O livre pensar

Uma leitora de nome Cassandra deixou o seguinte comentário neste space: "Actualmente, ser um livre pensador é uma utopia".

Não concordo que pensar livremente seja uma utopia.

Primeiro, é preciso caracterizar bem no que consiste o livre pensar.

Para isso uso duas passagens que estão transcritas no meu perfil, ambas retiradas da Wikipedia – primeira da Wikipedia em Português, a segunda da Wikipedia em Francês. 

O livre pensador, diz uma, é aquele que analisa e julga as coisas, as pessoas, e os eventos que o rodeiam com base em sua capacidade de:

  • observar e coletar evidência (experiência, percepção);
  • analisar e avaliar essa evidência objetivamente (razão); 
  • extrair dela suas próprias conclusões (lógica).

O livre pensador é levado a concluir isto ou aquilo pela experiência, pela razão e pela lógica – não pelo que pensam ou pensaram os outros.

O livre pensador, diz a outra passagem, não se caracteriza por afirmar verdades (doutrina ou teoria), mas, sim, por adotar um método de buscar a verdade, a saber, a experiência, a razão e a lógica.

Essa caracterização do pensamento livre é perfeitamente coerente com uma citação de Lessing que coloquei como post ontem aqui neste space:

"O verdadeiro valor de um homem não é determinado por sua posse, real ou pretendida, da verdade, mas por seu sincero esforço de encontrá-la. Não é pela posse da verdade, mas por sua busca, que o homem expande sua capacidade de pensar, de se desenvolver, de se aperfeiçoar. A crença na posse da verdade nos torna indolentes, passivos, e indevidamente orgulhosos e insolentes. Se Deus contivesse em sua mão direita todas as verdades do mundo, e, na mão esquerda, contivesse apenas a ambição diligente e firme de buscar a verdade, ainda que, no processo, pudesse errar e freqüentemente fracassar, e me desse a escolha, não hesitaria em, com humildade, escolher o conteúdo da sua mão esquerda."

Essa passagem é refletida em vários lugares na obra de Popper, quando ele afirma que o filósofo (que, para ele, é o livre pensador por excelência), longe de ser o orgulhoso possuidor da verdade, é quem a procura e persegue – com humildade, mas com os instrumentos adequados, a saber, a experiência / observação, a razão e a lógica.

Em resumo: o livre pensador não depende de autoridades, divinas ou humanas, para chegar às suas conclusões. Depende unicamente de sua própria capacidade de observar, pensar e inferir. Depende, portanto, unicamente de si. Isso não quer dizer que o livre pensador não se beneficie do diálogo com os outros, da leitura de livros, e de outras coisas afins. Claro que se beneficia. Mas, em última instância, é ele quem tem de analisar e avaliar o que os outros dizem e escrevem – mesmo que os outros pretendam falar e escrever com autoridade divina. A contribuição dos outros não lhe chega, portanto, na forma de revelações a serem aceitas com base na autoridade de quem as emite, mas, sim, na forma de considerações que ele deve analisar e avaliar com base em suas observações, em sua capacidade de pensar, em sua capacidade de argumentar e julgar.

Tendo caracterizado o que significa pensar livremente, é preciso perguntar: é utopia imaginar que possamos pensar livremente, como pretende a leitora?

É difícil saber por que a leitora afirmou ser utópico o livre pensar, porque ela não aduziu nenhuma evidência, nenhum argumento. A afirmação que fez foi absolutamente gratuita.

No entanto, mesmo assim, é possível mostrar que o livre pensar não é uma utopia – que ele não só é possível mas vem ocorrendo o tempo todo, desde que o ser humano habita a Terra. É verdade que a maioria das pessoas prefere seguir a liderar na área do pensar. Os que ousam pensar por si próprios são sempre minoria. As sociedades têm sempre demonstrado uma tendência conservadora, de preservar a tradição, em vez de uma tendência inovadora, que só surge quando alguém ousa discordar e divergir da tradição.

Por exemplo… A grande maioria das pessoas acredita que está agindo corretamente quando está fazendo o que se acredita ser a vontade de Deus. Por muito tempo "a vontade de Deus", expressa em supostas revelações, colocadas no papel e transmitidas, ou em supostas comunicações feitas diretamente à consciência das pessoas, foi considerada o critério único (ou principal) do comportamento moral. Até que alguém ousou perguntar: isso é certo (ou errado) porque Deus ordena (ou proíbe) – ou Deus ordena (ou proíbe) porque é certo (ou errado)?

Se algum comportamento é certo (ou errado) apenas porque Deus o ordena (ou proíbe), então a moralidade é totalmente arbitrária, dependendo apenas da vontade de um ser – que pode ter decidido assim, mas poderia ter decidido doutra forma. Se, no entanto, Deus não poderia ter decidido doutra forma, então o certo (ou o errado) moral não dependem de sua vontade, mas, sim, da própria natureza das coisas, da própria natureza dos atos em questão. É porque algo é certo (ou errado) que Deus o ordena(ou proíbe). E se conseguimos, por nós mesmos, determinar o que é certo (ou errado), não precisamos de que Deus, ou quem quer que seja, nô-lo diga.

Quem primeiro elaborou esse argumento era um livre pensador. Ousou pensar fora da tradição — "out of the box", como dizem os anglófonos hoje.

Era um livre pensador quem primeiro pensou que as pessoas não são vítimas de possessão demoníaca, mas, sim, de problemas mentais que é possível, em muitos casos, corrigir.

E assim vai.

Pensar livremente é não só difícil mas, freqüentemente, também doloroso. É duro analisar criticamente e, eventualmente, concluir que devemos rejeitar, idéias que vêm nos acompanhando há tempo — há décadas, em muitos casos, ou até mesmo a vida toda. Por isso muitas pessoas têm medo de embarcar na análise crítica das idéias que lhe serviram de bússola até aqui – pois poderão ficar desnorteadas sem essa bússola. No entanto, pensar livremente é parte de nossa busca por liberdade e autonomia. Como bem ressaltou Erich Fromm, a maioria das pessoas tem medo da liberdade – preferindo a segurança que um ambiente não livre, mas conhecido e seguro, fornece. O mesmo se dá na área do pensamento. As idéias que adotamos até aqui freqüentemente nos dão um certo nível segurança. Mesmo que totalmente falsas. Essa é a segurança do costume e do hábito. A questão é: buscamos segurança ou a verdade? segurança ou a liberdade?

Espero que a Cassandra volte ao assunto e nos dê suas razões para afirmar que o livre pensar é utópico.

Em Salto, 25 de Agosto de 2008

A posse e a busca da verdade

"O verdadeiro valor de um homem não é determinado por sua posse, real ou pretendida, da verdade, mas por seu sincero esforço de encontrá-la. Não é pela posse da verdade, mas por sua busca, que o homem expande sua capacidade de pensar, de se desenvolver, de se aperfeiçoar. A crença na posse da verdade nos torna indolentes, passivos, e indevidamente orgulhosos e insolentes. Se Deus contivesse em sua mão direita todas as verdades do mundo, e, na mão esquerda, contivesse apenas a ambição diligente e firme de buscar a verdade, ainda que, no processo, pudesse errar e freqüentemente fracassar, e me desse a escolha, não hesitaria em, com humildade, escolher o conteúdo da sua mão esquerda."

Gotthold Lessing, Anti-Goeze (1778)

[Nota acrescentada em 20 de Outubro de 2008: Vide, adiante, meus posts com o título "A Verdade: Contra o Ceticismo, o Relativismo e o Dogmatismo"]

Em Salto, 24 de Agosto de 2008

A visão religiosa do mundo – 2

Meu post “A visão religiosa do mundo” gerou em dois dias alguns comentários interessantes, que outros posts não geram em muito mais tempo… Não posso deixar de comentá-los.

Um comentário veio de Emília Eiko (emilia-livro.spaces.live.com); o outro, de Wanderley Navarro (wynavarro.spaces.live.com).

A Emília acha que a religião é um mal necessário. Há alguns liberais que acham o estado um mal necessário. Não acho que o estado, quando configurado corretamente, seja um mal — e o considero necessário. Quanto a religião, não a acho necessária — mas a considero um mal.

Sobre os aspectos supostamente positivos da religião, que, acredito, a tornem necessária, em seu ponto de vista, diz a Emília: “Quando tudo parece perdido, quando o fundo do poço está próximo, é na religião que conseguimos encontrar conforto. Uma prece, uma conversa com Deus, e o coração se aquieta.” Longe de mim negar que há horas em que tudo parece perdido e em que o fundo do poço parece próximo. Talvez a gênese, o “Sitz im Leben”, da religião esteja nesses momentos de “medo e esperança”, “fear and hope”, como o dizia David Hume. Nem que, nesses momentos, sentindo a nossa finitude e impotência, confortamo-nos imaginando que não estamos sós, que há alguém, infinito, todo-poderoso, maxi-benevolente, disposto a nos ouvir em prece e que pode nos ajudar… Não há a menor dúvida de que uma crença dessas nos conforta o coração.

Quanto ao fato de que a religião produz conforto, estou perfeitamente de acordo com a Emília. A questão é: que base evidencial existe para acreditar que a crença em Deus, admitidamente confortante, é verdadeira?

Uma vez assisti a uma entrevista de Billy Graham para Larry King, na CNN. Ao final da entrevista, os papéis se inverteram e o velho (e reconhecidamente simpático) Billy Graham (que tive o privilégio de conhecer em São Paulo no início da década de 60, quando eu era um menino de menos de vinte anos) perguntou ao entrevistador como estava o relacionamento dele com Deus (vindo de Billy Graham, sempre com D). Larry King deu uma resposta que considero exemplar. Disse ele mais ou menos o seguinte (cito de memória): “Gostaria de acreditar em Deus e acredito que as questões com que a religião lida, e que tenta responder, são extremamente importantes. O problema é que não consigo encontrar nenhuma evidência de que Deus existe e de que as respostas dadas pelas diversas religiões às questões que tentam responder sejam verdadeiras”. I couldn’t have said it better myself.

Embora a Emília não traga à baila o assunto da imortalidade da alma, e/ou da ressurreição do corpo, não tenho a menor dúvida de que a crença de que a nossa morte não é o fim, de que há vida depois dela, seja porque a nossa alma é imortal, seja porque nossos corpos um dia serão ressuscitados, seja através de uma combinação dessas duas crenças (como acontece nas versões mais populares do cristianismo) — repetindo, não tenho a menor dúvida de que a crença de que a nossa morte não é o fim nos traz conforto, aquieta o nosso coração, reduz o nosso medo, e nos traz, em vez de medo, esperança… O doído da morte é saber que ela é o fim, que depois dela não há nada por vir, que, quando ela chegar, não veremos mais aqueles a quem amamos, não poderemos mais dar-lhes, ou deles receber, carinho e afeto, que não haverá mais como olhar-lhes nos olhos e nos deliciarmos com seu sorriso… O doído da morte é saber que ela é o fim, que, quando ela chegar, não teremos mais os abraços e os beijos dos filhos e dos netos… O doído da morte é saber que ela é o fim, que depois dela não poderemos mais assistir a belos filmes, ou ler belos livros, ou apreciar pinturas como as de Vermeer, ou ouvir músicas como a Sinfonia em Ré Menor, de Cesar Franck, ou Finlandia, de Sibelius, ou as aberturas de Tannhäuser e Lohengrin, ou mesmo de Tristan und Isolde, de Wagner, ou a Nona Sinfonia de Beethoven, ou Sonho de Amor, de Liszt, ou os  Noturnos, de Chopin… Isso tudo é muito doído. Por isso, é fácil acreditar quando nos prometem que ela não é o fim, mas, sim, apenas a passagem para um mundo melhor, em que continuaremos a usufruir e desfrutar todas essas coisas boas, mas em que de nossos olhos se eliminará toda lágrima…

Claro que eu gostaria de acreditar que isso é verdade. A questão é novamente é: que base evidencial existe para acreditar que a morte não é o fim, e que há uma vida futura?

Sobre os aspectos da religião que a tornam um mal, a Emília aponta para o fato de que a religião “pecadifica” o controle da natalidade, o divórcio, o aborto, a eutanásia, assim atrapalhando a nossa vida. Ela não usa o verbo “pecadificar” — sua linguagem é mais literária do que a minha. Eu não hesito em criar um neologismo: pecadificar um comportamento é transformar aquele comportamento em pecado, isto é, considerá-lo não só questionável do ponto de vista moral ou prudencial, mas, também uma ofensa contra deus (com d ou D) e, conseqüentemente, contra uma ordem cósmica eternamente estabelecida.

Concordo com ela aqui. Poderia citar outras questões, como, por exemplo, a crença de que é pecado fazer transfusão de sangue, ou transplantar órgãos de uma pessoa para outra, ou casar-se com alguém de uma religião diferente ou que pensa diferente de nós sobre religião…

[A propósito, Emília Eiko se refere a uma entrevista de Richard Lynn, publicada nos meios de comunicação recentemente, em que ele argumenta que ateus são mais inteligentes do que os não-ateus. Acho fraco o argumento. Mas como a Emília transcreve o artigo em seu SkyDrive, resolvi transcrevê-lo aqui também, ao final.]

A linha de argumentação da Emília me faz lembrar de Pascal e William James. Tanto um como o outro partem do pressuposto de que não há evidência de que Deus existe e de que há uma vida futura. Os dois, porém, acreditam que não haja evidência contrária à existência de Deus ou de uma vida futura. Numa situação assim, argumentam, é razoável “apostar” que Deus existe e que há uma vida futura.

O argumento de Pascal, um lógico, é mais fácil de entender. Visto não haver evidência nem a favor nem contra a crença na existência de Deus e numa vida futura, uma pessoa racional vai apostar que essas crenças são verdadeiras, pelo seguinte argumento:

a) Se eu creio que Deus existe e há uma vida futura, e Deus de fato existe e de fato há uma vida futura, eu terei felicidade suprema por toda a eternidade (I hit the jackpot);

b) Se eu creio que Deus existe e há uma vida futura, e Deus não existe e não há uma vida futura, eu não ganho nada, mas também não perco nada;

c) Se eu creio que Deus não existe e que não há uma vida futura, e Deus de fato não existe e de fato não há uma vida futura, eu não perco nada, mas também não ganho absolutamente nada;

d) Se eu creio que Deus não existe e que não há uma vida futura, e Deus existe e há uma vida futura, eu perco tudo o que tenho e vou fritar no inferno por toda a eternidade (ou seja, como diz minha filha, “tofu”);

Logo, uma pessoa racional aposta em “a” (na inexistência de evidência a favor ou contra essas crenças).

O argumento de William James, um psicólogo, não um lógico, é mais próxima da linha de argumentação de Emília Eiko. Não havendo evidência a favor ou contra, temos o direito epistêmico de acreditar naquilo que traz mais benefícios sociais. James não tinha dúvida de que uma sociedade em que se acredita em Deus e na vida futura é melhor do que uma em que não se acredita, porque as pessoas tenderão a levar mais a sério os preceitos morais (e mesmo os preceitos legais) dessa sociedade, porque sua violação traz não só sanções sociais (e legais), mas, também, a crença em sanções divinas, com conseqüências eternas.

(James não leva muito a sério os malefícios sociais da religião. Autores atuais enfatizam fortemente esses malefícios. Vide Richard Dawkins, The God Delusion [Houghton Miffllin, 2006], e Christopher Hitchens, God is NOT Great: How Religion Poisons Everything [Hachette, 2007]. Por outro lado, Dinesh D’Souza tenta rebatê-los, mostrando os benefícios sociais e culturais da religião, em especial do Cristianismo, em What’s so Great about Christianity [Regnery, 2007]. Eu diria que D’Souza mostra que a balança não pende tanto para o outro lado como Dawkins e Hitchens imaginam. Mas não chega perto de equilibrar os pratos).

A linha de argumentação de Wanderley Navarro toma um outro curso, que eu, pessoalmente, acho mais interessante. Em vez de tentar resumir seu ponto de vista, tomo a liberdade de citá-lo in totum:

“Eduardo Chaves,

Tenho seu site entre meus favoritos. Gosto de conhecer o ponto de vista de pessoas que podem pensar livremente. Sua opinião a respeito da visão religiosa do mundo teve o mérito de me animar a fazer o comentário a seguir.

Quando se fala em visão religiosa pensando numa determinada religião e nos seus rituais, corre-se o risco de empobrecer o assunto. Não restam dúvidas de que Deus, com D ou d, é o produto mais fácil de vender, não só nos nossos dias mas, também, ao longo de toda história. Os ídolos de barro, de ouro ou de conceitos persistem ao longo do caminho.O racionalismo (ou qualquer outro ismo) é apenas um deles.

O homem, ser no mundo, ao dar um sentido para sua vida, cria uma relação com este mesmo sentido. Essa relação (religião) é, no meu entender, a verdadeira dimensão religiosa do homem. A construção de um sentido da vida é também a construção de uma crença, um valor absoluto (um deus ou Deus) que nos serve de guia. Há, inclusive, os que acham mais importante não dar sentido algum a si mesmos. Há quem absolutize o relativo. Enfim, o vínculo entre o que se crê e o agir, eis a religião, entendida aqui no seu mais amplo sentido.

É interessante que um incrédulo, mesmo incrédulo, acredite num tal ser humano. Um conceito, uma crença, uma abstração, uma religião. Quem me garante que sejam todos igualmente humanos? Que seus atributos sejam os mesmos que os meus? Será que este conceito não deve ser atribuído apenas aos que, sábios e doutos, estudam, pensam, descrêem e dão certo

Não sei se o homem é um ser por acaso, uma reação química do nada com o nada. Não ouso afirmar que sou apenas o resultado de uma transa, com maior ou menor qualidade de mútuo consentimento entre um macho e uma fêmea. Nem me atrevo a dizer que não existe um sentido transcendente para a existência, nem para a minha nem para a dos outros. Não tenho esse direito. As evidências disponíveis não me permitem pontificar sobre o assunto nem estender minha conclusão para o resto da humanidade. A ciência mesmo, por mais elementos que tenha, não se pronuncia a respeito. Quanto a mim, prefiro ser aprendiz de humano e ficar atento ao mistério da vida. Estar aberto à pedagogia da existência. A incredulidade, assim como a idolatria, empobrecem muito nossa vida.

Afora o exposto acima, uma coisa temos em comum: o SPFC. Pode não ser nosso deus mas será, sem dúvida, o nosso santo.”

(http://ec.spaces.live.com/blog/cns!511A711AD3EE09AA!2162.entry#comment)

Confesso que tenho grande simpatia com alguns aspectos da posição do Wanderley Navarro.

O aspecto para mim mais instigante da crítica do Wanderley é sua acusação (feita de forma velada e delicada) de que eu, ao criticar a religião, estou me fundamentando em uma, a saber, em uma religião imanente e humanista, mais do homem (Homem?) aqui na Terra do que de Deus (deus?) lá no Céu (ou partout).

Será que o Wanderley está certo? A linha de argumentação é atraente e provocadora. O Padre Copplestone a utilizou num famoso debate contra Bertrand Russell na BBC (Third Programme), muitos anos atrás. Será que ateus são apenas religiosos com sinal trocado, que acreditam no Homem (com H), em vez de Deus? Em The Fountainhead, de Ayn Rand, Howard Roark, o supra-sumo do ateísmo, é chamado de religioso… 

Não creio que o Wanderley esteja certo.

Comecei minhas batalhas filosóficas, quando ainda cria ingenuamente em Deus, tentando refutar Hume, um ateu (na minha opinião — há quem discorde). Não consegui. No essencial, aceitei, no que diz respeito à religião, sua linha de argumentação. Mas nunca me esqueci de uma lição de Hume, que aprendi bem cedo: nunca devemos adotar o “entusiasmo” ao combater o “entusiasmo”. “Entusiasmo”, para ele, é algo que aqui se pode traduzir como um misto de dogmatismo cum fanatismo. Etimologicamente, pelo que consta, o “entusiasta” é aquele que se acredita possuído por Deus (o oposto, portanto, do endemoniado, com uma diferença: o entusiasta SE acredita possuído por Deus; o endemoniado é tido POR OUTROS como possuído pelo demônio). Menciono isso porque tomo especial cuidado para não ser acusado exatamente das mesmas falhas de que acuso meus adversários. Mas é exatamente disso que me acusa Wanderley Navarro.

Como disse, o Wanderley faz uma crítica velada e delicada. Seus argumentos contra mim se parecem com os que acabei de usar contra a Emília Eiko… Como crítico, Wanderley adota a postura do cético ou do agnóstico. “É interessante que um incrédulo, mesmo incrédulo, acredite num tal ser humano. Um conceito, uma crença, uma abstração, uma religião. Quem me garante que sejam todos igualmente humanos? Que seus atributos sejam os mesmos que os meus? Não sei se o homem é um ser por acaso, uma reação química do nada com o nada. Não ouso afirmar que sou apenas o resultado de uma transa, com maior ou menor qualidade de mútuo consentimento entre um macho e uma fêmea. Nem me atrevo a dizer que não existe um sentido transcendente para a existência, nem para a minha nem para a dos outros. Não tenho esse direito. As evidências disponíveis não me permitem pontificar sobre o assunto nem estender minha conclusão para o resto da humanidade. A ciência mesmo, por mais elementos que tenha, não se pronuncia a respeito.”

Note-se que o Wanderley não afirma que somos alguma coisa a mais do que o resultado apenas de uma transa (que ele negritou para impacto). Note-se que ele não afirma que nossa vida tenha sentido transcendente (que ele também negritou). Ele apenas “não ousa afirmar” que somos apenas resultado de uma transa nem “se atreve a dizer” que a vida tem sentido apenas imanente.

Ou seja, ele adota a postura do cético, do agnóstico: “Não tenho esse direito [de afirmar as teses positivas]. As evidências disponíveis não me permitem pontificar sobre o assunto nem estender minha conclusão para o resto da humanidade. A ciência mesmo, por mais elementos que tenha, não se pronuncia a respeito.”

No início de minha trajetória “não-religiosa” senti-me muito tentado a adotar uma postura cética e agnóstica. Custei um bocado a me admitir ateu, e não simplesmente cético e agnóstico. Nisso mais uma vez segui Hume. Quando Hume foi ser attaché cultural da Embaixada Britânica na França, assustou-se com os philosophes, que abertamente alardeavam o seu ateísmo. Para a sua personalidade sensível e delicada, moldada por um ceticismo mitigado, e que recomendava que não deveríamos adotar o entusiasmo no combate ao entusiasmo, o agnosticismo era a posição natural. Ele não queria, defendendo o ateísmo, estar aberto à acusação de que era tão religioso quanto aqueles a quem combatia — só que com o sinal trocado…

Novos tempos, velhas controvérsias.

Meu orientador de Doutorado, o saudoso William Warren Bartley, III, discípulo amado de Karl Popper, de quem foi orientando, foi, por um tempo, excomungado pelo grande filósofo por ousar criticá-lo exatamente numa questão semelhante. Popper, nos capítulos finais de The Open Society and its Enemies, defende uma posição filosófica que ele chama de “Critical Rationalism”. AO discutir, porém, o que justificava a aceitação dessa postura, Popper admitiu que nada a justificava. Tentar justificar o racionalismo, admitiu ele candidamente, já é pressupô-lo, porque toda tentativa de justificar alguma coisa já é um exercício racional. Logo, não há como justificar racionalmente a adoção do racionalismo, a razão como critério de aceitação ou rejeição de outras crenças. Esse procedimento nos envolveria numa falácia de petitio principii — a falácia de pressupor exatamente aquilo que se deseja provar. O racionalismo é um “comprometimento último” que alguns de nós fazemos — mas, como “ultimate commitment”, sua adoção é fundamentalmente irracional — ou no mínimo arracional.

Em seu livro The Retreat to Commitment, publicado originalmente e 1962, Bartley ousou criticar o mestre e foi temporariamente banido de sua convivência. O argumento de Bartley é simples. Primeiro, ele chamou atenção para o fato de que, em seu primeiro livro publicado, Logik der Forschung (The Logic of Scientific Discovery), que veio a público em Alemão em 1934, Popper mostrou que, no caso da ciência, o procedimento metodológico a adotar não é tentar provar (ou justificar) hipóteses e teorias, mas, sim, tentar refutá-las (ou falsificá-las). E tentativas de refutação e falsificação se fazem por apelo a evidências (fatos) e argumentos. Aquelas hipóteses e teorias que, depois de tentativas sérias e prolongadas de refutação ou falsificação, sobreviverem, merecem nossa aceitação — mas sempre de forma provisória e tentativa, pois elas podem vir a ser refutadas ou falsificadas no dia seguinte…

Até aí, nada que pudesse irritar Popper. Foi o segundo passo de Bartley que irritou Popper.

Em seu segundo passo, Bartley argumentou que Popper não havia aplicado à filosofia, e, portanto, a suas próprias idéias, a prescrição metodológica que havia feito para a ciência. O Racionalismo Crítico, diz Bartley, é uma teoria filosófica e, como tal, não deve ser aceito acriticamente (como se fosse um “ultimate commitment” — donde o título do seu livro). Ele deve ser proposto como uma teoria ou hipótese que, como as teorias e hipóteses científicas, deve se submeter a tentativas sérias e consistentes de refutação e falsificação. E, no caso da filosofia, a crítica se dá da mesma forma que se dá a tentativa de refutação e falsificação de teorias e hipóteses científicas: por apelo a evidências (fatos) e argumentos. Se, depois de ser assim criticado, o Racionalismo Crítico subsistir, temos boas razões para aceitá-lo — embora sempre de maneira provisória e tentativa.

O argumento de Bartley é sutil — sutil mas irrespondível. Daí a ira de Popper. A única coisa que Popper conseguiu dizer acerca desse argumento durante a briga dos dois é que ele próprio já o havia elaborado, e que Bartley simplesmente se apropriou do argumento, pois, como discípulo favorito, tinha acesso até a manuscritos ainda não publicados do mestre… Mas se o argumento era mesmo de Popper, por que este não o revelou na edição original de The Open Society, ou em suas várias reedições?

O argumento é sutil porque inverte o onus argumentandi, o dever de argumentar.

Popper, em The Open Society, aceita que é dever seu argumentar em justificação de seu Racionalismo Crítico — mas reconhece que não conseguirá, vendo-se forçado, portanto, a admitir o seu fracasso, dizendo, com todas a clareza, que a aceitação do racionalismo envolve, ela própria, um comprometimento último de natureza irracional ou pelo menos arracional.

Bartley, em The Retreat to Commitment, baseando-se, curiosamente, em premissas totalmente popperianas, se recusa a aceitar que seja dever de Popper, ou seu, ou de qualquer outra pessoa, argumentar em justificação do Racionalismo Crítico de Popper. Para ele, o Racionalismo Crítico proposto por Popper é uma teoria ou hipótese filosófica que foi colocada para discussão e, agora, cabe tentar refutá-lo ou falsificá-lo, por apelo a evidências (fatos) ou argumentos.

Popper admitiu fracasso porque reconheceu que não conseguiria justificar o racionalismo sem, ele próprio, pressupô-lo (cometendo ele, portanto, a falácia do petitio principii).

Bartley, muito mais sagaz, não reconhece fracasso porque joga o onus argumentandi para quem quiser refutar ou falsificar o racionalismo. E fica apenas esperando… Quando alguém tentar refutar ou falsificar o racionalismo, terá de fazê-lo, forçosamente, através de evidências ou argumentos, ou seja, pressupondo a verdade do racionalismo, exatamente aquilo que deseja refutar ou falsificar — e Bartley daí mostrará que são os críticos do racionalismo que não conseguem criticá-lo sem pressupor a sua verdade, envolvendo-se, portanto, numa contradição.

Em outros palavras: Bartley não só foge do petitio principii como coloca os críticos do Racionalismo Crítico na iminência de demonstrar a necessidade de aceitá-lo exatamente ao tentar refutá-lo ou falsifícá-lo.

Por que recorri a esse enorme parêntese? Porque, embora tenha adquirido uma grande simpatia pelo ceticismo e o agnosticismo quando me degladiei com Hume, ao travar contato, através de Bartley, com Popper, convenci-me de que as hipóteses Deus e vida futura, além de nunca terem sido justificadas pelos que as propõem, já foram mais do que refutadas e falsificadas por fatos e argumentos. (A análise e avaliação desses fatos e argumentos vão além do escopo deste post, que já se estende demasiado). Diante disso, não se justifica manter, em relação a elas, uma postura supostamente neutra de cético ou agnóstico — como a que tenta manter Wanderley Navarro.

A crença em Deus e na vida futura é uma daquelas crenças que persiste através dos tempos apenas porque (para invocar o tese de Emília Eiko) apenas porque conforta e aquieta o coração — não por causa de evidências ou argumentos. A maior parte de nós, ou mesmo todos nós, em um momento ou outro, queremos acreditar em Deus — um pai que cuida de nós, que não deixa nem mesmo um só fio de cabelo cair de nossa cabeça sem que isso seja de sua vontade; um ser que, apesar de todo o seu trabalho mantendo o universo em operação e funcionamento, tira tempo para ouvir as criancinhas que pedem para que ele faça voltar o cachorrinho que fugiu, ou as adolescentes que pedem para que ele as ajude arrumar um namorado, ou os adultos que pedem para ele faça um pecador se arrepender… A maior parte de nós, ou mesmo todos nós, em um momento ou outro, queremos acreditar que há uma vida futura, melhor do que essa, na qual, entre outras coisas, vamos reencontrar entes queridos que já morreram, ou na qual daremos prosseguimento, num nível muito mais exaltado de felicidade, ao lado bom de nossa vida terrena…

Só esse fato, de que nós querermos acreditar nessas coisas, já deveria tornar essas crenças suspeitas. O verdadeiro ceticismo está em questionar e duvidar exatamente daquilo em que mais gostaríamos de acreditar — não em pretender isenção e neutralidade em relação a crenças já refutadas e falsificadas.

Conforta a vida das crianças acreditar na existência de fadas madrinhas e anjos da guarda. Eles parecem ser proteção suficiente contra suas contra-partidas, as bruxas e os lobos maus da vida.

Até certo ponto essa crença infantil não causa grande dano, nem dano permanente, se, no devido tempo, vier a ser abandonada.

O problema, com boa parte das pessoas, é que a religião continua a exercer em sua vida adulta o mesmo papel que as histórias infantis exerciam em sua vida de crianças.

A seguir, a entrevista mencionada.

——

Os ateus são mais inteligentes

O pesquisador britânico Richard Lynn dedicou mais de meio século à análise da inteligência humana. Nesse tempo, publicou quatro best-sellers e se tornou um dos maiores especialistas no assunto.

Nos últimos 20 anos, passou a investigar as relações entre raça, religião e inteligência. Ao publicar um trabalho na revista científica Nature, que sugeria que os homens são mais inteligentes, um grupo feminista o recepcionou em casa com o que ele chamou de salva de ovos. O mesmo aconteceu quando disse que os orientais são os mais inteligentes do planeta. “Faz parte do ofício de um cientista revelar o que as pessoas não estão prontas para receber”, diz. Ao analisar mais de 500 estudos, Lynn disse estar convencido da relação entre Q.I. alto e ateísmo. “Em cerca de 60% dos 137 países avaliados, os mais crentes são os de Q.I. menor”, disse. Seu trabalho será publicado em outubro na revista científica Intelligence.

Richard Lynn é professor emérito e chefe do Departamento de Psicologia da Universidade do Ulster, na Irlanda do Norte. Ph.D. pela Universidade de Cambridge, é um dos maiores especialistas em estudos de inteligência em raças e gêneros.

Publicou quatro livros sobre inteligência ligada à raça e ao sexo, entre eles Race Differences in Inteligence: an Evolutionary Analysis, e dezenas de artigos em revistas científicas, como a britânica Nature

ÉPOCA Por que o senhor diz que pessoas inteligentes não acreditam em Deus?

Richard Lynn – Os mais inteligentes são mais propensos a questionar dogmas religiosos. Em geral, o nível de educação também é maior entre as pessoas de Q.I. maior (um Q.I. médio varia de 91 a 110). Se a pessoa é mais estudada, ela tem acesso a teorias alternativas de criação do mundo. Por isso, entendo que um Q.I. alto levará à falta de religiosidade. O estudo que será publicado reuniu dados de diversas pesquisas científicas. E posso afirmar que é o mais completo sobre o assunto.

ÉPOCA Segundo seu estudo, há países em que a média de Q.I. é alta, assim como o número de pessoas religiosas.

Lynn – Sim, mas são exceções. A média da população dos Estados Unidos, por exemplo, tem Q.I. 98, alto para o padrão mundial, e ao mesmo tempo cerca de 90% das pessoas acreditam em Deus. A explicação é que houve um grande fluxo de imigrantes de países católicos, como México, o que ajuda a manter índices altos de religiosidade nas pesquisas. Mas, se tirarmos as imigrações ao longo dos últimos anos, a população americana teria um índice bem maior de ateus, parecido com o de países como Inglaterra (41,5%) e Alemanha (42%).

ÉPOCA Cuba é um país mais ateu que os Estados Unidos, mas o nível de Q.I. não é tão alto.

Lynn – Você tem razão. É outra exceção. Pela porcentagem de ateus (40%), o Q.I. (85) dos cubanos deveria ser mais alto que o dos americanos. Mas há também aí um fenômeno não natural que interferiu no resultado. Lá, o comunismo forçou a população a se converter. Houve uma propaganda forte contra a crença religiosa. Não se chegou ao ateísmo pela inteligência. A população cubana não se tornou atéia porque passou a questionar a religião. Foi uma imposição do sistema de governo.

ÉPOCA E o Brasil, como está?

Lynn – O Brasil segue a lógica, um porcentual baixíssimo de ateus (1%) e Q.I. mediano (87). É um país muito miscigenado e sofreu forte influência do catolicismo de Portugal e dos negros da África. Fica difícil mensurar a participação de cada raça no Q.I. atual. O que posso dizer é que a história do país se reflete em sua inteligência.

ÉPOCA O senhor quer dizer que a miscigenação influenciou nosso Q.I.?

Lynn – Sim, é uma hipótese em análise ainda. Os japoneses são os indivíduos que na média têm o maior Q.I. (105) entre as raças estudadas. É mais alto que o dos europeus e dos americanos. Em negros da África Subsaariana, o resultado foi 70. Em negros americanos, esse valor é maior (85). Isso pode ser explicado pelos 25% dos genes da raça branca que os negros americanos possuem.

ÉPOCA O senhor está sugerindo que índios, brancos e negros têm Q.I. diferente entre si?

Lynn – Exatamente. Isso se explica pela história da humanidade. Quando os primeiros humanos migraram da África para a Eurásia, eles encontraram dificuldade para sobreviver em temperaturas tão frias. Esse problema se tornou especialmente ruim na era do gelo. As plantas usadas como alimento não estavam mais disponíveis o ano inteiro, o que os obrigou a caçar, confeccionar armas e roupas e fazer fogo. Ao exercitar o cérebro na solução desses problemas, tornaram-se mais inteligentes. Há também uma mutação genética que teria acontecido entre asiáticos e dado uma vantagem competitiva a essa raça.

ÉPOCA O senhor chegou a alguma conclusão sobre a inteligência das raças?

Lynn – Sim. Os asiáticos são os mais inteligentes. Chineses, japoneses e coreanos têm o Q.I. mais alto (105) da humanidade. E isso acontece onde quer que esses indivíduos estejam, seja no Brasil, nos Estados Unidos, na Europa ou em seu país de origem. Em seguida, vêm europeus (100) e nas últimas posições estão os aborígenes australianos (62) e os pigmeus do Congo (54).

“Os negros americanos são mais inteligentes que os africanos porque têm 25% de genes da raça branca”.

ÉPOCA Se fosse assim, seria mais fácil encontrar um gênio entre os japoneses ateus, não?

Lynn – Não. Os asiáticos têm Q.I. alto, mas são um grupo mais homogêneo. Há menos extremos positivos e negativos. Eu não diria que é mais fácil nem mais difícil. Na verdade, não sei. Os gênios aparecem em todos os povos, em todos os países, mas é difícil medi-los. E não é porque se é religioso que se é menos inteligente. Mas há uma tendência de encontrar Q.I. mais alto em pessoas não-religiosas. Em minha opinião, isso acontece porque a inteligência aprimorada leva ao questionamento da religião.

ÉPOCA Há outras habilidades relacionadas ao sucesso profissional e à felicidade, além do Q.I.?

Lynn – Os testes de Q.I. não devem ser tomados como a coisa mais importante da vida. Há muito de cultural nesses testes. E isso se reflete no mau desempenho de tribos rurais. Há também a tão alardeada inteligência emocional e uma série de características sociais que geram vantagem nos tempos modernos. Mas insisto que o Q.I. é um item fundamental para medir a inteligência de uma pessoa.

ÉPOCA Que outras conclusões podemos tirar a partir do teste de Q.I.?

Lynn – Inúmeras. É uma área de estudos muito produtiva hoje em dia. Acredita-se que pessoas com Q.I. elevado tenham menores índices de mortalidade e menos doenças genéticas. Aparentemente, há uma relação forte entre saúde e Q.I. alto. Os indivíduos mais inteligentes também apresentam menos risco de sofrer de depressão, estresse pós-traumático e esquizofrenia.

ÉPOCA Qual é seu Q.I.?

Lynn – Meu Q.I. é 145 (Lynn seria superdotado de acordo com a escala mais popular de Q.I. ). É um número alto, eu sei, mas não destoa entre os colegas da academia. Há Q.I.s mais altos que o meu na Academia de Ciências dos EUA. Mas lá também vale a regra. O número de ateus chega a 70%.

ÉPOCA Como o senhor vê o papel da religião na sociedade?

Lynn – A religião é um instinto, o homem primitivo tem crença religiosa e isso, por algumas razões, se manteve até hoje. Mas, acredito, somos capazes de superar isso com a razão.

Fonte: Revista Época / Luciana Vicária / 08.08.2008

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Em Salto, 22 de Agosto de 2008

A visão religiosa do mundo – 1

Nenhum de nós pediu para nascer… Nascemos porque um homem e uma mulher, nossos pais, um dia transaram — de preferência, de comum acordo, ou, então, um forçando o outro; de preferência, com amor, mas também pode ter sido sem… Desse relacionamento nós surgimos.

Tendo nascido assim por causa de uma decisão às vezes mal tomada, às vezes tomada só por um de nossos pais, é legítimo perguntar: a vida tem algum sentido imanente (“imanente” aqui querendo dizer “além do(s) sentido(s) que nós mesmos procuramos imprimir a ela”)?

Alguns nascem em berço esplêndido: em lares ricos, de pessoas cultas, que vivem em locais em que se respira cultura sofisticada. Ali o acesso ao desenvolvimento das mais variadas competências e à construção dos mais sofisticados conhecimentos é relativamente fácil. Outros nascem em condições bem adversas: basta mudar o sinal das características anteriores para obter uma descrição apta dessa situação. Ainda outros, talvez a maioria, nascem em condições intermediárias: nem tão boas, nem tão ruins.

Sendo assim, é legítimo perguntar: por que isso acontece assim?

Depois de nascidos, uns (muitas vezes independentemente de sua origem) progridem, destacam-se dos demais, se tornam bem sucedidos: “dão certo”, como diz Viviane Senna (qualquer que seja o empreendimento pelo que optem). Outros (mais uma vez sem relação necessária com sua origem) não progridem, por vezes até andam para atrás, destacam-se com o sinal invertido: não pelo seu sucesso, mas pelo fracasso que persiste em visitá-los. “Dão errado”. Ou, como novamente diz a Viviane, tornam-se “seres humanos bonsai”: não se desenvolvem.

Sendo assim, é legítimo perguntar: por que isso acontece assim?

Três vezes eu disse: “é legítimo perguntar”. A essas perguntas, claramente genuínas e legítimas, o ser humano tem dado, ao longo de sua história, dois tipos de resposta.

Um tipo de resposta, o mais comum, parte do pressuposto de que a realidade (o cosmos, a vida em geral, a vida de cada um de nós) tem um sentido transcendente, isto é, que tem origem além ou fora dessa realidade.

O outro tipo de resposta, menos comum, por não ver justificativa no pressuposto do primeiro tipo de resposta, imprime, quando o faz, sentido apenas imanente à vida: a nossa vida só tem sentido quando nós mesmos conseguimos revesti-la de sentido.

O primeiro tipo de resposta é responsável pelo surgimento das religiões. O segundo tipo de resposta se encontra em casa na filosofia – em especial na filosofia de cunho mais naturalista, mais cético, mais racionalista, mais humanista.

O primeiro tipo de resposta parte do pressuposto de que a realidade (o cosmos, a vida, a nossa vida) tem uma finalidade metafísica (sobrenatural) que é lhe atribuída por um ser – ou conjunto de seres – cuja existência está fora dessa realidade, e que, portanto, a transcende (donde o sobrenatural), podendo ser que até mesmo um deles – o maior de todos – a tenha criado, dentro de seus desígnios freqüentemente considerados inescrutáveis. Tendências mais céticas, dentro desse primeiro tipo de resposta, relutam em reivindicar muito conhecimento desses desígnios. Tendências mais crédulas, porém, não hesitam em reivindicar conhecimento bastante significativo desses desígnios (que, no caso, não seriam tão inescrutáveis assim). Com base em supostas evidências de ordem e propósito encontradas na realidade, ou com base em supostas revelações de natureza genérica (feitas, pelo que se acredita, para todos os que se propuserem aceitá-las), os proponentes desse primeiro tipo de resposta acreditam ter resolvido, em grande parte, o mistério da vida humana (e até mesmo do universo como um todo). Dentre esses, uns chegam ao extremo de credulidade representado pela convicção de que não só conhecem esses supostos desígnios superiores (divinos), mas são capazes de influenciá-los através de sacrifícios, oferendas, preces e orações de vários tipos. No extremo da extremidade estão os que são capazes de se convencer (e, por incrível que pareça, de convencer os outros) de que têm canais privilegiados de comunicação permanente com os autores desses desígnios (os deuses): não só falam com eles em oração, mas ouvem respostas e comunicados específicos (profecias, leis, instruções, etc.) – através de idéias ou outras informações que repentinamente aparecem em suas cabeças, ou através de sonhos, ou através de mensageiros especiais (anjos, por exemplo), ou através de sinais que apenas eles são capazes de decodificar.

O segundo tipo de resposta não vê fundamento para esses edifícios teóricos: consideram-nos castelos construídos no ar. Os que a adotam não conseguem encontrar evidência que comprove que esses edifícios teóricos – admitidamente belos – sejam mais do que mitos e literatura. Com base na evidência disponível, argumentam que tudo indica que não nascemos com nenhuma finalidade metafísica atribuída a nós por um ente transcendente e sobrenatural. Propõem, em lugar da resposta do primeiro grupo, que o único sentido que a vida possui é aquele que nós mesmos atribuímos a ela – reconhecendo que alguns não conseguem lhe atribuir nenhum.

Em regra os proponentes do segundo tipo de resposta acreditam que os proponentes do primeiro tipo se iludem, são vãos e pretensiosos, e que, a despeito de suas profissões de humildade, têm mania de grandeza, pois se julgam tão importantes a ponto de acreditar que a divindade não só faz macro-gestão do universo, mas micro-gere a sua vida (não permitindo, por exemplo, que nem mesmo um fio de cabelo caia de sua cabeça sem a intervenção divina), monitorando em micro-detalhes o que acontece em sua vida, ouvindo-lhes os reclamos, dando-lhes informações privativas sobre assuntos de interesse, protegendo-lhes os bens (inclusive humanos: cônjuge, filhos). E eles são agentes dessa micro-gestão. Delegados divinos, imaginam-se.

Por isso, investem tudo de sentido religioso, cósmico, eterno. As coisas mais miúdas e comezinhas da vida assumem sentido religioso. Proíbe-se que se coma isso ou aquilo. Fazem-se jejuns, às vezes prolongados. O faquir indiano dos jejuns — acrescentando a cama de pregos. Proíbe-se que se vista assim ou assado. Mulheres muçulmanas cobrem até o rosto em público. Proíbe-se que, em determinados dias (sextas-feiras, sábados ou domingos), se faça qualquer coisa que não seja religiosa. Considera-se impura a mulher durante o seu ciclo menstrual. Paulo, no Novo Testamento, exorta as mulheres: “E vós, mulheres, obedecei a vossos maridos…”

Por falar nisso, um casamento, dentro dessa visão não é um simples arranjo (contrato entre duas pessoas) que procura viabilizar a consecução de seus objetivos comuns, tornando-as mais felizes. O casamento é sacralizado, sacramentado, investido de sentido religioso, cósmico, eterno, místico: não um acordo terreno (um contrato) que pode ser revogado de comum acordo ou mesmo unilateralmente, dando-se causa, mas uma aliança feita nos céus, para todo sempre (inclusive para uma suposta vida futura que estaria por vir, depois desta – o “porvir”). Romper unilateralmente o contrato matrimonial, nesse caso, não é apenas trair a confiança do cônjuge: é pecar contra a ordem divinamente estabelecida, é ofender a Deus, é (a menos que Deus [sic] perdoe) condenar-se ao eterno fogo do inferno. Pior: é mostrar-se aberto para questionar as demais pedras do edifício – algo a ser coibido de toda e qualquer maneira.

A religião procura dar um sentido favorável e positivo (para o crente) a tudo o que acontece — investindo tudo de uma aura sobrenatural. As coisas vão indo mal e você está, digamos, no fim da fila nesta vida? Ah, mas os últimos serão os primeiros! O incrédulo enriquece e o crente permanece pobre? Ah, mas é mais fácil um camelo passar pelo fundo de uma agulha do que um rico entrar no reino dos céus. Alguns são pobres de espírito? Ah, mas também deles é o reino dos céus — que, pelo jeito, é o reino dos pobres em matéria e em espírito. Ao exigir o sacrifício, ao exigir que o bem de outrem seja colocado antes do bem próprio, que é a essência do altruísmo, a religião leva as pessoas a tentarem se regozijar com a felicidade alheia e a se conformarem com o quinhão que (segundo imaginam) lhes cabe na vida, tentando fazer da necessidade uma virtude.

Aos que adquirem algum poder sobre outras pessoas dentro dessa visão de mundo convém manter essa visão a todo custo,  muitas vezes quando nem mesmo acreditam mais nela – pois seu poder sobre os outros advém desse referencial teórico. Conheço dezenas de padres e pastores que não acreditam no que pregam — mas continuam ali, por causa do poder sobre a vida de outras pessoas que o ofício, e, por vezes, algum carisma, lhes outorgam. Vide a passagem sobre o Grande Inquisidor, no magnífico livro de Dostoievsky, Irmãos Karamazov.

A visão religiosa do mundo é mais do que simplesmente falsa: é, em muitos aspectos, perniciosa. Alguém enfrenta problemas típicos dos problemas que todo mundo enfrenta, cedo ou tarde? É o demônio agindo, ou é um mal-espírito que se apossou da pessoa (as vezes pela instrumentação de um “anjo de luz”): é preciso exorcizá-lo. Se bem sucedido o exorcismo, o espírito mau fica sem ter para onde ir e é obrigado a buscar guarida numa manada de porcos… A religião é anti-vida. Privilegiando um mundo futuro, reduz a importância deste. Privilegiando a vida eterna, reduz a importância desta vida curta e mortal — mas tão importante, por ser a única que temos. Ao afirmar que a morte é o portal de entrada para o paraíso, a religião reduz o impacto e o significado da morte, relativiza-a. Para quem não é religioso a morte é importante porque é o fim — e, como tal, precisa ser levada a sério. Para os não religiosos a morte é verdadeiramente final — não é a porta de entrada para o paraíso. Terroristas religiosos muçulmanos se explodem em nome da religião, matando dezenas ao seu redor, trazendo destruição, porque acreditam que, assim fazendo, vão direto ao paraíso, para desfrutar, de imediato, dos encantos de setenta e duas virgens. Dá pra crer?

Alguns religiosos vão dizer que condenam os terroristas que autoexplodem. Infelizmente, operam sob os mesmos princípios que eles.

Parece que nada é tão absurdo que não possa se tornar artigo de fé de uma religião ou outra.

[Continuo, quando eu estiver inspirado].

Em Campinas, 19 de Agosto de 2008 

A pessoa, o seu corpo, e a existência de entes espirituais

Prestei atenção à forma em que os meios de comunicação — em especial a Rede Globo — se referiram à morte de Dorival Caymmi.

Em vários momentos a emissora noticiou que havia morrido o compositor e cantor Dorival Caymmi. Quanto a isso não parece ter havido dúvida: quem morreu foi Dorival Caymmi — a pessoa, o compositor e cantor. No entanto, a emissora anunciava em seguida que seu corpo seria enterrado no dia tal, a tais horas, em tal lugar.

Ou seja: morreu a pessoa — mas o que vai ser enterrado é apenas o seu corpo.

E o resto da pessoa, se resto há? O que acontece com ele?

Não tenho dúvida de que uma pessoa é composta, em algum sentido válido dos termos, de pelo menos duas partes: corpo e mente. Há os que acreditam que a pessoa tenha mais do que simplesmente corpo e mente: além do corpo, ela teria alma e espírito — não ficando claro onde ficaria a mente nesse complexo de partes que, em sua totalidade, comporiam a pessoa.

Também não tenho dúvida de que a mente, embora claramente distinta do corpo, morre com ele. Assim, não tenho problema nenhum em dizer "Morreu ontem no Rio de Janeiro o compositor e cantor Dorival Caymmi e ele [o Dorival Caymmi, morto, não apenas o seu corpo] será enterrado amanhã".

Quem acredita na existência da alma e/ou do espírito, em geral acredita que um deles seja imortal ou, pelo menos, capaz de sobreviver à morte da pessoa. Quem sabe, ambos. Na realidade, dentro dessa visão, é apenas o corpo que morre. A Rede Globo parece compartilhar dessa visão. Por isso afirma que é o corpo que é enterrado, não fazendo nenhuma tentativa de explicar onde é que o resto fica enquanto o corpo baixa à sepultura.

Não acredito que a pessoa humana tenha tantas partes, nem muito menos que algumas sejam de tal forma independentes do corpo que possam sobreviver à morte deste (porque quanto ao fato de que o corpo morre ninguém duvida — embora haja quem acredite que um dia será ressuscitado [de que jeito??? as partes de mim que já se decompuseram, depois de minha morte, e passaram a fazer parte de outros organismos, serão reconstituídas???]).

Quem acredita que almas ou espíritos permaneçam, depois da morte do corpo, desencarnados em algum lugar (almas ou espíritos desencarnados precisam de um lugar?), em geral não tem maiores dificuldades em acreditar que outros seres desencarnados (espíritos bons e espíritos maus) existam por aí, em algum lugar (?), e sejam capazes de nos influenciar de maneiras diversas.

Acho muito difícil acreditar nisso. Mas creio que até estaria disposto a acreditar se conseguisse acreditar que um deus incorpóreo e imaterial, totalmente espírito, não só imortal como eterno, sem princípio e sem fim, existe, criou o universo, criou a Terra, o Sol, a Lua, criou o que chamam de "nossos primeiros pais", continua não só a macro-gerir o universo, mas também a micro-gerir as nossas vidas, não deixando que sequer um fio de cabelo de nossa cabeça caia sem que ele o queira, imiscuindo-se nas pequenas coisas de nossa vida, interferindo com o que pensamos, sentimos, desejamos, queremos, fazemos, mesmo nos planos mais íntimos e pessoais, ouvindo preces, atendendo algumas, deixando de atender outras, à sua escolha…

Se conseguisse aceitar que esse tipo de ser existe, não teria maiores problemas em aceitar a existência de uma alma ou um espírito imortal — ou de espíritos, bons e maus, que ficam por aí tentando nos ajudar ou tentando azucrinar nossas vidas. Quem aceita o mais, não tem dificuldade em aceitar o menos.

Morreu Dorival Caymmi. E já foi enterrado. Exceto pela sua obra, e pelas lembrança que dele temos, Dorival Caymmi não existe mais. O mesmo se dará com todos nós.

Em Campinas, 18 de Agosto de 2008

Doçura

Das filhas da Ana Paula Arósio na novela Ciranda de Pedra, a mais doce certamente é aquela que também é filha do Marcelo Antony. Parece haver consenso sobre isso. E olhem que a concorrência ali é dura: a novela é absolutamente adocicada. E é minha novela favorita hoje.

Mas não há consenso sobre o que significa para uma pessoa ser doce.

No post anterior disse que a Gabrielle Anwar é, nos dois filmes que ali listei (Perfume de Mulher e Mergulho na Paixão), tão doce que deveria ser proibida para diabéticos. As outras atrizes que ali menciono (Meg Ryan, Claire Forlani, Rachel Adams) são todas incrivelmente doces nos seus papéis naqueles filmes.

Mas no que consiste a sua doçura? Difícil de dizer. Mas a doçura é quase impossível de não reconhecer.

Já fui chamado de duro, seco, insensível, até desumano. Mas sei que consigo, de vez em quando, ser doce. No entanto, confesso que não consigo direito identificar o locus da minha doçuram quando consigo ser doce. Estaria no olhar? No sorriso? No jeito de tratar? Nas frases ditas? Na leveza e delicadeza do toque? Num mix de tudo isso?

Em A Insustentável Leveza do Ser, filme baseado no livro de Milan Kundera, Juliette Binoche, linda como sempre, consegue ser doce. Também é doce em Chocolate (como não poderia ser, num filme com esse nome?) — mas a doçura é diferente. A primeira é uma doçura sensual, como a doçura erotizante do doce de leite, ou do leite condensado, ou do licor Grand Manier ou Cointreau. A a outra é uma doçura mais leve, quase como a doçura de um adoçante — ou o doce extremamente leve de uma água aromatizada ou do refrigerante H20. A gente sente a diferença, mas tem dificuldade de definir no que exatamente ela consiste.

Em Zen e a Manutenção da Motocicleta Robert Pirsig pergunta, através do personagem principal, o que é qualidade no pensamento e na sua expressão. No fundo, ele sabe e reconhece. Mas, como o resto de nós, tem dificuldade de definir. Como é que um professor de redação sabe que um trabalho merece 8,5 e o outro 8,75?

É difícil dar notas numéricas a coisas como a qualidade de um pensamento ou de sua expressão, a doçura de alguém, ou a intensidade ou profundidade de um sentimento, como a amizade ou o amor.

Mas, no fundo, a gente sabe, reconhece e consegue comparar. 

Em Salto, 26 de Julho de 2008

David Hume, Novamente

No dia 25 de Janeiro deste ano, quando estava em Seoul, coloquei aqui neste blog um artigo sobre David Hume, o filósofo escocês sobre o qual escrevi minha tese de doutoramento em 1971-1972 (defendida junto ao Department of Philosophy of the College of Arts and Sciences of the University of Pittsburgh em 8 de Agosto de 1972). Volto à carga.

Hume nasceu em 26 de Abril de 1711 e morreu em 25 de Agosto de 1776, com sessenta e cinco anos e quatro meses, pouco depois da proclamação da independência das até então colônias inglesas na América.

Estou lendo, no avião que me leva de Chicago para Seattle, uma breve Autobiografia que Hume escreveu pouco antes de morrer (e que foi publicada em Março de 1777, com o título The Life of David Hume, Esq. Written by Himself. Nela ele diz:

“In the spring 1775, I was struck with a disorder in my bowels, which at first gave me no alarm, but has since, as I apprehend it, become mortal and incurable. I now reckon upon a speedy dissolution. I have suffered very little pain from my disorder; and what is more strange, have, notwithstanding the great decline of my person, never suffered a moment’s abatement of my spirits; insomuch, that were I to name the period of my life, which I should most choose to pass over again, I might be tempted to point to this later period. I possess the same ardour as ever in study, and the same gaiety in company. I consider, besides, that a man of sixty-five, by dying, cuts off only a few years of infirmities; and though I see many symptoms of my literary reputation’s breaking out at last with additional lustre, I knew that I could have but few years to enjoy it. It is difficult to be more detached from life than I am at present.”

Traduzo para o Português para os que têm dificuldade com o Inglês — em especial o Inglês britânico do século XVIII:

“Na primavera de 1775 sofri uma desordem nos meus intestinos que, inicialmente, não me deixou alarmado, mas que, desde então, fiquei sabendo que é mortal e incurável. Estou contando com um rápido desenlace. Tenho sofrido muito pouco com a doença; e, o que é mais estranho, visto que meu corpo tem entrado num processo de rápido declínio, nunca fiquei abatido em meu espírito, nem por um só momento. Tanto isso é verdade que, se tivesse de escolher um período de minha vida para viver de novo, ficaria tentado a escolher este período atual. Continuo a ter, em relação aos meus estudos, a mesma dedicação de sempre, e, em relação aos meus amigos, a mesma alegria de conviver com eles. Considero, além disso, que um homem que morre aos sessenta e cinco anos de idade perde apenas uns poucos anos de enfermidades. E apesar de eu notar que, recentemente, minha reputação literária tenha melhorado bastante, sei que teria apenas uns poucos anos para goza-la. É difícil ser mais desligado da vida do que sou atualmente”.

Hume de fato morreu logo depois, com sessenta e cinco anos — a idade que vou completar em três meses menos dois dias. Espero que, quando chegar a minha hora, tenha a mesma calma e o mesmo senso de finalidade que ele demonstrou. Adam Smith, seu melhor amigo, o autor de A Riqueza das Nações, escreveu em 9 de Novembro de 1776, uma carta para o editor de Hume, William Strahan, em que narrou os dias finais do filósofo e concluiu com a seguinte avaliação da pessoa:

“Thus died our most excellent, and never to be forgotten friend; concerning whose philosophical opinions men will, no doubt, judge variously, every one approving, or condemning them, according as they happen to coincide or disagree with his own; but concerning whose character and conduct there can scarce be a difference of opinion. His temper, indeed, seemed to be more happily balanced, if I may be allowed such an expression, than that perhaps of any other man I have ever known. Even in  the lowest state of his fortune, his great and necessary frugality never hindered him from exercising, upon proper occasions, acts both of charity and generosity. It was a frugality founded, not upon avarice, but upon the love of independency. The extreme gentleness of his nature never weakened either the firmness of his mind, or the steadiness of his resolutions. His constant pleasantry was the genuine effusion of good-nature and good-humour, tempered with delicacy and modesty, and without even the slightest tincture of malignity, so frequently the disagreeable source of what is called wit in other men. It never was the meaning of his raillery to mortify; and therefore, far from offending, it seldom failed to please and delight, even those who were the objects of it. To his friends, who were frequently the objects of it, there was not perhaps any one of all his great and amiable qualities, which contributed more to endear his conversation. And that gaiety of temper, so agreeable in society, but which is so often accompanied with frivolous and superficial qualities, was in him certainly attended with the most severe application, the most extensive learning, the greatest depth of thought, and a capacity in every respect the most comprehensive. Upon the whole, I have always considered him, both in his lifetime and since his death, as approaching as nearly to the idea of a perfectly wise and virtuous man, as perhaps the nature of human frailty will permit.” Novamente, traduzo: “Assim morreu nosso amigo, de todos o mais excelente. Nunca será esquecido. Acerca de seus pontos de vista filosóficos os homens vão, sem dúvida, fazer julgamentos diversos, conforme concordem com eles ou deles discordem. Mas sobre o seu caráter e sua conduta dificilmente haverá divergência de opinião. Seu temperamento, na verdade, apresentava um equilíbrio mais perfeito, se é que posso usar essa expressão, do que o de qualquer outro homem que eu conheci. Mesmo quando ele atravessava períodos da pior sorte [financeira], sua grande e necessária frugalidade nunca o impediu, quando a ocasião aparecia, de atos de caridade e generosidade. A sua era uma frugalidade que se baseava não na avareza, mas no amor à sua independência. Sua natureza extremamente gentil nunca permitiu que enfraquecesse seja a força de sua mente, seja a firmeza de suas resoluções. Sua alegria constante era a mais genuína efusão de boa disposição e bom humor, sempre temperados com delicadeza e modéstia, nunca jamais demonstrando sequer uma leve tintura de maldade — maldade que, em geral, em outros homens, é a fonte desagradável daquilo que se chama humor e ironia. Suas brincadeiras nunca tiveram a intenção de mortificar; e, portanto, longe de ofender, raramente deixavam de agradar e divertir, mesmo aqueles que eram objeto delas. Para com seus amigos, que freqüentemente eram o foco dessas brincadeiras, elas eram, talvez, de todas as suas grandes e valiosas qualidades, aquela que mais contribuía para o clima agradável da conversação. E aquele temperamento alegre, tão agradável quando se está em companhia, mas que frequentemente é acompanhado de qualidades frívolas e superficiais, no seu caso era acompanhado de uma aplicação severa, de uma cultura extensa, da maior profundidade de ideias, e de uma capacidade de lidar com as questões mais abrangentes. No todo, sempre o considerei, durante sua vida e, agora, depois de sua morte, o exemplo mais próximo de um homem perfeitamente sábio e virtuoso que, talvez, a natureza humana nos permita alcançar”.

Hume era ateu e não acreditava numa vida futura. E ainda assim, sabendo que o fim era o fim mesmo, não se deixou abater, tornando-se um exemplo para todos os que tentam encarar a vida com uma certa dignidade filosófica.

Entre Chicago e Seattle, 9 de Junho de 2008.

Consenso, paz e verdade

Li um dia desses em algum lugar uma frase que me pareceu lapidar: consensos podem contribuir para a paz, mas raramente nos levam mais próximos da verdade. A busca da verdade em geral leva a cotejos e confrontos, a análises e críticas impiedosas, que raramente contribuem para uma convivência pacífica.

Essa constatação simples pressupõe, de certo modo, uma série de questões importantes da filosofia da ciência do século XX.

Karl Popper, cuja obra Logik der Forschung, publicada originalmente em 1934 (e subseqüentemente traduzida para o Inglês como The Logic of Scientific Discovery, e para o Português como A Lógica da Pesquisa), mostrou que a busca da verdade se alicerça num racionalismo crítico — que é definido como uma tentativa séria e sistemática de refutar ou falsificar nossas próprias idéias e, naturalmente, as dos outros. Tentar refutar ou falsificar idéias é tentar encontros erros ou falhas nas pressuposições, nas premissas, nas evidências, e nos argumentos aduzidos em favor de uma tese (hipótese, teoria, ponto de vista, etc.).

Como a vida do próprio Popper atesta, "this is better said than done". Popper era extremamente zeloso de suas convicções, brigava até com amigos quando estes o criticavam, alienou seus melhores alunos por não admitir que realmente questionassem seus pontos de vista… Eu sei. Meu orientador de doutorado, William Warren Bartley III, foi orientadando dele, e, por algum tempo, seu discípulo amado – apenas para se tornar um inimigo quando publicou um artigo ousando criticar alguns aspectos da obra do mestre. (Depois se reconciliaram). Ou seja, a história de Popper atesta que sua receita para a busca da verdade (que eu considero a melhor receita que jamais se sugeriu) trouxe tudo menos paz em seu círculo acadêmico e de amigos.

Mas o fato de que sua receita trouxe conflito em vez de paz não a desmerece como tese sobre como se deve dar a busca da verdade. Pelo contrário, fortalece essa tese.

Há, na vida, aqueles que sacrificam a busca da verdade em favor da convivência, das amizades duradouras, das alianças políticas — ou seja, da paz. E há aqueles que privilegiam a busca da verdade, ainda que ela perturbe a paz, prejudique amizades históricas, os impeça de fazer alianças com aqueles de quem seriamente discordam.

A política, com "p" minúsculo me enoja. Não consigo engulir as alianças feitas só para produzir convivência pacífica. Hilary Clinton, que acabou com Barack Obama durante as primárias, agora o apóia e elogia. Mas não é preciso ir para outro país para encontrar exemplos dessa tendência. Basta olhar os aliados do PT, hoje – ou a aliança Serra – Quércia. Essas alianças mostram que a busca da verdade não tem lugar na política (com "p" minúsculo). Se era verdade (como Clinton dizia há dias) que Obama era incapaz e inexperiente para presidir os EUA, como é que ela agora recomenda que o seu eleitorado vote nele?

Uma boa parte do eleitorado de Clinton provavelmente não seguirá a sua sugestão. Pesquisa hoje revelada nos jornais brasileiros mostra que pelo menos 25% dos que votaram em Clinton nas primárias não vão transferir seus votos para Obama: ou vão votar em McCain, ou em algum candidato independente, ou simplesmente não vão comparecer às urnas (o voto nos EUA não é obrigatório). Fazem bem eles. Votando em McCain, ou simplesmente deixando de votar em Obama, estarão contribuindo mais para a sanidade política do país do que virando bandeira do dia para a noite.

Em Campinas, 8 de Junho de 2008

Ayn Rand, romancista e filósofa

Se viva, Ayn Rand teria comemorado hoje, 2 de Fevereiro, 103 anos. Nasceu em 1905 — e faleceu em 1982, com 77 anos.

Nascida Alyssa Rosenbaum, em São Petersburgo, então Rússia, hoje de novo Rússia, mas por boa parte do século XX parte da União Soviética, com o nome de Leningrado, Ayn Rand emigrou para os Estados Unidos com 21 anos, em 1926.

Tornou-se uma romancista respeitada com seu livro The Fountainhead (A Nascente, El Manancial, La Source Vive), publicado em 1943 (ano em que nasci) e que se transformou em filme  em 1949, com Gary Cooper e Patricia Neal nos papais principais de Howard Roark e Dominique Francon.

Seu sucesso foi confirmado e cresceu exponencialmente com a publicação, em 1957, de Atlas Shrugged (Quem é John Galt? La Rebellión de Atlas).

Considero esses dois romances duas das maiores obras literárias do século XX. São romances filosóficos, escritos para defender um conjunto importante de idéias, que veio a ser denominado Objetivismo — a Filosofia de Ayn Rand.

Depois de Atlas Shrugged Ayn Rand não publicou mais obras de ficção: dedicou-se a explicitar e sistematizar sua filosofia, o que fez em vários livros: Philosophy: Who Needs It?, An Introduction to Objectivist Epistemology, The Virtue of Selfishness, Capitalism: The Unknown Ideal, The Romantic Manifesto e outros.

Considero-a, além de excepcional romancista, um das maiores estrelas da filosofia do século XX — se não a maior.

A filosofia de Ayn Rand é daquelas que as pessoas ou amam ou odeiam. E o que faz com que amem ou odeiem as suas idéias é um sentido geral da vida que ela descreve em seus livros — ou na forma de teoria filosófica ou na forma de enredo de ficção. Quando li Ayn Rand pela primeira vez — Atlas Shrugged, em 1973, em Claremont, CA, por sugestão de Charles King, meu colega de departamento no Pomona College — reconheci no livro uma série de idéias com as quais me identifiquei imediatamente, embora nunca as houvesse formulado em minha mente nem as encontrado em outros livros. Reconheci como meu o sentido geral da vida que Ayn Rand tão bem apresentava e defendia.

Deixo este depoimento em celebração de mais um aniversário de seu nascimento.

Em Salto, 2 de Fevereiro de 2008

David Hume, Filósofo

Escrevi minha tese de doutoramento, nos idos dos anos 1970-72 (já lá vão mais de 35 anos que a defendi, na University of Pittsburgh), sobre David Hume, filósofo escocês do século XVIII (1711-1776).

Quando a concluí, em 1972, eu tinha a mesma idade dele quando publicou A Treatise of Human Nature, sua primeira obra — e seu opus magnum.

Um dia desses um colega indagou, cético, se Hume poderia entender algo de natureza humana nessa idade. Não tenho dúvida alguma de que a resposta é claramente afirmativa. Basta ler esse monumental trabalho para verificar isso. O Tratado veio a ser considerado por muitos críticos a maior obra de filosofia jamais escrita em língua inglesa. Grande em conteúdo e grande em forma.

Não é comum ver filósofos precoces — mas Hume era um gênio.

No entanto, o sucesso do Tratado demorou por vir. A qualidade de uma obra é uma coisa, o seu reconhecimento pelo público é outra. O próprio Hume admitiu, em seus anos mais maduros, que o Tratado foi, inicialmente, um fracasso de público — “nasceu morto”, disse ele. Para tentar melhorar a recepção do livro, o jovem autor escreveu anonimamente uma resenha, mas não adiantou nada. Hume entrou em depressão — e ficou doente durante mais de dois anos.

Convenceu-se, depois dessa crise, que o problema com o livro era de forma, não de conteúdo, e que o culpado era ele mesmo, por ter publicado o livro prematuramente. Decidiu, então, re-escrevê-lo em estilo mais popular. O resultado foi An Inquiry Concerning Human Understanding, publicado em, com o acréscimo de dois ensaios: um sobre milagres e o outro sobre a imortalidade da alma. Esse livro foi um sucesso de público, e levou Hume a publicar um segundo, An Inquiry Concerning the Principles of Morals (em 1752), e, depois, um terceiro, Political Essays. Mais tarde ainda publicou Of the Standard of Taste and Other Essays. Nesses quatro livros Hume encontrou seu estilo vivo, witty, que lhe trouxe enorme sucesso não só como filósofo mas como pensador e ensaísta, e, depois, como historiador (seu History of England, em seis volumes, foi usado como texto padrão de História da Inglaterra durante bem mais de um século e meio). Entrementes escreveu ainda os geniais Dialogues Concerning Natural Religion and A Natural History of Religion – publicando este em 1751 e deixando Dialogues para ser publicado apenas postumamente, dada a sua “explosividade”. O livro foi publicado por seu sobrinho em 1779.

Hume, que nasceu em 1711, morreu em 1776, ano da independência americana — e da publicação de The Wealth of the Nations por seu melhor amigo, o também escocês Adam Smith.

Hume era folgazão, amigo da boa mesa, grande jogador de gamão. Depois de escrever uma de suas passagens mais céticas, em que afirmava não nos ser possível saber se existe um mundo real fora de nossa mente, admitiu, francamente, ao voltar à mesa de trabalho depois de um belo jantar e de algumas rodadas de gamão, que, ao reler o que havia escrito, achava um absurdo que alguém pudesse fazer uma afirmação daquelas — mas que havia revisto as premissas e os argumentos, e não tinha encontrado nenhuma falha… Agradecia antecipadamente aos leitores, entretanto, se algum deles pudesse lhe mostrar onde havia errado, se é que erro havia ali…

Solteirão inveterado, Hume, ao descobrir que seu irmão pretendia se casar, lhe enviou uma carta, tentando dissuadi-lo. A carta é uma obra prima de wit humeano. Casar é fria, advertiu ele, “because women are the only heavenly bodies whose behaviour Newton’s science was unable to predict“… (cito de memória — as palavras exatas podem não ser exatamente essas, mas a ideia é).

Não sou um cético, como era Hume (ele, um “cético mitigado”, para usar suas próprias palavras). Discordo, portanto, e enfaticamente, do “só sei que nada sei” de Sócrates. Acho que sabemos um monte de coisas (como o próprio Hume, em seus momentos não filosóficos sabia). Felizmente. Mas o ceticismo à la Hume sempre foi um freio aos dogmatismos.

Hume tem duas outras frases que considero memoráveis.

A primeira é que devemos reconhecer que, antes de sermos filósofos, devemos procurar ser homens, ser gente.

A segunda é que nunca devemos, no combate ao dogmatismo e ao fanatismo, incorrer nesses mesmos pecados.

Mais uma vez, cito de memória. Mas citados com exatidão ou não, estes são sobering thoughts, dos quais procurei nunca me esquecer.

Em Seoul, 25 de Janeiro de 2008