O "Liberalismo" e a "Justiça" de John Rawls

John Rawls é considerado por muitos o grande expoente do liberalismo atual e um grande defensor da justiça. Na verdade, tem dois livros famosos, um sobre justiça e outro sobre liberalismo.  

Mas a verdade é que nem Rawls é liberal (no sentido clássico), nem a justiça que ele propõe é justiça (no sentido clássico). Ele inova, propondo sentidos novos para os conceitos de liberdade e de justiça. Em suma: Rawls é, na minha opinião, uma fraude (do ponto de vista do Liberalismo Clássico e da Teoria Clássica da Justiça).

Rawls só pode ser chamado de liberal no sentido que os americanos dão ao termo, sentido esse que é oposto ao sentido original do termo “liberal”. Liberal, no sentido americano, é quem é social-democrata, na fala comum. Esse “liberal americano”, ou social-democrata, chegando perto de socialista, reinterpreta o conceito básico doo Liberalismo, que é o conceito de Liberdade. Para ele, a Liberdade não deve ser interpretada apenas em um sentido negativo, como ausência de coação para fazer ou deixar de fazer algo: ela deve incluir, também, um sentido positivo, que envolve dar condições de toda ordem ao indivíduo para que ele possa efetivamente vir a exercer e desfrutar sua liberdade. 

Quanto à suposta justiça que Rawls defende, basta dizer que, para expressar o que ele pensa é suficiente enunciar uma tese dele, a saber, que as únicas desigualdades que podem ser consideradas justas e justificadas são aquelas das quais podemos esperar que operem em benefício daqueles que estão em situação pior. As desigualdades que beneficiam os que estão em situação melhor são, segundo ele, injustas e injustificadas – ainda que elas sejam decorrentes do mérito (capacidade + esforço) dessas pessoas.

“A pessoa talentosa”, diz Rawls, “não fez por merecer (‘earned’) nada, seja lá quem ela for: ela só pode se beneficiar de sua sorte (‘fortune’) se vier também a beneficiar aqueles que saíram perdendo”.

Que uns nasçam com talentos e outros não, ou que uns nasçam com muitos talentos, e outros com poucos, parece ser, para Rawls, uma “injustiça natural”, que teria de ser compensada por uma “justiça social“, que inverte os benefícios naturalmente concedidos. Segundo essa justiça social, quem é talentoso (tem habilidades) e competente (além da posse das habilidades, é motivado e se esforça) não tem direito aos frutos de seu talento e de sua competência: só os sem talento e incompetentes é que têm direito aos frutos dos talentos dos competentes. Os sem talento e incompetentes devem se beneficiar daquilo que não conseguem alcançar, mas os talentosos e competentes são privados dos benefícios até mesmo daquilo que conseguem realizar.

Rawls nega à pessoa talentosa e competente o direito de se beneficiar de seus talentos e competências: dela vêm as habilidades e o esforço, mas os frutos dessa habilidade irão para os outros, em atendimento às suas necessidades…  

Isso não é justiça: é travesti de justiça.

Para se ter idéia das deturpações que uma tese como essa gera, basta lembrar dois fatos:

a) Na década de 70 um ganhador do Prêmio Nobel em Economia, Jan Tinbergen, da Holanda, propôs, numa conferência internacional em Nova York, que se criasse “um imposto sobre a capacidade pessoal dos indivíduos“;

b) Em artigo publicado no New York Times de 20/1/73, sob o título de “A Nova Desigualdade”, Peregrine Worsthorne declara que, da mesma forma que considerávamos injusto que alguém recebesse um maior quinhão de riquezas apenas porque era filho de um nobre, devemos também considerar injusto que alguém, hoje, receba um maior quinhão de riquezas por ter nascido com maior capacidade, ou ter desenvolvido melhor suas capacidades, ou por ter mais motivação ou ter nascido em ambiente propício.

É isso.

O conceito clássico (e verdadeiramente liberal) de justiça é aquele, segundo o qual justo é cada um poder receber e manter aquilo a que ele fez jus, aquilo que lhe é de direito (de jure) — e, portanto, aquilo que lhe é devido. 

Qualquer coisa diferente é “newspeak“, é tentativa de usar o próprio conceito de justiça para tentar justificar o injusto — no fundo, a expropriação e o roubo (ainda que por meios legais).

Em Campinas, 15 de maio de 2005

Mercado, mercadorias e a distribuição de riquezas

1) O Mercado

O que chamamos de mercado é uma abstração. O termo "mercado" é simplesmente uma forma conveniente de se referir ao conjunto de nossas relações de venda-e-compra e de troca de bens e serviços. Ninguém que viva em sociedade está fora do mercado: sempre pode vender, querendo, pelo menos o seu serviço.

Assim, o mercado (como disse na mensagem "O valor do trabalho – 2) somos todos nós que vendemos, compramos, ou trocamos bens e serviços. O mercado é você, quando você contrata uma empregada doméstica, ou uma diarista, ou alguém para cortar a grama do seu jardim ou limpar a fossa de sua casa. O mercado é você quando você compra comida e roupa (em vez de fabricá-las, a partir do zero). O mercado é você quando compra gêneros alimentícios ou tecidos para fabricar sua comida e roupa. O mercado é você, quando compra jornal, revista, livro, disco. O mercado é você, quando você assiste a um filme, a uma peça de teatro, a um concerto (ainda que gratuitamente, sem pagar nada). O mercado é você, quando você coloca os seus filhos na escola, mesmo que a escola seja pública (as pessoas, no Brasil, ainda podem optar por colocar os filhos na escola particular ou na pública — é uma opção). O mercado é você, quando você vende o seu trabalho em troca de dinheiro que lhe permite comprar outros bens e serviços de que você precisa ou que você quer e não tem condições de produzir — ou porque não saiba ou não possa, ou porque não queira, pois tem outras coisas mais prioritárias para fazer.

Quando falamos em "salário de mercado" não estamos nos referindo a uma entidade abstrata e misteriosa que, de forma totalmente desconhecida da nós, fixa o nosso salário. O "salário de mercado" é o salário médio que as pessoas e organizações estão dispostas a pagar por algum tipo de trabalho. A nossa relação com nosso empregador é tal que podemos recusar o salário que ele oferece e buscar outro empregador que nos pague o que achamos que valemos (no sentido subjetivo do termo "valer"). Sempre podemos trabalhar como autônomos. Ou, então, podemos abrir um negócio que vá até mesmo envolver a contratação, por nós, de empregados, em cujo caso nosso papel no mercado se inverte, de vendedor de trabalho para contratador de trabalho alheio. O clamor (totalmente justificado) que hoje há contra o trabalho dito escravo é um reconhecimento de que, em 99% dos casos, num país como o nosso, o trabalho não é escravo e decorre de um relacionamento livre (muitas vezes regido por contrato) entre as partes — dos quais sempre podemos sair com relativa facilidade.

2) Mercadorias

A pessoas que acham que determinadas atividades humanas, como a educação, "têm significado que transcende o mercado" [expressão de Axel de Ferran], e, portanto, não deveria estar submetida às leis do mercado, ou, como se diz hoje em dia, ser tratada como mercadoria ("commodity").

Discordo dessa tese.

Contra-argumento dizendo que também a arte, em suas diversas manifestações, "tem significado que transcende o mercado" — mas nem por isso se vê gente argumentando que a arte não seja também mercadoria, não se venda e compre como mercadoria, como "commodity". Muito menos há gente defendendo uma "arte pública" — e ninguém, que eu saiba, defende o monopólio da arte pelo Estado, dado o fato de que seu significado transcende o mercado…

O mesmo, a meu ver, vale para a educação. O significado e a importância da educação de certo transcendem o mercado. Mas isso não quer dizer que serviços educacionais não podem ser vendidos e comprados, ou que a educação não seja uma mercadoria ou "commodity" como qualquer outra, vendida e comprada em escolas, em livros, em fitas ou discos, ou na Internet.

A falácia, em ambos os casos, está em concluir, da premissa de que "x tem significado que transcende o mercado", a conclusão de que "logo, x não pode ser tratado como mercadoria". Isso é uma falácia porque comete um non
sequitur: uma coisa não segue da outra.

3) A distribuição de riquezas

Há quem diga que o mercado não distribui riquezas — que, para isso, precisaríamos de uma entidade que fica acima do mercado, como o Governo.

O mercado, quando livre, não só permite a geração de riquezas — isso é reconhecido hoje até por socialistas e comunistas, que ainda existem por aí, disfarçados — mas efetua a sua distribuição, fazendo-o pelo critério mais justo possível disponível, o mérito. O mercado não distribui a riqueza igualitariamente nem pelo critério da necessidade, como o quer a esquerda.

Quem adota o critério do mérito como o único critério justo de distribuição de riquezas adota um princípio como este: "De cada um, segundo a sua habilidade e na justa medida de seu desejo e interesse, e a cada um, segundo o que ele merece e faz jus, por sua participação no processo produtivo".

Quem adota esse princípio certamente rejeita o princípio "de cada um segundo a sua habilidade, e a cada um uma quota igual das riquezas produzidas", ou, alternativamente, "de cada um segundo a sua habilidade, e a cada um segundo a sua necessidade".

Esses dois princípios envolvem, não uma distribuição de riquezas, mas, sim, uma tentativa de REdistribuição das riquezas produzidas por alguns para que elas venham a beneficiar aqueles que não participaram de sua produção, ou em quotas superiores à proporção de sua participação.

Na verdade, esses dois princípios, ao reconhecerem que cada um deve contribuir para a riqueza total "segundo a sua habilidade", pressupõe que há diferenças de habilidades nos vários participantes, que uns vão gerar mais riquezas do que outros. É por isso que, hoje, o socialismo e o comunismo reconhecem que o livre mercado é a única forma eficaz e eficiente de gerar ou produzir riquezas. O que o socialismo e o comunismo pretendem — e, nesse aspecto, até mesmo a social-democracia — é que as riquezas geradas não sejam distribuídas pelo mérito, mas, sim, ou em quotas iguais, ou com base na necessidade das pessoas, não em sua participação no processo produtivo de riquezas — e que eles, socialistas, comunistas, ou social-democratas, sejam os distribuidores, agindo como procuradores da população em geral, ou dos necessitados…

Ludwig von Mises uma vez destacou que na distribuição da riqueza feita pelo mercado, nós todos votamos, trocando o nosso dinheiro por bens e serviços (mercadorias) e, assim, fazendo a riqueza dos que os fornecem. Essa forma de distribuição tem o grande mérito adicional de envolver um grande número de participantes, sendo, portanto, bem mais democrática do que a redistribuição de riquezas que a esquerda pretende, em que só votam uns poucos legisladores, ou, muitas vezes, apenas os autores de Medidas Provisórias.

Em Campinas, 15 de maio de 2005

O valor do trabalho (II)

Observa a Cristina Almeida (em discussão na minha lista "LivreMente"): 

"Eu continuo a pensar no valor do trabalho… no valor do trabalho dos professores. É o mercado quem dever ‘taxar’ o valor do trabalho do professor?"

Vou procurar tornar a discussão um pouco mais complexa.

Como procurei deixar claro na minha mensagem "O Valor do Trabalho", há um certo sentido do termo "valor", que chamo de subjetivo, que independe do valor (objetivo) econômico ou financeiro desse trabalho (isto é, do que se paga por ele, caso ele esteja sendo feito num contexto salarial).

Posso escolher a profissão de professor, digamos, por causa desse valor, que não é econômico e muito menos financeiro: posso gostar de ensinar, posso gostar de estar perto de crianças, posso achar que ensinar é a profissão mais importante na Terra, posso achar que fui chamado por Deus (vocacionado) para fazer isso, independentemente do retorno financeiro, etc.

No caso do professor universitário, e falando pessoalmente, minha principal razão para escolher a profissão, já lá se vão 35 anos, foi um valor subjetivo, não econômico: o grande controle sobre o meu tempo que ela me proporciona e a conseqüente liberdade de (entre outras coisas) ficar discutindo essas coisas aqui no meu tempo de trabalho (que não é o caso desta mensagem específica: são 7h da manhã de domingo e estou aqui desde às 5h30m — "aqui" sendo o meu computador e a Internet…).

Se formos falar no "valor do trabalho" nesse sentido de "valor subjetivo", nossa discussão vai se enveredar por caminhos totalmente diversos. Vamos estar falando de sentido de missão ou vocação, de realização pessoal, etc. Vamos estar discutindo o fato de que há muita gente que trabalha, voluntariamente, virtualmente de graça. Religiosos, em geral, pelo menos os mais tradicionais, trabalham em troca de muito pouco. Venho de uma família de pastor, e sei bem o que é isso. O religioso trabalha porque acredita no que faz, e não trabalha para ganhar dinheiro — embora precise de algum para se manter (e, no caso dos não celibatários, aos seus). Na verdade, a gente que literalmente paga para trabalhar.

O sentido de valor que discuti na seqüência do artigo sobre o Wal-Mart, tem que ver com outro tipo de valor, o chamado "valor econômico" — ou até mesmo financeiro. Tem que ver, em última instância, com remuneração, com salário.
E foi em relação a esse tipo de valor que disse que não há um critério absoluto que permita determinar quando vale, em dinheiro, o seu ou o meu trabalho para terceiros. Nosso trabalho vale o que alguém está disposto a pagar por ele.

O mercado não "taxa" o nosso salário. Na verdade, como já disse, o mercado é uma abstração. O mercado somos nós todos que compramos, vendemos, trocamos bens e serviços. O mercado é você, quando você contrata uma empregada doméstica ou uma diarista ou alguém para cortar a grama do seu jardim ou limpar a fossa de sua casa. O mercado é você quando você compra comida, roupa, livro, disco, etc. O mercado é você quando você assiste a um filme, a uma peça de teatro, a um concerto. O mercado é você quando coloca os seus filhos na escola, mesmo que a escola seja pública (as pessoas, no Brasil, ainda podem optar por colocar os filhos na escola particular ou na pública — é uma opção). O mercado é você, quando você vende o seu trabalho em troca de dinheiro que lhe permite comprar outros bens e serviços de que você precisa ou que você quer e não tem condições de produzir.

Assim sendo, o mercado não "taxa" o nosso salário: caso sejamos assalariados, ele, o mercado (i.e., alguém) nos paga o nosso salário. A nossa relação com nosso empregador é tal que podemos recusar o salário que ele oferece e buscar alguém mais que nos pague o que achamos que valemos. Ou podemos trabalhar como autônomos. Ou abrir um negócio que vá até mesmo envolver a contratação de funcionários, invertendo o nosso papel. O clamor que hoje há contra o trabalho dito escravo é um reconhecimento de que, em 99% dos casos, num país como o nosso, o trabalho não é escravo e decorre de um relacionamento livre (muitas vezes regido por contrato) entre as partes — dos quais sempre podemos sair com relativa facilidade.

A tese do Thomas Sowell, que eu totalmente endosso, é de que não basta que alguém tenha dinheiro para nos pagar mais para que concluamos que, logo, esse alguém deve nos pagar mais.

Essa tese, que causa revolta em alguns, é, tenho certeza, endossada por todos nós na prática. Duvido que qualquer um de nós paguemos às nossas empregadas domésticas tudo aquilo que podemos pagar — aquilo que elas, no sentido subjetivo do termo, valem para si mesmas (ou até mesmo para nós). Nós pagamos, em geral, o preço médio que o mercado (isto é, as outras pessoas) estão dispostas a pagar. Se pagarmos muito menos, correremos o risco de perder a empregada. Se pagarmos muito mais, estaremos perdendo dinheiro, porque poderíamos arrumar outra empregada, que faria a mesma coisa, por um salário menor.

Espero que a questão tenha ficado mais clara agora.

Há um artigo curioso do Diogo Mainardi na VEJA do dia 18 explicando porque ele não faz palestras… Tem relação com o que está sendo discutido aqui.

Em Campinas, 15 de maio de 2005

O valor do trabalho (I)

O artigo de Thomas Sowell que eu transcrevi na mensagem anterior levanta uma questão interessante, que é relevante especialmente para professores, que talvez formem a categoria que mais se considera injustamente mal remunerada neste país.

a) Quanto vale, na média, o trabalho de uma determinada categoria profissional, em reais ou dólares (digamos, o trabalho de professores de educação básica)?

b) E quanto vale, na média, o trabalho de diferentes categorias profissionais, relativamente umas às outras (o trabalho de professores de educação básica, por exemplo, vis-à-vis o trabalho de, novamente por exemplo, empregadas domésticas e jogadores de futebol)?

Em relação à primeira questão, a resposta de um liberal, que defende a economia de mercado, como eu, seria forçosamente a de que não há forma de aferir, para um determinado contexto, quando vale, intrinsecamente, o trabalho de uma categoria profissional ou de um profissional específico. O trabalho de uma categoria profissional ou de um profissional específico vale aquilo que o mercado está disposto a pagar por ele. Ponto final.

Eu posso estar subjetivamente convencido de que uma palestra que eu ministro vale 50 mil dólares (como a de Alvin Toffler ou de Daniel Goleman), dado o seu conteúdo original e importante, dada a forma atraente com que eu a apresento, etc. Mas se eu, diferentemente de Toffler e de Goleman, não consigo encontrar ninguém que esteja disposto a pagar esse montante pela minha palestra, e o máximo que eu consigo receber por uma palestra é cerca de 5% dessa valor, não há como eu possa argumentar, para os que se dispõem a pagar-me 2.500 dólares, que eles estão tentando me explorar, ou que eu estarei sendo mal pago se aceitar esse valor, que representa apenas 5% do que eu acho que a minha palestra realmente vale. Minha palestra vale aquilo que o mercado está disposto a pagar por ela.

No caso de professores de educação básica, que se consideram, em regra, extremamente mal pagos, injustiçados, explorados, a única resposta que se pode dar a eles, como Sowell claramente indica, é: pois bem, encontrem alguma escola disposta a lhes pagar mais, e vocês não vão se sentir mais tão mal assim… Se encontrarem, terão mostrado que seu emprego anterior lhes pagava menos do que valiam. Se não encontrarem, terão de aceitar o fato de que seu trabalho não vale mais do que a sociedade (o mercado) está disposta a lhes pagar aqui neste país. Assunto encerrado.

Mas, em relação agora à segunda pergunta, é possível comparar o valor do trabalho de uma categoria profissional em relação ao valor do trabalho de outra?

Apesar de professores, em regra, acharem que seu trabalho é muito mais importante do que o trabalho de empregadas domésticas ou jogadores de futebol, e, portanto, deve valer mais no mercado, o mercado nem sempre está de acordo — especialmente no caso de jogadores de futebol. Embora possa parecer incrível aos professores, o mercado está disposto a pagar dezenas de milhares de dólares por mês para um bom jogador de futebol, e não está disposto a pagar mil dólares mensais para um bom professor de primeira a quarta-série da Educação Fundamental.

Por que se dá isso? Em geral porque quem está disposto a pagar, digamos, 50 mil dólares por mês para um jogador (ou um técnico) de futebol, espera ganhar mais do que isso com a presença do jogador (ou do técnico) no time. Se o jogador é realmente bom, vai atrair público aos estádios, vai atrair patrocínio da televisão ou outras formas de endosso, vai ajudar a melhorar a reputação do time e isso vai, a médio e longo prazo, representar ainda melhores retornos. É verdade que tudo isso é expectativa, e os fatos podem desmenti-las. Mas a expectativa existe, e é ela que justifica o pagamento do alto salário.

No caso de professores, é raro que uma escola tenha expectativa de maiores ganhos com a contratação de um professor. Além disso, há, entre os professores, sacramentada por sindicatos da categoria, uma certa presunção de que um professor de uma determinada série ou ciclo não deve ganhar mais do que os outros — e isso tende a nivelar por baixo o salário dos professores. (Essa presunção vale até mesmo no Ensino Superior).

Há outras razões subsidiárias: a carreira de um jogador de futebol é curta — e a de um técnico, precária e arriscada… A de um professor, pelo contrário, pode ser longa, e espera-se até mesmo que ele melhore quanto mais velho fique…

Um professor pode até entender isso: afinal de contas, um bom jogador de futebol tem cerca de 10-15 anos de carreira e consegue levar milhares de pessoas aos estádios… O que ele vai ter dificuldade de entender é porque empregadas domésticas, que exercem uma função razoavelmente não qualificada, chegam a ganhar, em algumas regiões do país, bem mais do que professores ganham em outras. E babás especializadas não raram ganham mais na mesma região.

As considerações feitas por Thomas Sowell no caso dos empregados da Wal-Mart valem aqui. Ninguém está preso pela vida inteira a um determinado emprego. Se não está contente com o salário, e acha que pode ganhar mais em algum outro lugar, está livre para buscar melhores condições de trabalho. Se acha que não vai conseguir ganhar mais fazendo o mesmo trabalho, que melhore as suas qualificações e procure um tipo diferente de trabalho.

O importante é reconhecer que não há uma forma de medir o valor de um determinado trabalho de forma absoluta. O valor de um trabalho é sempre relativo à necessidade que o mercado tem daquele trabalho. Quanto existem poucos médicos, o trabalho de um médico vale mais… Se o mercado está com oferta excessiva de advogados, o trabalho de um advogado vai valer menos…

Há estados nos Estados Unidos em que professores de educação básica ganham menos do que lixeiros. Neles, não há muita gente disposta a trabalhar como lixeiro. Logo, ou se paga melhor os lixeiros, ou não haverá ninguém para coletar o lixo (com conseqüências desastrosas para a saúde e o bem-estar da populacão e para o meio ambiente). Por outro lado, a função do professor tem ainda um atrativo que independe do salário e que é difícil de explicar. Mas é esse atrativo que faz com que grandes quantidades de pessoas se disponham a ir para o magistério, mesmo com o valor relativamente baixo que esse trabalho tem no mercado. E, quando professor faz greve, a sociedade em geral não se molesta.

Em Campinas, 14 de maio de 2005

Deve a Wal-Mart pagar mais aos seus empregados?

Traduzi e transcrevo a seguir (em tradução e no original) um artigo de Thomas Sowell divulgado no site www.CapMag.com no dia de hoje.

Em São Paulo, 9 de Maio de 2005

============

A Cruzada contra a cadeia de lojas Wal-Mart

Thomas Sowell (9 de Maio de 2005 – [www.CapMag.com])

A mais recente cruzada da esquerda é contra a cadeia de lojas Wal-Mart.

Uma grande manchete num longo artigo no New York Times pergunta: "Será que um gigante do varejo não pode pagar mais?"

É claro que a Wal-Mart pode pagar mais. Também o New York Time pode pagar mais aos seus empregados. Todos nós podemos pagar mais pelo que compramos ou alugamos. Não me diga que você não pode pagar dez centavos a mais por este jornal. A questão é: por que deveria qualquer um de nós pagar mais do que temos de pagar?

Segundo o New York Times, há um livro escrito "por um grupo de investigadores", que deve ser publicado no Outono, em que se argumenta que a Wal-Mart tem "obrigação" de "tratar seus empregados melhor".

Uma informação dessas dificilmente pode ser chamada de notícia. Nada é mais fácil do que achar um grupo de acadêmicos – "investigadores", se você concorda com eles – disposto a defender virtualmente qualquer tese sobre qualquer assunto. Nem é essa noção de "obrigação" algo novo.

Durante décadas, tem havido essa conversa elevada, mas fiada, sobre a "responsabilidade social" das empresas, ou acerca de um "pacto social" entre as gerações que garanta a manutenção da Seguridade Social. Você se lembra de ter firmado esse pacto? Nem eu.

O que toda essa conversa piedosa significa é que, quando um grupo de pessoas quer que terceiros paguem por algo que desejam, afirmam que aquilo que desejam é uma "responsabilidade social" ou uma "obrigação" desses terceiros.

Enquanto a gente comprar essa conversa fiada, eles continuam a oferecê-la.

Para tentar fazer com que suas demandas pareçam algo mais do que noções arbitrárias de gente metida no que não conhece, que é o que eles são, alguns desses metidos se referem ao nível oficial de pobreza – como se isso fosse algo objetivo, e não o que realmente é, a saber, uma linha arbitrária definida por noções inventadas por algum burocrata governamental.

Segundo o New York Times, o empregado médio da Wal-Mart recebe um salário que fica acima da linha da pobreza para uma família de três, mas que cai abaixo da linha da pobreza para uma família de quatro. O que é que devemos concluir disso?

A noção comumente alardeada de "um salário que permita viver" é calculada com base em uma família de quatro. E, previsivelmente, o New York Times descobre um empregado da Wal-Mart que reclama de que não está ganhando "um salário que permita viver".

Como ele está vivendo, se não está ganhando um salário que permita viver?

Devem as pessoas ser pagas segundo aquilo que elas "precisam" em vez de segundo aquilo que vale o seu trabalho? Devem elas decidir que querem ter uma família grande e, depois, jogar o custo de sustentar essa família sobre terceiros?

Se seu trabalho não vale o suficiente para pagar por tudo o que elas querem, seria obrigação dos outros cobrir a diferença – em vez de responsabilidade sua melhorar suas habilidades para que possam vir a ganhar aquilo de que precisam?

Esperam os empregados da Wal-Mart ser subsidiados pelos clientes das lojas, pagando maiores preços, ou pelos acionistas, recebendo menores dividendos por suas ações? Boa parte das ações de uma companhia rica é propriedade de fundos de pensão que pertencem a pequenos investidores, como professores, policiais e outros que estão longe de serem ricos.

Por que é que alguns devem se aposentar com menos dinheiro, decorrente de um menor retorno aos seus investimentos em ações, para que os empregados da Wal-Mart sejam pagos aquilo que o New York Times deseja que lhes seja pago, em vez de receberem aquilo que vale o seu trabalho no mercado? Afinal de contas, eles certamente não estariam trabalhando para a Wal-Mart se alguém achasse que seu trabalho valia mais…

Nem estão eles obrigados a continuar a trabalhar para a Wal-Mart pelo resto de suas vidas. Para muitos deles, o emprego inicial na Wal-Mart é um trampolim para empregos melhores dentro da própria cadeia de lojas ou, à medida que obtêm mais experiência, para empregos melhores em outras companhias.

Pensem sobre isto: o que os metidos estão dizendo é que terceiros como eles próprios – que não estão pagando nada para ninguém – devem poder determinar quanto alguma outra pessoa, ou alguma empresa, deveria estar pagando para aqueles que trabalham para ela.

Seria devastador para os egos dos intelectuais descobrir, quanto mais admitir, que o mundo dos negócios tem feito muito mais para reduzir a pobreza no mundo do que todos os intelectuais juntos. Em última instância, é somente a riqueza que pode reduzir a pobreza, e a maioria dos intelectuais não tem a menor idéia de quais ações e políticas aumentam a riqueza nacional — nem nenhum interesse em descobrir…

Os intelectuais certamente não sentem nenhuma "obrigação" de aprender economia por um sentido de "responsabilidade social", muito menos por causa de qualquer "pacto social" que requeira que eles saibam do que estão falando antes de vomitar sua retórica auto-justificatória.

============

The Crusade Against Wal-Mart

by Thomas Sowell (May 9, 2005 – [www.CapMag.com])

The latest liberal crusade is against the Wal-Mart stores.

A big headline on a long article in the New York Times asks "Can’t A Retail Behemoth Pay More?"

Of course they can pay more. The New York Times could pay its own employees more. We could all pay more for whatever we buy or rent. Don’t tell me you couldn’t have paid a dime more for this newspaper. But why should any of us pay more than we have to?

According to the New York Times, there is a book "by a group of scholars" due to be published this fall, arguing that Wal-Mart has an "obligation" to "treat its employees better."

This can hardly be called news. Nothing is easier than to find a group of academics — "scholars" if you agree with them — to advocate virtually anything on any subject. Nor is this notion of an "obligation" new.

For decades, there has been lofty talk abou
t the "social responsibility" of businesses or about a "social contract" between the generations when it comes to Social Security. Do you remember signing any such contract? I don’t.

What all this pious talk amounts to is that when third parties want somebody else to pay for something, they simply call it a "social responsibility," an "obligation" or a "social contract."

So long as we keep buying this kind of stuff, they will keep selling it.

In order to make such demands look like more than just the arbitrary notions of busybodies — which they are — some of these busybodies refer to the official poverty level, as if it were something objective, rather than what it is in fact, simply an arbitrary line based on the notions of government bureaucrats.

According to the New York Times, Wal-Mart’s average employee earns an income that is above the poverty line for a family of three but below the poverty line for a family of four. What are we supposed to conclude from this?

The fashionable notion of "a living wage" is a wage that will support a family of four. And, sure enough, the New York Times finds a Wal-Mart employee who complains that he is not making "a living wage."

How is he living, if he is not making a living wage?

Should people be paid according to what they "need" instead of according to what their work is worth? Should they decide how big a family they want and then put the cost of paying to support that family on somebody else?

If their work is not worth enough to pay for what they want, is it up to others to make up the difference, rather than up to them to upgrade their skills in order to earn what they want?

Are they supposed to be subsidized by Wal-Mart’s customers through higher prices or subsidized by Wal-Mart’s stockholders through lower earnings? After all, much of the stock in even a rich company is often owned by pension funds belonging to teachers, policemen and others who are far from rich.

Why should other people have to retire on less money, in order that Wal-Mart employees can be paid what the New York Times wants them paid, instead of what their labor is worth in the marketplace? After all, they wouldn’t be working for Wal-Mart if someone else valued their labor more.

Nor are they confined to Wal-Mart for life. For many, entry-level jobs are a stepping-stone, whether within a given company or as experience that gets them a better job with another company.

Think about it: What the busybodies are saying is that third parties like themselves — who are paying nothing to anybody — should be determining how much somebody else should be paying those who work for them.

It would be devastating to the egos of the intelligentsia to realize, much less admit, that businesses have done more to reduce poverty than all the intellectuals put together. Ultimately it is only wealth that can reduce poverty and most of the intelligentsia have no interest whatever in finding out what actions and policies increase the national wealth.

They certainly don’t feel any "obligation" to learn economics, out of a sense of "social responsibility," much less because of any "social contract" requiring them to know what they are talking about before spouting off with self-righteous rhetoric.

A "responsabilidade social" das empresas

Notável a baboseira do Clóvis Rossi na Folha de ontem (8 de maio de 2005), Dia das Mães.

Pretende ele que “role” na Alemanha, atualmente, um certo “revival” de Karl Marx.

A evidência para tal “revival” seria o fato de que a Social-Democracia alemã estaria “irada”, criticando os “excessos do Capitalismo”.

Em primeiro lugar, nada de estranhar que a Social-Democracia critique o que ela acha serem excessos do Capitalismo. A Social-Democracia surgiu como uma suposta alternativa tanto ao Capitalismo como ao Socialismo, como uma Via Media, ou Terceira Via. Não aceita, portanto, o Capitalismo como tal. Se o aceitasse, não haveria o menor sentido em se propor como Via Media ou Terceira Via (com ênfases, é bom que se diga, bem mais acentuadas no lado socialista da suposta equação do que no lado capitalista).

A revolta social-democrata parece ser dirigida a “empresas que têm lucros excepcionais e, não obstante, botam gente na rua”, como o Deutsche Bank (e, como já foi citado neste blog, a General Electric). O Deutsche Bank teria aumentado seus lucros 25% e, ainda assim, anunciado a dispensa de 10% de seus 64 mil funcionários. Lydia Brito, em artigo comentado na minha matéria “Capital e Trabalho”, de 1º de maio de 2005, observa que “nos anos 1980 a GE possuía uma receita de 52 bilhões de dólares anuais e 404.000 funcionários; no fim dos anos 1990 aumentou para uma receita de 450 bilhões de dólares e diminuiu para 229.000 o número de funcionários, ou seja, aumentou seu lucro em 800% e diminuiu o número de empregados praticamente para a metade”. Esses dois fatos parecem um escândalo para os social-democratas, para a autora do artigo citado, e, naturalmente, para o Clóvis Rossi.

Clóvis Rossi cita ainda um editorialista do Le Monde:

"Os interesses privados, que se legitimam apenas pela concorrência econômica, sem cuidado excessivo com o interesse geral, tudo fizeram para reduzir o espaço próprio da política e de suas decisões, porque entrava suas ambições e limita seus apetites."

Segundo o editorialista, com o qual Rossi parece concordar, parece estranho que as empresas atuem com base em seus interesses privados, objeto de preocupação da economia. Segundo o editorialista, com o endosso de Rossi, as empresas deveriam se preocupar também com “o interesse geral”, objeto de preocupação da política.

Segundo Rossi, agora comentando em nome próprio, isso tudo “é algo que o brasileiro conhece bem, pela brutal conversão aos interesses privados que fizeram os dois governos mais recentes, ambos supostamente parentes próximos ou distantes da social-democracia”.

Estranha constatação essa. Se o governo FHC e o governo Lula são “parentes próximos ou distantes da social democracia”, é esquisito acusá-los de “conversão aos interesses privados”, quando a Social-Democracia alemã está irada exatamente pela falta de preocupação das empresas com o “interesse geral” (isto é, manutenção de empregos que se tornaram desnecessários, e, portanto, redução deliberada do lucro para ajudar o governo em sua missão social).

O bobão do Clóvis Rossi chama a nossa de “a era dos gafanhotos” e defende a tese de que a ira contra o comportamento das empresas não deve “ficar apenas na retórica”… Deve se tornar o que, essa ira? Violência? Revolta armada? Finalmente a revolução socialista?

Ao longo de toda a história da humanidade se concluiu, acertadamente, que o bem-estar das pessoas era de sua exclusiva responsabilidade – e que se alguns não conseguiam alcançá-lo, seu bem-estar ficava na dependência da caridade voluntária das pessoas privadas, físicas ou institucionais (igrejas, por exemplo).

O Liberalismo, ou Capitalismo, se preferem, endossa essa tese. É por isso que muitos milionários criam suas próprias fundações para ajudar os que não conseguem cuidar de seu próprio bem-estar. Isso é algo feito voluntariamente.

A partir do século XIX começou a se crer que o bem-estar das pessoas não é de sua responsabilidade – sendo exclusiva responsabilidade do Estado, ou dos governos. Essa a tese socialista.

Parece que a inovação social-democrata está no fato de que ela reconhece que os governos não conseguem proporcionar aos incapazes o bem-estar que agora é tido como sendo de (direitos econômicos e sociais) – mas espera que as empresas desenvolvam uma “consciência e responsabilidade social” e ajudem os governos a prover o bem-estar que eles, governos, por si só, não conseguem prover…

Faz-me rir.

Das duas uma: ou a responsabilidade de prover bem-estar às pessoas que não conseguem provê-lo para si mesmas é dos governos, e eles se desincumbem dela sozinhos (ainda que cobrando altíssimos impostos), ou eles tiram o time de campo, se reconhecem um fracasso nessa área, eliminam os impostos destinados a custear políticas sociais e deixam a área limpa para a ação da iniciativa privada – como sempre foi, até o maldito Socialismo surgir.

O que não dá é reivindicar que a promoção do bem-estar social é dever do governo e, ao mesmo tempo, ficar irado porque as empresas cumprem bem a sua responsabilidade precípua, que é dar lucro aos seus proprietários e/ou acionistas.

Clóvis Rossi et caterva parecem achar que empresas devam manter empregados aqueles cujos serviços não mais são necessários, apenas para cumprir sua missão social ou manifestar a sua disposição de promover o interesse público, agindo, como já fazem os governos, como verdadeiros cabide
s de emprego.

Um pouco de bom senso não faz mal a ninguém — nem mesmo a velhos jornalistas que deviam saber melhor, mas que nunca perdem o cacoete socialista.

Em Salto, 8 de Maio de 2005

=====

Folha de S. Paulo
8 de maio de 2005

CLÓVIS ROSSI

Os gafanhotos e a ira

SÃO PAULO – Rola na Alemanha um certo clima de "revival" de Karl Marx, como se subitamente o comunismo tivesse escapado dos escombros do Muro de Berlim.

Tudo porque lideranças do SDP, o partido social-democrata que está no poder com Gerhard Schröeder, andam criticando os excessos do capitalismo. Começou com o presidente do partido, Franz Müntefering, que chamou de "gafanhotos" os investidores que tomam uma companhia, limpam seus ativos e caem fora, deixando muita gente desempregada.

Wolfgang Thierse, o presidente do bloco SPD no Congresso, atacou as empresas que têm lucros excepcionais e, não obstante, botam gente na rua. Citou o caso do Deutsche Bank, que aumentou seus lucros 25% e, ainda assim, anunciou a dispensa de 10% de seus 64 mil funcionários.

Essa situação -altos lucros X dispensas em massa- estaria provocando um ambiente de "ira desesperada", na opinião de Thierse.

Do outro lado do muro, houve reações de uma virulência incompreensível, como a acusação de que os sociais-democratas estão usando "linguagem nazista" para criticar o "big business".

Estão fazendo apenas constatações, a mesma que expõe Edwy Plenel, o editorialista da revista semanal do jornal francês "Le Monde", no número de sexta-feira:

"Os interesses privados, que se legitimam apenas pela concorrência econômica, sem cuidado excessivo com o interesse geral, tudo fizeram para reduzir o espaço próprio da política e de suas decisões, porque entrava suas ambições e limita seus apetites."

É algo que o brasileiro conhece bem, pela brutal conversão aos interesses privados que fizeram os dois governos mais recentes, ambos supostamente parentes próximos ou distantes da social-democracia.

É, definitivamente, a era dos "gafanhotos". É saudável que haja uma reação, mas se ela ficar apenas na retórica, a "ira desesperada" só tende a aumentar.

crossi@uol.com.br

Os Dois Brasis

Thomas Skidmore, na entrevista transcrita abaixo, afirma:

a) “O Sul e o Sudeste [do Brasil] vão relativamente bem, mas o restante do país está em estado vegetativo. Não há nenhum plano de desenvolvimento nacional, pois ele não é prioritário. A economia brasileira depende muito da performance dos Estados meridionais. Assim, acredito que o Brasil esteja se dirigindo rapidamente a uma situação em que haverá dois países diferentes em seu território.”

b) “Se o governo não estabelecer reais prioridades, visando a redução do consumo e a elevação dos investimentos, o Brasil permanecerá na mesma situação. Ou seja, o governo não conseguirá estimular o desenvolvimento.”

c) “O governo atual tem de fazer alguma coisa. É necessário acelerar ainda mais as exportações e restringir as importações voltadas para o consumo direto da população. Há carros novos e importados por toda parte no Sul e no Sudeste, imensos edifícios residenciais, shopping centers etc. Trata-se de um luxo que o Brasil não tem como financiar se pretende se desenvolver.”

d) “O que existe hoje é uma falta total de planejamento para o desenvolvimento e de vontade de sacrificar o consumo atual para investir no futuro. As elites brasileiras do Sudeste e do Sul agem como se estivessem em Paris ou em Milão, e isso é prejudicial. Elas poderiam manter o mesmo padrão de vida, no entanto isso levaria o país à estagnação econômica. E, como salientei há pouco, isso geraria uma absoluta divisão do Brasil em duas partes.”

e) “Não é possível simplesmente manter um modelo de consumo elevado e esperar que a economia melhore. Sem sacrifícios, não haverá crescimento sustentado.”

f) “Será preciso impor sacrifícios à população e começar a taxar mais o consumo para gerar dinheiro para os investimentos. Os brasileiros não parecem entender que, para ter uma situação de prosperidade no futuro, é preciso começar a investir seriamente agora. A sociedade brasileira é centrada demais no consumo. Assim, o Brasil continuará dividido em dois.”

g) “Outro sintoma das imperfeições desse sistema é o mundo universitário. As universidades públicas brasileiras são um escândalo. A quantidade de dinheiro que sai dos cofres públicos para bancar esse sistema é enorme. E não há nenhuma inclinação na atual administração para atacar o problema mais grave desse sistema: o fato de o ensino ser gratuito. Esse também é um escândalo porque faz com que as diferenças sociais se agravem ainda mais. Os pobres pagam impostos para que os ricos estudem gratuitamente.”

h) “O PT encaixou-se no clássico modelo de prosperidade brasileiro, que vê empregos públicos como forma de ascensão social. Assim, o governo federal está aparelhando o Estado e elevando o peso dos gastos com funcionários públicos. Trata-se de uma tradição brasileira e de um modo de diminuir o desemprego e de agradar a seus simpatizantes. Contudo essa é uma atitude míope, que custa caro ao país.”

i) “Não creio que ele [FHC] possa imaginar que seja necessário sacrificar alguns hábitos das classes mais abastadas para atingir níveis sustentáveis de crescimento.“

j) “O problema com o PT é que seus membros pensavam que o governo brasileiro já tivesse a riqueza e que fosse preciso apenas redistribuí-la. Porém eles se esqueceram de que o Brasil não é, de jeito nenhum, um país rico e que, para desenvolver todo o seu território, é imprescindível ter prioridades. Com isso, eles abraçaram a tese desenvolvimentista baseada no consumo e nos juros altos e negligenciaram políticas que criariam condições para o crescimento futuro. O PT não é, em princípio, um partido desenvolvimentista. Temo que os políticos brasileiros tenham abandonado a idéia de que é preciso desenvolver todo o país, não apenas parte dele.”

k) “Ninguém mais fala do Nordeste, uma região que está ficando cada vez mais esquecida. Nesses dias que passei no Brasil, mal ouvi falar do Nordeste. Às vezes, tenho a impressão de que, para boa parte da população brasileira mais abastada, os Estados mais pobres simplesmente não existem.”

l) “A motivação dos quadros do PT é a ascensão social, não o desenvolvimento durável do Brasil. Assim, uma renovação política é crucial.”

Concordo com várias dessas afirmações, em especial com “g”, “h”, “j”, e “l”.

Discordo, porém, da sua principal tese, a saber, que o Brasil deveria sacrificar o consumo atual (segundo ele, existente principalmente no Sudeste e no Sul do país)  para investir no futuro.

Ele afirma que, a continuar esse consumo desenfreado, especialmente no Sudeste e no Sul, o Brasil vai virar “dois países”: um, o país rico, no Sudeste e no Sul, o outro o país pobre, no restante das regiões.

Mas parece-me haver uma contradição séria na tese de Skidmore. Se é o consumo desenfreado do Sudeste e do Sul que está impedindo o Brasil de alcançar o desenvolvimento sustentável, como se explica o fato de que é exatamente o Sudeste e o Sul consumistas que têm chance de se tornar o país rico, na hipótese dos dois Brasis?

Por analogia, estaria Skidmore disposto a admitir que é o consumismo desenfreado dos países do Norte, em especial dos Estados Unidos e da Europa, que está impedindo a América Latina de se desenvolver? Parece que ele dificilmente admitiria isso – e estaria correto em não admitir. O seu erro está em imaginar que, no caso do Brasil, é o consumo dos estados do Sudeste e do Sul que está impedindo as outras regiões de se desenvolver.

Talvez, porém, Skidmore esteja defendendo a tese de que o Sudeste e o Sul deveriam conter o seu consumo (no presente) para ajudar o resto do Brasil a se desenvolver (no futuro). Há indícios de que é isso que ele pensa. Ou vejamos:

“As elites brasileiras do Sudeste e do Sul agem como se estivessem em Paris ou em Milão, e isso é prejudicial. Elas poderiam manter o mesmo padrão de vida, no entanto isso levaria o país à estagnação econômica. E, como salientei há pouco, isso geraria uma absoluta divisão do Brasil em duas partes.”

“Ninguém mais fala do Nordeste, uma região que está ficando cada vez mais esquecida. Nesses dias que passei no Brasil, mal ouvi falar do Nordeste. Às vezes, tenho a impressão de que, para boa parte da população brasileira mais abastada, os Estados mais pobres simplesmente não existem.”

Para que haja a “redistribuição de renda” entre regiões que Skidmore parece propor, é indispensável um governo federal forte, na verdade, fortíssimo, disposto a usar a força para obrigar os estados das regiões mais ricas a abrir mão de sua riqueza para ajudar os estados das regiões mais pobres. Caso contrário, é virtualmente impossível conseguir que a renda seja redistribuída entre as regiões.

Na verdade, por quase um século, é isso que já vem acontecendo: os estados das regiões Sudeste e Sul, em especial o Estado de São Paulo, vem arcando com uma parcela exagerada da manutenção da máquina pública federal, em troca de uma participação não equivalente nas decisões políticas. É de imaginar que isso não vá continuar por muito tempo. Agora Skidmore propõe que os estados ricos se sacrifiquem ainda mais em favor dos estados pobres? Movimentos separatistas já existem no Sul e o Estado de São Paulo por pelo menos duas vezes já ensaiou se libertar da União para se tornar um país independente.

Como já disse, duvido que Skidmore esteja disposto a propor que os países ricos se sacrifiquem, reduzam seu nível de consumo ao não-supérfluo, para ajudar os países pobres a se desenvolver. Se não está, como suspeito que não esteja, por que espera que isso aconteça entre estados brasileiros? Algo faz sentido entre estados de um país que não faça sentido entre países?

Diz Skidmore:

“O governo [obviamente, o federal] atual tem de fazer alguma coisa. É necessário acelerar ainda mais as exportações e restringir as importações voltadas para o consumo direto da população. Há carros novos e importados por toda parte no Sul e no Sudeste, imensos edifícios residenciais, shopping centers etc. Trata-se de um luxo que o Brasil não tem como financiar se pretende se desenvolver.”

Importam-se bens de consumo, e até mesmo bens de luxos, quando há demanda, isto é, quando a população tem dinheiro para comprá-los e está disposta a gastar neles. Essa citação de Skidmore mostra que, evidentemente, o Sudeste e o Sul são relativamente ricos, já alcançaram um nível razoável de desenvolvimento – que parece até mesmo irritar Skidmore um pouco. A solução que ele propõe é que o governo federal proíba os ricos de gastarem com bens que ele considera supérfluos para os brasileiros – para investir nas outras regiões, mais pobres.

Ou seja, apesar de ser um bom burguês aposentado da nobilérrima Brown University (onde FHC lhe é colega), Skidmore prefere ver todo o Brasil pobre – pois é isso que vai acontecer se a riqueza do Sudeste e do Sul for confiscada pelo governo federal para custear o desenvolvimento do resto do país – a ver pelo menos uma parte dele relativamente rica e desenvolvida.

Não acho que Skidmore seja socialista. Mas as suas teses mostram como pessoas bem intencionadas são levadas a erros crassos de análise. Como já dizia Mme. de Staël, no século XVIII, há alguns que preferem a igualdade do inferno às desigualdades do céu.


Em Salto, 8 de maio de 2005

=========================

Folha de S. Paulo
20 de março de 2005


Um sistema dois países


Thomas Skidmore defende que o abandono das políticas desenvolvimentistas de longo prazo e o investimento no consumo, tanto nos governos Lula e FHC, estão levando a uma cisão entre o sul e o norte do Brasil

MÁRCIO SENNE DE MORAES
DA REDAÇÃO


Há mais de meio século, a ausência, no Brasil, de políticas de desenvolvimento concretas e a de prioridades nesse sentido preocupam Thomas Skidmore, reputado historiador, “brasilianista”, professor aposentado da Universidade Brown (EUA) e autor dos clássicos “Brasil -De Getúlio a Castelo”, “Brasil – De Castelo a Tancredo” e “O Brasil Visto de Fora” (todos pela Paz e Terra).

Em 2005, a situação não teria mudado, e ele reitera: “O Brasil está perdendo, mais uma vez, o trem da história no que tange às chances de atingir níveis razoáveis de desenvolvimento sustentado”.

Skidmore diz que uma política consistente do Brasil deveria sacrificar o consumo atual -“as elites brasileiras do Sudeste e do Sul agem como se estivessem em Paris ou em Milão”- para investir no futuro.

Leia a seguir os trechos da entrevista por telefone que ele concedeu à Folha, na última quarta-feira, depois de passar “dez agradáveis dias no Brasil”.


Folha – Na semana passada, o sr. afirmou, em São Paulo, que, mais uma vez, o Brasil está perdendo o trem da história. Por quê?

Thomas Skidmore – Fiz essa afirmação porque o nível do crescimento econômico brasileiro foi bom no ano passado, mas isso ocorreu pela primeira vez em dez anos. Infelizmente, o Brasil atingiu um equilíbrio, consolidando o aspecto “Belíndia” de sua sociedade [em 1974, o economista Edmar Bacha cunhou a expressão para definir o que, à época, via como a distribuição de renda no Brasil -uma pequena e rica Bélgica e uma imensa e pobre Índia].

O Sul e o Sudeste vão relativamente bem, mas o restante do país está em estado vegetativo. Não há nenhum plano de desenvolvimento nacional, pois ele não é prioritário. A economia brasileira depende muito da performance dos Estados meridionais. Assim, acredito que o Brasil esteja se dirigindo rapidamente a uma situação em que haverá dois países diferentes em seu território.


Folha – O que o governo do presidente Luiz Inácio Lula da Silva deveria fazer para mudar o quadro?

Skidmore – Ele tem de renovar suas prioridades, privilegiando áreas básicas, como a educação, que continua sendo negligenciada, e a infra- estrutura, já que as estradas de ferro e as de rodagem estão em mau estado. Além disso, é absolutamente necessário aumentar os níveis de investimento.

O Brasil investe hoje cerca de 18% [de seu PIB; os números de 2004 ainda não foram divulgados, mas espera-se algo pouco acima de 18%]. Seria preciso investir 25%.

Com esses níveis de investimento, o país não terá um crescimento econômico considerável e poderá se estagnar. Se o governo não estabelecer reais prioridades, visando a redução do consumo e a elevação dos investimentos, o Brasil permanecerá na mesma situação. Ou seja, o governo não conseguirá estimular o desenvolvimento.


Folha – Num mundo globalizado, em que os mercados financeiros e instituições como o FMI (Fundo Monetário Internacional) e o Banco Mundial ditam as regras, Lula dispõe de que margem de manobra?

Skidmore – É verdade que ele não tem muita margem de manobra para introduzir grandes reformas, pois Fernando Henrique Cardoso [presidente entre 1994 e 2002] e vários presidentes que o precederam deixaram o Brasil tão endividado que o atual governo tem de carregar um fardo considerável ao ser compelido a gerar dinheiro para bancar o serviço da dívida. Devemos reconhecer que FHC, que foi muito bom em várias áreas, cometeu um grande erro ao permitir o aumento da dívida brasileira.

Embora tudo isso seja verdade, todavia, o governo atual tem de fazer alguma coisa. É necessário acelerar ainda mais as exportações e restringir as importações voltadas para o consumo direto da população. Há carros novos e importados por toda parte no Sul e no Sudeste, imensos edifícios residenciais, shopping centers etc. Trata-se de um luxo que o Brasil não tem como financiar se pretende se desenvolver.

Se nada for feito, os brasileiros continuarão a viver na “Belíndia” e só os habitantes dos Estados mais abastados vão lucrar com isso. Sei que há um problema financeiro, porém creio que qualquer governo brasileiro possa fazer muito ma
is do que vem sendo feito para aumentar sua margem de manobra.

Para tanto, seria preciso melhorar ainda mais a balança de pagamentos e usar o comércio externo como um instrumento para desenvolver todo o país, e não apenas as regiões mais ricas. O que existe hoje é uma falta total de planejamento para o desenvolvimento e de vontade de sacrificar o consumo atual para investir no futuro. As elites brasileiras do Sudeste e do Sul agem como se estivessem em Paris ou em Milão, e isso é prejudicial.

Elas poderiam manter o mesmo padrão de vida, no entanto isso levaria o país à estagnação econômica. E, como salientei há pouco, isso geraria uma absoluta divisão do Brasil em duas partes.


Folha – Ante esse quadro sombrio que o sr. acaba de descrever -que, em alguns aspectos, foge ao controle governamental-, como o presidente Lula conseguirá aplicar seu tão propalado programa social?

Skidmore – Não sei. Mas uma coisa é certa: ele deveria recuperar o idealismo que o PT tinha originalmente. Não é possível simplesmente manter um modelo de consumo elevado e esperar que a economia melhore. Sem sacrifícios, não haverá crescimento sustentado. O governo tem um política fiscal dura, mas não consegue obter grandes resultados com isso. O mais importante é que não existe no país um sentimento de que é preciso estabelecer prioridades para o desenvolvimento de todo o seu território. As autoridades do país estão à deriva.


Folha – Quais serão as conseqüências do agravamento das divisões existentes entre os Estados mais ricos e os mais pobres?

Skidmore – As conseqüências sociais serão graves. Em termos práticos, uma conseqüência básica é que será preciso impor sacrifícios à população e começar a taxar mais o consumo para gerar dinheiro para os investimentos. Os brasileiros não parecem entender que, para ter uma situação de prosperidade no futuro, é preciso começar a investir seriamente agora. A sociedade brasileira é centrada demais no consumo. Assim, o Brasil continuará dividido em dois.


Folha – Em termos históricos, como chegamos a essa situação?

Skidmore – A razão básica é que as melhores oportunidades para estabelecer prioridades surgiram na década de 60, quando os militares tomaram o poder. O problema é que os militares diziam ter políticas de desenvolvimento bem definidas e prioridades claras, mas, na verdade, não as tinham. Os militares apenas reforçaram a tendência de encaminhar a maior parte dos recursos para o Sudeste e para o Sul e o fizeram durante mais de 20 anos. Acredito que isso tenha desacreditado a idéia de que é preciso fazer sacrifícios para atingir níveis sustentáveis de desenvolvimento. Como reação ao regime autoritário, o Brasil acabou tendo um sistema partidário fragmentado e um modelo de desenvolvimento baseado no consumo, do qual a indústria automobilística se tornou um exemplo emblemático. Isso é muito custoso porque desvia dinheiro de investimentos mais importantes, como no setor da educação.

—————————————————————————

A motivação dos quadros do PT é a ascensão social, não o desenvolvimento durável do Brasil

—————————————————————————

Outro sintoma das imperfeições desse sistema é o mundo universitário. As universidades públicas brasileiras são um escândalo. A quantidade de dinheiro que sai dos cofres públicos para bancar esse sistema é enorme. E não há nenhuma inclinação na atual administração para atacar o problema mais grave desse sistema: o fato de o ensino ser gratuito. Esse também é um escândalo porque faz com que as diferenças sociais se agravem ainda mais. Os pobres pagam impostos para que os ricos estudem gratuitamente.


Folha – O sr. crê que o PT tenha perdido seu idealismo?

Skidmore – O poder tende a distrair os políticos, tirando sua atenção de certos temas. O PT sempre foi uma coalizão. De um lado, havia muitas pessoas que eram idealistas, que acreditavam em ideais de melhora social, mas não sabiam como fazê-lo. De outro, havia os pragmáticos. Agora o PT encaixou-se no clássico modelo de prosperidade brasileiro, que vê empregos públicos como forma de ascensão social.

Assim, o governo federal está aparelhando o Estado e elevando o peso dos gastos com funcionários públicos. Trata-se de uma tradição brasileira e de um modo de diminuir o desemprego e de agradar a seus simpatizantes. Contudo essa é uma atitude míope, que custa caro ao país.


Folha – O sr. acha que FHC também perdeu seu idealismo ao chegar à Presidência?

Skidmore – Sem dúvida, mas seu caso é mais complicado, pois ele não tinha os mesmos ideais que o PT. Não acredito que ele tenha a mesma visão de desenvolvimento que eu. FHC é mais parecido com um político brasileiro tradicional, embora seja bem mais elegante e inteligente. Não creio que ele possa imaginar que seja necessário sacrificar alguns hábitos das classes mais abastadas para atingir níveis sustentáveis de crescimento.

O problema com o PT é que seus membros pensavam que o governo brasileiro já tivesse a riqueza e que fosse preciso apenas redistribuí-la. Porém eles se esqueceram de que o Brasil não é, de jeito nenhum, um país rico e que, para desenvolver todo o seu território, é imprescindível ter prioridades. Com isso, eles abraçaram a tese desenvolvimentista baseada no consumo e nos juros altos e negligenciaram políticas que criariam condições para o crescimento futuro. O PT não é, em princípio, um partido desenvolvimentista. Temo que os políticos brasileiros tenham abandonado a idéia de que é preciso desenvolver todo o país, não apenas parte dele.

Ninguém mais fala do Nordeste, uma região que está ficando cada vez mais esquecida. Nesses dias que passei no Brasil, mal ouvi falar do Nordeste. Às vezes, tenho a impressão de que, para boa parte da população brasileira mais abastada, os Estados mais pobres simplesmente não existem.


Folha – O sr. não vê, portanto, luz no fim do túnel?

Skidmore – Não, pois não vejo líderes capazes de demonstrar o patriotismo necessário para a aplicação de políticas desenvolvimentistas que visam o longo prazo. Estas são dolorosas. Penso que o Brasil vá continuar nessa situação de divisão.

Acabei de escrever um artigo que compara a Coréia do Sul com o Brasil [que ainda não tem data de publicação], e as constatações são devastadoras. O que a Coréia do Sul fez desde a década de 70 em comparação com o que fez o Brasil é extraordinário. E, para piorar a situação, a Coréia do Sul é um país bem mais pobre que o Brasil no que se refere a recursos naturais. Assim, não creio que as elites brasileiras tenham aprendido as lições sobre desenvolvimento direto que deveriam ter aprendido e estão contentes com suas regalias.


Folha – O sr. pensa que a solução esteja num esforço conjunto entre países sul-americanos?

Skidmore
– Trata-se de uma grande bobagem. O único país da região que soube estabelecer prioridades e mudar sua sociedade foi o Chile. O restante dos Estados sul-americanos só usa a retórica para manter o status quo. O México também está numa situação desfavorável, pois privilegia o modelo de consumo norte-americano.


Folha – A única esperança é, conseqüentemente, esperar o surgimento de um “salvador da pátria”?

Skidmore – Já houve “salvadores da pátria”, como Jânio Quadros, na década de 60, e Fernando Collor de Mello, na de 90; contudo eles também não encontraram a solução do problema. Os brasileiros devem esperar que haja algum tipo de renovação do establishment político do país. Caso contrário, nada vai mudar. É preciso recuperar os ideais de desenvolvimento nacional que existiam na década de 60.

A motivação dos quadros do PT é a ascensão social, não o desenvolvimento durável do Brasil. Assim, uma renovação política é crucial.

Capital e Trabalho

Acho que o principal problema das análises do que a esquerda, sob inspiração marxista, chama de "relações capital – trabalho", está em imaginar que donos ou acionistas de empresas (o chamado "capital") são uma sub-espécie humana ontologicamente distinta da outra sub-espécie (o chamado "trabalho") — e que haveria unicamente essas duas sub-espécies no setor produtivo. Isso, se um dia fez sentido, hoje não faz mais.

Ou vejamos.

1) O setor produtivo hoje é composto, além da categoria dos DONOS OU ACIONISTAS de empresas e da categoria dos chamados TRABALHADORES (como se ninguém mais trabalhasse), de pelo menos duas outras categorias que não recebem muita atenção na análise marxista: a categoria dos EXECUTIVOS E GERENTES e a categoria dos PROFISSIONAIS. Executivos e gerentes, de um lado, e, de outro, profissionais (engenheiros, advogados, designers, consultores, especialistas em marketing, comunicação, treinamento, etc.) sempre existiram, mas são muito mais importantes hoje do que já o foram. Talvez eles não tenham recebido muita atenção nas análises de origem marxista também porque, em geral, são bem instruídos (curso superior é de rigueur), não raram recebem participação nos lucros ou mesmo participação acionária, e, por isso, raramente se sindicalizam e dificilmente se tornam massa de manobra da esquerda sindicalista.

2) As mudanças que a tecnologia vem introduzindo na sociedade, em especial no setor produtivo, têm avançado no sentido de diminuir a importância, no processo produtivo, daqueles que a esquerda chama de trabalhadores — o proletariado, ou o operariado, em geral pouco qualificado ou, quando não, qualificado em habilidades tipicamente manuais, rotineiras, bastante específicas, dificilmente transferíveis para outros setores. (Com o surgimento dos tornos computadorizados, por exemplo, o que fazer com as habilidades de um torneiro mecânico? Ou ele se "recicla", isto é, adquire outras habilidades mais requeridas pelo processo produtivo, ou ele se torna sindicalista e, eventualmente, político — funções que, por sinal, têm muita coisa em comum, em especial o seu parasitismo). Essas mudanças têm levado até mesmo alguns autores marxistas, como Adam Schaff (em A Sociedade Informática — tradução horrível de um título que, em Alemão, quer dizer "Para Onde Vai o Caminho" — Wohin Fährt der Weg, creio, é o título original), a afirmar que o proletariado, ou seja, a classe operária, dita trabalhadora, como a concebia Marx, acabou – c’est fini.

3) Assim, além da categoria (ou classe, if you will) dos donos ou acionistas de empresas, da categoria dos executivos e gerentes, e da categoria dos profissionais, surgiu, nos últimos anos, uma outra categoria, que se poderia dizer incluir pessoas razoavelmente bem escolarizadas (incluindo o Ensino Médio ou mesmo a Educação Superior) e com uma gama razoável de competências e habilidades, em grande parte flexíveis, que têm relativa familiaridade com a tecnologia, que trabalha em escritórios (secretárias, assistentes administrativos, chefes de seção administrativa, etc.) ou mesmo na fábrica (supervisores de processo em fábricas automatizadas, chefes de seção técnica, etc.), MAS que não se incluem NEM em nenhuma das três outras categorias mencionadas NEM na categoria dos chamados de proletários, operários, trabalhadores (no sentido quase pejorativo que a esquerda dá ao termo: analistas de esquerda, que falam muito acerca dos trabalhadores e operários, raramente o são, eles próprios) — até porque esta categoria, a dos proletários, operários, etc. está desaparecendo e a outra, a categoria que caracterizei neste item, está evidentemente crescendo.

4) Donos ou acionistas de empresas em geral trabalham, e trabalham muito, e, portanto, são trabalhadores (no sentido literal do termo, não no sentido pseudo-elogioso que lhe dá a esquerda, sentido esse que, na realidade, é

pejorativo) como quaisquer outros. É verdade que seu trabalho em regra não é braçal nem rotineiro — especialmente quando se trata de donos de grandes empresas, ou de empresas de serviços, ou, então, de acionistas. Um fenômeno que vem chamando a atenção de analistas não-marxistas é o crescimento vertiginoso dessa categoria de donos ou acionistas de empresas. De um lado, nunca se criaram tantas pequenas empresas como hoje, fazendo surgir inúmeros donos de empresas e empreendedores — e o Brasil é um dos países que ocupa a liderança no tocante ao crescimento do número de empreendedores. De outro lado, executivos, gerentes, profissionais, ou mesmo os trabalhadores descritos no item anterior, vêm investindo no mercado de ações, tornando-se, assim, acionistas de empresas até mesmo de grande porte.

5) Não há dúvida que há uma categoria de pessoas que possuem pouca qualificação, ou qualificação muito específica, que parecem ter saído perdendo com essa evolução. Refiro-me a pessoal da construção civil (pedreiros, carpinteiros, encanadores, eletricistas, e seus ajudantes), pessoal de limpeza (pública, institucional, ou doméstica), pessoal de apoio em restaurantes e hotéis, balconistas, cobradores de ônibus, diaristas no setor agrícola, etc. A menos que essas pessoas façam um upgrade em suas qualificações, não vão fazer parte dos bem sucedidos na nova economia (da informação, do conhecimento, das relações interpessoais).

6) Resta, por fim, falar dos desempregados e daqueles que a esquerda gosta de chamar de miseráveis — cujo número, no Brasil, é muito menor do que o alardeado pelo PT e pela esquerda em geral. Quando alguém fica desempregado, tem três alternativas:

A) Ou ele busca se qualificar / requalificar para arrumar um outro emprego (mas emprego, no sentido tradicional, existe cada vez menos — havendo livros que anunciam, como se necessário fosse, O Fim do Emprego);

B) Ou ele se torna autônomo — ainda que como vendedor ambulante, ou dono de um carrinho de cachorro-quente, etc. ou, preferivelmente, dono de um pequeno negócio;

C) Ou ele vira miserável e vai morar debaixo da ponte, passando a depender do Estado (isto é, daqueles que não estão na mesma sub-categoria que ele, podendo até mesmo estar nas outras duas sub-categorias, A e B).

Bom, listei pelo menos umas cinco categorias — ou classes, como preferem os marxistas. Poderia ter acrescentado outras: o pequeno proprietário rural, por exemplo. Embora essas categorias de certo modo compitam umas com as outras, elas não estão envolvidas em um conflito transcendental uma contra a outra, como o marxismo pretende em relação ao simplista "capital e trabalho". A luta de classes é a luta de cada um, dentro de cada uma dessas categorias ou classes, para sobreviver, primeiro, e, depois, para realizar o seu projeto de vida.

Não somos todos iguais — nem biológica nem psicologicamente. Não nascemos nos mesmos lugares nem, muito menos, das mesmas famílias. Uns tiveram a chance de nascer em berço esplêndido. Outros o azar de nascer em condições miseráveis. Uns tiveram pais que eram educadores. Outros tiveram pais que não davam valor à educação. Uns foram sustentados por seus pares até além do necessário ou recomendável. Outros nem conheceram os seus pais. As condições originais ou iniciais não são iguais para todos — e, portanto, é utópico imaginar que todos possam chegar aos mesmos lugares ou alcançar os mesmos resultados do ponto de vista social, econômico ou cultural.

Assim, se x trabalha para y, não faz nenhum sentido dizer que y explora x — ou se apropria, sem a devida remuneração, "da inteligência, da emoção e da energia" do empregado. Se y mandar x embora, este vai perceber como era bom "ser explorado" e ter um salário no fim do mês.

O que é evidente, é que a análise marxista é de uma pobreza a toda prova.

A autora do artigo abaixo observa e pergunta no final: "Fica a reflexão: o trabalhador, agora nomeado de capital intelectual ou capital humano está se dando conta dessa nova realidade, que também está sendo construída com e pelo seu consentimento?"

As minhas perguntas sobre isso são:

* Se o trabalhador (sic) não se dá conta dessa nova realidade, de quem a responsabilidade?

* Quem foi que disse que eu preciso dar meu consentimento às mudanças que outros estão promovendo na sociedade, ou que devo pedir consentimento dos outros para as mudanças que eu pretender realizar?

Paris, 1 de Maio de 2005

—–Mensagem Original—–

As mudanças na relação do capital com o trabalhador

Lydia M.P. Brito

Os novos modelos de gestão de empresa, de pessoas e da educação corporativa mobilizam os aspectos subjetivos do trabalho, envolvendo a cultura, os valores, o coração e a mente dos funcionários, num processo de aprendizado contínuo capaz de liberar a força criativa de cada um, projetada para atingir os resultados desejados pela organização. Ou seja, para defender os interesses do capital, manter sua competitividade no mercado e garantir seu lucro e sua sobrevivência, ao concentrar a inteligência, a emoção e a energia dos empregados nas estratégias empresariais.

A diferença da forma de compartilhamento natural do conhecimento e as novas formas de compartilhamento do conhecimento, promovidas pelas organizações, são o gerenciamento, a manipulação e o controle rigoroso do processo de aprendizagem a partir unicamente dos interesses do capital, fato que significa uma mudança sem precedentes na forma de gestão e educação de pessoas para o trabalho nas organizações, ao interferir direta e claramente na cultura organizacional e ao criar propositadamente um imaginário enganador na organização.

Essa nova forma de controle sobre o aprendizado organizacional constitui-se na forma mais sofisticada de apropriação e alienação do trabalho, iniciada pelo taylorismo/fordismo, que se apropriou dos movimentos, do tempo e dos ritmos do trabalhador, e que agora exige a apropriação por parte do capital também da teleologia, do conhecimento tácito (que muitas vezes o próprio trabalhador não se dá conta de que possui), do desejo, do abstrato, das formas de interação e da criatividade coletiva.

É importante registrar que, paralelamente à nova forma de gestão, estão sendo mudadas as relações de trabalho que, se antes obedeciam a um padrão legal e normativo surgido nos anos 30 e que garantiam estabilidade e direitos trabalhistas e que supunham uma série de regras escritas consentidas pelo patrão e empregado, tais como horário de trabalho, salários, benefícios e direitos trabalhistas garantidos constitucionalmente, agora começam a apresentar a possibilidade de serem "desreguladas" e "flexíveis", baseadas em contratos implícitos, isto é, apenas verbais e não formalizados.

Essa situação geraria, como principal foco de tensão, a administração de um contrato de trabalho rompido pelo empregador. Assim, o trabalhador teria que se sujeitar a realizar trabalhos, abrindo mão da formalidade e conseqüentemente de seus direitos, para se manter no mercado. A problemática torna-se explícita ao pegarmos o caso emblemático da GE, por exemplo, que é uma das dez maiores empresas do mundo em receita e capitalização, considerado de maior sucesso na aplicação do modelo.

Nos anos 1980 a GE possuía uma receita de 52 bilhões de dólares anuais e 404.000 funcionários. No fim dos anos 1990 aumentou para uma receita de 450 bilhões de dólares e diminuiu para 229.000 o número de funcionários, ou seja, aumentou seu lucro em 800% e diminuiu o número de empregados praticamente para a metade. Fica a reflexão: o trabalhador, agora nomeado de capital intelectual ou capital humano está se dando conta dessa nova realidade, que também está sendo construída com e pelo seu consentimento?

Lydia M.P. Brito é autor do recém-lançado livro Gestão de competências, gestão do conhecimento e organizações de aprendizagem – Instrumentos de apropriação pelo capital do saber do trabalhador.

Impostos – A molecagem do governo

Parece que a primeira fase da luta contra o conteúdo da Medida Provisória 232 e dos princípios que ela incorporava foi ganha. Dizem as notícias:

"O governo decidiu corrigir a tabela do Imposto de Renda Pessoa Física por meio de uma nova medida provisória a ser editada ainda hoje [31/03/2005]. O texto irá revogar todos os outros pontos da medida provisória 232, como o aumento de tributo aos prestadores de serviços e o recolhimento na fonte do Imposto de Renda para produtores rurais"

(http://www1.folha.uol.com.br/folha/dinheiro/ult91u94932.shtml)

Mas a guerra está longe de estar ganha. O governo promete que:

"Hoje mesmo o governo vai enviar ao Congresso um novo projeto de lei que trará compensações para os cofres públicos devido à perda de arrecadação com a correção da tabela do IR" (Idem, ibid).

Esse princípio da "compensação" é que precisa ser agora contestado com vigor, para que o projeto de lei enviado não seja aprovado nesse aspecto.

Por que faz sentido reivindicar correção da tabela de Imposto de Renda?

Porque, ainda que anualmente pequena, há inflação no país. Somados os anos em que não tem havido correção da tabela do Imposto de Renda dos assalariados, apesar de ter havido inflação, a correção necessária não seria pequena: seria da ordem de 50%. O governo, depois de muita pressão, concordou, no final do ano passado, em corrigir a tabela em 10% — e, por cima, fez a sacanagem / molecagem que recebeu merecido repúdio da sociedade.

Que é uma sacanagem explícita esse princípio da compensação fica claro do seguinte:

1) A necessidade de corrigir a tabela decorre da inflação. Como há inflação, e, mesmo sem indexação, há reajustes salariais, por causa da inflação, a cada ano que passa, sem que seja corrigida a tabela, há um aumento real dos impostos pagos pelos assalariados, que passam a ganhar um pouco mais mas têm os seus descontos feitos com base em uma tabela não reajustada. OU seja: o governo já vem sendo compensado há cinco anos pela correção da tabela ora contemplada, que, é bom repetir, incorpora apenas 20% da correção necessária (deveria ser 50%, foi proposto 10%).

2) Com a inflação, cresce a receita das empresas (e não só o salário dos empregados), que passam a pagar mais impostos — sendo esta uma segunda fonte de compensação do governo.

3) Além disso, tem havido crescimento na economia, mesmo descontada a inflação, o que aumenta também a arrecadação do governo — o produz uma terceira fonte de compensação do governo.

Não é à toa que o governo vem anunciando recorde atrás de recorde em arracadação.

E agora vem com essa piada de que necessita de compensação??? Compensação ele já a teve, e muito maior do que o gasto que terá com a correção agora contemplada, que é, nunca é demais repetir, de apenas 20% do total que deveria estar sendo aplicado à tabela.

Mas além do princípio da compensação o governo tem invocado um outro princípio em defesa da molecagem que fez no final de 2004 (na verdade, já em 2005, com data atrasada para poder vigorar a partir deste ano). Esse princípio é, supostamente, o da eqüidade fiscal.

Argumenta o governo que a pessoa física pagaria imposto de renda de até 27,5% sobre os rendimentos do salário, e que, por isso, muitas pessoas físicas criam uma empresa para adquirir uma identidade jurídica, que lhe permite pagar menos impostos.

Diga-se, de passagem, que com esse argumento este governo já reajustou a base de cálculo dos prestadores de serviço que pagam Imposto de Renda sobre o lucro presumido de 12% para 32% do faturamento. Agora pretendia aumentar ainda mais essa base de cálculo, de 32% para 40% do faturamento.

Em relação a esse argumento (totalmente fajuto) da eqüidade fiscal, há que se considerar o seguinte:

1) A maior parte das pessoas físicas que criam uma empresa o fazem, não por iniciativa própria, com o objetivo de praticar a chamada elisão fiscal (sonegação legal), mas, sim, por exigência de seus clientes, em geral grandes empresas ou grandes organizações não governamentais. Pela legislação trabalhista vigente, pode presumir-se vínculo trabalhista se eu, pessoa física, prestar serviços regularmente, como autônomo, mediante recibos, a uma empresa ou organização não governamental. Por isso, nenhuma dessas instituições quer deixar que se caracterize uma prestação de serviços regular para elas por parte de autônomos. Assim, exigem que o prestador de serviços crie uma "firminha" para permitir que a empresa ou organização não governamental pague a uma outra empresa pelo serviço, não a um autônomo.

2) Da mesma forma que essa medida traz benefícios à empresa ou organização não governamental contratante, que não tem de recolher FGTS, INSS, etc., traz prejuizos ao prestador de serviços, que, é verdade, paga um pouco menos de imposto de renda, mas, em compensação, não ganha férias, décimo terceiro, seguro saúde, etc. etc.

3) Assim sendo, o imposto de renda menor da empresa prestadora de serviços se dá por causa desses prejuizos que o prestador de serviço dono da empresa tem — não porque ele quer pratica elisão fiscal.

Por enquanto é isso. Precisamos manter a pressão sobre os amigos do dinheiro alheio que habitam os palácios governamentais.

Campinas, SP, em 31 de Março de 2005

Felicidade, individualismo, igualitarismo

Algumas observações, que deveriam ser desnecessárias, por tão óbvias, sobre o artigo transcrito abaixo, "A felicidade está de volta", de Richard Layard:

1) Nenhum liberal clássico jamais disse que o mero aumento de renda — a riqueza, pura e simples — é suficiente para nos fazer felizes. O que o autor chama de "a teoria econômica padrão", caso ele esteja se referindo ao liberalismo clássico, nunca afirmou isso. É uma grossa besteira afirmar que "a teoria econômica padrão [reza que isso — desenvolvimento econômico] deveria ter tornado todos nós mais felizes".

2) O liberalismo clássico nunca defendeu a tese de que a riqueza é condição suficiente para a felicidade. Disse, isso sim, que a LIBERDADE (não riqueza) é condição NECESSÁRIA (não suficiente) para um ser RACIONAL (um cachorro pode até ser feliz sem liberdade, mas não o ser humano).

3) Apesar do evidente disgosto com que o autor se refere a elas, foi o aumento de riqueza assinalado aconteceu exatamente em sociedades individualistas e competitivas (i.e., em sociedades capitalistas, para usar o termo que o autor parece ter medo de dizer, como se fosse um palavrão).

4) O fato de uma pessoa não se sentir feliz, mesmo se livre, simplesmente comprova que a liberdade não é uma condição suficiente para a liberdade — apenas necessária. Alguém pode ser livre e, entretanto, infeliz, por não ter maiores objetivos na vida, além de continuar vivendo, e, portanto, não ter um projeto de vida pelo qual lutar; ou, tendo um projeto de vida, por não ter sido capaz de transformá-lo em realidade. Dinheiro é apenas um meio. Ele não vem com a garantia de que vamos saber usá-lo para construir e transformar em realidade nosso projeto de vida — cuja realização vai nos fazer felizes.

5) A afirmação de que, "quando o desconforto material está finalmente banido, a renda adicional torna-se muito menos importante do que os nossos relacionamentos uns com os outros", não é novidade alguma. Abraham Maslow, em sua pirâmida de necessidades, já havia assinalado que dinheiro é extremamente importante para quem não o tem e o deseja (ou precisa dele), ou para quem o tem contadinho, mal dando para cobrir as necessidades da vida. Acima disso, outras coisas em geral se tornam mais importantes. Apesar de os ricos serem acusados de gananciosos que só pensam em dinheiro, a eles se aplica o que Aristóteles já sabia: dinheiro é meio, e nós só o desejamos porque ele pode nos trazer alguma outra coisa que desejamos. Bill Gates talvez seja a pessoa menos obcecada por dinheiro hoje em dia — e o menos ganancioso: o dinheiro que ele já tem ele está dando.

6) "O desejo de ser feliz é um aspecto central da nossa natureza". Concordo plenamente. Mas dada a natureza auto-centrada (auto-interessada, egoísta) do ser humano, o que o autor do artigo acrescenta não é verdade. Ele apela para o utilitarismo de Jeremy Bentham para defender uma tese igualitarista e não individualista. Diz ele: "Seguindo os preceitos do utilitarismo, um pensamento estabelecido pelo filósofo inglês Jeremy Bentham (1748-1831), eu quero uma sociedade na qual as pessoas sejam tão felizes quanto possível [CERTO] e na qual a felicidade de cada pessoa seja tão importante quanto à das outras" [ERRADO]. A idéia do utilitarismo é ter uma sociedade que maximize as possibilidades de as pessoas serem felizes — não uma sociedade em que todo mundo é igualmente feliz. Isso não vai acontecer nunca, e os utilitaristas, que não eram ignorantes nem utópicos, sabiam disso.

7) Afirma o autor na seqüência: "Esta deveria ser a filosofia a ser seguida em nossa época, a principal referência de toda política pública e de toda ação individual. E, por fim, ela deveria substituir o intenso individualismo que foi incapaz de nos tornar mais felizes." Talvez eu seja um péssimo leitor (por isso transcrevo o artigo na íntegra abaixo para que outros possam conferir), mas onde foi que o autor mostrou que é o individualismo que nos impede de nos tornar mais felizes??? Ele não mostrou nada que chegue perto dessa conclusão. Na verdade, ele nem mesmo discute essa questão. Ela simplesmente afirma (sem provar) que americanos e ingleses não se sentem mais felizes hoje do que há 50 anos (ele teria entrevistado gente que tinha pelo menos 20 anos 50 anos atrás, para poder comparar?) e afirma (também sem provar) que a depressão e a criminalidade tem aumentado (em termos absolutos ou em termos relativos ao número de pessoas existentes?). Mas talvez eu esteja a exigir demais de igualitaristas.

O resto, em especial a tentativa de encontrar um embasamento científico para o igualitarismo e o redistributivismo, dispenso-me de comentar.

Phoenix, AZ, 6 de Março de 2005

Abaixo o artigo citado:

http://noticias.uol.com.br/midiaglobal/prospect/2005/03/02/ult2678u6.jhtm

02/03/2005

A felicidade está de volta

O aumento da renda média nas sociedades ocidentais não nos torna mais felizes, enquanto as sociedades cada vez mais individualistas e competitivas tornam alguns de nós decididamente infelizes

Por Richard Layard*

Em Londres

Os responsáveis pelas políticas públicas deveriam se inspirar mais uma vez no utilitarismo do filósofo inglês Jeremy Bentham (1748-1831), que permaneceu fora de moda por muitas décadas, mas que agora vem sendo reivindicado pela neurociência moderna.

Ao longo dos últimos 50 anos, nós, os ocidentais, fomos beneficiados por um crescimento econômico sem paralelo. Hoje, nós dispomos de casas, automóveis, férias e empregos melhores, e, sobretudo, de sistemas educacionais e de saúde mais aprimorados. Conforme reza a teoria econômica padrão, isso deveria ter tornado todos nós mais felizes.

Mas as pesquisas mostram que não é bem assim. Quando perguntam aos britânicos e aos americanos se eles se sentem felizes, eles respondem que não houve qualquer melhora neste campo nos últimos 50 anos.

Um número maior de pessoas sofre de depressão, enquanto a criminalidade –um outro indicador de insatisfação– está muito mais elevada.

Esses fatos representam verdadeiros desafios para muitas das prioridades que nós havíamos definido para nós mesmos, tanto como sociedades quanto como indivíduos. A verdade é que nós nos encontramos numa situação que o homem desconhecia anteriormente.

Quando as pessoas vivem no limite da sobrevivência, o progresso material de fato as torna mais felizes. As pessoas que vivem no mundo rico (ou seja, com uma renda anual acima de, digamos, US$ 20.000 –R$ 52.640– por pessoa) são mais felizes do que pessoas de países mais pobres, enquanto as pessoas que vivem em países pobres se tornam de fato mais felizes quando elas se tornam mais ricas.

Mas, quando o desconforto material está finalmente banido, a renda adicional torna-se muito menos importante do que os nossos relacionamentos uns com os outros: com a família, com os amigos e dentro da comunidade. O perigo vem de que nós sacrificamos em demasia os nossos relacionamentos ao perseguirmos uma renda maior.

O desejo de ser feliz é um aspecto central da nossa natureza. Além disso, seguindo os preceitos do o utilitarismo, um pensamento estabelecido pelo filósofo inglês Jeremy Bentham (1748-1831), eu quero uma sociedade na qual as pessoas sejam tão felizes quanto possível e na qual a felicidade de cada pessoa seja tão importante quanto à das outras.

Esta deveria ser a filosofia a ser seguida em nossa época, a principal referência de toda política pública e de toda ação individual. E, por fim, ela deveria substituir o intenso individualismo que foi incapaz de nos tornar mais felizes.

Contudo, o utilitarismo permaneceu fora de moda por muitas gerações, em parte por causa da crença segundo a qual a felicidade era demasiadamente insondável. Nos últimos anos, isso começou a mudar. A "ciência" da felicidade, que começou a se desenvolver nos Estados Unidos nos últimos 20 anos, defende a idéia segundo a qual a felicidade constitui uma dimensão objetiva da experiência (um dos pais desta idéia, Daniel Kahneman, recebeu o prêmio Nobel de economia em 2002).

A cada instante, nós nos sentimos bem ou mal, numa escala que se estende da miséria até o êxtase. Os nossos sentimentos de bem-estar ou mal-estar são afetados por muitos fatores, que vão desde o conforto físico até o nosso senso interior de significado. O que importa é a totalidade da nossa felicidade ao longo dos meses e dos anos, e não apenas os prazeres efêmeros. A nova ciência pode nos permitir medir essa quantidade de felicidade e explicar as suas características.

Para medir a felicidade, nós mesmos podemos perguntar a uma pessoa o quão feliz ela é, ou podemos perguntar aos seus amigos, ou ainda encarregar desta tarefa investigadores independentes. Em todos os casos, essa pesquisa resultará em conclusões similares.

A grande ruptura se deu no campo da neurociência. Richard Davidson, da Universidade do Wisconsin (EUA), identificou uma área, situada na parte esquerda do nosso cérebro, onde as sensações boas são experimentadas, e uma outra, situada no lado direito, onde as más sensações são experimentadas.

A atividade nessas áreas do cérebro altera-se drasticamente à medida que a pessoa tem experiências boas ou ruins. Aquelas que se descrevem a si mesmos como pessoas felizes são mais ativas do lado esquerdo do que as pessoas infelizes, e menos ativas do lado direito. Com isso, a antiga idéia behaviorista segundo a qual nós não podemos saber como outras pessoas se sentem, passa agora a ser atacada.

O desafio consiste em descobrir o que isso significa em termos de prioridades políticas em sociedades livres como as nossas. Se nós admitimos que os governos pudessem e deveriam ter por objetivo maximizar a felicidade, e não limitar-se simplesmente à renda, em que isso poderia afetar certas escolhas específicas no campo das políticas públicas?

Nós devemos começar estabelecendo os fatores-chave que afetam a felicidade de uma pessoa. A vida familiar e pessoal vem em primeiro lugar em todo estudo, enquanto a vida no trabalho e na comunidade ocupa uma posição importante. A saúde e a liberdade também são cruciais, e o dinheiro conta também, mas de uma maneira muito específica.

Dinheiro traz felicidade –até certo ponto

Eu começarei com o dinheiro –ou, mais especificamente, com a política de taxação da renda. Em qualquer sociedade, as pessoas mais ricas são mais felizes que as pessoas pobres. Ainda assim, à medida que um país ocidental se torna mais rico, a sua população, de maneira geral não se torna mais feliz.

A razão disso é que ao longo do tempo, os nossos padrões de vida e as nossas expectativas vão aumentando em função da nossa renda. Uma pesquisa do instituto Gallup perguntou aos americanos, ano após ano: "Qual é a menor quantidade de dinheiro de que uma família de quatro pessoas precisa para viver bem nesta comunidade?".

As quantias mencionadas aumentam proporcionalmente com a renda média. Uma vez que as pessoas vivem sempre comparando o que elas ganham com o que as outras possuem, ou com o que elas estão acostumadas a ter, eles só se sentirão mais confortáveis se a sua renda estiver relativamente acima da norma.

Esse processo pode ter efeitos contraproducentes. Se eu receber um incentivo que me permita trabalhar mais e ganhar mais, isso me tornará mais feliz. O mesmo acontece com outros membros da sociedade, que também se importam com o seu padrão relativo de vida.

Uma vez que a sociedade como um todo não pode elevar a sua posição em relação a si mesma, os esforços que os seus membros dedicam a esta finalidade poderiam ser considerados como sendo um desperdício –o equilíbrio entre lazer e trabalho tem sido alterado "de maneira não-eficiente" em favor do trabalho.

Para reforçar este ponto de vista, eu gostaria de situá-lo em termos de status, o qual pode derivar tanto do dinheiro que se ganha quanto do dinheiro que se gasta. As pessoas trabalham, ao menos em parte, para aumentarem o seu status. Mas o status é medido em função de um sistema de classificação: um, dois, três e assim por diante.

Então, se uma pessoa melhorar o seu status, outra pessoa estará o perdendo na mesma proporção. É um jogo de soma zero: sacrificar a vida privada com objetivo de aumentar o nível do seu status constitui um desperdício do ponto de vista da sociedade com um todo.

É por isso que essa competição implacável é tão destrutiva: nós perdemos uma parte considerável da vida em família e de paz de espírito ao perseguir uma coisa que, no seu conjunto, não pode ser alterada.

Ou, ao menos, é o que aconteceria conosco –se não precisássemos pagar impostos sobre a renda. Mas os tributos sobre o que se ganha desestimulam o trabalho. A maioria dos economistas vê na taxação um fator negativo, de desvantagem. Eles afirmam que quando alguém paga 100 libras esterlinas (cerca de R$ 505) em impostos, o impacto é maior do que parece –o tributo possui um "excesso de carga"– por causa da distorção que isso gera em tudo o que não está diretamente ligado ao trabalho.

Mas sem impostos, haveria uma distorção ineficiente em relação ao trabalho. Por isso, os impostos, até certo nível, podem ajudar a melhorar o equilíbrio entre o trabalho e a vida privada dos cidadãos, e, com isso, aumentar o senso geral de bem-estar numa sociedade. Eles funcionam como uma taxa sobre a poluição.

Quando eu ganho mais dinheiro e adoto um estilo de vida mais dispendioso, isso exerce uma pressão sobre os outros, que vão tentar se equiparar a mim –a minha ação faz subir o nível da norma e os torna menos satisfeitos com o que eles têm. Eu me torno igual ao dono daquela fábrica que expele fuligem sobre a lavanderia da vizinhança. E o remédio econômico clássico para questões ligadas à poluição é fazer com que o poluidor pague.

De vez em quando, as pessoas contestam este argumento. Elas alegam que esta maneira de ver as coisas faz o jogo dos invejosos ou ainda que ela vai contra o crescimento pessoal do indivíduo. É verdade que medidas como essas reduzem algumas formas de liberdade. Mas nós não podemos simplesmente descartar o caráter universal das comparações de status; o desejo de adquirir um status sempre maior é parte integrante dos nossos genes.

P
esquisas sobre o comportamento dos macacos mostram como isso funciona: quando um macaco macho é deslocado de um grupo no qual ele é o chefe para um outro grupo no qual o seu status é inferior, o seu cérebro experimenta uma queda brutal dos níveis de serotonina –o neurotransmissor mais claramente associado aos sentimentos de felicidade.

Portanto, se a competição humana por status se revela como uma deficiência –do ponto de vista da felicidade como um todo na sociedade– faz sentido reduzir ligeiramente essa liberdade, retirando pequenas quantidades dela por meio de uma política tributária.

Aqueles que querem acabar com os impostos deveriam explicar por que eles acham que nós deveríamos trabalhar mais e sacrificar a nossa vida em família e na comunidade em favor de uma competição por status cuja resultante acaba sempre sendo zero.

Eles podem argumentar que trabalhar duro é bom para os consumidores. Mas os trabalhadores são as mesmas pessoas que os consumidores. Não faz sentido matar nós mesmos no trabalho em proveito de nós mesmos como consumidores.

A isso, acrescenta-se uma outra consideração: quando nós trabalhamos mais e, com isso, aumentamos o nosso padrão de vida, nós apreciamos inicialmente o salto qualitativo que isso gera, mas logo nos acostumamos com ele.

Uma pesquisa demonstra que as pessoas não percebem adequadamente este processo de habituação, e que elas não se dão conta plenamente de que uma vez que elas experimentaram um estilo de vida superior, elas terão o sentimento de que é preciso continuar a aprimorá-lo. De fato, elas se tornarão viciadas nele. Mais uma vez, a receita econômica padrão para lidar com o vício do consumo é taxar essas despesas.

Estes são argumentos em favor da taxação não no sentido de obter dinheiro com ela, e sim com o objetivo de restringir a atividade que é poluidora e causa dependência, e com isso contribuir para manter o delicado equilíbrio entre a vida pessoal e o trabalho.

Tais argumentos deveriam ser incorporados à luta democrática e social contra os cortes de impostos que o governo britânico vem operando. Há também a questão da equidade.

O principal argumento em favor da redistribuição sempre foi o de que um ganho adicional proporciona menos felicidade adicional a uma pessoa rica do que a uma pessoa pobre. Até recentemente, essa noção não passava de uma pura especulação; mas os elementos que foram levantados nas pesquisas confirmam agora que isso é verdade.

De que outra maneira poderíamos nós refrear o impacto da competição implacável? Nós precisamos partir da natureza humana tal como ela é, mas nós podemos também alterar os valores e os comportamentos por meio dos sinais que as nossas instituições transmitem.

Uma focalização explícita na felicidade poderia permitir mudar as atitudes em relação a muitos aspectos da política, inclusive nos campos da educação e do treinamento, das políticas regionais e dos pagamentos relacionados com o desempenho.

Respeito

Num certo sentido, o que as pessoas mais almejam é o respeito. Elas procuram alcançar o status econômico porque isso proporciona respeito. Mas nós podemos aumentar ou diminuir o peso que atribuímos ao status. Numa sociedade cada vez mais competitiva e que valoriza cada vez mais a meritocracia, a vida se tornará cada vez mais difícil para as pessoas situadas na parte inferior das escala das capacidades, a não ser que nós desenvolvamos critérios mais abrangentes para o respeito.

Nós deveríamos respeitar as pessoas que cooperam com outras sem obter com isso qualquer ganho financeiro para elas mesmas, e quem se mostrar talentoso e empenhado em qualquer nível de atividade. Isso explica por que é tão importante fazer com que cada pessoa possa desenvolver uma habilidade.

Na Grã-Bretanha, isso significa garantir que todos os jovens possam ter acesso a uma aprendizagem se eles desejarem, de modo que aqueles que não obtiveram um sucesso acadêmico na escola ou na universidade possam conhecer o gosto do orgulho profissional, e evitar assim ingressar na vida adulta considerando a si mesmos como pessoas fracassadas.

Da mesma forma, nós deveríamos considerar com ceticismo instituições que atribuem um maior peso à posição, tais como as que determinam uma remuneração em função do empenho da pessoa (em inglês, "performance-related pay" – PRP).

A idéia que está por trás do PRP é que ao remunerar as pessoas em função daquilo que elas realizam, nós estabelecemos o melhor sistema possível de incentivos. Nos casos em que nós podemos medir o nível de desempenho das pessoas de maneira acurada, nós deveríamos remunerá-las em função disso –pessoas tais como representantes de vendas que viajam, vendedores de divisas estrangeiras ou jóqueis de competições hípicas. E nos casos em que o desempenho depende dos esforços de uma equipe, nós deveríamos recompensar a equipe, a partir do momento em que o seu desempenho pode ser medido sem ambigüidade.

Contudo, os gurus da administração de empresas com freqüência buscam algo mais: eles querem que a cada ano seja feita uma equiparação entre a remuneração individual e a performance individual. O problema é que na maioria dos empregos, não existe uma medição objetiva do desempenho individual, o que faz com que as pessoas precisem ser avaliadas em comparação com os seus colegas de trabalho.

Mesmo se as avaliações procuram ser objetivas em vez de comparativas, a maioria das pessoas sabe quantas pessoas pertencem a cada grau da escada. O efeito disso é a tendência a incluí-las dentro de um ranking.

Se todo mundo estivesse de acordo quanto aos critérios dessas classificações, esses rankings até que não seriam tão ruins. Mas várias pesquisas demonstraram que existem muito poucas correlações entre os critérios de classificação utilizados pelos profissionais encarregados de fazer essas avaliações.

Com isso, uma grande parte de auto-estima (e com freqüência uma remuneração muito baixa) está sendo vinculada a um processo de classificação duvidoso que altera fundamentalmente a relação de cooperação entre um empregado e o seu patrão, e entre um empregado e os seus colegas de trabalho.

É impossível evitar fazer comparações entre as pessoas, uma vez que a hierarquia é necessária e inevitável. Algumas pessoas são promovidas e outras não. Além disso, as que são promovidas precisam receber um salário maior, uma vez que elas são talentosas e que o empregador busca formar um quadro de pessoas talentosas.

Assim, a remuneração é importante por exercer uma influência decisiva em certos momentos-chave, sendo uma maneira de influenciar as decisões das pessoas em relação às atividades ou na escolha entre um empregador e outro.

Felizmente, as promoções e as mudanças de um emprego para outro continuam sendo relativamente pouco freqüentes para a maioria das pessoas. Na vida de trabalho cotidiana, os valores de remuneração relativos não costumam fazer parte das suas preocupações as mais importantes. Mas a PRP muda tudo isso.

Os economistas e os políticos tendem a acreditar que, quando as motivações financeiras para o desempenho são aumentadas, as outras motivações permanecem as mesmas. Mas n
em sempre isso acontece, conforme mostra o seguinte exemplo.

Num centro educacional em Israel, os pais quase sempre chegavam com atraso para buscar os seus filhos, o que levou o estabelecimento a instituir uma multa por atraso. O resultado desta medida foi uma surpresa: um número maior de pessoas acabou se atrasando. A partir daquele momento, elas haviam passado a considerar a fato de chegarem atrasadas como algo que elas tinham direito de fazer, a partir do momento em que elas pagavam por isso; a multa tornou-se o preço a pagar por isso.

A ética profissional deveria ser altamente valorizada. Se nós não a cultivarmos, podemos acabar não conseguindo aprimorar os níveis de desempenho, e nem sequer produzir trabalhadores que gostam do que fazem.

Os incentivos financeiros exercem efeitos importantes sobre as carreiras que as pessoas escolhem, e os empregadores para os quais elas decidem trabalhar. Mas, a partir do momento em que alguém se junta a uma organização, o respeito da igualdade também constitui um poderoso efeito motivador. Nós deveríamos explorar esta motivação. Em vez disso, o governo, nos últimos 30 anos, andou desmoralizando os trabalhadores, valorizando constantemente certos tipos de motivações que eles consideram como sendo "de nível inferior".

Se quisermos ter uma sociedade mais feliz, nós deveríamos nos concentrar sobretudo nas experiências que as pessoas valorizam por considerarem que elas valem realmente a pena e não porque outras pessoas determinaram que elas são importantes –acima de tudo, no que diz respeito aos relacionamentos no quadro da família, no trabalho e na comunidade.

Relações sociais

Ao que tudo indica, os confortos adicionais dos quais podemos agora desfrutar aumentaram de alguma maneira o nosso nível de felicidade, mas que a deterioração dos nossos relacionamentos nos tornou menos felizes.

Nesse contexto, o que a política social deveria tentar realizar, apesar dos efeitos limitados que ela tem sobre a nossa vida privada? A seguir vamos propor alguns exemplos do que poderia ser feito.

Divórcios e lares desfeitos vêm se tornando cada vez mais comuns. Uma pesquisa mostra que as crianças oriundas de lares desfeitos estão mais propensas a sofrerem de depressão quando adultas. Para proteger as crianças, o Estado deveria agir no sentido de tentar tornar a vida em família mais viável, estabelecendo melhores horários escolares, horários de trabalho mais flexíveis, creches cujos regulamentos foram realmente comprovados.

Deveria também haver mais tempo livre, no quadro do trabalho, para permitir o exercício da maternidade e da paternidade. Aulas de educação parental deveriam também ser obrigatórias no currículo escolar e uma prática automática para os pais antes do nascimento de um filho.

Conforme mostram as pesquisas, o desemprego é uma experiência de vivência tão difícil quanto a do divórcio. Ela ofende a nossa necessidade de nos sentirmos necessários para a sociedade. Por isso, a redução das taxas de desemprego deveria ser um objetivo prioritário.

O governo britânico tem obtido bons resultados, lançando mão de políticas adequadas que permitiram a reinserção das pessoas no mercado de trabalho, o que, de maneira geral, permitiu evitar a geração de pressões inflacionárias neste campo.

A condução de boas políticas também permitiu dividir por dois as taxas de desemprego na Dinamarca e na Holanda. Contudo, a Alemanha e, sobretudo, a França têm se mostrado lentas em adotar essas políticas. Políticas deficientes em relação aos desempregados e políticas salariais equivocadas nas empresas são as causas principais do elevado nível de desemprego na Europa. A segurança do emprego não é a questão a mais importante.

A segurança do emprego é algo que as pessoas querem, enquanto uma proteção razoável é algo que uma sociedade rica tem condições de proporcionar. O mesmo pode ser dito em relação a garantir boas condições de trabalho, isso se o estresse não obrigar uma grande quantidade de pessoas mais frágeis a se refugiarem na inatividade e na dependência do Estado.

É absurdo alegar que a globalização reduziu a nossa capacidade de prover uma vida civilizada para os nossos trabalhadores. Ao contrário, essas condições aumentaram –contanto que a remuneração aumente apenas proporcionalmente com a produtividade.

O aumento da criminalidade entre 1950 e 1980 é a demonstração mais estarrecedora de que o crescimento econômico não aumenta automaticamente a harmonia social. Este aumento das taxas de crimes ocorreu em todos os países avançados, exceto no Japão, e as suas causas não foram completamente esclarecidas.

Uma dessas causas é o anonimato. As taxas de criminalidade são elevadas quando existe uma alta mobilidade geográfica. É claro, o melhor termômetro para se prever a quantidade de crimes numa comunidade é o número de pessoas que cada morador conhece nos arredores de sua casa, num raio que corresponde a um passeio de 15 minutos: quanto mais pessoas eles conhecem, quanto menor é a taxa de crimes.

Por isso, nós deveríamos tentar favorecer e dar consistência às comunidades, em vez de recorrer a campanhas pouco realistas do tipo "faça as coisas com a sua bicicleta" ou emigrar para outros países para resolver os nossos problemas, tal como os economistas defensores do livre mercado costumam recomendar com freqüência.

A defesa de um apoio regional visando a ajudar as comunidades a prosperarem torna-se muito mais forte quando se focaliza a felicidade e não quando o objetivo é puro e simplesmente o aumento do produto interno bruto (PIB) por si só.

A importância de manter o foco na felicidade poderia também nos ajudar a repensar as prioridades no plano da previdência social. Um dos mais antigos problemas que afligem a humanidade são as doenças mentais. Um terço dentre nós deverá ser acometido de alguma doença mental em algum momento da nossa vida, e pelo menos a metade dentre nós precisará lidar com algum caso de insanidade mental dentro da sua família.

Problemas psiquiátricos

Dos 5% de pessoas mais infelizes na nossa sociedade, 20% são pobres (no quinto grau mais baixo da nossa escala de renda), mas 40% dentre elas são mentalmente deficientes. Então, se nós quisermos produzir uma sociedade mais feliz, a prioridade para o NHS (sigla inglesa para Serviço Nacional de Saúde) deveria ser de investir muito mais nos serviços de saúde mental.

Apenas 15% das pessoas acometidas de algum tipo de depressão clínica chegam a consultar um especialista (um psiquiatra ou um psicólogo). Para os outros, a maior parte se contenta com uma consulta de dez minutos com um médico generalista e com algumas pílulas. A maior parte das pessoas deprimidas quer se submeter a uma psicoterapia, de maneira a entender o que está acontecendo dentro da sua mente.

Os testes clínicos mostram que a terapia adequada é tão eficiente quanto os remédios, e tem efeitos muito mais duradouros. Mas, na maioria dos setores da sociedade, esse tipo de terapia simplesmente não está disponível entre os serviços fornecidos pelo NHS, ou ainda, ela implica um tempo de espera intolerável.

Se nós quisermos reduzir a miséria, o NHS deveria oferecer tratament
os terapêuticos destinados às pessoas com problemas de saúde mental e ainda ajudá-los a retornar ao trabalho, uma vez o tratamento terminado.

Por fim, existe também o "ethos" –o ambiente social, familiar e escolar– em meio do qual os nossos filhos crescem. Uma das pesquisas mais desanimadoras que foram realizadas nos últimos anos foi dirigida pela Organização Mundial da Saúde (OMS).

Como parte de um questionário mais amplo, colegiais de 11 a 15 anos de idade responderam se eles concordavam com a afirmação segundo a qual "na sua maioria, os alunos da minha classe são simpáticos e prestativos".

Proporcionalmente, a quantidade dos que responderam "sim" situou-se acima dos 75% na Suécia na Suíça e na Alemanha, em 53% nos Estados Unidos e abaixo de 46% na Rússia e na Inglaterra.

Estas descobertas estão afinadas com as apurações de pesquisas nas quais grupos de adultos devem responder a perguntas sobre confiança. Uma pergunta que volta com freqüência é: "Você diria que é possível confiar na maioria das pessoas –ou você diria que não existe prudência em excesso quando se trata de lidar com as pessoas?".

Na Grã-Bretanha e nos Estados Unidos, os que responderam: "Sim, é possível confiar na maioria das pessoas" caiu de 55% em 1960 para abaixo de 35% nos dias de hoje.

Desde os tempos mais remotos da história da humanidade, as pessoas mais idosas sempre se queixaram de um suposto declínio dos valores morais.

Mas existem algumas evidências de que isso está realmente acontecendo agora. Em várias épocas diferentes, cidadãos americanos, representativos das diversas camadas da população, responderam se eles acreditam que as pessoas "vivem hoje uma vida tão boa –no plano da moral e da honestidade– quanto o faziam no passado".

Em 1952, o número de pessoas que responderam "sim" equiparou-se ao das pessoas que disseram "não". Em 1998, um número três vezes maior de entrevistados respondeu "não".

Nós vivemos numa época em que o individualismo alcança níveis sem precedentes. A obrigação mais importante que muitas pessoas consideram ter é obter o máximo de si mesmo, de maneira a realizarem o seu potencial da melhor maneira possível.

Trata-se de um objetivo tão assustador quanto solitário. É claro, elas estão conscientes de que elas têm obrigações para com outras pessoas também, mas estes compromissos não se baseiam em nenhum conjunto claro de idéias.

A antiga visão do mundo religiosa se foi; e o mesmo aconteceu com a religião dominante do Pós-guerra que preconizava a solidariedade social e nacional. Assim, nós ficamos desprovidos de qualquer conceito do bem comum ou de significado coletivo.

No mundo contemporâneo, o senso comum baseia-se em duas idéias dominantes –derivadas (erroneamente) das idéias de Charles Darwin e Adam Smith.

Da teoria da evolução defendida por Darwin foi inspirada a idéia segundo a qual se você não procurar lutar para defender os seus próprios interesses, ninguém o fará no seu lugar. Da análise do mercado elaborada por Smith decorre a idéia segundo a qual a auto-suficiência não é tão destrutiva uma vez que, por meio de intercâmbios voluntários de especialidades, todos nós nos tornaremos tão completos até onde for possível, levando-se em conta os nossos recursos, a tecnologia de que dispomos e os nossos gostos.

Mas os nossos gostos não são dons que recebemos ao nascer, e todas as sociedades bem-sucedidas sempre se encarregaram de ajudar os seus cidadãos a adquiri-los. Isso sempre estimulou os sentimentos comunitários e proporcionou o conceito de bem comum.

Então, qual deveria ser o nosso conceito de bem comum? Durante o século 18, o século do Iluminismo, Bentham, junto com outros filósofos, defendia a idéia de que a boa sociedade era aquela cujos membros eram tão felizes quanto possível.

Assim, toda política pública deveria ter por objetivo de produzir a maior felicidade da maior quantidade possível dos seus membros, enquanto as decisões privadas deveriam do mesmo modo almejar a maior felicidade possível a de todos aqueles afetados. Durante o século 19, este ideal inspirou um bom número de reformas de caráter social. Mas, no século 20, ele foi atacado por duas forças principais.

A primeira questionou a possibilidade de se conhecer o que outras pessoas sentiam. Segundo este "behaviorismo", tudo o que nós podemos fazer é ficar observando os comportamentos das pessoas. Nós não podemos fazer nenhuma inferência sobre os seus estados interiores. Esta idéia desumana surgiu no campo da psicologia, com John Watson e Pavlov, e transferiu-se para a economia por intermédio de Lionel Robbins, John Hicks e outros.

Se nós admitimos esta abordagem, nós não podemos mais pensar na felicidade como um objetivo a ser alcançado. Tudo o que se pode dizer de uma pessoa é que oportunidades estão à sua espera se ela souber agarrá-las. Se ela tiver perdido a capacidade de tirar proveito delas, isso é irrelevante.

A partir deste ponto, há uma distância muito curta até as concepções que definem o bem-estar individual em termos de poder aquisitivo, e o bem-estar de uma nação em termos de produto interno bruto (PIB) ajustado para o lazer. Nós precisamos desesperadamente substituir o PIB, por mais que este seja ajustado, por instrumentos de medição mais sutis do bem-estar nacional.

Felizmente, esta onda no campo da psicologia já passou, e o senso comum foi restabelecido. Nós nunca poderíamos ter vivido juntos caso nós não tivéssemos idéia alguma do que os outros sentem. E agora, a nossa idéia está sendo confirmada por sólidos avanços nos campos da psicologia e da neurociência.

Bentham

A tese de Bentham nos fornece meios de medição cada vez mais práticos para as políticas públicas e para a ética pessoal. Eu a modificaria apenas num dos seus aspectos –no sentido de conferir um peso maior à meta de melhorar o grau de felicidade daqueles que são os menos felizes, excluindo com isso a opressão das minorias (isso também serve para rebater a objeção superficial que chegou a ser apresentada contra o utilitarismo segundo a qual o abuso brutal contra uma pequena minoria seria aceitável se tal abuso fizesse com que a maioria se tornasse mais feliz).

A segunda frente de ataque contra a tese da felicidade maior veio da filosofia. Desde o início, ela tem sido objeto de muitas críticas, enquanto uma filosofia alternativa, baseada nos direitos individuais começou a ficar na moda.

Mas esta logo apresentou dois inconvenientes sérios. Primeiro, é difícil solucionar o dilema quando direitos entram em conflito entre si. Em segundo lugar, a filosofia é altamente individualista. Ela lhe diz o que você está no direito de esperar, e o que você não deveria fazer. Mas ela fornece poucas indicações sobre aquilo que você deveria fazer –qual carreira você deveria escolher, ou como você deveria se comportar quando o seu casamento vai para o brejo.

A regra de Bentham fornece uma estrutura para pensar a respeito dessas questões, o que a filosofia dos direitos não faz: a sua visão do bem comum é por demais limitada para nos guiar
na tentativa de trabalhar pelo bem dos outros. Mas será que a regra de Bentham em si é sólida o suficiente para poder integrar também o conceito dos direitos? A seguir, vamos considerar duas grandes objeções a esta suposição.

Primeiro, o que há de tão especial a respeito da felicidade? Por que a maior felicidade possível? Por que não a maior saúde, autonomia, realização, liberdade possível, e daí por diante?

Se eu lhe perguntar por que a saúde é uma coisa boa, você vai apresentar razões diversas: as pessoas não deveriam sentir dor. Sobre a autonomia: as pessoas se sentem melhor quando elas podem controlar a sua vida. E daí por diante.

Mas seu eu lhe perguntar por que a felicidade é uma coisa boa, você responderá que é evidente por si só. E a razão disso está profundamente enraizada em nossa biologia. Nós somos programados para tirar proveito de experiências que são boas para a nossa sobrevivência, o que explica por que nós sobrevivemos.

Nós também fomos programados em parte para ter um senso de justiça. Se uma refeição precisa ser compartilhada por duas pessoas, a maioria dentre nós aceita (às vezes com relutância) que os alimentos devem ser divididos em duas partes iguais – partindo do pressuposto de que, em princípio, os outros contam da mesma forma que nós.

Se você concatenar esta idéia com o fato de que cada um de nós quer ser feliz, você acaba desembocando no princípio de Bentham. É uma concepção tão idealista quanto realista. Ela coloca os outros num nível de igualdade com nós mesmos, lá mesmo onde eles deveriam estar, mas, ao contrário de certos sistemas morais, ela também nos permite levar em conta a nossa felicidade.

A segunda objeção consiste em que a regra incentiva o senso de oportunidade. Não é bem assim. Todos nós sabemos que nós não podemos avaliar cada ação, em cada momento, contra o princípio de Bentham como um todo. É por isso que nós precisamos ter sub-regras, tais como a honestidade, a determinação a cumprir uma promessa, a gentileza, e daí por diante, as quais nós costumamos seguir normalmente como algo lógico e natural.

E, além disso, é também por esta razão que nós precisamos de direitos claramente definidos, e incorporados a uma Constituição. Mas quando regras morais ou direitos legais acabam conflitando entre si, nós precisamos do um princípio abrangente para guiar-nos, o que é proporcionado pelas concepções de Bentham.

Esta regra é também criticada por estipular os objetivos antes de definir os meios, por considerar apenas as conseqüências das ações como sendo dignas de consideração moral, e não a natureza das ações em si. Mas isso é um erro.

Isso por que as conseqüências de uma decisão incluem necessariamente a ação, e não apenas aquilo que ocorre como resultado desta ação. Uma ação horrível –por exemplo, prender um inocente com objetivo de salvar vidas– iria exigir que ela seja excepcionalmente adequada e que o seu resultado seja extraordinariamente positivo para se revelar justificada. Nós deveríamos considerar os efeitos diretos de uma ação pesando a sua moralidade, do mesmo jeito que nós fazemos com os seus resultados.

Para nos tornarmos mais felizes, nós deveríamos mudar as nossas atitudes interiores do mesmo modo que as nossas circunstâncias externas. Eu estou me referindo à filosofia perene que nos permite encontrar a força positiva dentro de nós mesmos, e para enxergar o lado positivo que outros possuem.

Tal compaixão, por nós mesmos e por outros, é algo que pode ser aprendido. Ela foi muito bem descrita por Daniel Goleman no seu livro intitulado "Emotional Intelligence" ("Inteligência Emocional", editado no Brasil pela editora Objetiva, em 1995), e ela deveria ser ensinada nas escolas.

Toda cidade deveria ter uma política visando a promover uma filosofia de vida mais saudável junto à juventude, e visando a ajudá-los a distinguir entre uma tendência hedonista a curtir prazeres superficiais e a felicidade real.

Então, a minha esperança é de que neste novo século nós consigamos finalmente adotar a maior felicidade possível da humanidade como sendo o nosso conceito de bem comum. Isso teria dois resultados. Serviria como um guia claro para a política.

E, além disso, sendo isso ainda mais importante, ele nos inspiraria em nossa vida cotidiana em obter um prazer maior em nos dedicar à felicidade de outros, e a promovê-la. Desta forma, todos nós poderíamos nos tornar menos imbuídos de nós mesmos e mais felizes.

*Richard Layard tem sido um conselheiro de longa data do Partido Trabalhista para questões de mercado de trabalho. Ele é também membro de honra do partido. O seu livro, "Happiness: Lessons from a New Science" (Felicidade: Lições de uma Nova Ciência) será lançado (na Grã-Bretanha) em 3 de março, pela editora Allen Lane.

Tradução: Jean-Yves de Neufville