer para a Cidadania). Elas ministraram essa primeira experiência, que contou com uma fala da Ana e outra minha, apresentando a metodologia original e as mudanças feitas aqui no Brasil. 

Eis algumas das pessoas que participaram, como “vítimas”, dessa experiência do Aprender em Parceria brasileiro:

Paloma Epprecht e Machado (depois de passar pela Secretaria Municipal de Educação de São Bernardo do Campo e pelo Instituto Lumiar, é hoje
autônoma no CENPEC, na Fundação Bradesco e no Instituto Crescer para a Cidadania – e minha mulher, companheira, parceira…)

Mary Grace Martins (depois de passar pela Secretaria Municipal de Educação de São Bernardo do Campo é hoje consultora autônoma e uma das sócias da ONG Instituto Paramitas,com vários clientes espalhados pelo Brasil)

Rose Benedita da Silva (hoje Diretora de escola na Secretaria Municipal de Educação de São Bernardo do Campo)

Teresa Cristina Jordão (hoje consultora autônoma e uma das sócias da ONG Instituto Paramitas)

Cláudia Stippe (hoje consultora autônoma, trabalhando na TV Cultura e na Microsoft, e uma das sócias da ONG Instituto Paramitas)

Cláudio André (hoje no Ministério da Educação)

Rubem Paulo Saldanha (depois de passar pelo Instituto Ayrton Senna, pela Microsoft e pela TV Cultura, está agora Gerente de Educação da Intel Brasil)

Márcia Padilha Lotito (hoje no Instituto para o Desenvolvimento e a Inovação Educativa (IDIE) da Organização dos Estados Iberoamericanos para a Educação, a Ciência e a Cultura (OEI) e da Fundación Telefónica)

Sonia Bertocchi (ainda no CENPEC)

Nelli Mengalli (atualmente na Secretaria Estadual da Educação de São Paulo, na Coordenadoria de Ensino do Interior – CEI)

Gilda Piorino (atualmente na Secretaria Estadual de Educação, na Coordenadoria de Ensino do Interior – CEI)

José Carlos (JC) Antonio (atualmente na rede estadual de São Paulo e no CENPEC)

Carla Massaretto (por favor, se ler, me informe!)

Érika Neves Oliveira (por favor, se ler, me informe!)

De 31 de Maio a 3 de Junho (ainda 2005) essa formação ministrada no SENAC da Lapa foi repetida, desta vez no ITAC, da Fundação Bradesco, para professores da Fundação Bradesco. A equipe responsável foi novamente constituída por Mônica Gardelli Franco e Luciana Allan, mas agora com o apoio de Mary Grace Martins, Paloma Epprecht e Machado, Nelly Mengalli e Erika Neves Oliveira. As “vítimas”, neste caso, como já dito, foram professores da Fundação Bradesco (que, é bom que se diga, continuam replicando o programa internamente até hoje).

De 7 a 10 de Junho (ainda 2005) o Les Foltos ofereceu, no ITAC, a segunda parte de sua formação, para quem havia feito a primeira fase, ou com ele, em Fevereiro, ou na experiência interna do SENAC da Lapa.

Essas três ocasiões – 10 a 12 de Maio, no SENAC da Lapa, 31 de Maio a 3 de Junho, e 7 a 10 de Junho, ambas no ITAC – vieram a ser muito importantes para mim. Nelas passei momentos importantes com a Paloma. Na realidade, foram nossos primeiros momentos juntos. (A gente já havia se encontrado, entre 25 e 27 de Agosto de 2004, no TechEduc@tion, em São Paulo, onde dei uma palestra. A Mary Grace nos apresentou. Mas esse encontro foi rápido demais para me deixar uma impressão. Depois disso, só nos encontramos no SENAC da Lapa, onde ela chegou com a motocicleta dela. Chamou-me a atenção, primeiro, o fato de que uma moça tão linda e tão doce pudesse ser motoqueira…).

No dia 11 de Maio de 2005 a Paloma e eu saímos juntos numa foto, pela primeira vez, almoçando na calçada de um restaurante em frente ao SENAC da Lapa (com um monte de outras pessoas).

Na formação ministrada no ITAC, a Paloma tirou algumas fotos de mim (e de várias pessoas). Gosto, em especial, de uma em que estou na frente de um painel lindo da Microsoft (em que meninos brincando numa árvore imaginam que estão pilotando um avião a jato…).

Eu mal imaginava, naquela ocasião, que ali, em Maio e Junho de 2005, estava nascendo um grande amor – que só iria desabrochar cerca de três anos depois, quando trabalhávamos juntos no Instituto Lumiar… Mas foi a impressão daqueles encontros de 2005 que me fez lembrar dela quando, em Julho de 2007, precisei escolher alguém para trabalhar comigo no Instituto Lumiar…

O restaurante em que almoçamos no dia 11 de Maio na Lapa era chamado Cacilda, e ficava na mesma rua do SENAC, a Rua Tito, no número 237. O nome do restaurante se justifica porque o Teatro Cacilda Becker fica na mesma rua, no número 295.

Eis a foto do nosso almoço, com a Paloma sentadinha do meu lado, tirada não sei por quem, com a câmera da Paloma, e três fotos do restaurante, em si, essas retiradas do site do restaurante, que pode ser visitado em http://www.cacildabarerestaurante.com.br.

EC e PC SENAC Lapa 20050511

Cacilda Bar e Restaurante

Cacilda Bar e Restaurante 02

Cacilda Bar e Restaurante 03

Esta é a foto que a Paloma tirou de mim em Junho no ITAC em 2 de Junho, na frente do painel do “avião”:

EC ITAC 20050602

Como se pode ver, estou com barba… E estava mais magro…

O painel era uma versão gigantesca desta foto:

Microsoft 04

Nessa mesma data, a Paloma tirou al
gumas fotos de mim dando uma entrevista. Eis uma delas:

EC entrevista ITAC 20050602 - 1

Na semana seguinte, foi a vez de a Paloma ser fotografada na frente de um dos painéis – este um painel de crianças pretendendo estar tocando numa “orquestra”:

PC ITAC 20060609

Desse sorriso, nunca mais me esqueci…

É esta a foto que virou o painel que está atrás da Paloma:

Microsoft 01

Eis aqui, finalmente, nessa seqüência, uma foto da  Paloma com a Mary e a Rose (as duas melhores amigas dela, que também eram minhas amigas e viraram nossas “madrinhas”), tirada na segunda fase da formação do Les, em Campinas, no Meliá Comfort, em 31 de Maio de 2005:

Uma linda amizade!

As três estão muito lindas…

[PS 1 – Escrevi a maior parte deste post no dia 26 de Novembro de 2009, Dia de Ação de Graças… Escrevi, nesse dia, o seguinte no FaceBook: “Thanksgiving Day… Dia de Ação de Graças. Feriado, nos Estados Unidos. Aqui, não. Que cada um procure, em introspecção, as grandes e pequenas coisas pelas quais deve ser grato, e que manifeste essa gratidão de alguma forma”.  Eu sou muito grato por essa história de amor semi-relatada aqui, no bojo da história do blog… E por muito mais.]

[PS 2 – Ouço, agora, com a Paloma, na madrugada de 27 de Novembro de 2009, no Programa do Jô, uma cantora portuguesa fabulosa: Mariza. É fadista, mas cantou uma música brasileira com perfeição e com uma emoção altamente contagiante… Ver http://www.mariza.com/]

[PS 3 – O Rubem Paulo elogiou minha memória no FaceBook… Isso me fez lembrar de que ela não é tão boa assim, e que muitos dos fatos e nomes aqui relatados, e quase todas as fotos, foram contribuições voluntárias e valiosas da Paloma… ela sim, com uma memória prodigiosa.]

Em São Paulo, na madrugada de 27 de Novembro de 2009

A mágica da leitura

Confúcio Aires Moura, que, se não me engano, é prefeito de Ariquemes, RO, colocou no FaceBook:

“Não é fácil fazer o povo ler. Melhor a TV. O Ratinho. Média de l livro por ano por brasilieiro adulto. Aqui lancei o programa Cuia do Livro. Desenhamos uma biblioteca em duas rodas, empurrada por uma pessoa, que fica em cada rua, com 150 titulos e além de lieratura infantil. São cinco cuias. Só pra começar. Vamos ver no que dá.”

Respondi:

“Ninguém consegue ‘fazer o povo ler’, Confúcio, se o povo não quer ler, se acha que tem algo mais importante, interessante ou urgente para fazer. O desafio é ajudar o povo a descobrir as coisas importantes e interessantes que o povo pode aprender lendo… Quando alguém descobre isso, a leitura se torna uma necessidade urgente. Mas essa descoberta precisa começar quando a gente é pequeno, antes de a gente aprender a ler, quando alguém lê para a gente… Para que descubramos a mágica da leitura, não basta que alguém nos conte histórias: é necessário que alguém nos leia histórias.”

Quem quiser participar dessa importantíssima discussão (Como conseguir que o povo leia, goste de ler, leia com e por prazer?), por favor, comente, aqui no blog (ec.spaces.live.com) ou na transcrição desta mensagem no próprio FaceBook.

Em São Paulo, 25 de Novembro de 2009

Wal-Mart vs Amazon

Abaixo, matéria retirada de The New York Times de hoje. 

É incrível.

Há no momento uma guerra de preços entre o todo-poderoso Wal-Mart, o maior varejista do mundo, e… a Amazon – que, de uma livraria on-line passou a ser um shopping center online.

Fantástico. Quem diria?

A guerra de um modelo tradicional de negócios com um modelo de negócios inovador, baseado na tecnologia, orientado para o futuro.

O Wal-Mart tem vendas anuais de 405 bilhões de dólares. A Amazon, de 20 bilhões. Mas o Wal-Mart sabe que está lutando pela sua sobrevivência… Não hoje – mas no futuro… A Amazon está lutando para ganhar mercado… O Wal-Mart, para não perder mercado…

É fabuloso poder observar essa guerra. O consumidor será o maior beneficiado.

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The New York Times
November 24, 2009

Price War Brews Between Amazon and Wal-Mart

By BRAD STONE and STEPHANIE ROSENBLOOM

Ali had Frazier. Coke has Pepsi. The Yankees have the Red Sox.

Now Wal-Mart, the mightiest retail giant in history, may have met its own worthy adversary: Amazon.com.

In what is emerging as one of the main story lines of the 2009 post-recession shopping season, the two heavyweight retailers are waging an online price war that is spreading through product areas like books, movies, toys and electronics.

The tussle began last month as a relatively trivial but highly public back-and-forth over which company had the lowest prices on the most anticipated new books and DVDs this fall. By last week, it had spread to select video game consoles, mobile phones, even to the humble Easy-Bake Oven, a 45-year-old toy from Hasbro that usually heats up small cakes, not tensions between billion-dollar corporations.

Last Wednesday, Wal-Mart dropped the price of the oven to $17, from $28, as part of its “Black Friday” deals. Later the same day, Amazon cut its price, which had also been $28, to $18.

“It’s not about the prices of books and movies anymore. There is a bigger battle being fought,” said Fiona Dias, executive vice president at GSI Commerce, which manages the Web sites of large retailers. “The price-sniping by Wal-Mart is part of a greater strategic plan. They are just not going to cede their business to Amazon.”

Retailers are already fighting for every dollar consumers spend this holiday season. Sales are not expected to drop as much as they did last season, but the National Retail Federation, an industry group, predicts that they will decline 1 percent, to $437.6 billion.

Of course, Wal-Mart and Amazon are fundamentally different companies, and for now, at least, Amazon poses little immediate threat to the behemoth from Bentonville, Ark.

Wal-Mart, with $405 billion in sales last year, dominates by offering affordable prices to Middle America in its 4,000 stores. Amazon is a relative schooner to Wal-Mart’s ocean liner, with $20 billion in sales, mostly from affluent urbanites who would rather click with their mouse than push around a cart.

This fight, then, is all about the future. Rapid expansion by each company, as well as profound shifts in the high-tech landscape, now make direct confrontation inevitable.

Though online shopping accounts for only around 4 percent of retail sales, that percentage is growing quickly. E-commerce did not suffer as deeply as regular retailing during the economic malaise, and it is recovering faster than in-store shopping. People are also shopping on smartphones and from their HDTVs.

Amazon, based in Seattle, has harnessed all of these trends, and is also behaving more like a traditional retailer. This fall it expanded its white-labeling program, slapping the Amazon brand onto audio and video cables and other products, and introduced same-day shipping in seven cities, trying to replicate the instant gratification of offline shopping.

For rivals both real and putative, Amazon is expanding its slice of the retail pie at what must be an alarming rate. In the third quarter of this year, regular retail sales dipped by about 4 percent and e-commerce over all was flat. But Amazon sales shot up 24 percent, sending its shares soaring.

More important for Wal-Mart, sales in Amazon’s electronics and general merchandise business — which competes directly with much of the selection in Wal-Mart stores — were up 44 percent. Wal-Mart does not break out Web sales, but it has been reported that its online business produces revenue of several billion dollars.

“If you are Wal-Mart, you want to have your proportional piece of this change in consumer behavior,” said Scot Wingo, chief executive of ChannelAdvisor, which helps retailers sell online. “You can even paint a scenario where e-commerce one day is 15 percent of all shopping, and that could really start to erode Wal-Mart’s offline business.”

That is why many analysts are unsurprised that Wal-Mart executives have placed Amazon squarely in their sights, with public throw-downs in interviews and pointed discounting.

It began last month with what appeared to be a public-relations-oriented competition on book prices, with both companies (along with Target, based in Minneapolis) dropping prices on books like “Under the Dome,” by Stephen King, to below $9.

The companies then began jousting over the prices of DVDs. Less visibly, there were isolated skirmishes, some of which also lowered prices in Wal-Mart’s stores. Wal-Mart offered a $15 gift card with a purchase of the new video game Call of Duty: Modern Warfare 2 — and Amazon matched soon after.

Wal-Mart and Amazon then both offered the Xbox 360 gaming console for $199 — with a $100 gift card thrown in. Last week, they both began offering the new Palm Pixi phone for around $30 — nearly $175 off the suggested retail price.

Of course, online retailers have always competed on price, monitoring rivals’ sites for changes and adjusting accordingly.

“We’ve grown up in a supercompetitive environment where customers can check prices with one click, and we like it that way,” said Craig Berman, an Amazon spokesman.

But rhetoric from Wal-Mart itself has stoked the flames of rivalry. In an interview last week, Raul Vazquez, the president and chief executive of Walmart.com, asserted that the site was growing faster than Amazon’s; suggested that Amazon Prime, a two-day-shipping service that costs $80 a year, was too expensive; and said that it was “only a matter of time” before Wal-Mart dominated Web shopping.

“Our company is based on low prices,” Mr. Vazquez said, laying down a challenge. “Even in books, we kept going until we were the low-price leader. And we will do that in every category if we need to.”

Friction between the two companies is not entirely new. In the late 1990s, Amazon assembled at least some of its knowledge of retail supply chains by hiring away Wal-Mart employees. Wal-Mart sued, and the two companies settled privately.

In a battle over prices, Wal-Mart is on more familiar turf. With its unmatched size, Wal-Mart has more leverage than anyone to negotiate better terms with suppliers. Offering the lowest price “is in our DNA,” Mr. Vazquez said.

Among Amazon’s advantages are a sophisticated distribution network built specifically for Web shopping, the thousands of outside sellers who offer products on Amazon.com, and a recognizable online brand. Amazon’s customers also do not pay sales tax in most states, a crucial advantage that companies like Wal-Mart, and their lobbyists, are trying to eliminate.

Jeffrey P. Bezos, Amazon’s chief executive, is fond of saying that retailing is a big market with room for many winners. But for Ms. Dias, from GSI Commerce, Wal-Mart’s campaign against Amazon is overdue. As an executive at the now-defunct Circuit City chain, and as an adviser to traditional retailers today, she says she has watched many companies overlook the long-term threat posed by Amazon.

“We have to put our foot down and refuse to let them grow more powerful,” she said. “I applaud Wal-Mart. It’s about time multichannel retailers stood up and refused to let their business go away.”

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Em 28/11/2009 a Folha de S. Paulo publicou essa matéria, que é uma tradução da matéria transcrita atrás.

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Folha de S. Paulo
28 de Novembro de 2009

Wal-Mart e Amazon declaram guerra

Gigante do varejo e rede virtual disputam preços em batalha que sinalizará melhor modelo de negócio

Compras on-line respondem hoje por apenas 4% do total de vendas nos EUA, mas índice cresce rapidamente e preocupa lojas tradicionais

DO "NEW YORK TIMES"

O Wal-Mart, o mais poderoso gigante da história do varejo, pode enfim ter encontrado um adversário à sua altura: a Amazon.com.

No que vem emergindo como uma das principais histórias na temporada natalina pós-recessão de 2009, os dois pesos pesados do varejo estão travando uma guerra de preços on-line que está se espalhando a todas as áreas de produtos, tais como livros, filmes, brinquedos e bens eletrônicos.

A disputa começou no mês passado como uma troca relativamente trivial de alegações sobre qual das duas empresas oferecia os menores preços para os lançamentos de livros e DVDs mais aguardados da temporada. Mas na semana passada a disputa havia se expandido a consoles de videogames, celulares e até mesmo ao modesto Easy-Bake Oven, um brinquedo criado há 45 anos pela Hasbro e que serve em geral para aquecer bolinhos, e não tensões entre empresas bilionárias.

Na quarta, a Wal-Mart reduziu o preço do forno de US$ 28 para US$ 17, como parte de suas ofertas especiais para a "Sexta-Feira Negra", o dia de alto movimento no comércio que se segue ao feriado de Ação de Graças. No mesmo dia, a Amazon.com também anunciou um corte de preços, dos mesmos US$ 28 para US$ 18.

"Não se trata mais de uma questão de preços de livros e filmes. Existe uma batalha maior em curso", disse Fiona Dias, vice-presidente-executiva da GSI Commerce, que administra sites para grandes redes de varejo. "O ataque iniciado pela Wal-Mart quanto aos preços é parte de um plano estratégico muito mais amplo. Eles não pretendem entregar seu negócio à Amazon.com."

O varejo está lutando dólar a dólar pelo dinheiro que os consumidores gastarão nesta temporada de festas. As vendas não devem cair tanto quanto no ano passado, mas a Federação Nacional do Varejo prevê que elas ainda assim registrarão declínio, da ordem de 1%, para US$ 437,6 bilhões.

Evidentemente, Wal-Mart e Amazon.com são empresas fundamentalmente diferentes e, pelo menos por enquanto, a Amazon não é ameaça imediata à gigante do varejo físico, sediada em Bentonville, Arkansas.

A Wal-Mart, com vendas de US$ 405 bilhões no ano passado, domina o mercado ao oferecer preços acessíveis aos consumidores médios norte-americanos, nas 4.000 lojas de sua rede. A Amazon.com não passa de um barco de turismo diante do transatlântico da Wal-Mart, com vendas de US$ 20 bilhões, em geral para cidadãos urbanos afluentes que preferem fazer compras com um mouse a fazê-las num supermercado.

A disputa, portanto, gira em torno do futuro. A rápida expansão de ambas as empresas, bem como as profundas mudanças na paisagem do setor de tecnologia, agora tornam inevitável um confronto direto.

Ainda que as compras on-line respondam por apenas 4% do total de vendas do varejo norte-america
no, essa porcentagem vem crescendo rapidamente. O comércio eletrônico não sofreu tanto quanto o comércio convencional durante o período de crise econômica e está se recuperando mais rápido do que o varejo físico. As pessoas agora também fazem compras de seus televisores de alta definição e de seus celulares inteligentes.

A Amazon.com, sediada em Seattle, conseguiu aproveitar todas essas tendências, e também começou a se comportar mais como uma companhia tradicional de varejo.

Neste final de ano, ela expandiu seu programa de marcas e ampliou o número de cabos de som, vídeo e outros itens que estão sendo vendidos sob a sua marca. Além disso, a companhia introduziu um serviço de entregas no mesmo dia em sete cidades dos Estados Unidos, em um esforço para reproduzir a sensação de gratificação instantânea oferecida pelas compras físicas.

Tradução de Paulo Migliacci

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Em São Paulo, 24 de Novembro de 2009

Os meandros da visão jurídica do Ministério da Saúde

Embora eu seja um defensor ferrenho da liberdade de cada um se meter em qualquer coisa que seja de seu interesse, independentemente de suas atribuições formais, devo reconhecer que estranhas coisas acontecem quando um ministério se mete a discutir assuntos fora de suas atribuições. Vejam a notícia adiante, publicada na Folha de S. Paulo de hoje.

Para o Ministério da Saúde, transmitir o virus da AIDS não é crime – ainda que o transmissor saiba que é portador do virus e conscientemente mantenha relações sexuais com alguém que não é portador(a) do virus.

Para o ministério, para que a transmissão do HIV seja considerada crime é necessário comprovar que o contaminador teve a intenção de passar o vírus para o(a) parceiro(a) – algo que, aqui entre nós, é virtualmente impossível de comprovar, sem confissão. Em outras palavras, se o contaminador nega que teve a intenção de contaminar, deverá ser considerado inocente, mesmo que:

  • O portador saiba que é portador do virus;
  • Mesmo assim, o portador mantém relações sexuais não protegidas com um(a) parceiro(a) não contaminado(a);
  • O(a) parceiro(a) morre em decorrência da transmissão do virus e a conseqüente contaminação.

Imaginemos uma analogia.

  • Eu encho a cara de bebida num bar e fico para lá de Badgad de bêbado;
  • Eu resolvo ir para casa dirigindo o meu carro e, no caminho, eu saio da calçada e atropelo uma pessoa que esperava o ônibus;
  • A pessoa atropelada morre em decorrência do atropelamento;
  • Eu afirmo que não tive a intenção de matar a pessoa que esperava o ônibus.

Segundo o Ministério da Saúde, eu também deveria ser considerado inocente dessa morte. Absurdo.

Concordo totalmente com a posição de Damásio de Jesus, descrita na matéria abaixo. É uma vergonha a posição do Ministério da Saúde. É uma vergonha também a posição do Coordenador da tal ONG Grupo pela Vida. Ela só pensa na vida dos aidéticos – não da vida daqueles que sofrem as conseqüências de aidéticos que se comportam irresponsavelmente.

Eis a matéria da Folha,

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Folha de S. Paulo
24 de Novembro de 2009

Para ministério, transmitir Aids não é crime

Pasta da Saúde recomendará ao Judiciário não criminalizar quem saiba ser soropositivo e tenha tido relações sexuais sem proteção

Ministério sustenta que, para que a transmissão do HIV seja considerada crime, é necessário comprovar a intenção de passar o vírus

ANGELA PINHO
JOHANNA NUBLAT
DA SUCURSAL DE BRASÍLIA

A transmissão do HIV (vírus da Aids), mesmo que por uma pessoa que saiba ser portadora do vírus e tenha mantido relações sexuais sem proteção, não deve ser criminalizada por si só. Essa é a posição defendida pelo Ministério da Saúde, que prepara uma nota pública sobre o tema endereçada a profissionais da Justiça.
Recentemente, em São Paulo, um homem foi condenado por homicídio doloso (em que há intenção de matar) por ter supostamente transmitido o vírus HIV à sua amante.

Ele disse que não contou a ela ser portador do vírus porque estava apaixonado e tinha medo de perdê-la, mas acabou sendo condenado a dois anos e meio de reclusão. Casos como esse vêm se repetindo no Judiciário, e ao menos um já chegou ao Supremo Tribunal Federal, onde aguarda julgamento.

Para Eduardo Barbosa, diretor-adjunto do Departamento de DST, Aids e Hepatite do Ministério da Saúde, para que a transmissão seja considerada crime é preciso comprovar que o soropositivo teve a intenção de passar o vírus.

"Num contexto cotidiano, das relações sexuais afetivas, é muito difícil você estabelecer uma culpa. É possível analisar particularmente dentro de uma perspectiva de intencionalidade. Na medida em que tiver essa intencionalidade de ferir e transmitir, é diferente."

Ele diz também que é preciso considerar a existência de "fatores psicossociais", o estágio de tratamento da doença e a corresponsabilidade do parceiro de também se proteger.

A nota vai contra uma tendência mundial de criminalizar quem transmite a doença, afirma Barbosa. "Alguns países acabam adotando essas medidas como se fosse possível, isolando e culpabilizando, controlar a epidemia."

Dolo eventual

O professor de direito penal Damásio de Jesus discorda dessa tese. Na sua opinião, se ficar provado que o soropositivo sabia que tinha o vírus e ainda assim não se protegeu nas relações, deveria ser acusado de tentativa de homicídio ou, caso a vítima tenha morrido, de homicídio.

Sua tese se aplica mesmo aos casos em que o portador do HIV não tinha a intenção de transmitir o vírus, mas não contou o fato ao parceiro ou à parceira por vergonha ou medo de se expor. Nesse caso, para ele, seria aplicada a tese de dolo eventual, em que o acusado não tem intenção de cometer o crime, mas assume o risco de ele ocorrer.

Mário Scheffer, coordenador da ONG Grupo Pela Vida, apoia a iniciativa do ministério e defende que a eventual responsabilização do soropositivo só pode ser feita após a comprovação dos seguintes pontos: que a pessoa sabia que era portadora do vírus e que podia transmiti-lo, que teve relações sexuais desprotegidas, que o parceiro ou parceira está infectado, que os dois tiveram relações sexuais desprotegidas, que ele não tinha HIV antes do relacionamento e que ambos têm variedades de HIV compatíveis.

"Se for comprovada a intencionalidade, aí cabe à Justiça avaliar o caso", diz Scheffer.

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Em São Paulo, 24 de Novembro de 2009

Mudança NA e DA Educação

Transcrevo, adiante, excelente artigo do Rubem Alves sobre o vestibular.

Faço-o, não porque o tema especialmente me entusiasme.

A razão da transcrição está no fato de que, ao discutir o vestibular, o Rubem Alves traça considerações importantes sobre uma questão mais ampla, que, esta sim, me entusiasma: a questão das mudanças NA e DA educação.

Aproveito o “gancho” do Rubem para abordar essa questão.

A educação brasileira está em estado calamitoso. Todo mundo sabe disso. Ninguém ousa discordar. Já está assim há algum tempo.

E, pessoalmente, não acho que seja apenas o sistema público de educação que esteja a requerer mudanças. A educação das escolas (e redes de escolas) privadas também é muito ruim – com honrosas exceções.

Dê-se crédito ao então Ministro da Educação, Paulo Renato Costa Souza, que, em sua longa gestão de oito anos frente ao Ministério da Educação, durante o governo FHC, tentou promover a melhoria da educação brasileira de uma maneira sistêmica, abordando a questão do ângulo (que me parece correto) da mudança da educação como um todo – não de mudanças parciais, pequenas, graduais, superficiais, incrementais, aqui e ali (hoje se muda uma porta, amanhã uma janela…).

As mudanças parciais, pequenas, graduais, superficiais, incrementais, aqui e ali, são o que o Rubem Alves chama (biblicamente) de remendos: elas tentam colocar tecido novo para tapar buraco de tecido velho, já podre…  Não adianta, no buraco “Acesso ao Ensino Superior”, colocar um remendo de tecido novo. O problema não é aquele buraco, especificamente: o problema está em todo o tecido que forma a educação brasileira, que está literalmente podre.

Cito o Rubem Alves citando outro autor (a passagem inteira está adiante):

“O problema não é o buraco; é a podridão do tecido. Nas palavras de Jay W. Forrester, cientista, professor de administração do MIT (Massachusetts Institute of Technology): “Em situações complicadas, esforços para melhorar as coisas frequentemente tendem a torná-las piores, algumas vezes muito piores e – ocasionalmente – calamitosas”.

David Hargreaves, em um pequenino livro chamado Education Epidemic, disponível na Internet, me ajudou a ver essa questão da forma que hoje a vejo – que é basicamente idêntica à forma em que o Rubem Alves a vê.

Hargreaves me ajudou a ver que há dois tipos de mudanças:

  • Umas acontecem dentro de um paradigma e, portanto, são parciais, pequenas, lentas, graduais, superficiais, incrementais, reformando, mas não transformando o paradigma
  • Outras são sistêmicas, maiores, rápidas, súbitas, profundas, abrangendo o todo, mexendo em tudo, e subvertem o paradigma, levando não à sua reforma, mas à sua transformação e substituição

O que faz com que passemos de um tipo de mudança para o outro é a dinâmica de inovação. O seguinte quadro ilustra o que quero dizer:

image

No caso da educação brasileira, portanto, vemo-nos diante da seguinte alternativa:

  • Realizar mudanças dentro do atual paradigma da escola, ficando próximos da prática atual, reformando aspectos não-fundamentais da escola, e, portanto, promovendo mudança NA educação
  • Mudar o paradigma, transformando, pela inovação, a própria educação (e a instituição escolar – reinventando a escola), de modo a alcançar, assim, a mudança DA educação

Não há mais dúvida de que as mudanças que ocorreram no mundo, inclusive no Brasil, nos últimos sessenta e cinco anos (desde o fim da Segunda Guerra Mundial, mais ou menos) são tantas, de tamanho alcance e profundidade, que estão a justificar a escolha da segunda alternativa. Só na área das tecnologias de informação e comunicação, temos, nesse período, a popularização do rádio e do telefone, a invenção da televisão, a invenção do computador digital, a miniaturização dos componentes eletrônicos que permitiu o aparecimento de toda sorte de equipamento eletrônico-digital, como o próprio microcomputador e o telefone celular, a expansão das telecomunicações via satélite, a criação de redes de computadores de alcance global, como a Internet, a invenção do e-mail, da Web, das mensagens de texto/áudio/vídeo instantâneas, as mídias sociais…

Todas essas mudanças alteraram profundamente a informação disponível, a forma em que acedemos a ela, as maneiras com que nos comunicamos uns com os outros, trabalhamos e nos divertimos – enfim, a forma em que vivemos. É difícil entender como alguns podem imaginar que essas mudanças não nos obrigam a rever as formas em que aprendemos e, por conseguinte, a reinventar a educação (e, dentro dela, a escola). Não será possível nos safar com pequenos ajustes aqui e ali na instituição escolar, como por exemplo, a introdução da tecnologia, a inserção de alfabetização digital ou da fluência tecnológica no currículo, a formação de professores para dominar o manejo técnico da tecnologia, etc. NÃO: as mudanças que a nova realidade vai obrigar a escola a realizar são mais amplas, profundas, e radicais do que essas. Elas envolvem uma mudança de paradigma.

Jay Allard, um dos vice-presidentes da Microsoft, disse, em uma entrevista à revista Business Week de 4 de Dezembro de 2006, o seguinte (p.64):

“Para mudar o mundo, precisamos imaginá-lo diferente do que é hoje. Se usarmos, nessa visão, muito do conhecimento e da experiência que nos trouxeram até aqui, terminaremos exatamente onde começamos. … Para ter um resultado diferente, temos de olhar às coisas de uma perspectiva radicalmente diferente”

Concordo plenamente com essa afirmação. Temos de reconhecer que as mudanças por que o mundo tem passado nos últimos tempos nos obrigam a ter um olhar diferente para as coisas da educação – caso contrário, continuaremos a ter uma instituição escolar anacrônica.

O meu trabalho nos últimos 30 anos tem se concentrado, em grande medida, no seguinte:

  • Demonstrar a necessidade de mudança de paradigma na educação, à vista das mudanças radicais, amplas e profundas, que aconteceram no mundo nos últimos 65 anos, alavancadas, em grande parte pela tecnologia, e que justificam a alegação de que ultrapassamos a Sociedade Industrial e vivemos em uma nova era, a Sociedade da Informação ou a Economia do Conhecimento;
  • Definir os elementos essenciais de um novo paradigma para a educação que leve em conta plenamente as mudanças, nos últimos 65 anos, do contexto em que a educação acontece, e que contemple uma nova visão da educação e uma nova forma de entender como aprendemos, que leve a um reconhecimento cabal do papel da tecnologia na vida, no trabalho, no lazer e, naturalmente, na aprendizagem;
  • Detalhar as mudanças necessárias dos ambientes de aprendizagem (vale dizer, da escola, entre eles) para que eles se reinventem, de forma realmente inovadora, tornando-se coerentes com a nova visão e estratégia da educação e com nosso atual entendimento de como aprendemos, especialmente em contextos ricos em tecnologias de informação e comunicação.

O seguinte diagrama ilustra essa proposta:

image

Em seu artigo, o Rubem Alves diz, evocando a famosa controvérsia Kühn-Popper na área da epistemologia da ciência:

“Por séculos os astrônomos tentaram remendar os buracos que havia na teoria que punha a Terra no centro do universo. Mas não adiantava. Os buracos ficavam cada vez maiores. Tudo se resolveu quando apareceu um novo alfaiate que jogou fora a roupa velha podre e costurou uma roupa nova.”

Hoje em dia, dada a complexidade da vida, que nos exige especializações, o problema está bem mais complicado… Não basta apenas um alfaiate para costurar a roupa nova. Precisamos de toda uma fábrica de confeções em que roupas, de diversos tipos, são produzidas por máquinas sofisticadas (os verdadeiros alfaiates de hoje) que agem segundo as especificações dos designers (estes, sim, em demanda e prestígio cada vez maiores). Eu, confesso com humildade, me vejo muito mais como aprendiz de designer educacional do que como alfaiate, propriamente dito. E, depois, são necessários marketeiros e vendedores para convencer o povo a comprar as novas roupas; alfaiates (agora, sim) e costureiros para fazer os ajustes nas roupas que permitam que elas sejam usadas com conforto; profissionais que nos treinem na postura e no andar para que as roupas se mostrem atraentes e elegantes mesmo em corpos fora da curva de normalidade; e formadores de opinião que enfatizem a necessidade de andarmos bem vestidos, na moda, em sua necessária variedade, e de, portanto, usarmos bem as roupas novas e estilosas que compramos… Esse o preço que nos cobra a modernidade (ou será a pós-modernidade?).

Onde ficam os educadores aí? Li, um dia desses, que dentro de algum tempo os educadores de hoje precisarão ser substituídos por nove ou dez profissionais mais especializados…

Abaixo, o artigo do Rubem Alves. (Rubão: güenta firme aí). 

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Folha de S. Paulo
24 de Novembro de 2009

RUBEM ALVES

“…Quero é fome…”



Em nome de uma suposta excelência intelectual, o vestibular faz estragos nas cabeças dos jovens 


 

EM primeiro lugar, preciso dizer que sou teimoso. Quando estou convencido de uma ideia, não desisto fácil. Já faz 25 anos que luto contra um dragão. Inutilmente. Até hoje a besta não deu sinais de fraqueza, muito embora concorde em trocar suas escamas.

O fato é que, em nome de uma suposta excelência intelectual, o dragão faz estragos nas cabeças dos jovens. Minha primeira proposta para acabar com essa besta chamada “vestibular” data de 1984 num livrinho pobre, estórias de quem gosta de ensinar.

Em segundo lugar, preciso dizer que não acredito em melhorias e reformas. Adoto é a sabedoria evangélica enunciada há quase 2.000 anos: “Não se costura remendo de tecido novo em roupa podre. Porque o remendo de tecido novo rasga o tecido podre e o buraco fica maior do que antes”.

O problema não é o buraco; é a podridão do tecido. Nas palavras de Jay W. Forrester, cientista, professor de administração do MIT (Massachusetts Institute of Technology):

“Em situações complicadas, esforços para melhorar as coisas frequentemente tendem a torná-las piores, algumas vezes muito piores e -ocasionalmente- calamitosas”.

É preciso jogar fora a roupa podre e costurar uma roupa nova. Não é isso que é a muito falada “construção do conhecimento”? Na história da ciência é assim que acontece.

Por séculos os astrônomos tentaram remendar os buracos que havia na teoria que punha a Terra no centro do universo. Mas não adiantava. Os buracos ficavam cada vez maiores. Tudo se resolveu quando apareceu um novo alfaiate que jogou fora a roupa velha podre e costurou uma roupa nova.

Quando se anunciou – meses atrás – que os vestibulares estavam com os dias contados, fiquei muito feliz. E até escrevi um artigo dando minhas felicitações ao senhor ministro da Educação.

“Agora os vestibulares tiveram o seu fim decretado. Fico feliz porque há mais de 20 anos eu tenho estado lutando por isso. (…) Mas tenho um receio. Imaginem um restaurante que servia uma comida de gosto ruim, indigesta e que provocava vômitos e diarreia. O dono do restaurante -diante das queixas dos seus clientes- resolve fazer uma reforma na forma como a comida era servida: trocou as panelas velhas por panelas novas e a louça branca antiga por uma louça azul. Mas a comida continuou a mesma… Será que é possível que isso aconteça?”

Acho que é isso que está acontecendo. Confesso que não percebi a mudança na comida. Percebi, sim, que a mesma comida será servida de maneira diferente. Trocou-se o varejo pelo atacado. E foi por causa disso que aconteceu aquela confusão que terminou com a anulação das provas.

A importância dos vestibulares, como os vejo, não se encontra no fato de serem eles portas de entrada para as universidades.

Sua importância (des)educacional se encontra no fato que eles, os vestibulares, determinam todo o processo escolar que os antecede. Que isso é verdade se revela no fato de que os pais procuram escolas que preparem seus filhos para o vestibular, e não escolas que os eduquem. A menos que eles – os pais – identifiquem o treinamento para os vestibulares com a educação…

Para mim, fim de vestibular não é a comida de sempre servida em louça nova. A filosofia do meu projeto foi a Adélia que escreveu: “Não quero faca nem queijo. Quero é fome…”

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Em São Paulo, 24 de Novembro de 2009

A Verdade – Entre a Dúvida e a Certeza

Encontrei um twit no FaceBook hoje, já devidamente retuitado, aparentemente mais de uma vez, que me fez querer voltar a um tema sobre o qual já escrevi bastante aqui. O twit contém a seguinte frase de André Gide, em Inglês:

“Believe those who are seeking the truth; doubt those who find it.” (“Acredite naqueles que buscam a verdade; duvide daqueles que a encontram”).

A frase original, segundo me informa a WikiPedia, é: Croyez ceux qui cherchent la vérité, doutez de ceux qui la trouvent”, e foi retirada do livro Ainsi soit-il ou Les Jeux sont faits (André Gide, éd. Gallimard, Paris, 1952, p. 174).

Gosto de frases assim, porque elas parecem sugerir que procurar a verdade é mais meritório do que encontrá-la, que parece análoga a outra frase de que gosto, que afirma que a felicidade está no caminhar, mais do que no chegar ao destino…

Mas, confesso que,nessa questão fico meio dividido em meio às idéias de três filósofos (todos já falecidos) que admiro muito: David Hume, Karl Popper e Ayn Rand.

No caso do primeiro e mais antigo desses filósofos, David Hume (1711-1776), admiro muito a pessoa e as idéias. No caso dos outros dois, admiro mais as idéias do que as pessoas.

Karl Popper (1902-1994) provavelmente endossaria a frase de André Gide, sem tirar nem pôr. Foi ele que, em sua obra, defendeu aqueles que são humildes buscadores da verdade e criticou aqueles – os arrogantes – que se julgavam seus orgulhosos possuidores.

Que Popper, como pessoa, se comportasse como um orgulhoso possuidor da verdade, que não admitia a contestação nem de seus inimigos nem de seus discípulos, para mim não importa: aquilo que me interessa, no caso dele, são suas idéias, não sua biografia.

O que sobremaneira me interessa nas idéias de Popper é o seu falibilismo epistemológico. Exceto na lógica (incluindo a matemática), onde a verdade é plenamente encontrável porque, na realidade, a lógica define as regras do jogo racional, nossos julgamentos, pontos de vista, hipóteses, teorias, etc. devem, segundo ele, poder ser sempre refutadas ou falsificadas pela realidade. Se nossos julgamentos, etc. não forem refutáveis ou falsificáveis pela realidade, não dirão nada, não proibirão nenhum estado de coisas, serão vazios de conteúdo, totalmente vácuos – isto é, serão totalmente fajutos. Em outras palavras: a irrefutabilidade ou infalsificabilidade de nossos julgamentos, etc., longe de ser um mérito deles, é, para eles, um defeito epistemológico insanável – um pecado mortal no plano da epistemologia.

Essa tese me fascina – porque ela me permite voltar a fazer contato com as idéias do filósofo que, dentre todos, mais me fascina, como filósofo e como pessoa: David Hume, sobre cujas idéias escrevi minha tese de doutoramento em 1970-1972 (defesa: 8 de Agosto de 1972, University of Pittsburgh). As idéias de Hume eram céticas – e ele, como pessoa, se comportava com a humildade intelectual que um cético deve ter (afinal, ele afirma não saber nada – vai se orgulhar de quê?) e Popper diz ser essencial nos eternos buscadores da verdade.

Hume, porém, se considerava um cético mitigado, não radical – porque ele achava que a natureza humana era muito bem feita. Apesar de sermos capazes de conquistas racionais maravilhosas, somos, em última instância, movidos pelas emoções – pelas paixões violentas que movem alguns, ou, como ele preferia, pelos sentimentos brandos e calmos que devem mover os que humildemente buscam a verdade sem nunca encontrá-la. Segundo ele, a natureza colocou em nós (pelo menos na maioria de nós) uma tendência a nos inclinar para o bem e para o certo… Assim, nos comportamos da maneira certa, a maior parte do tempo, mesmo que tenhamos dúvidas racionais sobre se aquele comportamento é, de fato, correto… Sabemos, por exemplo, dizia ele, que a lei empírica que afirma que “se saltarmos da janela do terceiro andar de um prédio, vamos nos esborrachar lá embaixo” pode ser falsa, porque é, em princípio, refutável e falsificável pelos fatos, não sendo, portanto, necessariamente verdadeira. Mas nossa natureza humana é feita de tal forma que ninguém salta do terceiro andar confiando apenas na refutabilidade ou falsificabilidade da lei…

Assim, Hume é um cético que mantém a humildade dos buscadores da verdade que acreditam que nunca vão encontrá-la, daqueles que socraticamente afirmam saber que nada sabem, Mas, no fundo, ele se comporta como se houvesse coisas que ele sabe – e que ele, de alguma forma, sabe que sabe… Isso introduz uma contradição em sua obra? Creio que sim. Mas é admirável que ele a tenha admitido, tendo, conscientemente, se recusadoa se livrar dela. 

Popper chegou a afirmar, peremptoriamente, que a verdade existe e que é possível encontrá-la – mas em seguida qualificou sua afirmação dizendo que, no entanto, nunca teremos justificação bastante para afirmar que a encontramos…

Como Popper, Ayn Rand (1905-1982) não era humilde, como pessoa. Longe disso. Brigou com todo o mundo, excomungou discípulos que discordaram dela. Seu herdeiro intelectual só obteve o posto às custas de total servilismo intelectual e pessoal. Como Popper, suas idéias também apontam para a postura de quem busca a verdade. Mas diferentemente de Popper, ela acreditava (do ponto de vista epistemológico) ser perfeitamente possível encontrar ou alcançar a verdade. Na realidade, ela não tinha dúvida de que a havia encontrado… Sua busca da verdade, portanto, não era humilde… não era uma busca de quem sabe que não vai encontrá-la (como Hume), nem mesmo uma busca de quem temia que, se a encontrasse, não iria reconhecê-la como tal (como Popper). Epistemologicamente, ela era mais otimista do que Popper – e infinitamente mais otimista do que Hume…

Ou seja, em Ayn Rand temos, na pessoa, o orgulho de quem encontrou a verdade – e, portanto, não a busca mais. Segundo Gide, isso nos deveria fazer duvidar dela. Na obra de Ayn Rand ela procura nos mostrar por que estaria justificada em afirmar que havia encontrado a verdade. Tendo a concordar que ela está certa em tanta coisa, mas…

Com Popper e com Rand, e contra Hume, estou convicto de que a verdade existe e de que é possível aceder a ela. Mas, como disse, fico meio dividido entre, de um lado, a tese popperiana de que, mesmo que a verdade exista e seja encontrável, nunca poderemos ter certeza de tê-la encontrado, e, de outro lado, a tese randiana de que a verdade existe, é encontrável, e é possível ter certeza de que a encontramos (embora a justificativa dessa certeza seja extremamente complexa do ponto de visto filosófico).

Fico dividido, humeanamente, no meio: humildemente buscando a verdade, ao mesmo tempo duvidando, intelectualmente, de todas as verdades, mas com uma tendência forte a acreditar que algumas aspirantes à verdade estão bem mais próximas dela do que outras… A questão que não consegui resolver ainda é se essa tendência é, como afirmava Hume, simplesmente uma característica não-racional de minha natureza humana, ou se ela é,racional como pretende Rand – pelo menos em parte….

Talvez seja por isso que, mesmo quando julgo ter encontrado a verdade, procuro não ser arrogante – porque, quem sabe, eu estou errado e aquela besta arrogante ali do lado pode estar certa. 

Se o relato da coisa ficou meio confuso, talvez seja porque a coisa seja confusa em si, não havendo como desconfundi-la sem distorcer a realidade…

Em São Paulo, 18 de Novembro de 2009