Education and Creativity

We are moving into a world where routine manual and mental work will be done, more and more, by robots and other machines. In this world, the work left for humans to do will involve creativity and interpersonal relationships.

Globalization and the rate in which change will permeate our lives will demand that we are constantly learning. Knowledge, especially, will grow obsolete That is why society and economy in the 21st century will have to be more and more a learning society and a learning economy — in which, in order to promptly learn new things we have to cast away, that is, to unlearn, old habits and mindsets. 

The challenge for education in this context is, as Seymour Papert once put it, that we have to prepare people to live, learn, work and have fun in a world the contours of which we do not know yet.  

Before this challenge, education either becomes creative or becomes worse than irrelevant: counterproductive. 

As time passes by I find that I agree more and more with Sir Ken Robinson. 

In São Paulo, September 5, 2013

Inovação: Fruto da Criatividade e da Inteligência

1)     Do final da Segunda Guerra até hoje – quase 70 anos – o mundo sofreu mudanças amplas e profundas. Tamanha foi a amplitude e a profundidade dessas mudanças, para não mencionar seu ritmo cada vez mais acelerado, que muitos falam que estavamos vivendo a passagem de uma era para outra. Estamos passando da Era Industrial, com seus modos de produtos padronizados fabricados e distribuídos em massa, para uma nova era que tem recebido vários nomes: da Informação, do Conhecimento, da Criatividade, da Inovação, da Aprendizagem. Uma coisa é certa: a nova era está deixando para trás a Era Industrial com seus produtos padronizados fabricados e distribuídos em massa.

2)    Informação, Conhecimento, Criatividade, Inovação, Aprendizagem são coisas que têm que ver muito de perto com a Educação. Por isso, nossa era tem um raro consenso: o da importância da educação na vida das pessoas, na sociedade, na economia.

3)    No entanto, ao mesmo tempo que valoriza a educação, a nossa era tem sido impiedosa em sua crítica à escola. Entre outras demandas, espera-se que ela mude – e não apenas em aspectos periféricos, num processo de mudança cosmética em que se mudam as aparências para manter a essência. Espera-se, ou talvez até se exija, que a escola se reinvente, que se transforme, de forma sistêmica, até mesmo em seus aspectos essenciais.

4)    Isso é compreensível. A escola que temos é um produto da Era Industrial. É inevitável que, na passagem para a Sociedade Pós-Industrial, a escola se veja forçada a pensar sobre si mesma, a reconsiderar seus objetivos, sua estrutura, sua forma de trabalho, seus valores.

5)    Mesmo os países que vêm se saindo melhor em avaliações internacionais (como PISA), entre os quais estão a Finlândia, a Coréia do Sul, Taiwan, Hong Kong, estão conscientes de que chegaram, talvez, ao ponto mais avançado que a educação tradicional, da Era Industrial, poderia chegar. Mas sabem que, ao chegar lá, se deram conta de que o mundo havia mudado e os problemas, e, portanto, os desafios, eram outros. Que também eles precisam mudar.

6)    E esses países sabem muito bem que, na hora em que se conclui que é preciso mudar, não há maior estupidez do que continuar a fazer as coisas sempre da mesma forma e esperar que os resultados, por passe de mágica, ou milagre, venham a ser diferentes.

7)    Extremamente importante é o fato de que o aluno da escola hoje é muito diferente do aluno de 60 ou 70 anos atrás. Ele tem pouquíssima tolerância para com coisas que não o atraem, engajam e motivam. Ele quer saber qual é a utilidade daquilo que a escola pretende que ele aprenda. Se a resposta não o convence, ele apenas faz, na melhor das hipóteses, o mínimo indispensável para se safar das piores consequências de um trabalho insatisfatório.

8)    Diante disso, no que a escola deve focar sua atenção e energia hoje? A escola tradicional via seu foco na preservação e transmissão, de uma geração para outra, dos saberes acumulados da humanidade. Esses saberes foram sistematicamente organizados em disciplinas acadêmicas. Hoje, no entanto, caminha-se para um consenso de que, mais importante do que assimilar esses saberes, o aluno precisa saber fazer alguma coisa com eles. Ou seja: mais do que o mero saber, é o saber-fazer que hoje importa e é valorizado. Por isso o desenvolvimento de competências ocupa hoje o centro da preocupação pedagógica.

9)    Nós todos criticaríamos um professor que, em sua matéria, simplesmente repetisse em sala de aula aquilo que diz um livro (ou um conjunto de livros). Aquilo que está dito em livros os alunos podem (e devem) pesquisar (buscar) em vez de receber, passivamente, de um professor que “declama” o conteúdo de um livro (ou um conjunto de livros). No entanto, a maior parte das escolas tem feito exatamente isso: transmitir aos alunos aquilo que eles, hoje, podem achar facilmente em livros ou na Internet.

10)   Se quisermos que a educação tenha resultados melhores, em termos de engajamento dos alunos em sua própria aprendizagem e melhor desempenho deles fora da escola (na vida pessoal, na participação na sociedade, na escolha e no exercício de uma profissão que os realize),  temos de mudar aquilo que fazemos a título de educação, em especial na escola.

11)  Para mudar, precisamos ter a coragem de verdadeiramente inovar. Para inovar precisamos buscar o novo. A inovação é o fruto da criatividade e da inteligência. Criatividade para gerar boas ideias novas. Inteligência para transformar essas ideias em produtos, serviços, instituições diferentes dos que temos hoje — e que nos permitem mudar o mundo, transformando-o em um lugar melhor.

12)  Se realmente queremos uma nova educação, uma educação realmente inovadora, devemos começar de premissas drasticamente diferentes daquelas que nos trouxeram à posição em que nos encontramos hoje. Se começarmos a mudar a partir de visões muito próximas das que nos trouxeram até aqui, chegaremos a uma educação muito parecida com a que temos. Para que elas possam participar da criação — ou invenção — do futuro, a criatividade aliada à inteligência é a caracaterística mais importante que as crianças precisam desenvolver, o mais cedo possível.

 

Em São Paulo, 16 de Agosto de 2013

“I Have a Dream” – 50 Anos

Comece assistindo ao vídeo:

Hoje, 28/8/2013, comemora-se o Jubileu de Ouro – 50 anos – do dia em que foi feito o maior discurso humano, tanto em beleza como em impacto: “I Have a Dream”, de Martin Luther King. Ele foi feito em 28/8/1963, em Washington, DC, EUA.

Eis o texto completo:

“I am happy to join with you today in what will go down in history as the greatest demonstration for freedom in the history of our nation.

Five score years ago, a great American, in whose symbolic shadow we stand today, signed the Emancipation Proclamation. This momentous decree came as a great beacon light of hope to millions of Negro slaves who had been seared in the flames of withering injustice. It came as a joyous daybreak to end the long night of their captivity.

But one hundred years later, the Negro still is not free.

One hundred years later, the life of the Negro is still sadly crippled by the manacles of segregation and the chains of discrimination. One hundred years later, the Negro lives on a lonely island of poverty in the midst of a vast ocean of material prosperity.

One hundred years later, the Negro is still languishing in the corners of American society and finds himself an exile in his own land. So we have come here today to dramatize a shameful condition.

In a sense we have come to our nation’s capital to cash a check. When the architects of our republic wrote the magnificent words of the Constitution and the Declaration of Independence, they were signing a promissory note to which every American was to fall heir. This note was a promise that all men, yes, black men as well as white men, would be guaranteed the unalienable rights of life, liberty, and the pursuit of happiness.

It is obvious today that America has defaulted on this promissory note insofar as her citizens of color are concerned. Instead of honoring this sacred obligation, America has given the Negro people a bad check, a check which has come back marked “insufficient funds.” But we refuse to believe that the bank of justice is bankrupt. We refuse to believe that there are insufficient funds in the great vaults of opportunity of this nation.

So we have come to cash this check — a check that will give us upon demand the riches of freedom and the security of justice. We have also come to this hallowed spot to remind America of the fierce urgency of now. This is no time to engage in the luxury of cooling off or to take the tranquilizing drug of gradualism.

Now is the time to make real the promises of democracy. Now is the time to rise from the dark and desolate valley of segregation to the sunlit path of racial justice. Now is the time to lift our nation from the quick sands of racial injustice to the solid rock of brotherhood. Now is the time to make justice a reality for all of God’s children.

It would be fatal for the nation to overlook the urgency of the moment. This sweltering summer of the Negro’s legitimate discontent will not pass until there is an invigorating autumn of freedom and equality. Nineteen sixty-three is not an end, but a beginning. Those who hope that the Negro needed to blow off steam and will now be content will have a rude awakening if the nation returns to business as usual. There will be neither rest nor tranquility in America until the Negro is granted his citizenship rights.

The whirlwinds of revolt will continue to shake the foundations of our nation until the bright day of justice emerges.

But there is something that I must say to my people who stand on the warm threshold which leads into the palace of justice. In the process of gaining our rightful place we must not be guilty of wrongful deeds. Let us not seek to satisfy our thirst for freedom by drinking from the cup of bitterness and hatred.

We must forever conduct our struggle on the high plane of dignity and discipline. We must not allow our creative protest to degenerate into physical violence. Again and again we must rise to the majestic heights of meeting physical force with soul force. The marvelous new militancy which has engulfed the Negro community must not lead us to a distrust of all white people, for many of our white brothers, as evidenced by their presence here today, have come to realize that their destiny is tied up with our destiny. They have come to realize that their freedom is inextricably bound to our freedom. We cannot walk alone.

As we walk, we must make the pledge that we shall always march ahead. We cannot turn back. There are those who are asking the devotees of civil rights, “When will you be satisfied?” We can never be satisfied as long as the Negro is the victim of the unspeakable horrors of police brutality. We can never be satisfied, as long as our bodies, heavy with the fatigue of travel, cannot gain lodging in the motels of the highways and the hotels of the cities. We cannot be satisfied as long as the Negro’s basic mobility is from a smaller ghetto to a larger one. We can never be satisfied as long as our children are stripped of their selfhood and robbed of their dignity by signs stating “For Whites Only”. We cannot be satisfied as long as a Negro in Mississippi cannot vote and a Negro in New York believes he has nothing for which to vote. No, no, we are not satisfied, and we will not be satisfied until justice rolls down like waters and righteousness like a mighty stream.

I am not unmindful that some of you have come here out of great trials and tribulations. Some of you have come fresh from narrow jail cells. Some of you have come from areas where your quest for freedom left you battered by the storms of persecution and staggered by the winds of police brutality. You have been the veterans of creative suffering. Continue to work with the faith that unearned suffering is redemptive.

Go back to Mississippi, go back to Alabama, go back to South Carolina, go back to Georgia, go back to Louisiana, go back to the slums and ghettos of our northern cities, knowing that somehow this situation can and will be changed. Let us not wallow in the valley of despair.

I say to you today, my friends, so even though we face the difficulties of today and tomorrow, I still have a dream. It is a dream deeply rooted in the American dream.

I have a dream that one day this nation will rise up and live out the true meaning of its creed: “We hold these truths to be self-evident: that all men are created equal.”

I have a dream that one day on the red hills of Georgia the sons of former slaves and the sons of former slave owners will be able to sit down together at the table of brotherhood.

I have a dream that one day even the state of Mississippi, a state sweltering with the heat of injustice, sweltering with the heat of oppression, will be transformed into an oasis of freedom and justice.

I have a dream that my four little children will one day live in a nation where they will not be judged by the color of their skin but by the content of their character.

I have a dream today.

I have a dream that one day, down in Alabama, with its vicious racists, with its governor having his lips dripping with the words of interposition and nullification; one day right there in Alabama, little black boys and black girls will be able to join hands with little white boys and white girls as sisters and brothers.

I have a dream today.

I have a dream that one day every valley shall be exalted, every hill and mountain shall be made low, the rough places will be made plain, and the crooked places will be made straight, and the glory of the Lord shall be revealed, and all flesh shall see it together.

This is our hope. This is the faith that I go back to the South with. With this faith we will be able to hew out of the mountain of despair a stone of hope. With this faith we will be able to transform the jangling discords of our nation into a beautiful symphony of brotherhood. With this faith we will be able to work together, to pray together, to struggle together, to go to jail together, to stand up for freedom together, knowing that we will be free one day.

This will be the day when all of God’s children will be able to sing with a new meaning, “My country, ‘tis of thee, sweet land of liberty, of thee I sing. Land where my fathers died, land of the pilgrim’s pride, from every mountainside, let freedom ring.”

And if America is to be a great nation this must become true. So let freedom ring from the prodigious hilltops of New Hampshire. Let freedom ring from the mighty mountains of New York. Let freedom ring from the heightening Alleghenies of Pennsylvania!

Let freedom ring from the snowcapped Rockies of Colorado!

Let freedom ring from the curvaceous slopes of California!

But not only that; let freedom ring from Stone Mountain of Georgia!

Let freedom ring from Lookout Mountain of Tennessee!

Let freedom ring from every hill and molehill of Mississippi. From every mountainside, let freedom ring.

And when this happens, when we allow freedom to ring, when we let it ring from every village and every hamlet, from every state and every city, we will be able to speed up that day when all of God’s children, black men and white men, Jews and Gentiles, Protestants and Catholics, will be able to join hands and sing in the words of the old Negro spiritual, “Free at last! free at last! thank God Almighty, we are free at last!”

[Original text from http://www.usconstitution.net/dream.html%5D

TRADUÇÃO PARA O PORTUGUÊS

“Eu estou contente em unir-me com vocês no dia que entrará para a história como a maior demonstração pela liberdade na história de nossa nação.

Cem anos atrás, um grande americano, na qual estamos sob sua simbólica sombra, assinou a Proclamação de Emancipação. Esse importante decreto veio como um grande farol de esperança para milhões de escravos negros que tinham murchados nas chamas da injustiça. Ele veio como uma alvorada para terminar a longa noite de seus cativeiros.

Mas cem anos depois, o Negro ainda não é livre.

Cem anos depois, a vida do Negro ainda é tristemente inválida pelas algemas da segregação e as cadeias de discriminação.

Cem anos depois, o Negro vive em uma ilha só de pobreza no meio de um vasto oceano de prosperidade material.

Cem anos depois, o Negro ainda adoece nos cantos da sociedade americana e se encontram exilados em sua própria terra.

Assim, nós viemos aqui hoje para dramatizar sua vergonhosa condição.

De certo modo, nós viemos à capital de nossa nação para trocar um cheque. Quando os arquitetos de nossa república escreveram as magníficas palavras da Constituição e a Declaração da Independência, eles estavam assinando uma nota promissória para a qual todo americano seria seu herdeiro. Esta nota era uma promessa que todos os homens, sim, os homens negros, como também os homens brancos, teriam garantidos os direitos inalienáveis de vida, liberdade e a busca da felicidade. Hoje é óbvio que aquela América não apresentou esta nota promissória. Em vez de honrar esta obrigação sagrada, a América deu para o povo negro um cheque sem fundo, um cheque que voltou marcado com “sem fundos”.

Mas nós nos recusamos a acreditar que o banco da justiça é falível. Nós nos recusamos a acreditar que há capitais insuficientes de oportunidade nesta nação. Assim nós viemos trocar este cheque, um cheque que nos dará o direito de reclamar as riquezas de liberdade e a segurança da justiça.

Nós também viemos para recordar à América dessa cruel urgência. Este não é o momento para descansar no luxo refrescante ou tomar o remédio tranqüilizante do gradualismo.

Agora é a hora de transformar em realidade as promessas de democracia.

Agora é a hora de subir do vale das trevas da segregação ao caminho iluminado pelo sol da justiça racial.

Agora é a hora de erguer nossa nação das areias movediças da injustiça racial para a pedra sólida da fraternidade. Agora é o tempo para fazer da justiça uma realidade para todos os filhos de Deus.

Seria fatal para a nação negligenciar a urgência desse momento. Este verão sufocante do legítimo descontentamento dos Negros não passará até termos um renovador outono de liberdade e igualdade. Este ano de 1963 não é um fim, mas um começo. Esses que esperam que o Negro agora estará contente, terão um violento despertar se a nação votar aos negócios de sempre.

Mas há algo que eu tenho que dizer ao meu povo que se dirige ao portal que conduz ao palácio da justiça. No processo de conquistar nosso legítimo direito, nós não devemos ser culpados de ações de injustiças. Não vamos satisfazer nossa sede de liberdade bebendo da xícara da amargura e do ódio. Nós sempre temos que conduzir nossa luta num alto nível de dignidade e disciplina. Nós não devemos permitir que nosso criativo protesto se degenere em violência física. Novamente e novamente nós temos que subir às majestosas alturas da reunião da força física com a força de alma. Nossa nova e maravilhosa combatividade mostrou à comunidade negra que não devemos ter uma desconfiança para com todas as pessoas brancas, para muitos de nossos irmãos brancos, como comprovamos pela presença deles aqui hoje, vieram entender que o destino deles é amarrado ao nosso destino. Eles vieram perceber que a liberdade deles é ligada indissoluvelmente a nossa liberdade. Nós não podemos caminhar sós.

E como nós caminhamos, nós temos que fazer a promessa que nós sempre marcharemos à frente. Nós não podemos retroceder. Há esses que estão perguntando para os devotos dos direitos civis, “Quando vocês estarão satisfeitos?”

Nós nunca estaremos satisfeitos enquanto o Negro for vítima dos horrores indizíveis da brutalidade policial. Nós nunca estaremos satisfeitos enquanto nossos corpos, pesados com a fadiga da viagem, não poderem ter hospedagem nos motéis das estradas e os hotéis das cidades. Nós não estaremos satisfeitos enquanto um Negro não puder votar no Mississipi e um Negro em Nova Iorque acreditar que ele não tem motivo para votar. Não, não, nós não estamos satisfeitos e nós não estaremos satisfeitos até que a justiça e a retidão rolem abaixo como águas de uma poderosa correnteza.

Eu não esqueci que alguns de você vieram até aqui após grandes testes e sofrimentos. Alguns de você vieram recentemente de celas estreitas das prisões. Alguns de vocês vieram de áreas onde sua busca pela liberdade lhe deixaram marcas pelas tempestades das perseguições e pelos ventos de brutalidade policial. Você são o veteranos do sofrimento. Continuem trabalhando com a fé que sofrimento imerecido é redentor. Voltem para o Mississippi, voltem para o Alabama, voltem para a Carolina do Sul, voltem para a Geórgia, voltem para Louisiana, voltem para as ruas sujas e guetos de nossas cidades do norte, sabendo que de alguma maneira esta situação pode e será mudada. Não se deixe caiar no vale de desespero.

Eu digo a você hoje, meus amigos, que embora nós enfrentemos as dificuldades de hoje e amanhã. Eu ainda tenho um sonho. É um sonho profundamente enraizado no sonho americano.

Eu tenho um sonho que um dia esta nação se levantará e viverá o verdadeiro significado de sua crença – nós celebraremos estas verdades e elas serão claras para todos, que os homens são criados iguais.

Eu tenho um sonho que um dia nas colinas vermelhas da Geórgia os filhos dos descendentes de escravos e os filhos dos desdentes dos donos de escravos poderão se sentar junto à mesa da fraternidade.

Eu tenho um sonho que um dia, até mesmo no estado de Mississippi, um estado que transpira com o calor da injustiça, que transpira com o calor de opressão, será transformado em um oásis de liberdade e justiça.

Eu tenho um sonho que minhas quatro pequenas crianças vão um dia viver em uma nação onde elas não serão julgadas pela cor da pele, mas pelo conteúdo de seu caráter.

Eu tenho um sonho hoje!

Eu tenho um sonho que um dia, no Alabama, com seus racistas malignos, com seu governador que tem os lábios gotejando palavras de intervenção e negação; nesse justo dia no Alabama meninos negros e meninas negras poderão unir as mãos com meninos brancos e meninas brancas como irmãs e irmãos.

Eu tenho um sonho hoje!

Eu tenho um sonho que um dia todo vale será exaltado, e todas as colinas e montanhas virão abaixo, os lugares ásperos serão aplainados e os lugares tortuosos serão endireitados e a glória do Senhor será revelada e toda a carne estará junta.

Esta é nossa esperança. Esta é a fé com que regressarei para o Sul. Com esta fé nós poderemos cortar da montanha do desespero uma pedra de esperança. Com esta fé nós poderemos transformar as discórdias estridentes de nossa nação em uma bela sinfonia de fraternidade. Com esta fé nós poderemos trabalhar juntos, orar juntos, lutar juntos, para ir encarcerar juntos, defender liberdade juntos, e quem sabe nós seremos um dia livre.

Este será o dia, este será o dia quando todas as crianças de Deus poderão cantar com um novo significado.

“Meu país, doce terra de liberdade, eu te canto.?
Terra onde meus pais morreram, terra do orgulho dos peregrinos,?
De qualquer lado da montanha, ouço o sino da liberdade!”

E se a América é uma grande nação, isto tem que se tornar verdadeiro.

E assim ouvirei o sino da liberdade no extraordinário topo da montanha de New Hampshire.

Ouvirei o sino da liberdade nas poderosas montanhas poderosas de Nova York.

Ouvirei o sino da liberdade nos engrandecidos Alleghenies da Pennsylvania.

Ouvirei o sino da liberdade nas montanhas cobertas de neve Rockies do Colorado.

Ouvirei o sino da liberdade nas ladeiras curvas da Califórnia.

Mas não é só isso. Ouvirei o sino da liberdade na Montanha de Pedra da Geórgia.

Ouvirei o sino da liberdade na Montanha de Vigilância do Tennessee.

Ouvirei o sino da liberdade em todas as colinas do Mississipi.

Em todas as montanhas, ouviu o sino da liberdade.

E quando isto acontecer, quando nós permitimos o sino da liberdade soar, quando nós deixarmos ele soar em toda moradia e todo vilarejo, em todo estado e em toda cidade, nós poderemos acelerar aquele dia quando todas as crianças de Deus, homens pretos e homens brancos, judeus e gentios, protestantes e católicos, poderão unir mãos e cantar nas palavras do velho spiritual negro:

“Finalmente livres, livres afinal.
Agradeço ao Deus todo-poderoso,
Finalmente nós somos livres.”

[Texto em Português de http://www.dhnet.org.br/desejos/sonhos/dream.htm%5D

Em São Paulo, 28 de Agosto de 2013

O Homem das Ações Simbólicas

O Papa Francisco conhece, talvez como ninguém, a importância dos símbolos. Sabe que as pessoas olham para ele como exemplo e não desperdiça uma ocasião sequer para mostrar, através de suas ações, o que importa e o que não é importa, o que é essencial e o que é acessório.

Na vestimenta, a dispensa do luxo, da beleza  e das cores em exagero, do excesso… Na cabeça um simples solideo branco. Nada de chapéu alto de não sei quantas pontas. Nada de mantos de veludo bordados a ouro. Nada de brilhantes e vistosas sapatilhas vermelhas. O anel é simples e não precisa ser de ouro. Também não o crucifixo que usa.

Nas locomoções, a sobriedade. Não tem um AeroPapa. Veio para o Brasil num avião fretado da Alitalia. Recusou a oferta da companhia de instalar uma cama para ele poder dormir com mais conforto. Aqui, dispensou longas limousines pretas. Usou um Fiatzinho popular, que nem vidro elétrico tinha. Abaixou o vidro para ter contato com os fieis rodando a manivela. Indo e vindo para o avião, carregou sua própria malinha. Em Roma, depois de eleito, burlava a segurança e saía do Vaticano de taxi para visitar amigos.

Nas acomodações, também sobriedade e simplicidade. Em Roma dispensou o rico apartamento papal e continuou a viver em dependências idênticas às dos cardeais. No Rio ficou na casa da arquidiocese. Quarto monástico quase. (Nada da suíte real que faz o gosto da presidente do Brasil).

Mostrou que não teme o povo. Recebeu o povo sempre com um sorriso e a mão estendida. Nenhuma fez fechou o vidro do carro porque o povo poderia toca-lo. E fez questão de, em relação aos políticos, só cumprir o mínimo do protocolo. Não deu “carona” a eles, não deixou que eles usufruíssem do carinho e da afeição que o povo lhe dedicou.

Na comunicação com o povo, pregou sempre de forma simples, em linguagem fácil de entender, usou o humor, cativou, mostrou conhecer os gostos, os hábitos e até mesmo os ditados do povo.

Consta que, ao sair um dia de seus aposentos, viu um guarda suíço que havia passado a noite ali à porta, de pé, e lhe perguntou se havia passado toda a noite inteira de pé, ali. O guarda respondeu que sim. Foi de volta para os aposentos e trouxe uma cadeira. “Sente-se”, sugeriu. O guarda disse que não podia. Perguntou por quê. “Por ordem de meus superiores”, teria respondido o guarda. “Você está trabalhando para mim agora e eu lhe digo que você pode ficar sentado”. Voltou aos seus aposentos e retornou com um pedaço de pão e presunto para o guarda — que deveria estar não só cansado, mas com fome…

Apesar de Papa, Francisco mostrou que é povo, é gente que ri, que se diverte, que tem prazer na vida, que tem preferências esportivas e torce no futebol… Sente prazer em estar com as pessoas — e, segundo tudo indica, também sente prazer em estar sozinho, consigo mesmo. Certamente não é dos que preferem o cheiro de cavalos ao cheiro de gente, mesmo que a gente esteja há várias horas nos elementos, tomando sol e chuva, esperando para ve-lo e, se possível, toca-lo, falar com ele… Um repórter da Globo não resistiu e falou meio de longe com ele, gritando, que estava no papamóvel… Ele olhou, sorriu, e respondeu…

Todo esse jeito de ser é recheado de simbologia. As menores ações têm significado e podem mudar a vida de outras pessoas.

Consta que Desmond Tutu uma vez relatou que, na África do Sul, um dia, quando criança, andava com seu pai na rua, e, como era lei e costume, eles, negros, tinham de descer da calçada quando encontravam um branco vindo em sua direção, para dar passagem. Até que um senhor branco, já de certa idade, veio em sua direção e fez questão de, antes que eles descessem da calçada, descer ele próprio, para dar passagem ao pai e ao filho. Tutu ficou tão impressionado com o gesto que buscou saber quem era aquele senhor. Quando soube que se tratava de um padre anglicano, decidiu, naquela mesma hora, que era isso que ele queria ser na vida. E foi. E é. E até ganhou o Nobel da Paz por ser o que é como é.

Símbolos fazem isso. Mostram as coisas como elas deveriam ser. E mostram quão pequenos, no que importa, no que é essencial, são aqueles que, quando chegam ao poder, apesar de suas origens humildes, escolhem se esbaldar. Compram, com o dinheiro que é dos outros, helicópteros para levar seus cachorros passear. Ou toalhas de banho e lençóis dos mais caros tecidos egípcios para colocar no Palácio do Planalto. Que não sabem mais carregar a sua pasta. Que não enxergam a situação muitas vezes ridícula daqueles que os servem e cuidam de sua segurança. Que usam os aviões do estado para ir a festas e casamentos, ou para ir assistir aos jogos da seleção…

Em São Paulo, 29 de Julho de 2013.

Play and Learning: One Brazilian’s Point of View (*)

Eduardo O.E.M.C. Chaves (**)

We, human beings, have two basic tasks when we are born: one, immediate and extremely urgent; the other, long term.

The first of these two tasks is to survive. We are all born, as it were, prematurely and ill-equipped to live. We are born incompetent in the most elementary tasks: we are not able to feed ourselves, to communicate, to walk, to defend and protect ourselves against the elements, against other animals or even against other human beings. In our early years we need to be constantly helped by parents, family and community, otherwise we do not survive. But we are incredibly well-equipped to learn. And our basic education should aim to make us competent for living autonomously, so that we will eventually be able to take good care of ourselves.

The second of these two tasks is to develop ourselves as human beings. Aristotle liked to call this “flourishing” as human beings (Aristotle, 2009). Developing as a human being, however, is not equivalent to growing or maturing. We are not totally programmed by nature; the programming that nature gives us is minimal and quite open. It requires freedom and choice. It allows us, from a given time on, to choose the kind of life we want for ourselves, that is, to define a life project of our own choosing and to pursue what is needed to turn this life project into reality – into a life worth living.

Our education should therefore first aim to help us to become competent and autonomous in our lifesustaining task of survival and secondly help us to become competent to autonomously define a life project and to acquire the skills and resources necessary to make it a reality, i.e. human development.

But which type of education will best enable us to fulfill these tasks?

I have become more and more convinced as time goes by that we learn best when we are not intent on learning; when we are doing something else that is fun and interesting to us, such as playing.

For learning to take place as we perform other tasks, these other tasks must be fun and interesting, and to be fun, they must also be challenging. When tasks are fun, interesting and challenging, they become intrinsically motivating and engaging.

We do not learn when we are doing something we already know how to do, because the activity has ceased to be challenging (or fun or interesting). Routine, repetitive work is neither fun nor interesting nor engaging, because, after a short while, it ceases to be challenging and becomes boring. Routine, repetitive work is certainly easy: after a short while, it places no great demands on most people. And that is what is bad about it.

One of the great lies perpetuated by many educators is that, if left to themselves, students would never try to learn things that are difficult to learn. The truth of the matter is often the opposite: students do not like to learn things that are easy; they want to face challenges, because that is when they really learn, and, by the way, that is when their self-esteem is increased. [But that is another story: check, for instance, Seymour Papert’s concept of “hard fun” (Papert, 2002)].

Today the play of most kids, as they manoeuvre their smart phones, tablets and video game consoles, is tough and challenging. That is why they have fun playing their games: they learn as they play, and the difficulty of the challenges increases as they move along. A game that you can master quickly, in one or two hours, ceases being fun, because it quickly stops offering challenges and, therefore, chances to learn.

What do students learn when they play? They learn how to play the game, of course, and, depending on the game, they develop the cognitive, psychomotor and strategic skills and competencies required to win in it.

However, they learn many other things as a by-product, which they are often not even conscious of learning. They develop a number of skills and competencies in areas such as solving problems, anticipating threats, protecting themselves against threats, building winning strategies, generating opportunities, reflecting before acting, decision making and, in today’s complex games played on the internet, collaborating, negotiating objectives and strategies, resolving disputes, etc.

Are these not considered the most important life skills and competencies that the twenty-first century expects children to learn?

I have heard many teachers complain that students who seem so attached to doing almost anything, as long as they can use technology to do it, do not seem to be very enthusiastic about using technology in their learning.

Once, in 2004, at a conference sponsored by Microsoft Research, I heard university professors complain that technology-mediated remote education courses were meeting only a lukewarm reception on the part of their students. How so, they asked, when students seem so enthusiastic about using technology to play even “silly games”? That inspired me to look at technology in broader terms. Technology, I came to conclude, is anything that human beings invent to make their life easieror more pleasurable.

This definition allows us to divide technologies into two basic kinds – or to divide the uses of the same technology into two basic types:

  • Technology (or use of technology) that is useful;
  • Technology (or use of technology) that is fun.

In the first case, technology is, or operates as if it were, a tool.

In the second case, it is, or operates as if it were, a toy.

The reason that some teachers and professors have difficulty understanding why technology is so attractive to children, adolescents and young adults lies in the fact that technology, for these adults, is a tool, not a toy, whereas for children, adolescents and young adults, it is basically a toy, a source of challenges, a source of fun and enjoyment, an environment in which they can learn and continually test their capacity to learn more and more difficult things.

The use of so-called pedagogical electronic games in school often offers traps. Students quickly realize that games created by educators or textbook publishers taste too much like school work, not real play – even when these games, technically, resemble successful non-pedagogical games.

The main challenge that schools face today is to change the nature of schooling, not to design and create educational games that will extrinsically motivate students to learn what schools want them to learn. I am convinced that much, perhaps most, of the content that schools want students to learn is not worth learning. A lot of it is largely useless for most students. Some of it may even be pernicious. The rest the students can easily learn when they need it, in a “hands-on, “just in time”, “just enough” modular learning context. Schools ought to prepare people for life – for life in the twenty-first century; a century known as the “age of knowledge” and the “information age”.

And yet, schools keep trying to get students to learn, through teaching, material that they can easily find on the internet, whenever they need it (if they ever do). Thus they fail to help students to develop the simple and especially the higherorder competencies and skills that will make them competent and autonomous beings, workers and citizens in a society that suffers from information overload, because information (often more than we need) is always at our fingertips.

If the nature of schooling is changed in this direction, then one will not need to extrinsically motivate students to learn.

Learning will become engaging, even without electronic games: the “game of life” is challenging enough to engage anyone who is alive.

A good example of how learning becomes engaging can be found in the Brazilian culture.

Detailed planning, careful organisation and disciplined execution do not figure among the most evident features of Brazilian culture, but we make a virtue out of this fact by stressing the importance of “creative improvisation”. We love to live dangerously and face challenges. The time that we do not spend in planning and organisation we use to play and have fun. Things would be chaotic around here if we did not have a modicum of natural talent for this. But I think we do.

I illustrate: It is a well known fact that football is a big thing in Brazil, despite not being native to the country. Borrowed from England, football flourished here, almost becoming an art form. We are the only nation to have played in every World Cup and to have won five: 1958, 1962, 1970, 1994 and 2002. And no one can offer a convincing explanation for why (or how) we lost the final game in the 1950 and 1998 World Cups (to Uruguay and France, respectively), in which we ended up in second place.

Most Brazilian men played football when they were young. (Some continue to play it until old age.) Until about a couple of decades ago, we learned how to play football by playing it. It was a paradigmatic case of learning by doing. And we learned it well, in part because we played it a lot, simply every day, all year round. We used to attend school for only three hours a day (schools had three shifts during the day) and the weather was never too cold or too hot – and we did not mind playing in the rain. But we learned it especially well because playing football was fun and we enjoyed doing it.

One of the characteristics of play in general is that it is fun. For us, playing football used to require no justification or motivation other than the sheer fun of it. But we also enjoyed it because it was one of the few things that we, as children, could freely choose to do and that we could do without the presence and supervision of adults. We did not need instructors or coaches; we learned by ourselves. We only needed the will to learn, a little talent, a ball, a field and a lot of creative improvisation, and these things were always there. The children with more talent helped the ones with less.

Today, however, learning how to play football is rapidly becoming institutionalised, either as part of the physical education curriculum in regular schools (the trend is for kids to stay in school the whole day now) or in specialised football schools, where kids, now both boys and girls, learn how to play football in a planned, systematic and methodical manner, so that they can one day, who knows, become professional players and get rich and famous. (Some kids, I am sad to say, attend specialised football schools in the evening, after a whole day of regular schooling).

Learning to play football has become more like regimented work than spontaneous play. I am convinced that this change is largely responsible for our steady decline in professional football.

But, to close this section, let us move from playing football to watching football.

Among adults, both men and women, professional football provides a favourite topic of conversation in Brazil. Brazilians are good football critics. They can easily identify when football is played creatively and when it is played efficiently. Which is preferable, they discuss: to play pretty (creatively) or to play to win (efficiently)? Brazilians, of course, prefer football played both creatively and efficiently. That tops the list. At the bottom of the list we have football played neither creatively nor efficiently. In between, we prefer a game played creatively but not efficiently to one that is played efficiently but not creatively.

If we define creative football as football that is fun to play and enjoyable to watch, and efficient football as football that results in winning the game, Brazilian football watchers, even when our favourite team is involved, prefer to lose a game that was enjoyable to watch to winning a dull and joyless game. They call the latter an ugly game.

This fact provides, in my view, an important clue to our culture: we love having fun and enjoying ourselves, even if we end up losing the game. Learning, in the context of the twenty-first century, needs what we used to find in football in Brazil: creative improvisation, freedom, challenge, the union of passion and talent, fun – pure, natural, unfabricated, unadulterated joy. Learning today needs to be seen more like play and less like work. This would make learning, I dare hope, quite natural to Brazilian culture.

REFERENCES

Aristotle (2009), The Nicomachean Ethics, 2nd edn, New York: Oxford University Press.

Papert, S. (2002), ‘Hard Fun’, The Bangor Daily News (Bangor, Maine). Accessed: May 2013, available from: www.papert.org/articles/HardFun.html.

NOTES

(*) Article published in Cultures of Creativity: Nurturing Creative Mindsets Across Cultures, organized by David Gauntlett & Bo Stjerne Thomsen (The LEGO Foundation, June 2013). 

(**) THE AUTHOR: EDUARDO CHAVES

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Independent consultant, lecturer and author on Philosophy, Education and Technology. São Paulo, Brazil.

Eduardo Chaves has retired from a productive career in higher education, and is now writing, lecturing and consulting. After receiving his PhD in Philosophy from the University of Pittsburgh, PA, USA, he taught in the Philosophy and Educa­tion Departments of California State University at Hayward, Pomona College in Claremont, CA, the Pontifical Catholic University of São Paulo, the Pontifical Catholic University of Campinas, the Salesian University of São Paulo and the State University of Campinas, the first two in the USA, the last four in Brazil.

In Brazil Dr. Chaves is one of the pioneers in the area of applying digital technology to improve learning – in basic education, non-formal health education and the corporate setting. His inte­rest in this area led him to create, in 1983 at the State University of Campinas, an interdisciplina­ry research nucleus to study and investigate the issue, which is the first institution of this type.

Dr. Chaves was a consultant to government, non-government and private organisations for technology-based cooperative learning, innova­tion-focused leadership and large-scale change management (especially in schools and school systems). For the past ten years, he served as a member of the International Advisory Board of Microsoft’s worldwide initiative Partners in Learning, and as the Coordinator of the UNESCO Chair in Education and Human Development at the Ayrton Senna Institute in São Paulo. He is also an advisory board member of several non-governmental organisations and program­mes in Brazil.

He is the author of several books and innume­rable articles in the areas of philosophy, educa­tion and technology. For the last eight years he has maintained a blog entitled Liberal Space (http://liberalspace.net) that presently offers about 800 articles on almost every contempo­rary issue.

At Lumiar the Teacher is Split in Two

 

[Originally posted in the blog Lumiar School (http://lumiarschool.wordpress.com) on Oct 12, 2007]

The conventional school demands too much – and, paradoxically, too little — of teachers.

It can be safely assumed that teachers (whatever the name they had then) were originally supposed to help children in their learning. Period.

For thousands and thousands of years, learning was mostly done at home or within the confines of the family circle. The teacher, therefore, was the family: mother, father, grandmother, grandfather, aunt, uncle, older siblings, cousins… In the simplified context in which this took place, the older family members had, in their ensemble, all that was necessary to help the younger ones learn. Among them they mastered the content of what was to be learned:

  • First, practical stuff: language (for a time only spoken language; later, and not in every family, reading and writing), rudimentary arithmetic, and the practical skills required for the family businesses: the external business (generally, farming, herding, hunting, fishing, etc.), as a rule reserved for men, and the domestic business of keeping the home (cooking, cleaning, sewing, needle work, etc.), as a rule reserved for women;
  • Second, still practical things, but now placed on a “higher plane”: the “art of living”, or moral, spiritual and (perhaps on slightly lower plane) aesthetic education.

The first component was more or less taken for granted as of course, but the second one was considered really important, since it was meant to prepare children to live their lives not only in this life, but also in the next… The “art of living” generally included:

a)   Moral education: help children understand the difference between (moral) right and wrong [concept], understand (or simply accept) what makes a given action (morally) right or wrong [criterion], classify different concrete actions as right, wrong or (morally) indifferent [according to the criterion], and, more importantly, do what is right and refrain from doing what is wrong;

b)   Spiritual education: [generally, especially in Christian circles] help children understand that we have a body but we are a soul, that the soul survives after the death of its body, that how we behave here on earth will bring us rewards or punishments in the next life, that, therefore, it is important to read (or listen to) the scriptures, pray for divine guidance and help, go to church, etc.

c)    Aesthetic education: [more directed to girls] help children develop some finer habits, such as draw, paint, sing, play an instrument and, in general, appreciate what is beautiful and shun from what is ugly.

As life became more complex, the family had to resort to external help in the task of helping their children learn all that was considered worthy of learning. It was then that figure of the tutor or mentor appeared – and it was in this context that the modern school, as (supposedly) an assembly of tutors/mentors, was invented.

Many things made these developments necessary – but one of set them is quite important (and they took place around the end of the fifteenth, the sixteenth and the seventeenth century): the invention of printing, the explosion in writing that followed (and that marks the beginning of literature in the vernacular of most modern languages), the discovery of up to then unknown parts of the world, the Protestant Reformation, and the appearance of modern science… The protestant reformers had an important role in the process, because they insisted that everyone ought to learn how to read in order to read the Scriptures and not by deceived by the catholic priests (the cost of not doing this could be eternal damnation…). The result was that schools started appearing everywhere next to most protestant churches.

One important consequence of this was that the business of educating children became more complex and a gradual “division of labor” (with its consequent creating of specialized functions) began to occur. The family, for a time, retained the practical functions of preparing boys for the external family business and girls for the business of housekeeping. Moral and spiritual education were to a large extent shared by family and church. Aesthetic education (“education of sensibility”) somehow lost importance. And tutors/mentors and/or the school (“assembly of tutors/mentors”) assumed an area that did not quite exist before, but that was destined to grow: “intellectual education”.

With the appearance of various modern languages and their accompanying literature, with the discovery of new worlds, with the creation of several protestant denominations (competing amongst themselves and not only with the Catholic Church), with the appearance of modern science, that gradually evolved from astronomy and physics to biology and chemistry, with the appearance, from the 18th century on, of the so-called “human sciences” (history, geography, psychology, sociology, anthropology, political science, etc.), the intellectual scenario – the world of ideas – grew in complexity and importance. Suddenly the family seemed quite inadequate to the task of helping children learn things that were so varied and complex. And, curiously and somehow paradoxically, this new world of ideas aroused the interest in the old world of ideas of the Greeks and Romans…

Not even one single individual tutor/mentor, usually employed by families of higher means, could be expected to master all that children, especially those of the higher and middle classes, were expected to learn… Richer families began to hire several specialized tutors/mentors. The emerging middle class (and, later one, also the rich) had to resort to the assembled tutors/mentors provided by the schools… (The poor generally were left out – until quite recently).

And this way we come to the present (conventional) school… This school is, from the beginning, and almost by definition, a specialized learning environment: it tries to deal with intellectual education alone, and even then, only with one segment of it. Moral, spiritual and aesthetic education are normally outside its scope. And professional and vocational education are generally assigned to specialized institutions and are not considered as important.

The convention school of today (and society, in general) wants teachers to be a number of things…

Above all, it wants teachers to be content specialists, that is, it wants them to know well one of the subject-matters (academic disciplines) in which the curriculum is presently divided.

With the explosion of information that characterizes our age, expectations regarding the area of specialization of the teachers were proportionally adjusted (that is, reduced). Today it is not considered reasonable that a teacher should be a specialist in the whole of biology, or physics, or even history. Teachers must choose sub-specialties: 20th-Century Brazilian History, for instance, in the case of a (Brazilian) history teacher…

But expectations became also more and more “focused”… Besides the choice of specialties within specialties, teachers started to concentrate on the specific content that is supposed to be taught to the classes under their responsibility: “I’m an eighth grade Math teacher”; “I’m a High School English teacher” (or “I’m a teacher of English as a second language”…). (So, in the latter case of the specialized English teacher, do not expect him to know how to get children to learn how to read and write, much less enjoy reading and writing… When he receives them, he expects them to be way past that stage).

But the level of specialization has an even more problematic consequence.

Each of the different areas of specialization can be divided into two parts: one that contains what we could call “the legacy content” produced by specialists in the past (even recent), and another that contains “the method of thinking or inquiry” that, when applied, can produce similar content…

This distinction is very important.

I will try to show why using as example my own area of specialization, philosophy. It is likely that human beings have been philosophizing for a long time. But philosophy, as a systematic form of inquiry into what there is, where we come from, what is the purpose of us being here, what is the right thing to do, what is the right way to organize ourselves in society, why do we consider some things pretty and attractive and others ugly and repugnant, and how do we know all that we presume to know – this form of inquiry had its birth among the Greeks during the centuries that preceded the Christian era. And it spread, far and quick. More than two thousand years later, we do have an incredible amount of written records about what past and contemporary philosophers have thought. This is what I call “the legacy content” of a given area of specialization.

To help a child to learn philosophy can, in this context, be interpreted in two different senses:

  • to help the child assimilate the most important ideas (according to some criterion) of what other philosophers have thought and written;
  • to help the child develop the competence and the skills needed to like in a similar manner.

Most teachers of philosophy do only the first – and often do not even know how to think philosophically for their own consumption. I have no doubt that the second is the most important. As a matter of fact, the written thought of other philosophers only becomes interesting when one begins to master the art of philosophizing yourself. Otherwise it is terribly dull.

What I have just said about philosophy can be said with the same propriety about the other academic disciplines. Most teachers in today’s conventional schools are not involved with helping children learn how to philosophize, how to think like a scientist, or an artist. They are only involved with imparting to the students what philosophers, scientists and artists have thought and done. Their business is “content delivery” – an ugly expression that, unfortunately, reflects quite well what most teachers do: their area of specialization is, for them, only a bunch of content that others have thought and that must now be delivered to students, who, almost by definition, are unfamiliar with it.

Since the content of a given area of specialization tends to grow fast, teachers are unable to keep track of the content even of their narrow specialties and so tend to narrow even more their specialization down to the point where they know almost everything about almost nothing. And that is what they transmit to their students.

Just to be clear, here is what they do not do – and are not required to do by their schools:

a)   Help their students master the methods of inquiry of their specialized disciplines;

b)   Help their students understand the larger context in which disciplines were defined and function;

c)    Help their students understand that most interesting issues transcend the boundaries of traditional disciplines and even the boundaries of mega-areas such as philosophy, science and art;

d)   Help their students deal with the practical competencies and skills required by different professions;

e)    Help their students deal intelligently and honestly with moral, aesthetic and spiritual issues they will inevitably confront.

That is why I said, above, that the conventional school we have today demands too much – and, paradoxically, too little — of their teachers.

Lumiar tries to face these issues in several different ways.

Perhaps the most creative and interesting way is by splitting the teacher into two pedagogical figures: the tutor/mentor and the teacher/master.

The tutor/mentor is a full-time employee of the school. Each of them is supposed to be responsible for about fifteen to twenty students. This responsibility involves the personal development of the student in every relevant aspect (physical, social, emotional, moral, spiritual, intellectual). The tutor/mentor is supposed to get to know well the children for whose development he is responsible. He is responsible for knowing what the children already know when they enter the school, what their natural talents, inclinations, interests, hopes and expectations are (inasmuch as it is possible to discover these things with respect to small children), he is expected to help the children, with the help of their parents, to choose the learning projects in which they are going to be involved, he is responsible for overseeing the children while they are at play, he is charged with periodically assessing their learning and the overall development (with the help of his observations and of reports written by the teachers/masters), etc. And, above all, unless problems arise, he is not replaced by a different tutor/mentor as the children progress in their development: he is a constant reference to them.

The teacher/master is, in a way, the content specialist to whom the responsibility for the children’s development of specific competencies and skills is – to use an almost abusive word in the context — outsourced. They are not full-time staff. They are hired to offer specific learning projects to the children – to plan, develop, implement, execute and evaluate the project and to assess what students have learned by and after taking the project.

There are three features that are sought in the teachers/masters:

a)   They must be masters of a particular content – that is why they are called masters;

b)   They must be able to look at that content from the point of view of the competencies and skills required to produce it (or something similar) rather than as a content to be delivered to the students – that is why the school is reluctant to call them simply teachers;

c)    They must have a genuine interest in the area and a visible love for what they do.

If these three features are present – mastery, focus on methods of inquiry, and motivation – they ought not to have problems with getting students to voluntarily offer to take part in their learning project: they do not have to be cajoled, persuaded, seduced, much less compelled, to participate.

If the tutors/mentors provide constancy and continuity, the teachers/masters provide change and diversity.

The administration of the school is responsible for guaranteeing that all the essential areas of the Matrix of Competencies that serves as curriculum are covered by learning projects offered, led and coordinated by the teachers/masters. These are responsible for guaranteeing that the students involved in their learning projects not learn the content of the project itself, but that they also develop the basic competencies and skills defined by the Matrix of Competencies. And the tutors/mentors are responsible for guaranteeing that what students learn in the different learning project contributes to their coherent development as persons – not only as the unique individuals they are, but also to their social existence as citizens and to the preparation that becoming a 21st-century professional requires.

The conventional teacher has been split in two at Lumiar – and even his mastery of a given content, in the case of the teachers/masters, is refocused to the methods of inquiry rather than to the transmission of the legacy content produced in his area of interest.

 

Campinas, on the 12th of October, 2007

Na Escola Lumiar o professor é dividido em dois…

[Artigo publicado em 04/03/2008 por Eduardo Chaves no blog Escola Lumiar. Ele é tradução de um artigo publicado em 12/10/2007 em Inglês no blog em Inglês. A tradução é minha.]

A escola convencional exige demais — e, paradoxalmente, de outro ângulo, muito pouco — de seus professores.

Pode-se presumir que o ofício de professor (qualquer que fosse o nome dado aos seus ocupantes então) surgiu porque havia necessidade de alguém que ajudasse as crianças a aprender e, assim, a se desenvolver. Ponto final.

Por milhares e milhares de anos, as crianças aprendiam tudo o que precisavam aprender em casa ou dentro dos limites do círculo familiar. O professor, portanto, era a família: a mãe, o pai, a avó, a avô, a tia, o tio, os irmãos mais velhos, os primos mais experientes… No contexto relativamente simplificado em que isso se dava, os membros da família tinham, em seu conjunto, tudo o que se exigia para ajudar os mais jovens a aprender e a se desenvolver. Em seu conjunto, eles dominavam o conteúdo de tudo o que precisava ou devia ser aprendido.

A seguir uma amostra das coisas que precisam ser aprendidas nesse contexto simples.

Em primeiro lugar, coisas práticas:  a linguagem (por muito tempo apenas a linguagem falada; depois, e mesmo assim nem em todas as famílias, a leitura e a escrita), os rudimentos da aritmética, e as habilidades práticas exigidas pelo negócio da família: os negócios externos (em geral: inicialmente, caçar, pescar, colher os frutos que cresciam naturalmente nas árvores e arbustos; mais tarde, cultivar a terra, cuidar dos animais, etc.), em regra reservados para os homens, e o trabalho doméstico: cuidar da tenda ou da casa, cozinhar, lavar roupas, tecer, costurar, bordar, tricotar, etc.), em regra reservado para as mulheres.

Em segundo lugar, ainda coisas práticas, mas agora colocadas num “plano mais elevado”: a “arte de viver”, ou os princípios e as regras da moralidade, da vida espiritual e (talvez num plano não tão alto) da estética.

O primeiro componente era mais ou menos pressuposto como algo que nem merecia discussão, mas o segundo era considerado realmente importante, visto que envolvia preparar as crianças para viver suas vidas não só nesta vida, mas também na futura… (como diz, até hoje, o moto da educação adventista).

A “arte de viver” geralmente incluía:

Educação moral: ajudar as crianças a entender a diferença entre o certo e o errado no plano moral [conceito], entender (ou simplesmente aceitar) aquilo que faz com que uma determinada ação seja moralmente certa ou moralmente errada [critério], classificar diferentes ações concretas como moralmente certas, ou moralmente erradas, ou moralmente indiferentes [segundo o critério], querer fazer o que é certo e evitar o que é errado [vontade], mobilizar as emoções para fazer o certo e deixar de fazer o errado [sentimento], e, mais importante, fazer o que é moralmente certo e deixar de fazer o que é moralmente errado [ação];

Educação espiritual: [especialmente em círculos cristãos] ajudar as crianças a entender que temos um corpo mas somos uma alma, que nossa alma sobrevive à morte do seu corpo, que como nos comportamos na vida aqui na Terra vai nos trazer recompensas ou punições na vida futura, e que, portanto, é importante ler (ou ouvir) as escrituras, orar solicitando a orientação divina, ir à igreja, viver em comunhão com os irmãos, etc.

Educação estética: [dirigida mais para as meninas] ajudar as crianças a desenvolver alguns dos hábitos mais refinados e a cultivar as artes, aprendendo a desenhar, pintar, cantar, tocar um instrumento, e, em geral, apreciar o que é belo e evitar o que é feio.

À medida que a vida foi se tornando mais complexa, porém, a família teve de recorrer a agentes externos, especializados, para apoiá-la na tarefa de ajudar suas crianças a aprender tudo o que era considerado digno de aprender. Foi nesse contexto que surgiu a função do professor – e foi nesse contexto que, muito mais tarde, a escola moderna, com sua “congregação de professores” (expressão até hoje utilizada), foi inventada.

Muitas coisas tornaram esse desenvolvimento necessário – mas algumas delas são especialmente importantes, e tiveram lugar por volta do fim do século quinze e durante os séculos dezesseis e dezessete: a invenção da imprensa de tipo móvel, a explosão de textos escritos que resultou dessa invenção (e que marca o início da literatura no vernáculo da maior parte das línguas modernas), a descoberta de partes até então desconhecidas do mundo, a Reforma Protestante (com sua ênfase na tese de que cada crente precisa ler as Escrituras por si próprio e interpretá-las “sob a iluminação do Espírito Santo”, o aparecimento da ciência experimental moderna… Os reformadores protestantes tiveram um papel importante no processo, porque insistiram que cada um devia aprender a ler para poder ler e interpretar as Escrituras, e, assim, não ser enganado pelos padres católicos (pois o preço de não aprender a ler poderia ser a danação eterna no inferno…). O resultado disso foi que escolas começaram a aparecer em toda cidade ao lado das igrejas protestantes.

Uma conseqüência importante dessa ênfase na educação foi que o mister de ajudar as crianças a aprender se tornou mais complexo e uma gradual “divisão de trabalho” (com sua conseqüente criação de funções especializadas) começou a ocorrer. A família, por um tempo, reteve as funções práticas de preparar os meninos para os negócios externos da família e as meninas para os negócios domésticos relacionados ao cuidado da casa e, oportunamente, dos filhos. A educação moral e espiritual foi, em larga medida, compartilhada pela família e pela igreja. A educação estética (“a educação da sensibilidade”) perdeu um pouco de sua importância. E a escola assumiu uma área que não existia antes, mas que estava fadada a crescer e a assumir cada vais mais importante: a educação intelectual.

Com o aparecimento de várias linguagens modernas e sua correlata literatura, com a descoberta de novos mundos, com a criação de várias denominações protestantes (competindo não só com a Igreja Católica, mas também umas com as outras), com o surgimento da ciência moderna, que gradualmente evoluiu da astronomia e da física para a química e a biologia, e o posterior surgimento das ciências humanas (história, geografia, psicologia, sociologia, antropologia, ciência política, etc.), o cenário intelectual – o mundo das idéias – cresceu em complexidade e importância. De repente a família parecia totalmente inadequada para a tarefa de preparar as crianças para aprender coisas tão complexas e variadas. E, curiosamente, e de certo modo paradoxalmente, esse novo mundo das idéias estimulou o interesse no velho mundo das idéias dos Gregos e Romanos…

Nem mesmo se podia esperar que um professor individual (o tutor, ou preceptor), geralmente empregado por famílias de mais posses, pudesse dominar tudo aquilo que se esperava que as crianças, especialmente as das classes mais elevadas, viessem a aprender… As famílias mais ricas começaram a contratar vários professores especializados. A classe media emergente (e, mais tarde, também os ricos) tiveram de recorrer à congregação de professores fornecida pelas escolas… (Os pobres geralmente ficavam de fora – até bem recentemente).

E assim chegamos à escola atual, convencional… Essa escola é, desde o início, e quase que por definição, um ambiente de aprendizagem especializado: ela tenta lidar apenas com a educação intelectual e, mesmo assim, apenas com um segmento dela. A educação moral, espiritual e estética ficam normalmente fora de seu escopo. E a chamada educação profissional e vocacional foi atribuída a instituições especializadas e nunca foi considerada muito importante. O saber fazer, nessa escola, perde lugar para o saber puro e simples, desvinculado da prática.

A escola convencional de hoje (e a sociedade, em geral) quer que os professores sejam várias coisas ao mesmo tempo

Acima de tudo, ela quer que os professores sejam especialistas em conteúdo, isto é, quer que eles conheçam bem uma das matérias (disciplinas acadêmicas) nas quais o currículo (aquilo que deve ser aprendido na escola) veio a ser dividido.

Com a explosão da informação que caracteriza o nosso tempo, expectativas acerca da área dos professores foram sendo ajustadas (i.e., estreitadas). Hoje não se considera mais razoável que um professor seja um especialista em toda a biologia, ou em toda a física, ou mesmo em toda a história: os professores precisam escolher sub-especialidades: História do Brasil, por exemplo, no caso de um professor de história… ou até mais (isto é, menos) do que isso: História do Brasil Republicano (ou, pior, História do Brasil Após a Segunda Guerra…).

Mas as expectativas foram ainda mais estreitadas à medida que foram sendo “focadas”… Além da escolha de especialidades dentro das especialidades, os professores começaram a se especializar no conteúdo específico que deveria ser ensinado às classes sob sua responsabilidade: “Sou professor de matemática no Ensino Médio”… “Sou professor de língua portuguesa no Ensino Fundamental”… “Sou professora alfabetizadora”…

Mas o nível de especialização tem uma conseqüência ainda mais problemática.

Cada uma das diferentes áreas de especialização pode ser dividida em duas partes: uma que contém o que poderia ser chamado de o “conteúdo legado”, produzido pelos especialistas do passado (mesmo recente), e outra que contém o “método de investigação e reflexão” que, quando aplicado, pode produzir conteúdo semelhante…

Essa distinção é muito importante.

Tentarei mostrar por que usando como exemplo minha própria área de especialização, a filosofia.

É provável que os seres humanos tenham estado a filosofar por muito tempo. Mas a filosofia, como uma forma de investigação sistemática sobre questões como o que existe (ontologia), de onde viemos e para onde vamos (metafísica), qual é o curso correto de ação que devemos assumir (ética), qual é a forma correta de organizar a vida em sociedade (filosofia política), por que consideramos algumas coisas lindas e atraentes e outras feias e repugnantes (estética), e como é que sabemos tudo aquilo que presumimos saber (lógica e epistemologia) – essa forma de investigação teve seu início entre os gregos durante os cinco séculos que precederam a era cristã. E se espalhou para todo canto e muito rapidamente. Mais de dois mil anos depois, temos uma quantidade incrível de registros históricos daquilo que pensaram os filósofos passados e contemporâneos. Esse é o que chamo de o “conteúdo legado” dessa área de especialização.

Ajudar uma criança a aprender a filosofar pode, nesse contexto, ser interpretado de duas maneiras diferentes:

  • Ajudá-la a assimilar as idéias mais importantes (segundo algum critério) daquilo que outros filósofos pensaram e escreveram;
  • Ajudá-la a desenvolver as habilidades e competências necessárias para, ela própria, pensar e escrever de maneira semelhante (ou seja, necessárias para que ela mesma filosofe).

A maior parte dos professores de filosofia opta por fazer apenas a primeira dessas duas coisas – e muitas vezes não sabe filosofar nem mesmo para consumo próprio. Não tenho dúvida nenhuma, porém, de que a segunda dessas coisas é a mais importante para a filosofia (a primeira, na verdade, não é filosofia: é história, ainda que da filosofia)… Na realidade, o pensamento escrito de outros filósofos só se torna interessante quando a gente começa a dominar a arte de filosofar… Para quem não tem esse domínio, o pensamento filosófico de terceiros é terrivelmente chato.

O que acabei de dizer sobre a filosofia pode ser dito, com a mesma propriedade, sobre qualquer outra das disciplinas acadêmicas. A maior parte dos professores nas escolas convencionais de hoje não ajuda as crianças a aprender como filosofar, como pensar como um cientista e fazer ciência, como produzir obras de arte. Esses professores estão apenas envolvidos em transmitir para os alunos o que filósofos, cientistas e artistas pensaram e fizeram ao longo da história. Seu negócio é “transmitir conteúdos” – uma expressão horrível que, infelizmente, reflete bastante bem o que a maior parte dos professores faz: sua área de especialização é, para eles, apenas um monte de conteúdo – conteúdo esse que consiste daquilo que os outros pensaram ou fizeram, e que, agora, precisa ser transferido para os alunos que, quase por definição, não têm familiaridade com ele.

Posto que o conteúdo de uma área de especialização, hoje, cresce muito rapidamente, os professores são incapazes de se manter atualizados até mesmo sobre o que se produz em suas estreitas especialidades, e a tendência é que se especializem cada vez mais, até chegar o ponto de saberem quase tudo sobre virtualmente nada. E é isso que transmitem para seus alunos.

A bem da clareza, aqui está o que esses professores não fazem – nem suas escolas exigem que o façam:

  • Não ajudam seus alunos a dominar os métodos de investigação de suas disciplinas especializadas;
  • Não ajudam seus alunos a entender o contexto mais amplo em que as disciplinas foram definidas e operam;
  • Não ajudam seus alunos a entender que as questões mais interessantes em geral transcendem os limites das disciplinas tradicionais e mesmo de mega-áreas como, por exemplo, filosofia, ciência, ou arte;
  • Não ajudam seus alunos a lidar com as competências e habilidades práticas exigidas pelas diversas profissões intelectuais;
  • Não ajudam seus alunos a lidar inteligente e honestamente com questões morais, espirituais e estéticas que vão inevitavelmente confrontá-los.

Isto posto, fica claro por que eu disse, no início, que a escola convencional, e a sociedade que a apóia, exige, ao mesmo tempo, demais e muito pouco de seus professores.

A Escola Lumiar, pela qual tenho o privilégio de responder, tenta enfrentar esse problema de diversas maneiras.

Talvez a maneira mais criativa e interessante tem sido dividir o professor em duas figuras pedagógicas: o tutor/mentor e o instrutor/mestre.

tutor/mentor é funcionário de tempo integral da escola. Cada um deles é responsável por cerca de 15 a 20 alunos. Sua responsabilidade envolve o desenvolvimento pessoal do aluno em todos os aspectos relevantes: físico, social, emocional, moral, espiritual e, naturalmente, intelectual. O tutor/mentor deve conhecer bem as crianças por cujo desenvolvimento ele é responsável. Ele deve descobrir o que as crianças já sabem quando entram na escola, isto é, quais são os talentos, inclinações, interesses, esperanças e expectativas que trazem consigo para a escola (tanto quanto se pode descobrir essas coisas em relação a crianças pequenas). Com a ajuda dos pais delas, ele deve ajudar as crianças a escolher e contratar os projetos de aprendizagem em que vão se envolver. Ele deve supervisionar as crianças enquanto elas não estão envolvidas nos seus projetos de aprendizagem (pois neste caso elas ficam sob a supervisão do instrutor/mestre). Ele deve periodicamente avaliar o seu aprendizado e o seu desenvolvimento (com base em suas observações e com a ajuda de relatórios elaborados pelos instrutores/mestres). E, a menos que problemas surjam, ele não é substituído por outro tutor/mentor à medida que a criança vai ficando mais velha: ele é uma referência constante para elas.

instrutor/mestre é, de certo modo, o especialista em conteúdo para quem a responsabilidade pelo desenvolvimento das competências e habilidades específicas de natureza mais prática é – para usar um termo quase que abusivo – terceirizado. Ele não é funcionário de tempo integral da escola: é contratado para oferecer – planejar, desenvolver, implementar, executar — projetos específicos de aprendizagem para as crianças – e avaliar o seu desempenho neles (avaliando não só se realizaram as atividades previstas mas, também, se desenvolveram, ao realizar essas atividades, as competências e habilidades previstas).

Há três características importantes que são buscadas nos instrutores/mestres:

  • Que dominem com competência um conteúdo específico – por isso são chamados de mestres;
  • Que sejam capazes de olhar o conteúdo que dominam do ponto de vista das competências e habilidades exigidas para produzi-lo, e não do ponto de vista de sua mera transmissão para os alunos – é por isso que a Lumiar reluta em chamá-los simplesmente de professores;
  • Que tenham um genuíno interesse na área e uma paixão visível pelo que vão fazer, a saber, ajudar as crianças no seu desenvolvimento.

Se essas três características estiverem presentes – domínio, foco nos métodos de investigação, e motivação – os instrutores/mestres não devem ter problemas para conseguir que os alunos voluntariamente se disponham a participar de seus projetos: os alunos não precisam ser seduzidos, muito menos compelidos, a participar.

Se os tutores/mentores fornecem oferecem constância e continuidade, os instrutores/mestres oferecem mudança e diversidade.

A administração da escola é responsável por garantir que todas as áreas essenciais da Matriz de Competências que serve de currículo estejam cobertas por projetos de aprendizagem oferecidos, liderados e coordenados pelos instrutores/mestres. Estes são responsáveis por garantir que os alunos envolvidos em seus projetos não só aprendam o conteúdo dos próprios projetos, mas, também, que desenvolvam as competências e habilidades definidas pela Matriz de Competências. E os tutores/mentores são responsáveis por garantir que aquilo que os alunos aprendem nos diversos projetos contribui para seu desenvolvimento coerente como pessoas – não só como os indivíduos únicos que são, mas também para sua existência social como cidadãos e para sua preparação para serem, oportunamente, os profissionais que o século XXI exige.

O professor convencional foi dividido em dois na Lumiar – e, no caso dos instrutores/mestres, seu foco de atuação, dentro de sua área de especialização, foi retirado da transmissão do “conteúdo legado” nela existente para os “métodos de investigação e trabalho”.

Em Campinas, 12 de Outubro de 2007 — traduzido para o Português pelo autor, em 3 de Março de 2008

Novas Formas de Aprender

NOTA INICIAL DO AUTOR:

O texto original deste artigo é:
“Novas Formas de Aprender: ‘Educação Orientada para o Desenvolvimento de Competências e Habilidades’ e ‘Currículo Centrado na Solução de Problemas'”
Vide, abaixo, a NOTA FINAL DO AUTOR.

As expressões que estão no título [original] deste texto fazem referência a uma proposta pedagógica inovadora. Seu caráter inovador se revela quando começamos a investigar o que é, exatamente, que uma “educação orientada para o desenvolvimento de competências e habilidades” e um “currículo centrado na solução de problemas” procuram substituir.

Nossa educação, hoje, e por um bom tempo, não tem sido orientada para o desenvolvimento de competências e habilidades nos alunos, mas, sim, para a absorção, por parte deles, de conteúdos informacionais: fatos, conceitos e procedimentos.

Os currículos utilizados nesse tipo de educação, por sua vez, são centrados, não na análise e na tentativa de solucionar problemas, mas em disciplinas, que são o respositório dos conteúdos informacionais mencionados, e que, em geral, são apresentadas aos alunos de forma abstrata, totalmente desvinculada dos problemas fundamentais que um dia levaram o ser humano a se interessar por esse tipo de questão.

Assim, a aprendizagem dos alunos é caracterizada como a absorção dos conteúdos informacionais das várias disciplinas que compõem o currículo, e espera-se que essa aprendizagem seja o resultado mais ou menos automático de um ensino que, o mais das vezes, não vai além da mera apresentação de parte dos conteúdos a serem absorvidos – a outra parte ficando por conta dos livros didáticos, cuja leitura também se espera que vá redundar em aprendizagem (i.e., na absorção dos conteúdos informacionais que foram lidos).

Quando se afirma que a escola precisa encontrar novas formas de ensino e aprendizagem, se deseja sobreviver os momentos difíceis que atravessa, não se tem em mente apenas aperfeiçoar as atuais formas de ensino e aprendizagem, torná-las mais eficientes e, ao mesmo tempo, como se fosse possível, mais agradáveis. O que se critica é o próprio modelo, ou o paradigma de educação que hoje impera. Conseqüentemente, é preciso “virar as coisas de ponta cabeça”, recomeçar do zero.

É interessante notar que o modelo ou paradigma de educação que hoje é hegemônico não possui fundamentação teórica ou justificativa séria. Quando as coisas são colocadas nestes termos, poucos são os que explicitamente endossam a tese de que educar é ensinar às crianças os fatos, os conceitos e, se for o caso, os procedimentos envolvidos nas várias disciplinas: estudos sociais ou, especificamente, história, geografia; ciências ou, especificamente, biologia, física, química; matemática; filosofia; língua materna; uma língua estrangeira. Esse modelo ou paradigma foi se infiltrando na escola, e acabou alcançando condição hegemônica, apenas porque é mais fácil de ser colocado em prática do que as alternativas. Na realidade, ele contradiz virtualmente tudo o que sabemos sobre o que é que motiva as crianças a aprender e como elas de fato aprendem.

Não se pode ignorar que antes de entrar na escola a criança aprende uma quantidade enorme de coisas:

  • aprende a diferenciar a suas impressões sensoriais e a identificar objetos e pessoas;
  • aprende a pegar e a manipular objetos;
  • aprende a ficar de pé e eventualmente a andar;
  • aprende a gostar de determinadas coisas e a não gostar de outras, desenvolvendo nítidas preferências;
  • aprende a responder adequadamente ao contato de terceiros (conhecidos ou estranhos);
  • aprende a identificar sons, em especialmente os sons da fala humana;
  • aprende primeiro a expressar o que deseja através de gestos e sinais, aprende a imitar gestos e sons e, eventualmente, aprende a falar;
  • aprende a se alimentar sozinha;
  • aprende a controlar sua bexiga e seus intestinos;
  • aprende que não deve fazer determinadas coisas;
  • aprende a demonstrar carinho e a agredir os outros, quando contrariada;
  • aprende eventualmente a identificar símbolos, desenhos, sons e mesmo palavras escritas com seus referentes;

e assim por diante.

Algumas crianças aprendem até mesmo a ler e a escrever virtualmente sozinhas. Outras crianças aprendem a se locomover, sem se perder, em espaços relativamente complexos – como um sítio, uma pequena cidade, ou, até mesmo, as ruas de uma grande cidade.

Registre-se, porque de fundamental importância, que nenhum desses aprendizados envolve a absorção pura e simples de informação – em todos eles o essencial é o desenvolvimento de competências e habilidades – sensório-cognitivas, psico-motoras, emocionais e sociais (interpessoais).

Registre-se ainda que em nenhum desses casos há um processo de ensino formal e institucionalizado: a criança aprende observando, imitando, e respondendo a intermitentes intervenções (estimulações ou provocações, no bom sentido) daqueles que compartilham o seu mundo.

Além do mais, aprender todas essas coisas dá grande prazer às crianças – sua curiosidade inata as torna automotivadas e em nenhum momento o aprendizado lhes parece doloroso ou entediante. Aprender é parte de sua vida – na verdade, a parte principal da sua vida. Brincar, para elas, é aprender, e aprender é brincar.

Por fim, ajudar as crianças a aprender essas coisas todas é um processo relativamente simples – até as pessoas mais simples, sem educação geral e sem formação especializada na área de pedagogia da pré-escola, conseguem ajudar a criança nesse processo alegre de aprendizado.

Se, ao entrar na escola, o aprendizado subitamente se torna aborrecido e mesmo sofrido para as crianças, isto parece ser muito mais por falha da escola do que das próprias crianças – pois nada fundamental se altera nelas, além do fato de que seu aprendizado agora deve se processar principalmente no ambiente organizado e estruturado da escola, que altera drasticamente a natureza do processo de aprendizagem.

  • Primeiro, na escola o aprender desvincula-se do brincar e se torna uma obrigação. Falando mais tecnicamente, na escola corta-se o vínculo anteriormente existente entre processos cognitivos e processos vitais – entre aprendizagem e vida, entre aprendizagem e experiência.
  • Segundo, o objeto do aprendizado escolar deixa de ser o desenvolvimento de competências e habilidades nos alunos para se tornar a absorção, por eles, de grandes quantidades de informação: fatos, conceitos, procedimentos.
  • Terceiro, o aprender deixa de ser, conseqüentemente, algo ativo, que a criança faz, para ir se tornando, mais e mais, um sub-produto esperado da ação do professor – algo que se espera que o professor faça, através do ensino. Espera-se que, através do ensino, o professor gere o aprendizado na criança. Desta forma, o aprendizado não é algo que a criança faz, mas algo que lhe é feito – algo que ela “sofre” (em mais de um sentido).
  • Quarto, a escola, além de, num procedimento totalmente artificioso, criar horas e locais específicos para a criança “aprender” determinadas coisas, gera na criança a idéia, extremamente nociva, de que aprender não é um processo natural, agradável e contínuo, que começa com o nascimento (ou antes) e termina apenas com a morte, mas, sim, algo artificial, difícil e doloroso, que, tendo começado quando a criança entra na escola, termina quando ela, com enorme alívio, deixa a escola, sendo o seu aprendizado (visto como resultado e não como processo) certificado através de um diploma.
  • Quinto, estipula-se que todos devam aprender as mesmas coisas, pelos mesmos métodos, nos mesmos ritmos e nos mesmos momentos – independentemente de seus interesses, de suas aptidões, de seu estilo cognitivo, de seu estado de espírito, etc.
  • Sexto, a escola pressupõe que as pessoas não são intrinsecamente inclinadas a aprender e que, portanto, precisam ser obrigadas a fazê-lo, para tanto construindo o processo de aprendizagem em cima de mecanismos artificiais de recompensas e punições que ajam como motivadores externos.
  • Sétimo, o modelo ou paradigma é ainda mais malévolo, pois a atenção da escola concentra-se nos eventuais “pontos fracos” das crianças, tendo em vista o objetivo (que a escola compartilha com a linha de montagem) de que todas as crianças estejam “padronizadas” (e, portanto, sejam intercambiáveis) ao final do processo. Assim, se uma criança gosta de escrever e sabe escrever bem, mas não gosta de matemática ou desenho, nem é muito competente nessas áreas, a escola a obriga a concentrar a atenção nas coisas que ela não gosta de fazer e a deixar de lado os seus interesses.

Esse modelo ou paradigma de educação mata a curiosidade natural das crianças e, em alguns casos, as marca de tal forma que ela fica traumatizada. (Traumas com matemática e com língua materna são comuns).

Como disse atrás, esse modelo ou paradigma de educação que hoje é hegemônico não possui fundamentação teórica ou justificativa séria – pelo contrário, ele contradiz virtualmente tudo o que sabemos sobre o que é que motiva as crianças a aprender e como elas de fato aprendem. Esse modelo ou paradigma foi se infiltrando na escola, e acabou alcançando condição de hegemonia, apenas porque é mais fácil de ser colocado em prática do que as alternativas.

É preciso que pessoas de fora da área pedagógica nos chamem a atenção para esse fato. Eis o que diz Peter Drucker, em As Novas Realidades:

“Instruir — mesmo no alto nível exigido por uma sociedade de trabalhadores intelectuais — é uma tarefa mais fácil do que transmitir aos estudantes o desejo de continuarem aprendendo e as habilidades e conhecimentos que necessitarão para fazê-lo. Até hoje nenhum sistema escolar se dispôs a enfrentar essa tarefa. . . . No entanto, nós sabemos como as pessoas aprendem a aprender: e já o sabemos há dois mil anos. O primeiro e mais sábio autor sobre a educação das crianças, o grande biógrafo e historiador grego Plutarco, explicou isso claramente em seu belo livrinho Paidea (“Formação das Crianças”), no primeiro século da era cristã. Basta tornar os alunos realizadores, basta concentr[ar] nos seus pontos positivos e nos seus talentos a fim de que eles possam se sobressair em tudo o que souberem fazer bem. Qualquer mestre de jovens artistas — músicos, atores, pintores — sabe disso; qualquer instrutor de jovens atletas também. Mas as escolas não o sabem e, ao invés, concentram-se nos pontos fracos e nas deficiências dos alunos. Quando um professor convoca os pais de um garoto de dez anos, ele geralmente começa dizendo: ‘O seu Joãozinho precisa estudar mais a tabuada; ele está muito atrasado’. Raramente o professor dirá: ‘A sua Maria deveria dedicar-se mais à redação para poder fazer melhor o que ela já faz bem’. Os professores — do primário à universidade — tendem a se concentrar mais nas deficiências dos alunos, e por bons motivos: ninguém pode prever o que uma criança de dez anos estará fazendo dez ou quinze anos mais tarde. Nessa fase não é possível sequer eliminar muitas opções. A escola tem que imbuir em seus alunos as habilidades básicas [de] que irão precisar em qualquer caminho que porventura escolham, pois em qualquer um eles terão que saber atuar. Mas um bom desempenho não pode fundamentar-se em deficiências, nem mesmo em deficiências corrigidas: o bom desempenho nasce somente dos pontos positivos, das qualidades, dos talentos. E esses as escolas tradicionalmente ignoram, ou consideram mais ou menos irrelevantes. Aquilo que um aluno tem de bom não é causa de problemas — e todas as escolas estão polarizadas nos problemas. Na sociedade instruída, os professores terão que aprender a dizer: ‘Quero ver o seu Joãozinho, ou a sua Maria, escrevendo muito mais; seu filho tem talento, e esse talento precisa ser desenvolvido e aperfeiçoado.’ . . . As novas tecnologias do ensino tornarão isso possível, além de praticamente forçarem escolas e professores a se concentrar nos pontos fortes e nos talentos dos alunos” [As Novas Realidades (tradução do Inglês de Carlos Afonso Malferrari (Livraria Pioneira Editora, São Paulo, SP, 1989), pp. 203-204].

Freqüentemente nós, educadores, que de certo modo vivemos dentro da escola, perdemos o ângulo de visão e o senso crítico e acabamos por crer que o que se exige são apenas pequenos ajustes aqui e ali, melhores livros didáticos, aparelhos de televisão e video-cassete em casa sala de aula e um laboratório de informática. Mas não, é o modelo ou paradigma de educação que está errado. John Keating, no filme A Sociedade dos Poetas Mortos, conseguiu romper com o modelo ou paradigma mandando os alunos rasgar seus livros didáticos, sair da sala de aula e ir para fora da escola – para aprender poesia – sem usar tecnologia alguma…

Quem está de fora, porém, não deixa de ver o perigo que o modelo ou paradigma de educação que se tornou hegemônico na escola representa para o desenvolvimento das crianças.

Samuel Butler, o grande autor de Erewhon, no século XIX, disse:

“Às vezes fico a imaginar porque é que que a escola não causa mais danos aos jovens, e como é que eles, em geral, acabam crescendo sensatos e bons, apesar das tentativas deliberadas da escola de distorcer e mesmo de impedir seu crescimento. Alguns, naturalmente, não conseguem escapar dos efeitos danosos da escola e sofrem até o fim de suas vidas por isso. Outros, porém, poucos danos parecem sofrer, e alguns até se safam sem dano algum. A resposta parece ser que o instinto natural dos jovens, na maior parte dos casos, se rebela de forma tão absoluta contra o que a escola tenta fazer com eles que, não importa o que tentem os professores, não conseguem que seus alunos os tomem realmente a sério”.

Karl Popper, que cita a passagem de Butler em seu livro A Sociedade Aberta e seus Inimigos, acrescenta:

“Tem se dito, e com muita verdade, que Platão foi o inventor de nossas escolas e universidades. Não conheço melhor argumento para uma visão otimista da humanidade, nem melhor prova de seu amor indestrutível pela verdade e pela decência, de sua originalidade e de sua saúde mental, do que o fato de que essa devastadora instituição não tenha sido capaz de arruiná-la totalmente”.

Comenta, com grande poder de percepção, Marshall McLuhan:

“Platão, em todo seu esforço de imaginar uma escola ideal, deixou de notar que Atenas era uma melhor escola do que qualquer universidade que ele conseguisse inventar” [Understanding Media: The Extensions of Man (McGraw-Hill Book Co., New York, NY, 1964), p.49]

Foi Platão que inventou – mas foi a sociedade industrial que aperfeiçoou. Eis o que diz Alvin Toffler:

“Educação de massa foi a máquina engenhosa construída pela sociedade industrial para produzir o tipo de adulto de que ela necessita, . . . um sistema que, em sua própria estrutura, simulava essa sociedade. O sistema não emergiu instantaneamente. Mesmo hoje ele ainda retém elementos da sociedade pré-industrial. Contudo, a idéia de agrupar grandes massas de estudantes (matéria-prima) para serem processados por professores (trabalhadores) em uma escola centralizada (fábrica) foi uma solução de gênio industrial. Toda a hierarquia administrativa da organização, à medida que foi aparecendo, seguia o modelo da burocracia industrial. A própria organização do conhecimento em disciplinas permanentes foi fundada em pressupostos industriais. As crianças marchavam de lugar em lugar e se assentavam em locais preestabelecidos. O sinal tocava para anunciar a hora de mudanças. A vida interna da escola assim se tornou um espelho antecipatório da sociedade industrial, uma introdução perfeita a ela. As características mais criticadas da educação hoje — sua regimentação, sua falta de individualidade, os sistemas rígidos de disposição física da sala de aula, de agrupamento das crianças por classes e séries, de notas, o papel autoritário do professor — são exatamente as características que fizeram da escola pública de massa um instrumento tão efetivo de adaptação à sociedade industrial.” [Future Shock (Random House / edição encadernada, New York, 1970, e Bantam Books / edição em brochura, New York, 1971), p.400 da edição em brochura; cf. pp.186, 272, 398-427, 447.]

Quanto se propõe que a educação seja orientada para o desenvolvimento de competências, o que se pretende é que o aprendizado escolar se organize não mais em função de conteúdos informacionais a serem transmitidos, mas, sim, em função de competências e habilidades que as crianças devem desenvolver em continuidade com as competências e habilidades que vinham desenvolvendo na vida pré-escolar.

Peter Drucker, no livro já mencionado, aponta a direção:

“Nós sabemos que diferentes pessoas aprendem de maneira diferente; sabemos que, na realidade, o [estilo de] aprendizado é tão pessoal quanto uma impressão digital. Não há duas pessoas que aprendam da mesma maneira. Cada um tem uma velocidade diferente, um ritmo diferente, um grau de atenção diferente. Se lhe for imposto um ritmo, uma velocidade, ou um grau de atenção estranho, haverá pouco ou nenhum aprendizado. Haverá apenas cansaço e resistência. Nós sabemos . . . que pessoas diferentes aprendem matérias diferentes de maneira diferente. A maioria de nós aprendeu a tabuada através da repetição e dos exercícios. Mas os matemáticos não ‘aprendem’ a tabuada: eles a ‘captam’, por assim dizer. Da mesma forma, os músicos não aprendem a ler uma partitura: eles a ‘percebem’. E nenhum atleta nato jamais teve que aprender como pegar uma bola. Algumas coisas de fato têm que ser ensinadas — e não apenas valores, percepções e significados. Um professor é necessário para identificar os pontos fortes do aluno e para direcionar um talento à sua realização. Nem mesmo um Mozart teria se tornado o grande gênio que foi sem seu pai que era um verdadeiro mestre. . . . A nova tecnologia . . . é uma tecnologia de aprendizagem, e não de ensino. . . . Não resta dúvida que grandes mudanças irão ocorrer nas escolas e na educação — a sociedade instruída irá exigi-las e as novas teorias e tecnologias de aprendizagem acabarão por efetivá-las” [pp.212,215].

Mais especificamente, quais seriam essas competências e habilidades?

A título ilustrativo, e sem pretensão de ser exaustivo, listo abaixo um conjunto de habilidades, agrupadas em diversas competências básicas, que me parecem fornecer a base para uma educação orientada para o desenvolvimento de competências e habilidades de crianças e de jovens até por volta dos dezoito anos.

I. Competência na Absorção da Informação

  1. Habilidade de bem utilizar os sentidos e de aprimorar a acuidade dos sentidos (aprender a perceber)
  2. Habilidade de entender e corretamente interpretar a linguagem corporal
  3. Habilidade de entender a linguagem verbal falada e escrita e desenvolvimento da capacidade de ler com compreensão e rapidez

II. Competência na Transmissão da Informação e na Comunicação

  1. Habilidade de se expressar bem em língua materna falada e escrita
  2. Habilidade de se expressar bem em língua estrangeira (em especial, no caso do Brasil, o Inglês e o Espanhol)
  3. Habilidade de se expressar bem através da linguagem não-verbal (especialmente a corporal)

III. Competência no Acesso à Informação

  1. Habilidade de buscar e pesquisar a informação em qualquer dos meios em que esteja armazenada
  2. Habilidade de memorizar a informação essencial e de uso constante
  3. Habilidade de organizar organizar e arquivar a informação e de localizar e recuperar com facilidade e rapidez a informação não memorizada

IV. Competência na Análise da Informação

  1. Habilidade de analisar criticamente e avaliar a informação textual, numérica, estatística, gráfica, sonora, e visual.
  2. Habilidade de raciocinar logicamente.
  3. Habilidade de perceber padrões, conformações, tendências, analogias, sutilezas, ironias, sarcasmos, humor, etc.

V. Competência Epistemológica, Ética e Estética

  1. Habilidade de diferenciar questões que envolvem o verdadeiro, o bom (certo) e o belo e de discernir critérios que adequadamente o verdadeiro do falso, o bom (certo) do mau (errado) e o belo do feio
  2. Habilidade de aplicar esses critérios no dia-a-dia e de agir e viver coerentemente com os seus princípios
  3. Habilidade de, a despeito dos desincentivos, apreciar o verdadeiro, o bom (certo) e o belo

VI. Competência na Compreensão

  1. Habilidade de compreender o funcionamento do mundo físico
  2. Habilidade de compreender o comportamento de seres vivos
  3. Habilidade de compreender o ser humano, no plano individual e social
  4. Habilidade de compreender as manifestações culturais do ser humano
  5. Habilidade de compreender o poder transformador dos sonhos e das utopias

VI. Competência no Relacionamento Interpessoal

  1. Habilidade de se relacionar bem com as pessoas
  2. Habilidade de negociar, de administrar pressões e de gerenciar conflitos
  3. Habilidade de controlar as emoções, gerenciar tensões e reduzir stress

VII. Competência no Plano Pessoal

  1. Habilidade de decidir com base em princípios e de agir, no momento oportuno, de acordo com as decisões tomadas
  2. Habilidade de solucionar problemas
  3. Habilidade de gerenciar mudanças

VIII. Competência no Gerenciamento de Longo Prazo da Vida

  1. Habilidade de planejar projetos de vida e as estratégias para alcançá-los
  2. Habilidade de administrar o tempo (distinguir o importante do urgente, e ambos do não-importante e/ou não-urgente, e priorizar as atividades)
  3. Habilidade de reconhecer os erros e de aprender com eles
  4. Habilidade de, quando convencido da justeza do curso de ação traçado, persistir nele, mesmo na face de adversidades

O que se propõe aqui é, de certo modo, um MBA em miniatura. Executivos hoje pagam mais de 50 mil dólares para desenvolver essas competências – porque a escola se dedica a obrigar os alunos a memorizar as listas dos faraós do Egito, os afluentes da margem esquerda do Amazonas, a tabela dos elementos.

Como é que se desenvolvem essas competências e essas habilidades?

É aqui que entra a noção de currículo – mas não um currículo centrado em disciplinas, como os que nos são familiares, mas, sim, um currículo centrado em problemas cuja resolução pode ser buscada através de projetos de interesse dos alunos.

É bastante evidente que as competências e habilidades listadas atrás podem ser desenvolvidas em projetos os mais variados que buscam soluções para problemas os mais diversos. Mas esses projetos não podem se restringir a atividades que se desenvolvem dentro das disciplinas tradicionais. Para que tenham impacto, é preciso que sejam interdisciplinares e que se relacionem com questões que sejam de interesse dos alunos.

Para que o desenvolvimento das competências e habilidades se dê de forma prazerosa e não impositiva, é indispensável que os projetos e, dentro deles, as atividades selecionados para promovê-las, estejam estreitamente relacionados com os interesses dos alunos.

Os chamados Temas Transversais que o Ministério da Educação vem procurando promover através dos Parâmetros Curriculares Nacionais são, na realidade, conjuntos de problemas, em geral de interesse de todos (sexo, droga, violência, saúde, consumo, etc.), que poderão eventualmente servir como novo eixo de ordenamento do currículo, que substituirá, tardiamente, o eixo disciplinar.

Nesse contexto, o professor deve agir, menos como especialista em conteúdo, e mais como pessoa de apoio que, não importa qual seja os interesses dos alunos, saiba relacionar esses interesses com o desenvolvimento de competências e habilidades como as descritas e saiba, sempre que necessário, fazer referência a conteúdos informacionais que possam ajudar no desenvolvimento do projeto.

Os conteúdos informacionais, assim situados, deixam de ser o objeto central da ação educacional e passam a ser instrumentos que podem ajudar no processo de solução de problemas que, por seu turno, levará ao desenvolvimento de competências e habilidades que, este sim, será o objeto final da ação educacional.

NOTA FINAL DO AUTOR:

Este texto foi escrito em 2000, como provocação para uma “Experiência de Aprendizagem Colaborativa” (EAC) que desenvolvi no Instituto Ayrton Senna. Ele foi o primeiro texto em que eu me revoltei frontalmente contra o currículo convencional, organizado na forma de uma grade de disciplinas acadêmicas divididas em séries ou doses homeopáticas de conhecimento a ser transmitido aos alunos.

Como escrevi, e continuo escrevendo, muito sobre esse assunto nos anos que se seguiram, acabei abandonando este texto na “cesta” do esquecimento…

Em, 8.3.2013, a pedido de uma amiga no Facebook, Beloni Cacique Braga, de Uberlândia, MG, fui procurar o original do texto. A Beloni encontrou uma citação de parte dele em um site (http://cefaprotga.blogspot.com.br/2008/03/competncias-e-habilidades.html) e me perguntou se o texto era meu mesmo e se eu tinha o texto completo, pois ela gostaria de lê-lo.

[NOTA de 8.3.2013 e 20.8.2023: O link acima está funcionando nesta data.]

Fui procurá-lo. De 2000 até hoje usei pelo menos uns dez notebooks diferentes e uns trinta discos rígidos externos para backup. Vários dos meus sites na Internet estão atualmente fora do ar, porque mudei de provedor e de tecnologia e não tive tempo ainda de reconstituir meus sites no novo provedor e com a nova tecnologia.

Assim, fui procurar na Internet, e achei o texto inteirinho, com os devidos créditos, em

http://www.serprofessoruniversitario.pro.br/módulos/ensino-e-aprendizagem/novas-formas-de-ensinar-e-aprender-“educação-orientada-para-competênci#.UTnN7qXxFDQ

[NOTA DE 8.3.2013: O estranho fim do link é esse mesmo. Verificado nesta data o link funcionou.]

[NOTA DE 20.8.2023: O link acima não está funcionando mais. Nem mesmo a sua primeira parte (http://www.serprofessoruniversitario.pro.br) funciona mais. Em qualquer dois casos, a tentativa de acesso gera a seguinte mensagem de erro: “Error establishing a database connection”.]

Li o texto [em 8.3.2013], e é o meu texto, mesmo. Copiei-o para colocar neste blog, corrigindo apenas uns dois errinhos de digitação.

O site “Ser Professor Universitário” esclareceu [e, 8.3.2013] que pegou o texto de:

http://infoutil.org/paideia/textos/TextoNovasFormasdeEnsinareAprender.htm

Este site “InfoÚtil” é meu, mesmo… Mas, neste momento, ele está fora do ar.

Devo esclarecer que endosso, ainda, todo o texto, apesar da passagem do tempo (de cerca de treze anos. [Em 8.3/2013]).

Só gostaria de observar que minha lista de competências e habilidades vem sendo aprimorada ao longo dos anos. Mas o que houve foi sua reorganização, com talvez um agrupamento de duas ou mais aqui ou ali, e o acréscimo de uma ou outra acolá. Considero todas as competências e habilidades listadas importantes, umas mais do que as outras, dependendo do contexto e do projeto de vida de quem se propõe a desenvolvê-las.

Texto transcrito aqui neste blog Liberal Space em São Paulo, 8.3.2013 de Março de 2013 (Dia Internacional da Mulher. Homenageio a minha).

[Pequena revisão do texto feita em Salto, 22.1.22].

[Outra pequena revisão do texto feita em Salto, 20.8.23].

[NOTA DE 20.8.2023] O texto vai fazer, em poucos dias, a contar da última data, 23 anos e meio de idade. Não creio que tenha envelhecido e se desatualizado nesses anos — embora possa e deva ser complementado, hoje, com discussões de Deschooling e Unschooling. Note-se e registre-se que, em minha opinião, Home Schooling não vai mudar grande coisa, SE for mantido o modelo e o paradigma de educação que usamos em Schooling (School Schooling).]

“Sexting”– ou o envio de torpedo sexy

Quando a gente pensa que já viu tudo, inventa-se uma nova moda… Raramente é algo de bom.

Transcrevo a seguir artigo publicado em The New York Times de hoje, traduzido pela Folha de S. Paulo.

“Sexting” (variante de “Texting”, em Inglês, termo usado para SMS) é o envio de um torpedo sexy – que em geral começa com um(a) adolescente tirando uma foto sexy de si próprio(a), em regra para o envio para o(a) namorado(a), e termina com o recipiente da foto a reenviando para a Internet, quando o namoro termina.

A coisa corre risco de se tornar uma epidemia. Como lidar com isso de forma efetiva?

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http://www1.folha.uol.com.br/fsp/newyorktimes/ny1104201105.htm

The New York Times

Torpedo ‘sexy’ se espalha

Por JAN HOFFMAN

LACEY, Washington – Um dia no último inverno, Margarite posou nua diante do espelho do seu banheiro, segurando o telefone celular e tirou uma foto. Depois, mandou a foto frontal de corpo inteiro para Isaiah, seu novo namorado.

Os dois estavam na oitava série.

Logo depois, eles romperam. Algumas semanas mais tarde, Isaiah enviou a foto para outra garota da oitava série, que fora amiga de Margarite. Por volta das 11 da noite, essa garota acrescentou à foto uma mensagem de texto.

“Alerta máximo!”, ela digitou.”Se você acha que esta garota é uma p…, envie esta mensagem para todos os seus amigos.” Em menos de 24 horas, centenas ou talvez milhares de estudantes tinham recebido e passado adiante a foto.

Em pouco tempo, os estudantes estavam algemados e humilhados, os pais arrasados, e lições foram aprendidas a um duro custo. Somente então, a comunidade tentaria transformar o vexame em uma oportunidade para educar.

Autoridades policiais e educadores americanos enfrentam o dilema de reprimir os menores que praticam sexting -o envio de fotos, vídeos ou textos sensuais de um celular para outro.

Para os adolescentes, que têm fácil acesso à tecnologia e estão crescendo em uma cultura que celebra a exibição do corpo, sexting é uma brincadeira simples e até interessante: o principal motivo pelos quais os adolescentes fazem isso é parecer modernos e sensuais para alguém que acham atraente.

“Ter uma foto nua de sua pessoa significativa no celular é uma publicidade de que você é sexualmente ativo em um grau que lhe dá status”, disse Rick Peters, um vice-promotor do condado de Thurston, que inclui Lacey.

Sexting não é ilegal. Mas quando essa imagem sexualmente explícita inclui um participante menor de 18 anos, as leis de pornografia infantil são aplicáveis.

“Eu não sabia que estava contra a lei”, disse Isaiah, que foi preso junto com a ex-amiga de Margarite e uma garota de 13 anos que participou da propagação da foto nua. Eles foram acusados de disseminação de pornografia infantil, o que pode resultar em 36 semanas de detenção em um centro juvenil. Eles seriam fichados como agressores sexuais.

O mundo adolescente contemporâneo em muitos países desenvolvidos está mergulhado em mensagens altamente sexualizadas. A pornografia extrema é facilmente encontrada na internet. Canções e vídeos musicais de sucesso promovem strip-tease e sexting.

“Você não pode esperar que os adolescentes não façam algo que eles veem acontecer em toda parte”, disse Susannah Stern, professora associada da Universidade de San Diego que escreve sobre adolescência e tecnologia.

Uma pesquisa na internet realizada para a Associated Press e para a MTV pela Knowledge Networks em setembro de 2009 indicou que 24% dos jovens de 14 anos a 17 anos nos Estados Unidos haviam se envolvido em algum tipo de sexting. Uma pesquisa por telefone, feita em dezembro de 2009, para o “Projeto sobre Vida Americana e Internet”, do Centro de Pesquisas Pew, descobriu que 5% dos jovens nessa faixa etária tinham enviado fotos ou vídeos deles nus ou seminus. Meninos e meninas enviam fotos aproximadamente na mesma proporção, segundo a pesquisa.

Mas existe um duplo critério. Enquanto um menino apanhado mandando uma foto de si mesmo pode ser considerado um fanfarrão, as meninas, independentemente de sua gabolice, são punidas como “piranhas”.

Fotos de meninas tendem a se tornar virais com maior frequência, porque meninos e meninas fazem circular fotos de meninas em parte para envergonhá-las, explicou Danah Boyd, uma bolsista no “Centro Berkman para Internet e Sociedade” da Universidade Harvard.

Muitos distritos escolares americanos proibiram o sexting e hoje autorizam os diretores na verificação dos telefones celulares dos alunos. Pelo menos 26 Estados tentaram aprovar algum tipo de legislação sobre o fenômeno desde 2009.

“Precisamos proteger as crianças de si mesmas”, disse Justin Fitzsimmons, advogado da Associação Nacional de Advogados Distritais em Alexandria. “Estamos no momento de lhes ensinar a administrar reputações eletrônicas.”

Peters, o promotor no caso Margarite, jamais pretendeu que os estudantes presos recebessem sentenças draconianas. Mas ele queria lhes mandar uma mensagem forte.

Afinal, foi feito um acordo para os três adolescentes. A ofensa seria modificada de pornografia infantil para um caso grave de assédio telefônico. Isaiah e as duas meninas poderiam prestar serviço comunitário em um programa que os livraria do julgamento, e o caso seria arquivado.

Esses três estudantes teriam de criar material de serviço público sobre os males do sexting, frequentar uma sessão com Margarite para falar sobre o que aconteceu e de outro modo não ter contato com ela.

Margarite estava morando com seu pai, Dan, engenheiro industrial, quando enviou a foto. Na mediação, ele foi o último a falar. “Eu poderia dizer que foi culpa de todo mundo, mas certamente tive uma participação”, disse. “Aprendi uma grande lição sobre minha falta de envolvimento com o uso do telefone e das mensagens por minha filha. Confiei demais nela.”

A foto certamente ainda existe em telefones e talvez em redes sociais, facilmente encontrável. “Ela terá de viver com isso pelo resto da vida”, disse o pai.

Em outubro, as autoridades realizaram fóruns sobre sexting para os professores, pais e estudantes das quatro escolas secundárias de Lacey.

Margarite foi morar com sua mãe, mas, semanas depois de se transferir para escola próxima, foi reconhecida por um menino que tinha a foto em seu celular. As garotas passaram a agredi-la: “prostituta”, “piranha”.

Em janeiro, quase um ano depois de sua foto se tornar viral, ela decidiu voltar para a antiga escola, onde imaginou que tivesse alguns amigos. Como é estar na antiga escola com a ex-amiga que divulgou sua foto?

“Antes de voltar, telefonei para ela”, disse Margarite. “Eu queria garantir que o drama estava terminado entre nós. Ela disse: nós temos autorização legal para conversar? E eu disse que devíamos conversar porque temos matemática juntas. Ela pediu desculpas mais uma vez.”

Que conselho Margarite daria a alguém que pensa em mandar uma foto dessas?

“Acho que se elas querem mandar uma foto”, ela respondeu, rindo nervosamente, “e têm a sensação de que não sabem se devem fazer isso, então não façam. O que elas estão pensando? É totalmente idiota!”

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Em São Paulo, 11 de Abril de 2011