Verdade, dogmatismo e intolerância (mais uma vez)

Nos últimos posts (e em alguns outros anteriores) tratei da questão da verdade: da sua busca (em geral humilde) e da crença (em geral orgulhosa) em sua posse.

A busca da verdade é em geral humilde porque só busca quem não possui – e não possuir algo tão importante quanto a verdade só pode produzir no despossuidor um sentimento de humildade.

A convicção de que se está de posse da verdade, entretanto, implica que a busca da verdade terminou, posto que ela foi encontrada. Se encontramos a verdade e estamos de posse dela, não há por que continuar a buscá-la.

Por isso, a crença na posse da verdade em geral gera o dogmatismo: se estou de posse da verdade, eu sei o que é a verdade. Assim, em vez de procurá-la, basta que eu a anuncie, repita, pregue…

O dogmatismo, por sua vez, acaba por engendrar o orgulho, em geral presunçoso: tanta gente procura a verdade e não a acha, e aqui estou eu de posse dela! Eu devo estar fazendo algo certo para merecê-la! A posse da verdade se dá, no entender do seu presumido possuidor, de uma de duas maneiras: ou porque ele, estando a procurar a verdade, encontrou-a, por seus próprios méritos, ou porque, sem que ele a procurasse, a verdade lhe foi por alguma razão revelada! Ambas as maneiras geram orgulho e presunção.

Se estou de posse da verdade, por que pretender humildade, por que não me orgulhar disso, por que não declarar aos quatro ventos que eu tenho a verdade e os outros, que de mim discordam, simplesmente estão errados (ou por ignorância, ou por ma fé, ou por teimosia)?

Por fim, o dogmatismo e o orgulho geram, o mais das vezes a intolerância: se estou de posse da verdade, por que perder tempo discutindo questões que já considero resolvidas? Por que, na verdade, tolerar o erro dos que discordam de mim? Se eu tiver como obrigar os outros a concordar comigo, que possuo a verdade, seja pelo uso da força, seja pelo uso da manipulação dissimulada, eu devo fazê-lo – é assim que raciocinam os dogmáticos.

Quando se está buscando a verdade, o erro até se justifica, porque, errando, podemos eventualmente chegar mais próximos da verdade (vide Popper, mencionado a este respeito no penúltimo post). Mas quando se acredita estar de posse da verdade, o erro deixa de ter papel importante: por que, então, tolerá-lo?

Assim, a crença na posse da verdade leva ao dogmatismo, ao orgulho, e, finalmente, à intolerância.

o O o

Ludwig Wittgenstein, em seu famoso livro de aforismos, Philosophical Investigations, sugeriu que os diferentes universos de discurso em que vivemos são incomensuráveis – i.e., não podem ser comparados e cotejados com outros. Isso porque, segundo ele, cada universo de discurso é, como se fosse, um “language game”, um jogo de linguagem com suas próprias regras. Dentro do jogo, é sempre possível discutir se uma regra foi violada ou não. Mas não é possível, de dentro de um jogo, avaliar as regras do outro – nem ficar fora de todo jogo e comparar um jogo com outro.

Assim, da mesma forma que não posso criticar o jogo de xadrez a partir do jogo de damas, muito menos a partir do jogo de ping pong, não posso criticar o jogo da religião a partir do jogo da ciência ou do jogo da filosofia… Cada jogo tem suas próprias regras, e cada um de nós pode jogar diferentes jogos em diferentes momentos – mas só pode jogar um jogo de cada vez. Quando estamos jogando um determinado jogo, ficamos presos – encasulados, engaiolados – dentro dele.

Discordo dessa visão de Wittsgenstein, porque estou convicto de que não só é possível criticar um universo de discurso a partir de outro, como também é possível alcançar um certo ponto neutro e objetivo a partir do qual posso comparar os méritos e deméritos relativos de dois ou mais universos de discurso. Abrir mão dessa convicção é abrir mão da possibilidade de a razão interferir em nossos juizos.

Creio que Wittgenstein, ao chamar os diferentes universos de discurso de jogos pré-julgou o relacionamento que eles têm, ou podem ter, uns com os outros. Além disso, jogos são atividades que são definidas arbitrariamente. Não têm uma relação com a realidade física ou social que possa ser analisada pela razão. Os universos de discurso têm – ou pretendem ter.

o O o

O que eu acho curioso, mas totalmente injustificado, no discurso dos dogmáticos é o fato de que, a partir de seu universo de discurso, sentem-se totalmente em liberdade para criticar outros universos de discurso. Um cristão evangélico, digamos da igreja Assembléia de Deus, não tem o menor problema em criticar diversas doutrinas da Igreja Católica que ele rejeita. Em geral tem argumentos prontos para criticar, por exemplo, as doutrinas da infalibilidade papal, da mediação de Maria e dos santos, etc. No entanto, em regra não tem o menor interesse em sequer conhecer quais as críticas que os católicos fazem a algumas doutrinas favoritas suas, como, por exemplo, a do batismo do Espírito Santo e a da glossolalia (falar em línguas estranhas). O católico, em geral, comporta-se de maneira semelhante em relação às outras variantes do Cristianismo.

Ou seja, para os dogmáticos, Wittgenstein está errado na medida em que é possível criticar um universo de linguagem (os das demais pessoas) a partir do próprio (o meu)… No entanto, os dogmáticos raramente se interessam em conhecer as críticas que os demais universos de linguagem fazem ao seu… Defendem, assim, uma análise crítica de uma mão só… – não uma discussão crítica de duas mãos!

o O o

Em Inglês há uma expressão interessante  “to think out of the box”: pensar fora da caixa – a caixa sendo as gaiolinhas que presentam os universos de discurso em que transitamos. A vida racional pressupõe e exige que sejamos capazes de fazer isso. Wittgenstein afirmou que isso é impossível – e, conseqüentemente, negou a possibilidade da operação da razão na avaliação de nossos universos de discurso. Para ele, a razão só opera dentro de um universo de discurso, ou language game – não entre eles.

A maior parte dos dogmáticos religiosos é wittgensteiniana nesse sentido… Dadas suas premissas, conseguem argumentar até de forma bastante racional. Mas são incapazes de analisar e avaliar racionalmente suas premissas. Se a premissa é a de que a Bíblia é a palavra inerrante de Deus e a única regra de fé e prática, raciocinam bem dentro da premissa, tentando compatibilizar textos bíblicos que parecem incompatíveis uns com os outros, tentando mostrar que são verdadeiros mesmo textos que claramente parecem falsos, tentando justificar a aceitação de textos que claramente parecem ter conotação ou conseqüências imorais… Mas não conseguem colocar suas premissas em cheque – muitas vezes recusando-se até mesmo a ler textos ou autores que poderiam levá-los a fazer isso… 

Por ora, é isso. Continuo depois.

Em São Paulo, 2 de Abrild de 2009

Verdades absolutas e conhecimento relativo: uma réplica

Wanderley Navarro, que, como eu, é fascinado por esse assunto, escreveu o seguinte comentário ao meu post “Verdades absolutas e conhecimento relativo”.

“Se a verdade para Popper é a consonância entre o enunciado e a realidade e, ao mesmo tempo, afirma que nunca podemos estar certos desta consonância então como concluir que a verdade absoluta existe? Entendo que Popper ’acredita’ na verdade absoluta, apenas acredita. Existe alguma verdade que não é absoluta? Existe, por oposição, a verdade provisória? Parece-me que o enunciado e a realidade que ele pretende expressar são de naturezas diferentes. Por mais que sejam gêmeos continuarão sendo duas realidades. Mas, acima disso tudo, será que isso que chamamos de realidade existe independente de mim, ou seja, do sujeito que intermedia essa relação. Popper, parece, acredita que sim. Acredita.”

Vou tecer algumas considerações sobre essa réplica do Navarro.

1) Sem dúvida Popper é um realista filosófico. Para ele a tese de que a realidade existe independente de mim, ou de minha apreensão dela através da percepção, é uma conjetura filosófica que, embora submetida a uma bateria incomparável de críticas (tentativas de refutação) por parte dos empiristas ingleses, do próprio Kant, e, mais recentemente, dos chamados fenomenalistas e de muitos outros, tem sobrevivido galhardamente a essas críticas.

2) Para Popper, os méritos epistêmicos dessa tese são algo objetivo que independe do fato de ele, Popper, ou de qualquer outra pessoa, acreditar na tese (que é algo subjetivo). Os méritos epistêmicos de uma tese são avaliados mediante uma análise e avaliação objetiva e rigorosa de possíveis contra-exemplos a ela, análise e avaliação essas que independem de haver alguém que acredite nessa tese.

3) Sem dúvida Popper também entende a verdade, apud Alfred Tarski, como a correspondência (ou consonância, como prefere o Navarro) entre um determinado enunciado, ou conjunto de enunciados, e a realidade. Assim, ele considera que a tese de que nossos enunciados podem descrever ou explicar verdadeiramente a realidade também é uma conjetura filosófica que, embora submetida a uma bateria incomparável de críticas (de idealistas e pragmatistas, entre outros), tem sobrevivido a essas críticas.

4) O mesmo que se disse em “2” sobre “1” pode-se dizer aqui, agora, sobre “3”.

5) Dado o seu entendimento de verdade, e sua avaliação da tese descrita em “3”, Popper considera verdadeiro, no meu entendimento, o enunciado condicional “Se p (onde p é um enunciado) é verdadeiro, então p é verdadeiro de forma absoluta”. (Esse enunciado se aplica inclusive a si próprio). Isso quer dizer que, para Popper, não há verdades que não sejam absolutas.

6) Evidentemente, um enunciado e a realidade que ele pretende descrever ou explicar são de naturezas diferentes. Popper exprime isso dizendo que a realidade é parte do Mundo 1 e o enunciado é parte do Mundo 3 – mundos esses que são relacionados ou intermediados pelos objetos constantes do Mundo 2: a nossa mente.

Acho que é isso que me ocorre no momento, Navarro… Volte à carga.

Em São Paulo, 30 de Março de 2009

Pensar muitas vezes dói…

Meu último post aqui neste Space, no dia 20/3, teve o título de “Verdades absolutas e conhecimento relativo”. Terminei-o me referindo a Popper e afirmando:

“A busca da verdade se dá, segundo Popper, no exame sério, rigoroso e imparcial de pontos de vista que conflitam com os nossos. É neles que vamos eventualmente ser capazes de identificar pontos fracos em nossas formulações, em nossos argumentos, em nossas evidências – e, assim, conseguir avançar um pouco mais na direção da verdade. Quando a gente rejeita o que antes considerava verdadeiro, faz um progresso significativo na direção da verdade.”

Hoje, domingo, 29/3, encontro na Folha de S. Paulo, o interessante artigo, transcrito abaixo, de Nicholas D. Kristof, sobre a leitura de notícias e opiniões (que caracterizam os jornais) pela Internet. O artigo foi originalmente publicado em The New York Times.

Vale a pena ler – embora não concorde com o principal ponto dele, a saber, a tese de que a leitura de notícias e artigos de opinião pela Internet está restringindo a pluralidade de pontos de vista que era representada pelos jornais – porque na Internet, supostamente, cada um vai e seleciona apenas as notícias que lhe interessam e os pontos de vista com os quais concorda.

Discordo de Kristof por uma solitária razão que passo a resumir. 

Mesmo antes da Internet, quando as pessoas buscavam notícias e opiniões em jornais, e não na Internet, cada um (com exceção de alguns leitores profissionais) tinha o seu jornal favorito. Em São Paulo, por exemplo, os mais conservadores liam o Estadão, os mais – como direi? – metidos a progressistas liam a Folha. No Rio, o Globo e o JB desempenhavam função semelhante. 

A tendência de buscar alimento intelectual ou munição para discussões em pessoas que pensam mais ou menos como a gente é uma tendência natural – independentemente da Internet. É por isso que precisa ser combatida – e Popper é o antídoto por excelência a ela.

A Internet, na verdade, nos oferece mais diversidade do que um jornal como o Estadão ou a Folha jamais o fez. Basta estarmos interessados em buscá-la. O problema não é a Internet: é a falta de interesse da maioria das pessoas em analisar com cuidado possíveis falhas em suas idéias favoritas – quanto mais em procurar opiniões de pessoas  que discordem delas.

É essa mesma atitude que explica a relutância da maior parte das pessoas que têm religião de assistir a serviços religiosos em igrejas (sinagogas, mesquitas) diferentes da sua. Em seus próprios locais de culto elas se sentem confortáveis sabendo que o que vão ouvir tenderá a reforçar aquilo em que já acreditam. Num serviço religioso diferente seriam provavelmente obrigadas a pensar (e numa roda de ateus, então, nem se diga) – e pensar muitas vezes dói…

Foi por isso que Bertrand Russell uma vez disse que a maioria das pessoas prefere morrer a pensar (e muitas dessas de fato morrem sem ter jamais realmente pensado um pensamento divergente daqueles que lhes foram incutidos na infância pelos aparelhos de formação de opinião que existem na sociedade).

Em São Paulo, 29 de Março de 2009

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Do New York Times
Transcrito na Folha de S. Paulo
29 de Março de 2009

ARTIGO

O meu jornal diário

Ao contrário do jornal, internet nos leva a buscar ideias afins às nossas e vai nos isolar ainda mais em nossas câmaras políticas hermeticamente fechadas

NICHOLAS D. KRISTOF
DO "NEW YORK TIMES"

Alguns dos obituários mais recentes não estão saindo nos jornais, mas são dos jornais. O "Seattle Post-Intelligencer" é o mais recente a desaparecer, excetuando um resquício de que vai existir só no ciberespaço, e o público está cada vez mais buscando as notícias que consome não nas grandes redes de televisão ou em fontes impressas em tinta sobre árvores mortas, mas em suas incursões on-line.

Quando navegamos on-line, cada um de nós é seu próprio editor, o guardião de sua própria entrada. Selecionamos o tipo de notícias e opiniões de que mais gostamos.

Nicholas Negroponte, do MIT (Instituto de Tecnologia de Massachusetts), chamou a esse produto noticioso emergente "O Meu Jornal Diário". E, se isso for uma tendência, que Deus nos salve de nós mesmos.

Isso porque existem provas bastante convincentes de que, em geral, não desejamos realmente informações confiáveis, e sim as que confirmem nossas ideias preconcebidas. Podemos acreditar intelectualmente no valor do choque de opiniões, mas na prática gostamos de nos encerrar no útero tranquilizador de uma câmara de ecos. Um estudo clássico enviou despachos a republicanos e democratas, oferecendo-lhes vários tipos de pesquisas políticas, ostensivamente de uma fonte neutra. Os dois grupos mostraram mais interesse em receber argumentos inteligentes que corroborassem suas ideias preexistentes.

Também houve interesse mediano em receber argumentos tolos em favor das posições do outro partido (nós nos sentimos bem quando podemos caricaturar os outros). Mas houve pouco interesse em estudar argumentos sólidos que pudessem enfraquecer as posições anteriores de cada um. Essa constatação geral foi repetida muitas vezes, como observou o autor e ensaísta Farhad Manjoo em 2008 em seu ótimo livro "True Enough: Learning to Live in a Post-Fact Society" [Verdade Suficiente: aprendendo a viver numa sociedade pós-fatos].

Permita que deixe uma coisa clara: eu mesmo às vezes sou culpado de buscar verdades na web de maneira seletiva. O blog no qual busco análises sobre notícias do Oriente Médio frequentemente é o do professor Juan Cole, porque ele é inteligente, bem informado e sensato -em outras palavras, frequentemente concordo com ele. É menos provável que leia o blog de Daniel Pipes, especialista em Oriente Médio que é inteligente e bem informado -mas que me parece menos sensato, em parte porque frequentemente discordo dele.

Segregação

O efeito do "Meu Jornal" seria nos isolar ainda mais em nossas câmaras políticas hermeticamente fechadas. Um dos livros mais fascinantes de 2008 foi "The Big Sort: Why the Clustering of Like-Minded America is Tearing Us Apart" [A grande classificação: porque a divisão da América em agrupamentos de ideias iguais nos está dividindo], de Bill Bishop.

Ele argumenta que os americanos vêm se segregando em comunidades, clubes e igrejas onde são cercados por pessoas que pensam como eles.

Hoje, diz Bishop, quase metade dos americanos vive em condados que votam por maioria avassaladora em candidatos democratas ou republicanos.

Nos anos 60 e 70, em eleições nacionais igualmente d
isputadas, só cerca de um terço dos eleitores vivia em condados que apresentavam maiorias avassaladoras nas eleições.

"O país está ficando mais politicamente segregado -e o benefício que deveria advir da presença de uma diversidade de opiniões se perde para o sentimento de estar com a razão que é próprio dos grupos homogêneos", escreve Bishop.

Um estudo que abrangeu 12 países concluiu que os americanos são os que demonstram menos tendência a discutir política com pessoas de visões diferentes, e isso se aplica especialmente aos mais bem instruídos. Pessoas que não concluíram o ensino médio tinham o grupo mais diversificado de pessoas com quem discutiam ideias. Já as que tinham concluído a faculdade conseguiam colocar-se ao abrigo de ideias que lhes eram incômodas.

O resultado disso é a polarização e a intolerância. Cass Sunstein, professor de direito em Harvard que agora trabalha para o presidente Obama, fez uma pesquisa que mostrou que, quando progressistas ou conservadores discutem questões como ação afirmativa ou mudanças climáticas com pessoas que pensam como eles, suas ideias rapidamente se tornam mais homogêneas e mais extremas que antes da discussão.

Em um estudo, alguns progressistas inicialmente temiam que as ações para enfrentar as mudanças climáticas pudessem prejudicar os pobres, enquanto alguns conservadores inicialmente se mostravam a favor da ação afirmativa. Mas, depois de discutir a questão durante 15 minutos com pessoas que pensavam como eles, os progressistas se tornavam mais progressistas, e os conservadores, mais conservadores. O declínio da mídia noticiosa tradicional vai acelerar a ascensão do "Meu Jornal"; vamos nos irritar menos com o que lemos e veremos nossas ideias preconcebidas confirmadas com mais frequência. O perigo é que esse "noticiário" autosselecionado aja como entorpecente, mergulhando-nos num estupor autoconfiante por meio do qual enxergaremos as coisas em preto e branco, sendo que os fatos normalmente se desenrolam em tons de cinza.

Qual seria a solução? Incentivos fiscais para progressistas que assistam a Bill O’Reilly [comentarista do canal conservador Fox News] ou conservadores que vejam Keith Olbermann [âncora do canal progressista MSNBC]? Não -enquanto o presidente Obama não nos dá o atendimento médico universal, não podemos correr o risco de um aumento grande no número de infartos.

Então talvez a única maneira de avançar seja que cada um se esforce por conta própria para fazer uma malhação intelectual, enfrentando parceiros de discussão cujas opiniões deploramos. Pense nisso como uma sessão diária de exercícios mentais análoga a uma ida à academia: se você não se exercitou até transpirar, não valeu. Agora, com licença. Vou ler a página de editoriais do "Wall Street Journal".

Tradução de CLARA ALLAIN

Verdades Absolutas e Conhecimento Relativo

Já comentei várias vezes aqui que Karl Popper acredita na existência de verdades absolutas.

Segundo o meu entendimento de Popper, isso significa que, se um enunciado é verdadeiro, então é verdadeiro independentemente de considerações de tempo e espaço: sempre foi verdadeiro, é verdadeiro agora e será verdadeiro para sempre – aqui ou em qualquer outro lugar. Ou seja, a verdade, no caso, será absoluta, não relativa.

Para que essa posição seja plausível é necessário que os enunciados sejam totalmente determinados, sem pronomes ou termos contextuais. Ou seja: o que poderia eventualmente relativizar o enunciado precisa se tornar parte do próprio enunciado.

Por exemplo.

O enunciado “Chove agora” sofre de mais de um problema de indeterminação. Quando é agora? Não se diz. E onde chove agora? Não se diz. Ainda se pode questionar se o sentido de “chove” é claro: chover é apenas chover forte ou uma garoinha conta como chuva? Conseqüentemente, esse enunciado nunca vai poder ser uma verdade absoluta.

Por outro lado, o enunciado “Chove fortemente no dia 20 de março de 2009, às 14h, hora local, em frente ao edifício situado na Av. Paulista 2000, em São Paulo, Brasil” é completamente determinado. Se esse enunciado é verdadeiro, ele é verdadeiro agora e será verdadeiro para sempre – em qualquer lugar do planeta. E, se alguém o tivesse formulado dois mil anos atrás na Grécia, ele teria sido verdadeiro então, também. (Algo improvável, porque São Paulo nem existia então – fazendo com que fosse difícil fazer afirmações acerca da cidade).

O que chamamos de verdade, para Popper, é uma relação de correspondência entre um enunciado e um fato da realidade. O enunciado x é verdadeiro se, e somente se, aquilo que x descreve for o caso. Em outras palavras, e particularizando, o enunciado “a neve é branca” é verdadeiro se, e somente se, a neve for branca.

Elementar, mas de profundo significado.

Para Popper, dado esse entendimento de verdade, é inquestionável que nós, cedo ou tarde, formularemos enunciados verdadeiros acerca da realidade – e esses enunciados, desde que devidamente determinados, serão verdades absolutas, não relativas a tempo e espaço.

Paralelamente à sua confiança na existência de verdades aboslutas, porém, há, em Popper, uma profunda desconfiança de nossa capacidade de saber se um determinado enunciado é de fato verdadeiro. A verdade existe, para ele, no plano da ontologia – o conhecimento, no plano da epistemologia. E aqui somos profundamente falíveis.

Assim sendo, Popper acredita na existência de verdades absolutas mas desconfia da pretensão de qualquer enunciado que aspire a essa condição – até mesmo, em princípio, daqueles formulados por ele próprio.

Aí está a base do liberalismo de Popper: ele questiona qualquer ideário (ideologia, doutrina religiosa ou política ou mesmo teoria científica) que se pretenda verdadeiro. Nossos enunciados acerca do mundo ou de qualquer outra coisa são, para ele, nada mais do que conjeturas, que podem ser refutadas a qualquer momento por fatos ou argumentos (a maoria deles é, cedo ou tarde).

Quem tem um ponto de vista assim não pode, em princípio, ser absolutista no plano do conhecimento – ou dogmático. O dogmático é aquele que se acredita de posse da verdade. E o dogmático é inevitavelmente intolerante. Se o que (por exemplo) a Bíblia diz é verdadeiro, por que tolerar a evidente falsidade de quem questiona ou contesta o que a Bíblia diz, ou diverge do que ali está escrito? Fogueira para ele. Popper, por outro lado, se vê como alguém que está constantemente em busca da verdade – sem, contudo, jamais poder ter certeza de que a encontrou… Assim ele, ou alguém que siga seu ponto de vista, nunca pode ser dogmática e intolerante.

O não-dogmatismo e a tolerância vêm juntos: eles decorrem de um mesmo fator: o fato de que eu posso estar errado e de que aquele de quem eu discordo ou a quem critico pode estar certo…

Quando me sinto tentado a atribuir o caráter de verdades absolutas às minhas próprias convicções e a ser intolerante das convicções dos outros, eu devo sempre me lembrar: e se os outros estiverem certos, e eu errado? Eu gostaria que eles fossem dogmáticos e intolerantes com meus pontos de vista?

A busca da verdade se dá, segundo Popper, no exame sério, rigoroso e imparcial de pontos de vista que conflitam com os nossos. É neles que vamos eventualmente ser capazes de identificar pontos fracos em nossas formulações, em nossos argumentos, em nossas evidências – e, assim, conseguir avançar um pouco mais na direção da verdade. Quando a gente rejeita o que antes considerava verdadeiro, faz um progresso significativo na direção da verdade.

Em São Paulo, 20 de março de 2009

Alfabetização, letramento e seus correspondentes no mundo digital

Se bem recordo, havia, desde o meu tempo de escola até recentemente, apenas um termo básico que se aplicava para designar se alguém dominava ou não a linguagem escrita: alfabetização. Ou o fulano era alfabetizado, ou não era. A questão era em branco e preto, sem tonalidades de cinza — certamente, nada de dezesseis milhões de cores ali. Embora as antigas professoras primárias, alfabetizadoras por excelência, pudessem, no primeiro ano do Grupo Escolar, dizer, durante o processo de alfabetização, que um aluno já estava totalmente alfabetizado, o outro estava chegando lá, e o outro estava meio longe ainda, não era questão aberta que, uma vez alfabetizado (algo que acontecia, em regra, até o meio do ano escolar), o dito cujo estava alfabetizado. Ponto final, passemos a outro programa (como dizia a finada PRK-30).

Estar alfabetizado, nesse contexto, era conseguir decodificar as combinações das letras do alfabeto, identificando, por assim dizer, o som que correspondia a cada grafema e, portanto, tornando-se capaz de construir fonemas a partir de textos escritos.

[Posteriormente à escrita deste artigo, escrevi, em 09/11/2010, um outro artigo, menor, mas mais bem focado, em que deixo bem esclarecida essa questão. Vide “Alfabetização e Letramento”, neste mesmo blog, in https://liberal.space/2010/11/09/alfabetizacao-e-letramento/.]

A pequena gradação que as professoras primárias faziam se baseava no fato de que, em Português, o som correspondente a certas combinações de letras é absolutamente não problemático: b+a=ba, e daí vêm be, bi, bo, bu, pa, pe, pi, po, pu, etc. Todo mundo que estava “chegando lá” não tinha problemas com essas combinações das letras do alfabeto. Quem o tivesse, ou estava muito no comecinho ou não tinha jeito pra coisa. Outras combinações, porém, eram mais problemáticas: br, pr, nh, lh, qu, qü, gu…  Quem sabia extrair o som certo de qualquer combinação de letras, incluindo essas dificinhas, estava totalmente alfabetizado. Ponto final de novo.

A questão era simples e, como dizem os anglófilos, straightforward. Nunca se imaginou, naquela época, que alguém pudesse passar a sua vida escolar inteira (muito menos a sua vida inteira) se alfabetizando ou sendo alfabetizado. A alfabetização era algo simples que se liqüidava no primeiro semestre da escola. Depois, a partir do segundo semestre do primeiro ano, partia-se para o que realmente importava: empreendimentos mais prazerosos e mais rentáveis do ponto de vista educacional. Mas a alfabetização, concebida nessa visão objetiva e descomplicada, era a base do resto. Sem saber decodificar os sons escondidos por trás das combinações de letras permitidas pelo alfabeto, era impossível chegar a esses territórios mais recompensadores — a esse Nirvana pedagógico. Mas a tarefa de decodificá-los (processo denominado, a meu ver corretamente, de alfabetização) era relativamente simples. Na verdade, muitos de nós nos alfabetizamos virtualmente sozinhos, com mínima ajuda de terceiros (em geral mãe ou pai). Esse foi o meu caso.

Em Inglês, o termo correspondente a “alfabetização” era, e sempre foi, “literacy”.

Num dado momento, porém, aqui no Brasil, começou a surgir um vocábulo novo nos meios acadêmicos: “letramento”. Imagino que, do ponto de vista vocabular, “letramento” seja uma tradução portuguesa meio pobre de “literacy”. (“Literamento” seria uma tradução ainda mais pobre que, thank God, não vingou.)

O problema é que, com o novo termo, veio um novo conceito… Letramento não seria a mesma coisa que alfabetização. Letramento seria mais um processo, que tem começo (a alfabetização), mas não tem fim, posto que seu objeto (e objetivo) é a expansão e o aprofundamento do domínio que uma pessoa tem do texto, tanto na leitura como na escrita (ou, como preferem alguns, num termo horroroso, na “lecto-escritura”…): do entendimento, em relação à leitura, da expressão, em relação à escrita. 

Nesse contexto, a alfabetização é o estágio inicial do processo de letramento — e, como tal, tem começo, meio e fim. Mas o letramento continua pelo resto da vida — porque é sempre possível expandir ou aprofundar o domínio que se tem do texto (acrescentando-se “gêneros” diferentes de texto…). Assim, pode-se dizer que alguém é alfabetizado, mas não seria possível dizer que é “letrado” (no sentido técnico do termo, em que ser letrado não é sinômino de ser bem-informado, culto).

(Fazendo um parêntese opinativo num texto que se pretende descritivo, o meu problema com o conceito de letramento está no fato de que, letramento, concebido assim de forma tão ampla, geral e irrestrita, me parece ser sinônimo da educação, ou, pelo menos, parte de um todo maior que chamamos de educação).

Quando se começou a considerar a informática como linguagem – os Parâmetros Curriculares Nacionais são, em parte, culpados por perpretrar esse crime aqui no Brasil – começou a se falar em “alfabetização digital” (tradução literal de “digital literacy”). Quando o termo “letramento” se tornou relativamente popular nos guetos pedagógico-lingüísticos (graças, em parte, ao trabalho de minha amiga Magda Becker Soares, que nasceu no dia, mês e ano em que eu também nasci), surgiu a dúvida: vamos continuar falando de alfabetização digital ou vamos passar a falar de letramento digital? Os que não gostavam nem de uma, nem da outra expressão, sugeriram que falássemos, alternativamente, em desenvolvimento / domínio de competências e habilidades digitais – expressão longa e desejeitada (seria admissível chamá-la de canhestra, ou é esnobismo?) que parece desagradar a gregos e troianos.

Fico com a nítida impressão que a discussão é puramente terminológica. Raramente se entra na área da realidade para a qual a linguagem aponta…

Se formos olhar para a realidade, e não para a linguagem que usamos para descrevê-la, vamos encontrar processos basicamente de dois tipos:

a) Um é o processo de aprender a manejar, do ponto de vista técnico, a informática (hardware e software);

b) O outro é o processo de aprender a colocar a aprendizagem anterior a bom uso, aplicando-a na solução de problemas reais e importantes da vida, e assim melhorando a qualidade de nossa vida.

Não é difícil ver em “a” um paralelo com o conceito de alfabetização, tout court, e em “b” um paralelo com o conceito de letramento, tout court.

Dando minha opinião agora fora de parênteses, meu problema é o seguinte:

1) Alfabetização Digital, ou algo mais ou menos correspondente a “a”, tende a desaparecer, à medida que os “nativos digitais” se tornam mainstream. Ninguém vai precisar se preocupar se os meus netos sabem manejar a tecnologia digital, da mesma forma que hoje não nos preocupamos com a questão acerca de como as pessoas vão aprender a usar o lápis, a caneta, o telefone, a televisão…

2) Letramento Digital, ou algo mais ou menos correspondente a “b”, tende a desaparecer, como questão isolada da questão mais ampla da educação, porque será incorporada ao mainstream da educação…

Logo, why worry?

Já desenvolvi um argumento análogo sobre a chamada Inclusão Digital? Why worry? – let time and the market do their job, which they surely will.

Em São Paulo, 14 de março de 2009

O Leitor / The Reader: Uma Resenha

[NOTA: Este post é um estraga-prazeres para aqueles que gostam de assistir filmes sem saber o que vai acontecer. Se você é um desses, não leia.]

Assisti na tarde de ontem (24/02/2009) ao filme O Leitor / The Reader – filme dirigido por Stephen Daldry e baseado em livro, com o mesmo título, de Bernhard Schlink. O filme concorreu ao Oscar (referente a 2008, ano em que foi lançado) nas categorias Melhor Filme, Melhor Diretor, Melhor Roteiro Adaptado, e “Cinematografia”, sem ganhar, e, na categoria Melhor Atriz em Papel Principal, merecidamente trouxe para Kate Winslet, o seu primeiro Oscar. Kate Winslet ganhou ainda inúmeros outros prêmios por este filme (vide http://www.imdb.com/title/tt0976051/awards/). 

Minha primeira sensação, ao sair do cinema, foi de que esperava mais do filme do que ele trouxe… Mas, depois, com conversa, leitura de resenhas e fóruns (no site http://imdb.com), e, naturalmente, com minha própria reflexão, minha opinião sobre o filme foi melhorando… Pode ser que melhore ainda mais.

Apesar de ser descrito como um filme sobre o Holocausto, O Leitor se desenrola por inteiro na Alemanha do pós-guerra. A primeira data referência, em que a história começa a se desenvolver, é 1995. O local, Berlin. Michael Berg, um advogado que aparenta ter uns 45 anos (muito bem conservados – vamos ver depois que nasceu em 1943), representado por Ralph Fiennes, com um olhar distante, triste, melancólico mesmo, reflete sobre sua vida. (Poucos atores conseguem ser tão convincentemente melancólicos como Ralph Fiennes: vide Fim de Caso, O Paciente Inglês, Jardineiro Fiel…). O objeto de sua reflexão é seu relacionamento com Hanna Schmitz, uma mulher que, à época, tinha mais do dobro da idade dele (representada magnificamente por Kate Winslet, no papel que lhe valeu o primeiro Oscar em seis indicações)… Mas já se revela que Michael foi casado (não com Hanna) e que tem uma filha jovem.

O cenário se altera. O tempo volta para 1958, mas o local ainda é Berlin. Michael Berg tem 15 anos (e é agora representado por David Kross, num magnífico desempenho) – o que significa que nasceu durante a guerra, em 1943 (o mesmo ano em que eu nasci…). Hanna Schmitz nasceu em 1922 – o que significa que, em 1958, tinha 36 anos – mais do dobro da idade de Michael. Ele começa a passar mal numa rua, entra no pré-vestíbulo de um prédio, vomita – e é socorrido por Hanna, que age de forma aparentemente grosseira, lavando a calçada, ordenando que ele levante os pés para que ela possa jogar água… Ele volta para casa e é diagnosticado com escarlatina. Fica isolado por três meses, mas, quando liberado, compra flores e vai agradecer Hanna. Na sequência, ele a visita mais vezes. Numa dessas, ela lhe pede que traga, do porão, dois baldes de carvão. Ele volta imundo. Ela lhe ordena que tire a roupa (que ela lava) e tome um banho. Depois do banho, ela, já nua, o abraça – e, na sequência, transa com ele. A frase é correta: foi ela que tomou a iniciativa. Não se pode nem dizer que ela o tenha seduzido. Ela virtualmente o atacou (embora com delicadeza e com a sensibilidade de uma mulher experiente que sabe estar lidando com um iniciante). O caso não fica só nessa transa. Eles têm um affair intenso e bonito – embora ela nada revele a ele sobre si própria, além do nome.

O relacionamento entre os dois não é apenas físico. Ela pergunta a ele sobre a escola, e ele lhe fala sobre os textos que tem de ler: A Odisséia, As Aventuras de Huckleberry Finn, A Mulher e o Cachorrinho, peças de Tchekov… Ela lhe pede que leia para ela – e ele o faz. Ela elogia a leitura dele – que não imaginava que fosse bom naquilo… O fato de estar tendo um caso com uma mulher mais velha e bonita, e o elogio que ela lhe faz, fazem com que Michael ganhe a auto-confiança necessária para melhorar sensivelmente até o seu desempenho nos jogos de basquetebol… Tudo influência dela…

Na sequência, Mchael descobre que Hanna é cobradora de bonde… A história mostra que ela está para ser promovida. Mas, um dia, ela desaparece misteriosamente, deixando Michael perto do desespero.

Nova mudança no cenário… Oito anos se passam. O ano agora é 1966, a cidade, ainda Berlin. Michael, agora com 23 anos, é estudante de Direito e, como tal, vai com seus colegas e um de seus professores (Professor Rohl, interpretado por Bruno Ganz), assistir a um julgamento de seis mulheres que trabalharam no Serviço Secreto nazista durante a Segunda Guerra, como guardas de campos de concentração – e são acusadas da morte de centenas de mulheres judias. Uma acusação é a de que regularmente cada guarda tinha de selecionar dez mulheres para morrer. Mas a principal acusação é que essas guardas deixaram, uma vez, 300 prisioneiras morrer em uma capela que pegava fogo, sem abrir a porta para que escapassem…

Entre as guardas, para a surpresa de Michael, estava Hanna – agora com 44 anos. Cinco das acusadas estão unidas, negando a acusação, e afirmando que a responsável é Hanna. Interrogada, Hanna responde com simplicidade e uma sinceridade quase irrespondível… Ela não nega que indicava, regularmente, dez prisioneiras para morrer…

Por que fazia isso? Ora, o campo de concentração tinha lotação limitada e constantemente novas prisioneiras chegavam… A solução encontrada era enviar um certo número das prisioneiras mais antigas para a morte para que houvesse lugar para as novas… “O que o senhor faria, em meu lugar?”, pergunta Hanna ao juiz… Nos testemunhos ficou evidente que Hanna protegia algumas prisioneiras, as mais fracas e doentes, em troca de um favor: que elas lessem para ela… Quanto à capela, Hanna, arguida pelo juiz sobre por que não abriu a porta da capela quando o incêndio começou, redarguiu com lógica impecável: “Como eu poderia solta-las, se o meu emprego era mantê-las presas???” Apenas uma mulher se salvou (não se explica como) – e a filha dessa mulher (de nome, no filme, Ilana Mather) subsequentemente escreveu um livro sobre o episódio. Mãe e filha depõem no julgamento. (A mãe, no julgamento, e a filha, depois, são representadas pela grande Lena Olin, infelizmente em dois papéis pequenos).

Ao final, as demais acusadas afirmam que um relatório altamente incriminador havia sido redigido por Hanna apenas. O juiz quer confrontar a letra do relatório com a letra de Hanna Spitz, e ordena que ela escreva algo em um bloco de papel… Tensão na acusada, que finalmente se recusa a escrever e admite ter sido ela a autora do relatório.

Nesse ponto, Michael, na audiência, tem certeza de que ela é analfabeta! Um dia havia pedido que ela lesse um dos livros, e ela se recusou, dizendo que preferia ouvir a leitura dele… Ele se lembra de que, um dia, quando fez uma excursão de bicicleta pelo campo com ela, e pararam para comer algo, ela olhou o menu e o colocou de lado, dizendo a ele que iria comer a mesma coisa que ele escolhesse… Pelo testemunho ouvido no julgamento, Hanna, no seu serviço como guarda, protegia prisioneiras que liam para ela…

Conclusão: agora, para não sofrer o vexame de se ver revelada analfabeta, Hanna prefere mentir e admitir que foi ela a autora do relatório…

Dilema para Michael, que tem informação que pode, em princípio, inocentar Hanna. Ele conversa com seu professor – que não o ajuda muito. Tenta racionalizar, para si próprio, a decisão de ficar quieto, alegando que ela mesma havia optado por não revelar a verdade – por que iria ele, agora, agir diferentemente? Ela havia tomado uma decisão para não passar pelo vexame de se revelar analfabeta – que direito tinha ele de fazê-la passar por esse vexame, ainda que fosse para salvá-la de uma sentença mais dura?

O final é previsível. As outras cinco acusadas são condenadas, mas recebem penas leves. Hanna é condenada à prisão perpétua.

O tempo entre o cenário de 1958 e o cenário de 1966 não é preenchido no filme. Mas o tempo entre o cenário de 1966 e o de 1995 é preenchido como pequenos “flashes”. Michael, depois de casado e separado, redescobre o caderninho em que ele anotava os livros que tinha de ler na escola, e resolve começar a gravar em cassete os livros que um dia havia lido para ela, enviando as fitas para ela na prisão: dezenas e dezenas de fitas. Ela, na prisão, começa a retirar da biblioteca os livros que ele gravou, e, pouco a pouco, vai aprendendo a ler, comparando o que está escrito no livro com aquilo que ela ouve na fita… Manda pequenos bilhetes para ele, pedindo que grave este ou aquele livro…

Um dia, por volta de 1986, a responsável pelo presídio entra em contato com Michael, para dizer-lhe que Hanna vai ser libertada por ter cumprido vinte anos da pena – e que ele é o único contato que ela tem fora do presídio. Outro dilema, embora agora menor. Ele arruma um emprego e um apartamento, ambos simples, para ela, e comunica a ela o fato em um único contato face-a-face – em que ela tenta segurar a mão dele e ele, visivelmente embaraçado, a remove, depois de poucos segundos.

No dia em que ela deveria ser libertada, ele vai buscá-la – mas ela havia se suicidado no dia anterior. Aparentemente usou uma pilha de livros em cima da mesa para conseguir se enforcar. Não havia arrumado suas coisas para sair da cela, fato que indicava que não pretendia sair de lá viva…

Numa carta testamento, Hanna deixa para Ilana Mather, a filha da sobrevivente do incêndio na capela, uma latinha de chá com o dinheiro vivo que possuía, mais uma soma de cerca de sete mil marcos que tinha no banco, com instruções para que Michael entregasse o dinheiro à destinatária. Ele, durante uma viagem a New York, tenta entregar o dinheiro, mas Ilana se recusa a recebê-lo, ficando apenas com a latinha, que parecia uma que ela tinha tido durante o tempo em que ficara no campo de concentração, mas perdera. Ele pede sugestões sobre organizações filantrópicas judias às quais ele pudesse doar o dinheiro. Ela diz que organizações judias não precisariam desse dinheiro. Por fim ele sugere que o dinheiro seja doado a instituições voltadas para a alfabetização de adultos, e ela não vê por que não, mas deixa que ele decida e escolha…

O filme termina com Michael, já de volta em 1995, levando sua filha, da qual havia se afastado, depois do divórcio, para conhecer o túmulo de Hanna – local em que ele começa a lhe revelar a sua história.

o O o

Como disse, eu, depois de ver o filme, fiquei com a sensação frustrante de que esperava mais dele. Mas essa sensação vem, gradualmente, diminuindo, por razões que passo a expor.

O filme trata – dentro das limitações do “medium” (filme, cinema) – de alguns dilemas morais importantes.

O principal deles diz respeito às consequências de erros morais que cometemos, muitas vezes no que, no momento, parece ser o exercício do dever, e o sentimento de culpa, de revolta, de necessidade de fazer justiça que esses erros suscitam nas pessoas (tanto nas vítimas como, por vezes, nos perpetradores dos erros e, também, nos bystanders) bem como na sociedade em que aconteceram.

O filme levanta uma outra questão interessante. Tenho eu o direito, ou mesmo o dever, de revelar algo sobre uma outra pessoa, que pode reduzir sua pena ou até mesmo salvar sua vida, quando essa pessoa se recusa a fazê-lo ela mesma, por considerar o objeto da revelação vexatório? Tenho eu o direito ou o dever de agir no que presumo ser o melhor interesse da pessoa, quando ela própria acha que seu melhor interesse é preservar o segredo e a privacidade de uma condição que considera vergonhosa?

Outra questão importante: crimes, como os descritos, podem vir a ser expiados ou perdoados e produzir redenção ou reconciliação? Ou é tarefa das vítimas, e seus herdeiros, garantir que até o último culpado receba sua justa punição?

Ainda mais uma questão interessante. Numa aula, o professor de direito de Michael, um sobrevivente do Holocausto, afirma que “as sociedades gostam de imaginar que operam com base em princípios morais, mas isso não é verdade: elas operam com base na lei”… Agora, se a lei prescreve comportamentos que são considerados imorais, o que faz a pessoa simples, que quer apenas desempenhar bem o seu trabalho, que não é intelectual, que não filósofa??? Hanna Schmitz, mesmo em seu julgamento, em 1966, ainda está perfeitamente convencida de que seu trabalho era guardar as prisioneiras, evitar que fugissem… – como poderia ela abrir a porta da capela para deixa-las escapar do fogo, sim, mas também da custódia em que se encontravam??? Ela participou dos crimes nazistas porque “that was my job”, e ela acreditava ser seu dever fazer o seu trabalho bem feito, porque seus chefes estavam no poder legalmente, tinham a autoridade de lhe dizer o que deveria fazer e tinham o direito de esperar que ela fizesse o que lhe era ordenado…

A lei, a despeito da necessidade de interpretação, e do relativo subjetivismo do processo hermenêutico, tem por base um texto, que é algo razoavelmente objetivo. Mas a moralidade, ancora-se em quê? Se vamos julgar a lei por critérios morais, que moralidade vamos usar? Vamos usar a moralidade católica para impedir que o divórcio, ou o aborto, se tornem legais? Vamos usar a moralidade protestante puritana para impedir que a lei faculte que as pessoas andem seminuas nas praias, que as mulheres façam topless onde quiserem, que os assim chamados naturistas pratiquem o seu nudismo em praias reservadas para essa prática (praticando ali  tanto o topless como o bottomless)? Vamos usar essa mesma moralidade para proibir, com a força da lei, a edição e circulação de revistas que exibem pessoas nuas, filmes de sexo explícito, livros considerados pornográficos? Por outro lado, parece que, ao separarmos a lei da moralidade, e afirmarmos que, no mundo sócio-político, vale a lei, não a moralidade, nos curvamos ao cinismo daqueles que afirmam, ao ser flagrados em falcatruas de todo tipo, que seu comportamento ficou dentro dos limites da lei. E não é só de falcatruas financeiras que se trata: afinal de contas, Hanna Schmitz agiu dentro dos ditames da lei – e, por causa disso, trezentas mulheres inocentes morreram.

Hanna, apesar de ser descrita por suas vítimas, ou por aqueles que as representam, como um monstro, não é uma pessoa má… Ela é uma pessoa simples, que acha que tem de cumprir com o seu dever e fazer, da melhor forma possível, o que os seus chefes lhe ordenam e esperam dela… Quanta gente não pensa do mesmo jeito, e só não comete crimes, pequenos ou horrendos, porque seu chefe nunca lhe pediu que fizesse algo moralmente errado?

Enfim: a pessoa comum tem a obrigação de entender as questões mais intricadas da ética filosófica e da filosofia política? É razoável esperar isso, quando mesmo filósofos profissionais discordam frontalmente em relação a essas questões? 

O que fazer daqueles que, dentro de igrejas e partidos políticos, aceitam uma ética de segunda mão, sobre a qual nunca refletem? Os católicos que se opõem ao aborto, ou ao controle da natalidade, ou ao divórcio, porque é isso que a Igreja Católica Romana ensina que é certo, e eles não têm ou a vontade ou a capacidade de destrinchar essas questões morais complicadas, essas pessoas não estão, porventura, sem perceber, correndo o risco de agir erroneamente, ou até mesmo de cometer crimes contra determinadas pessoas, porque agem segundo uma moralidade recebida por autoridade, sobre a qual não refletem, ou porque não querem, ou porque não podem, ou porque não acham que é preciso?

A questão do analfabetismo de uma pessoa adulta, mesmo numa sociedade desenvolvida como a Alemanha da época da Segunda Guerra, embora central para a trama, parece ocupar um lugar claramente secundário diante dessas outras grandes questões.

Kate Winslet representa na tela uma personagem que muitas pessoas considerariam um monstro. Mas ela consegue fazer com que o mostro, sem deixar de ser monstro, tenha cara humana, sofra, goste de ouvir a melhor literatura, ria, faça amor, traga prazer e confiança para um menino (que ela chamava de “kid”)… Um grande feito. Poucas atrizes conseguiriam fazer isso. Sem dúvida o melhor papel de Kate Winslet até hoje. Com seus 33 anos, ela promete muito mais. Consegue ser convincente até quando, com a ajuda da maquiagem, evidentemente, representa uma mulher de quase sessenta e cinco anos.

Quando, em seu último encontro, Michael pergunta a Hanna se ela tem pensado muito sobre o passado, ela lhe pergunta: sobre o nosso passado? Ele diz que não: sobre o passado em geral. Ela lhe responde: “Não importa o que eu penso. Não importa o que eu sinto. Os mortos continuam mortos”.

Isso é verdade: os mortos continuam mortos. Mas o resto não é verdade: o que pensamos e o que sentimos importam. E vendo filmes como esse, somos forçados a pensar e a sentir. E se pensarmos e sentirmos, provavelmente corremos menor risco de cometer erros morais e mesmo crimes por estarmos vivendo e agindo em piloto automático.

Em São Paulo, 25 de Fevereiro de 2009; revisado em Salto, 20 de Maio de 2017.

O multiculturalismo do Oscar

Por incrível que pareça estou encontrando uma série de matérias que sou capaz de endossar na Folha Ilustrada de hoje (24/2/2009)… Aqui está uma terceira, de Sérgio Rizzo.

Não é meu feitio transcrever tanta matéria assim num dia só, mas esta também vale a pena. Assim vou pautando minhas próprias matérias para o futuro…

A notinha sobre High School Musical no finalzinho é pertinente. Que os brasileiros, que tanto tentam ganhar um Oscarzinho, atentem a ela.

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Folha de S. Paulo
24 de Fevereiro de 2009

Análise
Lógica comercial está por trás de Oscar multicultural

Afagos a outros países, que duram minutos na festa, têm alto valor de mercado

SÉRGIO RIZZO
CRÍTICO DA FOLHA

Multiculturalismo, para a Academia, é distribuir prêmios para profissionais de diferentes etnias, saudar a possibilidade de rodar filmes de apelo comercial em lugares ermos e com orçamentos menores do que a média, e reconhecer que pode haver vida inteligente no cinema fora de Hollywood.

De acordo com essa ideia prosaica que empresta ao termo um significado oportunista, o Oscar viveu no domingo outra noite multicultural, na linha da que consagrou, em 1988, "O Último Imperador", de Bernardo Bertolucci, com nove Oscar -quase nas mesmas categorias em que triunfou "Quem Quer Ser um Milionário?".

Esse aceno generoso a outras culturas tem um sentido de inclusão, como os novos tempos nos EUA sugerem, mas segundo a lógica comercial. Um afago a um país (ou a uma comunidade irmanada pelo mesmo idioma) na noite de premiação dura poucos minutos e, simbolicamente, realimenta simpatias de valor de mercado incalculável.

Um Oscar para Penélope Cruz, por exemplo, pautará por muito tempo toda a mídia da Espanha e associará para sempre o prêmio ao nome da atriz. Seu discurso de agradecimento em espanhol, no entanto, alcança todos os países hispânicos, despertando o sentimento de que "um de nós chegou lá".

Vários de "nós" chegaram lá na cerimônia de domingo, a começar pelos australianos (o apresentador Hugh Jackman, a família de Heath Ledger), pelos indianos de "Quem Quer Ser Um Milionário?" e pelos japoneses que, vencedores nas categorias de filme estrangeiro e de curta-metragem, alegremente disseram "zankiu". Sem falar em italianos (Sophia Loren ao vivo, mais imagens de Roberto Benigni) e até poloneses (com o diretor de fotografia Janusz Kaminski pagando mico em um quadro). A transmissão da própria cerimônia é fonte de receita e, com a audiência global em queda, a escolha de apresentadores se tornou ainda mais estratégica.

Não por acaso, também deram as caras ídolos do público jovem, como os atores de "High School Musical" e de "Crepúsculo". Se a Academia quis simbolicamente dizer a alguém que aquele enorme brinquedo um dia será seu, foi para essa nova geração de astros nada multiculturais, e não para os alegres indianos de "Quem Quer Ser um Milionário?".

Escrito e transcrito em São Paulo, 24 de Fevereiro de 2009

Kate Winslet

Depois de escrever o post anterior, achei esta preciosidade sobre Kate Winslet na Folha de hoje, 24/2/2009. Genial. A menina de 33 anos cresceu no meu conceito… (Ela nasceu em 5 de Outubro de 1975, em Reading, na Inglaterra).

A tirada sobre Susan Sarandon é impagável… Valeria o preço de muitas entradas ver Susan Sarandon, a musa da esquerda cor-de-rosa americana, fazendo as cenas de nudez que Mme. Winslet faz em O Leitor… 

No site IMBD (http://www.imdb.com/name/nm0000701/bio – vide "Personal Quotes") há referência ao fato de que Kate Winslet teria dito, depois de sua quinta indicação para o Oscar, sem ganhá-lo, que, para ganhar, seria necessário fazer um filme sobre o Holocausto… Well: fez e levou. Realismo e determinação. Admirável. Visão, Motivação, Competência (vide meu site http://vmc.vc).

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Folha de S. Paulo
24 de Fevereirod e 2009

Winslet foge do padrão de Hollywood

DO ENVIADO A LOS ANGELES

Quando fez uma participação no hilariante seriado "Extras", interpretando ela mesmo, Kate Winslet dizia ironicamente que "se você faz um filme sobre o Holocausto, seu Oscar é garantido". Ela fez um filme sobre o Holocausto -como uma segurança da SS- e levou a estatueta, após cinco derrotas.

Anteontem, à imprensa, avisou ao jornal de sua cidade-natal que outra Winslet estamparia a primeira página: é que em dezembro sua mãe ganhou o concurso local de confecção de picles de cebola. Irônica, franca e sem travas: assim é a detentora do prêmio de melhor atriz.

É uma saudável exceção no mundo pasteurizado de Hollywood. Indagada sobre a crítica da imprensa britânica ao excesso de emoção demonstrado por ela em premiações anteriores, disse: "É triste que meu país não consiga ter prazer no sucesso de uma das suas". Sobre declaração de que não faria mais cenas de nudez e instada por um jornalista a passar "o bastão das cenas tórridas", escolheu "Susan Sarandon". (SD)

Escrito e transcrito em São Paulo, 24 de Fevereiro de 2009

Ainda o Oscar 2009

Transcrevo abaixo uma matéria de João Pereira Coutinho, publicada na folha de hoje, 24/2/2009. Dos filmes que concorreram na categoria de melhor filme, só vi O Curioso Caso de Benjamin Button e Quem Quer Ser um Milionário. Em relação a eles, concordo, em grande parte, com a análise do autor.

Devo acrescentar que, na minha opinião, Benjamin Button mereceu ganhar alguns Oscars técnicos e o tema da história, como ressalta Coutinho, lida com uma questão que fascina o ser humano. Mas a execução do filme, o desenrolar da história, deixa muito a desejar. Falta enredo, falta trama — o filme se arrasta. Talvez seja um pouco exagerado chamá-lo de não-filme, mas tiro o chapéu para esta frase de Coutinho: "Benjamin não é apenas desprovido de propósito; todo o filme, em sua autocomplacência visual, parece acompanhar o vazio da personagem. Não se trata de um mau filme. Trata-se de um não-filme."

Quanto a Quem Quer Ser um Milionário? vi-o aqui em casa, ontem à tardinha/noitinha, na tela do computador, em formato .avi. Coutinho mais uma vez chega perto da perfeição ao dizer que o filme escolhido como o melhor é (dentre os cinco indicados) "provavelmente o pior de todos: uma história ridiculamente sentimental sobre um indiano das favelas que, em gesto de amor, vai a concurso televisivo para ganhar fortuna redentora". Vai além: Afirma que a "histeria visual de Danny Boyle", o diretor, "é indistinguível de um videoclipe".

Não vi os outros três filmes ainda.

Creio que nem vá ver Milk. Suspeitava que o filme "não consegu[isse] se distanciar do panfleto gay e de seus clichês ideológicos", como afirma Coutinho. E decididamente não gosto de Sean Penn como ator. Não o conheço como pessoa, mas suspeito que não gostaria dele em pessoa também. A adoração que a esquerda cor-de-rosa lhe devota o torna ainda mais indeglutível. E o cor-de-rosa aqui nada tem que ver com os gays: tem que ver com o espectro político. "Esquerda cor-de-rosa", para mim, é a esquerda tipo Martha Suplicy, feita de intelectuais e ricos com dor de consciência…

Provavelmente vá ver O Leitor. A história é interessante e Kate Winslet está linda… Perdeu aquele ar de menina gordinha que tinha em Titanic. Isso compensa outras falhas.

A propósito, Cate Blanchett também está linda em Benjamin. Ela redime algumas falhas do filme (que oculta a melhor coisa que Brad Pitt tem como ator: um visual incomparável)…

Duas mulheres lindas com nome que soa do mesmo jeito — mas é grafado de forma diferente, com K e com C. Kate e Cate.

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Folha de S. Paulo
24 de Fevereiro de 2009

JOÃO PEREIRA COUTINHO

Hollywood: uma autópsia

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Os indicados ao Oscar são prova da estagnação que Hollywood vem denunciando há anos

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OSCAR: VOCÊS conhecem o jogo. Um filme vence, quatro filmes perdem. Aconteceu neste ano: "Quem Quer Ser um Milionário?" levou a estatueta dourada. Mas houve uma derrota suplementar: a derrota do cinema como arte revolucionária e vital, e não falo apenas do filme de Danny Boyle.

Segundo dizem, os cinco indicados ao Oscar de melhor filme representam a excelência que a indústria produziu em 2008. Eu assisti aos cinco, em cinco dias seguidos, para escrever texto crítico a respeito. Puro desperdício. Se o melhor do cinema anglo-americano está em "O Curioso Caso de Benjamin Button", "Milk – A Voz da Igualdade", "Frost/ Nixon", "Quem Quer Ser um Milionário?" e "O Leitor", por favor, preparem a tumba.

Exagero? Antes fosse. Primeiro que tudo, digo em minha defesa: nunca embarquei no desprezo tipicamente terceiro-mundista de olhar para Hollywood com escárnio. Longe disso: o cinema nasceu na Europa mas foi nos Estados Unidos que ele se ergueu como arte distinta, muitas vezes servida por diretores europeus.

E quando me falam nas "teorias de autor", que alegadamente se opõem ao reles comercialismo americano, lembro sempre que o conceito de "autor" é indissociável de Hollywood: de nomes como John Ford ou Howard Hawks, que os intelectuais de Paris teorizaram e, ironia das ironias, importaram de volta para os Estados Unidos.

Scorsese não existiria sem a influência da nouvelle vague. Mas a nouvelle vague não existiria sem o patrimônio fílmico que Hollywood produziu na primeira metade do século 20 e que se ofereceu à geração dos "Cahiers du Cinéma" como laboratório de estudo e subversão.

Tudo isso me parece agora distante e até deslocado. Os cinco filmes indicados ao Oscar são prova do cansaço e da estagnação que Hollywood vem denunciando há vários anos.

Claro que nem todos os filmes são comparáveis. "Quem Quer Ser um Milionário?", apesar da vitória, é provavelmente o pior de todos: uma história ridiculamente sentimental sobre um indiano das favelas que, em gesto de amor, vai a concurso televisivo para ganhar fortuna redentora. O problema não está na natureza fantasiosa da história: se assim fosse, seria preciso desqualificar uma parte importante do patrimônio cinematográfico, de Georges Méliès a Tim Burton. O problema está na histeria visual de Danny Boyle, que constrói uma narrativa sem uma única ideia de cinema a servi-la. O caso não é novo: "Trainspotting – Sem Limites" já anunciava ao mundo que, para Danny Boyle, o cinema é indistinguível de um videoclipe.

Exatamente o contrário do que sucede com "O Curioso Caso de Benjamin Button".

O filme, inspirado vagamente em conto prodigioso de Scott Fitzgerald, pretende oferecer-se como meditação sobre a irreversibilidade do tempo. Mas o que existia de excesso em Danny Boyle é agora ruminação sem sentido em Fincher: o seu Benjamin não é apenas desprovido de propósito; todo o filme, em sua autocomplacência visual, parece acompanhar o vazio da personagem. Não se trata de um mau filme. Trata-se de um não-filme.

Mas a verdadeira desgraça de Hollywood talvez não esteja em "Quem Quer Ser um Milionário?" ou "O Curioso Caso de Benjamin Button": obras falhadas fazem parte de qualquer atividade artística, certo? A desgraça maior talvez esteja em "Milk – A Voz da Igualdade", "Frost/ Nixon" e "O Leitor", três filmes medianos, e medianos por seu academismo vulgar.

"Milk" começa por surpreender exatamente por isso: Gus van Sant tem obras estimáveis no início da carreira, como "Drugstore Cowboy". Em "Milk", biopic sobre o primeiro político assumidamente homossexual a ser eleito para cargo público, Gus van Sant não consegue se distanciar do panfleto gay e de seus clichês ideológicos. Essa preguiça programática é ainda amplificada pelo convencionalismo formal que Gus van Sant imprime a "Milk".

Restam "Frost/Nixon" e "O Leitor", que talvez se salvassem do dilúvio se Ron Howard ou Stephen Daldry fossem, no verdadeiro sentido da palavra, "autores". Não são.

"Frost/Nixon" denuncia as suas origens teatrais, e denuncia da pior forma possível: ao tornar desnecessariamente caricatural o que apenas os palcos eram capazes de suportar. A composição de Frank Langella como Nixon prova-o de forma clara e, para mim, dolorosa.

"O Leitor" apenas prolonga a trivialidade de "Frost/Nixon": o poderoso livro de Bernhard Schlink sobre a relação amorosa entre uma antiga guarda nazista e um jovem estudante na Alemanha do pós-guerra não passa de uma composição desinspirada e televisiva. Disse "televisiva"? Corrijo. O Oscar deste ano confirma, pelo contrário, que a moderna ficção televisiva substituiu há muito, em inventividade e desafio, o papel visual e narrativo que o cinema teve durante um século.

Escrito e transcrito em São Paulo, 24 de Fevereiro de 2009

O Oscar 2009

Como faço todo ano, segue, abaixo, a lista dos vinte e quatro indicados para o Oscar de hoje à noite, com as categorias e os nomes dos filmes em Português e em Inglês. Os vencedores estão indicados por um asterisco.

Ando tão desligado da televisão ultimamente que só agora há pouco, durante o Fantástico (curto por causa do Carnaval), fiquei sabendo que a entrega do Oscar era hoje…

Felizmente a entrega do prêmio é no Domingo de Carnaval. Assim dá para dormir mais amanhã cedo (que é um daqueles feriados que não são feriados)…

É esta a lista completa dos indicados, em Português:

1. Melhor filme

O Curioso Caso de Benjamin Button
Frost/Nixon
Milk
O Leitor
* Quem Quer Ser um Milionário? (Slumdog Millionaire )

2. Melhor diretor

* Danny Boyle (Quem Quer Ser um Milionário? – Slumdog Millionaire)
Stephen Daldry (O Leitor)
David Fincher (O Curioso Caso de Benjamin Button)
Ron Howard (Frost/Nixon)
Gus Van Sant (Milk)

3. Melhor ator

Richard Jenkis (The Visitor)
Frank Langella (Frost/Nixon)
* Sean Penn (Milk)
Brad Pitt (O Curioso Caso de Benjamin Button)
Mickey Rourke (The Wrestler)

4. Melhor atriz

Anne Hathaway (O Casamento de Rachel)
Angelina Jolie (A Troca)
Melissa Leo (Frozen River)
Meryl Streep (Dúvida)
* Kate Winslet (O Leitor)

5. Melhor ator coadjuvante

Robert Downey Jr. (Trovão Tropical)
Philip Seymour Hoffman (Dúvida)
* Heath Ledger (Batman – O Cavaleiro das Trevas)
Josh Brolin (Milk)
Michael Shannon (Foi Apenas um Sonho)

6. Melhor atriz coadjuvante

Amy Adams (Dúvida)
* Penelope Cruz (Vicky Cristina Barcelona)
Viola Davis (Dúvida)
Taraji P. Henson (O Curioso Caso de Benjamin Button)
Marisa Tomei (The Wrestler)

7. Melhor roteiro original

Frozen River
Simplesmente Feliz
Na Mira do Chefe
* Milk
Wall-E

8. Melhor roteiro adaptado

O Curioso Caso de Benjamin Button
Dúvida
Frost/Nixon
O Leitor
* Quem Quer Ser um Milionário? (Slumdog Millionaire )

9. Melhor trilha sonora original

Alexandre Desplat (O Curioso Caso de Benjamin Button)
James Newton Howard (Defiance)
* A. R. Rahman (Quem Quer Ser um Milionário? (Slumdog Millionaire)
Danny Elfman (Milk)
Thomas Newman (Wall-E)

10. Melhor canção original

Down to Earth (Wall-E)
* Jai Ho (Quem Quer Ser um Milionário? – Slumdog Millionaire)
O Saya (Quem Quer Ser um Milionário? – Slumdog Millionaire)

11. Melhor filme estrangeiro

Der Baader Meinhof Komplex, de Uli Edel (Alemanha)
Waltz With Bashir, de Ari Folman (Israel)
The Class, Laurent Cantet (França)
* Departures, Yojiro Takita (Japão)
Revanche, de Gotz Spielmann (Áustria)

12. Melhor animação

Bolt – Supercão
Kung Fu Panda
* Wall-E

13. Melhor curta de animação

* La Maison en Petits Cubes, de Kunio Kato
Lavatory – Lovestory, de Konstantin Bronzit
Oktapodi, de Emud Mokhberi e Thierry Marchand
Presto, de Doug Sweetland
This Way Up, de Alan Smith e Adam Foulkes

14. Melhor documentário

The Betrayal (Nerakhoon), de Ellen Kuras e Thavisouk Phrasavath
Encounters at the End of the World, de Werner Herzog e Henry Kaiser
The Garden, de Scott Hamilton Kennedy
* Man on Wire, de James Marsh e Simon Chinn
Trouble the Water de Tia Lessin e Carl Deal

15. Melhor documentário em curta-metragem

The Conscience of Nhem En
The Final Inch
* Smile Pinki
The Witness – From the Balcony of Room 306

16. Melhor curta-metragem

Auf der Strecke (On the Line)
Manon on the Asphalt
New Boy
The Pig
* Spielzeugland (Toyland)

17. Melhor direção de arte

A Troca
* O Curioso Caso de Benjamin Button
Batman – O Cavaleiro das Trevas
A Duquesa
Foi Apenas um Sonho

18. Melhor fotografia

A Troca (Tom Stern)
O Curioso Caso de Benjamin Button (Claudio Miranda)
Batman – O Cavaleiro das Trevas (Wally Pfister)
O Leitor (Chris Menges and Roger Deakins)
* Quem Quer Ser um Milionário? (Slumdog Millionaire) (Anthony Dod Mantle)

19. Melhor edição

O Curioso Caso de Benjamin Button (Kirk Baxter e Angus Wall)
Batman – O Cavaleiro das Trevas (Lee Smith)
Frost/Nixon (Mike Hill and e Hanley)
Milk (Elliot Graham)
* Quem Quer Ser um Milionário? (Slumdog Millionaire) (Chris Dickens)

20. Melhor mixagem de som

O Curioso Caso de Benjamin Button (David Parker, Michael Semanick, Ren Klyce e Mark Weingarten)
Batman – O Cavaleiro das Trevas (Lora Hirschberg, Gary Rizzo e Ed Novick)
* Quem Quer Ser um Milionário? (Slumdog Millionaire) (Ian Tapp, Richard Pryke e Resul Pookutty)
Wall-E (Tom Myers, Michael Semanick e Ben Burtt)
O Procurado (Chris Jenkins, Frank A. Montaño e Petr Forejt)

21. Melhor edição de som

* Batman – O Cavaleiro das Trevas (Richard King)
Homem de Ferro (Frank Eulner e Christopher Boyes)
Quem Quer Ser um Milionário? (Slumdog Millionaire) (Tom Sayers)
Wall-E (Ben Burtt e Matthew Wood)
O Procurado (Wylie Stateman)

22. Melhores efeitos especiais

* O Curioso Caso de Benjamin Button (Eric Barba, Steve Preeg, Burt Dalton e Craig Barron)
Batman – O Cavaleiro das Trevas (Nick Davis, Chris Corbould, Tim Webber e Paul Franklin)
Homem de Ferro (John Nelson, Ben Snow, Dan Sudick e Shane Mahan)

23. Melhor maquiagem

* O Curioso Caso de Benjamin Button (Greg Cannom)
Batman – O Cavaleiro das Trevas (John Caglione, Jr. e Conor O’Sullivan)
Hellboy II (Mike Elizalde e Thom Floutz)

24. Melhor figurino

Austrália (Catherine Martin)
O Curioso Caso de Benjamin Button (Jacqueline West)
* A Duquesa (Michael O’Connor)
Milk (Danny Glicker)
Foi Apenas um Sonho (Albert Wolsky)


Indicados em Inglês:

1. Best motion picture of the year

“The Cu
rious Case of Benjamin Button” (Paramount and Warner Bros.), A Kennedy/Marshall Production, Kathleen Kennedy, Frank Marshall and Ceán Chaffin, Producers
“Frost/Nixon” (Universal), A Universal Pictures, Imagine Entertainment and Working Title Production, Brian Grazer, Ron Howard and Eric Fellner, Producers
“Milk” (Focus Features), A Groundswell and Jinks/Cohen Company Production, Dan Jinks and Bruce Cohen, Producers
“The Reader” (The Weinstein Company), A Mirage Enterprises and Neunte Babelsberg Film GmbH Production, Anthony Minghella, Sydney Pollack, Donna Gigliotti and Redmond Morris, Producers
“Slumdog Millionaire” (Fox Searchlight), A Celador Films Production, Christian Colson, Producer

2. Achievement in directing

“The Curious Case of Benjamin Button” (Paramount and Warner Bros.), David Fincher
“Frost/Nixon” (Universal), Ron Howard
“Milk” (Focus Features), Gus Van Sant
“The Reader” (The Weinstein Company), Stephen Daldry
“Slumdog Millionaire” (Fox Searchlight), Danny Boyle

3. Performance by an actor in a leading role

Richard Jenkins in “The Visitor” (Overture Films)
Frank Langella in “Frost/Nixon” (Universal)
Sean Penn in “Milk” (Focus Features)
Brad Pitt in “The Curious Case of Benjamin Button” (Paramount and Warner Bros.)
Mickey Rourke in “The Wrestler” (Fox Searchlight)

4. Performance by an actress in a leading role

Anne Hathaway in “Rachel Getting Married” (Sony Pictures Classics)
Angelina Jolie in “Changeling” (Universal)
Melissa Leo in “Frozen River” (Sony Pictures Classics)
Meryl Streep in “Doubt” (Miramax)
Kate Winslet in “The Reader” (The Weinstein Company)

5. Performance by an actor in a supporting role

Josh Brolin in “Milk” (Focus Features)
Robert Downey Jr. in “Tropic Thunder” (DreamWorks, Distributed by DreamWorks/Paramount)
Philip Seymour Hoffman in “Doubt” (Miramax)
Heath Ledger in “The Dark Knight” (Warner Bros.)
Michael Shannon in “Revolutionary Road” (DreamWorks, Distributed by Paramount Vantage)

6. Performance by an actress in a supporting role

Amy Adams in “Doubt” (Miramax)
Penélope Cruz in “Vicky Cristina Barcelona” (The Weinstein Company)
Viola Davis in “Doubt” (Miramax)
Taraji P. Henson in “The Curious Case of Benjamin Button” (Paramount and Warner Bros.)
Marisa Tomei in “The Wrestler” (Fox Searchlight)

7. Original screenplay

“Frozen River” (Sony Pictures Classics), Written by Courtney Hunt
“Happy-Go-Lucky” (Miramax), Written by Mike Leigh
“In Bruges” (Focus Features), Written by Martin McDonagh
“Milk” (Focus Features), Written by Dustin Lance Black
"WALL-E” (Walt Disney), Screenplay by Andrew Stanton, Jim Reardon, Original story by Andrew Stanton, Pete Docter

8. Adapted screenplay

“The Curious Case of Benjamin Button” (Paramount and Warner Bros.), Screenplay by Eric Roth, Screen story by Eric Roth and Robin Swicord
“Doubt” (Miramax), Written by John Patrick Shanley
“Frost/Nixon” (Universal), Screenplay by Peter Morgan
“The Reader” (The Weinstein Company), Screenplay by David Hare
“Slumdog Millionaire” (Fox Searchlight), Screenplay by Simon Beaufoy

9. Achievement in music written for motion pictures (Original score)

“The Curious Case of Benjamin Button” (Paramount and Warner Bros.), Alexandre Desplat
“Defiance” (Paramount Vantage), James Newton Howard
“Milk” (Focus Features), Danny Elfman
“Slumdog Millionaire” (Fox Searchlight), A.R. Rahman
“WALL-E” (Walt Disney), Thomas Newman

10. Achievement in music written for motion pictures (Original song)

“Down to Earth” from “WALL-E” (Walt Disney), Music by Peter Gabriel and Thomas Newman, Lyric by Peter Gabriel
“Jai Ho” from “Slumdog Millionaire” (Fox Searchlight), Music by A.R. Rahman, Lyric by Gulzar
“O Saya” from “Slumdog Millionaire” (Fox Searchlight), Music and Lyric by A.R. Rahman and Maya Arulpragasam                  

11. Best foreign language film of the year

“The Baader Meinhof Complex” A Constantin Film Production, Germany
“The Class” (Sony Pictures Classics), A Haut et Court Production, France
“Departures” (Regent Releasing), A Departures Film Partners Production, Japan
“Revanche” (Janus Films), A Prisma Film/Fernseh Production, Austria
“Waltz with Bashir” (Sony Pictures Classics), A Bridgit Folman Film Gang Production, Israel

12. Best animated feature film of the year

“Bolt” (Walt Disney), Chris Williams and Byron Howard
“Kung Fu Panda” (DreamWorks Animation, Distributed by Paramount), John Stevenson and Mark Osborne
“WALL-E” (Walt Disney), Andrew Stanton

13. Best animated short film

“La Maison en Petits Cubes” A Robot Communications Production, Kunio Kato
“Lavatory – Lovestory” A Melnitsa Animation Studio and CTB Film Company Production, Konstantin Bronzit
“Oktapodi” (Talantis Films), A Gobelins, L’école de l’image Production, Emud Mokhberi and Thierry Marchand
“Presto” (Walt Disney), A Pixar Animation Studios Production, Doug Sweetland
“This Way Up” A Nexus Production, Alan Smith and Adam Foulkes

14. Best documentary feature

“The Betrayal (Nerakhoon)” (Cinema Guild), A Pandinlao Films Production, Ellen Kuras and Thavisouk Phrasavath
“Encounters at the End of the World” (THINKFilm and Image Entertainment), A Creative Differences Production, Werner Herzog and Henry Kaiser
“The Garden” A Black Valley Films Production, Scott Hamilton Kennedy
“Man on Wire” (Magnolia Pictures), A Wall to Wall in association with Red Box Films Production, James Marsh and Simon Chinn
“Trouble the Water” (Zeitgeist Films), An Elsewhere Films Production, Tia Lessin and Carl Deal

15. Best documentary short subject

“The Conscience of Nhem En” A Farallon Films Production, Steven Okazaki
“The Final Inch” Vermilion Films in association with Google.org, Irene Taylor Brodsky and Tom Grant
“Smile Pinki” A Principe Production, Megan Mylan
“The Witness – From the Balcony of Room 306” A Rock Paper Scissors Production, Adam Pertofsky and Margaret Hyde

16. Best live action short film

“Auf der Strecke (On the Line)” (Hamburg Shortfilmagency), An Academy of Media Arts Cologne Production, Reto Caffi
“Manon on the Asphalt” (La Luna Productions), A La Luna Production, Elizabeth Marre and Olivier Pont
“New Boy” (Network Ireland Television), A Zanzibar Films Production, Steph Green and Tamara Anghie
“The Pig” An M & M Production, Tivi Magnusson and Dorte Høgh
“Spielzeugland (Toyland)” A Mephisto
Film Production, Jochen Alexander Freydank

17. Achievement in art direction

“Changeling” (Universal), Art Direction: James J. Murakami, Set Decoration: Gary Fettis
“The Curious Case of Benjamin Button” (Paramount and Warner Bros.), Art Direction: Donald Graham Burt, Set Decoration: Victor J. Zolfo
“The Dark Knight” (Warner Bros.), Art Direction: Nathan Crowley, Set Decoration: Peter Lando
“The Duchess” (Paramount Vantage, Pathé and BBC Films), Art Direction: Michael Carlin, Set Decoration: Rebecca Alleway
“Revolutionary Road” (DreamWorks, Distributed by Paramount Vantage), Art Direction: Kristi Zea, Set Decoration: Debra Schutt

18. Achievement in cinematography

“Changeling” (Universal), Tom Stern
“The Curious Case of Benjamin Button” (Paramount and Warner Bros.), Claudio Miranda
“The Dark Knight” (Warner Bros.), Wally Pfister
“The Reader” (The Weinstein Company), Chris Menges and Roger Deakins
“Slumdog Millionaire” (Fox Searchlight), Anthony Dod Mantle

19. Achievement in film editing

“The Curious Case of Benjamin Button” (Paramount and Warner Bros.), Kirk Baxter and Angus Wall
“The Dark Knight” (Warner Bros.), Lee Smith
“Frost/Nixon” (Universal), Mike Hill and Dan Hanley
“Milk” (Focus Features), Elliot Graham
“Slumdog Millionaire” (Fox Searchlight), Chris Dickens

20. Achievement in sound mixing

“The Curious Case of Benjamin Button” (Paramount and Warner Bros.), David Parker, Michael Semanick, Ren Klyce and Mark Weingarten
“The Dark Knight” (Warner Bros.), Lora Hirschberg, Gary Rizzo and Ed Novick
“Slumdog Millionaire” (Fox Searchlight), Ian Tapp, Richard Pryke and Resul Pookutty
“WALL-E” (Walt Disney), Tom Myers, Michael Semanick and Ben Burtt
“Wanted” (Universal), Chris Jenkins, Frank A. Montaño and Petr Forejt

21. Achievement in sound editing

“The Dark Knight” (Warner Bros.), Richard King
“Iron Man” (Paramount and Marvel Entertainment), Frank Eulner and Christopher Boyes
“Slumdog Millionaire” (Fox Searchlight), Glenn Freemantle and Tom Sayers
“WALL-E” (Walt Disney), Ben Burtt and Matthew Wood
“Wanted” (Universal), Wylie Stateman

22. Achievement in visual effects

“The Curious Case of Benjamin Button” (Paramount and Warner Bros.), Eric Barba, Steve Preeg, Burt Dalton and Craig Barron
“The Dark Knight” (Warner Bros.), Nick Davis, Chris Corbould, Tim Webber and Paul Franklin
“Iron Man” (Paramount and Marvel Entertainment), John Nelson, Ben Snow, Dan Sudick and Shane Mahan

23. Achievement in makeup

“The Curious Case of Benjamin Button” (Paramount and Warner Bros.), Greg Cannom
“The Dark Knight” (Warner Bros.), John Caglione, Jr. and Conor O’Sullivan
“Hellboy II: The Golden Army” (Universal), Mike Elizalde and Thom Floutz

24. Achievement in costume design

“Australia” (20th Century Fox), Catherine Martin
“The Curious Case of Benjamin Button” (Paramount and Warner Bros.), Jacqueline West
“The Duchess” (Paramount Vantage, Pathé and BBC Films), Michael O’Connor
“Milk” (Focus Features), Danny Glicker
“Revolutionary Road”  (DreamWorks, Distributed by Paramount Vantage), Albert Wolsky

o O o

Como se pode ver, Quem Quer Ser um Milionário? (Slumdog Millionaire), indicado para dez Oscars, acabou ganhando a competição contra O Curioso Caso de Benjamin Button (The Curious Case of Benjamin Button), indicado para treze Oscars: ganhou mais Oscars e Oscars mais importantes (inclusive Melhor Filme e Melhor Diretor). Minha preferência, porém, era por Benjamin Button. Mas é bom ver a participação bem sucedida da Índia num filme de primeira linha.

Fiquei muito contente com dois Oscars. Primeiro, o de Penelope Cruz na categoria Melhor Atriz Coadjuvante. Ela está magnífica em Vicky Cristina Barcelona: ofuscou minha “ídola” Scarlett Johansson. Segundo, o de Kate Winslet, na categoria Melhor Atriz, pelo filme O Leitor (The Reader). Ela é sempre excelente.

Apesar de ter gostado do Oscar de Kate Winslet, eu também teria adorado se Meryl Streep tivesse ganho o Oscar de Melhor Atriz. Indicada pela décima quinta vez (um record), Meryl Streep merece qualquer Oscar que ainda vier para ela (apesar de já ter ganho dois).

Fiquei triste de Brad Pitt não ter ganho na categoria Melhor Ator, pelo filme O Curioso Caso de Benjamin Button (The Curious Case of Benjamin Button).

Por fim, uma palavra sobre a produção do show. Foi de longe o melhor Oscar, ever. Os múltiplos cenários estavam magníficos. Mas a melhor inovação foi o procedimento para indicar os melhores nas categorias de Melhor Atriz e Melhor Ator. Cinco ganhadores nessas categorias fizeram um breve resumo da biografia dos cinco indicados. Ficou excepcional. Por fim, a apresentação foi competente, profissional, séria e discreta: o australiano Hugh Jackman foi um apresentador de primeira, não um aprendiz de palhaço, como alguns apresentadores de outras vezes.

São Paulo, em 22 de Fevereiro de 2009