O Contar Histórias na Era Digital (Digital Storytelling)

Hoje foi publicado meu terceiro artigo no Blog das Editoras Ática e Scipione, no endereço http://blog.aticascipione.com.br/eu-amo-educar/o-contar-historias-na-era-digital-digital-storytelling/.

É sobre Digital Storytelling – uma arte que eu aprendi na University of Virginia, com meu caro amigo Glen Bull.

Transcrevo-o aqui também.

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1. Identidade, Memória e o Contar Histórias

Nossa identidade pessoal é definida por nossas memórias – e nossas memórias são a base das histórias que somos capazes de contar: sobre nós mesmos, sobre nossos parentes, sobre nossos amores, sobre nossos amigos, sobre nosso trabalho, sobre a cidade, a região ou o país em que vivemos – enfim, sobre as experiências e os relacionamentos que temos, as ideias que pensamos, as emoções que sentimos, os sonhos que sonhamos, os projetos que criamos para tentar transformar nossos sonhos em realidade.

O título da autobiografia de Gabriel Garcia Márquez é Vivir para Contarla, uma expressão instigante, que ele explica: “Nossa vida não é aquela que vivemos, mas, sim, aquela que lembramos, e como a lembramos, para poder contar sua história”.

Em resumo: nossa identidade é definida pelas histórias que somos capazes de contar, que, por sua vez, dependem de nossas memórias…

Tomemos a literatura.

Um romance é uma história, ou então um conjunto de histórias que se entrelaçam. Em princípio, é uma obra de ficção, que conta a história de personagens que não existem de fato. Na prática, porém, as histórias construídas em um romance partem das experiências vividas ou imaginadas pelo autor, e se misturam com suas memórias… O que imaginamos também se incorpora à nossa memória. Às vezes, especialmente em casos como os de Simone de Beauvoir e Graham Greene, a biografia e a ficção são tão entrelaçadas que é virtualmente impossível separar com certeza o que é fato e o que é imaginação. Assim, ao contar uma história supostamente sobre outras pessoas, o autor do romance está também contando a sua história…

Mario Vargas Llosa, nosso último Nobel da Literatura, tem um livro magnífico chamado La Verdad de las Mentiras, em que, ao analisar grandes romances da literatura mundial, procura mostrar que, muitas vezes, há mais verdade na ficção (que em princípio é uma mentira) do que no jornalismo e na história, propriamente dita, que deveriam buscar a verdade, só a verdade, nada mais do que a verdade…

Mas não é apenas nossa identidade pessoal que é definida pelas histórias que somos capazes de contar: nossa identidade cultural e mesmo étnica ou nacional também é definida pelas histórias que somos capazes de contar sobre as coisas que importam em nossa cultura, sobre os eventos e personagens que ajudaram a construir a nossa história.

Isabel Allende tem um belo livrinho sobre o Chile (Mí País Inventado) que não é propriamente história, porque é sobre o Chile em que a escritora viveu e que vive em sua memória… O país descrito é um Chile único, porque é história vivida, história contada como ficção. Romances históricos, como os de Alexandre Dumas (principalmente o pai) e os de Michel Zévaco, também se inserem nessa área nebulosa em que fato e ficção, memória e imaginação, se entrelaçam. Vide, por exemplo, Os Três Mosqueteiros (de Dumas pai) e Os Pardaillan (de Zévaco).

Muitas vezes é difícil (alguns diriam impossível) desentranhar a história realmente vivida (wie sie eigentlich gewesen ist, como diziam os pais alemães da historiografia dita científica) da história contada… Historiadores marxistas e liberais brigam até hoje para contar histórias diferentes de uma mesma história vivida!

Aqui entra outro componente: a língua é parte essencial de nossa identidade cultural-étnica-nacional – e nossas histórias são sempre construídas na língua que adotamos como nossa… Autores nascidos em um país (como Ayn Rand, que nasceu na Rússia) escolhem contar suas história na língua do país adotado (os Estados Unidos, no caso dela).

Assim, nossa identidade, tanto no plano individual como no plano cultural, étnico, e nacional, está profundamente misturada com nossa capacidade de contar histórias.

2. O Contar Histórias e a Tecnologia Digital

Como registrei em meu primeiro artigo aqui, por muito tempo o contar histórias foi uma atividade tipicamente oral: as histórias, reais ou inventadas, eram contadas de viva voz, de um para outro, em pequenos grupos.

Com o surgimento da escrita, apareceu, ao lado do contar histórias oral, o contar histórias escrito – e, com esse, sugiram tanto a história, propriamente dita, ou seja, relatos de eventos que se acredita terem de fato acontecido, como a literatura, ou seja, relatos de eventos imaginados (ficção).

Com o aparecimento da impressão de tipos móveis, por volta de 1455, tornou-se possível também o aparecimento eventual do jornalismo – que é um contar histórias correntes, da atualidade.

O século XX, porém, foi o século do audiovisual. A fotografia foi inventada antes, mas o cinema e a televisão são típicos do século XX. É verdade que o cinema começou mudo – mas continha pequenos textos e diálogos inseridos como legendas. Em meados do século XX surgiu o computador e, mais para o final do século multimídia: o audiovisual por excelência.

Assim, o contar histórias, no século XX, passou a ser não mais baseado exclusivamente na palavra, oral ou escrita (embora a palavra continue extremamente importante): as imagens passaram a ser ingredientes indispensáveis das nossas histórias — e agora nós não somente ouvimos e lemos histórias, mas assistimos à sua representação audiovisual. Apesar do fato de que a história, o jornalismo e a literatura estão, hoje, mais fortes do que nunca, não se concebe, hoje, uma história sem fotografias e documentários, um jornalismo exclusivamente impresso, ou uma ficção que não seja traduzível para um filme, uma mini-série, uma novela…

3. Comunicação e Expressão, História e Geografia, Estudos Sociais na Escola

Crianças adoram ouvir histórias. “Conta outra”, é o que sempre pedem… (Vide, nesse contexto, http://contaoutra.net, site que criei há tempo sobre este assunto). Mas elas gostam também de contar histórias (reais ou inventadas, ou uma mistura das duas coisas). E não resta dúvida de que adoram tecnologia. Assim, é evidente que as crianças gostam de histórias audiovisuais construídas e transmitidas com o auxílio da tecnologia: o sucesso da televisão está aí para comprovar isso. Desenhos animados são histórias em que os personagens são construídos pelos desenhistas e animadores. E as crianças são apaixonadas por eles.

Entretanto, se entrarmos numa sala de aula de língua portuguesa, em nossas escolas, provavelmente não veremos professores e alunos construindo histórias – nem mesmo as puramente textuais, quanto mais as que envolvem imagens e fazem uso da tecnologia. Na maioria das classes se estuda gramática… Como diz o Rubem Alves, explica-se o que é um dígrafo… Em outras se pede aos alunos que façam composições – que, além de puramente textuais, são em geral sobre temas que pouco têm que ver com sua realidade, com seus interesses, com sua vida… As crianças não são intrinsecamente motivadas a fazer as composições escolares porque essas composições não têm como objeto uma história que as crianças querem contar. O objeto da história, o mais das vezes, é dado pelo professor. É este o protagonista no ambiente… :-(   (Sobre o protagonismo juvenil no ambiente escolar, vide o meu segundo artigo aqui).

Aulas de geografia em geral começam falando do sistema solar, e aulas de história sobre o passado remoto (Mesopotâmia, Egito, Grécia, Roma, Idade Média) – coisas tão distantes, no espaço e no tempo, da realidade, dos interesses, da vida dos alunos que não é de admirar que boa parte deles deteste geografia e história.

4. Uso Criativo e Inovador da Tecnologia na Educação

Em todo lugar em que se discute o uso da tecnologia na educação o maior desafio que seus proponentes enfrentam não está na infraestrutura (existência de computadores e conectividade nas escolas), no acesso a essa tecnologia, nem mesmo na formação dos professores para manejá-la tecnicamente. O maior desafio está em fazer algo de criativo e inovador com a tecnologia que efetivamente ajude as crianças, os adolescentes e os jovens a aprender melhor e a ter uma vida melhor do que doutra forma teriam.

O essencial, disse Bill Gates no Global Leaders Forum da Microsoft de 2004, não é a tecnologia: é o que fazemos com ela. Traduzido para a educação, isso significa que o essencial não é aprender a usar a tecnologia, mas usar a tecnologia para aprender – e para viver melhor.

Durante muito tempo o contar histórias audiovisuais só pôde ser feito por profissionais com acesso à complexa e cara tecnologia do cinema e da televisão. Hoje, porém, com a popularização da câmera digital e com a existência de produtos relativamente simples e virtualmente sem custos para compor histórias (Windows Live Movie Maker, por exemplo), qualquer um pode construir uma história digital – pessoal ou não, verídica ou inventada – com extrema facilidade e grande poder de comunicação e mesmo persuasão.

Isso quer dizer que a tecnologia digital, hoje, pode ser aproveitada, de forma criativa e inovadora, para dar vida às ao aprendizado de comunicação e expressão, geografia, história, estudos sociais. Todo mundo tem histórias a contar: sobre si mesmo, sobre seus parentes e amigos, sobre sua família, seus animais favoritos, sua comunidade, sua cidade, seu país… O aprendizado de temas relacionados à linguagem, à geografia e à história, aos estudos sociais pode assumir uma nova dimensão, tornando-se contextualizado na experiência de vida e nos interesses dos alunos. E, no processo, as crianças estarão desenvolvendo importantes competências e habilidades na área de comunicação e expressão.

E também se aprende muita filosofia e muita ciência procurando contar a sua história…

A Prefeitura de Paulínia tem o que é, talvez, a maior Escola de Cinema (Stop Motion) para alunos de uma rede municipal de ensino no Brasil (quiçá no mundo). Construída com o apoio da Lego Education (da Dinamarca) e da Zoom (representante exclusiva da Lego Zoom no Brasil), os alunos da cidade aprendem a construir animações usando cenários construídos com Lego e personagens representados por bonequinhos Lego. Assim se preparam para trabalhar (como desenhistas, animadores, roteiristas, diretores, etc.) no grande polo de cinema que a cidade está construindo. Vale a pena conferir. Veja no YouTube: http://www.youtube.com/watch?v=AR6l-Lm0sA4.

Ali na Escola de Cinema de Paulínia se une o útil ao prazeroso. Ali a tecnologia é usada como ferramenta e como brinquedo. É sobre isso que falarei em meu próximo artigo.

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Em São Paulo, 4 de Abril de 2011

Vídeo da festa da Abril Educação em 22/03/2011– Parte 1

 

Video da abertura do evento de lançamento da entrada das Editoras Ática e Scipione nas Mídias Sociais. O vídeo da Abril Educação é de excelente qualidade, tem duração de 13:35, e contém a abertura do evento de 22/3 pela Ana Ralston, a fala inicial da Claudia Aratangy e a minha fala inicial.

Creio que conseguimos, a Claudia e eu, ficar, cada um de nós, dentro do limite de 5 minutos que nos foi dado. Surpreendentemente, deu pra dizer um bocado de coisas em 5 minutos…

Em São Paulo, 31 de Março de 2011.

O aluno protagonista na escola protagonista: Em homenagem a Antonio Carlos Gomes da Costa

No dia 3 de Março deste ano, há menos de um mês, perdemos Antonio Carlos Gomes da Costa. Na minha opinião, um de nossos maiores educadores. Tive o privilégio de conviver com ele durante vários anos, quando éramos, ambos, consultores do Instituto Ayrton Senna, que o Antonio Carlos ajudou a Viviane Senna a conceber.

No Blog das Editoras Ática e Scipione, do qual agora sou colunista, publiquei ontem uma pequena homenagem ao Antonio Carlos: um artigo sobre o protagonismo juvenil na escola. Transcrevo-o a seguir.

Procurando uma biografia dele, achei um artigo que ele escreveu a pedido do Caderno Sinapse da Folha de S. Paulo, e que foi publicado em 29 de Julho de 2003, sobre a escola protagonista – que não é, necessariamente, a escola que os de tendência mais tecnicista imaginam: um festival pirotécnico. Ele mostra que não é a tecnologia usada que torna uma escola inovadora, mas, sim, o que se aprende ali, como se aprende, e como tudo é organizado e gerido.

Resolvi transcrever aqui esse artigo dele para que o conjunto compreenda “o aluno protagonista na escola protagonista”.

Aqui vão os dois artigos.

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http://blog.aticascipione.com.br/eu-amo-educar/educacao-centrada-no-aluno/

21/03/2011

Educação Centrada no Aluno

Eduardo Chaves

Especial para o Blog das Editoras Ática e Scipione

No início deste mês (Março/2011) perdemos um de nossos maiores educadores: Antonio Carlos Gomes da Costa. A morte nos leva as pessoas, mas felizmente nos deixa as ideias e o exemplo delas.

Uma das mais importantes ideias legadas por Antonio Carlos foi a do Protagonismo Juvenil. Pode ser que ele não tenha inventado o conceito, mas foi ele que o sistematizou e popularizou, com um belo livro e vários artigos e entrevistas sobre o assunto. Vou me valer aqui de um artigo-entrevista, que tem o título de “Protagonismo Juvenil: O que é e como praticá-lo”, que eu publiquei na íntegra, faz já bastante tempo, em um de meus sites:

http://4pilares.net/text-cont/costa-protagonismo.htm

O termo “protagonismo” vem do grego. Etimologicamente, o protagonista é, naturalmente, o lutador principal (protos = primeiro) numa luta (agon). Por derivação, o termo se aplicou ao ator principal de uma peça ou de um filme, ou ao personagem principal de um livro.

Para o nosso propósito aqui, a grande questão que Antonio Carlos levantou foi: e na educação escolar, quem é, e quem deve ser, o protagonista?

Quem é, de facto, não há dúvida: somos nós, os educadores, os professores em lugar de destaque entre os educadores.

Nós, professores, temos uma tendência natural de valorizar nosso trabalho e nossa importância na educação escolar. É por isso que sucumbimos à tentação de nos sentir os protagonistas da educação que tem lugar no contexto escolar. Sem nós, acreditamos, o aluno não aprende o que precisa aprender – e o que precisa aprender é, acima de tudo, o conteúdo das disciplinas em que somos especializados. Se somos professores de língua portuguesa, é o Português; se somos professores de matemática, é a Matemática; se somos professores de filosofia ou sociologia, é a Filosofia ou a Sociologia (por cuja reinserção na grade curricular tanto batalhamos).

Muitos autores acadêmicos e muitas editoras voltadas para educação reforçam esse sentimento, escrevendo e publicando livros que ressaltam a importância dos professores para a educação dos alunos. Muito pouca coisa é publicada sobre o papel do aluno como protagonista de sua própria aprendizagem.

Empresas que investem na educação em regra também reforçam esse sentimento, ao concentrar seus recursos e sua atenção na formação continuada dos professores. O MEC faz o mesmo, ao criar o Portal do Professor (não o Portal do Aluno). Poucas empresas investem diretamente em alunos. A parte de portais educacionais dirigida a alunos raramente contém aquilo que interessa a eles: contém apenas o que os professores esperam que os alunos aprendam.

Mas Antonio Carlos nos lembra de que, apesar de tudo isso, e apesar do importante trabalho que nós, professores, podemos realizar na sua educação, é o aluno o lutador / ator / personagem principal da educação, inclusive da educação escolar. Assim, o foco da educação deve estar na aprendizagem dele, não no ensino do professor.

Antonio Carlos não propõe, nem de longe, uma educação negativa, hands off, laissez faire, em que os alunos são deixados a se virar por si próprios. Para ele, o Protagonismo Juvenil é uma modalidade de ação educativa. Ele consiste na “criação de espaços e condições capazes de possibilitar aos jovens envolver-se em atividades direcionadas à solução de problemas reais, atuando como fonte de iniciativa, liberdade e compromisso. . . . O cerne do protagonismo, portanto, é a participação ativa e construtiva do jovem na vida da escola, da comunidade ou da sociedade mais ampla”.

Mas, é bom que se diga, nem toda forma de participação do jovem na vida da escola, da comunidade ou da sociedade é protagônica (para usar o jargão que foi criado a partir da expressão “Protagonismo Juvenil”). Existem, segundo Antonio Carlos, formas de participação que são a própria negação do Protagonismo Juvenil, como, por exemplo, as seguintes:

  • A participação conduzida, ou, ainda pior, manipulada
  • A participação meramente simbólica (“para não dizer que não falei das flores”…)
  • A participação apenas decorativa, em posição puramente ornamental

A participação genuína, ou protagônica, tem características próprias, que é imperativo repeitar.

  • Em primeiro lugar, ela tem por propósito o desenvolvimento pessoal e social do jovem, a sua formação como “jovem autônomo, solidário e competente”, e é, portanto, uma participação aprendente, que faz parte do processo de construção de sua identidade pessoal, social e profissional, no bojo de um projeto de vida livremente escolhido.
  • Em segundo lugar, ela tem como princípios metodológicos norteadores um clima de liberdade que não só permite, mas procura e incentiva a iniciativa, o envolvimento e o comprometimento dos jovens, e a experimentação na busca da solução de problemas reais.
  • Em terceiro lugar, esse tipo de participação só pode acontecer em ambientes verdadeiramente democráticos, em que os jovens são respeitados e vistos como fonte de solução de problemas (e não como fonte de problemas), e em que eles têm condições formais e materiais de se expressar, de se organizar e de agir, tanto na definição dos problemas que desejam enfrentar como na busca e exploração das melhores maneiras de solucioná-los.

A participação do jovem na vida da escola, da comunidade e da sociedade que leva a sério a sua condição de protagonista representa a mais importante forma de aprendizagem para o jovem que frequenta a escola. Mas representa, também, um ganho significativo para a sociedade, pois é enquanto o jovem realmente vive a liberdade e a democracia que ele aprende a praticá-las e a respeitá-las.

Com essa participação “a sociedade ganha em democracia e em capacidade de enfrentar e resolver problemas que a desafiam”, pois “a energia, a generosidade, a força empreendedora e o potencial criativo dos jovens é uma imensa riqueza, um imenso patrimônio que o Brasil ainda não aprendeu utilizar da maneira devida”.

Uma escola que leva a sério o protagonismo juvenil exige um novo tipo de professor – um professor que exerce uma ou mais de várias funções não-protagônicas: que elabora roteiros, ou constrói cenários, ou escreve trilhas sonoras, ou elabora figurinos, ou fotografa as cenas, ou edita as partes e compõe o conjunto, ou divulga o resultado… ou orienta os atores de modo a obter deles o seu melhor desempenho.

Enfim, um professor não-protagonista, que esteja disposto a dizer em relação a seus alunos aquilo que João Batista disse acerca de Jesus: “Importa que eles cresçam e que eu diminua” (João 3:30).

Será que essa visão do papel do aluno e do professor explica por que Antonio Carlos nunca teve grande aceitação na Academia?

Obrigado, Antonio Carlos, por ter sido quem você foi, por ter feito o que fez, por ter dito o que disse.

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http://www1.folha.uol.com.br/folha/sinapse/ult1063u508.shtml

29/07/2003

Mudar o conteúdo, o método e a gestão

Antonio Carlos Gomes da Costa

especial para a Folha de S.Paulo

Certa vez, visitei uma escola que se pretendia moderna e arrojada. O prédio era todo cabeado. Em vez de livros, cadernos, lápis, caneta e borracha, os alunos portavam laptops. Na sala de aula, o professor, em sua mesa, também dispunha de um computador. E, à medida que falava em tom coloquial, sua voz ecoava pelo ambiente. Na sua lapela, um minúsculo e poderoso microfone permitia-lhe atingir mais de cem alunos sem forçar as cordas vocais. Atrás e um pouco acima de sua mesa, num telão azulado, frases e imagens iam se sobrepondo na sequência de sua exposição.

A pessoa que me pôs em contato com essa cena “futurista” observava, atenta, a minha reação. E seu espanto foi grande com meu pouco entusiasmo diante de tantas maravilhas pós-industriais. De pronto, observei que estávamos diante de um cenário onde o avanço tecnológico se colocava a serviço do atraso pedagógico. Aquilo era uma aula expositiva no sentido mais puro do termo.

Penso que essa observação não agradou muito, pois nunca mais fui chamado para retornar àquele enclave de “modernidade” na paisagem costumeira de nossa educação, tão defasada em relação àquela praticada nos países que já deram certo.

“Qual seria, então, a escola do futuro?”, passei a indagar-me. Em minha visão, seria uma escola inteiramente renovada em conteúdo, método e gestão. Uma escola e três revoluções.

A revolução de conteúdo responderia por profundas mudanças no que se ensina e no que se aprende. A revolução de método reinventaria inteiramente o como aprender e ensinar. E, finalmente, a revolução de gestão subverteria o uso do espaço, do tempo, das relações entre as pessoas e do uso dos recursos físicos, técnicos e materiais disponíveis.

Em termos de conteúdo, essa escola, muito mais do que interdisciplinar, seria interdimensional. As diversas dimensões co-constitutivas do ser humano: o logos (razão), o pathos (sentimento), o eros (corporeidade) e o mythos (espiritualidade) nela seriam trabalhados de forma equilibrada e harmônica. O esporte, as artes e o ensino religioso teriam peso idêntico ao das ciências, das línguas e da matemática.

No que diz respeito ao método, essa escola praticaria, no dia-a-dia, uma nova visão de homem, de mundo e de conhecimento. Uma visão de homem capaz de fazer do educando não um mero receptáculo, mas uma fonte de iniciativa, compromisso e liberdade. Uma visão de mundo que o impulsionasse a relacionar-se com a família, com a comunidade, com a cidade e, virtualmente, com o país e com o mundo. Em termos de conhecimento, teríamos uma escola em que todos estariam voltados a aprender o aprender (autodidatismo), ensinar o ensinar (didatismo) e conhecer o conhecer (construção de conhecimentos).

Porém, a maior das revoluções dessa escola do futuro se daria em termos de gestão. Sua marca registrada: uma ruptura total com a sala de aula (como espaço) e a turma (como escala). O novo espaço, um grande salão sem paredes internas com mesas redondas de doze lugares. Onze para os alunos (um time) e um para o docente (um técnico). O time, e não a turma, seria a unidade básica da organização escolar. Os alunos, em vez de livros didáticos predeterminados, teriam em mãos guias de aprendizagem e recorreriam a terminais de computador, bibliotecas, videotecas e hemerotecas para percorrer com êxito o itinerário formativo traçado no guia de aprendizagem. Os professores/consultores orientariam e apoiariam, acompanhando o trabalho do grupo e introduzindo os ajustes necessários ao alcance pleno dos objetivos.

Nessa escola, os jovens seriam protagonistas, mas o protagonismo não se limitaria a eles. Eles estariam cercados de professores, pais, gestores escolares e lideranças comunitárias, cada um assumindo seu próprio papel de ator protagônico nessa escola, que participa da vida da comunidade, e dessa comunidade, que participa da vida da escola.

A escola protagonista é a escola necessária para que cada jovem possa desenvolver, em sua trajetória biográfica, as promessas que trouxe consigo ao vir a este mundo e, igualmente, a escola que o Brasil necessita e requer para responder pró-ativamente aos imensos desafios que a história nos coloca.

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O mineiro Antonio Carlos Gomes da Costa, 54, é pedagogo, passou pela administração da Febem, de Ouro Preto e do Estado de Minas Gerais, foi oficial de projetos do Unicef e da OIT (Organização Internacional do Trabalho). Trabalhou como perito no Comitê dos Direitos da Criança da ONU, em Genebra (Suíça) e participou, no Brasil, do grupo de redação do ECA (Estatuto da Criança e do Adolescente).

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Em São Paulo, 22 de Março de 2011

Press Release de 15/3/2000 do Programa “Sua Escola a 2000 por Hora”

Fuçando na Internet achei uma relíquia… O Press Release, de 15/3/2000 (vai fazer onze anos), do Programa “Sua Escola a 2000 por Hora”, do Instituto Ayrton Senna, da Microsoft Brasil e da Gateway Brasil, criado em Junho de 1999.

Tive o privilégio de ser membro do Comitê Diretor inicial desse programa, e, depois da saída de Lea Fagundes e de Carlos Eduardo “Castor” de Oliveira, de ser seu único consultor, até Dezembro de 2006.

O programa continua até hoje, mas com nome diferente: Escola Conectada (http://www.educacaoetecnologia.org.br/escolaconectada/).

Transcrevo a seguir o Press Release, que anuncia o resultado do primeiro concurso, feito em 1999. O resultado foi anunciado em 15/3/2000.

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MICROSOFT > Releases

São Paulo, quarta-feira, 15 de março de 2000

Instituto Ayrton Senna, Microsoft e Gateway anunciam vencedores do concurso “Sua Escola a 2000 por hora”

São Paulo, 15 de março de 2000

Mais de R$ 2 milhões foram investidos na premiação, que inclui 20 laboratórios de informática e acompanhamento pedagógico com grandes especialistas em educação.

A Microsoft Brasil, o Instituto Ayrton Senna e a Gateway anunciaram hoje os ganhadores da promoção “Sua Escola a 2000 por hora”, lançada em outubro do ano passado. Foram premiadas as 20 iniciativas mais criativas de uso da tecnologia relacionadas às novas formas de ensino e aprendizagem nas escolas de ensino médio e fundamental dos Estados de São Paulo, Ceará, Rio Grande do Sul e Rio de Janeiro, além do Distrito Federal.

“Hoje comemoramos uma vitória em nossa história. Estamos conseguindo transformar a realidade de muitos jovens que não teriam acesso às novas tecnologias que estão surgindo, estimulando também a participação da comunidade e o desenvolvimento do conceito de cidadania”, diz Viviane Senna, presidente do Instituto Ayrton Senna.

Os 20 projetos escolhidos (veja texto em anexo) abordaram áreas como saúde, cultura, meio ambiente e desenvolvimento comunitário. Todos estão, de alguma maneira, relacionados à cidadania. Em Fortaleza (CE), por exemplo, há um projeto que informará a comunidade do bairro José Walter sobre o tema da auto-medicação. Em Mauriti, pequeno município cearense localizado na fronteira com Paraíba e Pernambuco – região extremamente afetada pelas secas -, haverá um programa para o desenvolvimento de pesquisas na área de irrigação, acompanhando e desenvolvendo trabalhos relacionados a
esse escopo no Brasil e no exterior.

Há dois trabalhos que incentivam a formação de uma rede para estudantes portadores de deficiência auditiva, um no Rio Grande do Sul e outro no Distrito Federal. No Ceará, o “GP da Cidadania” pretende colocar a escola como atrativo para que os responsáveis pelos alunos vislumbrem a possibilidade de transformação social, diminuindo a distância entre pais e filhos. Na cidade de Crato, no mesmo Estado, Outro projeto abordará – através de um site desenvolvido pelos alunos – problemas como saneamento básico, controle de natalidade, desemprego, baixos salários, entre outros.

Em Porto Alegre, o projeto “A informática informando, formando e transformando a educação” analisará temas como lixo seletivo, aditivos químicos em alimentos e seus efeitos colaterais, petróleo e carvão fabricando energia, entre outros. Em Nova Prata, também no Rio Grande do Sul, haverá uma séria de trabalhos mostrando a importância da água. Alguns estudos irão comparar o consumo na escola e residência de alunos, mapear os países que mais sofrem com a falta de água, localização de maiores mananciais, todos através de um site na Internet.

Semana de imersão em tecnologia educacional

Cada projeto está sendo aprimorado através da semana de imersão em tecnologia educacional. De 13 a 17 de março, os representantes das escolas estão envolvidos em cursos, visitas, palestras e debates focados em tecnologia e educação realizados em São Paulo.

Ministrado por uma equipe multidisciplinar que dá suporte no processo de implantação das iniciativas, o treinamento recebe orientação de renomados especialistas em educação no Brasil, para trabalhar em cima dos projetos, bem como para conhecer o que há de mais inovador nessa área. O professor Eduardo Chaves, por exemplo, possui PhD pela Universidade de Pittsburgh (EUA) e é professor titular de Filosofia da Educação da Unicamp. Já Lea Fagundes, professora da Universidade Federal do Rio Grande do Sul, tem formação em pedagogia e psicologia.

As escolas receberão, cada uma, um laboratório de informática para o desenvolvimento de seus projetos. A aliança entre a Microsoft, o Instituto Ayrton Senna e a Gateway conta com investimentos de R$ 2 milhões no fornecimento de hardware, software, consultoria técnica, laboratórios de informática e apoio pedagógico. “O retorno foi fantástico. De todas os convites enviados às escolas participantes, tivemos um retorno de mais de 1.100 projetos”, afirma Luiz Sette, diretor de relações institucionais da Microsoft Brasil.

Para Paulo Alouche, diretor comercial da Gateway, o resultado confirma a expectativa de um forte interesse da área educacional em tecnologia. “Há dois anos desenvolvemos projetos, produtos e tecnologia própria para educação. Hoje já atingimos mais de dois milhões de alunos no ensino fundamental, muitas universidades e projetos especiais para alunos carentes (como os da USP). A cada experiência aprendemos muito e nos tornamos ainda mais capacitados para contribuir com o nível de educação no Brasil”.

Site ganha novo design

Além da premiação das escolas, as instituições estarão fazendo o lançamento oficial do novo site do concurso. Clicando em http://www.escola2000.org.br [EC: Esse link não funciona mais], o internauta poderá conferir as principais novidades, viabilizando um espaço para troca de informações. “Para isso estamos deixando o site com uma cara nova, muito mais interativo: serão inseridos links para as páginas dos projetos vencedores, livro de visitas, acompanhamento dos projetos que estarão sendo desenvolvidos, entre outras  novidades”, diz Adriana Martinelli, coordenadora do concurso “Sua Escola a 2000 por hora”.

Mesmo com a interface anterior, o site já vinha tendo uma boa audiência. Foram mais de 111 mil hits durante o último mês. Cada hit equivale ao número de vezes em que a página foi acessada. “Foi o mesmo número de acessos que tivemos em nosso portal de games”, afirma Larissa Griska, editora de Web da Microsoft Brasil, fazendo alusão ao portal vertical Game Zone.

Instituto Ayrton Senna

Desde que foi fundado em 1994, o Instituto Ayrton Senna está apoiando projetos que atendem a mais de 180 mil crianças e adolescentes brasileiros em situação de risco pessoal e social. São programas que vão desde nutrição e saúde infantil até educação, profissionalização, esportes e cultura. Tudo isso para dar às crianças e adolescentes uma oportunidade e um começo. Idealizado a partir dos sonhos e ideais de Ayrton Senna e sua paixão por seu país, o Instituto é uma organização sem fins lucrativos, mantida por 100% dos royalties de todos os contratos de imagem do Ayrton, a marca Senna e do personagem Senninha, doados integralmente por sua família.

Microsoft Brasil

A subsidiária brasileira da Microsoft foi inaugurada em setembro de 1989 e ocupa a nona posição entre as 60 filiais da empresa, com faturamento de US$ 313,5 milhões no ano fiscal encerrado em 30 de junho de 1999. Dirigida por Mauro Muratório Not, a icrosoft Brasil possui uma equipe com cerca de 200 profissionais, voltados para o atendimento das necessidades do mercado brasileiro nas áreas de marketing, vendas, distribuição, suporte técnico e consultoria. Além de um escritório central, em São Paulo, a companhia possui filiais no Rio de Janeiro, Brasília, Belo Horizonte, Curitiba e Porto Alegre.

Gateway

Microcomputadores e alta tecnologia não são ferramentas apenas para proporcionar negócios entre empresas. Desde o início da indústria de computadores, essas ferramentas também foram direcionadas para educação e a gestão de projetos sociais, causando enormes impactos positivos. A Gateway, segunda maior empresa mundial em vendas diretas, sente-se honrada em participar de um projeto voltado ao desenvolvimento da educação no Brasil. Como em outros países, a Gateway pretende participar ativamente do desenvolvimento tecnológico e social no país.

Lista de Vencedores do prêmio Sua Escola a 2000 por hora

CEARÁ

Centro de Educação de Jovens e Adultos José Walter
Diretor: Manoel Batista dos Santos – Tel: 0XX85 – 291-1019
Cidade: Fortaleza
Título: Saúde Solidária
Projeto: Criação de meios de comunicação, tais como boletins informativos, jornal virtual, sites, cursos e oficinas que informem a comunidade do bairro José Walter sobre saúde e medicamentos. Usarão a informática para coleta de dados da situação da comunidade tendo como foco o problema da auto-medicação e colocando todo o tipo de informações que obtiverem em rede, aproximando pessoas, encontrando e discutindo problemas semelhantes.

Escola de Ensino Básico André Cartaxo
Diretora: Maria Socorro de Oliveira Montenegro – Tel: 0XX88 – 552-1454
Cidade: Mauriti
Título: Educar prá irrigação que a terra tem vocação
Projeto: Visa desenvolver atividades de pesquisa e estudo sobre a seca e as diferentes maneiras de irrigação no Brasil e no mundo. Busca trabalhar com os filhos de agricultores locais (alunos da escola) que sofrem diretamente os efeitos da falta de água.

Escola de Ensino Fundamental e Médio Arquiteto Rogério Fróes
Diretora: Francisca Nunes e Silva – Tel: 0XX85 – 249-2850
Cidade: Fortaleza
Título: GP da Cidadania
Projeto: Colocar a escola como atrativo para que os pais e responsáveis
pelos alunos vislumbrem a possibilidade da transformação social, diminuindo a distância entre pais e filhos. Pretende também criar uma visão crítica dos meios de comunicação, para medir o impacto desses veículos no ambiente familiar e nas condições de aprendizagem do educando.

Escola de Ensino Fundamental e Médio Estado da Bahia
Diretora: Acilana Alencar Leal – Tel: 0XX88 – 521-1829
Cidade: Crato
Título: Educação e Cidadania – Juntas na Construção de uma Sociedade Mais Justa
Projeto: Trata-se de um trabalho de conscientização e engajamento com relação aos problemas que assolam a comunidade (saneamento básico e moradia precários, controle de natalidade, falta de trabalho, salário baixo e inexistência de sentimentos de respeito pelo outro). Através das atividades desenvolvidas pela comunidade escolar (leitura e construção de textos disponíveis em sites, criação de relatórios e informativos, intercâmbio entre estados) pretende-se convencer a comunidade de que se pode transformar a sociedade em que vivem.

Escola de Ensino Fundamental e Médio Raimundo Nogueira
Diretora: Francisca Célia da Silva Barbosa – Tel: 0XX85 – 336-1562
Cidade: Horizonte
Título: O Ceará na Rede
Projeto: Visa criar a oportunidade para que alunos da Escola Pública se integrem e vivenciem as novas tendências educacionais. Os alunos farão um estudo físico, econômico, social e cultural do estado do Ceará comparado com outras regiões do país e do mundo (via Internet e através de viagens pelo estado do Ceará), registrando fotos, filmagens e divulgando seu trabalho.

SÃO PAULO

Escola Estadual Dona Cyrene de Oliveira Laet
Diretora: Romilda Kalil – Tel: 6241-2435
Cidade: São Paulo
Título: As faces da Beleza entre Diferentes Culturas
Projeto: Trabalhar a auto-estima tendo o “belo” e suas diferentes manifestações nas diferentes culturas, como tema gerador.

Escola Estadual José Lins do Rego
Diretora: Marcia Luchesi de Mello Souza – Tel: 0XX11 – 5514-0115
Cidade: São Paulo
Título: Muito Barulho Mas Não Por Nada: O Resgate da Obra de William Shakespeare e sua Relação com o Brasil de Hoje.
Projeto: Visa, a cada bimestre, analisar uma obra de Shakespeare, com estudos e pesquisa sobre a vida do artista na Internet e produção de textos e obra de teatro.

Escola Estadual Odete Maria de Freitas
Diretora: Leonor Maria de Oliveira – Tel: 0XX11 – 7962-4710
Cidade: Embu
Título: As Caras da Adolescência
Projeto: Desenvolvimento de uma página na Internet com divisão de função entre os alunos (pesquisador, técnico de arte, redator, etc…) abordando temas tais como: sexualidade, direitos humanos, cultura, saúde e estudos científicos.

Escola Estadual Prof. Pery Guarany Blackman
Diretora: Maria Bernardete de Castro Lima – Tel: 0XX11 – 7823-1409
Cidade: Itu
Título: Pery e Senna Shopping
Projeto: Criação de um “supermercado pedagógico”, onde cada disciplina abordará um tema relacionado ao sistema capitalista de consumo (produção,
mercado de trabalho, importação, exportação, Mercosul, compra e venda, contexto histórico de alguns produtos, meio ambiente)

Escola Estadual Profa. Alzira Salomão
Diretora: Yurene Aparecida Prates Inoue – Tel: 0XX17 – 261-2133
Cidade: Nova Granada
Título: Escola e Informática do Sonho à Realidade
Projeto: Produção de um jornal, transformando a sala de informática em uma sala de imprensa.

RIO DE JANEIRO

Colégio Estadual Dom Otaviano de Albuquerque
Diretora: Zenilda Auxiliadora Assad – Tel: 0XX24 – 733-3797
Cidade: Campos
Título: Brasil são outros 500…
Projeto: Ensino da história do Brasil a partir do resgate do “eu” (dos alunos), no município, no Brasil e no mundo.

CES Madureira
Diretora: Marcia Monteiro de Araújo – Tel: 0XX21 – 351-6022
Cidade: Rio de Janeiro
Título: 50 Anos de Brasil na Música Popular em Revista Interativa
Projeto: Construir uma Revista Eletrônica (que permite inserir som, imagem, vídeo) que terá como conteúdo os 50 anos mais recentes da história do Brasil, estudados a partir das músicas, jingles, marchinhas carnavalescas e discursos políticos famosos das diferentes épocas da história.

Escola Estadual de Ensino Supletivo Embaixador Dias Carneiro
Diretora: Maria Ricardina Gonçalves Montedo – Tel: 0XX21 – 392-6960
Cidade: Rio de Janeiro
Título: Rede de Doações
Projeto: Se propõe a pesquisar ONGs locais para verificar necessidades, conhecer o trabalho e então construir um site com todas as informações dessas entidades, para facilitar o processo de doações. Este site e toda a estratégia desenvolvida será um modelo para que outras escolas repitam a idéia facilitando o processo de doações para um maior número de entidades.

Escola Municipal Francisco Paes de Carvalho Filho
Diretora: Maranei Pereira Soares – Tel: 0XX24 – 620-3047
Cidade: São Pedro D´Aldeia
Título: Pesque Essa Idéia
Projeto: Valorização e conscientização da pesca artesanal, através da construção de sites, estudos e comparações da pesca de São Pedro da Aldeia com outras regiões pesqueiras no mundo.

RIO GRANDE DO SUL

Colégio de Aplicação – UFRGS
Diretor: Jorge Luiz Day Barreto – Tel: 0XX51 – 316-6980
Cidade: Porto Alegre
Título: Projeto Amora 2000
Projeto: Pretendem constituir um campo de investigação pedagógica para a produção de conhecimentos e metodologias. Por meio de mudanças nas práticas curriculares que incorporem Tecnologias de Informação e Comunicação, buscam o desenvolvimento da autonomia, cooperação e criticidade no aluno através do amplo acesso à informação e da construção do conhecimento.

Escola Estadual de 1º e 2º Grau Prof. Elmano Lauffer
Diretor: João Celeste – Tel: 0XX51 – 344-4666
Cidade: Porto Alegre
Título: A Informática Informando, Formando e Transformando a Educação
Projeto: Realização de pequenos projetos de visitas e análise das informações sobre temas específicos: Lixo Seletivo; Aditivos Químicos em Alimentos e Efeitos Colaterais; Petróleo e Carvão Fabricando Energia; A Língua Portuguesa e a Comunicação; Literatura e História, Sexualidade e DST; Meio Ambiente; A Nova Ordem Mundial de Globalização e os Reflexos Regionais.

Escola Estadual de 1º Grau Onze de Agosto
Diretora: Maria de Fátima Bavaresco – Tel: 0XX54 – 242-1437
Cidade: Nova Prata
Título: A Escola de Olho N’Água
Projeto: Visa destacar aos alunos a importância da água como recurso para todos. Buscará comparar o consumo de água na escola e residência dos alunos e estudar as diferentes maneiras de racionalizar o consumo de água na cidade; trabalhar com a despoluição do Rio Retiro; mapear países que mais sofrem com a falta de água; localização dos maiores mananciais de água no mundo, no país, nos estados e no município; palestras; visitas; elaboração de textos; criação de página na Internet.

Escola Municipal Octávio Lázaro
Diretora: Norma Regina Cairuga – Tel: 0XX51 – 658-1799
Cidade: Charqueadas
Título: DeafNet – Surdez em Rede
Projeto: Criação de uma rede de escolas e de turmas para estudantes portadores de deficiência auditiva, através do computador no Rio Grande do Sul.

DISTRITO FEDERAL

Centro de Ensino 07 de Ceilândia
Contato: Eunice Viana dos Santos – Tel: 0XX61 – 371-3433
Cidade: Ceilândia
Título: CE 07 se liga a 2000 por hora!
Projeto: Direcionar os recursos da informática ao atendimento da questão da surdez, aliado à capacitação profissional e ao envolvimento da comunidade escolar.

Centro de Ensino de 1 Grau 06 de Sobradinho
Diretor: Ronildo Ramos da Silva – Tel: 0XX61 – 591 – 1362
Cidade: Sobradinho
Título: Informática Ativa – Construindo o Conhecimento
Projeto: Usar a informática como instrumento para o estudo das regiões brasileiras. A idéia é resgatar as raízes culturais das diferentes regiões que formam o país, representadas nas comunidades do Distrito Federal.

Imagem do evento disponível no endereço: http://www.s2.com.br/clientes/microsoft/images/escola.jpg
[EC: Esse link não funciona mais]

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Atendimento Microsoft: (11) 822-5764
Para qualquer informação à imprensa contate:

Microsoft Informática Ltda. (http://www.microsoft.com/brasil)
Katia Mourilhe, email: katiam@microsoft.com

S2 Comunicação Integrada S/C Ltda. (http://www.s2.com.br)
José Luiz Schiavoni (MTb 14.119) – email: joseluiz@s2.com.br
Priscila Rocha (MTb 19.977) – email: prirocha@s2.com.br
Saulo Filho, email: saulof@s2.com.br
Ana Carolina Fullen, email: acarol@s2.com.br
Tel/Fax: (11) 253-1930

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Em São Paulo, 23 de Fevereiro de 2011.

A UNICAMP inova na seleção de alunos de escolas públicas

Transcrevo. Vale a pena ler.

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http://www1.folha.uol.com.br/fsp/opiniao/fz2102201104.htm

MELCHIADES FILHO

Cota merecida

BRASÍLIA – No momento em que o debate sobre o sistema de cotas patina no Congresso, a Universidade de Campinas prepara um salto nos projetos de ação afirmativa: a introdução firme da meritocracia como critério de concessão de benefícios.

Começam no mês que vem as aulas da primeira turma do ProFis, programa que destina 120 vagas para estudantes do sistema público do município paulista. O critério de escolha é a nota no Enem. O melhor aluno de cada escola pública da cidade tem matrícula garantida. Simples. Nada de vestibular, análise curricular, avaliação de patrimônio etc. Se o primeiro colocado numa escola abrir mão, a chance é passada ao segundo -e assim por diante.

Os inscritos terão dois anos de aulas nas áreas de humanas, exatas e biológicas, além de cursos de informática e inglês. Serão 1.600 horas em classe. Quem enfrentar dificuldades terá a ajuda de monitores.

Trata-se de um colchão multidisciplinar para capacitar esses egressos do sistema público para a etapa seguinte do ProFis: a matrícula instantânea em qualquer um dos cursos regulares da Unicamp, de acordo com a preferência do aluno.

O projeto não tira o lugar de ninguém. Serão criadas vagas adicionais para acolher os que terminarem o primeiro ciclo e quiserem/puderem continuar os estudos.

Para estimular que o escolhido cumpra os dois primeiros anos, o ProFis distribuirá vale-transporte, auxílio-alimentação e uma bolsa pouco acima do salário mínimo.

A ideia nasceu de um diagnóstico inquietante. Nos vestibulares de 2008 e 2009, 70% das escolas públicas de Campinas não conseguiram colocar nem um aluno sequer na maior universidade local.

Hoje, mais de 70% das universidades federais e estaduais públicas do país já oferecem algum programa de inclusão. A ação afirmativa é realidade. O desafio é aprimorá-la -e, de preferência, associá-la ao ensino médio público. A iniciativa da Unicamp mostra um caminho.

melchiades.filho@grupofolha.com.br

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Em São Paulo, 21 de Fevereiro de 2011

Educar pode custar caro, mas não educar custa mais caro ainda

O título que dei ao posto diz tudo. O artigo de Gustavo Cerbasi, publicado na Folha de hohe (31/01/2011) dá a razão para o que o título diz.

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http://www1.folha.uol.com.br/fsp/mercado/me3101201116.htm

GUSTAVO CERBASI

A cara falta de educação

O brasileiro médio não se qualifica para exercer atividades complexas ou desenvolver tecnologia

HÁ ALGUM TEMPO, na Suécia, eu tomava café em meu hotel quando avistei um buraco que se abriu de um dia para o outro no asfalto, devido a chuvas durante a madrugada.

Comentei despretensiosamente com amigos que a Suécia não era um país perfeito, pois tam- bém tinha buracos no asfalto, como em nosso país.

Antes mesmo de eu terminar minha refeição, chegou um veículo de obras para corrigir o problema.

O que vi dali em diante foi motivo de muita reflexão sobre diferenças culturais.

Daquela camionete saltou seu único ocupante, que ao toque de um botão acionou um elevador hidráulico que posicionou a seus pés um interessante kit de equipamentos de identificação.

Bandeiras, sinais de luz, placas de trânsito identificando a obra, cones e cavaletes foram rapidamente posicionados a uma distância segura para desviar o trânsito.

O mesmo profissional voltou à camionete, abriu uma tampa da carroceria e retirou algumas peças que pareciam ser molduras quadradas de metal. Uma delas, ao ser posicionada no asfalto, mostrou ter dimensões pouco maiores do que o buraco, e por isso foi usada como gabarito para riscar o piso.

Feita a marcação, o trabalhador pegou uma serra elétrica e cortou o asfalto com precisão cirúrgica, retirando com picareta uma placa quadrada com o buraco no meio.

O elevador hidráulico foi posicionado para erguer a peça e jogá-la no interior da caçamba, e depois manobrado para trazer ao piso uma placa nova, como uma lajota, que se encaixou perfeitamente no corte feito.

Com batidas de um martelete hidráulico e acabamento de uma pistola de piche, esse único funcionário fez em trinta minutos um serviço impecável. Após sua saída, ninguém dizia que aquele remendo havia sido feito há menos de um ano.

Estupefatos, eu e meus amigos começamos a comparar o que vimos com o mesmo serviço tipicamente feito no Brasil, normalmente por cerca de oito a dez profissionais, a maioria deles ociosa a maior parte do tempo, resultando em um remendo mal-acabado, sujo e extremamente danoso aos primeiros veículos que ali passassem.

Será que o serviço impecável da Suécia custaria muito mais caro do que o do Brasil? Fazendo algumas contas e considerando a soma dos parcos salários dos ineficientes trabalhadores brasileiros versus a tecnologia empregada mais o bom salário do pós-graduado trabalhador sueco, chegamos à conclusão de que tapar o buraco lá sai mais barato do que aqui.

Então, por que não mudamos? Simples: porque a limitada educação do trabalhador brasileiro ainda não permite.

Como temos uma educação que ainda proporciona resultados medíocres, o brasileiro médio não se qualifica para exercer atividades complexas ou desenvolver tecnologia. Por isso, acaba se sujeitando a precários trabalhos braçais que há décadas não são mais feitos em países desenvolvidos.

Se tivesse um nível educacional melhor, o brasileiro não aceitaria exercer atividades intensamente braçais ou sub-remuneradas.

Recusaria, por, exemplo, o trabalho de tapar buracos no asfalto e encontraria emprego em empresas de desenvolvimento de equipamentos de automação, criando soluções para suprir os trabalhos braçais.

Uma maior oferta de equipamentos permitiria seu uso em larga escala, o que contribuiria para a redução de seu preço.

Por outro lado, a partir do momento em que trabalhos simples passam a ser feitos por processos mais automatizados, exige-se que profissionais mais qualificados sejam contratados para essas atividades, criando uma nova oferta de empregos para profissionais bem educados.

Em outras palavras, o investimento em educação traz mais do que empregos. Traz processos mais baratos, mais seguros e mais eficientes, gerando bem-estar muito além do círculo familiar do cidadão que recebeu instrução qualificada.

Certamente compensa, mas é preciso ter a coragem de investir hoje para colher daqui a 15 anos. É hora de mudar isso.

GUSTAVO CERBASI é autor de “Casais Inteligentes Enriquecem Juntos” (ed. Gente) e “Como Organizar Sua Vida Financeira” (Campus).

Internet: www.maisdinheiro.com.br

@gcerbasi

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Em 31 de Janeiro de 2011.

Uma Apologia da Vagabundagem e da Indisciplina

Este post abrange duas coisas em que já toquei em minhas tuitadas no Facebook, com reverberações aqui neste blog.

A primeira é a questão da educação à moda dos orientais.

Ontem, às 7h24, coloquei no FaceBook, a seguinte tuitada, a propósito de um artigo no UOL:

“O debate continua… O livro sobre a forma em que os pais chineses educam seus filhos causa controvérsia – e até repulsa. No entanto, se a China chegar a ser número 1 no PISA, o que é bem mais do que apenas possível, nós brasileiros, laissez-faire na educação das crianças em casa, vamos sair correndo para copiar o que os chineses fazem…”

O artigo do UOL que eu comentei foi o seguinte (transcrevo-o aqui para quem não tem acesso ao UOL):

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http://educacao.uol.com.br/ultnot/bbc/2011/01/26/estilo-de-educacao-das-maes-tigresas-da-china-causa-polemica.jhtm

26/01/2011 – 11h01

Estilo de educação das ‘mães tigresas’ da China causa polêmica

Um livro gerou polêmica nos Estados Unidos e na Europa por sugerir que os chineses têm mais sucesso na criação de seus filhos do que povos ocidentais por serem muito mais rígidos.

A professora de direito americana Amy Chua, filha de imigrantes chineses, é a autora de Battle Hymn of the Tiger Mother (“Hino de Batalha da Mãe Tigresa”, em tradução livre), livro em que relata a tentativa de criar suas filhas à “moda chinesa”.

Amy impôs várias restrições às suas filhas para que tivessem um desempenho escolar excepcional. Entre outras coisas, as meninas eram proibidas de ver TV, jogar videogame e escolher suas próprias atividades extracurriculares.

Além disto, eram obrigadas a tocar piano ou violino e a ser as melhores alunas em todas as disciplinas da escola, exceto em Educação Física e Drama.

“Mesmo quando os pais ocidentais pensam que estão sendo rígidos, eles normalmente não chegam perto de ser mães chinesas”, disse a professora, em artigo publicado no Wall Street Journal.

“Para ser bom em algo, é preciso trabalhar, e as crianças nunca querem fazer isso por conta própria”, afirmou Amy. “Os chineses acham que a melhor maneira de proteger os seus filhos é prepará-los para o futuro, fazendo-os ver do que elas são capazes.”

O texto causou polêmica entre leitores e especialistas. Muitos viram nas opiniões de Amy a defesa de uma “superioridade” de pais chineses sobre os ocidentais, além de condenarem a falta de liberdade dada às crianças.

A professora se defendeu, afirmando que seu livro “não é um guia de como fazer as coisas; é uma memória, a história da jornada da nossa família em duas culturas” (o pai das filhas de Amy é judeu).

Prática consagrada

Segundo o correspondente da BBC em Pequim Michael Bristow, ser extremamente rígido com crianças, determinando o que elas podem e não podem fazer em seu tempo livre, é uma prática consagrada e dificilmente contestada na China.

Muitos pais chineses acreditam que, sem esta filosofia, seus filhos não conseguirão entrar em uma boa universidade, o que eles veem como algo vital para garantir um emprego bem remunerado, afirma Bristow.

“Nós temos que nos adaptar ao sistema, o sistema não se adapta a indivíduos”, disse à BBC a chinesa Meng Xiangyi, mãe de Ni Tianhao, um menino de 7 anos.

Ela afirma que largou o emprego para supervisionar a educação de seu filho, com o objetivo de colocá-lo na Zhongguancun Nº 2, uma das mais prestigiadas escolas primárias de Pequim.

Meng e sua família se mudaram para uma área mais próxima do colégio. Ela diz que se obrigou a fazer contatos com funcionários da escola, além de pagar cerca de 100 mil yuans (R$ 25 mil) à instituição em taxas extras.

Todo este esforço teve resultado: Ni conseguiu ingressar no Zhongguancun Nº 2, considerado uma porta de entrada para as principais universidades chinesas.

Embora pareça se enquadrar no estilo “mãe tigresa”, Meng não se considera muito rigorosa. “Eu não o faço chegar a 100%. Se ele alcançar 90% ou acima disto, estou satisfeita.”

Felicidade

“O maior problema na China é que os pais estão cada vez menos dispostos a permitir que seus filhos sejam crianças”, disse à BBC o professor e especialista em comportamento de pais Yang Dongping, do Instituto de Tecnologia de Pequim.

“Elas (as crianças) não têm uma infância feliz – tudo se trata de estudar, fazer provas e ter aulas particulares.”

Yang afirma que este estilo de lidar com os filhos se desenvolveu em parte devido à tradição chinesa de enfatizar o aprendizado acadêmico. Para ele, esta filosofia limita a criatividade e a imaginação dos jovens.

Além disto, a política do país em permitir apenas um filho por casal – para conter o crescimento demográfico excessivo – também é considerada um problema, por colocar muita pressão sobre filhos únicos.

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Na sexta-feira havia colocado três tuitadas que geraram um número enorme de comentários e respostas.

Tuitei o seguinte:

1) “Fim de semana cheio de trabalho pela frente…”

2) “Entretanto, como diz o Alípio Casali, ‘sem um mínimo de vagabundagem a inteligência não progride’”…

3) “Dilema: trabalhar ou vagabundear no fim de semana? Oh, dúvida cruel!”

Essa última tuitada foi a que gerou mais comentários. Houve predominância da recomendação: “Vagabundeia, Edu!”.

Mas houve uma discussão interessante. O importante é o ócio criativo, o ócio que libera a mente para pensar “out of the box”, criar, inovar, escorregar pra fora dos paradigmas.

Num comentário a um comentário, eu disse:

“Também acho o pensamento [do Alípio] sábio e instigante… É do ócio criativo (Domenico de Masi) que se trata. Quem faz trabalho criativo e inteligente precisa de tempo para deixar as idéias surgir,ganhar forma, amadurecer, se encaixar…

Agora, hoje cedo, encontro na Folha um artigo do Gilberto Dimmenstein, que começa comentando o livro da chinesa – mas que se torna uma apologia da indisciplina!

Concordo com tudo o que diz o Dimmenstein.

Conclamo a todos nós a defender as bandeiras da vagabundagem que faz a inteligência progredir e prosperar e da indisciplina que permite que a criatividade e a inovação emerjam e prosperem.

Não quero uma educação à la chinesa, nem mesmo à la coreana ou à la finlandesa. Quero um educação que permita que a inteligência e à criatividade prosperem. E, para isso, não tenho dúvida, precisamos de tempo livro, de ócio, de vagabundagem, de conversa jogada fora, de ausência de rigidez, de flexibilidade, de improvisação (nisto somos bons!), de não levar muito a sério os planejamentos e as regras, que foram criados para nos ajudar e não para nos cercear e amarrar.

Há uns meses, numa palestra para a Rede Pitágora, em Belo Horizonte, elogiei o Bill Gates e o Mark Zuckerberg por terem abandonado Harvard – a melhor universidade do mundo em todos os rankings – para poderem se tornar o enorme sucesso que são, mudando a vida deles e a nossa, para melhor.

É isso. Este é o meu principal sermão de hoje cedo.

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http://www1.folha.uol.com.br/fsp/cotidian/ff3001201119.htm

GILBERTO DIMENSTEIN

O maravilhoso poder da indisciplina

Em teste internacional de qualidade de ensino, a China ficou em primeiro lugar; os EUA, em 17º

UMA DAS IMAGENS atribuídas aos judeus é a neurose diante do desempenho nos estudos. Em parte é verdade: são 0,2% da população mundial e 20% dos vencedores do Prêmio Nobel e quase um terço dos matriculados em Harvard e no MIT. Mas isso é pouco com o que viria com os chineses, cerca de 20% dos habitantes do planeta.

Pelo menos é essa a sensação, com certo toque de histeria, que está provocando aqui nos EUA um livro de uma professora de direito nascida na China e casada com um judeu, com quem teve duas filhas.

Amy Chua relata com orgulho a forma rígida com que educa as filhas: nada de TV, videogame ou sair com amigas; são obrigadas a tirar as notas mais altas, exceto em educação física; não têm o direito de escolher as atividades extracurriculares; e devem tocar piano por pelo menos quatro horas por dia.

No livro, intitulado “Hino de Batalha de Uma Mãe Tigresa”, o pai, judeu, aparece como alguém mais relaxado e flexível diante da educação das filhas, mas, por causa de um acordo nupcial, acaba cedendo diante do que seria o jeito chinês de educar na base da rígida disciplina.

A tradução para os americanos -e daí a repercussão da “mãe tigre”- é que, com tanta disciplina, os chineses vão dominar o mundo, liderando as inovações. Não vou entrar na questão econômica, mas na pedagógica: excesso de disciplina não combina com criatividade.

O debate em torno do livro reflete o crescimento chinês e a insegurança dos EUA por causa do desemprego. Na semana passada, saiu uma pesquisa, baseada em 200 mil entrevistas, mostrando que nunca os estudantes universitários americanos sentiram-se tão abalados psicologicamente. Temem que seja cada vez mais difícil conseguir uma vaga no mercado de trabalho. Veem os países emergentes, a China em especial, como a grande ameaça.

Some-se a isso que, no último teste internacional de qualidade de ensino, a China ficou em primeiro lugar; os Estados Unidos, em 17º.

A história mostra, porém, que a inovação se sustenta apenas ao longo do tempo em locais onde há não apenas apoio à pesquisa, mas aceitação da diversidade e da indisciplina. O grande personagem de Harvard hoje é Mark Zuckerberg, um gênio indisciplinado na universidade.

Bill Gates não acabou a faculdade; Steve Jobs também não concluiu o ensino superior, onde apenas se interessou por caligrafia.

Não estou dizendo que uma nação não depende de quem estuda duro e é disciplinado, mas sim que se não houver espaço para a fantasia e o delírio não surgem Facebook, Google, Microsoft, IBM ou Apple.

A revolucionária Sony, vista como exemplo do que seria o domínio dos japoneses, é hoje decadente e comandada por um americano. No comunismo, os russos levaram um homem ao espaço, mas não souberam virar um polo de inovação.

Na semana passada, estive num local que serve como a tradução arquitetônica perfeita do poder criativo da indisciplina. É o novo prédio do Media Lab, do MIT, dedicado a descobrir novas funções para a tecnologia da informação.

Não há salas de aulas. Os alunos montam seus currículos, usando outras faculdades. Um amontoado de projetos se espalha pelos andares, parecendo um conglomerado de garagens daqueles jovens inventores que transformam a casa dos pais em laboratórios.

Vemos desde carros cujas rodas encolhem depois de estacionados até um centro de tecnologia da informação dedicado à medicina -no MIT criou-se um departamento apenas para testar o uso da nanotecnologia contra o câncer.

Os grandes inventores precisam de espaço para serem crianças, algumas vezes sem limite, para exercerem sua curiosidade.

O mundo é dividido entre quem cria e quem copia. Os dois tipos são necessários e complementares.

Para ter, porém, muitos inovadores, excesso de disciplina não funciona. Daí o erro, alertado por psicólogos, dos pais que pensam ajudar os filhos reduzindo seu direito de brincar e enchendo seu dia de atividades. Brincar é um dos melhores jeitos de se encantar pelas descobertas.

PS- Viver aqui em Cambridge, onde estão Harvard e MIT, é sentir a disciplina na indisciplina, há uma sensação de que se pode reinventar tudo. Um professor de direito de Pernambuco, Marcos Nóbrega, que está fazendo pesquisas por aqui, resumiu sua experiência numa frase: “Aqui deve ser o único lugar do mundo onde se vai comprar um chiclete e se encontra um Prêmio Nobel na fila”.

Apesar disso, há nesse ambiente laureado muito menos formalidade e muito mais flexibilidade e abertura para colaboração do que nas melhores universidades brasileiras.

gdimen@uol.com.br

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Em São Paulo, 30 de Janeiro de 2011.

(O Brasil) “Agora, vai!” (Será?)

Bom artigo de Fábio Barbosa na Folha de hoje (30/01/2011), discutindo questões como a valorização da moeda, competitividade e educação.

A tese dele: “Não temos como reverter a condição de que não escaparemos de ter uma moeda valorizada”. Assim, temos de melhorar a competitividade e melhorar a qualidade da educação, tendo esse fato como dado.

Tendo a concordar com ele. Esse negócio de querer nos fazer mais competitivos manipulando o câmbio e outros macetes não está com nada.

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http://www1.folha.uol.com.br/fsp/mercado/me3001201115.htm 

FÁBIO BARBOSA

Agora, vai!

Não temos como reverter a condição de que não escaparemos de ter uma moeda valorizada

O BRASIL VIVE UM momento muito especial. O contexto nos é favorável visto de muitos ângulos. Parece que estamos diante de um alinhamento de conjunturas único na história de um país.

Temos um percentual elevado de pessoas em idade de trabalhar, comparativamente à população total (o chamado “bônus demográfico”), que nos beneficiará ainda por duas décadas; temos a incorporação de novos consumidores por conta de uma renda maior; os preços de nossas commodities estão em patamares históricos; a potencialidade do pré-sal é enorme; os investimentos em infraestrutura trarão grandes oportunidades para muitos; a Olimpíada, a Copa do Mundo etc.

Enfim, são vários aspectos positivos e todos com perspectiva de perdurar por algum bom tempo.

Analisando sob uma perspectiva apartidária, tivemos também um alinhamento positivo e coerente no perfil dos nossos governos.

Numa primeira fase, o governo do presidente FHC estabilizou a moeda e desenhou e fortaleceu as instituições. Com isso, foram criadas as condições para o governo do presidente Lula intensificar os programas sociais e incorporar uma massa enorme de brasileiros a um novo patamar de consumo.

Essa nova base de consumidores, por sua vez, trouxe novas demandas em termos de infraestrutura (aeroportos, estradas, energia etc.), e o governo da presidente Dilma, que agora se inicia, tem justamente o perfil mais executivo, necessário para este momento, e levará adiante com eficiência a extensa agenda de investimentos.

Daí a expressão coloquial que está no título deste artigo: agora, vai!

Entretanto, não nos deixemos levar pela empolgação e lembremos que é preciso adaptação a esse novo cenário. Destacarei aqui apenas duas questões: competitividade e educação que, na verdade, são interligadas.

1) Competitividade – Num país com tantas perspectivas favoráveis, e que já acumula US$ 300 bi em reservas, é claro que o interesse por parte dos investidores internacionais é muito grande e, como consequência, o câmbio se valoriza.

Podemos tomar medidas no curto prazo para atenuar o processo, mas não temos como reverter a condição de que não escaparemos de ter uma moeda valorizada. Assim foi com as economias que se destacavam no século 20, como Inglaterra, EUA, Alemanha e Japão. As moedas valorizavam, mas os países nunca deixavam de ser competitivos.

Isso reforça que precisamos nos preparar para sermos competitivos com essa moeda valorizada. Ineficiências tributárias, fiscais ou custos elevados por conta de uma infraestrutura deficiente não mais poderão ser compensados por um câmbio desvalorizado.

É hora de fazermos as reformas e construirmos um ambiente empresarial mais eficiente, à altura das nossas possibilidades.

2) Educação – Esse momento favorável precisa ser aproveitado em todo o seu potencial, e é claro que já não o estamos fazendo.

Há dados positivos e que mostram que hoje 70% dos jovens da classe C têm um nível escolar mais alto do que o familiar.

Entretanto, essa comparação positiva feita sobre uma base muito baixa esconde uma realidade bem menos aceitável. Vista sob outra ótica, há falta de mão de obra qualificada para podermos levar adiante os projetos necessários.

Muitos jovens, por conta da evasão escolar ou por conta da baixa qualidade de ensino, estarão condenados a ficar à margem desse processo de desenvolvimento que estamos vivendo.

É hora de darmos prioridade total à educação nas esferas federal, estadual e municipal, com o apoio da iniciativa privada onde puder ser feito, para resgatarmos essa dívida maior que ainda temos. Só assim podemos dar oportunidade a cada brasileiro de se desenvolver na sua potencialidade, e só assim teremos construído um país mais digno.

Tudo aponta para um longo período de crescimento. Nosso principal desafio agora é pavimentar o caminho. Do contrário, teremos que prestar contas para as próximas gerações sobre como perdemos essa oportunidade única.

FÁBIO COLLETTI BARBOSA, 55, administrador de empresas, é presidente do Grupo Santander Brasil e da Febraban. Escreve mensalmente, aos domingos, neste espaço.

colletti.barbosa@gmail.com

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Em São Paulo, 30 de Janeiro de 2011.

Pode (e deve) a moralidade ser ensinada (na escola pública)?

Assunto quente na Seção Tendências/Debates da Folha de S. Paulo de hoje, 30 de Janeiro de 2011: a quem compete a educação moral das crianças, aos pais ou ao Estado (através da escola pública)?

Platão já perguntava, em um dos diálogos socráticos: pode a virtude ser ensinada? (O “pode”, nesse caso, é equivalente a “é possível”, não a “é permissível”).

Tenho a impressão de que a escola pública sempre achou que era possível ensinar a virtude, e, até mesmo, que era obrigatório que isso fosse feito por ela (e não pelos pais).

Ou vejamos.

A escola pública americana, que é, de certo modo, a mãe de todas, sempre se considerou o principal canal para veicular os valores básicos da sociedade americana, como a liberdade individual, a democracia, a responsabilidade de cada um pelo próprio sustento, a importância do trabalho, a limitação dos poderes do Estado. Até mesmo valores morais e religiosos sempre fizeram parte dessa agenda até recentemente. Seria a escola pública que ensinaria os estrangeiros imigrantes a viver segundo “the American way of life”, funcionando assim como principal agente para a criação do “melting pot”, o caldeirão em que crenças, valores e costumes alienígenas eram misturados com as crenças, valores e costumes da sociedade americana, desaparecendo, enquanto tais, ainda que tivessem uma pequena parcela absorvida no caldeirão de fusão. O que era abertamente assimilado pelos americanos eram, em geral, costumes que nada tinham de moral, como o hábito de comer pizza, ou taco… No que diz respeito aos valores básicos, os valores americanos varriam do mapa valores conflitantes trazidos pelos imigrantes.

Como a escola pública americana era composta predominantemente por alunos de tradição religiosa protestante, os valores ensinados por ela eram, em regra, valores da tradição protestante. Foi por isso que os católicos romanos se viram obrigados a criar suas próprias escolas, para usá-las como instrumentos para transmitir aos alunos as crenças, os valores e o ethos católicos romanos.

Assim, no tocante aos valores básicos da sociedade americana, era a escola que deveria transmiti-los. Se ela deixasse essa transmissão a cargo dos pais, os imigrantes católicos romanos, irlandeses e italianos, iriam formar filhos católicos, papistas, adoradores da Virgem Maria e dos santos, autoritários ou então anárquicos, etc. – algo indesejável. 

No Brasil a escola pública era composta predominantemente por alunos de tradição religiosa católica romana. Quando estudei na escola pública (início da década de 50), dizia-se que o Brasil era o maior país católico romano do mundo, com 95% da população aderindo a essa religião. Para protestantes, espíritas, judeus, muçulmanos, confucionistas, budistas e ateus sobravam apenas 5% da população… Assim, as crenças, os valores e o ethos católicos romanos eram  transmitidos (ainda que de maneira mais light do que nos Estados Unidos, pois no Brasil a religião católica romana nunca foi levada muito a sério pelos seus praticantes). Lembro-me, no detalhe, de que meu pai frisava com grande ênfase, em casa, que eu não deveria dizer “rezar”, como diziam meus professores e colegas, em vez de “orar”, como se diz na tradição protestante. Constato, com alguma surpresa, que a Paloma, mais zelosa dos valores e da linguagem protestante do que eu, hoje, em plena segunda década do século XXI, ainda de vez em quando se implica comigo por eu me referir a “Santo Agostinho” ou “São Tomás” (como sempre me referi a eles) – porque santo, como se sabe, só há um, que não é só uma vez santo, mas santo, santo, santo (como diz o hino)…

Assim, no Brasil, foram os protestantes que precisaram criar suas escolas, para transmitir nelas as crenças, os valores, e o ethos protestantes (embora as ordens católicas não tenham se descuidado da tarefa também, em especial quando ficou mais difícil usar a escola pública para transmitir as crenças, os valores e o ethos católicos).

É verdade que a escola pública, tanto a americana como a brasileira, só se safou, nesse processo de ensinar a moralidade ou a virtude (como preferia Platão) aos seus alunos, enquanto os valores ensinados eram consensuais, ou próximos disso, na sociedade. Houve época em que os imigrantes iam para os Estados Unidos querendo ser “americanizados”. Hoje, mesmo na terceira e quarta geração, eles insistem em preservar as suas crenças, os seus valores, os seus costume – chegando até a se descrever de forma hifenizada: ítalo-americanos, latino-americanos, etc. E, nessa época de multiculturalismo e diversidade, até o Pai Nosso foi removido da prática diária com que se abria o dia escolar. O juramento de lealdade à bandeira americana continua:

“I pledge allegiance to the Flag of the United States of America and to the Republic for which it stands, one nation, indivisible, with liberty and justice for all.”

No Brasil, em toda época em que houve uma ditadura foi introduzida no currículo a disciplina Educação Moral (às vezes, Educação Moral e Cívica) – com o objetivo nem sequer disfarçado de moldar (ou remoldar) a visão e a prática moral das crianças – e, também, de levá-las a se orgulhar de seu país (“Por que me ufano de meu país”…), e a não criticar muito severamente seus governantes, construindo, assim, os valores do patriotismo e a lealdade à pátria (muito mais forte nos Estados Unidos do que aqui). 

Estamos vivendo, hoje, no Brasil, uma época extremamente conflitiva em relação a valores morais, como as discussões acerca do aborto deixaram claro nas últimas eleições.

O aborto, porém, foi apenas a ponta do iceberg. Há a questão do homossexualismo, que os protestantes mais conservadores (para não dizer fundamentalistas) insistem em considerar não só como pecado, mas como doença (curável, naturalmente). Esses protestantes se insurgem contra projeto de lei que, se aprovado, tornaria crime “homofóbico” (equivalente a racismo) afirmar (vale dizer, pregar) que o homossexualismo é pecado, e, como tal, errado, e a tentativa de impedir que as pessoas se tornem homossexuais e de “resgatar” os que já caíram nesse “pecado” ou foram acometidos dessa “doença”. (Existem nas ruas placas e cartazes informando sobre supostos pastores que conseguem a “cura da viadagem”).

Mas não precisamos ir tão longe.

O artigo abaixo fala de tópico mais light, a sexualidade, pura e simples, o interesse que a criança cedo manifesta pelos órgãos sexuais (próprios e do sexo oposto), o toque dos órgãos sociais e a masturbação (ainda que inicialmente quase inconsciente e certamente inocente), a afirmação de que masturbar-se é algo gostoso e que não há nada de errado nisso (apesar de os pais mais religiosos e conservadores tentarem coibir o ato).

Deve a escola, em aulas de educação sexual, se meter a transmitir esses valores, digamos liberais, às crianças, ou deve se omitir, tratando da sexualidade apenas do ponto de vista, digamos, fático, científico, deixando a moralidade para ser tratada no lar (ou na igreja)?

Se alguém tem o direito de moldar a moralidade da criança, de quem é o direito: dos pais ou do Estado?

Está lançado o debate.

O artigo é “partisan”: o direito, afirma, é dos pais, e estes não devem permitir que o Estado lhes roube mais esse direito…

Concordo com os autores do artigo, mas em parte.

O que penso, em minha visão liberal radical, é que, se há esse direito, é dos pais, nunca do Estado.

Mas tenho sérias dúvidas de que mesmo os pais tenham esse direito.

Mas aqui surge o desafio: se nem os pais têm tem esse direito, o que fazer? Devemos deixar que a moralidade evolva por (assim dizendo) geração espontânea, “naturalmente”? Acreditar nisso seria ingênuo. Os pares, a televisão (a MTV, o Disney Channel, a Globo com suas novelas), etc. acabariam tendo um papel mais ativo na moldagem se os pais se omitissem totalmente.

É possível falar em uma educação moral “não moldadora”, “não impositiva”, “não diretiva”, mas “clarificadora”? (A “Clarificação de Valores” se tornou um modismo em algumas escolas há algum tempo). Isso funcionaria?

Repito: está lançado o debate.

(Meu primeiro projeto de pesquisa na UNICAMP, escrito em 1974, era sobre esse assunto).

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http://www1.folha.uol.com.br/fsp/opiniao/fz3001201107.htm

TENDÊNCIAS/DEBATES

Direito dos pais ou do Estado?
LUIZ CARLOS FARIA DA SILVA e MIGUEL NAGIB

Impõe-se que questões morais sejam varridas dos programas das disciplinas obrigatórias de ensino; quando muito, podem integrar disciplina facultativa

No começo de 2010, pais de alunos da rede pública de Recife protestaram contra o livro de orientação sexual adotado pelas escolas. Destinada a crianças de sete a dez anos, a obra “Mamãe, Como Eu Nasci?”, do professor Marcos Ribeiro, tem trechos como estes: “- Olha, ele fica duro! O pênis do papai fica duro também? – Algumas vezes, e o papai acha muito gostoso. Os homens gostam quando o seu pênis fica duro.” “Se você abrir um pouquinho as pernas e olhar por um espelhinho, vai ver bem melhor. Aqui em cima está o seu clitóris, que faz as mulheres sentirem muito prazer ao ser tocado, porque é gostoso.”
Inadequado? Bem, não é disso que vamos tratar no momento. O ponto que interessa está aqui: “Alguns meninos gostam de brincar com o seu pênis, e algumas meninas com a sua vulva, porque é gostoso. As pessoas grandes dizem que isso vicia ou “tira a mão daí que é feio”. Só sabem abrir a boca para proibir. Mas a verdade é que essa brincadeira não causa nenhum problema”.

Considerando que entre as pessoas que “só sabem abrir a boca para proibir” estão os pais dos pequenos leitores dessa cartilha, pergunta-se: têm as escolas o direito de dizer aos nossos filhos o que é “a verdade” em matéria de moral?

De acordo com a Convenção Americana sobre Direitos Humanos (CADH), a resposta é negativa. O artigo 12 da CADH reconhece expressamente o direito dos pais a que seus filhos “recebam a educação religiosa e moral que esteja de acordo com suas próprias convicções”. É fato notório, todavia, que esse direito não tem sido respeitado em nosso país.

Apesar de o Brasil ter aderido à CADH, o MEC não só não impede que o direito dos pais seja usurpado pelas escolas como concorre decisivamente para essa usurpação, ao prescrever a abordagem transversal de questões morais em todas as disciplinas do ensino básico.

Atendendo ao chamado, professores que não conseguem dar conta de sua principal obrigação -conforme demonstrado ano após ano por avaliações de desempenho escolar como o Saeb e o Pisa-, usam o tempo precioso de suas aulas para influenciar o juízo moral dos alunos sobre temas como sexualidade, homossexualismo, contracepção, relações e modelos familiares etc.

Quando não afirmam em tom categórico determinada verdade moral, induzem os alunos a duvidar “criticamente” das que lhes são ensinadas em casa, solapando a confiança dos filhos em seus pais.

A ilegalidade é patente. Ainda que se reconhecesse ao Estado -não a seus agentes- o direito de usar o sistema de ensino para difundir uma agenda moral, esse direito não poderia inviabilizar o exercício da prerrogativa assegurada aos pais pela CADH, e isso fatalmente ocorrerá se os tópicos dessa agenda estiverem presentes nas disciplinas obrigatórias.

Além disso, se a família deve desfrutar da “especial proteção do Estado”, como prevê a Constituição, o mínimo que se pode esperar desse Estado é que não contribua para enfraquecer a autoridade moral dos pais sobre seus filhos.

Impõe-se, portanto, que as questões morais sejam varridas dos programas das disciplinas obrigatórias. Quando muito, poderão ser veiculadas em disciplina facultativa, como ocorre com o ensino religioso. Assim, conhecendo previamente o conteúdo de tal disciplina, os pais decidirão se querem ou não compartilhar a educação moral de seus filhos com especialistas de mente aberta como o professor Marcos Ribeiro.

LUIZ CARLOS FARIA DA SILVA, 54, doutor em Educação pela Unicamp, é professor adjunto da Universidade Estadual de Maringá.

MIGUEL NAGIB, 50, é procurador do Estado de São Paulo, coordenador do site www.escolasempartido.org e especialista do Instituto Millenium

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Em São Paulo, 30 de Janeiro de 2011.