“El Secreto de sus Ojos” – 7 (e o Cinema Brasileiro)

Este é o sétimo post sobre “El Secreto de sus Ojos”. Como o sexto, porém, ele passa pelo filme argentino para discutir questões que o tangenciam e que foram levantadas no último post, no artigo de Luiz Felipe Pondé.

Não resta dúvida de que o cinema argentino, através da direção competente de Juan José Campanella, está achando o seu caminho – e é um caminho bom. “El Mismo Amor, La Misma Lluvia”, “El Hijo de la Novia”, e, agora, “El Secreto de sus Ojos” são prova disso. Os dois últimos foram indicados para o Oscar de Melhor Filme Estrangeiro – o último, ganhando o prêmio. Isso mostra que o mundo está de olho no cinema argentino.

Quando vi “O Quatrilho” (1995) pensei que o cinema brasileiro tivesse começando a achar seu caminho. O filme foi reconhecido através de sua indicação para o Oscar de Melhor Filme Estrangeiro (não o tendo ganho por uma injustiça, no meu jeito de ver). “Bella Donna” (1998) foi também um bom filme. Mas agora o cara me vem com “Lula, o Filho do Brasil”, um filme com todo o jeito de um comercial político…

Por que o Brasil não engrena na Sétima Arte? Por que essa tentação, aparentemente quase irresistível, para alternar entre a Scylla da chanchada (quando não da pornochanchada) e a Charybdis do filme pseudo político, onde há abundância de violência e carência de enredo, de boa história?

Por que, com raríssimas exceções, que se contam nos dedos de uma mão, o brasileiro não é capaz de fazer um filme como “El Secreto de sus Ojos”, que faz você sair do cinema emocionado, com lágrimas nos olhos, comentando “Que coisa mais linda!!!”?

O cinema é uma arte narrativa. Por isso, uma boa história, transformada em enredo por quem entende da coisa, é essencial. “The End of the Affair”, de Graham Greene. Que história magnífica. Já foi transformada em filme duas vezes, uma em 1955, outra em 1999, tão boa é. “The Bridges of Madison County”, outra história fantástica, esta de Robert James Waller. “The Remains of the Day”, de Kazuo Ishiguro. As várias boas histórias de Nicholas Spark: “The Notebook”, “Message in a Bottle”, “Nights in Rodanthe”… Todas essas lindas histórias foram transformadas em excelentes filmes (que portaram bem o título do romance em que se inspiraram). Se a história é boa, meio caminho está andado.

Mas o cinema é uma arte narrativa visual. Embora ela seja essencial, a boa história não basta: ela tem de ser contada através de imagens bem tomadas. Aqui o trabalho do cinegrafista (ou cinematógrafo) é essencial – embora ele precise estar bem ajustado com o diretor. Por fim, o cinema é uma arte que depende muito mais de grandes diretores do que de grandes atores. A boa história, visualizada em imagens engajantes, tem de ser narrada por um “master story teller”. Compare-se o suspense criado pelos flashbacks criados por Campanella em “El Secreto de sus Ojos”, por Neil Jordan em “The End of the Affair”, e por Clint Eastwood, em “The Bridges of Madison County”.

Boa história, belas imagens, narração competente.

O Brasil tem boas histórias em sua literatura, como bem salienta Pondé. Deve ter bons cinematógrafos. Fábio Barreto e Fernando Meirelles provam que temos bons diretores. Por que não temos um número razoável de bons filmes? Por que a Argentina está na nossa frente nessa área – e aumentando a distância?

Parece que a “estética cinematrográfica brasileira” está definida, não por uma boa história, belas imagens, e narração competente, mas por violência (policial, política), sexo e humor escrachado (a essência da chanchada). Essa receita não dá filme bom. Quando a abandonamos, como em “O Quatrilho”, quase levamos o Oscar. Mas no restante, passamos longe.

Em São Paulo, 31 de Março de 2010

Vaticano tenta tapar o sol com a peneira

Há dias publiquei aqui o post “Pedofilia entre padres” (http://ec.spaces.live.com/blog/cns!511A711AD3EE09AA!3386.entry).

Ali argumentei em favor de minha conjetura (em três partes) acerca das causas principais desse número relativamente elevado de padres que se envolvem com pedofilia homossexual. 

1) O seminarista, futuro padre, é desde cedo doutrinado a ver na mulher a fonte número um do pecado. Como ele vai ser celibatário, e sabe disso, a mulher é a tentação que ele deve evitar a todo custo. A mulher é, para ele, símbolo de tentação.

2) A Igreja trancafia o futuro padre, em muitos casos desde cedo, em seminários, onde ele fica segregado de mulheres: só vê guris mais ou menos da sua idade – e, naturalmete, os professores (todos homens). Internatos unissex parece que foram bolados para gerar, nos adolescentes, interesse pelo mesmo sexo (principalmente quando o interesse no sexo oposto é proibido).

3) Quando vai exercer o sacerdócio, o padre acaba ficando rodeado de coroinhas, parecidos com os seus coleguinhas de seminário menor, que, agora, o admiram e olham para ele como figura de autoridade. E ele, por outro lado, pela sua doutrinação é condicionado a fugir das mulheres e pela sua formação em internato unissex foi condicionado a se interessar por meninos… Sendo figura de autoridade, não tem muita dificuldade em convencer os meninos de que sexo (em alguma modalidade) com o sacerdote é parte de seus deveres.

Essa combinação de fatores é fatal: ela acaba produzindo essa série aparentemente infindável de casos de pedofilia homossexual entre padres católicos. Não se trata, como já disse, de meros escândalos sexuais em relação aos quais se possa dizer: “Sou culpado, mas que igreja pode dizer que não é?” Trata-se de um fenômeno tipicamente católico que não adianta tentar generalizar.

O UOL Notícias – Últimas Notícias de hoje (29/3/2010) traz uma matéria mostrando que o Vaticano está tentando argumentar que o celibato clerical não tem nada com isso. A Igreja tenta, mais uma vez, tapar o sol com a peneira. Dizer é fácil – substanciar o que se diz com fatos e argumentos, entretanto, é outra coisa, e isso o Vaticano não faz.

Vide a matéria:

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http://noticias.uol.com.br/ultimas-noticias/afp/2010/03/29/para-vaticano-celibato-nao-e-causa-de-abusos-sexuais.jhtm

29/03/2010 – 10h08

Para Vaticano celibato não é causa de abusos sexuais

O presidente do Conselho Pontifício para a Promoção dos Cristãos, o cardeal alemão Walter Kasper, declarou nesta segunda-feira que "o celibato não tem relação com os abusos sexuais de menores cometidos por padres", ao mesmo tempo que cada vez mais denúncias de pedofilia abalam a Igreja Católica da Europa.

O onda de escândalos de pedofilia que afeta o Velho Continente gerou um debate sobre as repercussões do celibato e da abstinência sexual nos sacerdotes, uma tradição milenar que o Vaticano defende de modo ferrenho.

"Todos os especialistas sustentam que a maioria dos abusos acontece dentro da família e não em meios religiosos", afirmou o cardeal alemão, um defensor do celibato, que para ele "não deve ser absolutamente abolido".

Kasper considera que abrir o debate sobre o celibato é "o abuso dos abusos e constitui uma instrumentalização dos casos de pedofilia".

"O celibato é respeitado na Igreja desde antes de virar uma regra canônica no século XI", recordou Kasper.

"Não é um dogma, sim uma antiga tradição que conserva intacta sua razão e não é necessária revisar esta legislação, nem modificar as coisas", destacou.

"É inoportuno abrir o tema neste momento, envenenado pelas polêmicas e os escândalos pelos abusos sexuais cometidos por padres e religiosos", acrescentou.

Apesar das posições intransigentes, alguns religiosos, entre eles o arcebispo de Viena, o cardeal Christoph Schoenborn, pediu recentemente à Igreja uma revisão do tema do celibato.

O cardeal italiano Carlo Maria Martini, renomado intelectual e que está entre os religiosos mais progressistas do colégio cardinalício, considera que "é preciso revisar a obrigação do celibato para os padres".

"Temos que encontrar novos caminhos", afirmou o cardeal Martini, arcebispo emérito de Milão, que não evita o debate sobre temas fundamentais.

"Assuntos profundos como a sexualidade devem ser revisados com as novas gerações, porque apenas um debate aberto pode devolver sua autoridade à Igreja", disse em uma entrevista à imprensa austríaca.

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Em São Paulo, 29 de Março de 2010

“El Secreto de sus Ojos” – 6 (e o Cinema Brasileiro)

O artigo abaixo, de Luiz Felipe Pondé, é o sexto que publico sobre o filme ganhador do Oscar de Melhor Filme Estrangeiro este ano, passa de relance sobre o filme argentino para fazer uma crítica contundente ao cinema brasileiro.

Eis o núcleo da crítica, em cinco parágrafos:  

“Para além de chanchadas requentadas, o pressuposto de que o cinema seja instrumento de consciência social enche o saco de qualquer pessoa que gosta de cinema. Nada mais monótono do que cinema com consciência social, além do mais, porque sabemos que a ‘indústria do bem’ não passa de um disfarce. Os agentes de transformação social pela arte são mero produto, como qualquer outro produto da indústria cultural.

Cinema deve contar histórias, onde o olhar da câmera deve estar no lugar da voz. O conteúdo deve se alimentar de questões eternas, por isso, melhor se alimentar de temas morais do que de políticos, quando não for apenas bom entretenimento. E deve falar à alma e não a pseudodramas políticos de época.

Muitos de nossos futuros cineastas vêm da elite econômica (fazer cinema demanda muito dinheiro e disponibilidade de tempo), e muitas vezes são torturados com falsos dramas de consciência justamente porque são membros da elite. Como se devessem se redimir do que são, dando voz apenas aos pobres, bandidos e miseráveis do país.

E aí vem a repetição: Nordeste, fome, miséria, bandido (como se só por ser bandido, alguém fosse necessariamente vítima de alguma forma de injustiça, quando na realidade muitos bandidos o são porque são maus mesmo), ditadura (essa, então, no cinema, é uma enorme indústria de vítimas bem-sucedidas), favela. E daí, nós recomeçamos: Nordeste, fome, miséria, bandido, ditadura, favela… Nordeste, fome…

Voltemos a Shakespeare, Dostoiévski, Machado de Assis, deixemos Foucault, Glauber e Bourdieu “dormirem” um pouco no formol, para ver se eles sobrevivem ao tempo.“

É isso. Vale a pena ler o artigo inteiro de Pondé.

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Folha de S. Paulo
29 de Março de 2010

LUIZ FELIPE PONDÉ
O olhar da câmera



E por qual razão nós não conseguimos fazer filmes como nossos primos argentinos?


O OSCAR DO filme “O Segredo dos Seus Olhos” foi um prêmio mais do que justo para o cinema argentino. O cinema de “los hermanos” é melhor do que o nosso. E digo isso com lágrimas nos olhos porque sou envolvido diretamente na formação de novos cineastas no Brasil. E por que não conseguimos fazer filmes como nossos primos argentinos?

Resumidamente, eu diria que nosso cinema é, em grande parte, imaturo, sem tradição estética, obcecado por certos temas monótonos, quase amador em termos de conteúdo, e se vê como instrumento de transformação social.

Começaria perguntando o seguinte: a arte deve ser política? Não. Muitas vezes isso atrapalha. E mesmo quando o for, deve ir além desse lero-lero de luta de classes, como no caso do “Segredo dos Seus Olhos” e o tratamento do ambiente pré-ditadura na Argentina, que não é foco principal do enredo. A política mata a arte, tornando-a datada como um panfleto qualquer. A política como tema da arte acaba sempre banal como a política o é na realidade: arranjos pragmáticos de violência e interesses. Quando ela se faz mais do que isso, fica mentirosa ou ridícula.

Nosso cinema varia entre cinema político chato e uma verborragia psicanalítica adolescente. Com exceções.

Outro problema é o culto dispensado a figuras como Glauber Rocha. Se ele foi “revolucionário” em algum momento, o foi apenas no aspecto formal (ainda que eu o tenha sempre achado apenas cansativo e presunçoso, e essa coisa de “cinema novo” sempre me pareceu sobrevalorizada), mas quanto ao conteúdo, acho-o apenas datado e equivocado. Sua intenção revolucionária banhada em marxismo condenou sua visão de mundo a uma “historinha” que parece ter sido escrita em centros acadêmicos de gente de 18 anos (nos anos 60 e 70), que pouco revela da vida real e a sangria moral e existencial que ela realmente é.

Lembremos que foi o próprio Glauber que escreveu em meados dos anos 60 que Machado de Assis seria esquecido porque não captou a luta de classes no período do Segundo Império no Brasil. Meu Deus, tenha piedade dele, porque não sabia a besteira que falava! Machado de Assis é eterno, enquanto ele, assim que a maioria dos formadores dos jovens cineastas pararem de idolatrá-lo, poderá ser confundido com a lata de lixo da história do cinema nacional.

Algumas obsessões de conteúdo, ao meu entender, travam a produção nacional no nível de cineclube de centro acadêmico estudantil. Nada mais aborrecido do que alunos que acham que mudam o mundo: normalmente isso nada mais é do que uma forma chique de matar aula e estudar pouco. Com raras exceções. A força do jovem está no ato de emprestar aos dramas humanos ancestrais a beleza de seu encantamento, desprendimento, coragem e futuro desencantamento.

Para além de chanchadas requentadas, o pressuposto de que o cinema seja instrumento de consciência social, enche o saco de qualquer pessoa que gosta de cinema. Nada mais monótono do que cinema com consciência social, além do mais, porque sabemos que a ‘indústria do bem’ não passa de um disfarce. Os agentes de transformação social pela arte são mero produto, como qualquer outro produto da indústria cultural.

Cinema deve contar histórias, onde o olhar da câmera deve estar no lugar da voz. O conteúdo deve se alimentar de questões eternas, por isso, melhor se alimentar de temas morais do que de políticos, quando não for apenas bom entretenimento. E deve falar à alma e não a pseudodramas políticos de época.

Muitos de nossos futuros cineastas vêm da elite econômica (fazer cinema demanda muito dinheiro e disponibilidade de tempo), e muitas vezes são torturados com falsos dramas de consciência justamente porque são membros da elite. Como se devessem se redimir do que são, dando voz apenas aos pobres, bandidos e miseráveis do país.

E aí vem a repetição: Nordeste, fome, miséria, bandido (como se só por ser bandido, alguém fosse necessariamente vítima de alguma forma de injustiça, quando na realidade muitos bandidos o são porque são maus mesmo), ditadura (essa, então, no cinema, é uma enorme indústria de vítimas bem-sucedidas), favela. E daí, nós recomeçamos: Nordeste, fome, miséria, bandido, ditadura, favela… Nordeste, fome…

Voltemos a Shakespeare, Dostoiévski, Machado de Assis, deixemos Foucault, Glauber e Bourdieu “dormirem” um pouco no formol, para ver se eles sobrevivem ao tempo.

ponde.folha@uol.com.br

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Em São Paulo, 29 de Março de 2010

Caso Isabela: O Circo Nardoni-Jatobá

Embora, no fundo, soubesse que não estava sozinho, sentia-me muito solitário no meu nojo pelo espetáculo que a mídia montou em torno do julgamento do casal Nardoni – e pela reação de boa parte da população brasileira ao que está se passando no Fórum de Santana.

Com o artigo abaixo não me sinto mais tão solitário.

Parece que o Brasil inteiro, sem exceção, acredita que o pai e a madrasta da menina são os responsáveis pela morte dela. A imprensa fala como se fosse fato comprovado que foi isso que se deu. A delegada que presidiu o inquérito disse que está “100% certa” que foram os dois que cometeram o crime. A criminalista parece saltar, impunemente, do fato de que os fatos são coerentes com a possibilidade de que foram eles para a conclusão de que, logo, foram eles. A turba do lado de fora do Fórum (alguns chegam perto da meia noite para conseguir entrada na sala do Tribunal do Juri) hostiliza, ofende e até tenta agredir os advogados de defesa.

Tudo isso me dá nojo.

Acho virtualmente impossível que o corpo de jurados não tenha sentado em julgamento com uma decisão já tomada no íntimo. Acho virtualmente impossível que esse julgamento venha a ser justo.

MAS SE, por falta de provas ou qualquer outra razão, o juri não considerar o casal culpado, a multidão é capaz de invadir o fórum e fazer o que imagina ser justiça com as próprias mãos. Mas, se algo assim acontecer, não será justiça: será vingança. Cega.

No artigo abaixo se diz, com todas as letras que a investigação foi irresponsável e o trabalho pericial foi mal feito. A irresponsabilidade e as falhas saltam aos olhos e ouvidos da gente.

A ciência sai também profundamente desacreditada do episódio. As conclusões dos peritos, alegando com precisão absurda supostos fatos que são meros figmentos de sua imaginação, é um acinte à racionalidade científica.

Estamos dando um passo grande para trás no nosso processo civilizatório ao admitir uma investigação criminal conduzida na frente das câmeras e uma justiça circense.

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http://www.conjur.com.br/2010-mar-24/espetaculo-midia-prejudicar-casal-nardoni-dizem-advogados

O Consultor Jurídico
24 de Março de 2010

Advogados criticam espetacularização do Júri

Por Gláucia Milício

O Júri do casal Alexandre Nardoni e Anna Carolina Jatobá, que já dura três dias, levantou uma discussão sobre o espetáculo midiático montado em torno do caso e até onde a espetacularização da notícia pode prejudicar o julgamento dos réus. Segundo especialistas consultados pela revista Consultor Jurídico, essa exposição é extremamente negativa à defesa dos réus.

O advogado Carlo Frederico Muller afirma que mais uma vez na história brasileira corre-se o risco de condenar pessoas inocentes em virtude da contaminação do que chamou de “frenesi da mídia”. O advogado lembrou-se do caso da Escola Base, que ficou conhecido como símbolo de julgamento precipitado e indevido feito pela mídia. No final, nada se comprovou contra os donos da escola infantil, acusados de abuso sexual de crianças. “Não estou dizendo que o casal é inocente ou culpado. Não preciso defendê-los. Até porque, eles [Alexandre Nardoni e Anna Carolina Jatobá] já estão representados por um ótimo advogado”, registrou.

Frederico Muller afirmou que, fatalmente, o corpo de jurados já entrou na Plenária com um pré-julgamento sobre o caso, “onde nitidamente há um trabalho pericial mal feito e uma investigação irresponsável”, ressaltou ele, ao citar mais uma vez que o "circo" que se montou prejudica e muito a defesa dos réus.

O advogado registrou, ainda, que a participação da autora de novelas, Glória Perez, na plateia, em nada ajuda o Judiciário ou a Justiça. Ele disse que a presença dela pode interferir, mesmo que inconscientemente, na decisão dos jurados que poderão associar o caso de Isabella com o crime cometido contra sua filha, Daniela Perez. Em dezembro de 1992, a atriz Daniela Perez, de 22 anos, foi assassinada por seu companheiro de trabalho na TV Globo, Guilherme de Pádua, e pela mulher dele, Paula Thomaz. O casal foi julgado, condenado e já cumpriu pena pelo crime. Glória Perez, a partir da tragédia que a atingiu, não perde mais oportunidade de fazer campanha para o endurecimento da Lei Penal como arma contra a criminalidade.

“Não estou discutindo se o casal é culpado ou não. A certeza que eu tenho é a da tragédia, mas como advogado e como cidadão, fico muito preocupado em pensar que esse casal pode ser condenado por conta do show que se montou em cima do caso que deveria estar restrito aos interesses das famílias envolvidas”, diz.

Muller lembra que a Justiça é cega e tem de ser cega exatamente para proporcionar segurança jurídica. Explica que, na França, é proibido qualquer tipo de veiculação sobre o caso antes do julgamento. De acordo com ele, para se ter um julgamento isento, os jurados são informados no dia da plenária. “Eles devem estar virgens de informações sobre o caso que vão julgar”, disse.

Na época da denúncia contra o casal, em 2008, o ex-ministro da Justiça José Carlos Dias chegou a debater o caso, em evento no IDDD – Instituto de Defesa do Direito de Defesa. Ele destacou que o Brasil vive atualmente o ápice do Direito Penal inimigo e que a população quer vingança, não Justiça.

A criminalista Flávia Rahal, presidente do IDDD, entende que depois do espetáculo que se armou, a sede de vingança só ficará aplacada com a condenação do casal. “Ver a Justiça como vingança não é Justiça. Para a sociedade, a reparação para o caso só vai ocorrer se eles forem condenados à pena máxima, mas o que é preciso observar é se existem provas para se chegar a esse resultado”, alertou Rahal.

O também criminalista Antonio Sérgio de Moraes Pitombo discorda dos colegas. Ele explica que ninguém deve falar em nome da sociedade e o mais importante no caso é a decisão da Justiça. Questionado sobre o espetáculo midiático, ele respondeu que só o juiz pode dizer o quanto essa movimentação irá influenciar ou não a convicção dos jurados. “Se sentir que os jurados estão sendo pressionados por qualquer tipo de situação, ele terá bom senso e ponderação para suspender o corpo de sentença”, reforçou.

O diretor da OAB de Santana, Fábio Mourão, que acompanha o caso, destacou que enquanto o espetácu
lo (manifestações) se limitar à parte externa do Fórum, a OAB não vai interferir. Essa intervenção só se daria, segundo ele, se o trabalho na sala do Júri for prejudicado. O advogado aproveitou para registrar que o Júri está sendo feito no fórum competente.

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Em São Paulo, 25 de Março de 2010

Os Emoticons (Emocícones?)

Apesar de sempre ter tido interesse na história da informática e, especialmente, da microinformática, nunca imaginei que a paternidade dos emoticons (emocícones?) estivesse devidamente registrada. Pelo jeito está.

Adiante uma entrevista com Scott Fahlman, professor da Carneggie-Mellon University, de Pittsburgh, PA (onde morei durante cinco anos, de 1967 a 1972), que recebe o crédito pela invenção. Vale a pena ler. A entrevista saiu hoje na Folha Informática, seção da Folha de S. Paulo.

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Folha de S. Paulo
24 de Março de 2010

Comportamento
ENTREVISTA
SCOTT FAHLMAN

Emoticons

Basicamente, sou uma pessoa feliz

Inventor dos sinais gráficos que evidenciam emoções dos internautas critica emoticons animados

DIÓGENES MUNIZ
EDITOR DE MULTIMÍDIA DA FOLHA ONLINE

No dia 19 de setembro 1982, o cientista norte-americano Scott Fahlman, então com 34 anos, acordou tarde. Já passava das 11h em Pittsburgh, Pensilvânia, quando ele pulou da cama. Como de costume, a primeira coisa que fez foi se debruçar sobre o computador.

Exatamente às 11h44, disparou um e-mail para um fórum on-line na Universidade Carnegie Mellon. Nascia ali o primeiro emoticon da rede.

"De vários ângulos, aquela foi uma das coisas mais desinteressantes que já fiz na vida", diz Fahlman, hoje com 62 anos, em entrevista à Folha por e-mail de seu escritório na Carnegie Mellon.

Seu recado foi curto e objetivo. Teve pouco menos de 170 caracteres. Cansado de mal-entendidos surgidos na troca de mensagens entre pesquisadores e estudantes, que misturavam assuntos sérios com recados humorísticos quase nunca interpretados de forma bem-humorada, Fahlman sugeriu: quando estivessem contando piadas, colocariam :-). Caso enveredassem para temas importantes, a carta eletrônica viria com um compulsório :-(.

Seu e-mail é o mais antigo registro do uso de emoticon em uma rede -mais especificamente na Arpanet, embrião da internet. Para muitos, é a própria invenção da carinha, embora o pesquisador admita haver outras tentativas antigas de montar uma expressão facial por meio de caracteres.

Alguns meses depois da mensagem pioneira, as carinhas de Falhman tinham se espalhado por outros fóruns. Conforme seu e-mail circulava pelos EUA e em outros países, novos emoticons iam surgindo. De óculos escuros, boca aberta, com boné e até uma versão do Papai Noel.

Fahlman, um prestigiado estudioso de inteligência artificial, diz nunca ter recebido um centavo por sua criação. Mas se mostra orgulhoso da invenção ao rechaçar os emoticons animados. Ele também relativiza a ideia de que o uso desse tipo de muleta verbal torne as pessoas mais preguiçosas na hora de articular ideias.

"Nem todos têm a habilidade literária de [William] Shakespeare ou [Mark] Twain, e mesmo os gênios têm seus dias ruins", diz, em sua página na internet. Além disso, "se Shakespeare estivesse fazendo uma breve nota de reclamação sobre a falta de vagas de estacionamento, ele provavelmente ia produzir a mesma prosa desleixada que nós".

  

FOLHA – O senhor já conseguiu algum dinheiro com sua invenção?

SCOTT FAHLMAN – Eu nunca tirei dinheiro disso e nem acho que seria possível. Se as pessoas precisassem ter uma permissão ou pagar royalties para usar os símbolos 🙂 e :-(, elas simplesmente procurariam outra coisa para usar no lugar. Então, para o bem ou para o mal, esse tem sido o meu pequeno presente para o mundo. Uma ou duas mesas de palestras entraram em contato comigo, mas estou ocupado demais com as pesquisas para gastar tempo dando palestra por dinheiro. De qualquer forma, não tenho muito a dizer sobre os dez minutos da minha vida em que elaborei o 🙂 e coloquei numa mensagem. Vista sob vários ângulos, aquela foi uma das coisas mais desinteressantes que já fiz na vida.

FOLHA – Que tipo de trabalho o senhor tinha antes de sugerir o uso de emoticons em um grupo de e-mails?

FAHLMAN – Eu tinha o mesmo emprego que tenho hoje: sou professor de pesquisa na Universidade Carnegie Mellon em Pittsburgh, trabalhando com inteligência artificial -sobretudo em tentar reproduzir o conhecimento do senso comum em um computador e fazê-lo entender a linguagem natural. Estamos progredindo, mas é uma equação muito difícil.

FOLHA – O que o senhor pensa sobre os emoticons animados, usados sobretudo em programas de mensagens instantâneas?

FAHLMAN – Não gosto daqueles círculos amarelos e dos emoticons animados. São feios, meio que estragam toda a diversão. É mais desafiador tentar descobrir maneiras de expressar as emoções humanas usando só o conjunto padrão de caracteres do alfabeto romano. Suponho também que eu prefira esse tipo de emoticon porque desempenhei um papel na sua invenção.

FOLHA – Essas carinhas tornam as pessoas mais preguiçosas na hora de se expressarem?

FAHLMAN – Elas economizam esforço, se você quiser indicar explicitamente que algo é uma brincadeira. O que é preguiça para alguns é eficiência para outros.

FOLHA – Qual seu emoticon favorito?

FAHLMAN – Eu recebo crédito pelos emoticons 🙂 e :-(. Outro que as pessoas usam frequentemente e que eu gostaria de ter inventado é a carinha piscando ;-). E talvez o emoticon que grita :-O.

FOLHA – O senhor se considera uma pessoa mais 🙂 ou 😦?

FAHLMAN – Bom, há algumas coisas ruins no mundo, outras boas e há ainda as coisas neutras. Cabe a cada indivíduo focar no 😦 ou no :-). Tive dias ruins, algumas vezes sem qualquer motivo óbvio, mas, felizmente, me recuperei rapidamente. Tenho tido muita sorte na vida. Basicamente, sou uma pessoa f
eliz.

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Em São Paulo, 24 de Março de 2010

“El Secreto de sus Ojos” – 5

Para essa quinta matéria sobre o filme ganhador do Oscar, recorro simplesmente ao texto instigante de Marcelo Coelho na Folha de hoje. Discordo da primeira frase. Acho El Secreto de sus Ojos uma grande obra de arte. Pertíssimo de uma obra prima.

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Folha de S. Paulo
24 de Março de 2010

MARCELO COELHO
Paixão, esquecimento, impunidade



Em “O Segredo dos Seus Olhos”, vencedor do Oscar, o passado é algo que não passa jamais


SEM SER GRANDE obra de arte, “O Segredo dos Seus Olhos”, de Juan José Campanella, tem tudo o que se pode desejar de um filme. A história é excelente, complicada na medida certa, com aquelas boas reviravoltas e surpresas que, quase, quase, o espectador conseguiria adivinhar.

Como convém a um ganhador do Oscar, mistura-se bem todo tipo de ingrediente: crime, política, humor, amor, atores convincentes em cada gesto, coadjuvantes inesquecíveis, diálogos perfeitos (entre outras coisas, “O Segredo dos Seus Olhos” é uma apologia da gíria e do sarcasmo argentinos).

Tudo dá certo como entretenimento, e ainda assim o longa deixa algumas questões interessantes para se pensar em casa. Dizem que para os argentinos, ao contrário dos brasileiros, o passado não passa nunca. Morto há mais de 70 anos, Carlos Gardel possui na Argentina uma atualidade que seria impensável no caso do nosso Francisco Alves, por exemplo.

A impossibilidade de qualquer esquecimento é um dos temas principais do filme de Campanella. Aliás, numa chave mais íntima e sentimental, o diretor já cuidava disso em “O Filho da Noiva”: tratava-se de reencenar um amor antigo, salvando simbolicamente um casamento do naufrágio do mal de Alzheimer. “O Segredo dos Seus Olhos” enfrenta mais diretamente o aspecto político da questão, num país que guarda, como o Brasil, o trauma da ditadura. Criminosos a serviço do Estado continuam impunes, lá menos do que aqui. Será possível simplesmente esquecer o assunto e levar a vida como se nada tivesse acontecido?

Para os personagens de “O Segredo dos Seus Olhos”, a resposta é não. Parte do filme se concentra numa investigação policial, em meio à ausência completa de pistas. Até que… Não vou contar nada de específico. Só digo que parte do mistério se resolve quando alguém recorre a uma teoria básica sobre o comportamento humano. A de que uma pessoa pode mudar de nome, de religião, do que quiser, mas não abandona jamais sua própria paixão.

Um maníaco por sapatos, um fanático por boxe, um chocólatra convicto não deixará nunca de ser fiel ao seu objeto de desejo. Será verdade? Minha experiência indica, por vezes, o contrário. Paixões mudam, se perdem, se esquecem. Principalmente quando se realizam. Creio que só permanecem ao longo da vida quando não foi suficientemente feito o seu funeral. No caso das torturas, dos esquadrões da morte e demais crimes da repressão (no filme, os malfeitores aparecem ainda no governo eleito de Isabelita Perón), sem dúvida a impunidade corresponde a essa “ausência de funeral”. Não se esquece o que não foi vingado.

Mas a mensagem de “O Segredo dos Seus Olhos” não se resume a defender o fim da impunidade. O empenho em fazer justiça pode arruinar tanto o justiceiro quanto o justiçado. Bem ao contrário de tantos filmes produzidos nos Estados Unidos, aqui fica claro por que deve caber ao Estado, e não à vítima, a reparação por um crime cometido. Espanta-me, em todo caso, a tranquilidade com que tantas vítimas da ditadura bem ou mal convivem, no Brasil, com seus algozes. Se eu tivesse sido torturado, tenho certeza de que não sossegaria antes de me vingar pessoalmente de quem me torturou. Talvez as pessoas dispostas a dar a vida por uma causa política tenham uma visão mais prática do problema: alcançar o poder vale o preço de não buscar retaliação. Talvez elas reconheçam que estavam erradas também.

Seja como for, não acredito na possibilidade de simplesmente se reavivar a memória histórica de uma ditadura sem dar o passo seguinte, que é o de punir quem matou e torturou. Anistias, em geral, são atos de generosidade dos vencedores frente aos vencidos. Quando resultam de uma complicada acomodação política, estão sujeitas à mudança das circunstâncias em que foram produzidas.

A questão, no Brasil, é saber o quanto as circunstâncias permitem a revisão da Lei de Anistia. De tempos em tempos, vem o teste -e sempre se verifica que os adeptos da punição têm menos respaldo político do que necessitam. De resto, são os primeiros a depender das forças que gostariam de condenar.
Se é assim, cite-se então o célebre poema e que se toque um tango argentino. Se a música não agrada a todos, que se tente o cinema argentino então: anda um bocado mais adulto do que o nosso.

coelhofsp@uol.com.br

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Em São Paulo, 24 de Março de 2010

Pedofilia entre padres

Voltou ao noticiário, aparentemente com maior intensidade do que da última vez, a questão da pedofilia entre sacerdotes católicos romanos. Respingos dos escândalos andam  beirando até a família de Sua Santidade num colégio interno católico dirigido por um irmão do Papa na Alemanha. Li na VEJA da semana passada a história de um padre de 82 anos com seu coroinha de 20 – aqui no Brasil. A coisa está feia.

Fico me perguntando o seguinte: por que a quebra do voto de castidade dos sacerdotes católicos parece acontecer, em regra, com pessoas do mesmo sexo, e bem mais jovens – em alguns casos, meninos, mesmo? Pastores protestantes e sacerdotes de outras igrejas de vez em quando se envolvem escândalos sexuais – mas raramente o fazem com pessoas do sexo masculino e quase nunca com crianças. O que explica essa preferência dos sacerdotes católicos por meninos, muitos deles coroinhas?

Que fique claro: no caso dos sacerdotes católicos não se trata de mero “escândalo sexual” a ser punido com uma providência burocrático-administrativa, de nível meramente interno. Trata-se predominantemente de pedofilia, que é crime – e pedofilia homossexual. (O fato de ser homossexual não agrava o crime, mas nos ajuda a entender o fenômeno).

Tenho uma conjetura.

Em primeiro lugar, o seminarista, futuro padre, é desde cedo doutrinado a ver na mulher a fonte número um do pecado. Como ele vai ser celibatário, a mulher é a tentação que ele deve evitar a todo custo. A mulher é, para ele, o que a serpente foi para Eva, na história da queda. A doutrina do celibato clerical, assim, começa a afetar o futuro padre muito antes de ele efetivamente fazer os seus votos (dos quais o de castidade parece ser o mais difícil de cumprir).

Em segundo lugar, trancafiam o futuro padre, em muitos casos desde os dez anos (início da quinta série) em um Seminário Menor, onde ele fica segregado de mulheres: só vê guris mais ou menos da sua idade – e, naturalmete, os professores (todos homens). Internatos unissex parece que foram bolados para gerar, nos adolescentes, interesse pelo mesmo sexo. Numa época em que o instinto sexual está aflorando e se tornando a preocupação número um-dois-e-três do adolescente, ele é apartado da convivência com o sexo oposto e confinado à convivência com homopares. Acaba ficando fixado em menino. Sua curiosidade pelo sexo só pode ser satisfeita pelos colegas. Quando cresce, o desejo sexual não cresce com ele: continua fixado em meninos.

Em terceiro lugar, quando vai exercer o sacerdócio, o padre acaba ficando rodeado de coroinhas, parecidos com os seus coleguinhas de seminário menor, que, agora, o admiram e olham para ele como figura de autoridade. E ele, por outro lado, pela sua doutrinação é condicionado a fugir das mulheres e pela sua formação em internato unissex foi condicionado a se interessar por meninos… Sendo figura de autoridade, não tem muita dificuldade em convencer os meninos de que sexo (em alguma modalidade) com o sacerdote é parte de seus deveres. (O que mais pode levar um coroinha de vinte a se engajar em atividade sexual com um sacerdote de 82?)

Esse conjunto de fatores acaba produzindo essa série aparentemente infindável de casos de pedofilia homossexual entre padres católicos. Não se trata, como já disse, de meros escândalos sexuais em relação aos quais se possa dizer: “Sou culpado, mas que igreja pode dizer que não é?” Trata-se de um fenômeno tipicamente católico que não adianta tentar generalizar.

Se minha conjetura faz sentido, a solução, evidentemente, é tripla: que a Igreja Católica acabe com o celibato clerical, acabe com a formação para o sacerdócio no confinamento de internatos unissex, e acabe com as figuras de coroinhas e outros meninos que ficam rodeando o padre na sacristia. 

Estudei em um internato (protestante) durante meu curso Clássico. Mas não era unissex. Era misto. Nunca tive conhecimento de colegas que tivessem se interessado por colegas do mesmo sexo. A regra era que se interessassem pelas meninas. E se interessavam bastante.

Que fique claro que não considero o homossexualismo um pecado, muito menos um crime. Nada tenho contra quem faz a opção por exercer sua sexualidade com pessoas do mesmo sexo. Mas a pedofilia, sim, é crime. Crime que, no caso dos padres, é agravado pelo fato de o padre estar em posição de autoridade em relação aos meninos dos quais abusa. A Igreja Católica não pode continuar a tratar a pedofilia sacerdotal com a leniência de sempre: uma reprimanda, uma mudança de paróquia, etc. Não se trata de um pecadilho: trata-se de um crime muito sério.

O problema exige soluções mais drásticas. 

A seguir, um ponto de vista contrário, retirado da Folha de S. Paulo de hoje (23/3/2010). Deixo aos leitores a tarefa de julgar os méritos relativos da minha posição e da de João Pereira Coutinho (que parece ser um jornalista português que escreve para a Folha – vide http://www.jpcoutinho.com/).

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Folha de S. Paulo
23 de Março de 2010

JOÃO PEREIRA COUTINHO

Padres e pedófilos


O jornalismo preguiçoso deveria separar a histeria anticatólica da verdade criminal


ESTAMOS SEMPRE a aprender: vocês sabem como se diz "bastardo" em língua germânica? "Pfaffenkind." Ou, em tradução literal, "o filho do padre". As curiosidades não acabam aqui: ainda na Alemanha protestante, a expressão coloquial para designar a frequência de bordéis era "agir como um bispo".

É claro que não precisamos viajar até a Alemanha para encontrar esse glorioso imaginário em que membros do clero (católico) se entregam à lascívia. De Chaucer a Boccaccio, passando pelos textos centrais do Iluminismo continental (a "Religiosa", de Diderot; o "Émile", de Rousseau; as múltiplas mediocridades de Sade), o padre não é simplesmente o pastor espiritual em missão evangélica.

O padre é o "fornicador" incansável, sempre disposto a atacar donzelas virgens ou mulheres casadas. Sem falar do resto: o lesbianismo das freiras, a sodomia entre monges e a tortura física por que passa o seminarista casto, que se fustiga com prazer masoquista para compensar uma dolorosa ausência de fêmea (ou de macho).

Sejam sinceros: quando existem escândalos sexuais na Igreja Católica, eles não são apenas escândalos sexuais pontuais e localizados. Esses escândalos, que existem em todo o lado (e em todas as denominações religiosas), bebem diretamente no patrimônio literário e anticatólico do Ocidente.

O caso é agravado pela arcana questão do celibato. No mundo moderno e hipersexualizado em que vivemos, o celibato não é visto como uma opção pessoal (e espiritual) legítima e respeitável. O celibato só pode ser tara; só pode ser um convite ao desvio; só pode ser pedofilia. Esses saltos lógicos são tão comuns que já nem horrorizam ninguém.

Ou horrorizam? Philip Jenkins é uma exceção e o seu "Pedophiles and Priests: Anatomy of a Contemporary Crisis" (Oxford, 214 págs.) é o mais exaustivo estudo sobre os escândalos sexuais que sacudiram a Igreja Católica nos Estados Unidos durante a década de 1990.

Jenkins não nega o óbvio: que existiram vários abusos; e, mais, que as autoridades eclesiásticas falharam na detecção ou denúncia dos mesmos.
Porém, Jenkins é rigoroso ao mostrar como os crimes foram amplificados de forma desproporcionada com o objetivo de cobrir toda a instituição com cores da infâmia.

Padres católicos cometem crimes sexuais? Fato. Mas esses crimes, explica Jenkins, existem em proporção idêntica nas outras denominações religiosas (e não celibatárias). A única diferença é que, sendo o número de padres católicos incomparavelmente superior ao número de pastores de outras igrejas; e estando os crimes de pedofilia disseminados pela população adulta, será inevitável que exista um maior número de casos entre o clérigo católico.

Como explicar, então, que as atenções mediáticas sejam constantemente voltadas para os suspeitos do costume?

Jenkins não é alheio à dimensão "literária" do anticatolicismo ocidental; muito menos à hipersexualização moderna, que vê na doutrina sexual da igreja um anacronismo e, em certos casos, uma ameaça.

Mas o autor vai mais longe e revela como a amplificação dos crimes é, muitas vezes, promovida por facções dissidentes dentro da própria Igreja Católica que esperam assim conseguir certas vitórias "culturais" (o fim do celibato, a ordenação de mulheres para o sacerdócio etc.) pela disseminação de uma imagem de corrupção endêmica. "A maior ameaça à sobrevivência da igreja desde a Reforma", escreve Jenkins, citando as incontáveis reportagens que repetiam essa bovinidade.

Isso significa que os crimes das últimas semanas na Europa podem ser desculpados ou justificados? Pelo contrário: esses crimes não têm desculpa nem justificação. E é de saudar que o papa Bento 16, em atitude inédita, tenha escrito uma carta plena de coragem e dignidade ao clérigo irlandês, condenando os abusadores, pedindo perdão às vítimas e esperando que a justiça faça o seu caminho.

Mas não é apenas a justiça que tem de fazer o seu caminho. O jornalismo preguiçoso também deveria trilhar o seu, separando a histeria anticatólica da verdade criminal.

Um contributo: para ficarmos no país de Ratzinger, existiram na Alemanha, desde 1995, 210 mil denúncias de abusos a menores. Dessas 210 mil, 300 lidaram com padres católicos. Ou seja, menos de 0,2%. Será isso a maior ameaça à sobrevivência da igreja desde a Reforma?

jpcoutinho@folha.com.br

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Em São Paulo, 23 de Março de 2010

Educação, Mudanças e Inovação: Proposta de Palestra

Nunca o mundo experimentou uma onda de mudanças tão ampla, profunda, radical, duradoura e acelerada como nos sessenta e cinco anos decorridos desde o fim da Segunda Guerra Mundial.

Essas mudanças – sociais, culturais, tecnológicas, econômicas – têm um grande impacto sobre a educação. Elas afetam:

a) O contexto mais amplo em que histórico e social em que a educação acontece

b) Os ambientes específicos em que a aprendizagem ocorre

c) Os materiais e recursos que as pessoas usam para aprender

d) O perfil dos alunos que chegam à escola

No entanto, os sistemas e as escolares não parecem estar levando muito a sério o impacto dessas mudanças sobre a educação, em geral, e a prática escolar, em particular.

Em última instância, há dois tipos de mudanças:

  • Mudanças incrementais, parciais, menores, lentas, superficiais, de longo prazo (graduais)
  • Mudanças sistêmicas, radicais, maiores, rápidas, profundas, de curto prazo (abruptas)

O que separa e diferencia um tipo de mudança do outro é o grau de inovação presente na mudança.

  • Mudanças pouco inovadoras, que ficam perto da prática atual, reforçam o paradigma vigente
  • Mudanças muito inovadoras, que se distanciam bastante da prática atual, tendem a subverter e eventualmente a destruir o paradigma vigente

Nicholas Negroponte, o conhecido ex-diretor do Media Lab do MIT, e a mente por detrás do programa de Um Laptop por Criança (aqui chamado de UCA), disse uma vez que os países cujos sistemas educacionais são bem considerados nas avaliações internacionais (Finlândia, Coréia, Cingapura, Taiwan, etc.) provavelmente serão os menos indicados para promover mudanças muito inovadoras na educação – porque têm receio de assumir os riscos envolvidos em processos de mudanças sistêmicas e radicais. Têm muito a perder. Segundo Negroponte, são países como o Brasil, que têm ficado nos últimos lugares das avaliações internacionais da educação, que devem aproveitar a oportunidade para “leapfrog”: saltar estágios, pulando para estágios mais avançados, através da alavanca da tecnologia, sem precisar passar pelos mesmos estágios que os países hoje desenvolvidos passaram.

Mas isso requer visão e coragem.

Para promover mudanças sistêmicas e radicais na escola é preciso deixar de tentar soluções parciais e buscar soluções globais, que transformem os seguintes aspectos:

  • A Visão da Educação e da Aprendizagem e a Estratégia Pedagógica (para que, embora informada pelo passado, seja focada no futuro)
  • A Liderança (para que seja iluminada e inspiradora em nível sistêmico e local)
  • Os Profissionais da Educação (para que sejam engajados e bem capacitados)
  • Os Ambientes de Aprendizagem (para que integrem, de forma natural e “sem costuras”, o formal e o não formal, o presencial e virtual, de forma rica, diversificada e flexível)
  • Os Recursos de Aprendizagem (para que sejam desafiadores, eficazes e eficientes)
  • A Comunidade (para que seja envolvida e apoiadora, em nível local, regional, nacional e até mesmo global)

Todas essas mudanças devem ocorrer mantendo o foco nos alunos, para que possam ser aprendentes motivados, ativos, interativos e colaborativos, com amplo acesso a todos os elementos do sistema.

Na palestra me concentro no primeiro desses aspectos – embora ciente que mudar apenas esse aspecto provavelmente não vá trazer resultados significativos.

A mudança da Visão da Educação e da Aprendizagem e da Estratégia Pedagógica deve abranger os seguintes aspectos:

  • Mudança do Conceito de Educação (incluindo a mudança do objetivo educacional para o desenvolvimento humano e dos resultados esperados da educação para competência, autonomia e responsabilidade)
  • Mudança do Conceito de Aprendizagem (foco em construção de capacidades mais do que em absorção de informações)
  • Mudança no Entendimento de Currículo (o que os alunos devem aprender?), Metodologia de Aprendizagem (como vão aprender?) e Forma de Avaliação (como aferir se de fato aprenderam?) para um Currículo Baseado em Competências, uma Metodologia de Aprendizagem Baseada em Projetos e uma Avaliação Baseada em Observação, Interação e Desafios.

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Interessado? Contate-me, por favor.

São Paulo, 22 de Março de 2010
Eduardo Chaves
echaves@edutec.net

A arte – 2

No final do segundo texto de Ferreira Gullar, citado na postagem anterior, ele toca em mais um assunto instigante. Diz ele, no último parágrafo do artigo de 21/3/2010 na Folha de S. Paulo:

“Por coincidência, naquele mesmo domingo em que abordei aqui este assunto, um jornal do Rio publicou uma entrevista com Marina Abramovic, artista performática que está se exibindo no MoMa. Um dos principais elementos de sua exibição são mulheres e homens nus. Ela fez questão de explicar que não se trata de teatro, "onde tudo é mentira, pois os atores fingem que são personagens e o sangue é tinta vermelha". Já na performance, é tudo verdade, tudo é real: se houver sangue, é sangue mesmo. E assim ela confirma o que afirmei sobre a arte contemporânea que, ao contrário do que a arte sempre fez, não cria nada: mostra o real. Ou seja, o que já conhecemos e não nos basta. Em matéria de nus mostrados em museus, prefiro o Davi, de Michelangelo, ou a Vênus de Cnido, que, em vez de me constrangerem, me deslumbram.”

Ele sugere aqui a arte não só deve provocar emoções em nós, mas que essas emoções devem ser do tipo certo (a definir). Em outras palavras: algo que nos provoca constrangimento (com ver no palco um bando de homens e mulheres nus), ou pior, algo que nos causa nojo e vergonha, não seria arte – porque o sentimento, no caso, não é do tipo que a arte deve provocar.

Para Ferreira Gullar, um dos sentimentos que a arte deve evocar é deslumbramento.

A Adriana Portella Hollenbeck, em um comentário, no Facebook, ao meu post anterior, concordou:

“Eu gosto da palavra DESLUMBRAMENTO, que ele sabiamente usa. O que deslumbra as pessoas varia muito, mas me custa acreditar que ainda que atinjam seu objetivo muitas das obras contemporâneas venham a deslumbrar quem quer que seja. Podem transmitir a mensagem que for e vão fazer parte da categoria ARTE por motivos diversos. Daí a me causarem deslumbramento, há uma distância enorme. Chorei sozinha em Nova York, parada feito besta olhando pra Noite Estrelada. Mesmo choro do Quarto Amarelo em Chicago, mesmo choro dos primeiros Monets vistos no Rio. Posso até chorar com as fotografias das penitenciárias, mas o choro é outro e não faz bem. Subverter e/para enriquecer são outros conceitos interessantes. Os que não se permitem subverter não entendem de arte alguma. Para eles sobra a arte de quarto de hotel, repetidas gravuras, impressas infinitas vezes. Mortas.”

Respondi no Facebook:

“Não gosto muito do termo deslumbramento, não (ele traduz o que em Inglês?). Para mim deslumbramento tem um sentido um pouquinho pejorativo — sugere que a pessoa está impressionada por algo que não justificaria a impressão que causa. "Ela está deslumbrada por ter sido indicada para o Oscar", por exemplo. Encanta-me a emoção que a arte pode produzir – a capacidade de me fazer chorar, rir, sentir sentimentos bonitos e nobres, sentir raiva, ódio, tudo no momnto apropriado. A arte é uma forma consciente e deliberada de manipular nossas emoções. Mas é uma manipulação consentida, e, por isso, legítima. Leio o livro porque quero; vejo o filme porque quero… A emoção é uma "emoção racional", porque quem produz o objeto de arte em regra sabe que vai provocá-la e trabalha, coerente e conscientemente, para o fazer. Não me lembro de ter sentido esse tipo de emoção profunda, entretanto, observando um quadro ou uma escultura. Não creio que jamais tenha chorado vendo um quadro ou uma escultura (embora haja muitos que admire). Nem mesmo ficado tão impactado por um quadro ou uma escultura que uma sensação profunda tenha permanecido comigo por algum tempo depois. A arte que especialmente me toca e encanta (encantamento [enchantment], talvez seja um termo melhor do que deslumbramento) é a literatura. Para mim, a palavra, a narrativa, o texto são capazes de produzir mais emoção do que qualquer imagem ou efeito visual. É verdade que o cinema fica numa área intermediária entre o texto, a literatura e a imagem, o visual. Junta os dois numa narrativa audiovisual. Mas o cinema sem a palavra (ainda que escrita, como na época do cinema mudo) não seria grande coisa (IMHO). ‘No princípio era a palavra…’ (‘en archè ên ho lógos…’).”

Seria possível acordo quanto às seguintes teses? 

a) A arte está diretamente relacionada à produção ou evocação de emoções;

b) Não é qualquer emoção que vale, mas apenas determinados tipos de emoção (a definir mais precisamente);

c) A emoção que a arte produz ou evoca provavelmente estava presente no artista que criou a obra de arte, embora indivisivelmente misturada com a racionalidade requerida para fazer com que a obra de arte produzisse / evocasse a mesma emoção nos outros;

d) O tipo de emoção de que se trata é algo próximo do encantamento, do deslumbramento, da fascinação, da reverência [“awe”] diante do belo;

e) A modalidade de arte que é capaz de produzir esse tipo de emoção varia muito de indivíduo para indivíduo, uns sendo encantados mais pelas artes visuais do que pelas artes que exigem o uso da palavra.

Aproveito para tocar num outro assunto, que sempre me causa irritação.

Ayn Rand, em um de seus “Horror Files”, conta uma história verídica, passada em um museu cuja identificação não vem ao caso, em uma manhã qualquer. Ao abrir o museu, o diretor ou curador ou responsável constatou o desaparecimento de uma escultura. Nenhuma busca a localizou. No interrogamento dos empregados, o homem responsável pela limpeza durante a noite admitiu ter jogado fora a escultura – por pensar que era lixo e nunca imaginar que pudesse ser arte.

Admito, sem vergonha e constrangimento, que nunca fui à Bienal de São Paulo – e nunca pretendo ir. O que já li sobre ela é que me leva a essa conclusão. Exemplo de “obras de arte” já exibidas lá:  um vaso de plantas reais adubado por estrume artificial ao lado de um vaso de plantas artificiais adubado por estrume real. Recuso-me a ir a qualquer tipo de exibição que considere isso arte. É lixo. Se fosse a pessoa responsável pela limpeza do local durante a noite, jogaria a arte fora (a privada seria um local adequado para dar sumiço à coisa).

Esse não é o único exemplo que poderia citar. Há muitos outros. Mas esse, para mim, é paradigmático do que é a falsificação da arte.

Por fim, um ponto que já discuti muito com a Adriana no passado. Embora a arte eminentemente realista de alguns pintores seja quase indiferenciável de uma fotografia, é arte porque produz, em quem a contempla, essa emoção de encantamento ou deslumbramento que alguém seja capaz de tal grau de competência que produz uma pintura que leva muitos a considerarem como fotografia. A fotografia realista, em si, não me parece arte – embora não hesite em considerar arte alguns tipos de fotografia.

Muito assunto para discussão. E não nos esqueçamos da controvérsia entre Monteiro Lobato e Anita Malfatti… Aproveito para transcrever um texto elucidativo, embora não concorde muito com ele. Sou fã do Lobato, inclusive nessa briga… (embora até minha mulher brigue comigo por causa disso!).

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http://www.urutagua.uem.br//007/07vale.htm

Resumo

O artigo investiga o porquê de o escritor e crítico Monteiro Lobato ter atacado violentamente a pintora expressionista Anita Malfatti em seu artigo "Paranóia ou mistificação?", por ocasião da exposição individual da artista em 1917. O fato teve grande repercussão e serviu como um dos motivos que levaram os jovens modernistas a organizarem a Semana de Arte Moderna no teatro Municipal de São Paulo, em 1922. Parece que o motivo foi pessoal, afinal, Lobato também queria ser um grande pintor.

Palavras-chave: arte, moderno, crítica

Abstract:

This article researches why the writer and critic Monteiro Lobato has raided hardly on the expressionist painter Anita Malfatti in his article called "Paranoia and mystification?" by her individual exhibition in 1917. That fact resulted in a great repercussion and it was one of reasons for the young modernists organized the Modern Art Week at Municipal Theater of São Paulo, in 1922. It seems the reason was personal, because Lobato also wanted to be a great painter.

Key-words: art, modern, criticism

O presente artigo tem sua origem a partir das seguintes indagações: "O que levou Monteiro Lobato a falar tão mal da obra de Anita Malfatti? Ele entendia de arte a ponto de fazer tal crítica?" É importante relembrar o ocorrido, pois trata de um episódio importantíssimo para a cultura brasileira: o estopim do Modernismo.

É claro que Monteiro Lobato, no ápice de sua erudição e no cargo que exercia no tradicional e respeitável jornal O Estado de São Paulo, tinha plenas condições de exercer a função de crítico; até porque, na época, um jornalista se fazia por talento ao lidar com as palavras, e não simplesmente porque possuía um diploma do curso de jornalismo.[1] Em seu artigo "Paranóia ou mistificação? A propósito da Exposição Malfatti", publicado em 20 de dezembro de 1917 – fato que, paradoxalmente, imortalizaria a obra da artista – Lobato declara sua total preferência pela arte clássica:

"Há duas espécies de artistas. Uma composta dos que vêem normalmente as coisas e em conseqüência disso fazem arte pura, guardando os eternos ritmos da vida, e adotados para a concretização das emoções estéticas, os processo clássicos dos grandes mestres. (…)"

Na seqüência dessa afirmação, Lobato cita, entre outros, Praxíteles, Rafael, Rembrandt, Rubens, Rodin, como modelos a serem seguidos, revelando razoável conhecimento de História da Arte. Mas é assim imediatamente definida por ele a outra "espécie de artista":

"formada pelos que vêem anormalmente a natureza, e interpretam-na à luz de teorias efêmeras, sob a sugestão estrábica de escolas rebeldes, surgidas cá e lá como furúnculos da cultura excessiva. (…)"

Seu repúdio às novas tendências artísticas, as chamadas Vanguardas Européias – fonte da técnica desenvolvida por Anita – , fica claro nesses trechos:

"Essas considerações são provocadas pela exposição da Sra. Malfatti onde se notam acentuadíssimas tendências para uma atitude estética forçada no sentido das extravagâncias de Picasso e companhia."

e mais:

"Sejamos sinceros: futurismo, cubismo, impressionismo e tutti quanti não passam de outros tantos ramos da arte caricatural. (…) Caricatura da cor, caricatura da forma – caricatura que não visa, como a primitiva, ressaltar uma idéia cômica, mas sim desnortear, aparvalhar o espectador."

Essa "arte efêmera" à qual se refere Monteiro Lobato era, em seu artigo, considerada fruto ou de paranóia ou de mistificação, tal qual se encontram desenhos desconexos nas paredes dos manicômios. Talvez essa tenha sido a maior ofensa para Anita: ter sido chamada, mesmo que indiretamente, de louca, psicótica, possuidora de um "cérebro transtornado". Nem mesmo alguns elogios ao seu talento serviram para aplacar a ofensa, porque há momentos em que Lobato se rende ao seu talento: Essa artista possui um talento vigoroso, fora do comum; mas logo aponta o aspecto caricatural de sua obra: Entretanto, seduzida pelas teorias do que ela chama de arte moderna, penetrou nos domínios dum impressionismo discutibilíssimo, e põe todo o seu talento a serviço duma nova espécie de caricatura.

Embora os trechos aqui transcritos não dêem a dimensão real das palavras que provocaram a reação de desolamento de Anita, ainda assim, convém investigar os reais motivos que levaram o escritor Monteiro Lobato a ser tão ríspido em sua crítica, o que resultou em um trauma que ela carregou para o resto de sua vida.

Encontrei parte da resposta nos estudos de Mário da Silva Brito[2], um incansável pesquisador do Modernismo brasileiro, que compilou importantes documentos da época.

Rua Líbero Badaró na época da polêmica exposição de Anita MalfattiPrimeiramente, é preciso ficar claro que o conjunto das obras de Anita, expostas no salão da Rua Líbero Badaró, 111, assustou também aos próprios familiares e amigos próximos da pintora e, principalmente, ao então diretor do jornal o Estado de São Paulo, Nestor Pestana. E foi este quem encomendou a Lobato a crítica. Ao que foi relatado em depoimento a Paulo Duarte, Nestor Pestana, amigo pessoal da família de Anita, depositava nela grande expectativa. Contudo, frustrado com o que vira na exposição, em virtude de seu extremo conservadorismo, teria confiado ao articulista Monteiro Lobato, a crítica em tom de "pito"[3], aproveitando-se do fato de Monteiro Lobato, apesar de jovem, ser "velho de sensibilidade"[4]

Foi o casamento perfeito entre o desgosto de Pestana e a hostilidade de Lobato às estéticas modernas. Segundo Mário da Silva Brito, o conhecimento de Lobato acerca de arte limitava-se às lições acadêmicas e tradicionais. Sérgio Milliet, notável modernista, anota que a crítica de Lobato se baseia na concepção primária de uma pintura fotográfica, numa escultura naturalística, o que se origina por certo da ingênua convicção dum progresso contínuo, na superioridade de nossa civilização ocidental sobre as demais.[5]

Silva Brito ainda relembra-nos de que o tom mordaz de Lobato está mais para a caçoada do que para sátira. Lobato confessara em vários contos e artigos que suas "observações zombeteiras" não passavam de vinganças pessoais. Mas o que haveria de vingança pessoal no caso Malfatti? Eis a descoberta que pode completar a resposta às nossas indagações iniciais: Monteiro Lobato, além de escritor e jornalista, era também pintor, ou como diz Silva Brito, "queria ser pintor", tanto que a primeira edição de sua obra Urupês teve ilustração por seu próprio punho. Na verdade, era um pintor com traços acadêmicos, tradicionais mas que, apesar disso, não atingiu o êxito no campo das artes plásticas, o que resultaria no seguinte comentário de Menotti del Picchia[6]: Lobato é um grande contista com fama de mau pintor.[7] Assim sendo, parece ser consenso entre alguns de seus contemporâneos que Lobato, além de defender um estilo abraçado convictamente, alimentava um certo "despeito"[8] pelo sucesso de novos talentos, e em particular, os modernos.

Todavia, há quem defenda essa postura de Lobato, entendendo que sua crítica era proveniente de sua formação positivista, determinista e liberal (Cf. PENTEADO, 1997), oriunda de leituras fundamentais para sua formação ainda na Faculdade de Direito de São Paulo, dentre elas Spinoza, Fichte, Hegel, Voltaire, Taine, Spencer, Darwin e Nietzsche. Isso justifica seu repúdio à "influência estrangeira exacerbada", por meio da crítica aos "ismos" importados (CAMARGOS, 1999). A autora ainda pondera sobre Lobato:

"Na verdade, para ele, o artista brasileiro não se encontrava suficientemente amadurecido para apreender criticamente os modelos artísticos das vanguardas européias. E, sem esse amadurecimento, corria o sério risco de cair no imitativismo puro e simples." (Idem, p. 135)

O criador do símbolo nacionalista desprovido de idealizações românticas, a personagem Jeca Tatu, tinha uma convicção nacionalista voltada para uma realidade à qual as elites davam as costas. Nesse afã de buscar a verdadeira identidade nacional, sem influências estrangeiras, longe das cidades litorâneas como o Rio de Janeiro ou próximas ao litoral, como São Paulo, Lobato voltou-se para o interior. A partir disso, Lobato passou a defender a idéia de que a modernidade era o progresso, o saneamento, o acesso à educação e à cultura, não a reprodução de movimentos artísticos europeus, que ele considerava apenas modismos passageiros. Por outro lado, o grupo de modernistas tinha uma preocupação similar, contudo sem repudiar a influência estrangeira européia, nem a influência negra, nem a indígena, como é possível notarmos na antropofagia oswaldiana, tão bem articulada em Macunaíma, de Mário de Andrade, e tão bem sintetizada na obra de Tarsila do Amaral.

A diferença entre Lobato e os modernistas é de questão formal, como assevera Antônio Cândido (1985:120):

"No campo da pesquisa formal os modernistas vão inspirar-se em parte, de maneira algo desordenada, nas correntes de vanguarda na França e na Itália" (…) aprenderam a psicanálise e plasmaram um tipo ao mesmo tempo local e universal de expressão, reencontrando a influência européia por um mergulho no detalhe brasileiro."

Eis o ponto de divergência entre a modernidade de Lobato e a dos modernistas: a forma de expressão. Se a preocupação desses dois pólos era eminentemente o Brasil, sua identidade, sua nacionalidade, seu povo e sua língua, eles seguiam por caminhos distintos. Lobato era a favor de uma forma, no que tange à pintura, tradicionalista. As novas formas de expressão vindas dos emergentes artistas europeus agradavam àqueles que queriam, por meio de uma nova linguagem nas artes visuais e na literatura, fazer repensar o Brasil de um novo século, inserindo-o num mundo que valorizava cada vez mais a velocidade e a mecanização crescente. Ao contrário disso, a opção e a opinião de Lobato ficaram claras em seu artigo. E assim estava instaurada a polêmica que teve como ponto nevrálgico a obra da jovem e sensível Anita.

Embora o nome de Anita Malfatti tenha entrado para a história do Modernismo por causa desse episódio, tudo isso representou para ela, enquanto artista e também enquanto mulher – não podemos nos esquecer de que somente nessa época é que os nomes femininos começavam a adentrar um campo anteriormente quase que exclusivo dos homens – além do enorme choque psicológico, um grande prejuízo material: quadros já vendidos foram devolvidos e aulas de pintura foram canceladas. Apesar de tudo, Malfatti não parou de pintar, apenas recuou às suas lições acadêmicas anteriores: paisagens e naturezas mortas, ainda que impregnadas de ímpetos impressionistas.

Em conferência proferida por Anita na Pinacoteca do Estado de São Paulo, em 25 de outubro de 1951, a artista desabafa:

"Em São Paulo, as exposições individuais, grandes e pequenas, já surgiam então sem interrupção. Muitos artistas como Pedro Alexandre, Almeida Júnior e Benedito Calixto não representavam surpresa alguma."[9]

A pintora ainda relembra a exposição de Lasar Segall, pintor com fortes traços expressionistas, realizada em 1913, sob a tutela do senador Freitas Valle, que em nenhum momento causou qualquer tipo de estremecimento no meio artístico e cultural da época (Cf. AMARAL, 1979:73). Quanto a esse fato, Mário de Andrade, contudo, afirmou que "a presença do moço expressionista era por demais prematura para que a arte brasileira, então em plena unanimidade acadêmica, se fecundasse com ela."[10]

Mas nem tudo foi desolação para Anita. Ela recebeu apoio incondicional dos modernistas, em especial de Mário de Andrade e de Oswald de Andrade. Este, por sinal, foi o único que realizou uma defesa por escrito à crítica de Lobato. Assim, Oswald, como colunista do Jornal do Comércio, contrapôs-se à noção de paranóia propagada por Lobato:

"Possuidora de uma alta consciência do que faz, levada por um notável instinto para a apaixonada eleição dos seus assuntos e de sua maneira, a vibrante artista não temeu levantar com seus cinqüenta trabalhos as mais irritadas opiniões e as mais contrariantes hostilidades. (…) A sua arte é a negação da cópia, a ojeriza da oleografia. (…) e a nós deu uma das mais profundas impressões da boa arte."[11]

O posicionamento de Oswald, num caminho inverso de Lobato, torna-se explicável à medida que sua postura era de luta pela renovação artística, atuando como divulgador de uma estética nova, completamente dissociada dos padrões pré-estabelecidos. Além disso, sua atuação não tem como ponto de partida uma transformação social, embora não se despoje disso, como é possível verificarmos nas palavras de Lúcia Helena (1985:32):

"Sua luta pela renovação artística, principalmente no ângulo em que ele se apresenta como representante maior de nossa arte alegórica, compreendendo que a arte não é uma forma imediata, mas dialetizada, de transformação social, e de que sua finalidade não é a "salvação das massas", isso também o coloca na postura dos que saudavelmente ampliam, para além das sofisticadas (ou, na maioria dos casos, infelizmente, grosseiras) teorias do reflexo, a compreensão das relações entre a arte e o social-político."

Já Mário de Andrade, embora não tenha escrito nada de imediato, deu seu ombro amigo, seu apoio pessoal e, por meio das cartas que trocaram, é possível notar o imenso carinho que havia entre eles. Esse carinho todo despertou uma secreta paixão em Anita por Mário, mas que nunca teria uma definição por parte dele. Ainda assim, mais tarde, em 30 de maio de 1942, em conferência proferida no Salão de Conferências da Biblioteca do Ministério das Relações Exteriores do Brasil, no Rio de Janeiro, Mário fez sobre ela uma defesa pública, indagando:

o que nos levou a aderir incondicionalmente à exposição de Anita Malfatti, que em plena guerra, vinha nos mostrar quadros expressionistas e cubistas? Parece absurdo, mas aqueles quadros foram a revelação. E ilhados na enchente de escândalo que tomara a cidade, nós, três ou quatro, delirávamos de êxtase diante de quadros que se chamavam o "Homem Amarelo", "A Estudanta Russa", "A Mulher de Cabelos Verdes". [12]

E em particular, a respeito de "Homem amarelo"[13] e "A estudanta russa", comentou Mário de Andrade: são quadros cheios dessa disponibilidade para o sofrimento que os sensitivos corajosos descobrem nas sombras projetadas à luz pelos seres e elementos.[14]

O fato é que Anita foi realmente audaciosa e que, no conjunto da vida e da obra, o seu fraquejar diante da dura crítica não apagou o legado deixado pelo ímpeto criativo revelado em obras como as que causaram a grande querela da exposição de 1917. Quanto a Lobato, embora jamais tenha conseguido adentrar o mundo das artes como pintor, deixou também inegável conjunto de obras para a literatura brasileira.

O aspecto irônico desse episódio é que, talvez sem a crítica de Lobato, o Modernismo brasileiro não tivesse acontecido, pelo menos naquele momento e da maneira como aconteceu. Nenhum movimento que envolva a arte moderna se deu de maneira tranqüila, sem impacto, sem sustos e sem choques. A aceitação da estética moderna no Brasil aconteceu paulatinamente ao longo do século XX, e teve seu ápice quando o mundo adentrava a fase pós-moderna. E ambos, tanto Monteiro Lobato, quanto Anita Malfatti deram sua contribuição para a construção da modernidade, cada um a seu modo.

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Referências bibliográficas:

AMARAL, Aracy. Artes plásticas na semana de 22. São Paulo: Perspectiva, 1979.

ANDRADE, Mário de. O movimento modernista. In: Aspectos da literatura brasileira, São Paulo: Martins Fontes, 1974.

CAMARGOS, Márcia Mascarenhas. "Duas leituras de Lobato nos anos 20", Revista da Biblioteca Mário de Andrade. São Paulo, Secretaria Municipal de Cultura, Nº 52, pp. 135-138, 1999.

CÂNDIDO, Antônio. Literatura e sociedade. 7ª ed., São Paulo: Nacional, 1985.

HELENA, Lúcia. Oswald de Andrade e o Modernismo. In: Escrita e poder. Rio de Janeiro: Cátedra, Brasília: INL, 1985.

LOBATO, Monteiro. Urupês. 23ª ed., São Paulo, Brasiliense, 1978.

PENTEADO, José Robert Whitaker. Os filhos de Lobato. Rio de Janeiro: Qualitymark, 1997.

SILVA BRITO, Mário da. História do Modernismo Brasileiro, Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 1978.

Fontes iconográficas:

Fig. 1 – Rua Líbero Badaró – www.prolam.sp.gov.br/dph/spimagem/spimag16.htm

Fig. 2 – "Lalive" – www.cyberartes.com.br/edicoes/126/artista.asp

Fig. 3 – "O homem amarelo" – www.baixadafacil.com.br/artesine/index-3.shtml

Fig. 4 – "A estudanta russa" – www.pitoresco.com.br/anita/anita27.htm

[1] O curso de jornalismo foi implantado oficialmente, no Brasil, somente em 1943 pelo Decreto-lei nº 5480, de 13 de maio de 1943, assinado pelo então presidente Getúlio Vargas e pelo ministro da educação Gustavo Capanema.

[2] Mário da Silva Brito, História do Modernismo Brasileiro, Rio de Janeiro, Civilização Brasileira, 1978

[3] Mário da Silva Brito, op. cit., p. 56.

[4] Depoimento a Sérgio Milliet, para o Diário Crítico, volume 4, São Paulo, Martins Fontes, 1947, p. 53.

[5] Sérgio Milliet, op. cit., p.54

[6] Nem por isso essa crítica de Menotti de Picchia gerou algum tipo de ressentimento; pelo menos é o que se pode observar em carta enviada ao então presidente da Academia Brasileira de Letras, Múcio Leão, em 14/10/1944, recusando um convite à cadeira que pertencera a Alcides Maya: "(…) Do fundo do coração agradeço a generosa iniciativa; em especial agradeço a Cassiano Ricardo e Menotti o sincero empenho demonstrado em me darem tamanha prova de estima." In: Urupês, 1978, s/p.

[7] Menotti Del Picchia, "Uma palestra de arte", Correio Paulistano, de 29/11/1920. Apud. Mário da Silva Brito, op. cit., p. 58.

[8] Cf. Mário da Silva Brito, op. cit., p.57.

[9] In: "A chegada da arte moderna no Brasil", conferência de Anita Malfatti na Pinacoteca do Estado de São Paulo, em 25/10/1951. In: Conferências de 51, p. 31, Apud. Aracy Amaral, 1979, p.72.

[10] In: Mário da Silva Brito, op. cit., p.42.

[11] Oswald de Andrade. "A Exposição Anita Malfatti", in: "Jornal do Comércio", edição de São Paulo, 11/01/1918. Apud Mário da Silva Brito, op. cit. p. 61.

[12] Mário de Andrade. "O movimento modernista". Aspectos da literatura brasileira, São Paulo, Martins Fontes, 1974, p.232.

[13] O referido quadro foi adquirido por Mário de Andrade na inauguração da Semana de Arte Moderna. Cf. Confer. cit., p. 31. Apud. Aracy Amaral, op. cit., p.93.

[14] Mário de Andrade, "A manhã", Suplemento de S. Paulo, de 31/7/1926. Apud Mário da Silva Brito, op. cit., p. 65

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Em São Paulo, 22 de Março de 2010

A arte – 1

Abaixo, dois textos de Ferreira Gullar sobre a arte e a realidade. O primeiro apareceu no dia 7/3 e o segundo hoje, 21/3 – ambos na Folha Ilustrada, caderno da Folha de S. Paulo. A discussão teórica teve como pano de fundo a próxima Bienal.

O assunto sobre a natureza da arte e a questão mais prática sobre o que conta como arte e o que não conta me interessam bastante.

O realismo artístico do passado representava a realidade de forma “realista”, isto é, uma pintura deveria parecer uma fotografia. Hoje em dia, diz Gullar, a Bienal pretende (pelo que parece) simplesmente mostrar filmes e fotografias – não filmes e fotografias digamos, artísticos, mas dilmes e fotografias digamos documentários. Ou seja, em vez de uma pintura parecendo uma fotografia, agora temos direto a fotografia. “O realismo do passado representava a realidade; o de agora mostra-a”, lastima Gullar.

Para Gullar, a arte deve criar ou inventar uma realidade diferente, que subverte ou enriquece a realidade propriamente dita. “A arte existe porque a realidade é pouca, não nos basta", diz Gullar. Não se faz arte quando apenas se mostra a realidade por filmes e fotografias.

A crítica de Gullar chega perto da Bienal quando ele afirma:

“Se um artista amarra um cão numa galeria de arte, para fazê-lo morrer de fome e sede, e outro convida pessoas para verem larvas de moscas através de um microscópio, deixam evidente que o que lhes resta é mostrar a realidade, já que, sem a linguagem da pintura, não podem reinventá-la, como a arte sempre fez. E assim são levados a crer que o que vale é o real; arte é mentira. – Sim, a mentira mais verdadeira que a verdade, como o sabia Pablo Picasso.”

(E como o sabe Mario Vargas Llosa. Vide La Verdad de las Mentiras).

A crítica volta para o plano teórico quando ele acrescenta:

“Os estetas e teóricos da arte, como os artistas, sempre entenderam que arte e realidade são coisas distintas, pelo fato mesmo de que a arte-pintura, sendo um modo de expressão, não tem a materialidade das coisas reais. Ao substituir as significações simbólicas pela exposição pura e simples dos fenômenos reais, abre-se mão da capacidade humana de criar um universo imaginário que, durante milênios, contribuiu para fazer de nós seres culturais, distintos dos demais seres vivos que, estes, sim, limitam-se à experiência do mundo material.”

A crítica final à Bienal que se descortina:

“Neste contexto, a próxima Bienal de São Paulo muda-se em festival de cinema, fotos e vídeos para nos mostrar a realidade que já conhecemos: a guerra, as penitenciárias, os prostíbulos, os drogados, enfim, o pesadelo redundante, que nos chega diariamente pela televisão e pelos jornais.”

Ali não cabe a arte.

No artigo de hoje Gullar introduz uma linha adicional de argumentação.

Quando nascemos, diz ele, “porque ainda não aprendemos a falar, somos quase que apenas nosso corpo – um bichinho que apenas gesticula. Depois que aprendemos a falar, tudo muda, já podemos traduzir em palavras o que sentimos e desejamos, e, por meio da poesia, nos inventamos e inventamos a realidade imaginária que amplia nossa existência. Assim também, se me torno pintor, de posse de uma nova linguagem, reinvento a realidade e a transfiguro.”

Gullar está perdoado de mencionar apenas a poesia, e se esquecer da ficção em forma de prosa. Mas é isso aí.

Já mencionei Mário Vargas Llosa. Ayn Rand e Mário Vargas Llosa compartilham, até certo ponto, uma visão da arte, segundo a qual (parafraseando Rand) a arte é a nossa tentativa de recriar a realidade (i.e., inventar uma realidade) segundo nosso "sense of life", nosso sentido de realidade, nossos valores mais básicos. Falando especificamente da literatura, Vargas Llosa diz que ela consiste de mentiras que inventamos para dizer verdades que, no mundo em que vivemos, não têm correspondência com a realidade.

A seguir, os dois textos de Gullar.

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Folha de S. Paulo
7 de Março de 2010

FERREIRA GULLAR

A pouca realidade


A arte existe porque a realidade não nos basta; copiar a realidade é chover no molhado


LEIO QUE a próxima Bienal de São Paulo será tomada por filmes, fotografias e videoinstalações. E não serão filmes de ficção, mas filmes que tratam da realidade política, econômica e social. Essa notícia veio ajustar-se a uma leitura que tenho feito do rumo tomado pelas artes plásticas, segundo a qual tudo o que nelas era fantasia foi substituído pela realidade. O realismo do passado representava a realidade; o de agora mostra-a.

A grande arte inventa o real, subverte-o, enriquece-o mesmo quando se trata de realistas como Corot ou Courbet. Digo que a arte existe porque a realidade é pouca, não nos basta. Copiar a realidade é chover no molhado.

Após o realismo do século 19, veio o impressionismo, de Monet e Renoir, em que a realidade do mundo dissolvia-se em luz e cores vibrantes, que mudavam com o passar dos minutos. Cézanne queria uma pintura menos fluida, mais sólida, mais próxima do real, porém, grande artista que era, terminou por desintegrar as formas reais em manchas, abrindo caminho para o cubismo. Ele dizia que, sem a natureza, não havia pintura, mas, em vez de copiá-la, tratou de mudá-la em sua pintura: a substância das maçãs que pintou é pictórica, não é a mesma da maçã real.

Pois bem, os cubistas inverteram a questão; em vez de partirem da natureza, partiram da tela, dos elementos gráficos e cromáticos para reinventar o real: o cachimbo, que se vê numa natureza-morta de Braque, não existe; ele o inventou. Foi o começo de uma revolução que a tudo subverteu e, o quadro, agora, tanto podia ser pintado como feito de recortes de jornal, fios de arame, barbante, areia, pano colado na tela. Expulso da pintura o objeto natural, tornou-se o quadro o objeto da pintura e, assim, qualquer coisa que se pusesse ali viraria arte. E nasceram a arte Merz (quadros-colagens), de Schwitters; o dadaísmo, de Arp e Duchamp; o suprematismo, de Malevitch; sem falar no neoplasticismo, de Mondrian. Implodida a linguagem pictórica, todos os caminhos se tornaram possíveis, menos a volta à imitação da natureza.

A tendência realista foi consequência da substituição da visão religiosa pela concepção científica e do desenvolvimento industrial. A linguagem abstrato-geométrica da arte levou Malevitch ao impasse da tela em branco, que o fez trocar o quadro pela construção no espaço real. Por sua vez, Schwitters passou a construir o Merzbau, uma "assemblage" tridimensional, que crescia todos os dias, a cada novo elemento que ele trazia da rua. Lygia Clark, décadas depois, no Brasil, diante do mesmo impasse, também abandonava a tela pela construção no espaço real, inventando os bichos e objetos relacionais, que, na verdade, eram pura sensorialidade, ou seja, a expressão reduzida à sua realidade material.

Com a eliminação da referência à natureza e o fim da linguagem pictórica, o quadro, como espaço imaginário, morrera e a matéria da arte passou a ser a realidade "tout court". A rejeição da arte, como expressão estética, tornou-se a tendência preponderante. Se um artista amarra um cão numa galeria de arte, para fazê-lo morrer de fome e sede, e outro convida pessoas para verem larvas de moscas através de um microscópio, deixam evidente que o que lhes resta é mostrar a realidade, já que, sem a linguagem da pintura, não podem reinventá-la, como a arte sempre fez. E assim são levados a crer que o que vale é o real; arte é mentira.

Sim, a mentira mais verdadeira que a verdade, como o sabia Pablo Picasso.

Os estetas e teóricos da arte, como os artistas, sempre entenderam que arte e realidade são coisas distintas, pelo fato mesmo de que a arte-pintura, sendo um modo de expressão, não tem a materialidade das coisas reais. Ao substituir as significações simbólicas pela exposição pura e simples dos fenômenos reais, abre-se mão da capacidade humana de criar um universo imaginário que, durante milênios, contribuiu para fazer de nós seres culturais, distintos dos demais seres vivos que, estes, sim, limitam-se à experiência do mundo material.

Neste contexto, a próxima Bienal de São Paulo muda-se em festival de cinema, fotos e vídeos para nos mostrar a realidade que já conhecemos: a guerra, as penitenciárias, os prostíbulos, os drogados, enfim, o pesadelo redundante, que nos chega diariamente pela televisão e pelos jornais. Ao contrário disso, uma obra de arte como "Noite Estrelada", de Van Gogh, por exemplo, não é nunca redundante; é sempre atual, é um deslumbramento a mais no mundo. A arte existe porque a realidade não nos basta, sabiam?

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Folha de S. Paulo
7 de Março de 2010

FERREIRA GULLAR

A pouca realidade 2


A arte contemporânea caracteriza-se não por reinventar a realidade e, sim, mostrá-la


NA CRÔNICA aqui publicada no dia 7 deste mês, disse que a próxima Bienal de São Paulo teria o propósito de nos mostrar aspectos da realidade política e social, por meio de filmes, vídeos e fotografias, conforme li na imprensa. Pareceu-me que, com isso, a Bienal se inseria na tendência chamada arte contemporânea de nos mostrar a realidade em lugar de recriá-la ou transfigurá-la. A curadoria da mostra contestou minha afirmação, alegando que, pelo contrário, pretende "destacar a singularidade da arte em relação ao campo da cultura e se propõe mostrar a relação entre arte e política". Acrescenta, ainda, concordar com minha tese de que a arte existe porque a realidade não nos basta. Se é assim, tanto melhor. Mas por que fazê-lo por meio do cinema se a Bienal é de artes plásticas?

Quem leu a referida crônica terá percebido que me vali da futura Bienal como pretexto para expor meu ponto de vista, segundo o qual a chamada arte contemporânea caracteriza-se não por reinventar a realidade e, sim, simplesmente, mostrá-la. Esses artistas -se ainda cabe chamá-los assim- têm as chamadas linguagens da pintura, da gravura, da escultura etc., por superadas.

Vou me valer de uma metáfora bem simples. Ao nascermos, porque ainda não aprendemos a falar, somos quase que apenas nosso corpo – um bichinho que apenas gesticula. Depois que aprendemos a falar, tudo muda, já podemos traduzir em palavras o que sentimos e desejamos, e, por meio da poesia, nos inventamos e inventamos a realidade imaginária que amplia nossa existência. Assim também, se me torno pintor, de posse de uma nova linguagem, reinvento a realidade e a transfiguro.

Mas o que sucederia se, por alguma razão, essa linguagem pictórica se desfizesse? Restaria eu, pintor sem linguagem, diante da realidade, agora inalcançável. Cézanne, ao pintar a maçã, não a copia, simplesmente; muda-a em pintura. As garrafas e púcaros dos quadros de Morandi são entes pictóricos, que ele acrescentou ao mundo, o que só se tornou possível pelo domínio técnico e poético da linguagem da pintura. Sem ela, o que faria Morandi, fascinado como era, pelo mistério daqueles objetos? Nos chamaria a sua casa para mostrá-los? Certamente, não o faria por saber que a função do artista não é mostrar a realidade, mas mudá-la.

Tanto o sabia que, tendo vivido até 1964, não aderiu às vanguardas que negaram a linguagem da arte.

O que é o "ready-made", se não a apropriação do que já está feito? O "ready-made" dispensa a linguagem da arte, ou seja, dispensa a arte que, sem linguagem, não existe. Mas Marcel Duchamp, que era artista, dedicou oito anos a fazer o "Grande Vidro" e 12 a fazer o "Étant Donné", que, aliás, de realidade não tem nada: é puro sonho.

O "ready-made" duchampiano expressa a contradição entre a arte artesanal e a sociedade industrial. É como se Duchamp dissesse: "Nesta época, a arte já era". E, com isso, o pintor saiu do espaço fictício do quadro para o espaço real do mundo.

No começo, o propósito era criar, nesse espaço, objetos que, de algum modo, aludissem à subjetividade, do artista e do espectador, mas, em seguida, até essa significação estética (isto é, formal) se desvaneceu e ao artista, sem linguagem, só restou a realidade inalcançável.

A performance resulta dessa perda da linguagem: sem ela, sou apenas meu corpo material: lambuzo-me de tinta, me masturbo em público, me corto, fico nu no museu; sim, no museu, porque ficar nu na rua ou em casa não é arte. Tenho que me masturbar na galeria de arte para que a masturbação vire expressão estética.

Sem linguagem artística, reduzido a meu próprio corpo, é a instituição -o museu, a galeria de arte- que dá sentido às minhas atitudes e ações.

Por coincidência, naquele mesmo domingo em que abordei aqui este assunto, um jornal do Rio publicou uma entrevista com Marina Abramovic, artista performática que está se exibindo no MoMa. Um dos principais elementos de sua exibição são mulheres e homens nus. Ela fez questão de explicar que não se trata de teatro, "onde tudo é mentira, pois os atores fingem que são personagens e o sangue é tinta vermelha". Já na performance, é tudo verdade, tudo é real: se houver sangue, é sangue mesmo. E assim ela confirma o que afirmei sobre a arte contemporânea que, ao contrário do que a arte sempre fez, não cria nada: mostra o real. Ou seja, o que já conhecemos e não nos basta. Em matéria de nus mostrados em museus, prefiro o Davi, de Michelangelo, ou a Vênus de Cnido, que, em vez de me constrangerem, me deslumbram.

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Em São Paulo, 21 de Março de 2010